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domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Quando os jogos de tabuleiro eram rituais e manifestações religiosas: Senet e Jogo Real de Ur

Nos vestígios arqueológicos das civilizações da Suméria e do Egipto, naquelas que foram algumas das primeiras cidades do mundo, encontraram-se jogos de tabuleiro. 

Mas esses jogos não eram apenas diversão. Tanto na Mesopotâmia como no Egito os jogos assumiam um papel importantíssimo na vida social e religiosa, criando narrativas e dinâmicas de jogo que tinham leituras simbólicas, místicas e espirituais. Os jogos faziam parte dos rituais e doutrinas religiosas. No Egito descobriu-se o Senet e em Ur, na Mesopotâmia, o “Jogo Real de Ur”.  

Rainha Nefertari a jogar Senet
Pintura mural do túmulo de Nefertari, esposa de Ramses II
Fonte: https://www.sciencephoto.com/media/185929/view/queen-nefertari-playing-senet

O egiptólogo Peter Piccione propõe que o jogo Senet, que se traduz por “passar, servia de guia para a reflexão espiritual, enquadrada nas crenças de vidas após a morte da religião egípcia. Segundo esse investigador o jogo terá sido readaptado e interpretado pelos cultos religiosos como uma poderosa atividade narrativa. No jogo, que se baseava em movimentos de peças num tabuleiro, mas que desconhecemos as regras exatas, teria uma associação com a viagem que os mortos faziam, de como depois a sua vida era avaliada, e de como então poderiam atingir ou não a vida eterna se disso fossem dignos. Alguns dos jogos foram encontrados com motivos de decoração associados às etapas dos rituais funerários egípcios. Existem pinturas morais da rainha Nefertari a jogar este jogo, sozinha, provavelmente, simbolicamente contra a sua própria alma. Através desse jogo indicia-se que os jogadores poderiam analisar os seus próprios comportamentos, que os poderiam levar à condenação eterna ou à salvação. 

Jogo Real de Ur
Um dos 5 exemplares encontrados por Leonard Woolley em Ur. Hoje patente no British Museum
fonte: By BabelStone (Own work), CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10861909


Já sobre jogo real de Ur sabe-se hoje como o jogavam os antigos sumérios. Pois nos anos 80 do século XX Irving Finkel, ao procurar nos arquivos do British Museum, descobriu registos das regras. Tratava-se de um jogo de corrida em que os jogadores tinham de levar as peças de jogo de um lado para o outro, lançando dados feitos de ossos de ovelha. Apesar de ser uma diversão, tratava-se de uma ferramenta de adivinhação do futuro. A cada casa associavam-se estados e situações que depois eram interpretadas para e pelos jogadores. 

Para ambos os jogos, que nos são apresentados por Tristan Donovam no seu livro “Its all a Game: the history of board games from Monopoly to Settlers of Catan”, o autor faz uma referência de como aleatoriedade e a sorte podiam ser vistas por estes povos antigos como manifestações místicas e formas de comunicação transcendentes, provavelmente uma forma dos mortos e dos deuses comunicarem com os jogadores.
Por isso, quando lançarem um dado, ou tirarem à sorte algo, lembrem-se que para muitas pessoas isso chegou a ser uma manifestação espiritual e religiosa. 

Referências bibliográficas:
Donovan, T. (2017). It's all a game: The history of board games from Monopoly to Settlers of Catan. Macmillan.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Hitler não foi um génio militar e a Bomba Atómica não derrotou os Japoneses: uma série de documentários franceses

Neste momento estão novamente a ser exibidos alguns bons documentários na televisão portuguesa, tanto em canais livres e pagos. Podemos ver regularmente documentários nos vários canais da RTP, especialmente na RTP2, ainda que fosse desejável haver mais. Mas parece que o Canal de História, ainda cheio de "reality Shows", também parece querer diversificar e voltar a ter documentários de história. Veremos se realmente as políticas de programação mudam para algo que sejam efetivamente conteúdos de relevância histórica ou se foi apenas uma exceção. Um desses exemplos é a recente série de documentários de 2017, de origem francesa, produzido pela Cinétévé & Arte, com o nome original de Les Coulisses de l’Histoire e traduzido para português por “História Revelada”. 

"Sempre que partires uma noz pensa em Hitler" - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942-1945)

No primeiro episódio, realizado por Christiane Ratiney, aborda-se o mito de Hitler ser um génio da estratégia militar. No documentário defende-se essa tese, de que Hitler foi de facto um estratega militar amador e que cometeu erros crassos, uma vez que na hierarquia militar nunca tinha sido oficial nem tido qualquer formação nessa área tão específica e complexa. O mérito das conquistas militares deveu-se, em grande parte, aos generais da influente escola prussiana, desde Frederico o Grande, ao pensamento de Von Clausewitz e pela prática das guerras estratégicas desencadeadas com sucesso durante o século XIX, que permitiram construir o império alemão pela direção política de Bismarck. Mesmo o conceito de “Guerra Relâmpago” e o sucesso incrível da vitória sobre a França dependeu do Marechal Erich von Manstein e não de Hitler, que soube aproveitar a superioridade do seu equipamento bélico e treino militar da Wehrmacht. Quem venceu foi o Plano Manstein, cujo o sucesso surpreendeu Hitler, até porque teve falhas, ao ponto de se ter gerado um massivo engarrafamento de veículos alemães que poderia ter culminado num desaire total por falta de planeamento. E a vitoria teria sido retumbante perante os britânicos, que depois de estarem cercados apenas conseguiram evacuar o seu exercito em Dunquerque por culpa do Fuhrer. Isto devido às hesitações amadoras de Hitler, que não decidiu rapidamente o que fazer quando todos os generais pediam para que o ataque fosse incisivo e rápido, de forma a tentar forçar a rendição da Inglaterra, algo que Carl Von Clusewitz seguramente aprovaria. 

A operação Barbarossa, de invasão da URSS, foi uma sequência de erros tomados por Hitler, entre eles a decisão de cercar Estalinegrado e forçar a cidade à rendição em vez de avançarem rapidamente pela sua conquista, tal como a hesitação em avançar para Moscovo, temendo o desfecho que culminou na derrota de Napoleão em solo russo. Tudo isso deu tempo, numa frente excessivamente alargada, para que os Russos se organizassem. Hitler, convencido da sua superioridade tendia a subestimar os inimigos, algo que se pode comprovar nos registos dos seus generais, ao ponto de no final da Guerra ter assumido ele mesmo o comando militar, achando-se mais competente que os seus generais. 

Segundo os autores do documentário, a versão de que Hitler seria um génio militar teria sido alimentado pelos Aliados, para tornar a sua vitória ainda mais grandiosa, uma vez que Hitler passou rapidamente a ser o culpado de todos os males do mundo. Parece que as operações militares a leste, perante o poder massivo do exercito vermelho e de toda a mobilização cívica dos russos, enfraqueceu de tal modo o poder alemão que a derrota na frente ocidental também seria inevitável depois de 1942. No entanto essa versão não era conveniente para os EUA.

"Se trabalhares tanto e tão rápido como um japonês"  - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942 1945)

No segundo episódio desta série de documentários, neste caso da autoria de Cédric Condon, refere-se à rendição do Japão. No qual se defende que não foram as duas bombas nucleares que forçaram o Japão à rendição incondicional, mas sim o avanço soviético que, depois de derrotada a Alemanha, mobilizava as suas forças para a Manchúria, no norte da China, e Coreia. Assim os japoneses, que ainda controlavam imensos territórios na china e sudoeste asiático sabiam que estavam encurralados e que a vitória não seria mais possível, pois quer os Soviéticos quer os Americanos estavam a planear operações de desembarque massivos em solo japonês. Os japoneses tentaram negociar com ambas as potencias a paz, mas os soviéticos não aceitavam a manutenção do governo imperial, tão importante para manter as tradições japonesas. Por outro lado, os Americanos aceitaram esse pedido e assim assinaram a rendição formal. Isto explica o continuar dos conflitos nos anos seguintes na Coreia e depois na Indochina, tal como a destabilização na própria China, enquanto o Japão se manteve estável e sua essência cultural milenar. Tudo indica que os generais Japoneses defendiam a guerra total até ao último soldado, mas que foi o imperador Hirohito a impor a sua autoridade e a decidir a paz com os EUA, não pelo efeito das bombas nucleares, mas por ser o modo de poder manter o trono. Assim, esta decisão Japonesa foi uma derrota para Estaline que não conseguiu ter influência no Japão, tal como algo muito útil para os EUA, que pouparam vidas dos seus militares, tal como contribuiu para construir o mito do poder do seu novo armamento nuclear. 

Mais que pensar que estamos perante verdades absolutas, esta série de documentários força-nos a ensaiar novas perspetivas e pontos de vista, daquilo que são os bastidores da história. Isto porque a história é sempre uma narrativa construindo pela mão humana, que nem sempre se aproxima da verdade, e sofre uma inevitável influência de outros poderes. Cabe-nos então cruzar conhecimentos, fontes e usar das nossas capacidades cognitivas para desvendar aproximações à verdade.

Referências:
Condon, Cédric (2017). Hiroshima, la défaite de Staline, In Les coulisses de l'Histoire. Cinétévé & Arte

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As grandes mentiras da História e o afundamento do Lusitânia: um documentário de Luc David

Começou a ser exibido no canal Odisseia uma nova serie de documentários dedicados a algumas das grandes mentiras da história. No primeiro episódio, do documentário "As maiores mentiras da história" de Luc David, aborda-se o tema do afundamento do barco transatlântico “Lusitânia”, que foi torpedeado e afundado em 1915 por um submarino U-Boat alemão – embora para os alemães se devesse designar U-Boot. 

Desenho artístico representativo do afundamento do Lusitânia - autor desconhecido
Fonte: https://www.express.co.uk/news/world-war-1/566316/RMS-Lusitania-single-torpedo-sinking

Este poderá ter sido um exemplo de fabricação de noticias falsas na imprensa por ação do governo britânico. Em 1915 o Império Britânico estava em guerra com o Império Alemão. Decorria a primeira Guerra Mundial. Os alemães usavam a sua novíssima, os U-Boats, submarinos que permitiam, pela primeira vez, fazerem intervenções de longa distância. A Royal Navy - a marinha inglesa - não tinha qualquer arma que pudesse combater eficazmente esta ameaça alemã. Por isso os U-Boat faziam com alguma eficácia constantes afundamentos de barcos, incluindo barcos de mercadorias que abasteciam as ilhas britânicas. Embora nessa época os britânicos conseguissem produzir mais barcos do que os que eram afundados pelos alemães.

Em 1915 o “Lusitânia”, o maior e mais rápido transatlântico da época foi alvo de um ataque. Os relatos oficiais britânicos dão conta de ter sido alvo de dois torpedos. No entanto os registos alemães referem apenas um. Tudo indica, fazendo fé no material que o documentário expõe, que apenas terá sido efetivamente disparado um torpedo, mas que uma segunda explosão se tenha devido a uma reação em cadeia, uma vez que o navio transportava ocultamente munições de artilharia e outros equipamentos militares a bordo, carregados em Nova York. De notar que os abastecimentos que chegavam de barco desde os E.U.A. eram essenciais para o esforço de guerra britânico. Era importante que o governo britânico terá ocultasse este transporte, nunca tendo sido assumido. O incidente foi utilizado pela propaganda britânica para fomentar o ódio aos alemães, e para tentar trazer os E.U.A. para a guerra, uma vez que morreram mais de uma centena de norte americanos nesse afundamento. Os britânicos tentaram passar a mensagem de que os alemães eram maléficos, desumanos e que não poupavam sequer os civis inocentes. Se fosse descoberto que o navio transportava uma carga militar oculta o próprio governo inglês sofreria consequências políticas.

Consta que o barco se terá afundado em apenas alguns minutos, algo pouco provável para ser um barco daquela envergadura, com mais de 200 metros de comprimento, sob o efeito de dois torpedos apenas. Há que relembrar que a tecnologia de guerra submarina era bastante arcaica, e que os torpedos nem sempre eram eficazes. Uma explosão interna de um volume considerável de munições ajuda a explicar esse rápido afundamento. No diário de bordo do comandante do U-Boat alemão refere-se que perante o drama humano decidiram ir embora sem disparar mais torpedos. Costa também que o comandante do U-boat teria indicações de que o barco era um alvo militar válido na sua base de dados, uma vez que estava identificado como um dos barcos que poderia ser requisitado pela marinha militar para adaptação durante o período de guerra. 

O documentário expõe muitos outros pormenores, pretensas provas e evidências que suportam esta teoria. Segundo essas fontes, em torno do afundamento do Lusitânia terá sido criada uma noticia falsa – uma fake news –muito conveniente para a propaganda britânica e do próprio almirantado, liderado por Winston Churchill nessa altura. Ou seja, as noticias falsas têm servido fins políticos há muito tempo, e se analisarmos mais para trás na cronologia histórica seguramente encontraremos mais casos disso.

Referência:
David, Luc (2017). History´s greats lies. [filme].

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Das Saturnálias ao culto do Sol e o nascimento de Cristo: a origem do Natal

O festival familiar da Saturnalia, ou saturnálias, era provavelmente o festival mais importante do final do ano, tanto para as famílias romanas, mas especialmente para os escravos. Nas Saturnalias os papeis invertiam-se entre senhores e escravos, e havia uma liberdade generalizada para cometer todo o tipo de atos que não seriam permitidos durante os restantes dias do ano, algo semelhante ao carnaval. Pelos registos que nos chegaram, as festividades começariam, segundo nosso calendário atual, a 17 de dezembro e duravam entre 3 e 7 dias, dependendo do período histórico. Deveria ser feito um sacrifício a Saturno, quer para os romanos estava associado à agricultura e a vida feliz. Faziam-se um grande festim, com refeições onde a inversão dos papeis e hierarquia social se dava de modo formal ou informal. Em algumas famílias, depois dessa refeição, dava-se uma troca de presentes, seguindo-se jogos, discussões literárias e bebidas desregradas (Dolansky, 2010). Podemos encontrar semelhanças entre as celebrações das saturnalias e as atuais festividades de Natal.

Saturnalia - Antoine Callet
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saturnalia_by_Antoine_Callet.jpg

Igualmente importante na influência das festividades cristãs foram os diversos cultos do Sol, sistematizados como culto imperial numa altura em que se exigia unidade política. Este culto imperial, personalizado na figura do imperador, do Invictus Dominus Imperii Romani, instituiu-se em 274. d.C. As associações de Cristo, e de todas as figuras da nova religião, aos cultos solares são evidentes em várias fontes. O estabelecimento do que seriam as festividades do natal cristão deve ter ocorrido entre 243 e 336 d.C., coincidindo com os cultos do sol, assumidos pelo regime imperial e comuns a vários cultos mais antigos fortemente estabelecidos nas provinciais imperiais romanas. O dia de nascimento de cristo terá sido assumido, por conveniência, no dia 25 de dezembro em 350 d.C.. Essa data ficaria a vigorar no ocidente e atribui-se ao Papa Júlio I (Roll, 1995). 

Assim, como tantas outras festividades e tradições, o Natal, que hoje também se afasta dos cultos cristãos primordiais, resulta de uma construção social ao longo da história. Por isso, não é de estranhar que as festividades continuem a evoluir pelas múltiplas influências sociais e conveniências que vão surgindo.

Referências bibliográficas:
Dolansky, F. (2010). Celebrating the Saturnalia: religious ritual and Roman domestic life. A companion to families in the Greek and Roman worlds, 488-503.
Roll, S. K. (1995). Toward the origins of Christmas (Vol. 5). Peeters Publishers.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Quando o Urbanismo de Haussman dificultou as manifestações e revoluções

Haussman, o Barão, foi perfeito de Paris no reinado de Napoleão III que instituiu o segundo império. Liderou a gestão da cidade de Paris entre 1853 e 1870, implementando um programa que pretendia estabilizar mas igualmente modernizar a cidade, seguindo os duplos impulsos do novo imperador. Odiado por muitos na época, mas sem a visão deste homem Paris hoje seria algo muito diferente. Transformou a cidade, à custa de um elevado grau de destruição urbana. Do tecido medieval de Paris pouco ficou. Abriram-se grandes avenidas, espaços públicos e a cidade ficou mais fluida e arejada. Na época vigorava a necessidade de normas de higienização e sanitárias, uma vez que as grandes metrópoles, e principalmente Paris, eram focos de doenças e insalubridade, tal como infindáveis problemas sociais. Com essa intervenção, mas também por ser a capital de um dos mais poderosos estados europeus, Paris foi a cidade dominante a nível mundial durante todo o final do século XIX.

Lamartine, em frente à câmara municipal de Paris, recusa a bandeira vermelha, em 1848 - Félix Philippoteaux

Ainda hoje Haussman é criticado pelos defensores do património urbano por ter destruído a morfologia medieval urbana de Paris, no entanto consta não ter destruído qualquer monumento relevante, ajustando os traçados ao edificado histórico mais importante. Obviamente que não poupou as construções vernáculas e populares. Ficamos ainda hoje com essa dupla sensação de amor ódio, de apreciarmos hoje a Paris de Haussman, com os seus novos prédios de época, mas com pena de não desfrutarmos do que seria uma das maiores cidades medievais de sempre. Ainda podemos encontrar alguns traços da estrutura urbana medieval, especialmente na zona do Quartier Latin, perto das zonas urbanas ocupadas pela antiga universidade. No entanto, mesmo essa parte da cidade, foi sendo modernizada.

Mas tudo isto para falar da dimensão política do desenho e funcionalismo urbano. Haussman viveu numa época de grande instabilidade política, em que Paris era recorrentemente o foco de manifestações, golpes e revoluções. Aliás, ele só chega ao comando de Paris pela ação revolucionário de Napoleão III. Diz-se que o plano de renovação urbana de Haussman tinha também outra intenção, de abrir os arruamentos para impedir as barricadas e apoio urbano aos revoltosos. Com facilidade de movimentos nas grandes artérias as tropas do regime podiam facilmente intervir, e seria muito mais dificil criar zonas defensivas ou condicionar a circulação urbana pelo revoltosos. Não podemos afirmar isso com certeza, embora possamos ler isso nas entrelinhas dos planos e das soluções práticas. O certo é que as revoluções em Paris deixaram de ocorrer da mesma forma desde então.

O modelo de urbanismo de Haussman generalizou-se por muitas outras cidades, seguindo-se múltiplos ímpetos que tentaram higienizar e desafogar os tecidos urbanos, dando continuidade a alguns projetos de urbanismo do período do absolutismo, em que monarcas quiseram deixar a sua marca urbana através da monumentalidade dos edifícios públicos, praças e avenidas.

As novas intervenções inspiradas na gestão de Haussman vieram forçar a pensar na cidade como um todo. Não foi por isso que se deixaram de fazer manifestações e revoluções, mas passou a exigir-se outra escala. Por isso, curiosamente, até me arrisco a dizer que Haussman criou as condições para que os movimentos sociais tivessem mais impacto nas cidades, pois aumentou-lhes a fasquia. Dificilmente alguém planearia algo pequeno depois.


Algumas referências bibliográficas de apoio:
Chueca Goitia, F. (1985). Breve historia del urbanismo (No. 307.7672 C4).
Delfante, C., & Feio, L. M. C. (2000). A grande história da cidade: da Mesopotânia aos Estados Unidos.
Mumford, L. (1998). A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas (p. 67). São Paulo: Martins Fontes.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Das mulheres para as trincheiras: a utilização do relógio de pulso

O relógio de pulso é uma invenção relativamente recente.  Se o relógio mecânico terá surgido por volta do século XIV, a invenção do relógio de pulso terá surgido apenas na última metade do século XIX, e terá sido, nessa época, primeiro um adereço prático de mulheres, que assumia também forma de joia ou então algo mais prático com as pulseiras de couro. Nessa época os homens usavam, maioritariamente, relógios de bolso, com as típicas correntes ornamentais fora dos coletes. 

Mulher sentada com relógio - Picasso
fonte da imagem: https://www.flickr.com/photos/136930126@N05/22168444116

Foi no início do século XX, com a necessidade de ter um modo de consultar as horas de forma mais prática que o relógio de pulso ganhou dominância. Foi especialmente na I Guerra Mundial que o uso se generalizou entre os homens, dada a necessidade de ter um meio prático de coordenar as operações militares, numa guerra em massa e acelerada pela escala e novas tecnologias. 

Consta que os pilotos também aderiram a esta solução, uma vez que lhe libertava as mãos para operar veículos, aviões e etc. 

Curiosamente, hoje me dia voltamos a andar com os relógios no bolso, na forma de smartphones. O uso de relógio de pulso tende a ser uma opção decorativa para homens e mulheres dos nossos tempos. 

Referências bibliográficas:
Doensen, P. (1994). WATCH: History of the modern wrist watch. Jan van Scorelstraat, 80(3583), 174.
Stephens, Carlene; Dillon,Amanda; Dennis, Margaret (1997). Revolution on Your Wrist. National Museum of American History. Disponível em: http://amhistory.si.edu/docs/Dennis_Stephens_Dillon_%20Revolution_on_Wrist_1997.pdf



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Quando a família não chega para impedir uma guerra mundial

A Primeira Guerra Mundial trouxe muitas novidades, das mais horríveis militarmente até então. Morreram milhões de soldados e civis. Os efeitos foram muito além disso, geradores de crises mundiais e de posteriores conflitos ainda mais catastróficos. 

9 soberanos no funeral de Eduardo VII - 1910 em Londres
Jorge V sentado ao meio e Guilherme II de pé atrás. Manuel II de Portugal à esquerda de Guilherme.
Fonte da imagem: https://rarehistoricalphotos.com/nine-kings-one-photo/

Um dos aspetos caricatos, no meio de tantos episódios terríveis, passou-se ao nível familiar. Guilherme II, Kaiser alemão, e Jorge V, rei de Inglaterra, eram primos direitos. A rainha vitória, que dominou a coroa inglesa durante grande parte do século XIX, casou os seus filhos com as principais casas reais europeias, sendo a mãe de Guilherme irmã do pai de Jorge, e ambos netos da famosa rainha inglesa. Mas a grande diferença de idade entre ambos não terá ajudado ao relacionamento entre primos, pois havia o hábito do convívio familiar regular, incluindo também férias e festividades, apesar de serem famílias que  representavam nações distintas e das comunicações serem difíceis. Consta, no entnto, que Guilherme não apreciava particularmente a sua família não alemã. Já Nicolau II, Czar da Rússia, era também primo direito de Jorge V de Inglaterra, pois suas mães eram irmãs. Estes primos, provavelmente pela proximidade de idade, privaram bastante. Consta que Nicolau tinha um inglês e era muito conhecedor da cultura britânica. 

Jorge V e Nicolau II - 1913 em Berlin
Fonte: https://rarehistoricalphotos.com/king-george-tsar-nicholas-1913/

Estes relacionamentos familiares não eram fruto do acaso, aconteciam devido ao sistema tradicional de alianças na Europa. Mas, em 1914, estas relações familiares não foram suficientes para evitar a guerra, especialmente as fortes ligações as casas reais Inglesas e Alemãs, lideradas na altura por Jorge e Guilherme, respetivamente. Consta que até poderão ter incentivado o conflito. Guilherme teria desde a infância um mau relacionamento com a sua mãe inglesa. Jorge e Nicolau, que passavam férias em família na Dinamarca com o avó Cristiano IX, eram influenciados por um odio dos Dinamarqueses aos seus vizinhos Alemães pela anexação de Schleswig-Holstein em 1868. Estes são apenas alguns exemplos do cruzamento da vida familiar com a geopolítica da época.

A Primeira Guerra Mundial foi a primeira Guerra moderna por várias razões. Pelas estratégias, táticas, armas, logística e escala do conflito, mas também pelo fim das tradicionais relações diplomáticas internacionais associadas aos conflitos.

Referências bibliográficas de apoio:
Carter, M. (2009). The three emperors: three cousins, three empires and the road to World War One. Penguin UK.
Keegan, J. (2014). The first world war. Random House.
Willmott, H. P., & Willmott, H. P. (2003). World War I. New York: Dorling Kindersley.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Diorama sobre urbanismo sustentável com peças de jogos de tabuleiro modernos

A origem dos dioramas remonta ao seculo XIX e às experiências de Daguerre – um pioneiro da fotografia. Desde então, os dioramas popularizaram-se como formas de representar fisicamente e tridimensionalmente cenas várias, quer sejam artísticas quer não. O objetivo relaciona-se com a necessidade de criar uma exposição de instrução ou diversão. Estes dioramas tendem a ser modelos de menor escala da realidade que pretendem representar e simular. Os museus, desde o início do século XX, usam recorrentemente estas técnicas expositivas de pequena escala para descrever eventos historicamente relevantes, alguns altamente detalhados e que ajudam a compreender eventos como batalhas ou cenas da vida quotidiana (Kamcke C. & Hutterer R., 2015). Hoje em dia alguns destes dioramas têm sido substituídos por criações digitais, no entanto, ainda não são obsoletos em certas situações.

Diorama sobre urbanismo Sustentável - foto do autor

Partindo da ideia do potencial dos dioramas surgiu-me a ideia para um novo projeto. Os jogos de tabuleiro modernos têm componentes cada vez mais originais e personalizados, alguns bem realistas por sinal. Então, tendo em conta todas imensas possibilidades que tinha à minha disposição, por ter uma ludoteca que neste momento ultrapassa as duas centenas de títulos diferentes, comecei a criar dioramas com peças de jogos de tabuleiro modernos. Cada dia publico um na minha pagina de Instagram, normalmente alusivo à efeméride do dia. Este texto esta a ser narrado de uma forma muito pessoal, mas para este assunto não havia outra forma de o fazer. Curiosamente foi publicada uma breve fotorreportagem sobre este projeto no P3.

Um desses dioramas aponta para alguns ideias base do urbanismo sustentável. Serve de exemplo para mostrar o potencial dos dioramas, que podem ser feitos de vários modos, sem a rigidez de recorrer a modelos a escala realistas. Através do simbolismo e da semiótica e possível criar dioramas igualmente comunicativos e carregados de conteúdos, nestes casos de forte simbolismo também. 

No diorama aqui apresentado podemos identificar vários elementos generalistas que facilmente veríamos citados em manuais de sustentabilidade urbana (Farr, 2011), entre eles:
  • Presença de árvores em meio urbano;
  • Espaços públicos do tipo praça e ruas para a fruição pedonal;
  • Desenho orgânico da malha urbana, para garantir descontinuidades e quebras de linearidades que evitam a monotonia, mas sem criar constrangimentos e tendo canais de visibilidade social;
  • Acesso condicionado de automóveis privados, e prioridade ao transporte público que pode aceder ao centro e conjugar-se com os modos suaves, aqui representados pelos peões; 
  • Manutenção de edificado histórico, em utilização contemporânea para as funções urbanas. 

Estes são apenas alguns exemplos. Tendo estes materiais, que são componentes de jogos, é possível fazer isto e muito mais, criando narrativas alternativas para conteúdos que se queiram transmitir. 


Referências bibliográficas para aprofundamento do tema:
  • Kamcke C., Hutterer R. (2015) History of Dioramas. In: Tunnicliffe S., Scheersoi A. (eds) Natural History Dioramas. Springer, Dordrecht
  • Farr, D. (2011). Sustainable urbanism: Urban design with nature. John Wiley & Sons.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

La Rochefoucauld: o filósofo do século XVII que dava bons Tweets

François VI de La Rochefoucauld - Théodore Chassériau
Fonte: https://commons.wikimedia.org/

La Rochefoucauld foi um pensador Francês do século XVII. É pouco conhecido na atualidade, talvez porque produziu obras pequenas e compostas de frases custas, segundo um estilo de escrita chamado de aforismos, típicos da sua época e contexto social. Mas se estudarmos a sua obra, que pode ser lida frase a frase - que é como quem diz pensamento a pensamento - ou de seguida, percebemos que não é por ser simples que é menos relevante para a história do pensamento ocidental. Aliás, são essas mesmas caraterísticas que tornam La Rochefoucauld incrivelmente atual. A sua obra resulta da vivência dos salões, espaços que eram suportados por mecenas da alta nobreza francesa, onde se promoviam encontros regulares de intelectuais para debates constantes, mas que deveriam ser agradáveis formas de entretenimento cortês. De pouco servia ler e expor complicadíssimas teses nesses espaços. Ninguém estaria disposto a isso na maior parte do tempo. Procurava-se ativar a mente com temas profundos, mas abordados de modo imediato e cativante. La Rochefoucauld foi mestre nessa arte, expondo a essência dos seus pensamentos em expressivas frases cheias de múltiplos significados. Vejamos algumas delas, retiradas da sua obra “Máximas e Reflexões Morais” (1) que o site Citador (2) nos traduziu e disponibiliza online:

O verdadeiro amor é como a aparição dos espíritos: toda a gente fala dele, mas poucos o viram.”

Há falsidades disfarçadas que simulam tão bem a verdade, que seria um erro pensar que nunca seremos enganados por elas.”

Não devemos julgar os méritos de um homem pelas suas boas qualidades, e sim pelo uso que delas faz.”

A virtude não iria tão longe se a vaidade lhe não fizesse companhia.”

Os homens não viveriam muito tempo em sociedade se não fossem enganados uns pelos outros.”

No entanto La Rochefoucauld nem sempre foi e é considerado como filosofo, exemplo disso é o Dicionário de Filosofia, da autoria de Noella Baraquin e Jacqueline Laffitte, editado pela Edições 70, onde o nome do autor não consta (3). Para os mais ortodoxos, La Rochefoucauld não é um filosofo, talvez apenas um escritor, um moralista e até humorista. Mas porque não pode a filosofia ser feita com humor e uma certa informalidade? Se o objetivo da filosogia é ativar a mente humana para as questões da existência e transcendia, porque não usar uma abordagem mais descontraída e divertida? Apesar de poder parecer estranho, a obra de La Rochefoucauld teve influência em Nietzsche, especialmente em “Humano Demasiado Humano”, sendo o único dos autores francês da época dos salões a que o famoso filosofo alemão dava crédito (5).

É certo que La Rochefoucauld na sua filosofia não cria uma superestrutura do seu próprio conhecimento, nem um sistema filosófico complexo, cheio de referências a outros filósofos, a conceitos que ele próprio inventa ou refuta para gerar tentativas de solução últimas. Em vez disso sintetiza o seu pensamento em cadeias de frases que podemos agrupar por temas, mas que nem por isso nos induzem a pensar menos. 

A técnica dos aforismos é incrivelmente atual nos dias que correm, sendo massivamente utilizada nas redes sociais, especialmente no Twitter e Facebook. O domínio desta arte de comunicar é importantíssimo para quem quer ter muitos seguidores, comentários, gostos e partilhas. Como seria um La Rochefoucauld dos dias de hoje? Seria um mestre das redes sociais? Vemos a sua influencia sempre que pegamos no smartphone. São imensos os conteúdos rápidos e imediatos, que tentam ir fundo na condição humana. Uns fazem de modo displicente, outros aprenderam com La Rochefoucauld, mesmo sem saber.

Vale também a pena ver o seguinte vídeo de “The School of Life” sobre La Rochefoucauld:


Referências bibliográficas:
2 – Citador. François, Duque de La Rochefoucauld. Consultado em 29 de outubro, disponível em: http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/francois-duque-de-la-rochefoucauld
4 - Faber, Marion (1986). The Metamorphosis of the French Aphorism: La Rochefoucauld and Nietzsche. Comparative Literature Studies (2) Vol. 23, No. 3 (Fall, 1986), pp. 205-217

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Origens da cooperação: os indíviduos ou as normas sociais

Um artigo científico recente, com destaque online da revista Science News,  propõe algo de novo sobre o desenvolvimento dos processos de colaboração sociais, tendo em conta aquilo que se pensava serem as origens dos processos de colaboração sociais que levaram à atual complexidade das sociedades humanas. 

A marcha da humanidade - David Alfaro Siqueiros
O artigo, de Kristopher M. Smith, Tomás Larroucau, Ibrahim A. Mabulla e Coren L. Apicellada  refere a experiência realizada com o povo Hazda, cuja organização social e modo de vida se aproxima das primeiras sociedades de caçadores-recolectores, associadas aos primeiros estágios de desenvolvimento que terão estado na origem das atuais sociedades humanas. Os autores concluíram que não são os indivíduos que definem o modelo de cooperação, ao contrário do que é o pensamento generalista vigente sobre o desenvolvimento dos processos de partilha e interajuda social. Segundo os autores, são as normas sociais que definem os níveis de cooperação e não os indivíduos isoladamente. Na experiência realizada e sistematizada no artigo, indica-se que os indivíduos do povo Hazda apresentavam comportamentos que sustentam esta ideia. 

Sendo caçadores-recolectores, os Hazda circulam livremente em territórios extensos, de onde recolhem os recursos necessários à sua sobrevivência. Assim, movimentam-se ciclicamente e regularmente entre diversos locais que assumem formas de estabelecimentos permanentes no território, acessíveis a toda a comunidade. Registou, através de uma experiência semelhante a um jogo de partilha, que os indivíduos que circulavam de campo em campo adaptavam o seu comportamento às normas de cooperação sociais desse campo. O mesmo individuo era muito mais cooperante e partilhava  o resultado das recolhas de alimentos e caçadas nuns campos e comunidades que noutros. Nesses campos onde o sistema de partilha e cooperação era mais intenso, existiam mais normas de regulamentação sociais que fomentavam a cooperação, e que se precaviam de eventuais oportunistas.

Estas descobertas e conclusões parecem simples, mas as implicações são imensas. Significa que a personalidade de partilha ou não partilha individual pode não ser a dimensão mais relevante para o sucesso do desenvolvimento da cooperação social. As sociedades mais cooperantes tendem a estabelecer normas de regulação desse funcionamento coletivo, incluindo sistemas para se precaverem dos indivíduos que queiram aproveitar, sem contribuir, desses sistemas de cooperação. Ou seja, mesmo que os indivíduos que não sejam naturalmente, pelo seu perfil individual, cooperantes, eles tendem a ser igualmente cooperantes nas sociedades onde as normas de cooperação são implementadas por todos. Se fizermos uma análise inversa, podemos também concluir que a ausência de normas sociais de cooperação pode impelir indivíduos naturalmente propensos à cooperação a assumir comportamentos mais individualistas.

No que toca a políticas de desenvolvimento da cooperação estes conhecimentos são muito importantes para implementar e continuar a aprofundar aquilo que são os métodos colaborativos, sendo uma importante tendência para renovação dos sistemas democráticos. Embora o modo como se construíram e continuam a construir as normas sociais seja ainda pouco conhecido, sabemos assim que a via para fomentar mais cooperação passa pela assimilação e generalização das mesmas normas sociais que fomentam a cooperação social.

Referências:
Smith, Kristopher M. ; Larroucau, Tomás ; Mabulla, Ibrahim A. ; Apicella, Coren L. (2018). Hunter-Gatherers Maintain Assortativity in Cooperation despite High Levels of Residential Change and Mixing, Current Biology 28, 1–6 October 8,  Elsevier Ltd. https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.07.064

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Existiu uma civilização urbana no Amazonas que fabricava solo e geria a selva?

Das civilizações pré-colombianas das américas pouco se fala dos índios da bacia hidrográfica do Amazonas. Essas populações têm sido consideradas pouco desenvolvidas quando comparadas com as culturas da Mesoamérica e dos Andes. Os famosos, Maias, Incas, Aztecas, entre muitas outras civilizações e culturas, são dominantes no imaginário coletivo. Neste contexto os índios do Amazonas eram considerados povos seminómadas, de caçadores-recolectores que apenas pontualmente se dedicavam à agricultura, com tecnologia pouco mais desenvolvida que a dos povos da pré-história. 

GEORGE RETSECK (map); LUIGI MARINI (aerial view) in 
 Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

No entanto a ideia de que a bacia do Amazonas era pouco povoada antes da chegada dos europeus, e os seus povos pouco desenvolvidos, está totalmente errada. Estudos recentes têm contrariado esta ideia. Mas há que recordar que essa ideia de uma civilização amazónica tinha inspirado Percy Fawcett numa arriscada aventura, tendo desaparecido na selva brasileira em 1925, enquanto procurava por vestígios de uma grande civilização urbana desaparecida. Fawcett procurava pela cidade perdida de Z. 

Ao longo do século XX, especialmente nas últimas décadas, a possibilidade de encontrar cidades no Amazonas despertou o interesse dos arqueólogos. Destaca-se a descoberta do local arqueológico de Kuhikugu, pelo antropólogo Michael Heckenberger.  O local era composto por várias aldeias conectadas num sistema complexo polinucleado que no total podia acolher perto de 50.000 pessoas. Este achado foi muito badalado por um artigo publicado na revista Time em 2005. O nível de desenvolvimento destas comunidades é comprovado pela qualidade da cerâmica encontrada nas escavações, mas especialmente pela capacidade de engenharia hidráulica e agrícola. As escavações têm revelado a construção de sistemas complexos de drenagem e a criação de solo antropogénico, chamado “terra negra”. Este solo era produzido pelos índicos através de composições minerais e matéria orgânica, com forte presença de carvão vegetal. Este solo apresenta características únicas, de Ph neutro e que ainda não foi possível replicar.

Tudo indica que a bacia do Amazonas estaria povoada por estes sistemas urbanos polinucleados e altamente conectados. A Selva pode muito bem ter sido furto de uma manipulação e gestão orientada para suportar estas comunidades humanas, tendo esta realidade mudado com a chegado dos europeus e doenças que dizimaram a população nativa, obrigando os resistentes a optar por um modo de vida seminómada. Não existiam cidades de pedra, pois esse elemento é escasso nesses locais. Estas urbes construíam-se de madeira, barro e terra, elementos facilmente absorvidos pela selva ao longo dos anos. A selva tem apagado os vestígios, mas os solos encerram muita informação e novas tecnologias como o LIDAR permitem identificar estruturas e elementos produzidos pela mão humana ocultos pela vegetação e solo.

À medida que vamos sabendo mais sobre a ocupação humana pré-colombiana do Amazonas mais poderemos aprender sobre o que foi um sistema sustentável ecológico de desenvolvimento urbano. Pode ser uma solução para o nosso futuro, pois as cidades não têm de ser todas de pedra. 

Referências:

Clement, C.R.; Klüppel, M.P.; German, L.A.; Almeida, S.S.; Major, J., Aragão, L.E.O.C.; Guix, J.C.; Lleras, E.; WinklerPrins, A.M.G.A.; Hecht, S.B.; McCann, J.M. (2009). Diversidade vegetal em solos antrópicos da Amazônia. In As Terras Pretas de Índio da Amazônia -- Sua Caracterização e Uso Deste Conhecimento na Criação de Novas Áreas W.G. Teixeira, D.C. Kern, B.E. Madari, H.N. Lima, e W.I. Woods (eds.), pp. 147-161.  Manaus: Embrapa Amazônia Ocidental.

Clement, C., Denevan, W., Heckenberger, M., Junqueira, A., Neves, E., Teixeira, W., & Woods, W. (2015). The rain forest is a human creation. Embrapa Solos. 

Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

Heckenberger, M.J., A. Kuikuro, U.T. Kuikuro, J.C. Russell, M. Schmidt, C. Fausto, and B. Franchetto (2003). 1492: Pristine forest or cultural parkland? Science 301: 1710–1714. Heckenberger, M.J., J.C. Russell, J.R. Toney, and M.J. Schmidt. 2007. The legacy of cultural landscapes in the Brazilian Amazon: Implications for biodiversity. Philosophical Transactions of the Royal Society (B) 362: 197–208

Mann, C.M. 2005. 1491: New revelations of the Americas before Columbus. New York: Alfred Knopf.

WinklerPrins, A.M.G.A.  (2009). Sweep and char and the creation of Amazonian Dark Earths in homegardens. In Amazonian Dark Earths: Wim Sombroek’s Vision, W.I. Woods, W. Teixeira, J. Lehmann, C. Steiner, and A.M.G.A. WinklerPrins, and L. Rebellato (eds.), pp. 205-211.  Dordrecht: Springer Publisher

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Porque não usavam coroa os reis de Portugal?

A monarquia portuguesa teve uma particularidade especial pouco conhecida. Entre 1640 e 1910, com a restauração da independência e domínio da casa de Bragançana sobre a coroa portuguesa, nenhum rei ou rainha foi formalmente coroado. Os monarcas eram consagrados através de um processo cerimonioso e simbólico chamado de aclamação, em que a coroa e septo era colocados ao seu lado, mas sem a formalização da coroação, que implicava colocar a coroa na sobre a sua cabeça. Também nos atos e representações oficiais não se utilizava diretamente a coroa.

Imagem de Nossa Senhora de Fátima da autoria de José Ferreira Thedim

Esta prática e tradição começou com o fundador da dinastia de Bragança, D. João IV, que, por altura da restauração da independência em 1640, em vez de envergar a coroa a colocou aos pés de uma imagem da Virgem Maria, coroando-a simbolicamente como "Rainha de Portugal". Não sabemos se isto foi um ato de fé e de uma tentativa de mobilizar essa força motivadora para a dificil guerra que teria de ser travada pelos portugueses de modo a manter a sua independência face a Espanha, se um ato político para ajudar a reconhecer a independência do reino aos olhos do Vaticano. Pode muito bem ter sido uma mistura das duas coisas. 

Desde então os monarcas da casa de Bragança dispensaram a coroa e a virgem Maria em Portugal passou a usar coroa e a ser a padroeira do reino. É por isso que não encontramos representação dos monarcas portugueses deste período com coroa e também por isso que as imagem religiosas da virgem Maria aparecem ricamente coroadas. Já antigamente se representava a virgem maria em atos simbólicos de coroação, existindo pinturas famosas de Rubens e Velásquez, entre outros, sobre esse tema. Mas esta ligação particular à história de Portugal veio reforçar ainda mais essa iconografia em Portugal, sendo a imagem da Nossa Senhora de Fátima um desses casos paradigmáticos.


Algumas referências bibliográficas para aprofundar este tema:

Costa, Leonor Freire & Cunha, Mafalda Soares da (2008). D. João IV. Reis de Portugal. Lisboa: Temas e Debates, Circulo de Leitores.

Silva, Hugo Ribeiro da (2013). "O Clero catedralício português e os equilíbrios sociais do poder (1564-1670)". Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Qual foi o primeiro Museu de Portugal?

Hoje celebra-se o dia internacional dos museus. Mas o que é um museu? Seria a casa das musas, aquele local onde todas as artes se juntavam e inspiravam a humanidade. Hoje existe museus para todos os gostos, de todos os tipos, recorrendo a inúmeras técnicas de museologia, exibindo as suas museografias direta e indiretamente. Alguns nem edifícios têm, nem peças dignas de serem apreciadas como tesouros.

Paço Real da Ajuda (em madeira)

Mas quais são os museus mais antigos de Portugal? Onde começaram as práticas museológicas?

Podemos começar pelos museus, ou proto museus, de influência iluminista e enciclopédica típicos do século XVIII. Mas podemos ir um pouco mais atrás, aos gabinetes de curiosidades e tesouros. Paulo Oliveira Ramos (1993) sugere a importância da coleção de antiguidades de: D. Afonso, 1.º Duque de Bragança (1377-1461); do 1.º Marquês de Valença (?-1460), filho do 1.º Duque de Bragança, composta por peças de arte e arqueologia; André de Resende (1500-1573), que recolheu cipos e lápides com inscrições romanas, árabes e hebraicas; padre Manuel Severim de Faria (1582?-1655), que continha um grande conjunto de vasos e outros artefactos romanos.

Podemos considerar que o primeiro museu português foi o Real Museu da Ajuda, criação do Marquês e Pombal para D. José I (1761-1788). Nesta altura esse museu ainda se revestia de um cariz privado, que servia tanto como prestígio para o rei detentor da coleção como tinha intenções formativas e educativas para o rei e a corte. Não esquecer que se vivia a era do iluminismo, e que a influência do Marquês de Pombal era forte em todos os domínios da vida política portuguesa. Este museu é também simbólico dessa intenção modernizadora de Portugal e do acompanhamento dos ideais filosóficos do iluminismo.

Referências bibliográficas:
Ramos, Paulo Oliveira (1993). Breve História do Museu em Portugal. In Trindade-Rocha (coord.) (1993), Iniciação à Museologia. Lisboa: Universidade Aberta.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Usar um livro era uma forma prática de afirmação religiosa?

Bíblia pode ser traduzido como “livros”, do plural grego de biblion que significava, comumente, rolo de papiro. Assim o termo Bíblia aponta para um conjunto de livros num sentido largo do termo, de tal forma que o livro sagrado do cristianismo foi considerado como: O Livro. Mas este domínio dos termos, em que um objete recebe o nome de todo um conjunto pode ter razão de ser histórica e religiosa. Gregos e Egípcios usavam rolos de papiros, e em certos casos pergaminhos em quantidades massivas, sendo o caso da biblioteca de Alexandria um caso paradigmático, onde, supostamente, existiam milhões de rolos de papiros em que se reunia todo o conhecimento de então. Ainda hoje os Judeus usam nos seus cerimoniais rolos de pergaminho onde se inscreve o Talmude e a Tora, sendo elementos sagrados e simbólicos dos réus rituais.

Natureza Morta com Bíblia - Van Gogh

Sabe-se hoje ser pouco provável que tenham sido os cristãos a inventar os códices, aquilo a que hoje chamamos livros, que são, no fundo, aglomerados de folhas com uma sequência que se pode folhear e ler sem desagregação, com capa e contracapa, ilustrados ou não.  Consta que já os romanos utilizavam aglomerados de folhas, em simultâneos com os cadernos de tabuinhas de cera onde escreviam com um objeto pontiagudo e apagavam raspando a cera. Provavelmente foram os egípcios de influência greco-latina, descendentes dos construtores da biblioteca de Alexandria, que começaram a utilizar aglomerados de folhas, formando os primeiros porto-códices. Podem também ter sido os romanos como já se disse, pois há alguns vestígios escritos disso. Não sabemos ao certo se era algo comum por todo o mundo mediterrânico. O que pode ter acontecido foi uma adoção dos códices pelos cristãos como forma prática e diferenciadora de reunirem os seus textos de forma organizada, portátil e fácil leitura. Seria um elemento que os diferenciava simbolicamente e formalmente. Há que lembrar que o cristianismo, quando nasceu, era uma inovação religiosa, social e cultural pelo que não será absurdo que tenham adotado essa inovação em oposição aos usos e práticas literárias das outras religiões e influências culturais.

Posteriormente os livros (codices) tiveram uma grande aceitação sob a influência da cultura islâmica e do ressurgimento cultural do império carolíngio, com as atividades literárias a serem fortemente incentivadas nos mosteiros. Nessa altura os livros já se assemelhavam muito ao que hoje conhecemos. Ainda hoje, apesar dos das alternativas digitais, os livros continuam a ser dominantes. Curiosamente, ou não, algumas formas de cristianismo continuam a assumir muito a sua relação com os livros, especialmente com a bíblia. Algumas fazem disso ainda uma imagem de marca, ao contraria da igreja católica que foi abandonando essa relação privilegiada com o livro.

Referências bibliográficas:

Diringer, David (2011). The Book Before Printing: Ancient, Medieval and Oriental (Lettering, Calligraphy, Typography). Dover Publications.

Roberts, Colin H. & Skeat, T. C. (1987). The Birth of the Codex. Oxford University Press.

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