Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A incrível história das Batatas: mitos, realidade e propaganda

As batatas são um tubérculo original das américas, mas concretamente do América do Sul, sendo um dos alimentos base da cultura Inca. Foi trazida para a europa pelos espanhóis no século XVI. Mas o seu sucesso não foi imediato. 

Num artigo online de Amber (2021) há uma história incrível que surgem em outras referências espalhas pela internet. Nele descobrimos que o alimento foi recebido na europa com alguma desconfiança. O caso extremo ocorreu em frança, baseado nas crenças de que seria perigoso e nojento, que seria responsável pela transmissão de Lepra. Mas isso viria a mudar, pois hoje em França muito se consome batata, tanto que o termo inglês para batata frita é “french fries” que, traduzido diretamente, quer dizer fritas francesas. Mas voltando ao século XVIII. O governo francês baniu oficialmente as batatas em 1748. Estavam proibidas.

Outubro - Jules_Bastien-Lepage

Mas Antoine-Augustin Parmentier, um farmacêutico francês, iria mudar isso. Para seu infortúnio foi capturado pelos prussianos durante a Guerra dos anos, tendo sido obrigado a comer batatas durante o cativeiro.  Percebeu que os medos sobre o uso da batata em França eram infundados, e que o tubérculo até tinha efeitos positivos, era nutritivo e até ajudava a combater a disenteria. Em 1773, devido ao trabalho de Parmentier que comprovou que a batata era benéfica, o governo francês mudou então a lei e batatas passaram a ser promovidas como alimento saudável. Apesar de incentivos publicitários, de serem feitas iniciativas onde celebridades comias as batatas a população não aderia. 

No entanto surgiu uma ideia arrojada. Em 1781 o rei Luís XVI disponibilizou uma grande propriedade onde Parmentier plantou uma grande quantidade de batatas. Foram contratados homens armados para guardar os campos. Isto fez com que as batatas ganhassem importância e atenção. Atraiu ladrões que tentavam agora meter a mão neste valioso alimento. No fundo aquilo teria de ser bom, caso contrário não justificaria ser assim fortemente protegido. Foi genial e serviu para disseminar a batata em França. O consumo generalizado das batatas terá tido um grande impulso durante a revolução francesa, devido às vagas de fome que afetaram a França na época. A facilidade de produzir e o alto valor nutritivo da batata ajudou a superar esses momentos de crise. Era o alimento dos revolucionários? Talvez sim, mas o mas provável é que não tenha sido.

Embora a história anterior seja, muito provavelmente, uma criação da Terceira República Francesa, tendo sido ensina na escola às crianças, (Gentilcore, 2012), trata-se de um caso caricato que nos faz pensar sobre o assunto. Sabemos que Parmentier se dedicou ao estudo das batatas e que as defendeu como alimento (Smith, 2012), mas é muito provável que a história tenha sido romantizada e utilizada para fins nacionalistas, uma vez que a generalização do consumo de batatas em França terá ocorrido somente depois da primeira década do século XIX. O que é curioso é que a adoção da batata na Alemanha, na zona da Prússia na época de Parmentier, se terá ocorreido devido à Guerra dos 30 anos. Este conflito internacional arrasou o antigo Império Romano-Germánico e muitas outras partes da europa durante o século XVII. Foi um conflito longo e penoso, que depauperou os recursos da europa central, com efeitos no século seguinte. Recorrer à batata foi uma forma de suportar os volumosos exércitos e de responder à falta de mão-de-obra e instabilidade dos sistemas de produção agrícolas que sofriam com a guerra interminável (McNeill, 1999).

Durante o século XIX ouve outro evento importantíssimo relacionado com as batatas. Na Irlanda dos meados do século XIX a esmagadora maioria da população era rural e dependia, direta e indiretamente, da produção de batatas para sobreviver. Isto porque a população agrícola era arrendatária dos terrenos dos senhores locais. Era um sistema que não incentivava a investimentos e inovação, sendo a batata a melhor colheita para o efeito, dado o baixo custo de investimento e cuidados a ter durante o processo de crescimento. Mas, em 1845, uma praga causada por um fungo destruiu as plantações e gerou vagas de fome duraram até ao final dessa década. No total mataram um milhão de irlandeses e forçaram outro milhão à imigração, principalmente para os Estados Unidos da América (Kinealy, 2006). De notar que a população irlandesa da época rondava os 8 milhões, o que significa que 25% da população desapareceu por causa das batatas.

Assim, a batata, hoje tão comum e popular por todo o mundo, tão presente em cadeias de comida rápida, teve um processo atribulado até atingir esse estatuto. A desconfiança, os mitos e dependências foram gerando novas oportunidades, desenvolvimento, mas também miséria e fome. Exemplos de como funciona a mente humana, de como pode ser difícil mudar hábitos. De como a necessidade de sobrevivência, o poder político e a propaganda geram mudanças socais, económicas e culturais diretas e indiretas. 


Referências:

Gentilcore, D. (2012). Italy and the Potato: A History, 1550-2000. Bloomsbury Publishing.

Smith, A. F. (2012). Potato: A global history. Reaktion Books.

Kanuckel, Amber (2021). The Strange History Of Potatoes And The Man Who Made Them Popular, Farmer’s Almanac. Disponível em: The Strange History of Potatoes And The Man Who Made Them Popular - Farmers' Almanac

Kinealy, C. (2006). This great calamity: the great Irish Famine: the Irish Famine 1845-52. Gill & Macmillan Ltd.

McNeill, W. H. (1999). How the potato changed the world's history. Social Research, 67-83.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Como as epidemias europeias e tudo o resto destruiu as civilizações americanas

Pode parecer estranho, apesar das diferenças tecnológicas, especialmente no domínio militar, ter sido tão fácil para os europeus terem dominado os impérios das américas. É ainda hoje surpreendente como caíram com tanta facilidade os impérios Azteca e Inca, sendo que as cidades da cultura Maia já estariam em colapso bem antes do no início do século XVI.

Mesoamericanos infetados com varíola - Iluminura do Codex Florentino da autoria de Bernardino de Sahagún
Fonte da imagem: https://www.nlm.nih.gov/nativevoices/timeline/180.html

Segundo William Denevau as populações humanas residentes nos continentes americanos antes da chegada dos europeus em 1492 contariam com cerca de 54 milhões de indivíduos, mas em 1635 seriam apenas 5 milhões (The Pinceton review, 2020). Estas informações constam de um manual norte americano de preparação para o exame de geografia humana. Apesar da violência do processo de conquista dos impérios nativos pré-colombianos e da própria colonização subsequente, terão sido as doenças o principal fator que contribuiu para o extermínio da população. Dificilmente saberemos qual a verdadeira proporção do impacto direto da violência militar ou das epidémias sofridas por contágio dos europeus. Os documentos da época retratam as mortes dos nativos face a doenças para as quais não tinham imunidade, tais como a gripe, sarampo, varíola, peste bubónica, entre outras. Estas estimativas variam, alguns autores sugerem que os efeitos das doenças trazidas da Europa, para a qual os nativos não tinham imunidade, tenham resultado em mortalidades que terão variado entre os 50% e os 90% (Roberts, 1989). No entanto os estudos regionais, feitos posteriormente, não parecem revelar evidências de uma vaga des pandemias continentais (Ubelaker, 1992). As evidências sugerem que as doenças fragilizaram fortemente a população nativa, afetada pela guerra e crise social e económica, em que problemas de fomes e malnutrição criaram condições para o grande decréscimo populacional (Moore, 1989). Embora isto não tenha sido nem linear nem simultâneo em todo o vasto território do novo mundo (Ubelaker, 1992), variando de intensidade e ao longo do tempo de modo desigual nos vários territórios, apesar do resultado final ter sido catastrófico. Terá sido então a conjugação de todos estes efeitos que terão gerado, numa análise global, o tal cataclismo populacional, embora não existam certezas sobre a verdadeira dimensão do mesmo. Livi-Bacci (2006) segue por esta visão, destacando as muitas incertezas que persistem, mas salientando, acima de tudo, aos efeitos conjuntos das doenças e da mudança súbita a que as sociedades pré-colombianas foram sujeitas com as interações e conquistas europeias. A mão humana foi seguramente importante, trazendo a espada, a espingarda, mas também um novo sistema de domínio, uma nova elite com hábitos culturais e novas prioridades na exploração económica, que vinha, sem saber, carregada de doenças mortais. 

Subsistem muitas incertezas sobre as civilizações da américa pré-colombiana. Um desses casos já foi aqui abordado anteriormente, sobre a civilização que construiram redes urbanas de cidades na selva amazónica. 

Num momento em que vivemos sob uma pandemia de escala global também não sabemos quais efeitos futuros nas estruturas socioeconómicas globais. Desconhecemos como as nações e organizações internacionais vão responder a crise global económica vindoura. Tudo indica que temos tecnologia e conhecimento capaz de responder melhor a estes desafios, e a cooperação internacional e conhecimento partilhado para ultrapassar isto, apesar de algumas lideranças políticas poderem vir a atrapalhar e desiludir os seus apoiantes. 

Referências bibliográficas:
Livi‐Bacci, M. (2006). The depopulation of Hispanic America after the conquest. Population and Development Review, 32(2), 199-232.
Moore, J.H. 1989. Quantitative and qualitative variables in human evolution. In Plains Indian Historical Demography and Health: Perspectives, Interpretations, and Critiques, G.R. Campbell, ed. Plains Anthropologist, Memoir 23, v. 34, no. 124, 127-133.
Roberts, L. (1989). Disease and death in the New World. Science, 246(4935), 1245.
The Princeton Review. (2019). Cracking the AP Human Geography Exam 2020. Princeton Review.
Ubelaker, D. H. (1992). Patterns of demographic change in the Americas. Human Biology, 361-379.

domingo, 5 de abril de 2020

Da agricultura e as primeiras cidades às doenças infectocontagiosas de origem animal

Tudo indica que até há cerca de 11.000 anos as populações humanas, de homo sapiens sapiens, sofriam do mesmo tipo de doenças infeciosas que os outros símios (Mack et al., 2012). Foi nesse período que terão surgido as primeiras populações sedentárias ou semissedentárias que dependiam de formas primitivas de agricultura. Seria necessária uma grande população permanente a viver em conjunto, associadas ao modo de vida sedentário, para que as doenças infectocontagiosas poderem persistir e espalhar-se pela grande maioria da humanidade (Wolfe et al., 2007). Este processo de desenvolvimento agrícola foi gradual, uma transição de sociedades errantes para sociedades que tendiam a ocupar espaços permanentes e a gerar concentrações humanas nunca registadas. O processo de desenvolvimento agrícola e concentração urbana ocorreu paralelamente, com a domesticação de animais, através da seleção por ação humana, tendo em conta as espécies disponíveis nas várias geografias e que mais se adequavam à vida em cativeiro perto de humanos (Diamond, 2002). A cidade de Jericó terá sido uma dessas primeiras cidades. 

 Jericho - Konstantin Gorbatov

Embora a sedentarização tenha permitido o crescimento das populações humanas e um maior controlo perante a dependência das incertezas provenientes das dinâmicas dos ecossistemas, algo inalcançável para as sociedades de caçadores-recolectores, esta revolução trouxe novos problemas, mais concretamente: novas doenças. Essas novas doenças tinham diferentes origens, podendo estar associadas aos estilos de vida sedentários e a uma falta de variedade da alimentação, mas principalmente às zoonoses (2020), que são as doenças que se transmitem de animais não-humanos para humanos. Muitas doenças infectocontagiosas que ainda hoje existem na espécie humanas têm origem em antigas zoonoses, sendo a gripe uma delas. Essas doenças surgiram pela proximidade de vivências com os animais domesticados, devido à concentração de pessoas em espaços exíguos. Essas doenças foram persistindo nas populações humanas através de ciclos de contaminação e capacidade de desenvolver imunidade parcial ou total, um processo lento, tanto pela força das dificuldades de transportes das primeiras civilizações como pela própria concentração populacional que raramente ia além das centenas nas primeiras cidades.  

As primeiras cidades eram pouco mais do que aldeias apinhadas de toscas casas onde pessoas, desempenhando múltiplas tarefas, viviam conjuntamente com animais em espaços sobrepostos e com escassas condições de higiene (Chueca Goitia, 1985; Mumford, 1961). A Concentração era essencial, pois o solo disponível deveria ser espartanamente gerido, a tecnologia de construção não permitia construções amplas, não havia água corrente nem sistemas de ventilação, as comunidades compactas eram mais fáceis de defender e de gerar entreajuda social, tal como garantiam menores distâncias de deslocação numa época em que viajar era muito complicado. Assim, essas primeiras cidades eram focos propícios para a transmissão de doenças entre animais e pessoas, mas lentamente entre comunidades, pois, apesar dos excedentes e prosperidade socioeconómica ter gerado normais redes de comércio, os transportes eram restritos e lentos. 

Hoje vivemos exatamente o oposto do que acontecia nestas primeiras comunidades urbanas. As condições de higiene globais são muitíssimo melhores, com uma separação higienizada, especialmente entre pessoas e animais, embora essa realidade mude em países menos desenvolvidos economicamente e onde os hábitos culturais ancestrais concorrem com normas de higiene. Mas atualmente a velocidade de deslocação de pessoas é vertiginosa. Uma nova doença, altamente infectocontagiosa, pode ser transmitida à escala global de forma nunca vista na nossa história devido à facilidade de transportes. Um caso disso é o COVID-19. Por isso, também os critérios de controlo de epidemias e pandemias vão passar a vigorar nos requisitos de planeamento e gestão de cidades, para além dos critérios de higienização que herdamos do planeamento urbano do século XIX.

Referências bibliográficas:
Choffnes, E. R. (Eds.). (2012). Improving food safety through a one health approach: workshop summary. National Academies Press.
Chueca Goitia, F. (1985). Breve historia del urbanismo (No. 307.7672 C4).
Diamond, J. (2002). Evolution, consequences and future of plant and animal domestication.
Mumford, L. (1961). The city in history: Its origins, its transformations, and its prospects (Vol. 67). Houghton Mifflin Harcourt.
Wolfe, N. D., Dunavan, C. P., & Diamond, J. (2007). Origins of major human infectious diseases. Nature, 447(7142), 279-283.Mack, A., Hutton, R., Olsen, L., Relman, D. A., &
zoonose in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-04-05 20:56:22]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/zoonose

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Origem da Quarentena

Com a pandemia do COVID-19 a palavra quarentena entrou no nosso vocabulário diário. Atendo aqui ao intuito de partilha de conhecimento do blogue, muito dele de origem histórica, é pertinente investigar um pouco sobre a origem do termo. Assim podemos também usar o conhecimento histórico para refletir e introduzir outros assuntos que estão para além dele, neste caso sobre os métodos de controlo de pandemias.

Vista da Quarentena em Lyon - Jean-Michel Grobon

Foram várias as pandemias registadas na história. Casos de doenças contagiosas eram também motivo para medidas especiais de contenção de propagação, muitas delas associadas a medidas preventivas de higiene, mesmo em épocas como a Idade Média. Há que relembrar que existiam cudados de higiene na idade média e que as pessoas que viviam nessa época não eram indiferentes à higiene individual e pública (Magnunsson, 2013; Smith, 2008), embora estivessem longe dos hábitos atuais. A total falta de higiene e cuidado sanitário, e até uma tendência para imundice, durante a época medieval é um mito. 

Sabemos que os doentes com lepra eram ostracizados e forçados a viver à parte da sociedade medieval. Sabemos que esses doentes, tal como outros enfermos, eram colocados e forçados a permanecerem em locais foram das cidades, caso disso em Portugal são as "gafanhas"* topónimos que ainda encontramos pelo território nacional, mas que na era medieval se destinava a acolher e conter pessoas indesejadas e contaminadas. Sabemos também que muitos cercos a cidades e castelos eram vencidos mais pelas doenças que pelo confronto militar. Temos o caso do cerco a Lisboa em 1384, anterior à famosa batalha de Aljubarrota, que teve de ser levantado pelos castelhanos, uma vez que as suas tropas estavam a ser dizimadas por efeitos de “pestes”**. Foi a doença que salvou a capital do reino de cair em mãos castelhanas e permitiu continuar as guerras pela manutenção da independência.

Apesar destes hábitos antigos, a termo quarentena terá origem nas medidas de controlo de epidemias pela República de Veneza, especialmente da peste bubónica, conhecida como peste negra, de assolou a Eurásia e norte de Africa a partir de meados do século XIV. A primeira medida deste género foi tomada em Ragusa, atual Dubrovnik. Em 1377, o grande concelho da cidade, que era dominada pelo império ultramarino de Veneza, aprovou o trentino. Essa medida consistia em 30 dias de isolamento do barcos e respetivas tripulações que chegavam ao porto da cidade. Só depois desse período podia haver contacto com a população e feitas as transações comerciais (Mackowiak & Sehdev, 2002). Foi a forma encontrada para controlar contágios num império comercial. Não se sabe exatamente como dos 30 dias se passou para os 40, do trentino para o quarentino. Hoje sabemos que os tempos de segurança para prevenir contágio, tendo em conta os períodos de incubação, rondam os 28 dias para maioria das doenças, mas na época a adoção dos 40 dias pode ter tido uma razão religiosa, de influência dos 40 dias tipicamente utilizados e simbolismo importante na cultura judaico-cristã. O caso mais evidente é o da quaresma, com os seus 40 dias de duração (Ibem, Idem). 

Tudo indica que a quarentena seja uma medida muito antiga, fruto do conhecimento empírico e experimental que comprovou que os isolamentos sociais são a melhor forma de controlar pandemias e contágios de doenças desconhecidas. A razão da adoção dos 40 dias, que deu origem ao termo quarentena, pode ter então também uma influência cultural e religiosa. Hoje as quarentenas já não duram exatamente os 40 dias, dependendo de cada caso, mas os efeitos práticos continuam a ser exatamente os mesmos. 

Referências bibliográficas:
Magnusson, R. J. (2013). Medieval urban environmental history. History Compass, 11(3), 189-200.
Mackowiak, P.A. & Sehdev, P. S (2002). The Origin of Quarantine. Clinical Infectious Diseases, Volume 35, Issue 9(1), 1071–1072, https://doi.org/10.1086/344062
Smith, V. S. (2008). Clean: a history of personal hygiene and purity. Oxford University Press.

*Gafanha in Dicionário infopédia de Toponímia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-03-13 12:42:22]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/toponimia/Gafanha
**Crise de 1383-1385 in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-03-13 12:44:32]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/$crise-de-1383-1385

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

The Witcher: uma série nova com nostalgia das aventuras fantásticas

Nunca joguei Witcher. Quando o jogo se popularizou já não jogava muito jogos de vídeo e aqueles que me fascinavam eram mesmo os de estratégia. A disponibilidade e paciência para os RPG era pouca então. No entanto, anos antes joguei os principais títulos.  Mas, ainda antes disso tudo, antes de sequer saber o que era um role-play game, no início dos anos 90 havia uns livros que me fascinavam. Eram as Aventuras Fantásticas. Pequenos livros com um sistema de leitura não linear de capítulos que dependia das decisões que assumíamos no jogo. Estávamos a viver uma aventura em que encarnávamos um papel de aventureiro, que entrava, pelo menos nos primeiros títulos, num labirinto para desempenhar uma determinada missão. A história ia avançando à medida que tomávamos as decisões certas. Podíamos morrer e a aventura terminava por ali caso optássemos pelas combinações erradas. Teríamos então de começar tudo do zero, embora se fizesse alguma batota registando a sequencia de leituras para podermos voltar a trás. Fazíamos “save game” e “load game” sem saber de forma analógica. Fazíamos o registo das características da nossa personagem. Apontávamos itens que íamos recolhendo. Havia um dado para determinar resultados de ações e combates. Era, no fundo, uma espécie de Dungens & Dragons, que foi o primeiro RPG criado em 1974, para jogar sozinho e levar no bolso. Estes livros das aventuras fantásticas chamavam-se no original “Fighting Fantasy” e foram publicadas pela primeira vez em 1982 no Reino Unido, da autoria de Ian Livingstone e Steve Jackson. Foram publicados dezenas de títulos, tendo muitos deles sido traduzidos para português e publicados em Portugal pela Verbo Editorial. Na época aquilo era fantástico. Eu que nem tinha grandes hábitos de leitura então devorava aquilo, e não era o único. As aventuras fantásticas marcaram a minha geração e meteram os miúdos a ler. Os desenhos assustadores ajudavam a visualizar aqueles mundos fantásticos. Ainda hoje tenho alguns bem marcados na memória e quando imagino muitas das criaturas fantásticas a base visual é aquela.



Quando comecei a ver a série Witcher da Netflix dei por mim a viajar para aquele mundo. Aquela primeira cena transportou-me para o Pântano do Escorpião, atravessando a “Floresta Amaldiçoada” rumo à entrada da montanha de fogo e do seu feiticeiro. A entrada na primeira vila, logo no primeiro episódio de Witcher, transportou-me de imediato para os muitos encontros urbanos e para a interação e exploração dos típicos encontros em tabernas. Depois foram todos os outros RPGs digitais que me vieram à memória, naqueles onde as histórias e as narrativas ainda eram básicas, mas procurávamos dinheiros para melhorar os nossos arsenais. Witcher ativou-me todas estas memórias e nostalgias. Só por isso será inesquecível! Só posso imaginar que isso tenha sido igualmente verdade para quem jogou o primeiro titulo digital da saga há mais de 10 anos.

No entanto a série não me parece perfeita. Ao nível dos efeitos especiais, fotografia, guarda roupa e tudo aquilo que contribui para a construção de cenários e ambientes está tudo ótimo. O desempenho dos atores também me parece muito bom, embora algumas supostas incongruências, que podem ser meros defeitos de falta de tempo e de, no meu caso, não conhecer a narrativa base. São imensas as brincadeiras que se fazem com as repetidas interjeições de Geralt de Rivia, com os “Umm” e “Fuck” que são recorrentemente proferidos. Pelo que diz que leu os romances, parece que a série segue com elevada fealdade os escritos de Andrzej Sapkowski, que é o autor do mundo de Witcher. No entanto, admitindo que Geral realmente diria coisas tão elaboradas como as interjeições referidas, há momentos na série em que expressa emoções e diálogos muito mais profundos. Para mim que não tinha conhecimento da literatura base senti que a narrativa dava saltos e que as personagens mudavam subitamente de comportamento sem justificação, faltando algo por contar para garantir coerência e suavidade. Ou então estava apenas distraído – o problema pode ser meu. Apesar de tudo isto, mas posso esperar pela segunda série e por continuar a seguir as aventuras de Geralt, até era capaz de lhe atirar uma moeda a esse bruxo para a nova temporada vir mais cedo.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Como a humanidade escolheu as suas mamas

Quando comparados com os nossos primos símios, nós humanos apresentam diferenças físicas distintas associadas à sexualidade. Copulamos ventre com ventre, as fêmeas da nossa espécie podem expressar visivelmente a sua ovulação e o pénis dos machos humanos é também relativamente maior que os pénis dos outros símios. Caro (1987), citando vários autores, faz assim a introdução do seu artigo de abordagem à origem do tamanho das mamas (ou seios) das mulheres.

Caridade Romana - Reubens
Fonte da Imagem: https://pl.m.wikipedia.org/wiki/Plik:Roman_Charity_-_Pieter_Pauwel_Reubens.jpg#/media/File%3ARoman_Charity_-_Pieter_Pauwel_Reubens.jpg

Ao contrário de todos os outros mamíferos, na espécie humano, as fêmeas desenvolvem os seus seios na puberdade, e não durante a primeira gravidez, através de um processo de hipertrofia dos tecidos adiposos do peito. No entanto os seios de gravidas crescem temporariamente nesse período, independentemente do tamanho anterior. Depois de cada gravidez os seios tendem a voltar ao tamanho anterior, ainda que a idade leve a perdas de sustentação e firmeza. Depois de mais esta introdução ricamente citada, Caro (1987) defende que os seios são sinalizadores, porque parte substancial do seu volume consiste meramente em tecido adiposo, com a sua forma a ser facilmente detetável tanto de frente como de lado, tal como pelo contraste de cor dos mamilos perante a pele do peito. O autor refere que nos primórdios da nossa espécie seria valorizável a acumulação de gordura, especialmente nas mulheres e em determinadas áreas do seu corpo, associadas à sexualidade e à reprodução. No entanto, são apenas hipóteses, tal como se irá verificar em muitos dos autores citados.

Em tempos imemoriais terá então ocorrido um processo de seleção sexual com base nas anteriores diferenças físicas citadas (Marlowe, 1998), porque os homens acham os seios atrativos, devido à sua função de acumulação de gordura e potencial de reprodução (Cant 1981; Gallup 1982) uma vez que abaixo de um certo limiar de gordura as mulheres não podem ovular (Cohen 1980; Frisch 1978). Embora alguns autores prefiram a seleção mais relacionada com a geração de descendência que com a sexualidade propriamente dita, numa abordagem geral as hipóteses não variam assim tanto. Hoje este fator de atratividade pelo simples facto de estarmos perante uma acumulação localizada de gordura causa estranheza.

Autores como Morris (1967) já sugeriam que o acumular de gordura no peito, ancas e rabo seriam formas de proteger a mulher durante a copulação, peito com peito. Outros, tal como Campbell (1974) sugerem que estas caraterísticas foram sendo preservadas e amplificadas por seleção sexual intencional, em que as mulheres que evidenciavam essas caraterísticas tendiam a ter mais descendentes, ao demonstrarem, através de atributos físicos, o seu suposto potencial de reprodução. Outros autores seguem uma abordagem funcional ainda mais pragmática, tal como LeBlanc & Barnes (1974), que referem que os seios grandes permitiam amamentar enquanto agarravam e transportavam os filhos. Outra possibilidade seria que o tamanho poderia ter influência na capacidade de produzir leite, no entanto isso está por provar (Caro, 1987). 

Cant (1981) e Gallup (1982) referem que a acumulação de gordura depositada nos seios, ancas e rabo indicam reservas nutricionais, altamente úteis para a reprodução, com Masia-Lees et al. (1986) a referirem que a permanência dessas fisionomias resulta de processos de seleção, seguindo as mesmas lógicas dos autores anteriores (Low et al., 1987). Low et al. (1987) acrescenta a estas abordagens o um foco no engano e dissimulação, porque a gordura acumulada nesses locais induz a um aumento da produção de leite e ao alargamento dos ossos pélvicos que facilitariam o parto, mas que na prática não é o que aparenta ser. Outra evidência que os autores também referem é que as mulheres de culturas e ambientes climáticos distintos, por exemplo naqueles que obrigam a usar mais roupa como os ambientes em que vivem os esquimós, estas curvas femininas são em média menos pronunciadas. 

Para (Marlowe, 1998) os seios grandes são sinalizadores de idade, firmes na juventude e tendendo para o descaimento à medida que a vida avança, revelando a reduzida apetência para a produção de descendência a partir de determinada altura da vida, tendo um efeito erótico variável. 

Depois de toda esta exposição devemos ficar com as devidas dúvidas e ressalvas. Os próprios autores indicam serem hipóteses, embora pareçam muito plausíveis e assentando em deduções sólidas. Independentemente disso, sabemos do poder da humanidade para mudar os ambientes e das suas capacidades adaptativas a esses mesmos desafios ambientais. Essa capacidade terá sido tanta, tal a nossa flexibilidade como espécie, que até conseguimos enquanto coletivo mudar a fisionomia dos géneros, escolhendo o formato dos nossos corpos. Para refletir.

Referências:
Cant, J.G.H. (1981). Hypothesis for the evolution of human breasts and buttocks. American Naturalist, 117: 199-204.
Campbell B. G. (1974). Human Evolution, 2nd edition. Chicago: Aldine.
Cohen, M. N. (1980). Speculations on the Evolution of Density Measurement and Population In Homo Sapiens. In Biosocial Mechanisms of Population Regulation, M. N. Cohen, R. S. Malpass, and H. G. Klein, eds. Pp. 275-304. New Haven: Yale University Press.
Caro, T. M. (1987). Human breasts: Unsupported hypotheses reviewed. Human Evolution, 2(3), 271-282.
Frisch, R. (1978). Population, Food Intake, and Fertility. Science 199:22-30.
Gallup, G.G. (1982). Permanent breast enlargement in human females: A sociobiological analysis. Journal of Human Evolution, 11: 597-601.
Le Blanc S. A. & Barnes E. (1974). On the adaptive significance of the human breast. American Naturalist, 108: 577
Low, B. S., Alexander, R. D., & Noonan, K. M. (1987). Human hips, breasts and buttocks: Is fat deceptive?. Ethology and Sociobiology, 8(4), 249-257.
Marlowe, F. (1998). The nubility hypothesis. Human Nature, 9(3), 263-271.

Morris, D. (1967). The Naked Ape. London: Jonathan Cape.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Tarot: o primeiro jogo de storytelling que inspirou os jogos modernos?

Existem muitas atividades que poderiam ser vistas como jogos. A arte de contar histórias é tão antiga como a humanidade, ou pelo menos tão antiga como a capacidade de comunicar oralmente. Desde que a nossa espécie começou a comunicar surgiu, invariavelmente, a possibilidade de contar histórias, e gerar narrativas para os mais diversos propósitos e a socorrer-se de elementos que pudessem tornar a dita história ainda mais cativante e emocionantes -  envolvente e imersiva como se diz agora.

A Cartomante - François Joseph Navez
Fonte: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/lot.205.html/2016/voyage-rome-particuliere-italienne-pf1640
O lado narrativo dos jogos tem sido muito importante para a sua afirmação como produto cultural e como elemento atrativo, algo que tem sido muito explorado nos jogos digitais. No entanto há jogos muito mais antigos que já faziam isso. Lembrando alguns dos primeiros jogos de tabuleiro, como o Senet egípcio e o Jogo Real de Ur da mesopotâmia, tem-lhes sido atribuída forte possibilidade de terem sido utilizados para fins religiosos e de geração de narrativas, enquadrados em rituais e até como formas de adivinhação e análise moral dos vidas e comportamentos dos jogadores (Donovan, 2017). Num texto anterior estes dois jogos foram explorados em mais detalhes (ver aqui).

Por outro lado, existem os jogos puramente narrativos, que servem para gerar histórias, ou então ainda os jogos que são histórias. Marco Arnaudo (2018) faz esta distinção, entre os jogos em que são os jogadores que contam as histórias, através dos componentes do jogo, e os jogos cujo elemento central é uma história em que os jogadores participam, mas sem total liberdade de a alterar ou construir de base. Ou seja, temos os jogos em que os jogadores criam o storytelling e os jogos que têm de lidar com um storytelling mais definido.   Exemplo disso são os jogos como o Dixit, em que os jogadores constroem histórias a partir das cartas, e jogos de role play (RPG) como Dungeons & Dragons em que há uma história e os jogadores vão interagir sobre ela com muitas restrições, através das suas personagens. Assim, embora os jogos de RPG possam ser mais recentes, poucas décadas se considerarmos os designs ditos contemporâneos, os jogos de storytelling são muito mais antigos. Um destes primeiros jogos de storytellig que ainda circula são as cartas de Tarot, com as suas múltiplas ilustrações e personagens, utilizadas nas cortes da renascença para gerar histórias e múltiplas narrativas (Arnaudo, 2018). De notar que, mesmo hoje, quando se usam as cartas para fazer adivinhações e interpretações, estão a ser gerados processos de storytelling. Resta saber até que ponto o Dixit não se inspirou nesta utilização lúdica do próprio Tarot. Se notarem, o próprio tamanho das cartas de Dixit é o tamanho Tarot. 

Jogos há muitos, histórias também. Quase todos os jogos contam histórias, dependendo muito também de quem os joga. No entanto, uns contam mais histórias que os outros.

Referências bibliográficas:
Arnaudo, M. (2018). Storytelling in the Modern Board Game: Narrative Trends from the Late 1960s to Today. McFarland.
Donovan, T. (2017). It's all a game: The history of board games from Monopoly to Settlers of Catan.
Macmillan.

domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Quando os jogos de tabuleiro eram rituais e manifestações religiosas: Senet e Jogo Real de Ur

Nos vestígios arqueológicos das civilizações da Suméria e do Egipto, naquelas que foram algumas das primeiras cidades do mundo, encontraram-se jogos de tabuleiro. 

Mas esses jogos não eram apenas diversão. Tanto na Mesopotâmia como no Egito os jogos assumiam um papel importantíssimo na vida social e religiosa, criando narrativas e dinâmicas de jogo que tinham leituras simbólicas, místicas e espirituais. Os jogos faziam parte dos rituais e doutrinas religiosas. No Egito descobriu-se o Senet e em Ur, na Mesopotâmia, o “Jogo Real de Ur”.  

Rainha Nefertari a jogar Senet
Pintura mural do túmulo de Nefertari, esposa de Ramses II
Fonte: https://www.sciencephoto.com/media/185929/view/queen-nefertari-playing-senet

O egiptólogo Peter Piccione propõe que o jogo Senet, que se traduz por “passar, servia de guia para a reflexão espiritual, enquadrada nas crenças de vidas após a morte da religião egípcia. Segundo esse investigador o jogo terá sido readaptado e interpretado pelos cultos religiosos como uma poderosa atividade narrativa. No jogo, que se baseava em movimentos de peças num tabuleiro, mas que desconhecemos as regras exatas, teria uma associação com a viagem que os mortos faziam, de como depois a sua vida era avaliada, e de como então poderiam atingir ou não a vida eterna se disso fossem dignos. Alguns dos jogos foram encontrados com motivos de decoração associados às etapas dos rituais funerários egípcios. Existem pinturas morais da rainha Nefertari a jogar este jogo, sozinha, provavelmente, simbolicamente contra a sua própria alma. Através desse jogo indicia-se que os jogadores poderiam analisar os seus próprios comportamentos, que os poderiam levar à condenação eterna ou à salvação. 

Jogo Real de Ur
Um dos 5 exemplares encontrados por Leonard Woolley em Ur. Hoje patente no British Museum
fonte: By BabelStone (Own work), CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10861909


Já sobre jogo real de Ur sabe-se hoje como o jogavam os antigos sumérios. Pois nos anos 80 do século XX Irving Finkel, ao procurar nos arquivos do British Museum, descobriu registos das regras. Tratava-se de um jogo de corrida em que os jogadores tinham de levar as peças de jogo de um lado para o outro, lançando dados feitos de ossos de ovelha. Apesar de ser uma diversão, tratava-se de uma ferramenta de adivinhação do futuro. A cada casa associavam-se estados e situações que depois eram interpretadas para e pelos jogadores. 

Para ambos os jogos, que nos são apresentados por Tristan Donovam no seu livro “Its all a Game: the history of board games from Monopoly to Settlers of Catan”, o autor faz uma referência de como aleatoriedade e a sorte podiam ser vistas por estes povos antigos como manifestações místicas e formas de comunicação transcendentes, provavelmente uma forma dos mortos e dos deuses comunicarem com os jogadores.
Por isso, quando lançarem um dado, ou tirarem à sorte algo, lembrem-se que para muitas pessoas isso chegou a ser uma manifestação espiritual e religiosa. 

Referências bibliográficas:
Donovan, T. (2017). It's all a game: The history of board games from Monopoly to Settlers of Catan. Macmillan.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Hitler não foi um génio militar e a Bomba Atómica não derrotou os Japoneses: uma série de documentários franceses

Neste momento estão novamente a ser exibidos alguns bons documentários na televisão portuguesa, tanto em canais livres e pagos. Podemos ver regularmente documentários nos vários canais da RTP, especialmente na RTP2, ainda que fosse desejável haver mais. Mas parece que o Canal de História, ainda cheio de "reality Shows", também parece querer diversificar e voltar a ter documentários de história. Veremos se realmente as políticas de programação mudam para algo que sejam efetivamente conteúdos de relevância histórica ou se foi apenas uma exceção. Um desses exemplos é a recente série de documentários de 2017, de origem francesa, produzido pela Cinétévé & Arte, com o nome original de Les Coulisses de l’Histoire e traduzido para português por “História Revelada”. 

"Sempre que partires uma noz pensa em Hitler" - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942-1945)

No primeiro episódio, realizado por Christiane Ratiney, aborda-se o mito de Hitler ser um génio da estratégia militar. No documentário defende-se essa tese, de que Hitler foi de facto um estratega militar amador e que cometeu erros crassos, uma vez que na hierarquia militar nunca tinha sido oficial nem tido qualquer formação nessa área tão específica e complexa. O mérito das conquistas militares deveu-se, em grande parte, aos generais da influente escola prussiana, desde Frederico o Grande, ao pensamento de Von Clausewitz e pela prática das guerras estratégicas desencadeadas com sucesso durante o século XIX, que permitiram construir o império alemão pela direção política de Bismarck. Mesmo o conceito de “Guerra Relâmpago” e o sucesso incrível da vitória sobre a França dependeu do Marechal Erich von Manstein e não de Hitler, que soube aproveitar a superioridade do seu equipamento bélico e treino militar da Wehrmacht. Quem venceu foi o Plano Manstein, cujo o sucesso surpreendeu Hitler, até porque teve falhas, ao ponto de se ter gerado um massivo engarrafamento de veículos alemães que poderia ter culminado num desaire total por falta de planeamento. E a vitoria teria sido retumbante perante os britânicos, que depois de estarem cercados apenas conseguiram evacuar o seu exercito em Dunquerque por culpa do Fuhrer. Isto devido às hesitações amadoras de Hitler, que não decidiu rapidamente o que fazer quando todos os generais pediam para que o ataque fosse incisivo e rápido, de forma a tentar forçar a rendição da Inglaterra, algo que Carl Von Clusewitz seguramente aprovaria. 

A operação Barbarossa, de invasão da URSS, foi uma sequência de erros tomados por Hitler, entre eles a decisão de cercar Estalinegrado e forçar a cidade à rendição em vez de avançarem rapidamente pela sua conquista, tal como a hesitação em avançar para Moscovo, temendo o desfecho que culminou na derrota de Napoleão em solo russo. Tudo isso deu tempo, numa frente excessivamente alargada, para que os Russos se organizassem. Hitler, convencido da sua superioridade tendia a subestimar os inimigos, algo que se pode comprovar nos registos dos seus generais, ao ponto de no final da Guerra ter assumido ele mesmo o comando militar, achando-se mais competente que os seus generais. 

Segundo os autores do documentário, a versão de que Hitler seria um génio militar teria sido alimentado pelos Aliados, para tornar a sua vitória ainda mais grandiosa, uma vez que Hitler passou rapidamente a ser o culpado de todos os males do mundo. Parece que as operações militares a leste, perante o poder massivo do exercito vermelho e de toda a mobilização cívica dos russos, enfraqueceu de tal modo o poder alemão que a derrota na frente ocidental também seria inevitável depois de 1942. No entanto essa versão não era conveniente para os EUA.

"Se trabalhares tanto e tão rápido como um japonês"  - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942 1945)

No segundo episódio desta série de documentários, neste caso da autoria de Cédric Condon, refere-se à rendição do Japão. No qual se defende que não foram as duas bombas nucleares que forçaram o Japão à rendição incondicional, mas sim o avanço soviético que, depois de derrotada a Alemanha, mobilizava as suas forças para a Manchúria, no norte da China, e Coreia. Assim os japoneses, que ainda controlavam imensos territórios na china e sudoeste asiático sabiam que estavam encurralados e que a vitória não seria mais possível, pois quer os Soviéticos quer os Americanos estavam a planear operações de desembarque massivos em solo japonês. Os japoneses tentaram negociar com ambas as potencias a paz, mas os soviéticos não aceitavam a manutenção do governo imperial, tão importante para manter as tradições japonesas. Por outro lado, os Americanos aceitaram esse pedido e assim assinaram a rendição formal. Isto explica o continuar dos conflitos nos anos seguintes na Coreia e depois na Indochina, tal como a destabilização na própria China, enquanto o Japão se manteve estável e sua essência cultural milenar. Tudo indica que os generais Japoneses defendiam a guerra total até ao último soldado, mas que foi o imperador Hirohito a impor a sua autoridade e a decidir a paz com os EUA, não pelo efeito das bombas nucleares, mas por ser o modo de poder manter o trono. Assim, esta decisão Japonesa foi uma derrota para Estaline que não conseguiu ter influência no Japão, tal como algo muito útil para os EUA, que pouparam vidas dos seus militares, tal como contribuiu para construir o mito do poder do seu novo armamento nuclear. 

Mais que pensar que estamos perante verdades absolutas, esta série de documentários força-nos a ensaiar novas perspetivas e pontos de vista, daquilo que são os bastidores da história. Isto porque a história é sempre uma narrativa construindo pela mão humana, que nem sempre se aproxima da verdade, e sofre uma inevitável influência de outros poderes. Cabe-nos então cruzar conhecimentos, fontes e usar das nossas capacidades cognitivas para desvendar aproximações à verdade.

Referências:
Condon, Cédric (2017). Hiroshima, la défaite de Staline, In Les coulisses de l'Histoire. Cinétévé & Arte

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As grandes mentiras da História e o afundamento do Lusitânia: um documentário de Luc David

Começou a ser exibido no canal Odisseia uma nova serie de documentários dedicados a algumas das grandes mentiras da história. No primeiro episódio, do documentário "As maiores mentiras da história" de Luc David, aborda-se o tema do afundamento do barco transatlântico “Lusitânia”, que foi torpedeado e afundado em 1915 por um submarino U-Boat alemão – embora para os alemães se devesse designar U-Boot. 

Desenho artístico representativo do afundamento do Lusitânia - autor desconhecido
Fonte: https://www.express.co.uk/news/world-war-1/566316/RMS-Lusitania-single-torpedo-sinking

Este poderá ter sido um exemplo de fabricação de noticias falsas na imprensa por ação do governo britânico. Em 1915 o Império Britânico estava em guerra com o Império Alemão. Decorria a primeira Guerra Mundial. Os alemães usavam a sua novíssima, os U-Boats, submarinos que permitiam, pela primeira vez, fazerem intervenções de longa distância. A Royal Navy - a marinha inglesa - não tinha qualquer arma que pudesse combater eficazmente esta ameaça alemã. Por isso os U-Boat faziam com alguma eficácia constantes afundamentos de barcos, incluindo barcos de mercadorias que abasteciam as ilhas britânicas. Embora nessa época os britânicos conseguissem produzir mais barcos do que os que eram afundados pelos alemães.

Em 1915 o “Lusitânia”, o maior e mais rápido transatlântico da época foi alvo de um ataque. Os relatos oficiais britânicos dão conta de ter sido alvo de dois torpedos. No entanto os registos alemães referem apenas um. Tudo indica, fazendo fé no material que o documentário expõe, que apenas terá sido efetivamente disparado um torpedo, mas que uma segunda explosão se tenha devido a uma reação em cadeia, uma vez que o navio transportava ocultamente munições de artilharia e outros equipamentos militares a bordo, carregados em Nova York. De notar que os abastecimentos que chegavam de barco desde os E.U.A. eram essenciais para o esforço de guerra britânico. Era importante que o governo britânico terá ocultasse este transporte, nunca tendo sido assumido. O incidente foi utilizado pela propaganda britânica para fomentar o ódio aos alemães, e para tentar trazer os E.U.A. para a guerra, uma vez que morreram mais de uma centena de norte americanos nesse afundamento. Os britânicos tentaram passar a mensagem de que os alemães eram maléficos, desumanos e que não poupavam sequer os civis inocentes. Se fosse descoberto que o navio transportava uma carga militar oculta o próprio governo inglês sofreria consequências políticas.

Consta que o barco se terá afundado em apenas alguns minutos, algo pouco provável para ser um barco daquela envergadura, com mais de 200 metros de comprimento, sob o efeito de dois torpedos apenas. Há que relembrar que a tecnologia de guerra submarina era bastante arcaica, e que os torpedos nem sempre eram eficazes. Uma explosão interna de um volume considerável de munições ajuda a explicar esse rápido afundamento. No diário de bordo do comandante do U-Boat alemão refere-se que perante o drama humano decidiram ir embora sem disparar mais torpedos. Costa também que o comandante do U-boat teria indicações de que o barco era um alvo militar válido na sua base de dados, uma vez que estava identificado como um dos barcos que poderia ser requisitado pela marinha militar para adaptação durante o período de guerra. 

O documentário expõe muitos outros pormenores, pretensas provas e evidências que suportam esta teoria. Segundo essas fontes, em torno do afundamento do Lusitânia terá sido criada uma noticia falsa – uma fake news –muito conveniente para a propaganda britânica e do próprio almirantado, liderado por Winston Churchill nessa altura. Ou seja, as noticias falsas têm servido fins políticos há muito tempo, e se analisarmos mais para trás na cronologia histórica seguramente encontraremos mais casos disso.

Referência:
David, Luc (2017). History´s greats lies. [filme].

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Das Saturnálias ao culto do Sol e o nascimento de Cristo: a origem do Natal

O festival familiar da Saturnalia, ou saturnálias, era provavelmente o festival mais importante do final do ano, tanto para as famílias romanas, mas especialmente para os escravos. Nas Saturnalias os papeis invertiam-se entre senhores e escravos, e havia uma liberdade generalizada para cometer todo o tipo de atos que não seriam permitidos durante os restantes dias do ano, algo semelhante ao carnaval. Pelos registos que nos chegaram, as festividades começariam, segundo nosso calendário atual, a 17 de dezembro e duravam entre 3 e 7 dias, dependendo do período histórico. Deveria ser feito um sacrifício a Saturno, quer para os romanos estava associado à agricultura e a vida feliz. Faziam-se um grande festim, com refeições onde a inversão dos papeis e hierarquia social se dava de modo formal ou informal. Em algumas famílias, depois dessa refeição, dava-se uma troca de presentes, seguindo-se jogos, discussões literárias e bebidas desregradas (Dolansky, 2010). Podemos encontrar semelhanças entre as celebrações das saturnalias e as atuais festividades de Natal.

Saturnalia - Antoine Callet
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saturnalia_by_Antoine_Callet.jpg

Igualmente importante na influência das festividades cristãs foram os diversos cultos do Sol, sistematizados como culto imperial numa altura em que se exigia unidade política. Este culto imperial, personalizado na figura do imperador, do Invictus Dominus Imperii Romani, instituiu-se em 274. d.C. As associações de Cristo, e de todas as figuras da nova religião, aos cultos solares são evidentes em várias fontes. O estabelecimento do que seriam as festividades do natal cristão deve ter ocorrido entre 243 e 336 d.C., coincidindo com os cultos do sol, assumidos pelo regime imperial e comuns a vários cultos mais antigos fortemente estabelecidos nas provinciais imperiais romanas. O dia de nascimento de cristo terá sido assumido, por conveniência, no dia 25 de dezembro em 350 d.C.. Essa data ficaria a vigorar no ocidente e atribui-se ao Papa Júlio I (Roll, 1995). 

Assim, como tantas outras festividades e tradições, o Natal, que hoje também se afasta dos cultos cristãos primordiais, resulta de uma construção social ao longo da história. Por isso, não é de estranhar que as festividades continuem a evoluir pelas múltiplas influências sociais e conveniências que vão surgindo.

Referências bibliográficas:
Dolansky, F. (2010). Celebrating the Saturnalia: religious ritual and Roman domestic life. A companion to families in the Greek and Roman worlds, 488-503.
Roll, S. K. (1995). Toward the origins of Christmas (Vol. 5). Peeters Publishers.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Quando o Urbanismo de Haussman dificultou as manifestações e revoluções

Haussman, o Barão, foi perfeito de Paris no reinado de Napoleão III que instituiu o segundo império. Liderou a gestão da cidade de Paris entre 1853 e 1870, implementando um programa que pretendia estabilizar mas igualmente modernizar a cidade, seguindo os duplos impulsos do novo imperador. Odiado por muitos na época, mas sem a visão deste homem Paris hoje seria algo muito diferente. Transformou a cidade, à custa de um elevado grau de destruição urbana. Do tecido medieval de Paris pouco ficou. Abriram-se grandes avenidas, espaços públicos e a cidade ficou mais fluida e arejada. Na época vigorava a necessidade de normas de higienização e sanitárias, uma vez que as grandes metrópoles, e principalmente Paris, eram focos de doenças e insalubridade, tal como infindáveis problemas sociais. Com essa intervenção, mas também por ser a capital de um dos mais poderosos estados europeus, Paris foi a cidade dominante a nível mundial durante todo o final do século XIX.

Lamartine, em frente à câmara municipal de Paris, recusa a bandeira vermelha, em 1848 - Félix Philippoteaux

Ainda hoje Haussman é criticado pelos defensores do património urbano por ter destruído a morfologia medieval urbana de Paris, no entanto consta não ter destruído qualquer monumento relevante, ajustando os traçados ao edificado histórico mais importante. Obviamente que não poupou as construções vernáculas e populares. Ficamos ainda hoje com essa dupla sensação de amor ódio, de apreciarmos hoje a Paris de Haussman, com os seus novos prédios de época, mas com pena de não desfrutarmos do que seria uma das maiores cidades medievais de sempre. Ainda podemos encontrar alguns traços da estrutura urbana medieval, especialmente na zona do Quartier Latin, perto das zonas urbanas ocupadas pela antiga universidade. No entanto, mesmo essa parte da cidade, foi sendo modernizada.

Mas tudo isto para falar da dimensão política do desenho e funcionalismo urbano. Haussman viveu numa época de grande instabilidade política, em que Paris era recorrentemente o foco de manifestações, golpes e revoluções. Aliás, ele só chega ao comando de Paris pela ação revolucionário de Napoleão III. Diz-se que o plano de renovação urbana de Haussman tinha também outra intenção, de abrir os arruamentos para impedir as barricadas e apoio urbano aos revoltosos. Com facilidade de movimentos nas grandes artérias as tropas do regime podiam facilmente intervir, e seria muito mais dificil criar zonas defensivas ou condicionar a circulação urbana pelo revoltosos. Não podemos afirmar isso com certeza, embora possamos ler isso nas entrelinhas dos planos e das soluções práticas. O certo é que as revoluções em Paris deixaram de ocorrer da mesma forma desde então.

O modelo de urbanismo de Haussman generalizou-se por muitas outras cidades, seguindo-se múltiplos ímpetos que tentaram higienizar e desafogar os tecidos urbanos, dando continuidade a alguns projetos de urbanismo do período do absolutismo, em que monarcas quiseram deixar a sua marca urbana através da monumentalidade dos edifícios públicos, praças e avenidas.

As novas intervenções inspiradas na gestão de Haussman vieram forçar a pensar na cidade como um todo. Não foi por isso que se deixaram de fazer manifestações e revoluções, mas passou a exigir-se outra escala. Por isso, curiosamente, até me arrisco a dizer que Haussman criou as condições para que os movimentos sociais tivessem mais impacto nas cidades, pois aumentou-lhes a fasquia. Dificilmente alguém planearia algo pequeno depois.


Algumas referências bibliográficas de apoio:
Chueca Goitia, F. (1985). Breve historia del urbanismo (No. 307.7672 C4).
Delfante, C., & Feio, L. M. C. (2000). A grande história da cidade: da Mesopotânia aos Estados Unidos.
Mumford, L. (1998). A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas (p. 67). São Paulo: Martins Fontes.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Das mulheres para as trincheiras: a utilização do relógio de pulso

O relógio de pulso é uma invenção relativamente recente.  Se o relógio mecânico terá surgido por volta do século XIV, a invenção do relógio de pulso terá surgido apenas na última metade do século XIX, e terá sido, nessa época, primeiro um adereço prático de mulheres, que assumia também forma de joia ou então algo mais prático com as pulseiras de couro. Nessa época os homens usavam, maioritariamente, relógios de bolso, com as típicas correntes ornamentais fora dos coletes. 

Mulher sentada com relógio - Picasso
fonte da imagem: https://www.flickr.com/photos/136930126@N05/22168444116

Foi no início do século XX, com a necessidade de ter um modo de consultar as horas de forma mais prática que o relógio de pulso ganhou dominância. Foi especialmente na I Guerra Mundial que o uso se generalizou entre os homens, dada a necessidade de ter um meio prático de coordenar as operações militares, numa guerra em massa e acelerada pela escala e novas tecnologias. 

Consta que os pilotos também aderiram a esta solução, uma vez que lhe libertava as mãos para operar veículos, aviões e etc. 

Curiosamente, hoje me dia voltamos a andar com os relógios no bolso, na forma de smartphones. O uso de relógio de pulso tende a ser uma opção decorativa para homens e mulheres dos nossos tempos. 

Referências bibliográficas:
Doensen, P. (1994). WATCH: History of the modern wrist watch. Jan van Scorelstraat, 80(3583), 174.
Stephens, Carlene; Dillon,Amanda; Dennis, Margaret (1997). Revolution on Your Wrist. National Museum of American History. Disponível em: http://amhistory.si.edu/docs/Dennis_Stephens_Dillon_%20Revolution_on_Wrist_1997.pdf



Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails
WOOK - www.wook.pt

TOP WOOK - Arte

TOP WOOK - Dicionários

TOP WOOK - Economia e Finanças

TOP WOOK - Engenharia

TOP WOOK - Ensino e Educação

TOP WOOK - Gestão

TOP WOOK - LITERATURA





A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



Introduza o seu e-mail para receber a newsletter do blogue: