Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Pensar constantemente nos custos de oportunidade seria uma loucura?

O conceito de custo de oportunidade é algo essencial para qualquer análise económica, mas muito pouco comum nas nossas decisões do dia-a-dia. Sabemos que os modelos económicos têm dificuldades em simular todas a realidade, pois são simplificações da realidade para mais fácil definição e análise. Nessas simplificações é dificil replicar, entre outras coisas, a complexidade e imprevisibilidade do comportamento humano. Normalmente, os modelos económicos, ditos clássicos, consideram que os atores dos sistemas económico tomam as melhores opções, as mais racionais. Mas os economistas, munidos dos seus modelos, sabem que isto não é verdade. Eles, mais que ninguém, sabem das limitações dos seus modelos.

Christina’s World (1948) – Andrew Wyeth

Se adotássemos decisões sempre racionais, e munidos de todas as informações necessárias, teríamos de estar sempre a considerar os custos de oportunidade, de tudo o que fazemos. Teríamos de ter alternativas constantes para tudo e conhecer as possibilidades análogas ou outras possíveis de serem empreendidas. 

Os custos de oportunidade podem ser definidos como tudo aquilo que nos custa, ou perdemos, ao não investirmos ou direcionar os nossos recursos para outras atividades que seriam mais rentáveis. Ou seja, imaginem estar constantemente a analisar tudo o que fazem de modo a escolher aquilo que vos traria mais benefícios. E não se podem esquecer que nem todos os benefícios têm forçosamente de ser monetários. Seria desejável ter sempre este conhecimento na hora de decisão, mas seria altamente impraticável. Primeiro porque obrigava a massivas quantidades de informação e de cálculos. Gastaria imenso tempo. Depois porque nos obrigava a atribuir valor a tudo, incluindo coisas que não têm valor definido ou que podem ser imensamente subjetivas. Por exemplo, quanto vale observar uma paisagem?

Não desesperem, pois existem métodos e técnicas para considerar e contabilizar bens e atividades associadas a bens sem valor de mercado. Talvez seja um tema para um próximo texto.

Em resumo, fica dificil estarmos sempre a fazer análises dos custos de oportunidade de tudo o que fazemos. Mas é imensamente útil ter esta noção em mente, nem que seja para valorizar certas coisas que fazemos e que inicialmente até podemos nem valorizar na devida conta. Podemos não saber o valor exato, mas podemos ter a certeza que têm algum valor. O certo é que existe sempre, no mínimo, um valor de comparação. Algo como eu estar a escrever este texto pelo simples prazer de o fazer, em vez de estar a escrever outra coisa que eventualmente me pudesse dar um rendimento. E quem fala em escrever poderia falar em muitas outras atividades alternativas consumidoras do meu tempo. Já sabem, o tempo habitualmente é dinheiro, mas de valor incerto e variável. 

Referências de apoio para saber mais sobre custos de oportunidade:
Buchanan, J. M. (1991). Opportunity cost. In The world of economics (pp. 520-525). Palgrave Macmillan, London.
Frederick, S., Novemsky, N., Wang, J., Dhar, R., & Nowlis, S. (2009). Opportunity cost neglect. Journal of Consumer Research, 36(4), 553-561.
Kurzban, R., Duckworth, A., Kable, J. W., & Myers, J. (2013). An opportunity cost model of subjective effort and task performance. Behavioral and Brain Sciences, 36(6), 661-679.
Palmer, S., & Raftery, J. (1999). Opportunity cost. Bmj, 318(7197), 1551-1552.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A fome dos Pardais na china de Mao Tsé-Tung e ignorância da ideologia

Mao Tsé-Tung conseguiu, com os seus camaradas, depois de uma longa guerra civil e dos efeitos da ocupação japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, implementar um regime comunista na China. Em 1949 Mao consegue juntar a presidência do partido comunista chines à da própria china. Intitulava-se como o Grande Timoneiro, implementando um regime totalitário onde o culto da personalidade do líder foi muito forte. Mao era, acima de tudo, um ideólogo e um doutrinador, tentando utilizar os ensinamentos marxistas para modernizar a China, numa relação nem sempre de cooperação com a URSS.

Poster da campanha "mata um pardal" - autor desconhecido

A China que Mao Tsé-Tung conquistou em meados do século XX ERA esmagadoramente rural e atrasa do ponto de vista tecnológico, a nível de desenvolvimento quase medieval, especialmente nas zonas rurais. Durante a década de 50 os resultados da governação de Mao não foram os esperados, por isso implementou aquilo a que chamou “O Grande Salto em Frente”, entre 1958 e 1962. Para ele uma das prioridades seria acabar com as 4 pestes: os ratos, moscas, mosquitos e pardais. Aos ratos e moscas atribuía a culpa de doenças e da falta de higiene. Os mosquitos relacionavam-se com a malária, e os pardais com as perdas das colheitas. 

Assim, em 1960 popularizou-se a campanha “matar um pardal”, que incentivava as pessoas, especialmente nas áreas rurais a caçar e matar pardais nos seus tempos livres. Foi uma matança enorme, que quase exterminou todos os pássaros da china. Mas ao eliminarem os pardais e muitas outras aves, eliminaram também os principais predadores das pragas de insetos que atacavam também as colheitas agrícolas. A china sofreu uma fome massiva que causou a morte de dezenas de milhões de chineses. Há estimativas de terem morrido de fome pelo menos 20 milhões de pessoas por causa deste erro, embora outras estimativas sejam muito mais dramáticas.

Atribui-se a Mao Tsé-Tung a frase “Prefiro um vermelho a um técnico”. Isto revela o pensamento de Mao, a desconfiança perante os intelectuais, os técnicos e quem detinha conhecimento aplicado, algo que se sentiria mais fortemente na época da “Revolução Cultural”. A sua ideologia e a sua doutrina estavam acima de tudo, de todos os conhecimentos e saberes, especialmente os técnicos e académicos. O ditador irritava-se facilmente com a crítica e com todos aqueles que discordavam dele. Foram várias as purgas e as perseguições. “O Grande Salto em Frente” foi um descalabro e Mao Tsé-Tung foi forçado a afastar-se do governo em 1962. Mais tarde, em 1966 voltaria ao poder, munido do seu “livro vermelho”, que era um compêndio de várias fases da sua autoria, pronto a fazer a famosa “Revolução Cultural” e que rapidamente passaria do ferver ideológico ao marasmo social. A supressão e afastamento da influência dos membros mais cultos, esclarecidos e conhecedores da vida ativa chinesa, substituídos assim pelo movimento popular miliciano da Guarda Vermelha, composta por fanáticos que se mostravam incompetentes nos assuntos da governação e produção, voltou a estagnar novamente o desenvolvimento do país. Essa tendência só se alteraria posteriormente com o retorno de Deng Xiaoping a partir de meados dos anos 70, que iria abrir a china e a sua economia ao mundo, mas mantendo o domínio do partido comunista chinês. 

Este episódio da história universal, tão estranho que quase parece uma ficção, demonstrou os efeitos catastróficos que podem surgir das políticas públicas dirigidas apenas pela ideologia política, sem recurso a conhecimentos técnicos e científicos. Foram eventos desta natureza que desacreditaram e continuam a desacreditar a ideologia política. No entanto, ainda assim, conhecemos casos de líderes políticos que continuam a lutar por convicções pessoais, sem demais fundamentos para além dos seus sistemas de crenças. 


Referências bibliográficas:


Li, W., & Yang, D. T. (2005). The great leap forward: Anatomy of a central planning disaster. Journal of Political Economy, 113(4), 840-877.

Peng, X. (1987). Demographic consequences of the Great Leap Forward in China's provinces. Population and development review, 639-670.

Roberts, J. A. (2011). A history of China. Macmillan International Higher Education.

Saada,  Philippe (2017) Mao, le père indigne de la Chine moderne, In Les coulisses de l'Histoire.
Cinétévé & Arte



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lipovetsky em Coimbra: reflexões sobre hipermodernidade, hiperindividualismo e hiperconsumismo

Quem tem estado atento a alguns textos que vou escrevendo aqui para o blogue já percebeu que Gilles Lipovetsky é um daqueles autores que vou regularmente citando. Lipovetsky é um dos filósofos e sociólogos mais curiosos do nosso tempo, dos tempos hipermodernos como o próprio apelida. Por isso não podia desperdiçar a oportunidade de o ouvir ao vivo quando na passada sexta-feira, dia 18 de janeiro este em Coimbra numa palestra em que falou de individualismo e consumismo. Não contava tirar muitas notas, uma vez que já li várias obras do autor. Mas foi impossível não o fazer, o que me levou a ter de estar sempre a escrevinhar no telemóvel para aproveitar algumas declarações que me pareceram relevantes. São dessas anotações que surge este texto, pois pareceu-me valer a pena deixar aqui o registo. 

Gilles Lipovetsky na conferência: "La société d'hyperconsommation: sommes-nous plus heureux?"

Lipovetsky descreve-nos como consumidores. Para ele vivemos na hipermodernidade e não na pós-modernidade como defendem outros filósofos e pensadores. Defende que a modernidade não terminou, que apenas se intensificou. Segundo ele somos hipermodernos porque amplificamos o que considera essencial do modernismo: o sistema democrático liberal, o individualismo e o consumismo. Na conferencia não referiu as mudanças no peso das grandes narrativas políticas e ideológicas que quebram esse aspeto da modernidade, algo que invoca na sua obra literária. Teria sido uma boa questão para lhe colocar, mas não me lembrei na altura. Ou seja, hoje defendemos sistemas democráticos mais profundos, garantias de todas as liberdades, somos muito mais individualistas e consumimos a uma escala sem precedentes. 

E todas estas mudanças são bem recentes, tendo ocorrido nos últimos 30 anos nas sociedades ditas ocidentais e ricas, do norte global como alguns gostam de chamar. Mas a sociedade do consumo é mais antiga, identificável com o pós 2.ª Guerra Mundial. A diferença consiste na escala, forma e tipo de consumo, que anteriormente era marcadamente coletivo. O automóvel era para a família, tal como as comodidades dos lares, eletrodomésticos e televisão. Não se tratava de um consumo individualizado e personalizado como ocorre hoje. 

O consumo afirma-se como uma forma de afirmação e contribuição para o individualismo crescente. Os indivíduos escapam hoje ao controlo de classe. Já não existe uma cultura de classe que legitima comportamentos a grupos de pertença, nem um controlo coletivo sobre as práticas de um consumo que se foi desregularizando . Nós é que escolhemos o que queremos ser e com quem nos identificamos. Desapareceu a hierarquia do gosto. No entanto não somos mais felizes. Lipovetsky afirmou que a felicidade através do consumo ocorre naturalmente quando nos elevamos da pobreza, mas que a partir de um determinado limiar a proporção do que se consome fica muito aquém da felicidade que esse consumo traz. Esse é um dos sentimentos paradoxais da hipermodernidade. Apesar de muitos de nós conseguirem escolher de acordo com as nossas preferências, isso não garante a felicidade. Ficamos sem saber o que nos impede de sermos felizes e isso pode ser angustiante. 

O consumo tornou-se emocional, mas ao mesmo tempo informado, e ingenuamente carregado de consciência ambiental, embora não seja isso que nos impeça de consumir cada vez mais. As emoções, no entanto, não nos incitam a compras de impulso. Cada vez mais comparamos e procuramos o melhor preço para o melhor produto. A economia do consumo tende para incentivar os consumidores a colecionarem experiências, a elevarem a um valor supremo a distração. Escolhemos com critério apenas para termos dinheiro para consumir mais e diferente. 

No entanto Lipovestky tem uma visão positiva do consumo. Acredita que tem um lado benéfico, de distrair de outras intenções e projetos políticos que levaram aos maiores dramas da humanidade. Considera ser incompatível com o totalitarismo e com as restrições da liberdade. As grandes narrativas de um sacrifício no presente para garantir um paraíso religioso ou uma utopia política no futuro tendem a ser controlados pelo hedonismo generalizado, e atraem apenas minorias da sociedade. Queremos o prazer agora e não depois. Mas isso não imuniza dos problemas políticos como bem sabemos. Existe uma deceção com os políticos, mas não com as marcas e o consumo. Por isso, as soluções políticas que queiram defender a possibilidade de consumir cada vez mais terão forte apoio popular, mesmo que a consciência ambiental seja universal, porque no dia-a-dia simplesmente consumimos. 

Para Lipovetsky a solução, de manter o nível de consumo e de garantir a sustentabilidade ambiental passa pela economia circular e partilhada. Só assim poderemos manter o nível de consumo do qual dependemos sem tendermos para a autodestruição. Passa também por dar primazia à educação e cultura, para que possamos consumir algo imaterial que nos dá felicidade e realização. 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Reciclar para manter o valor versus o "downcycling" e o "upcycling"

O conceito de reciclagem está bastante generalizado e é facilmente compreendido por não especialistas em gestão de resíduos. No fundo é uma coisa do nosso dia-a-dia. Ainda bem que o é, caso contrário estaríamos muito mal. Mas poderá tudo ser reciclado? E será que chega apenas reciclar. O conceito está generalizado, mas quando a esmagadora maioria da população diz que recicla em sua casa será que devemos ficar preocupados? Isto porque dificilmente alguém poderá reciclar em casa.  O que será suposto fazermos consiste na separação de resíduos, pois reciclar é algo muito mais complexo e exigente. A Reciclagem é uma das várias possibilidades a realizar posteriormente, de forma massificada e tecnicamente controlada nos sistemas de gestão de resíduos.

Reciclar podem ser entendido como “voltar a utilizar” depois de um processo de processamento e reconversão do resíduo em causa. O ideal seria a reutilização dos produtos sem que se chegasse ao ponto de serem considerados resíduos. Não sendo possível continuar a utilizar, ou recorrendo a reparação e outro tipo de intervenções que mantenham o produto ou bem em funcionamento, a reciclagem será então a próxima opção. 



Reciclar pressupõe a reutilização de reconversão para o mesmo grau de valor. No entanto, na realidade pode acontecer uma reconversão do resíduo num novo produto de valor inferior. Para melhorar o desempenho na gestão de resíduos o ideal seria aumentar, ou pelo menos manter, o valor na reutilização. Em vez de reciclar (recycling) deveríamos tentar um “melhorciclar” (up-cycling), que no fundo seria aumentar o valor tendo em conta a origem dos resíduos que contribuíram para constituir o novo produto. Acabei de inventar o termo, porque em português não parece haver uma designação tão boa como a terminologia inglesa. Por outro lado, há que tentar evitar o “piorciclar” (down-cycling), que consiste em gerar produtos de valor inferior. Tudo isto são conjeturas ideais, porque nada garante que aumentar o valor de um produto que resulta da reconversão de um determinado resíduo não obrigue a um processo tão dispendioso e intensivo em recurso que seja insustentável. Se pensarmos na utilização ainda antes do bem se tornar resíduos podemos estar então a falar de "preciclar". Tal como referido, esta seria sempre a opção mais sustentável, tanto quanto menos intervenção, adaptação e reparação tivesse de ser realizada.

Seja como for são estas aferições de valor dos produtos reciclados levanta questões relevantes e que devem ser tidas em conta, especialmente porque nos alertam para a sustentabilidade da própria reconversão dos resíduos. Não basta reciclar a qualquer custo e de qualquer maneira, mas saber planear e gerir como reciclar. 

Estes conceitos do downcycling e upcycling foram explanados pelo professor Roland Clift numa palestra realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, no âmbito do projeto Urbanwins, que visa o metabolismo urbano e neste evento particular abordava o tema da economia circular.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pagamos com mérito as desigualdades: um documentário de Alex Gabby

O preço do que é justo, no original “The Price of Fairness”, é um documentário de Alex Gabby que nos faz pensar sobre a justiça e igualdade. O documentário começa por relatar diversas experiências da sociologia e psicologia comportamental sobre situações de tomada de decisão, que implicam questões de distribuição e justiça. Uma dessas experiências consistia em formar pares com pessoas de desempenho diferente num jogo em que individualmente cada participante tenha recebido dinheiro virtual em função da sua capacidade para resolver desafios e problemas matemáticos.  Depois propunham ao par que distribuísse os rendimentos somados de ambos, associados à soma da prestação individual de cada um deles. Constatou-se que os indivíduos que tinham melhores resultados eram menos propensos à partilha desses rendimentos de forma igualitária, enquanto os detentores de resultados próximos da média, mesmo que acima dela, mais facilmente abdicavam da sua parte correspondente de forma a permitirem que se fizesse uma distribuição igualitária dos ganhos, mesmo abdicando de uma parte do seu contributo. Comprova-se que há uma noção de competitividade, associada à meritocracia, que legitima a desigualdade. Curiosamente, uma vez que o público da experiência eram alunos do ensino superior norueguês, os alunos de gestão e economia revelaram ser os mais egoístas.


No documentário somos levados a concluir que a meritocracia é uma farsa, uma impossibilidade pois a bagagem e contexto em que crescemos são claramente promotores da desigualdade. O sucesso depende fortemente das “heranças”, em todas as suas dimensões (patrimonial, genética e de contexto), mas também muito da sorte. Mesmo que as crianças tenham uma noção de justiça quase desde a nascença os contextos sociais e familiares impedem a meritocracia. Essas constatações são apresentadas com base noutra experiência realizada nos EUA por investigadoras de psicologia de desenvolvimento apresentada no documentário.

Surgem então imensas questões que nos fazem colocar em causa grande parte das estruturas sociais, da forma como se constroem (ou como as construímos). Podem os pobres faze escolhas diferentes das que assumiram? Existem regras diferentes para os ricos e poderosos, mesmo nas democracias? Apesar de tudo quem produz e legitima leis e as regras que regem as sociedades não estará a reforçar as mesmas estruturas e hierarquias desde sempre? Poderemos mudar o sistema mesmo que seja controlado por poderes antigos?

O documentário levanta imensas questões, fala de muitos casos. Começa com abordagens académicas, da sociologia e psicologia comportamental. Passa pela referência à psicologia do desenvolvimento moral e avança para as teorias de desenvolvimento económico e social. Refere-se a muitos exemplos de muitas regiões e países contrastantes. Revela casos de tentativas de inovação, de escândalos que abalaram o mundo. Fala do caso surpreendente da Costa Rica, onde o PIB não é digno de destaque internacional mas o índice de desenvolvimento humano é bastante grande, significando que qualidade de vida não tem de significar riqueza no sentido da acumulação massiva de capital. Apresenta-se o Partido Pirata na Islândia como alternativa ao sistema político que pretende implementar um novo modelo de justiça e de democracia participativa, num país que expulsou do poder a classe política dominante e decidiu coletivamente não assumir na sua dívida público produtos de especulação financeira.
Fica a introdução.

terça-feira, 20 de março de 2018

Como os câmbios serviam para esconder o pecado de cobrar juros

O sistema bancário, como hoje o conhecemos, terá nascido da ação dos banqueiros das cidades-estado independentes italianas, dessa complexa rede de bancos, famílias e sucursais. Este sistema lidava com muitas moedas, dentro e fora do espaço da península itálica. A conversão do cambio, com as suas múltiplas taxas entre moedas, diferindo de local para local, era transposta para as letras de crédito. Já se recorria a papeis devidamente reconhecidos para transferi dinheiro entre instituições, credores e devedores – algo que os cavaleiros templários se tinham especializado antes de serem perseguidos.

A Calúnia de Apelles - Sandro_Botticelli

Mais que uma mera conversão de moedas, o câmbio era um modo evitar a sansão canónicas da Igreja católica – algo que não se podia ignorar. Para a igreja católica a usura era um pecado grave, atividade típica dos judeus e outros que se tornavam impuros por venderem dinheiro aos olhos da doutrina dominante. O câmbio e o recâmbio camuflavam no os empréstimos e respetivas taxas de juro cobradas. Os fluxos complexos que os capitais assumiam, com contínuos câmbios e recâmbios entre várias sucursais, com alguns testa-de-ferro no meio do processo faziam perder o rasto para uma análise quanto ao pecado da usura [1].

No entanto este método implicava imensos riscos, pois dependia do valor espectável de cada moeda no futuro, sendo altamente arriscado efetuar estes câmbios e recâmbios com moedas instáveis para ocultar juros de empréstimo a longo prazo. Os principais bancos tentavam colocar representantes e abrir sucursais nas principais praças para estarem perto dos mercados e dos decisores políticos, de modo a poderem influenciar decisões e atividades que fizessem variar a economia e tesouros que se relacionava com cada moeda. A circulação de informação era constante, para que se pudesse mitigar riscos e tomar medidas e ações políticas e económicas em tempo útil. Não é por isso de estranhar que os Medicis, principais banqueiros de Florença, depois de toda a Itália e da Europa tenham conjugado o poder económico com o poder político, especialmente depois de se transformarem na agência bancária do Papa. Acediam assim também facilmente a toda a europa, no sistema paralelo de propriedades e tesouro da Igreja. Um sistema que se sobrepunha e cruzava com a rede de cidades-estado, bancos, instituições, redes de comércio, reinos impérios do mercado europeu medieval, quase sempre bastante atomizado até ao início da Idade Moderna.

Posteriormente, com o movimento protestante fortemente influenciador no centro e norte da europa, a prosperidade financeira deixou de carregar uma conotação negativa. Prosperar economicamente para os protestantes passou a ser um ato digno de um bom cristão, mesmo que fosse a operar nos mercados financeiros, desde que de forma legitima. Terá sido esta mudança a inspirar Max Weber e a sua obra, em que desenvolveu a teoria da relação do protestantismo com o espírito do capitalismo [2]. O que não impede que o capitalismo, pelo menos numa forma precoce, tenha começado em Itália ainda na Idade Média e sob domínio religioso católico.

Assim, a complexidade do sistema bancário e financeiro vem de há muito tempo. A relação entre economia, política e religião também.

Referências bibliográficas:

[1] Delumeau, Jean (2007). A Civilização do Renascimento. Edições 70.

[2] Weber, Max (2015). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Editorial Presença.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Será que pagamos o real preço do transporte marítimo?

Quando começamos a estudar um pouco sobre transportes uma daquelas verdades quase absolutas, que todos sabem, é que o transporte de mercadorias por via marítima é o modo mais eficiente. Apesar de ser uma generalização, que pode ser invalidada por imensas variáveis particulares, não é muito difícil perceber que um barco, a operar em condições ótimas, concebido para transporte de cargas consegue transportar uma grande quantidade de peso e volume de uma só vez sem que sejam necessárias pesadas infraestruturas de apoio ao percurso e consideráveis recursos humanos, ao contrário do que acontece com o transporte terrestre. Com o aumento da tonelagem dos barcos, com a automatização dos processos, com a tecnologia dos contentores estandardizados e sistemas de planeamento, gestão dos fluxos de cargas de forma global compreende-se o potencial para uma elevada eficiência deste meio de transporte.


No entanto, nem sempre as condições ótimas ocorrem, por diversos motivos. No documentário "Freightened: the real price of shipping" de Denis Delestrac explora-se o lado negro, segundo os autores, do transporte marítimo, tentando desmontar a ideia da absoluta eficiência do transporte marítimo de carga. O documentário alerta também para não estarmos a suportar os reais custos e impactes dessa atividade. O documentário foi exibido em Portugal pelo Canal Odisseia com o nome de "Freightened: o preço real do transporte marítimo".

Cerca de 90% dos produtos que consumimos são transportados, em algum momento, por transporte marítimo. Os autores dos documentário alertam para elevada probabilidade de apenas 5% dessas cargas estarem a ser controladas, tornando o transporte por contentores marítimo perfeito para tráficos ilícitos de toda a natureza. Alertam para a deficiência da regulamentação do setor, pois, em alto mar, as empresas detentoras dos barcos têm de cumprir a legislação do país cuja bandeira ostentam, o país em que o armador registou o barco. Existe assim uma intensa competição internacional de determinados países, quase sempre países pouco desenvolvidos ou offshores, para oferecerem as melhores condições aos armadores, que é o mesmo que dizer: redução das cargas fiscais, da legislação laboral, ambiental e etc. Os efeitos são pouquíssimos direitos laborais para as tripulações e uma grande folga para gerar descontrolados impactes ambientais associados ao funcionamento dos barcos. Há que lembrar que os motores dos grandes barcos consomem qualquer tipo de combustível fóssil, optando as empresas pelos mais baratos que são respetivamente os mais poluentes. Para os autores dificilmente haverão alterações, pois são os países com maior número de barcos registados quem mais peso tem internacionalmente nas organizações de regulamentação do setor, o que significa que o controle será naturalmente pouco apertado e exigente.


O documentário levanta muitas outras questões. Embora a realidade possa não ser exatamente nele se relata, não deixa de ser um assunto de interesse global e que merece ser cuidadosamente analisado. Enquanto consumidores deste mundo global, onde o nosso individualismo e identidade se manifesta fortemente através do consumo, sendo que temos acesso a cada vez mais produtos que viajam milhares de quilómetros, temos o dever ético de ficar com dúvidas se o que pagamos pelo transporte marítimo acautela todos os reais efeitos ambientais e custos económicos. Se não estivermos a pagar alguém um dia terá essa fatura por liquidar.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Lutas de classes e marxismo: domínio dos meios de produção das classes criativas na era capitalismo cognitivo-cultural e das Edge Cities

No pós-2.ª Guerra Mundial, com a ascensão dos Estados Providência, que atenuaram conflitos sociais nas sociedades industriais, principalmente nos países europeus, e contribuíram para o surgimento de uma classe média, a teoria da luta de classes associada marxista ficou fragilizada. Os efeitos dos totalitarismos que surgiram, supostamente, inspirados pelo marxismo transposto em ordem política geraram ainda mais afastamento dos intelectuais, levando ao surgimento dos neomarxismo, da escola de Franckfurt, da Teoria Critica e de outras inspirações que procuraram mais liberdade e lidar de forma alternativa com os princípios originais da visão marxista.

Attacked - Gilbert & George

Mas parece que o luta de classes está a ressurgir com o nascimento de uma nova classe social que tende para a apropriação dos novos meios de produção. Esta frase está carregada de conceitos marxistas, do materialismo histórico, pelo que o marxismo volta a estar presente nos diálogos do século XXI. Se pensávamos que este discurso seria anacrónico nos dias que correm afinal podemos ficar surpreendidos. O mix social pode ser uma realidade em muitos locais, mesmo coexistindo com uma gritante diferença social entre os muito ricos e os muito pobres, formando classes sociais muito antagónicas e distantes. Pensando no capitalismo económico, ainda muito associado aos processos produtivos materiais e agora de serviços, existe uma esmagadora maioria das pessoas que não têm nem assumem traços marcantes de classe. Serão a classe média de largo lastro, serão pessoas que vivem do seu trabalho ou de pequenos negócios e produções sem cargas sociais autoassumidas ou excessivamente condicionantes e que vão conseguindo viver, consumir e realizar atividades além da mera sobrevivência, naquilo que se chama pós-industrialismo.

No entanto este fenómeno de atomização de classes parece estar a ser invertido em determinados locais, especialmente nos centros tecnológicos a que alguns autores, como Joel Garreau, chama de “edge cities” ou cidades de fronteira. Um desses casos paradigmáticos é Silicon Valley. Estes polos urbanos tecnológicos, nódulos territorialmente materializados, segundo o conceito de sociedades em rede de Manuel Castells, estão a contribuir para a ascensão de uma nova classe social. Esse novo grupo desenvolve-se em polos de concentração de um novo tipo de capital económico, resultante do capitalismo cognitivo-cultural – conceito desenvolvido por Gilles Deluze, Felix Guattari, Michel Foucault, entre outros. Este novo tipo de capitalismo resulta de uma mudança económica, em que as antigas dinâmicas produtivas materialistas passam a ser dominadas pela capacidade criativa de criar conhecimento que se converte em múltiplas formas de capital. Este sistema forma novas formas de meritocracias que, num mundo global, permitem, supostamente, a qualquer pessoa, detentora desta cultura e conhecimentos, ascender a essa nova classe social. Todas as restantes classes tendem a ser expluídas, como meros prestadores de serviços e bens menos valorizados segundo este tipo de capitalismo, ou simplesmente como consumidores. Neste novo arranjo económico-social as universidades mudam de papel, passando a ser vistas como máquinas de talentos que incentivam a competitividade dos seus alunos e os conduzem a sistema capitalista cognitivo-cultural.

Também Richard Florida contribuiu para desenvolver estes conceitos, acrescentando o conceito de classe criativa, que se associa às edge cities ou a determinadas zonas inseridas em polos urbanos já existentes promotoras da criatividade. Sendo essa classe criativa parte importante do novo capitalismo, não é de estranhar que as cidades queriam assumir-se como “criativas”, direcionando politicas para a promoção desse tipo particular de classe social e dos seus ambientes, alavancando assim o capitalismo cognitivo-cultural e todos os seus efeitos.

Resumindo. Podemos estar perante uma nova luta de classes. As teorias marxistas podem voltar a ganhar atualidade pois os meios de produção estão novamente na ordem do dia, segundo este novo tipo de capitalismo que gera grandes acumulações e concentrações de riqueza. Tudo isto gera enorme incerteza, numa altura em que se assume publicamente que a esmagadora maioria dos empregos poderão desaparecer com a automatização, o que implica mudanças sociais revolucionárias. Resta saber se essas mudanças produtivas e económicas irão gerar conflitos sociais e novas lutas de classe violentas ou se a transição será suave.

Referências bibliográficas:
  • Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory (3rd edition).
  • Castells, Manuel (1996). The Information Age: Economy, Society and Culture:Vol. I. The Rise of the Network Society.
  • Deluze, Gilles & Guattari, Félix (1972). Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia.
  • Florida, Richard (2017). The New Urban Crisis: How Our Cities Are Increasing Inequality, Deepening Segregation, and Failing the Middle Class—and What We Can Do About It.
  • Florida, Richard (2002). The Rise of the Creative Class. And How It's Transforming Work, Leisure and Everyday Life.
  • Foucault, Michel (1978). L’Histoire de la sexualité: Volume I - La Volunté de Savoir.
  • Garreau, Joel (1991). Edge City: Life on the New Frontier. 
#abuscapelasabedoria

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Como os bancos criam moeda virtual e a alternativa do Bitcoin

No documentário ”Bitcoin: O fim do dinheiro como nós o conhecemos”, da autoria de Torsten Hoffmann, faz-se uma breve introdução à história do dinheiro, mas o objetivo é projetar no futuro como será o sistema monetário e financeiro. No documentário é abordado conceito de moeda virtual conhecido como Bitcoin, que permite criar um modelo monetário internacional sem intervenção estatal nacional e bancário, em teoria imune a criação descontrolada de moeda fiduciária (que depende apenas da confiança que nela se deposita). Ou seja, apesar do Bitcoin ser uma moeda virtual permitiria controlar a multiplicação de dinheiro virtual no sistema financeiro internacional, basicamente porque evita replicação de crédito para além da quantidade de moeda preestabelecida. Ou seja, ao contrário de um banco, que pode emprestar dinheiro que não tem de facto, criando artificialmente nova moeda na economia, com o Bitcoin implementado de forma generalizada tal não seria possível, pois o dinheiro só é transferido se existir ainda que seja um número virtual. Isto pode parecer estranho, mas vamos aprofundar um pouco mais esta temática, com base nas informações presentes no documentário já referido.
 
Mercadores a contar dinheiro - Salomon Koninck

Os Estados, desde o momento em que abandonaram a relação com o padrão ouro das suas moedas, podem emitir a quantidade de moeda que entenderem, sendo que os limites são apenas definidos pela reação do sistema financeiro a essa emissão de moeda. Ou seja, não necessitam de ter essa quantidade de dinheiro a circular na economia equivalente ao ouro nas suas reservas nacionais, basta haver confiança de que aquele papel ou metal vale o que nele se inscreve, daí o termo fiduciário que é um sinónimo de “confiança”. Habitualmente são os indicadores de inflação e deflação que levam à produção de moeda, tal como da confiança dos seus utilizadores. Se existe inflação e aumento dos preços evita-se produzir mais moeda pois é uma forma de impedir que o dinheiro circulante desvalorize e os preços aumentem ainda mais. Por outro lado, com a deflação produz-se mais moeda, de modo a desvaloriza-la, encorajar o consumo e evitar que se acumule dinheiro com a espectativa de ganhos futuros, uma vez que o dinheiro acumulado tende a valer menos com cada nova emissão de moeda. Simplesmente deixa de compensar ter o dinheiro “parado” e os detentores de capital são impelidos ao investimento. A tudo isto, tanto pela via da inflação e deflação, tem uma relação com a especulação financeira, uma vez que existe grande imprevisibilidade pela complexidade destes sistemas que são altamente reativos.

Neste documentário de Torsten Hoffmann refere-se também o efeito dos bancos que, ao acumularem e emprestarem dinheiro, através dos saldos negativos, criam moeda artificial na economia. De modo simplificado: se um banco tem mais dinheiro em crédito do que tem na realidade em depósitos e ativos acaba por colocar mais moeda em circulação na economia do que realmente deveria existir. E este fator multiplicativo pode ser grande se o pensarmos enquanto sistema de depósitos, investimento e empréstimos em que o mesmo dinheiro é continuamente investido e emprestado na forma de dívida que pode não corresponder aos ativos e onde existem múltiplos lucros potenciais relacionados com algo que na prática não existe.

Em teoria, segundo os defensores do Bitcoin, um sistema económico com base nesta moeda poderia ser menos propenso a crises e a bolhas especulativas. Seria supostamente mais estável, ainda que os Estados perdessem parte dos seus meios de intervenção na economia através da manipulação da moeda. Paradoxalmente, seria um sistema altamente restritivo mas incrivelmente liberal pois impedia a intervenção estatal. Ou seja, seria liberal e restritivo em simultâneo, virtual mas real por não crescer descontroladamente.

Não sou economista e muito menos especialista em sistemas financeiros e bancários, mas o documentário é interessante para explorar estas questões e para tentarmos perceber a complexidade do sistema financeiro e monetário que utilizamos todos os dias, tal como perceber que existem alternativas ao dinheiro, tal como o conhecemos.
 
 
 

 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária

Há pouco mais de um ano publiquei aqui no blogue um texto sobre teoria do decrescimento económico, a propósito de um livro de Serge Latouche: Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária.
 
Há cerca de um mês a RTP1 exibiu um documentário que aborda o mesmo tema e onde Serge Latouche participa como um dos especialistas entrevistados no documentário. O documentário "Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária", da autoria de Luís Picazo Casariego e Manu Picazo Casariego, está disponível no youtube e pode ser visto devidamente legendado e com narração em português.
 
Numa altura em que os EUA põem em causa os acordos ambientais de Paris as teorias do decrescimento parecem ser ainda mais revolucionárias, mas será que temos alternativa? Como poderemos resolver o problema do excesso do consumo de recursos naturais, que exaurem o planeta a um ritmo superior à sua capacidade de renovação? Como poderemos fazer para manter o nosso nível de vida, especialmente se os países mais pobres atingirem o nível de consumo dos países mais ricos?
 

 
 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Máquina da Dívida e a ditadura dos credores

Recentemente, o canal Odisseia exibiu o documentário "Máquina da Dívida" da autoria de Laure Delesalle. Nele a autora faz uma sucinta análise sobre o modo como se foram construindo as dívidas dos Estados.
 
O Banqueiro e a sua mulher - Marinus Van Reymerswaeke
 
A autora, numa clara tendência económica e política anti neoliberal, resume a uma série recente de eventos históricos para estabelecer a origem das colossais dívidas públicas dos países desenvolvidos. Tudo terá começado com o fim do padrão-ouro aplicado ao Dólar, tornando-se uma moeda fiduciária, sem relação com as reservas federais de ouro dos EUA, em 1971. Terá sido o modo encontrado pelos EUA para emitir moeda necessária ao financiamento das dispendiosas guerras periféricas, mas que eram essenciais para a dinâmica da Guerra Fria. Posteriormente, os sucessivos efeitos das crises petrolíferas, iniciadas em 1973, com as escaladas de preços nas economias de consumo, completamente dependentes do petróleo, geraram grandes inflações, aumento generalizado dos preços, quebras de investimento, redução das poupanças e a necessidade de recorrer ao crédito para manter os níveis de vida crescentes nos países desenvolvidos.

Este terá sido o processo inicial, que passou a decorrer numa economia mundial globalizada e de intrincadas interdependências, que tornou os Estados, na construção e manutenção das suas políticas sociais e de bem-estar, completamente dependentes dos credores. A própria globalização económica terá contribuído para a dificuldade de controlo das dívidas futuras, pois nos anos 80 reforçou-se o otimismo nas políticas neoliberais que acentuaram as tendências de desregulamentação e redução do peso dos Estados na economia, tornando as dívidas soberanas cada vez mais suscetíveis de serem influenciadas pela especulação e pelos mercados financeiros internacionais flutuantes.

Segundo Laure Delesalle instalou-se a ditadura dos credores. Se na Idade Média os soberanos podiam contrair divida quase infinita aos credores para as suas dispendiosas guerras e projetos, pois podiam simplesmente recorrer da força para apagar literalmente as dívidas soberadas, atualmente os mecanismos de controlo são indiretos ou quase inexistentes. Mesmo que se apliquem medidas de austeridade, a carga de juros pode ser tão pesada que se torna insustentável pagar efeitvamente a dívida, contraindo-se novos empréstimos para pagar os empréstimos antigos e os seus juros. Por outro lado, hoje os credores perderam o rosto.


Podem ser obtidas mais informações sobre este documentário em: http://odisseia.pt/programas/a-maquina-da-divida/
 
 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Avaliar economicamente, culturalmente e socialmente o património cultural edifícado

Avaliar o património cultural construído, que é como quem diz edifícios antigos, é extremamente difícil, especialmente porque o seus valor cultural e social é muito difícil de contabilizar e porque existem  muitos diferentes tipos e variedades de edifícios. Será muito difícil converter em valor monetário o valor de todas as suas possíveis dimensões. Podemos fazer escalas, sistemas de comparação, avaliação qualitativa que depois convertemos em dinheiro. Existem várias possibilidades.
 
O Coliseu de Roma - Hubert Robert
 
Nathaniel Lichfield propõe alguns modelos. Num deles avalia, isoladamente, do ponto de vista económico, social e cultural quatro opções de intervenção concretas para um imóvel hipotético.  Considera como opções: Fazer o Mínimo (FM); Reabilitar (RH); Restaurar (RT) e Demolir/Reconstruir (DR).
 
Fazer o mínimo consiste apenas na manutenção mínima para que o imóvel continue a ser utilizado até chegar ao limite da sua obsolescência sem intervenções de fundo.
Reabilitar consiste em manter partes significativas do imóvel, reparando, adaptando e remodelando para novos usos e fins, reduzindo a obsolescência para zero.
Restaurar implica recuperar e manter o imóvel nas suas condições originais, com nível de obsolescência igual ou perto de zero.
Demolir e reconstruir passa por remover todas as existências e aproveitar o terreno para fazer novas edificações no seu máximo de aproveitamento construtivo.
 
  • Do ponto de vista patrimonial cultural tem mais valor, por ordem decrescente: RT; RH; FM e DR.
  • Do ponto de vista económico tem mais valor, por ordem decrescente: DR; RH; FM e RT.
  • Do ponto de vista social tem mais valor, por ordem decrescente: RH, RT, DR e FM.
 
Isto será uma análise para um caso hipotético apenas para servir de guia de orientação, pois em determinados casos o património arquitetónico pode fazer disparar o valor económico quando bem reabilitado ou restaurado, tal como um edifício em que se intervém o mínimo poder ter mais vantagens sociais, dependendo de quem o utiliza ou com quem se relaciona. Outro aspeto que pode gerar alguma surpresa é a maior importância social que tem a reabilitação do que o restauro. Tal deve-se à possibilidade dos novos usos que o imóvel pode comportar depois de uma reabilitação, ainda que aqui parece ser ignorado o valor social de reforço das identidades no caso do restauro de um edifício marcante sem o alterar de alguma forma.
 
No fundo ajuda a justificar porque se deve optar pela reabilitação urbana, pois é a opção que mais alto se situa nas várias avaliações de valores setoriais. Mas a reabilitação, como sabemos, pode ter custos que a tornam incomportável e ou menos vantajosa economicamente, sendo que apesar destas avaliações a torarem a melhor opção é quase sempre necessário algum tipo de apoio financeiro para que possa ser mais competitiva no mercado imobiliário.
 
Lichfiel escreveu  "Economics in urban conservation" uma obra incontornável para quem pretende estudar reabilitação urbana e não ignorar a dimensão económica, pois é uma das raras obras que se foca na economia da reabilitação urbana - um tema que urbanistas, arquitetos, estudiosos do património e outros interessados no património edificado e cultural tendem a evitar.
 
Referências bibliográficas:
Lichfield, Nathaniel. Economics in urban conservation. Cambridge/new York: Cambridge University Press, 1988.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária

Vamos falar em decrescimento, esse assunto polémico. Não se trata de dietas mas de economia, modelos de sociedade, valores e estilos de vida. Serge Latouche no seu “Um pequeno tratado do decrescimento sereno” parece querer abalar toda a nossa existência.
Ambiente Espacial - Lúcio Fontana

Quando a economia de um país não está a crescer o dito país entra em crise. Mesmo se crescer abaixo de um determinado nível a crise pode ser inevitável. Mas como podemos continuar infinitamente a crescer, sendo que estes crescimentos acumulados geram evoluções exponenciais pois crescemos sempre relativamente ao acumulado anterior? Os recursos do planeta não são ilimitados. Se o planeta é finito como pode ser infinito o crescimento? Ainda que a tecnologia consiga tirar melhor partido dos recursos naturais, até aproveitando o que outrora era desperdício ou resíduo, haverá sempre limites materiais.

Latouche, no seu ensaio, quer preparar-nos para aquilo que considera inevitável. Vamos ter de decrescer, inverter todo este sistema de valores e organização social e económica. Se neste momento já se consome em média o equivalente a mais de uma terra, isto considerando uma pegada ecológica média, como poderemos manter este nível no futuro? O autor recusa o desenvolvimento sustentável, pelo simples facto de que manter os níveis de desenvolvimento não será sustentável de todo ao ser inviável continuar a consumir mais do que o planeta pode produzir sem perdas irreversíveis.

Imagine-se então como seria uma sociedade do decrescimento. Teríamos de consumir menos, evitar os atuais os reduzidos ciclos de obsolescência. Teríamos de produzir localmente para consumir localmente, tendo em conta as colheitas de época. Teríamos de impor restrições aos mercados impedindo que fossem apenas regulados pela lei da oferta e procura com base num sistema de livre circulação de capitais. Reduzir o número de horas trabalhadas, a intensidade e velocidade do que fazemos, pensando mais na prevenção e nos estilos de vida mais naturais e saudáveis. Teríamos de evitar o turismo como grande consumidor de recursos e desestabilizador dos ambientes naturais e humanos. Direcionar os ímpetos consumistas para o consumo de conhecimento e cultura que podem ser inesgotáveis. Isto e muitas outras coisas verdadeiramente radicais aos olhos contemporâneos. O mundo seria muito diferente.

Latouche alerta para esta necessidade, que será tanto mais forte quando os níveis de vida começarem a aumentar nos países onde os níveis de consumo e exploração estão abaixo da média. Se pensarmos que um Norte-americano consome em média o equivalente a 6 terras per capita, podemos ver o nível de desigualdade existente no planeta.

Tudo isto será uma utopia, mas, seguindo as alternativas propostas pelos defensores do decrescimento, a humanidade terá de repensar os seus modelos de desenvolvimento, pois será impossível manter determinados estilos e níveis de vida sem com isso arriscarmos o equilíbrio planetário.

Referência bibliográfica:
Latouche, Serge. Um pequeno tratado do decrescimento sereno. Lisboa: Edições 70, 2011.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Efeito parasitário do turismo no património e urbanismo

Pode ser polémico, mas o turismo pode ter um efeito parasitário geral, beneficiando de investimentos e das existências de outras atividades contribuindo diretamente pouco ou nada para os custos que recaem sobre elas. Um desses casos poderá ser o património histórico, mas também o urbanismo na sua dimensão integrada de conjuntos edificados e atividades que se desenvolvem nos espaços urbanos.

Grupo de artistas dinamarqueses em Roma -  Constantin Hansen
O turismo é claramente um sector económico de extrema importância. Do ponto de vista psicossocial, trata-se de uma atividade de lazer que pretende proporcionar experiências agradáveis, que seja pelo lado lúdico, instrutivo ou outro. É imensamente importante do ponto de vista económico, até porque é tratado como uma exportação. Mas o turismo só acontece onde existam atrações que o justifiquem. No caso do património histórico e urbanismo essas atrações surgem de heranças ou desenvolvimentos que não foram pensadas para esse fim, ou seja, a sua utilidade é quase sempre transformada e adaptada. Alguns desses usos originais pretenderiam dar resposta às necessidades contemporâneas das épocas em que as construções terão sido edificadas. Mas quem fala de construções fala de outro tipo de criações humanas que possam ter nos dias que correm utilização turística. O turismo, nestes casos, usa os recursos já existentes. Será que os usa na mesma medida em que contribui para os manter?

Em muitos destes casos existe uma pressão turística crescente sobre determinados patrimónios. Ou as entidades públicas encontram modo de converter essa procura em receitas para compensar os custos sobre a degradação que se acelera do património ou então entra-se em casos de insustentabilidade. Isto tanto é valido para o sector público como privado, sendo que na dimensão pública os preços cobrados pelo usufruto tendem a refletir diretamente os encargos. Mas nos casos em que esses patrimónios têm usos religiosos, cívicos e identitários locais e nacionais, a cobrança de entradas ou impostos indiretos para suportar esses custos, especialmente aos autóctones ou cidadãos a quem esse património é próximo, pode gerar injustiças, ainda que não reflita a totalidade dos gastos.

Assim não será de estranhar que se considere o sector do turismo parasitário em determinados casos, especialmente quando contribui para a degradação do património, impede que os cidadãos do país em causa o usufruam ou pelo simples facto de causar tais impactos que descaracteriza ou transforma a vida das populações locais. Será certo que tem efeitos económicos positivos e que pode contribuir indiretamente através dos impostos de consumo que gera para a economia e finanças públicas. Mas será que esses fundos depois chegam aos organismos que gerem o património e às autoridades urbanas e territoriais que têm de lidar com os impactos da pressão sobre as infraestruturas, sistemas de transportes e outros?  Existem entidades e autoridades públicas que encontraram várias alternativas de tentar transferir estes custos para a indústria do turismo mas é uma questão que continua a ser pertinente.

Fica a questão e alguma bibliografia que trata esta problemática.


Referências bibliográficas:
Benhamou, Françoise. (2011). L´économie de la culture (7ª edicion). Paris: La découverte.

Graham, Brian; Ashworth, G. J.; Tunbridge, J. E. (2000).
A geography of heritage - Power, Culture & Economy. London: Arnold.

Patin, Valéry. (2012).
Tourisme et patrimoine. Paris: La documentation française.
Peackock, Alan; Rizzo, Ilde. (2008).
The heritage game - economics, policy and practice. Oxford: Oxford University Press.

Rizzo, Ilde & Mignosa, Anna (ed.) (2013).
Handbook on the economics of cultural heritage. Cheltenham/Northampton: Edward Elgar.
 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Felicidade no Trabalho – Um documentário de Martin Meissonnier

O trabalho é um dos pilares da vida contemporânea. Desde que o capitalismo traduziu o trabalho em valor, indiretamente, transacionável colocou-o sob pressão. Ou seja, modificou as relações de trabalho e submeteu os trabalhadores a novos desafios.

Os trabalhadores de hoje estão cada vez mais submetidos ao “turbocapitalismo” e ao desenvolvimento económico mundializado onde se diluem restrições, direitos e as velhas estruturas laborais. São imensos os casos de trabalhadores em situações insustentáveis, tanto na dimensão salarial mas especialmente pela pressão do stress.
 

O presente texto não é um manifesto político ou sindical. Nada disso. Serve de introdução ao documentário “Felicidade no Trabalho”, realizado por Martin Meissonnier, em 2015. O que torna esse filme especialmente interessante é a inversão do problema. Foca-se na solução para os problemas laborais através do recurso à felicidade. Fá-lo recorrendo a vários exemplos de empresas e instituições que se modernizaram e melhoraram a sua produtividade e desempenho através dessa estratégia. Centrar o funcionamento da empresa na garantia da felicidade dos trabalhadores demonstrou ser capaz de recuperar empresas/instituições em situação difícil e torna-las casos de sucesso com o devido retorno económico para trabalhadores, proprietários e investidores.

Passemos a alguns dos exemplos que levaram ao sucesso:
• Envolvimento dos trabalhadores em todas as atividades da instituição, especialmente na decisão de funcionamento e estratégia geral;
• Organização horizontal, evitando uma fria e distante hierarquia vertical;
• Valorização do potencial e capacidades individuais dos trabalhadores, incluindo recompensas financeiras e outras vantagens quando contribuem para o melhor desempenho da instituição;
• Responsabilização e autonomia nas tarefas e funções de cada trabalhador;
• Participação na escolha das chefias, predispostas para modelos colaborativos contínuos e em melhoria constante;
• Flexibilidade nos horários, possibilidade de trabalho à distância, respeito pelo ritmo individual de cada trabalhador e trabalho orientado para objetivos;
• Sentimento de que as funções que os trabalhadores desempenham são socialmente benéficas e importantes.

Estes são apenas alguns exemplos generalistas que se podem resumir os casos concretos de empresas descritas no documentário. De notar que algumas empresas já fazem isto em Portugal, mas são exceções, pelo que seguramente haveria muito a ganhar em produtividade tal como se demonstra nos casos de sucesso identificados.

Em jeito de conclusão importa lembrar mais alguns dados que o documentário enuncia. Lembra que passamos maior parte do nosso tempo ativo a trabalhar, mais que em lazer, família e outras atividades. Que as sociedades ocidentais têm assentado numa cultura democrática e de respeito pela liberdade e individualismo, mas que nas empresas e instituições essa mudança não ocorreu. Que o choque de gerações é evidente, no caso concreto da geração Y isso é notório, em que os modelos rígidos de organização do trabalho não têm em conta as mudanças sociais e de mentalidades das novas gerações. Esses novos trabalhadores valorizam mais a flexibilidade, criatividade, independência e o propósito das funções laborais assumidas que a estabilidade e a remuneração como o principal valor para garantir a felicidade e realização no trabalho.

Tendo em conta uma realidade europeia, o documentário refere que somente cerca de 10% dos trabalhadores são felizes no trabalho. Que para 60% deles o trabalho é-lhes indiferente e que os restantes 30% simplesmente detestam o que fazem. Se os trabalhadores só atribuem ao salário cerca de um terço das razões para serem felizes, tudo o resto dependerá daquilo que já se enunciou como medidas a implementar para melhorar a felicidade no trabalho e produtividade das empresas e instituições. Trabalhadores desmotivados, stressados e contrariados não contribuem para a produtividade das empresas/instituições. No fundo é bastante simples.

Assim, o documentário comprova que compensa, tanto pela saúde psíquica dos trabalhadores como pelos ganhos económicos, apostar na felicidade dos trabalhadores, seja em que ramo de atividade for, quer seja nos sectores públicos ou privados.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Adam Smith mal interpretado?


A obra mais conhecida de Adam Smith é imensamente citada e provavelmente um dos textos mais influentes da época moderna. Diz-se que foi uma das principais construções teóricas e intelectual que terá dado suporte ao capitalismo, inaugurando a abordagem à economia duma perspetiva científica. Mas será que temos interpretado bem A Riqueza das Nações?
 
Estudo de cor, quadrados com círculos concêntricos - Kandinsky

O recente documentário Capitalismo, da autoria de Ilan Ziv, faz, ao longo de 6 episódios, a história do capitalismo. Nesse documentário vários economistas e professores universitários são chamados a abordar a história do próprio capitalismo. O segundo episódio é dedicado a Adam Smith, sendo especialmente interessante o modo esse pensador é apresentado, muito menos liberal do que seria de supor.

Diz-se que a divisão do trabalho é o motor do desenvolvimento do capitalismo. Adam Smith dá o exemplo da produção de alfinetes, de como, através da divisão do trabalho, a produção pode crescer imensamente. Mas depois conclui que é um péssimo sistema do ponto de vista humano, estupidificando os trabalhadores e retirando-lhes humanidade. Poucos parecem ter lido a Riqueza das Nações para além das primeiras centenas de páginas.
 
Outro ensinamento de Smith é o do empreendedorismo individual. Quando um empreendedor desenvolve o seu interesse próprio contribui mais ainda mais o interesse coletivo, diz Smith. Mas só considerava esse princípio do capitalismo válido quando compatibilizado com os princípios morais. Adam Smith só deixou duas obras completas, destruiu todos os seus textos que considerava ser inferiores. Para além de A Riqueza das Nações escreveu também A Teoria dos Sentimentos Morais. As duas obras eram complementares e não deveriam ser analisadas separadamente. Sabemos que o foco nos interesses pessoais tem como efeito ignorar uma visão abrangente da envolvente. A não preocupação ou secundarizar tudo o resto gera problemas sociais, ambientais e outros, já para não falar das falhas éticas e morais que denota.
 
Mas o termo mais emblemático de Adam Smith é a “mão invisível”, uma das grandes metáforas usadas na economia. O seu criador apenas usou a expressão uma vez em todo o texto de A Riqueza das Nações. Parece que a frase está fora de contexto, pois no texto é aplicada a um exemplo particular. Smith fala do caso concreto dos investidores locais serem levados por uma “mão invisível” a investir na sua terra, por estar mais perto e ser mais seguro quando não seja espectável terem lucros maiores mais longe. Essa “mão” seria uma segurança para a economia local e nacional perante a liberalização dos mercados. Isto é oposto ao significado utilizado correntemente. Ficando ainda mais fragilizada a sua aplicação num mundo globalizado. A metáfora da mão invisível serviu primeiro como argumento para lutar contra o feudalismo e o antigo regime. Agora serve para lutar contra o Estado Providência.
 
Por fim, as últimas questões. Será possível contrariar o mercado livre? Será questionável sequer? Provavelmente diremos que não. Mas, tal como se afirma no documentário, se pensarmos no trabalho infantil e outras problemáticas facilmente chegamos ao ponto de negarmos e repudiarmos essa liberdade total. Será então o mercado livre uma utopia a evitar?
 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails

TOP WOOK - Arte

TOP WOOK - Dicionários

TOP WOOK - Economia e Finanças

TOP WOOK - Engenharia

TOP WOOK - Ensino e Educação

TOP WOOK - Gestão

TOP WOOK - LITERATURA





A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



Introduza o seu e-mail para receber a newsletter do blogue: