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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Venezuela: a pequena Veneza?

A versão mais comum para a etimologia do nome Venezuela remete para uma associação que os primeiros exploradores terão feito com a cidade de Veneza. Quando os primeiros exploradores entraram no lago Maracaíbo em 1499 Américo Vespúcio associou as casas construídas sobre estacas de madeira de Palafintos do povo Añu, elevando-as acima do lago, às construções da cidade de Veneza. Assim a zona ficou conhecido como “Pequena Veneza” que em italiano se forma pela adição do sufixo de diminutivo dando origem à palavra “Venezuela”.
 
Arturo Michelena - Ataque aos Barcos
Fonte: http://www.theequinest.com/arturo-michelena-2/

Mas existe uma outra versão, segundo Martin Fernández de Enciso que afirma na obra Summa de Geografia de 1519 que junto ao logo existia uma rocha plana sobre a qual estava edificada um povoado indígena conhecido como Veneciuela.

Assim, o nome Venezuela pode ser nativo ou não, pois não se sabe se o nome atribuído ao povoado situado na tal rocha se relaciona ou não com a associação de Américo Vespúcio a Veneza do primeiro povoado que terão encontrado anos antes.

Estas origens etimológicas levantam questões interessantes sobre a história e afirmação dos povos. Será que os descendentes dos indígenas aceitam este nome? Será que não deixa ainda amarras perante um colonialismo? Mas, ao mesmo tempo, os atuais venezuelanos também são, na esmagadora maioria, descendentes de não-nativos, se é que isso hoje ainda tem algum significado.

Na construção dos nacionalismos e identidades coletivas existem processos de criação e invenção de símbolos, narrativas e cultura que podem ser modificados. Outros países mudaram os nomes que se alicerçaram com o colonialismo, outros parecem querer manter essa herança histórica.
 
Referências:
Venezuela, New World Encicplopédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível:
http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Venezuela
Venezuela, Wikipédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Venezuela

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pais Desesperados – Uma série de proximidade cultural

Fais Pas Ci, Fais Pas Ça” é uma série de sucesso em França que está neste momento a ser exibida em Portugal na RTP2. Trata-se de humor, do tipo sitcom, sobre famílias.

Até aqui tudo normal. Mas é dessa normalidade que a sua exibição em Portugal se torna original. São imensas as séries de humor e muitas as que tratam temas da família, sendo a esmagadora maioria delas de origem americana. Embora essas séries tenham qualidade, ou mesmo muita qualidade, os enquadramentos, os valores, cultura e identidades que transmitem não têm a devida correspondência com a sociedade Portuguesa. Mesmo com os processos de mundialização mais que enraizados há coisas que continuam a ser estranhas, que nada têm que ver que a cultura portuguesa ou sequer europeia. Por exemplo, a dicotomia Este/Oeste, Democratas/Republicanos, os desportos, o Dia de Ação de Graças e o peru no natal, os subúrbios de casas em madeira, as armas livres e a proibição do álcool até aos 21 anos não encaixam.
 
Esta série francesa, por outro lado, aproxima-se muito mais da nossa realidade. Quer queiramos quer não, a cultura francesa é muito mais próxima da portuguesa. Tratando a série de assuntos da lide social e familiar estas proximidades tornam a série muito mais interessante. Notamos as referências ao catolicismo cultural, ao futebol, às cidades de organização europeia, ao sistema de ensino e saúde públicos, à política da União Europeia, à dicotomia Esquerda / Direita, o multiculturalismo e conflitos religiosos, as relações familiares e etc. Todas essas coisas, e muitas outras que obviamente não posso aqui citar, enquadram a serie na cultura europeia e assim aproxima-a da nossa, a portuguesa.
 
A série tem imensas referências hilariantes À vida privada familiar, especialmente nos diálogos e suas subtilezas, coisas que podiam e acontecem nessas famílias por ai fora. Recorre a um humor inteligente, bem enquadrado socialmente sem temer entrar em temas da religião, política, desigualdades sociais, racismo e outros que, por vezes, são deixados de fora para garantir alguma neutralidade não ofensiva.
 
Por isso, se quiserem ver uma série onde se podem identificar aqui têm a sugestão: Fais Pas Ci, Fais Pas Ça (Pais Desesperados).

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Boca do Inferno – Leituras de história contemporânea


Ler as crónicas de Ricardo Araújo Pereira é arriscar várias coisas. Primeiro, arrisca-se a ler algo escrito em bom português, com uma pontuação, construção frásica e recursos gramaticais impecáveis. Depois, e como é expectável, arrisca-se o sorriso e o riso, ou, para outros, aquela associação bem-humorada que diverte mas que fica guardada no pensamento individual, sem quaisquer manifestações físicas externas – admito que esse é mais o meu caso.

Mas o que me leva a escrever este texto não é nenhum dos dois casos anteriores. O que me motiva a invocar aqui os livros das crónicas “Boca do Inferno” é o seu potencial histórico. Quando peguei no último livro destas crónicas (o 3º no caso em questão), dei por mim a ler as crónicas de uma época passada, daquilo que era a actualidade na altura. Não sei se podem considerar como documentos históricos. Isto porque são crónicas subjectivas de humor, e porque o autor não é obrigado a nenhuma metodologia de criação de conhecimento histórico – embora Paul Veyne diga que a história não tem método. Ricardo Araújo Pereira não esconde os seus gostos e preferências, o que é aceitável e até útil já que se tratam de artigos de opinião. No entanto, por as fazer sobre temas de importância geral contemporânea – na maior parte dos casos – acaba por fazer uma súmula da história recente. Basta pegar nos livros, e se os lermos de seguida, vamos recordar episódios históricos recentes, e vamos fazê-lo de um modo leve e agradável, pois a motivação é a busca pelas interpretações humorísticas do autor. Assim, Ricardo Araújo Pereira faz, talvez sem intenção, bastante pelo desenvolvimento da história contemporânea nas suas obras “A Boca do Inferno”, pois faz-nos recordar a história (no sentido lato do termo) dos últimos anos. E, com as suas opiniões, contribui para que construamos a nossa, interpretando a história recente. Pelo menos não há o risco de sermos ocultamente direccionados para uma determinada prespetiva mascarada de imparcialidade, pois nisso não há dúvidas. Ricardo Araújo Pereira é tudo menos imparcial.
Importa não esquecer que a análise histórica da antiguidade se faz recorrendo também aos cronistas da época, e, que em muitos casos, será difícil saber quais desses escritos constituem provas incontestáveis do que realmente aconteceu. Nunca saberemos, em muito deles, se são de facto imparciais.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Qual o nome desta época em que vivemos?

Quando pretendo tratar qualquer assunto relacionado com a sociedade e o tempo em que vivemos custa-me saber como nomeá-la. Costumo utilizar o termo: sociedade e época contemporânea. Mas, historicamente falando, a época Contemporânea, por convenção, começou depois do marco que foi a Revolução Francesa. Foi há muito tempo, e neste tempo aconteceu tanta coisa que se nos compararmos com as sociedades de até há menos de 100 anos não nos parecem, à luz dos nossos dias, nada contemporâneas. Mais estranho ainda seria utilizar o termo sociedade ou época Moderna, pois essa é anterior à própria era Contemporânea, que historicamente se situa entre a Idade Média e a Idade Contemporânea. Assim, os termos correntes de “moderno” e “contemporâneo” soam a estranho. Mas, pessoalmente, ainda me parece mais estranho quando alguns pensadores seguem pelo “Pós-Moderna” e “Pós-Contemporânea”. E se a isto adicionarmos o pensamento e teoria que defendem a chegada ao “fim da história” – no sentido em que a história tende para algo que se pode prever ou que já nada de substancialmente diferente do que hoje existe irá acontecer -, fica ainda mais estranho compreender o nosso mundo atual, e situarmo-nos nele.
A Elevação da Cólera - Arman


Esta é uma época de incerteza, mas talvez seja assim a visão que todos têm do seu próprio tempo e momento em que vivem - existem imensos relatos históricos disso. Esta sensação pode ser apenas um sentimento normal e recorrente ao longo da história: que o momento contemporâneo é sempre mais incerto e inseguro do que o passado. Isso pode ter muitas explicações, mas uma delas seguramente é a herança e sentimento de enquadramento histórico. Podemos saber pouco do passado, e não apreciar o estudo da história, mas conseguimos encontrar mais certezas nele - pois a nossa vida sociedade tende a enquadrar-nos historicamente - que no presente, e ainda menos no futuro.
Se somos modernos desde finais do século XV, contemporâneos desde o final do século XVIII, o que somos hoje? Como se chamará esta época? Contemporânea ainda faz sentido do ponto de vista histórico? E do das outras áreas do saber? Gilles Lipovetsky chama-lhe época Hipermoderna e do Hiperconsumo, propensa à deceção. Outros optaram seguramente por outras nomenclaturas e terminologias, pois outras disciplinas e áreas do saber seguem também as convenções suas próprias histórias – por mais estranho que pareça – para definir divisões do passado, especialmente porque são quase sempre artificiais e apenas conceptuais.
Resta saber se uma visão contemporânea, por mais válida e fundamentada que seja neste momento, corroborará a visão histórica que o futuro fará de nós.
Bibliografia:

Lipovetsky, Gilles; "A sociedade da Deceção", Edições 70, 2012.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quando os Ministros eram escravos

Numa conferência sobre alterações climáticas, realizada no Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, assisti a uma intervenção digna de mais uma curiosidade para registar aqui no blogue. Em jeito de comentário, quando se tratava da importância dos decisores políticos nas medidas, políticas e soluções para os impactos das alterações climáticas, o professor Alveirinho Dias partilhou, entre muitas outras coisas, algo digno de despertar surpresa. Curiosamente, nada teve que ver diretamente com ambiente, geologia ou afins.
O Ministro (Sacerdote) patinador - Henry Raeburn
O professor reportou para a etimologia da palavra Ministro. Supostamente, segundo ele, ministro seria alguém a quem os romanos designavam como gestor caseiro, habitualmente um escravo. Ou seja, os romanos abastados delegavam essa missão (esse ministério, essa tarefa) aborrecida e trabalhosa de gerir num escravo. Se fosse um mau gestor, simplesmente era “substituído”. A tal referência histórica serviu para que a plateia refletisse sobre os nossos atuais gestores ministros, de como se delega neles ainda essa tarefa chata de gestão da coisa pública, sem grande preocupação e com bastante irresponsabilidade cívica por parte dos próprios cidadãos. A ligação com a condição de escravo ou servo da própria palavra dá-se pela composição associada ao termo “minor”, que se subordina ao maior, ao “magis”, que compõe a palavra “magíster”. Nessa altura o “minister” obedecia ao “magíster”. Esta relação de dependência foi sendo dissipada pelas épocas seguintes, ainda que tenham subsistido as duas funções, magistrado e ministro, numa lógica de separação de poderes dos tempos contemporâneos.
No entanto, tendo em conta o atual momento em Portugal, o professor considerava, em jeito de brincadeira e de alerta para a tomada de consciência, que neste momento os escravos destes ministros seriamos nós, e não ao contrário como seria no tempo da antiga Roma.
Independentemente das mensagens políticas e cívicas fica a curiosidade etimológica capaz de despertar reações bem variadas. Ficam também algumas referências – as possíveis – para fundamentar este texto.

Referências bibliográficas
Online Etymology Dictionary, “Minister”, disponível em:
http://www.etymonline.com/index.php?term=minister

Wikipédia, “Ministro”, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ministro

domingo, 8 de setembro de 2013

Em Portugal as Liberdades e a Democracia saíram do autoritarismo Militar

A Idade Contemporânea, de um ponto de vista histórico universal – que acaba por ser só da própria Europa, ou não fossem os meios académicos ainda muito eurocêntricos -, começa com a Revolução Francesa, que será o marco a partir da qual se darão mudanças que ditaram o fim do Antigo Regime – o dos privilégios de classe, tais como aqueles que tinham a nobreza e o clero. A partir de 1789 foram muitas as revoluções liberalizantes, umas com sucesso outras nem por isso, umas mais no sentido da democratização outras no sentido autoritário ou de defesa do domínio de certas elites.
Antítese da Calma - António Dacosta
Em Portugal, depois das invasões francesas, o século XIX foi muito rico em instabilidade, golpes e revoluções, no fundo não muito diferente das atribulações da Europa de então. O século XX não foi muito diferente, pelo menos se excluirmos os quase 40 anos que durou o Estado Novo e os últimos 25 anos do final do século. Se pela Europa fora as revoluções se davam tanto por força de mobilizações de civis e militares, por cá a regra parece ter sido quase sempre o domínio do militar. Lembremo-nos dos golpes de 1820 – o primeiro golpe de sucesso do liberalismo em Portugal – e de todos os restantes que daí em diante que foram apoiados ou dirigidos diretamente pelos corpos militares. Obviamente que o poder das armas e a organização da instituição marcial são os modos eficazes de conseguir fazer uma revolução política, fazendo cair à força o poder instituído. No entanto, o facto curioso prende-se com a própria natureza das organizações militares. Como sabemos, a estrutura dos exércitos não é, nem de perto nem de longe, democrática. Os soldados não elegem as chefias, nem a progressão na carreira militar se dá por voto de representação, nem sequer perante popularidade entre pares. Aliás, provavelmente o peso dos pares é mesmo insignificante, pois são hierarquias rígidas que dominam e às quais é necessário obedecer. Ou seja, o sistema militar tem muito mais de feudal e autoritário que democrático. Apesar disso foram, especialmente em Portugal, os militares que forçaram a implementação do liberalismo e depois da democracia, ainda que outros tenham, em determinadas circunstâncias, criado as condições para surgirem ditaduras. Esta relação entre militares e democracia não deixa de ser paradoxal. A explicação possível que me ocorre é que, estando sujeitos a códigos de conduta tão rígidos e hierarquizados, sabem melhor do que ninguém o valor que tem a liberdade. Outra opção poderá ser as da características da própria sociedade portuguesa, que nesses tempos, não muito distantes, ainda era muito ruralizada e facilmente controlável pelas elites tradicionais - se é que ainda não continua a ser. 

Referências bibliográficas
Medina, João. 1994. "História de Portugal Contemporâneo: Político e Institucional". Universidade Aberta.
Medeiros, C. A. (Direcção),2005-2006. "Geografia de Portugal". Círculo de Leitores
Ramos, Rui (coordenação), 2012. "História de Portugal". Esfera dos Livros
Rémond, René, 1994. "Introdução à História do nosso tempo". Gradiva.

sábado, 27 de outubro de 2012

Investir na Bolsa – A Ilusão da Superioridade Individual Perante o Mercado


Por vezes é, mesmo, preciso ler uma ideia escrita para depois essa mesma ideia, desconhecida e encoberta até então, se tornar evidente e clara. Um livro, como haverá muitos mais, onde se divulga um infindável rol de ideias é o “Pensar, Depressa e Devagar”, de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prémio Nobel da Economia. A obra é um verdadeiro marco – grande em todos os sentidos, pois consta com mais de 500 páginas -, um compêndio de exemplos e explicações sobre economia comportamental, segundo a visão da psicologia social.

Os Amantes - Magritte
Uma das ideias fortes do livro, com vários estudos a demonstraram, defende que, em muitos casos, para situações de incerteza considerável, não há especialista e informação que valha: normalmente a sorte é quem desempenha o principal papel. Esta posição é polémica, mesmo entre a comunidade científica. No fundo, o autor tentar alertar para os constantes enviesamentos e erros de perceção na tomada de decisão, mesmo entre os mais sabedores e experientes, considerando que isso é próprio do modo como funciona o pensamento humano (ou cognições) - podendo ser dividido um conjunto de dois sistemas, um mais imediato e simples (mas potencialmente erróneo), e outro mais aprofundado e moroso (mas altamente consumidor de "energia").
O caso dos investimentos em bolsa é um dos exemplos trazidos pelo autor para demonstrar como, por vezes, os especialistas tomam decisões, supostamente sustentadas, mas com resultados completamente aleatórios, sem o admitirem (sem admitirem enviesamentos). O autor vai mais longe: acaba por, com as suas palavras, nos fazer refletir sobre a própria condição humana. Kahneman leva-nos a refletir e questionar sobre: o que leva os corretores e investidores, tendencialmente em pé de igualdade entre pares, a pensarem que sabem mais que os restantes negociadores em bolsa? Quando alguém vende assume que a ação irá descer, esperando que o comprador pense o contrário; e quem compra assume e segue pelo caminho exatamente oposto, esperando o contrário do vendedor. Entre amadores e curiosos que se aventuram na bolsa seria de esperar que façam erros de investimento, mas o mesmo não será  aceitável para especialistas, pelo menos em condições "normais". Podemos até lembrar um dos princípios da teoria económica clássica, de onde se conjetura que os mercados e os atores económicos são racionais nas suas escolhas – supostamente, é claro. Então não seria racional admitir que, estando nas mesmas condições - de um modo aproximado é claro -, os nossos semelhantes e concorrentes saberiam o mesmo que nós? Não seria essa posição, no mínimo, um sinal de humildade? Supostamente, a eficiência dos mercados levaria que a margem dos preços fosse mínima, pois quem vende falo-ia pelo valor justo e no sentido da compra o mesmo aconteceria. Mas, como comprova Kahneman, as decisões humanas, mesmo as económicos, são, por vezes, muito pouco racionais.
Na sua suposta arrogância intelectual, o filósofo Sócrates só poderia rir  enquanto, hipoteticamente, diria algo do género: só sei que nada seimas saberão eles que sabem muito menos do que pensam, sabendo todos o mesmo, e equilibrando-se enquanto grupo assim?
Sempre fomos condicionados pela nossa soberba, pelos mercados e pelas decisões, e parece que iremos continuar a ser, com ilusões de sabedoria altamente enviesadas. Os resultados estão à mostra, ou talvez não, pois estas palavras podem ser apenas ser mais um enviesamento de perceção e análise.

Referências bibliográficas:
Kahneman, Daniel. "Pensar, Depressa e Devagar". Temas e Debates, 2011.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Enciclopédia - O Monumento do Iluminismo

A praticamente todas as épocas históricas conseguimos, direta ou indiretamente, associar monumentos, construções humanas ou obras de arte incontornáveis. Algumas dessas criações quase as definem e servem de ícones e marcas desses momentos históricos.
O Iluminismo foi marcante para a sociedade ocidental, e até para o mundo que se foi encurtando e aproximando nos séculos seguintes (especialmente depois da industrialização e do colonialismo). Dessa importante época história o principal monumento, na aceção do termo e sua relação com objeto ou coisa que serviu e serve para recordar na memória coletiva (Choay, 2010), não foi um edifício, conjunto urbano, obra de arte plástica ou afins. O principal, e mais importante, monumento que nos legou o Iluminismo foi a Enciclopédia (Schwanitz, 2012). Ou seja, um objeto. Não de arte, mas de saber!
Experiência de Um Pássaro Numa Bomba de Ar - Joseph Wright of Derby
Nessa época de transição, e que levou em muitos sítios, mas especialmente em França, à revolução, esse livro foi incontornável. Aliás, nesse mesmo e noutros formatos, ainda continua a ser – veja-se a importância das enciclopédias online. Consciente, ou inconscientemente, a Enciclopédia pretendia deter todo o conhecimento da humanidade, de um modo ordenado e de fácil consulta. Seria a “bíblia da ciência” – paradoxos à parte -, acessível e universalista. Para certos autores e pensadores (Schwanitz, 2012) a Enciclopédia tinha, para além disso, como objetivo substituir a própria Bíblia: substituir o obscurantismo da religião de então pela nova ciência, pelo positivismo do novo empirismo que ajudava a desvendar os mistérios do mundo. Vontades de substituição da religião pela ciência à parte, isso não significava, nem de perto nem de longe, que os iluministas fossem ateus. Poucos, ou quase nenhuns, o eram de facto. De um modo geral, não negavam Deus, até porque precisavam de uma entidade para explicar o início e a ordem do universo, a razão de todas as regras e leis que comprovavam e registavam. Os iluministas eram, tendencialmente, deístas (visão de Deus como arquiteto/planeador das regras do universo, mas não como agente interventivo e presente num mundo que se foi desenvolvendo pelas suas próprias regras) em oposição a posição tradicional teísta (Deus como ser que criou e intervém constantemente no universo) da religião instituída.
Hoje, esse grande monumento do Iluminismo persiste. Ficou a herança de ordenar e catalogar o conhecimento. Não se substituiu a bíblia, por várias razões que nem dependem da qualidade enciclopédias que se foram criando. Muito pelo contrário, até parece que a enciclopédia ajudou a criar mais bíblias, pois contribuiu para o banalizar do nome, tornando-o um adjetivo. Nos nossos dias existem enciclopédias e bíblias de tudo e mais alguma coisa, num especificar cada vez maior do conhecimento, sendo o termo “bíblia” aplicado para um livro importante de uma determinada área do saber – há bíblias para tudo e todos os temas, no sentido de ser um livro “quase sagrado”, de tão importante que pode ser no tema em causa.
Para além do contributo científico e cultural que foi a enciclopédia, e para além do universalismo do conhecimento que permitiu, ela demonstrou que não existem livros infalíveis – ou não tivessem as enciclopédias e bíblias erros como todos os outros livros e escritos por mão humana.

Referências Bibliográficas
  • Choay, Françoise. “Alegoria do Património”. Edições 70. Lisboa, 2010.
  • Schwanitz, Dietrich. “Cultura – Tudo o Que é Preciso Saber”. Dom Quixote. Lisboa, 2012.


domingo, 16 de setembro de 2012

Após Acordo Ortográfico a maioria das visitas ao Blogue veem do Brasil

O mais recente acordo ortográfico, que entrou em vigor em 2009 em Portugal (1.1), gerou desde então, ao longo de um processo moroso que começou muito antes (1.2), grande discussão e contestação. 
Do lado dos detratores do acordo defende-se, entre muitas posições, a descaracterização da Língua Portuguesa, e o seu afastamento para com as suas origens históricas. Do lado dos defensores do acordo empunha-se o estandarte da oportunidade de crescimento da língua, dos espaços e mercados do português como língua muito mais universalista. No fundo, as mudanças, via acordo ortográfico, aproximariam o português dos vários países de língua oficial portuguesa, dando-lhes escala em todos os sentidos, potencialmente alargando o próprio grupo da lusofonia. A isso juntar-se-lhe-ia todo o potencial económico associado decorrente do alargamento e criação de um mercado cultural único para os vários países, ou seja, haveriam muitos mais leitores e os custos de publicação e divulgação seriam reduzidos.
Bem, ambas as posições são, no mínimo, defensáveis, mas ainda haverá - com certeza - muita discussão sobre este assunto, e só o tempo revelará que as previsões se concretizarão.
Baile Popular -Di Cavalcanti
A experiência aqui do blogue, no que toca à escrita segundo o novo Acordo Ortográfico, tem sido reveladora: desde que os textos começaram a ser publicados segundo o novo Acordo Ortográfico o número de visitas vindas do Brasil subiu exponencialmente, sendo hoje o país de onde mais se visita A Busca pela Sabedoria. Obviamente que este exemplo não é representativo e não serve para provar nada, mas pode servir para refletir. 
No entanto, apesar das vantagens de crescimento do mercado para as publicações em português há um dado curioso que raramente é divulgado. Apesar de existir um novo Acordo Ortográfico com o intuito uniformizar o português falado pelo mundo fora, existem variantes para cada país dentro do atual acordo! No fundo, continua a não haver uniformidade total.
Talvez venha um dia em que o português seja uma língua uniforme mundial ou então que desapareça para dar origem a outras línguas. Ninguém saberá isso, até porque a Língua Portuguesa nunca foi estanque, até porque não nasceu do nada e porque tem, como todas as línguas, uma história de reformulações alterações, divergências e uniformizações.

Fontes:
(1) -Portal da Língua Portuguesa, disponível emhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/acordo.php
(2) - História da língua portuguesa, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_l%C3%ADngua_portuguesa

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Estupidez Humana – Um Ensaio de Cipolla


Lidamos diariamente com a estupidez, pelo menos não temos qualquer problema em, na mais ingénua e despreocupada das análises, classificar e adjetivar comportamentos e ações como sendo estúpidas. Ao enveredarmos por esses ajuizamentos podemos cair, paradoxalmente (ou não), na estupidez. Por mais simples que possa parecer, distinguir entre a estupidez e não estupidez nem sempre é fácil. Pois, nem sempre temos todos os dados, todas as informações e todo o discernimento para tais aventuras cognitivas. As nossas limitações e enviesamentos são muitos, com o pensamento imediato – útil mas por vezes estúpido – a ganhar a melhor perante o sistemático e aprofundado (1) – tendencialmente mais preguiçoso.
Ego - De Chirico
Por tudo isso, e por muito mais, o curioso ensaio de Carlo M. Cipolla intitulado de “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana” ganha um particular interesse. Essa obra, tendencialmente bem-humorada, sarcástica, irónica, caustica e crítica tenta simplificar e sistematizar, de um ponto de vista utilitarista, a estupidez humana. Assim, é quase um escrito de intervenção social, conceptual.
Cipolla defende que a estupidez humana é uma caraterística universal, que afeta todos os grupos humanos de igual modo e em igual proporção. O autor dividiu a humanidade, principalmente segundo as ações de influência económico-sociais (privilegiando os efeitos das relações entre indivíduos), em: Ingénuos; Inteligentes; Bandidos; e Estúpidos. Essa divisão é feita através de uma análise custo-benefício, um excelente princípio e ferramenta para quantificar caraterísticas difíceis de quantificar e avaliar.
Passo apenas a citar então, tento em conta as quatro divisões anteriores, a definição que Cipolla dá aos estúpidos (2): “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso". Segundo esses mesmos princípios, então os Ingénuos seriam os se prejudicam a si próprios mas trazem ganhos aos outros (2). Os Inteligentes seriam os que trazem ganhos a si e aos outros (2). Por fim, os Bandidos traziam ganhos próprios à custa de prejuízos para os demais (2).
As quatro categorias, aplicando-as a um gráfico de dupla escala ortonormado cartesiano (com um eixo a representar os ganhos próprios e o outro os custos ou danos), definem quatro quadrantes. Assim, de um modo muito simples – talvez até demasiado simples, mas mais que adequado pois trata-se de um ensaio tendencialmente humorístico, não científico e exaustivo -, recorrendo a geometria básica, catalogam-se os comportamentos da humanidade, e seus efeitos. Esta construção e ordenação seria de extrema utilidade caso a estupidez se conseguisse evitar, pois, tal como a define o autor, ser estúpido resulta, de um modo absoluto, na introdução de perdas na Humanidade, vista como um sistema económico-social onde se podem considerar as várias facetas da humanidade. 
O livro “Allegro ma non troppo” contém ainda um divertido ensaio sobre a história da Europa, tendo o gosto, consumo e busca pela pimenta como força motriz dos principais acontecimentos. Mas é na segunda parte, no ensaio sobre a estupidez que a obra ganha uma outra vertente. Não se podendo obrigar ninguém a ler ou a apreciar as letras – e ainda bem -, pelo menos pode-se sugerir. Desse modo, recomendo fortemente a leitura deste livro, especialmente porque estes pequenos excertos de “As leis fundamentais da estupidez humana” são apenas partes de um texto muito mais divertido e rico. Estupido será, podendo, não ler… Pois, é imensa a nossa capacidade para ignorar a nossa ignorância (1), ou estupidez… Neste caso (2), ignorar a estupidez, pode ser extremamente danoso, especialmente para os outros!

Referências Bibliográficas
1 –Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012
2 – Cipolla, Carlo M. “Allegro ma non troppo – seguido de as leis fundamentais da estupidez humana”. Edições Textografia, 2008.

sábado, 18 de agosto de 2012

Manipular as Ações Alheias Sugerindo Ideias Indiretas – A Impulsão Ideomotora


E se conseguissem influenciar os nossos comportamentos e ações físicas através de ideias indiretas? Bem, parece que podem de facto, que de um modo inconsciente somos altamente influenciáveis, sem disso termos a mínima perceção, pelas mais ínfimas sugestões. 
Os papagaios  (os acrobatas)- Fernad Léger
Uma das experiências clássicas da psicologia social, uma entre muitas referidas no livro “Pensar, Depressa e Devagar”, realizada pelo John Bargh revela o modo como, indiretamente, qualquer pessoa é altamente influenciada apenas por ideias. Nessa experiência foi pedido a um grupo de jovens que ordenassem um conjunto limitado de palavras numa frase coerente. A metade dos indivíduos disponibilizou-se um rol de palavras relacionadas indiretamente com o tema da velhice. Aos restantes não havia qualquer relação de conjunto das palavras a qualquer tema evidente. Depois de todos participantes na experiência concluírem a tarefa proposta, atravessaram um corredor para continuarem com mais testes, mas era no percurso entre salas que residia verdadeiramente a experiência. Por mais surpreendente que possa parecer, os jovens que tinham formulado frases com alusões à velhice deslocaram-me mais lentamente que os outros. Num questionário posterior a maioria dos jovens a quem tinham sido fornecidas palavras relacionadas com velhice consideraram não ter notado qualquer tema em comum nas palavras.
Este exemplo experimental, relatado por Daniel Kahneman na obra já citada, revela como podemos ser facilmente influenciados por impulsões. Neste caso concreto foi uma ideia subliminar que gerou uma ação inconsciente e não premeditada: deu-se o efeito ideomotor (*). Então, tendo em conta o exemplo e aplicando o pensamento indutivo, muitos poderão ser os casos em que os nossos comportamentos e ações são, propositadamente ou não, influenciados pelas ideias que existem e são disseminadas à nossa volta. É quase preocupante concluir quão facilmente podemos ser influenciados, quão ténues e simples podem também ser os meios e os modos de o fazer, e quão evidentes podem ser os resultados. Se, muitas vezes, sem intenção podemos ser levados a ter certos comportamentos, imagina-se então quando essa influência é propositada. O primeiro passo para tentar minimizar essa disposição natural, caso se pretenda enveredar por esse caminho, é começar por admitir e assumir a facilidade como qualquer um de nós é influenciado pelo meio e pelas ideias.

Nota: O Livro no qual se fundamentou o presente texto é incrivelmente útil e interessante para quem se quer iniciar na psicologia social. Daniel Kahneman escreve de um modo simples, por vezes até sarcasticamente divertido, recorrendo e referindo muitos exemplos de experiências que ajudam à compreensão de conceitos e saberes complexos e de especialidade. Seguramente que esta mesma obra será utilizada posteriormente como base a mais textos. Sem dúvida que a recomendo. Não foi por acaso que o autor, que é psicólogo, ganhou o prémio Nobel da Economia, por mais estranho que possa parecer à primeira vista.

Referências Bibliográficas
(*) Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012

sábado, 28 de julho de 2012

Filme: Shutter Island


Martin Scorsese, em mais um filme onde dá o protagonismo a Di Caprio, surpreende-nos com a tensão, quase terror, predominantemente – que é para não dizer completamente – psicológica de Shutter Island. Este tipo de filme não é muito comum, e menos ainda para o diretor em causam, especialmente tendo em conta a obra anterior. Assistir a Shutter Island é entrar num enredo de reviravoltas surpreendentes. Mas desengane-se quem pense que se trata de um filme de ação dos mais típicos e de puro entretenimento visual. A ação desta obra de Scorsese é intensa e cativante pela curiosidade que desperta, pelo desconhecido e pelas emoções e sensações que provoca, independentemente de cenas altamente produzidas visualmente. Parece-me difícil de catalogar o filme, podendo dizer-se que é um filme de ação, drama, terror, policial, desde que a cada uma destas possíveis classificações adicionarmos a palavra “psicológico”.
A trama, ao jeito policial, vai-se adensando com o decorrer do filme, o “suspense” é a regra. O final é surpreendente, apesar de várias pistas espalhadas ao longo do filme que o pudessem prever. Essas informações, inicialmente incompreensíveis, podem deixar-nos a pensar no final - a mim pelo menos deixou. Para além de uma história bem original, o modo como nos é apresentada permite diversidade nas interpretações. Muitos poderão não gostar de algumas “pontas soltas” mas, a meu ver, isso acrescenta e torna o filme mais rico, dado um papel mais ativo e interpretativo a quem vê o filme, isto apesar de estar longe de ser um filme é que a sua compreensão dependa totalmente da imaginação do espetador. 
Algumas reflexões então sobre a história propriamente dita: Afinal o que é real?, até que ponto podemos confiar no que consideramos ser real, ou que é construído?
Di Caprio excede-se na excelente interpretação, mesmo em cenas mais intensamente duras (psicologicamente). Todos os atores revelam suas qualidades, respondendo com as emoções e reações que se esperam para os eventos aos quais são sujeitos na trama. A fotografia está muito bem conseguida. A Ilha é verdadeiramente sinistra, ora calma e aprazível.
Recomendo o filme, mas recomenda também que se preparem para cenas mais pesadas, com alguma violência física e psicológica.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Gordura é Formosura: A Mudança dos Modelos de Beleza na actualidade?

ezaEstava eu muito bem a fazer um raro zapping e deparo-me, quando passava por um dos canais de música, com uma figura feminina algo estranha. A sua estranheza não se devia tanto a adereços, ao guarda-roupa ou maquilhagens, mas mais com as suas formas, com o seu corpo quase desenquadrado naquele meio televisivo. Curiosamente, a dita cantora, no seu videoclip "Starship", exprimia e fazia por salientar as suas já acentuadas formas como arma de sedução. Falo de Nicki Minaj, uma cantora de aparência pouco habitual, segundo os padrões de beleza actuais que tendem a privilegiar outro tipo de formas mais leves, segundo aquilo que se tem considerado mais "vendável" no mundo dos videoclips musicais.  
Não consta que a cantora em causa se destaque especialmente pela sua qualidade vocal única, nada, por exemplo, como o caso da voz de Adle, talento que lhe permitiu atingir fama mundial, independentemente das suas qualidades físicas para vidoclips sexualmente cativantes. A comparação entre Adele e Minaj pode ser desproporcionada, até porque os estilos musicais em causa, e o tipo de videoclips, são quase antagónicos, mas a ideia aqui deste texto é abordar as formas, os modelos de beleza e o marketing associado ao mundo da música. 
Claramente Nicki Minaj faz do seu corpo uma poderosa arma de marketing para vender a sua música - isto não desconsiderando na qualidade da música em causa, do ritmo e outras propriedades decorrentes do próprio tipo de música. Ela simplesmente recorre a essas armas, tão legitimas como outras quaisquer, à semelhança do que muitos outros artistas enquanto soldados nas guerras pela popularidade e pelo ascender ao "estrelato POP".
Benefits supervisor sleeping - Lucian Freud
Não vou salientar nenhum estudo, obra ou sequer tentar fazer aqui alguma demonstração ou evidenciar uma qualquer clarividência. Mas, este pormenor que me chamou a atenção no sensual videoclip da Minaj levou-me a questionar os nossos padrões contemporâneos de beleza. Será que os padrões de beleza estão novamente a mudar? Depois de algumas décadas em que reinavam a beleza magra, voltaremos a ter deusas roliças? Quem sabe. Ou então, simplesmente o paradigma pode estar a mudar num sentido diferente: não definindo modelos regidos a seguir, mas permitindo uma nova variedade de beleza muito variada, e muito mais democrática.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Arte Dramática – Uma terapia Psicológica Social

Podemos ver nas criações artísticas muitas utilidades e funções, podemos aprecia-las por muitos e diversos pontos de vista, ou não fosse a Arte uma conceção, no mínimo, subjetiva. Pode-se dizer, de um modo muito simplificado, que há considere mais a Arte pela dimensão simbólica e quem a veja mais pelo valor estético da criação em causa. Para outros ainda pode ser na conjugação do simbolismo com a estética, numa fusão e equilíbrio próprio, que se atinge verdadeiramente o ideal de Arte – pessoalmente fico-me mais por esta visão. Provavelmentehaverá ainda quem considere outras coisas sobre Arte, e até questione o que é afinal uma obra de arte. A discussão seria interminável.
Manhã - Munch
Sem querer entrar nas discussões em torno do que é uma obra de arte – assunto que merece um outro texto dedicado ao assunto – opto por conduzir estas palavras para escolher outra via. Pretende-se aqui analisar e refletir, especificando e setorizando, sobre o potencial terapêutico da Arte Dramatica/tragica, não excluindo todas as demais possíveis “utilidades” de uma obra de arte que se remeta para essa categora (ou categorias).
Qualquer Arte pode ser vista como uma expressão de sentimentos, ideias, e afins. Algumas criações são consideradas dramáticas ou trágicas – independentemente de estarem ou não associadas à atuação, ao teatro e ao cinema -, potenciando emoções negativas. Algumas dessas transmitem medo, ódio, aversão, repulsa entre um sem fim de sentimentos pouco positivos. No entanto, essa opção pela arte dramática pode ter efeitos positivos e ser bastante útil por isso mesmo. Este tipo de Arte pode ser paradoxal!
Segundo Nelson Goodman, em “A Linguagem da Arte”, essa utilidade e potencial terapêutico deve-se ao seguinte: "a tragédia tem efeito de nos libertar de emoções negativas reprimidas e escondida, ou de nos administrar doses calculadas do vírus morto para prevenir ou mitigar a devastação de um ataque real. A arte torna-se não apenas paliativo, mas também terapia, fornecendo um substituto da realidade boa e uma salvaguarda contra a realidade má".
São várias as criações artísticas que  ajudam acomprovar estas palavras de Goodman. Veja-se a intemporalidade e persistência dos temas das grandes tragédias Gregas ao longo de toda a cultura Ocidental. Sabemos que esses temas trágicos fascinam, mas serão assim porque, nem que seja inconscientemente, têm os seus efeitos positivos nos individuos. Desde então esses modelos foram copiados e replicados, como forma de dar conteúdos à arte e, mesmo que não fosse objetivo último, fazer alguma terapia psicológica – individual ou coletiva.
Isto faz-me lembrar um exemplo, corriqueiro e bem próximo do cidadão comum, especialmente por terras além-mar, no Brasil, mas que se sente também por Portugal, quer nas criações nacionais ou importadas. Grande parte das telenovelas têm esse efeito terapêutico sobre as "grandes massas", com as tragédias ficcionais a entrarem no quotidiano popular e, durante um curto período de tempo, a dosear as agruras do dia-a-dia, ajudando a preparar para os dramas incontornáveis da vida real. Este é mesmo apenas um exemplo, cada país ou cultura terá a sua própria realidade no administrar doses terápêuticas da tragédia, ainda que umas possam ser consideradas mais "artísticas" que outras.

Fonte Bibliográfica: Goodman, Nelson. "Linguagens da Arte - Uma Abordagem a Uma Teoria dos Símbolos". Lisboa: Gradiva, 2006.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aos Franceses pouco interessam os Escândalos Sexuais dos seus Políticos?


O escândalo sempre foi algo muito apetecível como tema de controvérsia, quer as pequenas fofocas entre amigos, conhecidos ou vizinhos ou até aquelas relacionadas com as grandes figuras públicas. Dos vários tipos de escândalos, os de conduta sexual estão estre os mais sensacionalistas, e, no caso das figuras públicas ou de proa da sociedade, esse potencial de interesse parece subir ainda mais. Uma razão sociológica evidente relaciona-se com a procura, pelas massas, daquelas características mundanas naquelas personalidades que lhes são, por vezes, apresentadas como arquétipos de perfeição, e modelos a seguir e sinónimos de sucesso. 
Infinidade de maquinas de escrever e infinidade de macacos, e infinidade de tempo = Hamlet - Arman

Mas essa importância pelo escândalo associado às elites não se verifica em todos as sociedades, umas valorizam mais esta procura pelo escândalo privado que outras. Por exemplo, nisto, Inglaterra e França são muito diferentes, especialmente no que toca à vida dos seus políticos/líderes. São os próprios jornalistas franceses a admitir que a vida privada e os escândalos dos seus políticos não interessam à população – alguns jornalistas, em recente reportagem do magazine “Capital” do canal francês M6, referiram vários casos de escândalos abafados e não divulgados por não interessarem ao público francês, um exemplo foi o caso da segunda família de François Mitterrand, que nunca foi revelada durante os anos da sua presidência*. 
Curioso? Sim, de facto. Que quererá isto significar do ponto de vista sociológico e cívico? Um nível superior de cidadania política? Mais respeito pelas pessoas enquanto representantes das pessoas? Uma ilusão e estado que se pretende manter, independentemente da verdade? Bem. Talvez, talvez sim, talvez não. 

sábado, 7 de abril de 2012

Começar a construir de cima para baixo - Uma Técnica de Engenharia


As paredes devem-se começar a executar de cima para baixo”.  Qual seria a resposta de um imaginário interveniente a esta minha afirmação? Provavelmente diria: que disparate, todos sabem que as casas não se começam pelo telhado! Apesar da reação, não teria qualquer receio em fazer tal afirmação, até porque já a fiz várias vezes e continuarei a fazer. Mas, para evitar que a afirmação se torne um anacronismo, há que aprofundar e explanar mais o assunto.

Construcão 1923 - Thomas Hart Benton

Primeiro, quando digo que as paredes se devam começar a executadas por cima, refiro-me apenas a que devem ser construídas primeiro nos pisos superiores, isto depois da estrutura que as irá suportar estar já finalizada. Por exemplo, as paredes em alvenaria, para edifícios com estruturas de betão armado ou metálicas, devem começar a ser executadas, fiada a fiada da base do piso até ao tecto, dos pisos superiores até aos inferiores. Habitualmente afirma-se, como corrente metáfora em contextos que até nada têm que ver com construção e por não especialistas,  que se começa sempre a construir a partir de baixo. Isso é verdade para os elementos estruturais que garantem a estabilidade da construção, mas nem sempre é uma generalização construtiva válida, tal como demonstrarei. As paredes de alvenaria, que revestem e dividem interiormente atualmente os edifícios, tendo em conta a construção tradicional corrente, não são elementos resistentes. Paredes em alvenaria, nas construções recentes, são até “negativas” do ponto de vista estrutural, ou seja, apenas fazem peso sobre o edifício em causa e sua estrutura resistente. Como fazem peso sobre a estrutura também a deformam – pois é, todas as estruturas se deformam, e essa deformação é controlada em fase de projeto através do conceito de  Estados Limites de Utilização. Logo, se começarmos a construir as paredes a partir dos pisos inferiores, essas paredes, quando todo o edifício tiver construído, serão sujeitas a esforços causados pelas deformações posteriores, provenientes da própria estrutura sujeita aos acréscimos de pesos incrementais das paredes que se vão construindo. Como as paredes não são construídas para serem elementos resistentes o mais comum é surgirem fendas. O ideal é ir construindo as paredes de cima para baixo, construindo-as, piso a piso, do de cota superior até ao de cota inferior, e assim sucessivamente até tudo ficar finalizado. Com esta opção a estrutura vai deformando progressivamente e as paredes inferiores serão executadas já com a deformação espectável total da estrutura resistente. Assim evitam-se fendas nas paredes e restantes elementos construtivos de revestimento (rebocos, pinturas, e outros). Esta é por vezes uma das razões para predes de construções recentes apresentarem fendas e fissuras (há muitas outras também, mas isso seriam outras discussões e razões). Uma outra solução, que pode evitar estas fendas por deformação vertical dos elementos, passa por optar por não “ligar” o topo das paredes à laje, aplicando um tipo de material elástico que absorva possíveis deformações e não transmita esforços. Esta última opção pode ser devidamente disfarçada e não se notar o artifício nas paredes finalizadas.
Mais uma vez se comprova que o sendo comum nem sempre é o melhor juiz, a solução que parecia evidente nem sempre é a melhor. Por vezes - usando uma metáfora relacionada com construção - “é preciso partir pedra” e fazer algumas desconstruções (de ideias). Neste caso - continuando com as metáforas - o excesso de adereços, indevidamente colocados, podem levar mesmo à ruína do todo, ou a que esse todo sofra danos evitáveis. Há que respeitar e atender ao essencial, o resto poderá ser apenas acessório - uma trivialidade que pode dizer muito e pouco ao mesmo tempo.

domingo, 25 de março de 2012

"As Cidades Invisíveis" - O livro das muitas leituras com poucas palavras


Foi-me, há um ano talvez, recomendada a leitura do livro “As Cidades Invisíveis” de Italo Calvino. Quando me foi sugerido este título de imediato pensei que se tratasse de um livro sobre urbanismo, ainda exibindo um título cheio de estilística literária. Depois de ler a contracapa percebi logo que não se tratava de uma obra literal, no mínimo, toda ela seria uma ou muitas metáforas. Nessa mesma contracapa o autor diz “O livro em que creio que disse mais coisas continua a ser As Cidades Invisíveis". Apesar de não chegar às 200 páginas, pode-se dizer o autor diz mesmo muito. A Obra retrata, pegando em muitas pequenas descrições de cidades completamente fantasiosas, tal como o próprio pano de fundo daquilo que se pode chamar a ação – as supostas conversas entre Kublai KHan e Marco Polo, onde o veneziano descreve as cidades que conheceu nas suas muitas viagens, em descrições historicamente descontextualizadas –, a própria Humanidade, nas suas construções físicas e conceptuais
Inquilinos do Tempo - Tatiana Iliina

Arrisco a dizer que “As Cidades Invisíveis” é, quase exclusivamente, uma grande descrição retalhada por vários episódios. Nesses relatos de Marco Polo, que vai aguçando a curiosidade do Imperador Mongol com o relato de cidades cada vez mais surreais e cheias de aspetos simbólicos, concretiza em discurso direto descritivo o génio imaginativo de Italo Calvino, a sua leitura social e comportamental deste mundo. No livro há cidades para todos os gostos, feitios e estados de espírito. Há descrições de belas, organizadas, justas e solidárias cidades. Há também a descrição do oposto das anteriores. Descrevem-se também exemplo de cidades que resultam de miscelâneas e cheias de dualidades. Muitas outras de tão surreais parecem ser incompreensíveis. Em cada descrição de cidade o leitor e incitado à reflexão.
Provavelmente, por existir tanta diversidade, tanta possibilidade de leituras das palavras de Calvino é que o autor afirmou que terá sido a obra onde mais escreveu. Ou então, simplesmente as suas palavras não significam coisa alguma, ou não tinham qualquer significado direcionado inicialmente, sendo pura e simplesmente arranjos capazes de nos fazer, enquanto leitores, dar a nossa própria leitura e dar tantas almas às tantas cidades descritas como nos permitir a nossa própria imaginação. Almas essas que podem ser também elas figuras estilísticas da nossa compreensão de Humanidade.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Filme “Sem tempo” – onde literalmente o tempo é dinheiro

Assim que vi o trailer do filme “Sem tempo” (ou “in time” no original) fiquei logo de curiosidade aguçada, pois, pelo que demonstravam as imagens, estava-se perante uma ficção social que, a ser bem feita, poderia ser uma experiência cinematográfica muito interessante – daquelas que nos fazem refletir durante e após o fim do filme.

Analisando o filme pelo desempenho dos atores, pela fotografia, guarda-roupa, encadeamento da acção e afins, mesmo com alguns apontamentos bastante interessantes, nada sobressai espetacularmente. Na sequência da ação e do drama até diria que existem algumas partes desconexas. Falta alguma coerência e ligação entre os vários momentos do filme para dar mais coerência a esta ficção. Apesar disso, ultimamente Justin Timberlake começa a esboçar contornos de um artista à moda antiga, um quase humanista que toca várias artes.
Mas agora aquilo que me fez gastar um “post” aqui no blogue com este filme. A ficção social, a sociedade criada para dar o ambiente social ao filme é das mais originais que se têm visto no cinema para o grande público nos últimos anos. Os autores conseguiram, sem recursos a grandes efeitos especiais ou tecnologia, recriar uma sociedade completamente diferente, num futuro desconhecido e estranho, mas que muito nos faz refletir sobre o mundo de hoje e até sobre a intemporal condição humana. Numa altura em que o jargão “crise económica” está na ordem do dia, este filme apresenta um futuro sem dinheiro, onde o tempo é, literalmente, o dinheiro. O que é delicioso - embora "agridoce" -nesta obra é a forma como foi reinventada a noção de tempo e a sua influência nas vidas e sociedades Humanas.
Para melhor enquadramento, sem com isso querer estragar a história e o prazer de assistir a este filme, é adequado fazer aqui uma pequena referência a essa sociedade ficcional criada. Imagine-se – tal como imaginaram os autores – uma sociedade onde toda a humanidade tinha sido geneticamente modificada para parar de envelhecer aos 25 anos de idade, ou seja, todos teriam acesso à imortalidade com o aspeto e vitalidade dos 25. No entanto, a partir dos 25 um relógio biológico introduzido com a alteração genética inicia uma contagem decrescente que marca o fim da dita imortalidade. Ou seja, a imortalidade tinha data marcada, com um tempo a esgotar-se constantemente. Mas esse tempo poderia ser aumentado ou diminuído por transferências. É ai que entra o dinheiro, com o tempo de cada a um a transformar-se no seu dinheiro, isto num vínculo muito pessoal do qual dependia a sua própria vida. Então neste novo mundo o tempo ganha uma nova dimensão comercial. Para viver mais seria preciso ganhar tempo, trabalhando, fazendo comércio e afins, ou simplesmente roubando. Tudo se pagava e comprava com o tempo que cada um transportava consigo no seu “relógio”. Quando o tempo se esgotasse, no relógio de cada, um simplesmente o fim chegava, vinha uma morte inevitável programada geneticamente. Assim, viviam somente – pelo menos em teoria – os que faziam por merecer

Dá então para imaginar quais as consequências desta ficcional da oportunidade de poder ser imortal. Mas seira este modelo justo, quem viveria mais tempo ou mesmo atingisse a imortalidade era quem merecia de facto? No filme fica evidente que isso estava reservado penas aos mais ricos (em tempo). A própria posse do tempo influenciava o modo como o seu portador o via e dependia: “para quê correr quanto temos todo o tempo do mundo”. Os pobres, por outro lado, passavam a vida a correr tentando aproveitar todos os minutos e segundos de uma vida insegura e incerta – apesar do seu aspeto exterior. O paralelismo com a vida de hoje é evidente: as classes mais desfavorecidas trabalham para viver cada dia, enquanto que as mais privilegiadas criam novas necessidades e ocupações para gastar o seu tempo.

A condição humana – ainda que isso seja uma coisa difícil de definir – é tão colocada em causa no filme que as reflexões que dele podemos retirar são imensas. O facto de ninguém envelhecer para além dos 25 anos acabava com as diversidades etárias sociais: todos tinham a mesma aparência, independentemente da experiência de vida que tinham. Não havia distinção de aspeto etário entre pais, filhos e avós; todos se assemelhavam se conseguissem continuar a ter tempo de vida. Seria suportável viver numa sociedade destas? Apesar dessa possibilidade - ainda que apenas muito ténue na atualidade -, hoje muitos tentam evitar a sua idade, apesar de todas implicações e relações sociais que dai dependem e resultam.

No próprio filme é referido, por uma das personagens com mais tempo da “alta finança do tempo”, que esta sua sociedade “assentava nos princípios do evolucionismo darwinista capitalista, pela sobrevivência dos mais fortes e aptos”, daqueles que tinham mais tempo. Apesar de tudo, se calhar, viver para sempre, ser jovem para sempre, ainda por cima quando isso não está ao alcance de todos, pode não ser assim tão bom e lá grande evolução

domingo, 20 de novembro de 2011

Porque "fumam mal" hoje as chaminés?

Sempre que começa o Inverno, ou por vezes até o Outono, começam-se a acender em muitos dos lares portugueses lareiras. Por essa altura é comum também surgirem conversas, mais ou menos informais sobre essas mesmas lareiras, sedo já uma constatação habitual a noção generalizada de que: as lareiras de antigamente fumavam melhor, hoje constrói-se cada vez pior!”. Nada poderia ser mais falso!
Tempestade de Neve - William Turner

O senso comum leva, obviamente, a associar o problema de escoamento do fumo das atuais lareiras para o exterior dos edifícios à sua própria construção – da lareiras é claro. A associação é normal, no entanto o problema não é das lareiras em si, o problema é do edifício. Mais concretamente, o problema relaciona-se com a falta de ventilação natural dos edifícios de construção contemporânea, que advém da maior estanquidade e isolamentos dos materiais e técnicas construtivas que hoje se utilizam. Ou seja, o problema do fumo surgiu depois de se resolver o problema do mau isolamento dos edifícios mais antigos. Nos edifícios de construção mais antiga, porque tinham tantas frinchas e espaços vazios por onde entrava ar vindo de fora e devido à convecção, o ar-circulava naturalmente de dentro para fora e vice-versa. O ar ao longo dos edifícios, por razões de convexão, circula: entrando ar frio do exterior e saia o mesmo ar depois de aquecido pela chaminé. Ou seja, antigamente: criava-se ventilação natural direccionada que forçava o fumo a sair pela chaminé. Este fenómeno era tanto mais acentuado quando maior fosse o vento. Esses fenómenos podem ser chamados de "efeito de chaminé".
Apesar do isolamento dos edifícios ser benéfico do ponto de vista energético, mesmo que fumem mal as chaminés, isso fará com que tenhamos menos ventilação natural e que as renovações de ar possam não ser as suficientes para dispersar alguns maus odores e até gases nocivos e perigosos para a nossa saúde que se formam dentro dos edifícios.
Curiosamente, se pretendermos que as nossas chaminés de construção recente “fumem” melhor há que instalar sistemas de ventilação mecânica ou então deixar de isolar tantos as casas. Qualquer uma das soluções traz acrescimentos de consumo energético para manter uma determinada temperatura. Resta saber se a degradação do Ambiente – associada aos crescentes consumos energéticos e emissões poluentes correspondentes - vale mais que um ambiente interior com alguns gases perigosos e o desagradável e visível fumo?

Ficam as seguintes opções:
•    Acender a lareira, passar algum frio, não isolar a casa e deixar a chaminé "fumar bem";
•   Acender a lareira, evitar o frio, isolar a casa e ficar com fumo no interior e outros gases nocivos;
•    Acender a lareira, evitar o frio, insolar a casa e gastar energia a ventilar o fumo e outros gases perigosos para fora;

•    Acender a lareira com um recuperador de calor (que custará mais dinheiro e nos "afastará mais da chama"), evitar o frio e insolar a casa, sem esquecer outros gases perigosos;
•    Não acender lareira, isolar a casa, usar outras técnicas e fontes de calor (que tendencialmente gastam mais energia) e evitar o fumo, mas alguns gases perigosos ficam sempre lá.

Bem, confuso e complexo, até porque a solução ótima obriga a uns quantos cálculos e escolhas pessoais ou dependentes dos contextos… não obstante de habitualmente ser a última opção a melhor. No fundo, interessa é mesmo isolar a casa quanto baste (por exemplo, reguladores em fachadas e caixilharias que permitem controlar a entrada de ar) para garantir alguma ventilação natura para dispersar gases nocivos.  Já a fonte de aquecimento depende, por outro lado, de quanto estamos dispostos gastar com isso. Mas uma lareira é sempre uma lareira, afetivamente e emocionalmente as sensações que liberta são outras.

Será que, pensando em todo o trabalho e questões que levanta, vale sequer iniciar uma conversa sobre como fuma uma chaminé?

Nota: para mais informações sobre ventilação natural de edifícios fica a seguinte sugestão: "Ventilação Natural de Edifícios de Habitação" da autoria de João Carlos Viegas, numa edição do LNEC de 2002.

domingo, 6 de novembro de 2011

Memorial do Convento - A frase mais longa num romance

Muitos portugueses admiram Saramago por ser o nosso único prémio Nobel da literatura, uns contra vontade - pelas polémicas, personalidade e escolhas de vida -  e muitos outros genuinamente pela monumentalidade do seu trabalho. Normalmente, a primeira crítica que se arremessa contra o desaparecido autor é a sua pontuação (ou falta dela). Sem dúvida que pode ser de difícil leitura - o que até pode ser bom. Não sei se o nosso Nobel não pretendia complicar propositadamente a sua escrita. Será que queria que os Portugueses se esforçassem e dedicassem mais tempo à leitura? Pois ler uma coisa “complicada” demora forçosamente mais tempo. Será que estava a criticar-nos pelos nossos parcos hábitos de leitura e, logo, dificuldades em compreender textos um pouco mais complexos e arrojados do ponto de vista da pontuação.
Procissão da verdadeira cruz na Praça de S. Marcos - Gentile Bellini

Pegando na polémica pontuação a que Saramago recorria, queria referir aqui um excerto de uma das suas obras, que por acaso até foi a que lhe deu o prémio Nobel - Memorial do Convento. Confesso que uma frase em especial dessa obra me surpreendeu, isto porque deve ser das maiores frases escritas até hoje num romance: desenvolve-se ao longo de 7 páginas! Provavelmente isto pouco de novo tem para muitos de vós, até porque a obra passou a ser de estudo obrigatório no ensino secundário.
Voltando à longa frase que me fez escrever este texto. Na minha opinião Saramago demonstrou com esta opção e criação o seu génio. A frase em causa relata uma procissão. De início, por ser uma descrição, somos levados a ler rapidamente para chegarmos à acção, para pegarmos de novo na história das personagens. No entanto, a frase parece interminável, e à medida que avançamos mais rápido tenderemos a lê-la cada vez mais rapidamente. Esta estratégia do escritor faz com que o leitor entre numa dinâmica acelerada, ganhando todo o evento uma vivacidade frenética muito própria. Assim, à medida que sentimos o movimento de todo o aparato descrito, que serve para descrever toda uma sociedade - as suas características, as suas injustiças, hipocrisias, crenças e inocências –, entramos na visão que o autor quer transmitir do evento em causa e suas implicações. Saramago faz assim uma longa descrição, que até se torna rápida e dinâmica, numa sequência de contra-sensos e absurdos que vai salientando. 
Concordando-se ou não com a visão do autor, é magistral o modo como o faz!

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