Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Personalidades. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A fome dos Pardais na china de Mao Tsé-Tung e ignorância da ideologia

Mao Tsé-Tung conseguiu, com os seus camaradas, depois de uma longa guerra civil e dos efeitos da ocupação japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, implementar um regime comunista na China. Em 1949 Mao consegue juntar a presidência do partido comunista chines à da própria china. Intitulava-se como o Grande Timoneiro, implementando um regime totalitário onde o culto da personalidade do líder foi muito forte. Mao era, acima de tudo, um ideólogo e um doutrinador, tentando utilizar os ensinamentos marxistas para modernizar a China, numa relação nem sempre de cooperação com a URSS.

Poster da campanha "mata um pardal" - autor desconhecido

A China que Mao Tsé-Tung conquistou em meados do século XX ERA esmagadoramente rural e atrasa do ponto de vista tecnológico, a nível de desenvolvimento quase medieval, especialmente nas zonas rurais. Durante a década de 50 os resultados da governação de Mao não foram os esperados, por isso implementou aquilo a que chamou “O Grande Salto em Frente”, entre 1958 e 1962. Para ele uma das prioridades seria acabar com as 4 pestes: os ratos, moscas, mosquitos e pardais. Aos ratos e moscas atribuía a culpa de doenças e da falta de higiene. Os mosquitos relacionavam-se com a malária, e os pardais com as perdas das colheitas. 

Assim, em 1960 popularizou-se a campanha “matar um pardal”, que incentivava as pessoas, especialmente nas áreas rurais a caçar e matar pardais nos seus tempos livres. Foi uma matança enorme, que quase exterminou todos os pássaros da china. Mas ao eliminarem os pardais e muitas outras aves, eliminaram também os principais predadores das pragas de insetos que atacavam também as colheitas agrícolas. A china sofreu uma fome massiva que causou a morte de dezenas de milhões de chineses. Há estimativas de terem morrido de fome pelo menos 20 milhões de pessoas por causa deste erro, embora outras estimativas sejam muito mais dramáticas.

Atribui-se a Mao Tsé-Tung a frase “Prefiro um vermelho a um técnico”. Isto revela o pensamento de Mao, a desconfiança perante os intelectuais, os técnicos e quem detinha conhecimento aplicado, algo que se sentiria mais fortemente na época da “Revolução Cultural”. A sua ideologia e a sua doutrina estavam acima de tudo, de todos os conhecimentos e saberes, especialmente os técnicos e académicos. O ditador irritava-se facilmente com a crítica e com todos aqueles que discordavam dele. Foram várias as purgas e as perseguições. “O Grande Salto em Frente” foi um descalabro e Mao Tsé-Tung foi forçado a afastar-se do governo em 1962. Mais tarde, em 1966 voltaria ao poder, munido do seu “livro vermelho”, que era um compêndio de várias fases da sua autoria, pronto a fazer a famosa “Revolução Cultural” e que rapidamente passaria do ferver ideológico ao marasmo social. A supressão e afastamento da influência dos membros mais cultos, esclarecidos e conhecedores da vida ativa chinesa, substituídos assim pelo movimento popular miliciano da Guarda Vermelha, composta por fanáticos que se mostravam incompetentes nos assuntos da governação e produção, voltou a estagnar novamente o desenvolvimento do país. Essa tendência só se alteraria posteriormente com o retorno de Deng Xiaoping a partir de meados dos anos 70, que iria abrir a china e a sua economia ao mundo, mas mantendo o domínio do partido comunista chinês. 

Este episódio da história universal, tão estranho que quase parece uma ficção, demonstrou os efeitos catastróficos que podem surgir das políticas públicas dirigidas apenas pela ideologia política, sem recurso a conhecimentos técnicos e científicos. Foram eventos desta natureza que desacreditaram e continuam a desacreditar a ideologia política. No entanto, ainda assim, conhecemos casos de líderes políticos que continuam a lutar por convicções pessoais, sem demais fundamentos para além dos seus sistemas de crenças. 


Referências bibliográficas:


Li, W., & Yang, D. T. (2005). The great leap forward: Anatomy of a central planning disaster. Journal of Political Economy, 113(4), 840-877.

Peng, X. (1987). Demographic consequences of the Great Leap Forward in China's provinces. Population and development review, 639-670.

Roberts, J. A. (2011). A history of China. Macmillan International Higher Education.

Saada,  Philippe (2017) Mao, le père indigne de la Chine moderne, In Les coulisses de l'Histoire.
Cinétévé & Arte



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lipovetsky em Coimbra: reflexões sobre hipermodernidade, hiperindividualismo e hiperconsumismo

Quem tem estado atento a alguns textos que vou escrevendo aqui para o blogue já percebeu que Gilles Lipovetsky é um daqueles autores que vou regularmente citando. Lipovetsky é um dos filósofos e sociólogos mais curiosos do nosso tempo, dos tempos hipermodernos como o próprio apelida. Por isso não podia desperdiçar a oportunidade de o ouvir ao vivo quando na passada sexta-feira, dia 18 de janeiro este em Coimbra numa palestra em que falou de individualismo e consumismo. Não contava tirar muitas notas, uma vez que já li várias obras do autor. Mas foi impossível não o fazer, o que me levou a ter de estar sempre a escrevinhar no telemóvel para aproveitar algumas declarações que me pareceram relevantes. São dessas anotações que surge este texto, pois pareceu-me valer a pena deixar aqui o registo. 

Gilles Lipovetsky na conferência: "La société d'hyperconsommation: sommes-nous plus heureux?"

Lipovetsky descreve-nos como consumidores. Para ele vivemos na hipermodernidade e não na pós-modernidade como defendem outros filósofos e pensadores. Defende que a modernidade não terminou, que apenas se intensificou. Segundo ele somos hipermodernos porque amplificamos o que considera essencial do modernismo: o sistema democrático liberal, o individualismo e o consumismo. Na conferencia não referiu as mudanças no peso das grandes narrativas políticas e ideológicas que quebram esse aspeto da modernidade, algo que invoca na sua obra literária. Teria sido uma boa questão para lhe colocar, mas não me lembrei na altura. Ou seja, hoje defendemos sistemas democráticos mais profundos, garantias de todas as liberdades, somos muito mais individualistas e consumimos a uma escala sem precedentes. 

E todas estas mudanças são bem recentes, tendo ocorrido nos últimos 30 anos nas sociedades ditas ocidentais e ricas, do norte global como alguns gostam de chamar. Mas a sociedade do consumo é mais antiga, identificável com o pós 2.ª Guerra Mundial. A diferença consiste na escala, forma e tipo de consumo, que anteriormente era marcadamente coletivo. O automóvel era para a família, tal como as comodidades dos lares, eletrodomésticos e televisão. Não se tratava de um consumo individualizado e personalizado como ocorre hoje. 

O consumo afirma-se como uma forma de afirmação e contribuição para o individualismo crescente. Os indivíduos escapam hoje ao controlo de classe. Já não existe uma cultura de classe que legitima comportamentos a grupos de pertença, nem um controlo coletivo sobre as práticas de um consumo que se foi desregularizando . Nós é que escolhemos o que queremos ser e com quem nos identificamos. Desapareceu a hierarquia do gosto. No entanto não somos mais felizes. Lipovetsky afirmou que a felicidade através do consumo ocorre naturalmente quando nos elevamos da pobreza, mas que a partir de um determinado limiar a proporção do que se consome fica muito aquém da felicidade que esse consumo traz. Esse é um dos sentimentos paradoxais da hipermodernidade. Apesar de muitos de nós conseguirem escolher de acordo com as nossas preferências, isso não garante a felicidade. Ficamos sem saber o que nos impede de sermos felizes e isso pode ser angustiante. 

O consumo tornou-se emocional, mas ao mesmo tempo informado, e ingenuamente carregado de consciência ambiental, embora não seja isso que nos impeça de consumir cada vez mais. As emoções, no entanto, não nos incitam a compras de impulso. Cada vez mais comparamos e procuramos o melhor preço para o melhor produto. A economia do consumo tende para incentivar os consumidores a colecionarem experiências, a elevarem a um valor supremo a distração. Escolhemos com critério apenas para termos dinheiro para consumir mais e diferente. 

No entanto Lipovestky tem uma visão positiva do consumo. Acredita que tem um lado benéfico, de distrair de outras intenções e projetos políticos que levaram aos maiores dramas da humanidade. Considera ser incompatível com o totalitarismo e com as restrições da liberdade. As grandes narrativas de um sacrifício no presente para garantir um paraíso religioso ou uma utopia política no futuro tendem a ser controlados pelo hedonismo generalizado, e atraem apenas minorias da sociedade. Queremos o prazer agora e não depois. Mas isso não imuniza dos problemas políticos como bem sabemos. Existe uma deceção com os políticos, mas não com as marcas e o consumo. Por isso, as soluções políticas que queiram defender a possibilidade de consumir cada vez mais terão forte apoio popular, mesmo que a consciência ambiental seja universal, porque no dia-a-dia simplesmente consumimos. 

Para Lipovetsky a solução, de manter o nível de consumo e de garantir a sustentabilidade ambiental passa pela economia circular e partilhada. Só assim poderemos manter o nível de consumo do qual dependemos sem tendermos para a autodestruição. Passa também por dar primazia à educação e cultura, para que possamos consumir algo imaterial que nos dá felicidade e realização. 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Quando a família não chega para impedir uma guerra mundial

A Primeira Guerra Mundial trouxe muitas novidades, das mais horríveis militarmente até então. Morreram milhões de soldados e civis. Os efeitos foram muito além disso, geradores de crises mundiais e de posteriores conflitos ainda mais catastróficos. 

9 soberanos no funeral de Eduardo VII - 1910 em Londres
Jorge V sentado ao meio e Guilherme II de pé atrás. Manuel II de Portugal à esquerda de Guilherme.
Fonte da imagem: https://rarehistoricalphotos.com/nine-kings-one-photo/

Um dos aspetos caricatos, no meio de tantos episódios terríveis, passou-se ao nível familiar. Guilherme II, Kaiser alemão, e Jorge V, rei de Inglaterra, eram primos direitos. A rainha vitória, que dominou a coroa inglesa durante grande parte do século XIX, casou os seus filhos com as principais casas reais europeias, sendo a mãe de Guilherme irmã do pai de Jorge, e ambos netos da famosa rainha inglesa. Mas a grande diferença de idade entre ambos não terá ajudado ao relacionamento entre primos, pois havia o hábito do convívio familiar regular, incluindo também férias e festividades, apesar de serem famílias que  representavam nações distintas e das comunicações serem difíceis. Consta, no entnto, que Guilherme não apreciava particularmente a sua família não alemã. Já Nicolau II, Czar da Rússia, era também primo direito de Jorge V de Inglaterra, pois suas mães eram irmãs. Estes primos, provavelmente pela proximidade de idade, privaram bastante. Consta que Nicolau tinha um inglês e era muito conhecedor da cultura britânica. 

Jorge V e Nicolau II - 1913 em Berlin
Fonte: https://rarehistoricalphotos.com/king-george-tsar-nicholas-1913/

Estes relacionamentos familiares não eram fruto do acaso, aconteciam devido ao sistema tradicional de alianças na Europa. Mas, em 1914, estas relações familiares não foram suficientes para evitar a guerra, especialmente as fortes ligações as casas reais Inglesas e Alemãs, lideradas na altura por Jorge e Guilherme, respetivamente. Consta que até poderão ter incentivado o conflito. Guilherme teria desde a infância um mau relacionamento com a sua mãe inglesa. Jorge e Nicolau, que passavam férias em família na Dinamarca com o avó Cristiano IX, eram influenciados por um odio dos Dinamarqueses aos seus vizinhos Alemães pela anexação de Schleswig-Holstein em 1868. Estes são apenas alguns exemplos do cruzamento da vida familiar com a geopolítica da época.

A Primeira Guerra Mundial foi a primeira Guerra moderna por várias razões. Pelas estratégias, táticas, armas, logística e escala do conflito, mas também pelo fim das tradicionais relações diplomáticas internacionais associadas aos conflitos.

Referências bibliográficas de apoio:
Carter, M. (2009). The three emperors: three cousins, three empires and the road to World War One. Penguin UK.
Keegan, J. (2014). The first world war. Random House.
Willmott, H. P., & Willmott, H. P. (2003). World War I. New York: Dorling Kindersley.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Em que falharam as democracias segundo Bobbio?

Gianfranco Pasquino, no seu livro Curso de Ciência Política, cita Bobbio. Mas porquê abrir assim um texto? A resposta reside na importância e interesse do livro em causa e do autor citado. O livro de Pasquino é um dos poucos livros traduzidos para português de Portugal que permite servir de manual introdutório à ciência política, especialmente importante porque nas sociedades democráticas é suposto que todos os cidadãos participem nos processos políticos. Bobbio é um dos autores de referência sobre a teoria da democracia, apesar de ter falecido em 2004. Parece coisa comum e banal exercer e viver numa democracia, mas afinal quantos pensaram profundamente sobre a essência desta forma de governo? Bem, Norberto Bobbio pensou e escreveu. Pasquino tem o mérito de o citar e dar, através da tradução, aos leitores portugueses alguns dos seus ensinamentos. Pasquino é um os discípulos de Bobbio e é atualmente um dos principais autores da ciência política. Se fizerem uma pesquisa no Wook por Bobbio verificarão que nada existe disponível em português de Portugal. Não que tenha algum mal ler em português do Brasil, mas justificava-se haver mais acesso generalizado a este ator.

Visão depois do sermão - Gauguin

Feitas as apresentações podemos seguir para os conteúdos que queria aqui abordar. Pasquino refere que Bobbio defendia que a democracia não tinha conseguido cumprir as suas promessas. Aqui o termo promessas é curioso, porque ainda hoje há uma grande esperança que a democracia se possa reinventar e evoluir em benefício das sociedades humanas, especialmente porque não parecem haver alternativas radicalmente diferentes que possam ser benéficas. Assim, Bobbio dizia que a democracia foi incapaz de:
- Gerar uma sociedade de iguais sem corpos intermédios;
- Eliminar os interesses organizados e particulares que se opõem ao interesse comum e coletivo através do sistema representativo;
- Estender-se às empresas e aos aparelhos burocráticos, administrativos e militares dos Estados;
- Destruir os poderes invisíveis;
- Elevar o nível da educação política dos cidadãos.

Bobbio considerava que a democracia, como sistema político, tinha sido idealizada para sociedades muito menos complexas que aquelas onde hoje vivemos. Poderão os cidadãos estar plenamente informados sobre o sistema de governo das sociedades em que vivem? Será que querem e procuram esse conhecimento? Em liberdade podem simplesmente dedicar o seu tempo a outra coisa qualquer. Ainda assim Bobbio era otimista e considerava que as sociedades tenderiam para um aprofundamento da democracia.

As esperanças de Bobbio têm o efeito de nos deixar menos receosos perante o futuro. Mas estarão as sociedades informadas para o processo avançar? Será o ato de votar mais racional e os governantes mais capazes, tendendo todo o sistema representativo para mais qualidade? Havendo liberdade de escolha, será que os cidadãos irão canalizar o seu tempo e esforço para o seu aprofundamento como participantes dos processos democrático que Bobbio tanto desejava? Na atualidade, com tantas solicitações ao hedonismo e ao apolitismo, estará realmente a sociedade a pender para um maior aprofundamento democrático?

Podem muito bem-estar a ocorrer as previsões de Bobbio, trazidas por Pasquino. Nunca foi possível prever o futuro, há sempre algo que nos escapa e perante um assunto tão complexo não se esperam facilidade de compreensão e previsão. Podemos dizer que o fator liberdade e as novas formas de comunicação e deslocação, de tudo e de todos, estão a transformar muitas das estruturas sociais e assim os sistemas políticos. A liberdade de não querem participar nos modelos de representação democrática pode não ser o fim a democracia em si, mas apenas a degradação do atual sistema que caminha para outro. Democracias há muitas

Referências bibliográficas:

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Processos colaborativos de decisão pública e o metabolismo urbano: o projeto Urban Wins

Leiria aderiu ao projecto Urban Wins [1], que tem como objetivo estudar o metabolismo urbano da cidade. Uma abordagem sistémica comparando as cidades a seres vivos não é recente. Já Patrick Geddes [2] tinha feito essa associação no início do século XX, inovando ao referir que as cidades evoluíam, cresciam, decresciam e até podiam morrer, consumiam e produziam. Foi na altura uma abordagem de grande originalidade. Esta abordagem orgânica seria, por vezes, contrária às tendências do movimento modernista do urbanismo, mais preocupado em optimizar as funções urbanas, vendo a cidade mais como uma máquina do que como ser vivo.


Quase um século depois o projeto Urban Wins centra-se nos metabolismos urbanos, partindo de todo uma herança de pensadores e investigadores que foram desenvolvendo abordagens orgânicas das cidades. Em 1965 Abel Wolman [3] definiu o “metabolismo urbano […] como a quantificação das necessidades de materiais e bens necessárias ao suporte das tarefas humanas nas cidades, incluindo a remoção e deposição dos resíduos” [4]. Já no século XXI Christopher Kennedy atualizou o conceito de metabolismo urbano para “O somatório de todos os processos técnicos e socioeconómicos que ocorrem nas cidades, resultando em crescimento, produção de energia e eliminação de resíduos” [5].

Mais que um ser vivo, os novos conceitos de metabolismo urbano consideram as cidades como ecossistemas. Logo, exigem abordagens sistémicas, que por sinal são bastante complexas, porque aquilo que define uma cidade é a variedade de atividades que nela decorrem, quase sempre associadas ao consumo e utilização de recursos naturais.  É exactamente isso que o porjeto Urban Wins pretente realizar para cada uma das cidades piloto, sendo Leiria uma delas. Pretende conhecer cada sistema urbano de modo a poder identificar medidas de redução dos outputs, especialmente dos resíduos produzidos. Isto porque a cidade é um sistema de consumo e produção, gerando subprodutos dessa dinâmica, entre eles os resíduos que têm de ser geridos.

Se o conceito de desenvolvimento sustentável foi defendido no relatório de Brundtland em 1987 [6] como sendo a conjugação do desenvolvimento económico, social e ambiental, atualmente os conceitos de desenvolvimento sustentável têm sido alargados. Facilmente encontramos referências que adicionam ou separam da componente social a dimensão cultural e política [7]. Do mesmo modo, com este alargamento teórico surgiram também criticas pela inoperância do conceito, sugerindo-se que o desenvolvimento sustentável se materialize de modo viável para casos concretos práticas, caso contrário pode perder o significado como conceito geral.

A dimensão política é explorada com particular atenção do projeto Urban Wins, na perspectiva da tomada de decisão pública assente em processos colaborativos. Pretende-se promover iniciativas de trabalho colaborativo com os stakeholders das várias cidades, onde, através de modelos participativos que promovem a equidade participativa assente na informação, se possam identificar os principais problemas locais e possíveis soluções.

De um modo muito sucinto estes modelos participativos serão chamados de Ágoras, numa relação com os antigos centros de vida social das polis gregas, onde terão nascido as ideias que levaram à criação da democracia (pelo menos em Atenas, ainda que as sessões políticas formais se realizassem na Pnyx [8]). Nessas sessões cada representante dos stakeholders irá participar numa mesa de debate onde identificarão problemas e questões a tratar isoladamente. Um facilitador garantirá que todos podem conhecer os conteúdos identificados e que esses mesmos conteúdos são ordenados tematicamente de forma visível para todos. Depois haverá um sistema de votação com múltiplos votos. Os problemas/assuntos mais votados voltam às mesas para discussão, sendo aprofundadas as problemáticas, as dificuldades, barreiras e soluções. Por fim as soluções podem ser redigidas a apresentadas novamente por um representante de cada mesa de trabalho. Estes conteúdos serão depois tratados em relatórios de análise.

Sessão de treino e formação para a realização das ágoras do projeto Urban Wins

Isto é um exemplo simples da implementação de uma metodologia colaborativa, que tem obviamente as suas próprias regras e técnicas de funcionamento, com necessidade de controlo pelo facilitador dos tempos de intervenção, do foco nos assuntos a tratar e até da possibilidade de recorrer a alguns especialistas e técnicos para explicação de conceitos e de outras informações que possam ser importantes para os processos de identificação, votação e decisão. Serão realizadas várias ágoras presenciais onde estas e outras metodologias colaborativas podem ser utilizadas. Vão ocorrer em simultâneo ágoras online.

O projeto Urban Wins pretende ser um exemplo, um teste para poder ser seguido noutras áreas, demonstrando como a conjugação dos modelos científicos de casos reais e dos modelos participativos e colaborativos podem gerar soluções verdadeiramente sustentáveis para o futuro do nosso desenvolvimento colectivo.

Nota: O Projeto Urban Wins é um projeto Europeu financiado pelo Programa de Investigação e Inovação 2020.

Referências:
[1] https://www.urbanwins.eu/
[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Patrick_Geddes
[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Abel_Wolman
[4] http://pme.pt/metabolismo-urbano-cidades-comem/
[5] https://urbanmetabolism.weblog.tudelft.nl/what-is-urban-metabolism/
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Relat%C3%B3rio_Brundtland
[7] https://jus.com.br/artigos/22847/a-construcao-do-desenvolvimento-sustentavel
[8} https://pt.wikipedia.org/wiki/Pnyx

#urbanwins
#EUinmyRegion

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Modigliani – O pintor de esculturas

Amedeo Clemente Modigliani foi um pintor italiano que se inseriu no movimento modernista da arte europeia no início do século XX. Trabalhou em Paris e pertenceu à comunidade de artistas que fez nascer a multiplicidade de vertentes das artes plásticas que tornaram a cidade das luzes a verdadeira capital da arte moderna. Foram tantos os artistas a coexistirem e a produzirem trabalhos arrojados em Paris nessa altura que dificilmente se poderá repetir tal singularidade geográfica na história da criatividade artística como nas primeiras décadas do seculo XX em Paris. A cidade atraia artistas de todos os países e nacionalidades, ainda que as condições de vida e oportunidades fossem desiguais.
 
A mulher com fita de veludo - Amedeo Modigliani

Modigliani foi um desses artistas emigrantes, proveniente de Itália, que contribui para a glória das criações artísticas na cidade, ainda que disso pouco se tenha gozado. Morreu jovem, na miséria e vítima dos excessos da vida boémia e de uma meningite tuberculosa. Apesar de o podermos considerar como modernista, o seu estilo de pintura apresenta características muito próprias. Talvez a paixão pela escultura, talvez mais que pela pintura, o tenha feito destacar entre os restantes pintores.

 A sua saúde frágil e escassez de recursos materiais impediram que se dedicasse totalmente à escultura. Assim, o pintor, que havia abandonado os pinceis depois do escultor Constantin Brancusi lhe ter revelado o interesse pelo trabalhar da pedra, viu-se forçado a desistir da escultura para voltar à pintura. As partículas libertadas nos trabalhos escultórios e a exigência de esforço físico devastavam Modigliani, que também não dispunha dos recursos materiais necessários para o desenvolvimento dessa arte, mesmo tendo ensaiado trabalhos em madeira. Assim, Modigliani abandonou definitivamente a escultura e dedicou-se novamente à pintura em 1914, seis anos antes da sua morte aos 35 anos.

Modigliani terá transportado para a tela a arte escultória. Tal como Picasso, era fascinado pela arte africana, especialmente pelas máscaras, das quais retirou influências. Criou assim uma nova forma de fazer retratos. Poderíamos dizer que era capaz de transformar os seus modelos em estátuas virtuais que depois pintava na tela. A sua obra gráfica fala por si.

O fatalismo que marcou a vida e morte de Modigliani, tal como a intensa paixão pela sua amante, terá influenciado seguramente as suas singulares pinturas.

Algumas referências:

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O fim da Moralidade e o início da Idade Moderna

Determinados marcos históricos, mais ou menos dilatados no tempo, são recorrentemente utilizados para definir as grandes eras ou idades históricas. Assumem-se eventos, movimentos e mudanças várias para fazer essas divisões. Algumas são imensamente difíceis de fazer, se não todas mesmo, pois acabam por ser delimitações artificiais do tempo, que é composto por acontecimento interrelacionados não lineares. Como ler continuidades, parcelarmente, é muito mais fácil, dificilmente podemos escapar a estas metodologias.
Soutine - Carcaça de Carne

O início da Idade Moderna pode definir-se de forma diferente consoante a temática histórica que se esteja a analisar. O mais comum é ditar o fim da Idade Média com a queda de Constantinopla, em 1453. Mas, por exemplo, para a filosofia a divisão pode ser diferente. Roger Scruton refere-se a Descartes como o paladino do pensamento racionalista, abrindo assim o pensamento filosófico à modernidade, já em pleno século XVII.

Mas do ponto de vista político podemos dizer que a visão moderna terá surgido com Maquiavel e Hobbes. Apesar da diferença de décadas entre ambos, referem-se à natureza humana, modo de governo e organização política segundo novos princípios. No início do século XVI Maquiavel justifica no seu tratado “Príncipe” que todos os meios são legítimos para atingir determinados fins políticos, ignorando entraves morais, desde que não se ultrapasse o ódio à governação. A eficiência e sucesso governativo destes princípios deitavam fora toda a herança moral religiosa e filosófica. Curiosamente há quem considere que Maquiavel estava apenas a ser irónico.
 
Já Hobbes, no século XVII na sua obra “O Leviatã”, refere-se à natureza humana como egoísta e autodestrutiva, pelo que se justificava a imposição de um poder supremo. Ou seja, a humanidade é despida de visões idílicas e deve ser submetida para que se consiga alguma forma de estabilidade e convivência, mesmo que usando de força e violência quando necessário. De notar que Hobbes viveu num dos períodos mais conturbado da história de Inglaterra, de guerra civil, violência e intolerância.

Mais tarde Rousseau, ainda que divergindo no método e premissas, segue quase pelo mesmo caminho de Hobbes, reforçando a necessidade do contrato social. Contrato esse que surgia da necessidade de contrariar a degradação e corrupção natural das sociedades mais desenvolvidas. Para Rousseau o homem era puro e bom no seu estado natural – a teoria do bom selvagem. A única alternativa para o bom governo das sociedades modernas seria instituir um “contrato social” entre membros da comunidade e sistema de governo, pois a moral não era suficiente para garantir a coexistência. Rousseau foi já um dos percursores do iluminismo, onde as luzes da razão se espalhavam pelos círculos das elites.

Pode não parecer, mas estas mudanças foram revolucionárias. Desaparecem as noções de moralidade e ética inatas à humanidade, capazes de construir um éden na terra. O conceito de influência ou influências divinas é também descartado. Revoluciona-se e aplicação um novo racionalismo social e político. Hoje chamamos-lhe pensamento (ou filosofia) político e social da Idade Moderna. Mas terá sido mesmo o principio do fim da moralidade e ética política?

Referências bibliográficas:
ROBINSON, Dave & GROVES, Judy – Introducing Philhosophy – A Graphic Guide. Londom: Icon Books, 2007.
SCRUTON, Roger – Breve história da filosofia moderna. Lisboa: Guerra & Paz, 2010.
SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir.) – História Universal. 10 Volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Hannah Arendt - um filme para filosofar e conhecer uma época

Ver um filme para tentar aprender algo sobre filosofia costuma não dar em grande coisa. Há poucos filmes sobre filósofos e os poucos que se fazem nem sempre chegam aos espectadores. Mas há sempre canais que conseguem romper com essas tendências gerais. A RTP2 é um desses casos. Recentemente exibiram o filme “Hannah Arendt “, de Margarethe Von Trotta.


Trata-se de um filme que retrata partes da vida da famosa filósofa. Explora a personalidade dessa mulher, considerada por muitos uma das principais e mais influentes filósofas do século XX, ainda que a própria nunca se tenha verdadeiramente assumido como tal. O enredo incide sobre o período em que Arendt acompanhou o julgamento de Eichmann pelo recém-formado Estado de Israel. Seria suposto fazer apenas um artigo para a revista New Yorker, de estilo jornalístico, mas Arendt foi muito mais fundo que isso, filosofando sobre a “Banalidade do Mal”. Esse artigo, que mais tarde daria origem a uma das suas mais famosas obras, constata que a desumanização do ser humano, quando privado de pensamento crítico próprio, pode levar a que uma pessoa comum cometa os atos mais horríveis como sendo algo banal, sem que a isso esse sujeito seja de facto um ser especialmente diabólico. Esta conclusão surge na sequência de estudos anteriores de Arendt, sobre "As Origens do Totalitalismo”, mas ganha corpo depois de analisar “A Banalidade do Mal” de Eichamann, um burocrata que cometeu crimes contra a humanidade sem remorsos, por simplesmente achar que estava a fazer o seu papel, a cumprir o seu dever perante o Reich.

Hanna Arendt tinha origem alemã e judia. Tinha sido presa e por pouco não foi também ela deportada para os campos de concentração e para a morte. Consta que terá sido o seu amante de juventude, o filosofo Heidegger que a terá salvo, ele que era um simpatizante nazi. Terá sido depois da guerra Arendt a ajudar a sanear o antigo amante e mestre, evitando os processo que aconteceram a outros nazis.

 Há que lembrar que Eichmann foi um dos responsáveis do sistema de extermínio em massa do povo judeu. A capacidade de uso da razão que Arendt terá tido perante aquela confrontação com Eichmann, é notável. Ainda hoje os judeus desconsideram Arendt por ter criticado nos seus escritos as lideranças dos judeus no tempo do holocausto e de ter racionalizado o ódio que todos queria manifestar e corporizar contra a figura de Eichmann. Acusaram-na de ser friamente racional.

Hannah Arendt é um daqueles filmes para quem quer conhecer uma época e uma personalidade importantíssima do pensamento do século XX. O desempenho dos atores é irrepreensível, especialmente de Barbara Sukowa, no papel de Hannah Arendt. Boa fotografia e ambientes credíveis, com uma acção a ritmo próprio para pensar. De notar o recurso  a excertos do próprio julgamento de Eichmann, dando quase uma dimensão documental ao filme.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Adam Smith mal interpretado?


A obra mais conhecida de Adam Smith é imensamente citada e provavelmente um dos textos mais influentes da época moderna. Diz-se que foi uma das principais construções teóricas e intelectual que terá dado suporte ao capitalismo, inaugurando a abordagem à economia duma perspetiva científica. Mas será que temos interpretado bem A Riqueza das Nações?
 
Estudo de cor, quadrados com círculos concêntricos - Kandinsky

O recente documentário Capitalismo, da autoria de Ilan Ziv, faz, ao longo de 6 episódios, a história do capitalismo. Nesse documentário vários economistas e professores universitários são chamados a abordar a história do próprio capitalismo. O segundo episódio é dedicado a Adam Smith, sendo especialmente interessante o modo esse pensador é apresentado, muito menos liberal do que seria de supor.

Diz-se que a divisão do trabalho é o motor do desenvolvimento do capitalismo. Adam Smith dá o exemplo da produção de alfinetes, de como, através da divisão do trabalho, a produção pode crescer imensamente. Mas depois conclui que é um péssimo sistema do ponto de vista humano, estupidificando os trabalhadores e retirando-lhes humanidade. Poucos parecem ter lido a Riqueza das Nações para além das primeiras centenas de páginas.
 
Outro ensinamento de Smith é o do empreendedorismo individual. Quando um empreendedor desenvolve o seu interesse próprio contribui mais ainda mais o interesse coletivo, diz Smith. Mas só considerava esse princípio do capitalismo válido quando compatibilizado com os princípios morais. Adam Smith só deixou duas obras completas, destruiu todos os seus textos que considerava ser inferiores. Para além de A Riqueza das Nações escreveu também A Teoria dos Sentimentos Morais. As duas obras eram complementares e não deveriam ser analisadas separadamente. Sabemos que o foco nos interesses pessoais tem como efeito ignorar uma visão abrangente da envolvente. A não preocupação ou secundarizar tudo o resto gera problemas sociais, ambientais e outros, já para não falar das falhas éticas e morais que denota.
 
Mas o termo mais emblemático de Adam Smith é a “mão invisível”, uma das grandes metáforas usadas na economia. O seu criador apenas usou a expressão uma vez em todo o texto de A Riqueza das Nações. Parece que a frase está fora de contexto, pois no texto é aplicada a um exemplo particular. Smith fala do caso concreto dos investidores locais serem levados por uma “mão invisível” a investir na sua terra, por estar mais perto e ser mais seguro quando não seja espectável terem lucros maiores mais longe. Essa “mão” seria uma segurança para a economia local e nacional perante a liberalização dos mercados. Isto é oposto ao significado utilizado correntemente. Ficando ainda mais fragilizada a sua aplicação num mundo globalizado. A metáfora da mão invisível serviu primeiro como argumento para lutar contra o feudalismo e o antigo regime. Agora serve para lutar contra o Estado Providência.
 
Por fim, as últimas questões. Será possível contrariar o mercado livre? Será questionável sequer? Provavelmente diremos que não. Mas, tal como se afirma no documentário, se pensarmos no trabalho infantil e outras problemáticas facilmente chegamos ao ponto de negarmos e repudiarmos essa liberdade total. Será então o mercado livre uma utopia a evitar?
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Viriato era mais espanhol que português?

Viriato tem sido uma daquelas personagens ressurgentes, e quase sempre presente, na memória coletiva nacional. O termo “lusitano” é utilizado de uma forma bastante comum para identificar determinados elementos e características materiais ou imateriais ligados a Portugal e aos portugueses. No entanto, a historiografia sobre os lusitanos e Viriato tem abalado a relação direta entre ambos e Portugal, abalando e remetendo para o mito a suposta relação entre ambos os povos e territórios.
Para poder tirar algumas conclusões sobre o modo como surgiu e se desenvolveu a identificação e associação de Viriato à identidade nacional portuguesa importa fazer um breve périplo pela principal historiografia dedicada ao tema, na mesma medida em que se deve analisar também a restante produção literária erudita e criativa que ajudou a alicerçar a memória colectiva.
Apesar de fortes evidências historiográficas que colocam o mito de Viriato, na sua relação com os portugueses, em causa, será difícil apagar da memória colectiva o sentimento de identificação enquanto as pessoas assim pretenderem.
 
Monumento a Viriato - Marianno Benlliure
Fonte da Imagem: http://amigos-de-portugal.blogspot.pt/2013/01/viriato.html

Fontes historiográficas clássicas
As primeiras fontes a referirem Viriato surgem no século I a.C. (Mattoso, 2006), da autoria de Posidónio e Diodoro. Segundo José Mattoso terá sido o primeiro desses historiadores a descrever Viriato como “um herói puro e justo, porque nasceu e viveu em ambientes selvagens, não corrompidos pela decadência que a civilização acarreta”, enquanto que Diodoro terá ajudado a transmitir a imagem construída por Posidónio.
Apesar de considerar estas primeiras fontes pouco sólidas José Mattoso afirma que do cruzamento dessa primeira historiografia com os posteriores autores greco-latinos será possível concluir que Viriato “teria nascido da Lusitânia, junto do Oceano” e que nada justifica a tradição de atribuir à Serra da Estrela como local do seu nascimento, pois nessas fontes o “Monte Hermínio” não surge em momento algum associado a Viriato ou às Guerras Lusitanas.
As fontes romanas descrevem as Guerras Lusitanas, situando-as na atual Andaluzia Espanhola, numa região muito mais próxima da civilização e núcleos urbanos mediterrânicos que do ocidente peninsular mais selvagem. Aí, na zona central e meridional da atual Espanha, Viriato parece ter sabido movimentar-se com mestria e conhecimento da região, tanto que obteve sucessos militares consideráveis. Isto parece colocar em causa a tese da uma origem mais ocidental e selvagem do chefe dos lusitanos.
 
Literatura e a construção da personagem de Viriato
A literatura desenvolvida em torno de Viriato, enquanto herói, foi sem dúvida o mais consequente modo de transmissão do mito (Salema, 2010) e o alimento da memória coletiva dai proveniente. Esse movimento terá sido iniciado no século XVI, em pleno renascimento e  florescimento humanista em Portugal, especialmente pela acção de Sá de Miranda e Luís de Camões (Martins, 2000).
Sá de Miranda utiliza Viriato como o arquétipo moral do Portugal, anterior à dissolução dos costumes sociais causados, na opinião do autor, pela expansão portuguesa e riquezas fáceis trazidas do oriente.
Camões segue noutro sentido, atribuindo a Viriato o papel de patriarca heróico militar dos portugueses, figura muito útil tendo em conta o pendor ideológico da sua obra maior – Os Lusíadas.
Mais tarde, Frei Bernardo de Brito, na sua obra “Monarquia Lusitana”, durante a perda da independência nacional, e Brás Garcia Mascarenhas, em “Viriato Trágico”, durante a Guerra da Restauração, ligam directamente os portugueses a viriato, já sem o assumirem como símbolo ou arquétipo como Camões e Sá de Miranda. De notar que estas duas obras épicas e de forte sentido nacionalista demonstravam descrições fantasiosas de Viriato, especialmente a segunda, tendo Brás Garcia de Mascarenhas inclusivamente sido inspirado pela sua própria vida e experiência na Guerra da Restauração para materializar a tragédia de Viriato.
Associado ao movimento do romantismo que varreu a europa durante o século XIX desenvolveram-se tendências populares celtizantes, que no caso nacional reforçou, a partir de 1870, o mito de Viriato e dos Lusitanos (Pereira, 2011). A monarquia constitucional, e mais tarde o regime republicano, voltarão a adaptar Viriato aos seus intentos ideológicos e políticos (Martins, 2000).
Seguindo essa tendência, Leite de Vasconcelos e Mendes Correia, cruzando a etnografia e a arqueologia, tentam defender teses de ligação entre os portugueses e os lusitanos.
Mas é Teófilo Braga que tenta contribuir mais para essa nova redescoberta utilitarista de Viriato. Cria assim um longo romance histórico, “Viriato - Narrativa epo-histórica”, em 1904, onde tenta, através da sua erudição fazer uma aproximação de “raça” entre os portugueses e os lusitanos. Parte dos registos romanos de Galba para fazer a distinção étnica entre os iberos e os lusitanos. A obra de Teófilo Braga denota uma necessidade de reforçar o nacionalismo como resposta ao Ultimato Inglês e dar fundamentos nacionalistas ao próprio movimento republicano.
Em 1930 o pedagogo João de Barros adapta a obra “Viriato Trágico”, de Brás Garcia Mascarenhas, contribuindo para a persistência da memória de Viriato, tanto que o livro foi incluído na colecção “Os Grandes Livros da Humanidade”. Essa obra seria utilizada no ensino básico, contribuindo fortemente para a difusão e persistência da história fantasiosa de Viriato, carregada de uma grande carga nacionalista (Martins, 2000).
A última grande ficção escrita por Viriato deve-se a João Aguiar, intitulada “A Voz dos Deuses” e datada de 1984. O seu romance histórico readapta novamente a imagem de Viriato, tornando-o mais democrático e liberal, próprio da nova democracia portuguesa, ainda que mantendo algum rigor histórico.

A Morte de Viriato, Chefe dos Lusitanos -  José de Madrazo
 

Historiografia Contemporânea em conflito com o mito
Alexandre Herculano terá sido o primeiro historiador contemporâneo a minimizar a importância da ligação entre os lusitanos e os portugueses (Herculano, 2007). Essa sua história de Portugal, produzida em 1846, influenciou os posteriores manuais escolares na forma como Viriato seria apresentado (Salema, 2010). Foi somente em finais do século XIX, quando ainda estava bem presente em Portugal a humilhação do Ultimato Inglês, que alguns eruditos, especialmente Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga, assumiram a crítica direta a Herculano.
O espanhol Anselmo Arenas López, ao escrever a biografia de Viriato em 1900, concluiu que não teria nascido, vivido ou realizado qualquer façanha militar relevante em território ligado a Portugal, tendo estado sempre afastado 200 km da atual fronteira (Pereira, 2011).
Adolf Schulten contribui, por seu lado, já nas primeiras décadas do século XX, na sua obra monográfica sobre as antiguidades hispânicas, para o reforço da identificação de Viriato como sendo um dos grandes heróis bárbaros. Foi esse o autor que, tentando socorrer-se da arqueologia e fontes antigas, mesmo sem grandes certezas e com alguns métodos pouco rigorosos (Fabião & Guerra, 1992), atribuiu à Serra da Estrela o local de nascimento de Viriato. Esse trabalho contribuiu muito para o suporte das ações de Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga de devolução de Viriato aos portugueses (Salema, 2010).
Carlos Fabião e Amílcar Guerra (1992) são muito contundentes em tentar fazer desmoronar o mito de Viriato e sua ligação a Portugal, que ainda tão vincadamente persiste na memória colectiva portuguesa. Enunciam para isso uma série de referências que importa lembrar, entre elas:
•A Lusitânia só adquire existência territorial depois da ocupação e organização administrativa romana.
•A Lusitânia não correspondeu ao atual território continental português.
•As fontes antigas têm muitas dificuldades em identificar e descrever os lusitanos.
•Não existem fontes que façam corresponder, sem dúvidas, o Monte Hermínio com a Serra da Estrela. Apesar disso Jorge de Alarcão defende a hipótese dos diversos acidentes geográficos do cento do atual território português poderem ser associados ao Monte Hermínio (Fabião & Guerra, 1992).
•A descrição de Possidónio era mais influenciada por intenções filosóficas que factos históricos.
José Mattoso (2006) descreve o episódio de Viriato deliberadamente como um mito, alertando, no entanto, para a não existência de qualquer outra fonte fidedigna que possa contrapor e negar totalmente as descrições de Posidónio e Diodoro. Mesmo com essas lacunas não nos poderemos esquecer que para esses dois historiadores a história de Viriato e dos lusitanos servia para transmitir os seus ideais estóicos. Tal como foi utilizado para fins nacionalistas da nação Portuguesa, tudo indica que na antiguidade tivessem utilizado o mito com intuitos ideológicos, independentemente da veracidade ou razoabilidade dos factos e sua coerência.
Já autores como Vitor Oliveira Jorge e Julian Thomas (2008) referem também o modo como Oliveira Salazar, durante a chefia do Estado Novo, terá inicialmente aproveitado o mito de Viriato para a ele se associar enquanto se assumia como defensor dos interesses nacionais contra os imperialismos estrangeiros nas colónias portuguesas. Essa associação pretendia enviar também uma forte mensagem do autoritarismo do regime e seu ditador, pois, tal como Viriato que morreu traído pelos seus companheiros, se alguém tentasse o mesmo para com Salazar levaria a que os interesses nacionais fossem tomados pelo imperialismo externo.
De notar que em 1940, na sequência da comemoração do centenário da dupla fundação de Portugal, é inaugurada a estátua de Viriato em Viseu. O discurso ai proferido por Lopes Dias, baseado nas descrições literárias humanistas, aproveita o mito para funções nacionalistas (Fabião & Guerra, 1992), tão caras ao Estado Novo.
Apesar desta primeira associação dos desígnios nacionalistas do regime do Estado Novo a Viriato, o regime haveria posteriormente de renegar o chefe lusitano. Foi difícil posteriormente conciliar a identidade nacional, herdeira da romanização, com um Viriato opositor a Roma. Esse paradoxo aprofundou-se ainda mais com a Guerra Colonial, pois Viriato simbolizava a resistência indígena perante o imperialismo estrangeiro, nesse caso o português. Talvez por ai se explique o desaparecimento de Viriato dos manuais escolares a partir de 1968
 
Em conclusão
A memória colectiva portuguesa persiste em relembrar Viriato, sentindo-se honrada na ligação que estabelece com esse símbolo e arquétipo nacional. Ainda que a historiografia, já desde o século XIX, tenha definido a história de Viriato e sua ligação aos portugueses como mítica, Viriato não desaparece da memória dos portugueses. O herói lusitano parece querer resistir à historiografia com a mesma bravura e determinação que terá resistido aos romanos.
Assim, o mito de Viriato, mesmo podendo não ser história factual dá origem indireta à história nacional, de como se tentou alicerçar a identidade nacional num símbolo mais antigo que a própria nacionalidade. Essa história demonstra a existência de um mito quase vivo, que conseguiu sobreviver aos séculos, sendo constantemente adaptado conforme os interesses dos homens, especialmente o interesse de alguns portugueses. Ainda que de uma forma mitológica, Viriato é português, nem que seja por empréstimo utilitário.
Quanto aos factos históricos, dificilmente poderão sustentar o mito comum de Viriato, mas certo é que também não o negam completamente, ainda que as ligações aos portugueses possam ser ténues, dada a distância dos séculos e as muitas movimentações políticas, culturais e de povos que se entrepõem entre ele e os portugueses.
A verdade é que Viriato ainda vive na memória coletiva dos portugueses, contribuindo assim para a sua identidade coletiva.

Referências Bibliográficas
FABIÃO, Carlos & GUERRA, Amílcar. “Viriato: Genealogia de um Mito”. Penélope – Fazer e desfazer a história, nº 8. Lisboa: Edições Cosmos & Cooperativa Penélope, 1992.

HERCULANO, A.” História de Portugal desde o começo da monarquia até ao fim do
reinado de Afonso III.” Vol.1. Lisboa: Bertrand Editora, 2007.


JORGE, Vitor Oliveira & THOMAS, Julian. “Archaeology and The Politics of Vision in a Post-Modern Context”. Newcastle: Cambridge Scholar Publishing, 2008.

MARTINS, Luís. “Representações do Poder Político na Literatura - O exemplo de Viriato”. Revista Discursos: língua, cultura e sociedade. Lisboa: Universidade Aberta, 2000

MATTOSO, José (coord.). “História de Portugal – Antes de Portugal”. Vol. 1. Lisboa: Editorial Estampa, 2006.

PEREIRA, Maria da Conceição Meireles. "A etno-epo-história e os mitos fundacionais da Nação - «Viriato» de Teófilo Braga". Atas do Seminário Internacional “Identidade Nacional” - entre o Discurso e a Prática, realizado em Lisboa. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011.

SALEMA DAS NEVES, Manuel. “Entre nacional e local, entre história e memória: estratégias para uma patrimonialização identitária de Viriato”. Múrcia: Universidade Católica San António de Múrcia, 2010.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A importância da expansão marítima portuguesa para o desenvolvimento dos proto-museus

A expansão portuguesa e a constituição do seu império colonial ultramarino, assente nas feitorias e na exploração e domínio das novas rotas comerciais promoveu indiretamente o desenvolvimento do conhecimento científico (Godinho, 2008), ainda que não fosse o objetivo principal dessa dita expansão, pois a intenção era muito mais economicista.
 
Gabinete de Curiosidades -  Domenico Remps
Ou seja, apesar de poder ser um mito fabricado a intenção da expansão marítima nacional ter tido razões de interesse  científico, algo desconstruído historiograficamente por Vitorino Magalhães Godinho (2008), o certo é que para a exploração desses novos territórios e rotas comerciais, ao longo dos séculos da exploração, foi necessário efetuar missões de reconhecimento das potencialidades comerciais dos recursos naturais dos vários locais descobertos (Boxer, 2015; Bethencourt; Curto, 2010).
 
Assim, tendo em conta que a aristocracia tinha uma preocupação pela  procura do bizarro e novo, as explorações portuguesas terão contribuído para o enriquecer das coleções reais e senhoriais europeias, onde esses produtos também chegavam como produtos de valor transacionável, quer fossem naturais ou de produção humana. No caso a Coleção de Catarina de Áustria, rainha de Portugal, e da sua coleção de pendor renascentista ligadas a curiosidades e peças históricas, esse gosto especial pelos objetos de origem oriental é comummente aceite (Gschwend, 1993). Infelizmente pouco subsiste dessa coleção hoje em Portugal, uma vez que foi retalhada e separadas pelos vários herdeiros, governantes posteriores e, possivelmente, perdido no terramoto de 1755 e convulsões políticas e sociais posteriores.
 
Podemos dizer então que, mesmo podendo não ser o principal objetivo, a exploração e expansão marítima portuguesa, ainda que indiretamente, teve um papel importante para o avanço da ciência e da própria museologia.

Referências bibliográficas
  • Bethencourt, Francisco & Curto, Diogo Ramada (Corrd.)  A Expansão Marítima Portuguesa 1400-1800. Lisboa: Edições 70, 2010.
  • Boxer, Charles Ralph. O Império Marítimo Português (1415-1825). Lisboa: Edições 70, 2015.
  • Godinho, Vitorino Magalhães. A Expansão Quatrocentista Portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2008.
  • Gschwend , Jordan Annemarie. Catarina de Áustria: Coleção e Kunstkammer de Uma Princesa Renascentista. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1993.
 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Porque se chama Invicta à cidade do Porto?

Quando se refere o nome da cidade do Porto é muito comum usar em simultâneo o epíteto ou título de “Cidade Invicta”, que é o mesmo que dizer “cidade invencível”.
Então mas de onde virá este honroso titulo? Será alguma influência dos efeitos das vitórias do seu clube de futebol local? Não, nada disso, a razão é histórico/política e remonta a alguns séculos.
Cerco do Porto - Marques de resende. Fonte: http://www.historiadeportugal.info
Recuando na história, constata-se que a cidade foi tomada pelos mouros em 715, sendo apenas reconquistada por Vimara Peres em 868, fundando-se assim o Condado Portucalense. Depois não se regista mais nenhum ataque significativo, com a dilatação das fronteiras em direção a sul. Ou seja, invencível perante os mouros não foi, que de facto ocuparam o território por mais de um século.
Depois o Porto surge associado a alguns grandes feitos da história de Portugal. De notar o apoio imediato ao Mestre de Avis, em 1385, e o contributo para a expansão ultramarina, que lhes atribuíram o título honroso de “tripeiros”, por terem escolhido comer as entranhas dos animais e cedido a carne limpa para o esforço nacional da conquista de Ceuta e sua consequente expansão.
Mas é no século XIX que nasce a principal razão do título. Não terá sido a resistência às invasões francesas, pois foram terríveis para a cidade que nãos lhes conseguiu resistir. No entanto, durante as Guerras Liberais (1832-1834), o Porto foi cercado pelas tropas absolutistas depois do desembarque no Mindelo das tropas liberais apoiando D. Pedro IV, que lutava para garantir o trono à sua filha, a futura D. Maria II, e consequentemente a implementação do liberalismo em Portugal. O Porto demonstrou-se invicto perante os assalto de D. Miguel, tendo sido um ponto-chave para mais tarde assegurar a vitória dos liberais liderados por D. Pedro em todo o país.
D. Maria II então que atribui posteriormente o título de Invicta cidade do Porto, constando ainda hoje essa referência no seu brasão municipal.

Referências Bibliográficas para aprofundar:
  • Câmara Municipal do Porto – História da Cidade. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: http://www.cm-porto.pt/historia-da-cidade
  • Bonifácio, Maria de Fátima – Reis de Portugal - D. Maria II. Temas e Debates, 2007.
  • Martelo, David - Cerco do Porto 1832-33 – A Cidade Invicta. Prefácio, 2001.
  • Mattoso, José – História de Portugal – Antes de Portugal. Vol. I.  Editorial Estampa, 1997.
  • Mattoso, José – História de Portugal – O Liberalismo. Vol. V. Editorial Estampa, 1998.
  • Santos, Eugénio - Reis de Portugal - D. Pedro IV. Temas e Debates, 2007.
  • Wikipédia – Porto. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Paris - A cidade das Luzes Filosóficas

Qual é a cidade das Luzes? Paris. Sim, de facto é Paris. Mas de que luzes falamos quando referimos este título? Serão luzes utilitárias ou decorativas, os mecanismos e aparelhos de iluminação física que usamos correntemente em várias formas e formatos? Não, pelo menos na origem do termo, as luzes não eram essas.
Voo de Paris  - Leonid Afremov
Hoje, Paris deslumbra pelas suas iluminações públicas. São imensas, quer sejam nos grandes monumentos e edifícios, quer nos barcos que sobem e descem o Sena. Também as podemos encontrar em pequenas vendas ambulantes de rua e muitas outras surpresas da vida urbana parisiense. Os grandes monumentos estão particularmente bem iluminados, com verdadeiros projetos de iluminação pensados para fazer destacar o património. As muitas lojas, alguns bairros característicos (por exemplo o boémio Pigalle, com as suas luzes de tons vermelhos e onde se situa o Moullin Rouge) trabalham, à sua dimensão particular, a luz. A Torre Eiffel está repleta de lâmpadas, que dão de si a cada hora, e especialmente no seu topo existe um mecanismo que a transforma num farol rotativo – um espetáculo em si mesmo. Nos Campos Elísios mistura-se a iluminação pública da grande avenida, com as luzes dos imensos veículos, com as grandes lojas, o Arco do Triunfo e a Grande Roda panorâmica da Praça da Concórdia. Existem imensos outros sítios que merecem uma descrição, por exemplo a zona de Montmartre (bairro dos artistas) e muitas outras.
Mas as luzes de Paris que lhe fizeram o nome são de outra época: são anteriores à descoberta da manipulação da própria eletricidade. Essas luzes eram do movimento iluminista, ou movimento das Luzes. Sendo Paris uma das cidades mais importantes da época (século XVIII) compreende-se porque teve ai tanto impacto esse movimento, que usava as luzes como metáfora para a valorização do racionalismo e o combate ao obscurantismo do conhecimento. Foi um movimento filosófico humanista que se sentiu particularmente em Paris, pois reunia a massa crítica, humana e porque o poder instituído era conservador e católico - o que acabou por o amplificar e dar mais força pela repressão e pela censura inicial que sofreram alguns desses pensadores e filósofos das luzes. Há que lembrar os nomes de Voltaire, Diderot, Rosseau e outros. Há que lembrar, pro outro lado, os salões da época e como alguns poderosos apoiaram, mesmo contra outros poderes, essa tendência iluminista.
Talvez tenha sido esta associação inicial às luzes, especialmente reforçada com a influência burguesa do século XIX sobre a cidade (a sua forma e vida), que terá levado a que existissem de factos iluminações e luzes físicas dignas de destaque em Paris. Essas luzes, as recentes e as antigas ainda se sentem na cidade, onde facilmente podemos iluminar o corpo e a mente.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

George Orwell, 1984, Marx, Materialismo e o perigo do Totalitarismo

Tanto se poderia dizer sobre a obra 1984 de George Orwell - pseudónimo de Eric Arthur Blair. Trata-se da obra que elevou o conceito de ficção social – ou distopia - a um patamar de genialidade. A obra é fortíssima, capaz de impressionar o leitor e o força-lo a pensar, sobre si e sobre a sociedade em que vive, sobre a história, a política e o mundo em geral.
Queria salientar três curiosidades desta obra, que se sentem com a leitura e que a prolongam para outros caminhos.
Cartaz contemporâneo do lançamento de 1984 alusivo ao Big Brother
 
Primeiro, o final do livro é descrito de uma forma incrivelmente realista, forte e tão credível que podemos ficar quase incomodados, numa relação direta com os últimos anos de vida do autor, que escreveu o livro em contrarrelógio. Orwell sofria de tuberculose e temia não terminar a obra. Talvez só por isso a obra tenha a força final que tem.
Segundo, algures no livro, num dos excertos citados em leitura pela personagem principal, encontramos uma descrição bastante simples e útil para a compreensão das teorias marxistas, da luta de classes e do materialismo histórico e da dialética marxista. Concordando-se ou não com Marx, a sua obra filosófica é importantíssima para compreender a história contemporânea, e a própria humanidade. Orwell explica muito bem, através de um excerto citado na sua obra de um outro escrito ficcional, aquilo a que Marx chamou a “luta de classes” pelo “controlo dos meios de produção”, de como as classes imediatamente abaixo da dominante (“medias” ou outras) fizeram revoluções para tomar o poder ao longo da história, criando ciclos de revoluções que levaram à mudança social. Essa luta pelo poder coincidia com a luta e procura do domínio dos meios de produção (“a riqueza”). Isto ajuda a compreender também a dialética marxista, ao fundamentar o constante confronto pelo domínio material como o motor para todas as mudanças nas sociedades humanas (sociais, culturais, religiosas, etc.).
Terceiro, o livro avisa (urgentemente) para os perigos do totalitarismo, de como pode desumanizar a própria humanidade, com homens e mulheres vivendo vidas esvaziadas de sentido sem liberdade para se realizarem individualmente. Esta mensagem continua muito atual, ainda que felizmente as “quase profecias” catastróficas de Orwell felizmente não se tenham vindo a concretizar.
Há que lembrar que 1984 é publicado em 1949, período em que a Europa estava seriamente ameaçada pelo avanço soviético de Estaline, em que na China chega ao poder Mao Zedong e que, apesar da vitória dos aliados e da democracia na europa ocidental, por todo o mundo brotavam governos autoritários. Orwell, apesar de escrever uma ficção, tem a capacidade de não misturar a teoria do materialismo histórico e a dialética marxista com os totalitarismos o geral. Talvez assim se perceba o porquê de Orwell se ter voluntariado para a guerra civil de Espanha como soldado contra o fascismo totalitarista de Franco, atitude que conciliou com as suas supostas tendências marxistas não totalitaristas – que podem ser vistas (ou não) como um contrassenso, uma vez que Marx defendia a necessidade da ditadura do proletariado como estágio intermédio antes de se chegar ao comunismo ideal.
Muito mais haveria para falar do autor e da sua obra – por exemplo que é dela que nasce o conceito pernicioso de “Big Brother”, da sociedade do controlo informativo total em rede em tempo real.
Em sumula, diria que se trata de uma ficção social com forte pendor filosófico e de ligação a quase todas as ciências sociais. Seja como for, 1984 é uma obra indispensável, muito importante para a formação cultural e cívica individual.
 
Referências bibliográficas gerais:
Uma busca pela wikipédia é suficiente para a generalidade dos conceitos, sendo que são tratados de modo introdutório e resumido simplificado para enquadrar a obra 1984:
Referências Bibliográficas mais aprofundadas:
  • Engels, Friedrich; Marx, Karl; "Manifesto do Partido Comunista", Edições Avante, 2011.
  • Marx, Karl; "O Capital", tomo I, II e III, Edições Avante.
  • Orwell, George; "1984", Antígona, 2007
  • Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.

Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails

TOP WOOK - Arte

TOP WOOK - Dicionários

TOP WOOK - Economia e Finanças

TOP WOOK - Engenharia

TOP WOOK - Ensino e Educação

TOP WOOK - Gestão

TOP WOOK - LITERATURA





A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



Introduza o seu e-mail para receber a newsletter do blogue: