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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Os jogos como rituais de símbolos

Um jogo consiste num sistema de conflitos onde jogadores interagem, segundo regras, para tentar atingir objetivos, evidenciando-se o desempenho de forma mensurável (Salen & Zimmerman, 2004). Os jogos podem ser vistos como arenas de treino, como formas de arte e expressividade e, de um ponto de vista mais filosófico, como atividades que transpõem a realidade e transportam quem os joga para espaços mágicos. Johan Huizinga (2014), que foi provavelmente o primeiro grande filosofo moderno a dedicar-se ao estudo dos jogos, foi quem nos apresentou primeiro este conceito transcendental. Para ele os jogos permitiam transportar os jogadores para o “círculo mágico”, algo que se formava enquanto estávamos envolvidos e imersos num jogo, formando um espaço não sério onde a realidade era transfigurada num novo universo, que cativava e permitia outras formas de expressão, interação e criatividade. No entanto, este fenómeno e as emoções geradas pelos jogos podem ser nefastos, quando se tornam vícios, pelo que se exige equilibrio. Para Huizinga, o homo sapiens (sapiens), através da sua íntima relação com os jogos, torna-se homo ludens, indo para além da mera inteligência dita técnica e cognitiva. Apesar de não ser o único animal que brinca, é o único que joga deliberadamente e ao longo de toda a sua existência, em todas as idades e como forma de comunicação, geração de significados e vinculação social. Há que relembrar que jogar é diferente de brincar, pelo que no brincar não há um objetivo a atingir, enquanto que no jogo há sempre, há uma construção racional e ricas narrativas para explorar. 

Macacos a jogar cartas - Abraham Teniers

Então quando se procede a um ritual, incluindo as expressões religiosas mas não exclusivamente, através da conjugação de vários símbolos, não haverá tentativa de transposição para uma espécie de “círculo mágico”? O que são os símbolos se não elementos que combinamos para explorar significados e construir narrativas? Um jogo é uma construção criativa e social através de múltiplos elementos, de mecânicas e de estéticas, deliberadamente combinadas para um determinado objetivo jogável. Nos rituais combinam-se símbolos e procedimentos, gerando estruturas de significados que transmitem narrativas. Isto acontece em todos os rituais, religiosos ou não. Tomemos em conta os rituais familiares e de grupos mais ou menos informais como aqueles que caracterizamos como “grupos de amigos”. Os símbolos no geral são passíveis de múltiplas interpretações, mas nos jogos são vinculados por sistemas de regras básicas que deveremos obedecer. O jogo será então um ritual? Nessas atividades de jogos, vistos como rituais, tudo isso se materializa e adensa de modo crescente para atingir os tais objetivos. Pode ser tão simplesmente o ato de marcar um golo, que na prática consiste em introduzir uma bola numa baliza, mas que simbolicamente tem um significado poderoso de simbolizar o cumprimento do derradeiro objetivo, ganhando esse significado quando interpretado no “círculo mágico” de Huizinga, mesmo que não nos apercebamos.  

Indo um pouco mais a fundo nesta abordagem aos jogos, especialmente aos jogos analógicos, podemos chegar a uma diferente forma de “jogos dos símbolos”, o que não exclui a transferência da mesma analogia para o fenómeno digitais. Falar de jogos de entretenimento, seja em que formato for, carece igualmente de uma análise. Porque todos os jogos podem ser lúdicos no sentido de proporcionarem diversão, mas ao mesmo tempo sérios, tudo dependendo da interpretação e modo como são explorados. Quando se assiste a um ritual sem se compreender o devido significado, podemos ser levados a entender essas dinâmicas como brincadeiras ou infantilidades inúteis. Mas se compreendermos os significados e os objetivos ficam evidentes, tudo fica mais claro, e sobressai a importância da sua realização.

Nos jogos analógicos existem limitações óbvias. Não se recorre a multimédia, animação de imagens e sons, nem existem as automatizações que guiam os jogadores durante o jogo de forma tutorial. Nos jogos digitais as regras são forçosamente cumpridas através da programação estabelecida. São mais imediatos e intensos, mas igualmente mais efémeros e tendencialmente descartáveis. Já os jogos analógicos, vulgarmente conhecidos como jogos de tabuleiro, têm de recorrer a componentes físicos, altamente simbólicos das realidades que pretendem representar, algo só completamente conseguido quando conjugados com mecânicas de jogo, forçosamente ativadas pelos jogadores de forma consciente e intencional. Existem sistemas de regras, mas nada força a que os jogadores os tenham de seguir se isso resultar de um comum acordo. Podem simplesmente ignorar as regras escritas e fazer a sua própria interpretação, podendo criar outras harmonias ou caos, ou seja, outras regras. Mesmo seguindo as regras formais do jogo, previamente estabelecidas, nada garante que a interpretação pessoal de cada jogador ou grupo de jogadores seja a mesma do criador do jogo. Estas limitações são igualmente oportunidades, pois capacitam os jogadores para mais envolvimento, para interpretações pessoais e coletivas. Jogar este tipo de jogos nunca é uma atitude passiva. No entanto, estes jogos nem sempre geram interesse ou cativam todos os jogadores. Nem sempre os componentes e as mecânicas geram narrativas que transportam os jogadores para o “círculo mágico”. Nem todos percebem e retiram toda a riqueza deste sistema, tal como nem todos compreendem a forma e importância dos rituais, sejam eles quais forem. 

Referências bibliográficas:
Huizinga, J. (2014). Homo Ludens Ils 86. Routledge.
Salen, K. & Zimmerman, E. (2004). Rules of play: Game design fundamentals. MIT press.



terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Porque somos sapiens sapiens?

O Homo Sapiens Sapiens não é apenas duplamente sábio ou sábio ao quadrado. Indo para além da abordagem meramente antropológica ou paleontológica, este tipo de hominídeo distingue-se dos demais porque sabe que sabe. Do ponto de vista da inteligência bruta é altamente relevante, mas do ponto de vista filosófico é provavelmente mais rico ainda. Atendendo a algumas das mais célebres frases filosóficas, ainda que possam ser inventadas, veja-se o caso de Sócrates do seu célebre “Só sei que nada sei” ou do “Penso, logo existo” do igualmente famoso Descartes. Estamos a falar obviamente de filósofos, mas acima de tudo de espécimes homo sapiens sapiens, que ao afirmarem isto denotam consciência do que sabem, do que não sabem e de que a sua existência depende do facto de saber pensar. Até aqui nada de muito novo. 

Roy Lichtenstein - Thinking of him
Numa época acelerada em que existe cada vez menos tempo para pensar, estaremos a perder a sapiência da nossa subespécie? Precisamos de ter mais tempo para manter a nossa humanidade e identidade de espécie? A tecnologia estará a tornar-nos conscientes da nossa capacidade de pensar? Provavelmente ainda estamos numa fase de adaptação às novas realidades. Dizer que não pensamos tanto como antigamente pode denotar um elitismo enganador ou uma enorme ignorância, uma vez que ir buscar citações de filósofos como justificação, que são uma ínfima parte dos seres pensantes, não é propriamente uma amostra intelectualmente válida. 

Assim, seja de que forma for, a nossa humanidade depende, acima de tudo, da capacidade de pensar. Seja de que forma for ou em que modos, pois somos também: homo faber, a espécie que faz; homo ingeniosus, a espécie que cria; homo ludens, a espécie que joga para além do mero brincar. Tudo isto implica pensar e saber que pensamos. Por isso, quando deixarmos de pensar e refletir sobre isso deixaremos de ser este tio de homo e passaríamos a ser outra coisa qualquer. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Como a humanidade escolheu as suas mamas

Quando comparados com os nossos primos símios, nós humanos apresentam diferenças físicas distintas associadas à sexualidade. Copulamos ventre com ventre, as fêmeas da nossa espécie podem expressar visivelmente a sua ovulação e o pénis dos machos humanos é também relativamente maior que os pénis dos outros símios. Caro (1987), citando vários autores, faz assim a introdução do seu artigo de abordagem à origem do tamanho das mamas (ou seios) das mulheres.

Caridade Romana - Reubens
Fonte da Imagem: https://pl.m.wikipedia.org/wiki/Plik:Roman_Charity_-_Pieter_Pauwel_Reubens.jpg#/media/File%3ARoman_Charity_-_Pieter_Pauwel_Reubens.jpg

Ao contrário de todos os outros mamíferos, na espécie humano, as fêmeas desenvolvem os seus seios na puberdade, e não durante a primeira gravidez, através de um processo de hipertrofia dos tecidos adiposos do peito. No entanto os seios de gravidas crescem temporariamente nesse período, independentemente do tamanho anterior. Depois de cada gravidez os seios tendem a voltar ao tamanho anterior, ainda que a idade leve a perdas de sustentação e firmeza. Depois de mais esta introdução ricamente citada, Caro (1987) defende que os seios são sinalizadores, porque parte substancial do seu volume consiste meramente em tecido adiposo, com a sua forma a ser facilmente detetável tanto de frente como de lado, tal como pelo contraste de cor dos mamilos perante a pele do peito. O autor refere que nos primórdios da nossa espécie seria valorizável a acumulação de gordura, especialmente nas mulheres e em determinadas áreas do seu corpo, associadas à sexualidade e à reprodução. No entanto, são apenas hipóteses, tal como se irá verificar em muitos dos autores citados.

Em tempos imemoriais terá então ocorrido um processo de seleção sexual com base nas anteriores diferenças físicas citadas (Marlowe, 1998), porque os homens acham os seios atrativos, devido à sua função de acumulação de gordura e potencial de reprodução (Cant 1981; Gallup 1982) uma vez que abaixo de um certo limiar de gordura as mulheres não podem ovular (Cohen 1980; Frisch 1978). Embora alguns autores prefiram a seleção mais relacionada com a geração de descendência que com a sexualidade propriamente dita, numa abordagem geral as hipóteses não variam assim tanto. Hoje este fator de atratividade pelo simples facto de estarmos perante uma acumulação localizada de gordura causa estranheza.

Autores como Morris (1967) já sugeriam que o acumular de gordura no peito, ancas e rabo seriam formas de proteger a mulher durante a copulação, peito com peito. Outros, tal como Campbell (1974) sugerem que estas caraterísticas foram sendo preservadas e amplificadas por seleção sexual intencional, em que as mulheres que evidenciavam essas caraterísticas tendiam a ter mais descendentes, ao demonstrarem, através de atributos físicos, o seu suposto potencial de reprodução. Outros autores seguem uma abordagem funcional ainda mais pragmática, tal como LeBlanc & Barnes (1974), que referem que os seios grandes permitiam amamentar enquanto agarravam e transportavam os filhos. Outra possibilidade seria que o tamanho poderia ter influência na capacidade de produzir leite, no entanto isso está por provar (Caro, 1987). 

Cant (1981) e Gallup (1982) referem que a acumulação de gordura depositada nos seios, ancas e rabo indicam reservas nutricionais, altamente úteis para a reprodução, com Masia-Lees et al. (1986) a referirem que a permanência dessas fisionomias resulta de processos de seleção, seguindo as mesmas lógicas dos autores anteriores (Low et al., 1987). Low et al. (1987) acrescenta a estas abordagens o um foco no engano e dissimulação, porque a gordura acumulada nesses locais induz a um aumento da produção de leite e ao alargamento dos ossos pélvicos que facilitariam o parto, mas que na prática não é o que aparenta ser. Outra evidência que os autores também referem é que as mulheres de culturas e ambientes climáticos distintos, por exemplo naqueles que obrigam a usar mais roupa como os ambientes em que vivem os esquimós, estas curvas femininas são em média menos pronunciadas. 

Para (Marlowe, 1998) os seios grandes são sinalizadores de idade, firmes na juventude e tendendo para o descaimento à medida que a vida avança, revelando a reduzida apetência para a produção de descendência a partir de determinada altura da vida, tendo um efeito erótico variável. 

Depois de toda esta exposição devemos ficar com as devidas dúvidas e ressalvas. Os próprios autores indicam serem hipóteses, embora pareçam muito plausíveis e assentando em deduções sólidas. Independentemente disso, sabemos do poder da humanidade para mudar os ambientes e das suas capacidades adaptativas a esses mesmos desafios ambientais. Essa capacidade terá sido tanta, tal a nossa flexibilidade como espécie, que até conseguimos enquanto coletivo mudar a fisionomia dos géneros, escolhendo o formato dos nossos corpos. Para refletir.

Referências:
Cant, J.G.H. (1981). Hypothesis for the evolution of human breasts and buttocks. American Naturalist, 117: 199-204.
Campbell B. G. (1974). Human Evolution, 2nd edition. Chicago: Aldine.
Cohen, M. N. (1980). Speculations on the Evolution of Density Measurement and Population In Homo Sapiens. In Biosocial Mechanisms of Population Regulation, M. N. Cohen, R. S. Malpass, and H. G. Klein, eds. Pp. 275-304. New Haven: Yale University Press.
Caro, T. M. (1987). Human breasts: Unsupported hypotheses reviewed. Human Evolution, 2(3), 271-282.
Frisch, R. (1978). Population, Food Intake, and Fertility. Science 199:22-30.
Gallup, G.G. (1982). Permanent breast enlargement in human females: A sociobiological analysis. Journal of Human Evolution, 11: 597-601.
Le Blanc S. A. & Barnes E. (1974). On the adaptive significance of the human breast. American Naturalist, 108: 577
Low, B. S., Alexander, R. D., & Noonan, K. M. (1987). Human hips, breasts and buttocks: Is fat deceptive?. Ethology and Sociobiology, 8(4), 249-257.
Marlowe, F. (1998). The nubility hypothesis. Human Nature, 9(3), 263-271.

Morris, D. (1967). The Naked Ape. London: Jonathan Cape.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

As condições de vida eram piores na Revolução Industrial que na Idade Média?


A propósito de uma pequena investigação sobre a evolução e história da arqueologia urbana no centro histórico de Leiria para o século XXI, deparei-me com alguns estudos curiosos. A propósito das escavações realizadas na Praça Rodrigues Lobo para instalação de rede de saneamento descobriu-se  e escavou-se uma necrópole medieval.

A Construção de Veneza, Sycambria, Cartago e Roma - Crónica de Bouquechardière de Jean de Courcy
Através desse primeiro estudo arqueológico desenvolveram-se várias outras investigações que permitiram perceber como seria a vida socioeconómica da Leiria medieval. Uma das conclusões mais surpreendentes, e que acrescentam conhecimento de interesse geral, foi a constatação que as pessoas que viviam nessa época eram mais altas que os habitantes de Lisboa do início do século XX. Apesar das difíceis condições de vida, da violência direta e indireta, das pestes e guerras, as pessoas que viveram na época medieval seriam, em média mais altas. De notar que a altura média é um indicador de saúde e qualidade de vida.

Então a idade média não seria um período tão negro com alguns nos querem fazer crer? Talvez não. Esta série de dados é corroborada por outros dados correspondentes a outras necrópoles e cemitérios da mesma época noutros locais. A explicação será do efeito  era industrial, que contribuiu para a diminuição das condições de vida, especialmente entre os operários que viviam em meio urbano e suburbano, sujeitos a difíceis condições de trabalho e com poucas condições higiénicas, sanitárias e alimentares. No caso português, segundo Susana Garcia, a causa não será tanto a industrialização, pois era incipiente no nosso país, mas mais como resultado das instabilidades políticas anteriores.

Aqui se demonstra como uma escavação arqueológica proveniente da necessidade contemporânea de melhorar as infra-estruturas urbanas pode gerar avanço no conhecimento científico de interesse geral.
 
Referências bibliográficas.
ERA, Arqueologia, Lda. - Relatório das Escavações arqueológicas na praça Rodrigues Lobo. Leiria: 2002?

GARCIA, Maria Susana de Jesus - Maleitas do corpo em tempos medievais - indicadores paleodemograficos, de stresse e paleopatológico numa série osteológica urbana de leiria. Coimbra: Departamento de arqueologia da universidade de coimbra, 2007. Tese de doutoramento em antropologia biológica.

GARCIA, S. – “Is the Circumference at the Nutrient Foramen of the Tibia of Value to Sex Determination on Human Osteological Collections? Testing a New Method”. International Journal of Osteoarchaeology - Institute J. Osteoarchaeol. Wiley Online Library, 2010.

GASPAR, Sara Joana Pereira - Determinação do sexo em não-adultos: aplicação de um método métrico para o estudo do dimorfismo sexual na colecção osteológica não-identificada de São Martinho (Leria).Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Universidade Técnica de Lisboa, 2013. Seminário Final da Licenciatura em Antropologia.


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