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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

George Orwell, 1984, Marx, Materialismo e o perigo do Totalitarismo

Tanto se poderia dizer sobre a obra 1984 de George Orwell - pseudónimo de Eric Arthur Blair. Trata-se da obra que elevou o conceito de ficção social – ou distopia - a um patamar de genialidade. A obra é fortíssima, capaz de impressionar o leitor e o força-lo a pensar, sobre si e sobre a sociedade em que vive, sobre a história, a política e o mundo em geral.
Queria salientar três curiosidades desta obra, que se sentem com a leitura e que a prolongam para outros caminhos.
Cartaz contemporâneo do lançamento de 1984 alusivo ao Big Brother
 
Primeiro, o final do livro é descrito de uma forma incrivelmente realista, forte e tão credível que podemos ficar quase incomodados, numa relação direta com os últimos anos de vida do autor, que escreveu o livro em contrarrelógio. Orwell sofria de tuberculose e temia não terminar a obra. Talvez só por isso a obra tenha a força final que tem.
Segundo, algures no livro, num dos excertos citados em leitura pela personagem principal, encontramos uma descrição bastante simples e útil para a compreensão das teorias marxistas, da luta de classes e do materialismo histórico e da dialética marxista. Concordando-se ou não com Marx, a sua obra filosófica é importantíssima para compreender a história contemporânea, e a própria humanidade. Orwell explica muito bem, através de um excerto citado na sua obra de um outro escrito ficcional, aquilo a que Marx chamou a “luta de classes” pelo “controlo dos meios de produção”, de como as classes imediatamente abaixo da dominante (“medias” ou outras) fizeram revoluções para tomar o poder ao longo da história, criando ciclos de revoluções que levaram à mudança social. Essa luta pelo poder coincidia com a luta e procura do domínio dos meios de produção (“a riqueza”). Isto ajuda a compreender também a dialética marxista, ao fundamentar o constante confronto pelo domínio material como o motor para todas as mudanças nas sociedades humanas (sociais, culturais, religiosas, etc.).
Terceiro, o livro avisa (urgentemente) para os perigos do totalitarismo, de como pode desumanizar a própria humanidade, com homens e mulheres vivendo vidas esvaziadas de sentido sem liberdade para se realizarem individualmente. Esta mensagem continua muito atual, ainda que felizmente as “quase profecias” catastróficas de Orwell felizmente não se tenham vindo a concretizar.
Há que lembrar que 1984 é publicado em 1949, período em que a Europa estava seriamente ameaçada pelo avanço soviético de Estaline, em que na China chega ao poder Mao Zedong e que, apesar da vitória dos aliados e da democracia na europa ocidental, por todo o mundo brotavam governos autoritários. Orwell, apesar de escrever uma ficção, tem a capacidade de não misturar a teoria do materialismo histórico e a dialética marxista com os totalitarismos o geral. Talvez assim se perceba o porquê de Orwell se ter voluntariado para a guerra civil de Espanha como soldado contra o fascismo totalitarista de Franco, atitude que conciliou com as suas supostas tendências marxistas não totalitaristas – que podem ser vistas (ou não) como um contrassenso, uma vez que Marx defendia a necessidade da ditadura do proletariado como estágio intermédio antes de se chegar ao comunismo ideal.
Muito mais haveria para falar do autor e da sua obra – por exemplo que é dela que nasce o conceito pernicioso de “Big Brother”, da sociedade do controlo informativo total em rede em tempo real.
Em sumula, diria que se trata de uma ficção social com forte pendor filosófico e de ligação a quase todas as ciências sociais. Seja como for, 1984 é uma obra indispensável, muito importante para a formação cultural e cívica individual.
 
Referências bibliográficas gerais:
Uma busca pela wikipédia é suficiente para a generalidade dos conceitos, sendo que são tratados de modo introdutório e resumido simplificado para enquadrar a obra 1984:
Referências Bibliográficas mais aprofundadas:
  • Engels, Friedrich; Marx, Karl; "Manifesto do Partido Comunista", Edições Avante, 2011.
  • Marx, Karl; "O Capital", tomo I, II e III, Edições Avante.
  • Orwell, George; "1984", Antígona, 2007
  • Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os Bichos humanos e os Humanos que são piores que bichos de Miguel Torga

Li os Bichos de Miguel Torga quase por auto-obrigação, já há alguns anos. Propus-me, na altura, em jeito de exercício forçado, a tentar ler algo que fosse de um autor conhecido português e que o volume da obra em causa não me assustasse à partida. Com hábitos de leitura bem reduzidos à data lá comecei a juntar, lendo, as palavras que Torga juntara nesse pequeno compêndio de contos sobre animais.

Natureza morta com caça, fruta e vegetais num mercado - Frans Snyders
No livro contam-se pequenas estórias, de vidas simples, mas pejadas de supostos sentimentos e sensibilidades de vários animais. As personagens, grande parte delas animais domésticos ou em contacto, seja por que motivo for, com a sociedade humana, comportam-se e sentem como pessoas. Aliás, os tais bichos retratados são, tendencialmente, muito mais humanos nos comportamentos e atitudes que os próprios homens e mulheres que também surgem nas narrativas.
Talvez seja uma sátira social intemporal, talvez apenas um acaso literário alegórico, ou talvez nada disso. No entanto, a sensação que me ficou foi a da intencionalidade de fazer ver à sociedade humana que a sua própria humanidade comporta variedade e indivíduos que muitas vezes se comportam como bichos, ignorantes do que afinal é (ou pode ser) o comportamento animal.
Seremos mais bichos e selvagens que os próprios animais, ou a nossa humanidade é apenas uma manifestação de comportamento selvagem e animal próprio de uma espécie que tenta sobreviver entre tantas outras, mesmo depois de supostamente ter dominado o planeta e todas as outras espécies?
Seja como for, vale a pena ler r conhecer estes “Bichos”.

sábado, 13 de abril de 2013

CONTEMPORANEIDADES - Um livro indiretamente ligado a este blogue


Esta é a primeira publicação aqui no blogue relacionada com poesia, mas não poderia deixar de assinalar aqui, no meu primeiro blogue, o lançamento do meu primeiro livro. Essa primeira obra individual não tem relação direta aqui com A Busca Pela Sabedoria, mas tem uma imensa relação indireta. 
O livro em causa é o resultado do trabalho de análise opinativa social, na forma de 15 telas e 30 poemas, da realidade contemporaneidade portuguesa. Pode-se dizer que os poemas são tomadas de posição, numa mesma estrutura rígida e em rima. As telas surgem de fundos negros e recorrem, sem preocupações de traço e fidedignidade nas proporções,  ao simbólico para fazer despertar a reação emotiva.
A Busca pelo livro aberto - Micael Sousa
Porque a busca pela sabedoria passa também pela experimentação, registo aqui a referência ao livro CONTEMPORANEIDADES, deixando um dos poemas e uma das telas do projeto para tentar fazer despertar a curiosidade. A sinopse e mais informação sobre o livro em causa pode ser visto aqui.

SABEDORIA INTERESSEIRA

Estuda para ganhares muito dinheiro! – Ordenou.
Cedo, ainda quando não podíamos entender,
Ensinaram-nos a ver no ensino o que sempre faltou
A este povo, que só agora pode aceder
Às oportunidades do saber. Quem atulhou
De ilusões este povo de humilde complexão,
Afastando-o de uma desinteresseira erudição?

A sabedoria é a maior das riquezas,
Com ela vamos além dos limites,
Preparamo-nos melhor para as incertezas,
Condicionamos os ignorantes tiques,
Encarando o mundo com uma cética firmeza.
Por vezes apenas serve para sabermos
O que verdadeiramente desconhecemos.

Mas o saber só por si não é sinónimo
De fortuna, dinheiro e sucesso.
É apenas um imaterial património
Que pode dar origem a um processo
Mais longo que qualquer matrimónio,
Mais fiel que qualquer compromisso,
Que alimenta o espírito insubmisso.

O saber pode fazer a fortuna, mas nada garante.
O saber é ferramenta que pode ajudar a ir avante.

domingo, 7 de abril de 2013

Um gole para ler os "Contos do Gin-Tonic"

Porque o surrealismo não é só uma expressão plástica, não é uma coisa só passado - mais concretamente, do início de século XX -, e porque também tivemos os nossos casos nacionais, hoje trago aqui um excerto de uma recomendação literária feita por um amigo. Quando me foi emprestado para ler achei estranho o título do livro em causa. Só depois percebi que era uma colectânea surrealista de poemas, prosas, descrições, diálogo e devaneios, sempre regados de um humor, por vezes, desconcertante. Na amalgama, que aparentemente parece composta sem nexo, há mensagens dissimuladas e outras mais ou menos evidentes. Não seria de esperar outra coisa, pois a obra nasce ainda durante a ditadura do Estado Novo. 
No entanto, a pesar de tudo, quando muito do que está escrito nos "Contos do Gin-Tonic" parece fazer pouco sentido, podemos especular se o autor teria ou não bebido uns copos a mais. 


Dois limões em férias - António Dacosta

Deixo aqui um curto excerto, somente para dar uma ideia e abrir o apetite, tal como fui aliciado quando me emprestaram o livro:

"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."


Bem... Digam lá que não sentem que precisam de um copo?

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Sentido da Vida (em 10 segundos)

Neste texto que será curto, pois a referência é igualmente muito curta - demasiado curta para tudo o que na história da humanidade se desenrolou em torno dessa grande questão. A justificação destas palavras impõem-se para referir um daquelas momentos ímpares do cinema, num filme, mas mais concretamente num sketch, onde os Monty Python resumem em 10 segundos qual o sentido da vida, depois de terem feito uma viagem de mais de 100 minutos tentando satiricamente tratar a nossa Humanidade.
Então, segundo os Monty Python, o sentido da vida é "viver bem", e para isso:

"Tentem ser bons para os outros, evitem comer gorduras, leiam um livro de tempos a tempos, façam algumas caminhadas, e tentem viver em paz e harmonia com todos os credos e nações"


Apesar de ser um filme que vi já muitas vezes, e um dos mais estimados da minha cinemateca, foi no livro "Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso", de Daniel Klein e Thomas Cathcart ,que voltei a recordar este sketch. Nessa obra única, onde se mistura a Morte com a já difícil mistura de Filosofia e Humor,  refere-se, depois de várias alusões às posições e correntes de muitos filósofos, que o sentido da vida pode ser algo bem simples, tal como sumariaram os Python.

terça-feira, 19 de março de 2013

Amor Imaterial vs. Amor Material: Platão vs. Lucrécio


O amor imaterial, direcionado para o belo e para o ideal, mantendo as distâncias, é bem conhecido, especialmente nas interpretações medievais dos escritos de Platão. Essas noções reforçadas pelas teologias e pelo sistema valorativo religioso medieval – que abominava a existência material e mundana - influenciaram as sociedades ocidentais desde então. Mas da antiguidade grega herdamos muitas outras filosofias e modos conceptuais de lidar com o amor, por exemplo os epicuristas e os hedonistas encontram-se entre alguns dos mais importantes. 


O beijo - Klimt

Em “Os Filósofos e o Amor” as autoras optam por citar principalmente dois pensadores/escritores da antiguidade greco-latina para personificar dois modos antagónicos de pensar e viver o amor. Aude Lancelin e Marie Lemonnier, nessa singular obra, colocam em oposição Platão e Lucrécio, ainda que ambos procurassem minimizar os impactos negativos do amor, pois sabiam que é tanto essencial como inevitável para nós humanos viver existências onde o amor marca sempre presença, seja em que modo for.
Platão - como já referi - defende um distanciamento físico, no sentido de amar e aspirar ao ideal e não tanto ao plástico e físico, podendo o sentimento nunca ser corporizado. De um modo simplista – mesmo muito simplista - manter certas distâncias, uma vez que amar era inevitável e que poderia amar ideias, seria para o filósofo muito mais seguro e evitavam-se assim as emoções indiretas e reações negativas (algumas delas violentas) que podem contribuir para a infelicidade. Parece que Platão desistia perante o amor físico, não porque não fosse bom ou um prazer, mas porque amar corporeamente podia trazer mais malefícios que benefícios. Já o poeta Lucrécio segue, notando os mesmos perigos que Platão, pelo caminho exatamente oposto. De modo a evitar a dependência de uma só pessoa e outras fontes de potencial infelicidade, que poderia levar à autodestruição do individuo que ama, o poeta romano opta pelo recurso ao excesso carnal, pelo amor físico sem quaisquer limites, num claro comportamento materialista e hedonista.
Apesar da simplicidade com que tentei apresentar estes dois autores e suas teorias/posturas, podemos facilmente constatar que o amor desde há muito é visto como uma dicotomia: bem/mal. A condição humana, e os problemas de há 2000 anos, continuam a invadir as nossas mentes contemporâneas. Ainda hoje há quem siga, mesmo que inconscientemente, estes dois extremos, independentemente dos vários conceitos de amor: ora distanciando-se dele ora consumindo-o em sofreguidão descartável. De qualquer dos modos, ambos as abordagens denotam algo que se poderia considerar sendo medo, receio esse que cada uma e cada um de nós tenta resolver do modo que melhor pode, optando outros pelo meio-termo. Parece-me estas questões continuarão sempre atuais ou não fossemos animais sociais condicionados, para o bem e para o mal, pelas emoções.

Referências Bibliográficas
  • Lancelin, Aude & Memonnier, Marie. "Os Filósofos e o Amor". Tinta da China, 2010.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Enciclopédia - O Monumento do Iluminismo

A praticamente todas as épocas históricas conseguimos, direta ou indiretamente, associar monumentos, construções humanas ou obras de arte incontornáveis. Algumas dessas criações quase as definem e servem de ícones e marcas desses momentos históricos.
O Iluminismo foi marcante para a sociedade ocidental, e até para o mundo que se foi encurtando e aproximando nos séculos seguintes (especialmente depois da industrialização e do colonialismo). Dessa importante época história o principal monumento, na aceção do termo e sua relação com objeto ou coisa que serviu e serve para recordar na memória coletiva (Choay, 2010), não foi um edifício, conjunto urbano, obra de arte plástica ou afins. O principal, e mais importante, monumento que nos legou o Iluminismo foi a Enciclopédia (Schwanitz, 2012). Ou seja, um objeto. Não de arte, mas de saber!
Experiência de Um Pássaro Numa Bomba de Ar - Joseph Wright of Derby
Nessa época de transição, e que levou em muitos sítios, mas especialmente em França, à revolução, esse livro foi incontornável. Aliás, nesse mesmo e noutros formatos, ainda continua a ser – veja-se a importância das enciclopédias online. Consciente, ou inconscientemente, a Enciclopédia pretendia deter todo o conhecimento da humanidade, de um modo ordenado e de fácil consulta. Seria a “bíblia da ciência” – paradoxos à parte -, acessível e universalista. Para certos autores e pensadores (Schwanitz, 2012) a Enciclopédia tinha, para além disso, como objetivo substituir a própria Bíblia: substituir o obscurantismo da religião de então pela nova ciência, pelo positivismo do novo empirismo que ajudava a desvendar os mistérios do mundo. Vontades de substituição da religião pela ciência à parte, isso não significava, nem de perto nem de longe, que os iluministas fossem ateus. Poucos, ou quase nenhuns, o eram de facto. De um modo geral, não negavam Deus, até porque precisavam de uma entidade para explicar o início e a ordem do universo, a razão de todas as regras e leis que comprovavam e registavam. Os iluministas eram, tendencialmente, deístas (visão de Deus como arquiteto/planeador das regras do universo, mas não como agente interventivo e presente num mundo que se foi desenvolvendo pelas suas próprias regras) em oposição a posição tradicional teísta (Deus como ser que criou e intervém constantemente no universo) da religião instituída.
Hoje, esse grande monumento do Iluminismo persiste. Ficou a herança de ordenar e catalogar o conhecimento. Não se substituiu a bíblia, por várias razões que nem dependem da qualidade enciclopédias que se foram criando. Muito pelo contrário, até parece que a enciclopédia ajudou a criar mais bíblias, pois contribuiu para o banalizar do nome, tornando-o um adjetivo. Nos nossos dias existem enciclopédias e bíblias de tudo e mais alguma coisa, num especificar cada vez maior do conhecimento, sendo o termo “bíblia” aplicado para um livro importante de uma determinada área do saber – há bíblias para tudo e todos os temas, no sentido de ser um livro “quase sagrado”, de tão importante que pode ser no tema em causa.
Para além do contributo científico e cultural que foi a enciclopédia, e para além do universalismo do conhecimento que permitiu, ela demonstrou que não existem livros infalíveis – ou não tivessem as enciclopédias e bíblias erros como todos os outros livros e escritos por mão humana.

Referências Bibliográficas
  • Choay, Françoise. “Alegoria do Património”. Edições 70. Lisboa, 2010.
  • Schwanitz, Dietrich. “Cultura – Tudo o Que é Preciso Saber”. Dom Quixote. Lisboa, 2012.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Introdução à História – Uma obra sem ponto final de Marc Bloch

Este último ano teve, sem dúvida, uma leitura que me marcou. Não se trata de ficção, romance ou conto. O título do livro diz tudo: “Introdução à História”. Com um nome tão direto e quase cru, direcionado para um área tão específica do saber, o mais provável é não despertar um interesse generalizado, e até parecer estranho ser aqui referida. Este título, quase quadrado, esconde um conteúdo único muito eclético. O próprio livro e o autor têm uma história para além da história, da história que pretendem querer introduzir. Esta obra de Marc Bloch - importante historiador medieval do século XX – tem a sua própria história, escrita num dos períodos mais negros da história do século XX. Nesse labor, do conhecido historiador, é dado o passo para uma “nova história”, termo que a própria história registará como nova abordagem ao estudo e análise da própria história enquanto ciência.
Marc Bloch - David Levine
Fonte
Marc Bloch, neste, como em mais escritos da sua autoria, e em consonância com outros companheiros historiadores do seu tempo que seguiam a mesma tendência, quis mudar o modo como se contava, registava e fazia história – a historiografia não seria mais a mesma. Queria que a história deixasse de abordar e tratar apenas os grandes feitos, os grandes líderes, as grandes coisas. Queria que a história passasse a estudar toda a sociedade, também os pequenos feitos, os indivíduos comuns, a sociedade no seu todo, algo que nos fizesse aproximar mais do passado, com uma visão apropriada ao Homem real. Bloch queria que na história passasse a constar o todo, e não o particular que alguém decidiu destacar no passado, por razões várias. Bloch defendia que a história devia ser mais um exercício de reflexão e criação que propriamente de acumulação acrítica de conhecimento passado. Esta nova forma de ver o passado foi revolucionária para a História, e tem hoje claras influências na sociedade contemporânea. Emancipou o Homem na história, e permitiu que o estudo da história fosse dinâmico e passível de novas construções para o presente e futuro. Fez com que a história se relacionasse com as outras ciências de um modo pluridisciplinar e fosse uma das bases de planeamento para o futuro.
Introdução a História” é uma obra inacabada, Marc Bloch nunca a terminou… Não lhe permitiram dar o ponto final no seu magistral trabalho. Muito mais haveria para escrever, tal como o próprio autor planeara. Marc Bloch foi fuzilado em 1944. Bloch era judeu, tinha sido soldado na primeira Guerra Mundial, e quando a França fora ocupada pelos Nazis abandonou o mundo académico e alistou-se na Resistência Francesa. Durante a Guerra foi capturado, torturado pela Gestapo, e executado por ordens de Klaus Barbie, o conhecido oficial das SS e da dirigente da Gestapo.
Da obra inacabada surgiu a oportunidade de fazer jus ao autor e continuar o seu trabalho. Muitos historiadores o fizeram, muitos continuaram a fazer história, abraçando-a como “nova”. Por ironia do acaso, e do papel que o próprio Marc Bloch deixou na história, hoje temos todos ao nosso dispor uma obra inacabada para continuar a escrever a nossa história.
Nota: este texto foi criado propositadamente para o blogue "7 Autores", a convite de Silvia Alves, mas como a temática se enquadra âmbito deste espaços, decido publica-lo aqui também.

domingo, 16 de setembro de 2012

Após Acordo Ortográfico a maioria das visitas ao Blogue veem do Brasil

O mais recente acordo ortográfico, que entrou em vigor em 2009 em Portugal (1.1), gerou desde então, ao longo de um processo moroso que começou muito antes (1.2), grande discussão e contestação. 
Do lado dos detratores do acordo defende-se, entre muitas posições, a descaracterização da Língua Portuguesa, e o seu afastamento para com as suas origens históricas. Do lado dos defensores do acordo empunha-se o estandarte da oportunidade de crescimento da língua, dos espaços e mercados do português como língua muito mais universalista. No fundo, as mudanças, via acordo ortográfico, aproximariam o português dos vários países de língua oficial portuguesa, dando-lhes escala em todos os sentidos, potencialmente alargando o próprio grupo da lusofonia. A isso juntar-se-lhe-ia todo o potencial económico associado decorrente do alargamento e criação de um mercado cultural único para os vários países, ou seja, haveriam muitos mais leitores e os custos de publicação e divulgação seriam reduzidos.
Bem, ambas as posições são, no mínimo, defensáveis, mas ainda haverá - com certeza - muita discussão sobre este assunto, e só o tempo revelará que as previsões se concretizarão.
Baile Popular -Di Cavalcanti
A experiência aqui do blogue, no que toca à escrita segundo o novo Acordo Ortográfico, tem sido reveladora: desde que os textos começaram a ser publicados segundo o novo Acordo Ortográfico o número de visitas vindas do Brasil subiu exponencialmente, sendo hoje o país de onde mais se visita A Busca pela Sabedoria. Obviamente que este exemplo não é representativo e não serve para provar nada, mas pode servir para refletir. 
No entanto, apesar das vantagens de crescimento do mercado para as publicações em português há um dado curioso que raramente é divulgado. Apesar de existir um novo Acordo Ortográfico com o intuito uniformizar o português falado pelo mundo fora, existem variantes para cada país dentro do atual acordo! No fundo, continua a não haver uniformidade total.
Talvez venha um dia em que o português seja uma língua uniforme mundial ou então que desapareça para dar origem a outras línguas. Ninguém saberá isso, até porque a Língua Portuguesa nunca foi estanque, até porque não nasceu do nada e porque tem, como todas as línguas, uma história de reformulações alterações, divergências e uniformizações.

Fontes:
(1) -Portal da Língua Portuguesa, disponível emhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/acordo.php
(2) - História da língua portuguesa, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_l%C3%ADngua_portuguesa

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Guerra dos Tronos - Fantasia Medieval para Adultos

A Guerra dos Tronos” ou “ O Jogo dos Tronos” – na tradução direta do inglês – é uma das mais cotadas séries televisivas da atualidade (ver no IMDB). Os 10 livros que compõem as “As crónicas do Gelo e do Fogo” foram adaptadas para televisão pela HBO e o resultado foi, no mínimo, positivo e original. Depois do sucesso de “Roma”  (ver no IMDB) esta é mais uma grande série épica. No entanto, essa anterior grande realização seja, em alguns aspetos, substancialmente diferente: "Roma" baseiam-se em História factual, produzida com especial atenção ao rigor histórico, ainda que seja uma adaptação romanceada, podendo ser quase vista como um documentário (ou não tivesse o envolvimento também da BBC).
Mas a “A Guerra dos Tronos” é uma ficção. George. R. R. Martin, o autor, admite a influência de clássicos da literatura associada ao “fantástico medieval”, especialmente da monumental obra que é “O Senhor dos Anéis”. Apesar de não ser uma obra Histórica, o universo fantástico medieval criado por Martin para a sua grande história revela sólidos conhecimentos do passado factual. São muito evidentes na terra de Westeros – área geográfica, tipo continente, onde se passa a maior parte da história - as influências da Europa Medieval: das relações feudais, da monarquia absoluta, as lides da guerra, da política e tramas palacianas, dos códigos de cavalaria e comportamentos de classe, do campesinato e suas ligações à terra, etc. São também notórias as inspirações bebidas diretamente da mitologia nórdica e germânica, entre muitas outras, no mundo fantasioso de “A Guerra dos Tronos”. George. R. R. Martin conseguiu criar uma fantasia encorpada por um enredo elaborado – aliás, muito elaborado – de relações entre personagens, bem trabalhadas, e uma política altamente complexa, que se concretiza no desenrolar da história e se vai aprofundando com o emaranhado da intriga e as correrias de uma infindável panóplia de personagens.
O autor criou uma “fantasia medievalescapara adultos, evitando alguns lugares comuns e um Excessivo apego a uma personagem principal (ou grupo restrito) que normalmente costuma assumir o papel de herói (ou heróis), até porque nesta série eu diria que, tal como na vida real, não existem heróis, pelo menos pelos padrões habituais no género. Em “A Guerra dos Tronos” as personagem são humanas, acima de tudo. Mesmo aquelas que mais poderiam tender para o modelo heroico são retratadas com defeitos, e o tratamento de supremacia não é absoluto e linear, e muitas vezes fica muito longe de ser justo. Martin cria um mundo ficcional fantástico realista, muito pouco habitual para o género, e até para qualquer criação televisiva ou cinematográfica de géneros ditos mais correntes. As personagens vão-se moldando com o desenrolar dos acontecimentos, vão demonstrando o seu carácter, vão ficando mais complexas. Muitas vão morrendo, muitas são injustiçadas, algumas criam percursos de sucesso e afirmação, mas a tragédia é o pano fundo. As alterações podem ser repentinas. Por vezes, enquanto espectadores ou leitores, não estamos preparados para as mudanças, e menos ainda para as mortes.
Um especto muito importante da série é a fidedignidade dos diálogos e da série para com a história contida nos livros. Isso tem sido garantido pelo envolvimento na escrita dos guiões, produção e realização do Próprio George R. R. Martin.
Pessoalmente – como já se notou - sou um apreciador deste tipo de criações, mas a popularidade de “A Guerra dos Tronos” é tão grande e incontornável que merece ser analisada. Tal só pode significar qualidade, com ose explicaria, que mesmo aquelas e aqueles que não seja particularmente apreciadores do género fiquem rendidos a esta magistral obra, quer seja em livro ou em série televisiva?
Também existe uma versão de “A Guerra dos Tronos” em formato de jogo de tabuleiro. Aliás existem duas, com a 2ª edição a conseguir ascender aos melhores jogos do género, segundo os aficionados desse tipo de jogos. Por outro lado, a versão realizada para jogos computador no género estratégia (versão génesis), segundo as críticas, não faz jus à obra original, chegando mesmo a ser medíocre. Aí, provavelmente o autor não se preocupou, ou foi chamado, a guiar a adaptação tal como o fez na série televisiva.
Em jeito de resumo, “A Guerra dos Tronos” é já uma das mais importantes e incontornáveis obras televisivas deste novo milénio.

domingo, 6 de novembro de 2011

Memorial do Convento - A frase mais longa num romance

Muitos portugueses admiram Saramago por ser o nosso único prémio Nobel da literatura, uns contra vontade - pelas polémicas, personalidade e escolhas de vida -  e muitos outros genuinamente pela monumentalidade do seu trabalho. Normalmente, a primeira crítica que se arremessa contra o desaparecido autor é a sua pontuação (ou falta dela). Sem dúvida que pode ser de difícil leitura - o que até pode ser bom. Não sei se o nosso Nobel não pretendia complicar propositadamente a sua escrita. Será que queria que os Portugueses se esforçassem e dedicassem mais tempo à leitura? Pois ler uma coisa “complicada” demora forçosamente mais tempo. Será que estava a criticar-nos pelos nossos parcos hábitos de leitura e, logo, dificuldades em compreender textos um pouco mais complexos e arrojados do ponto de vista da pontuação.
Procissão da verdadeira cruz na Praça de S. Marcos - Gentile Bellini

Pegando na polémica pontuação a que Saramago recorria, queria referir aqui um excerto de uma das suas obras, que por acaso até foi a que lhe deu o prémio Nobel - Memorial do Convento. Confesso que uma frase em especial dessa obra me surpreendeu, isto porque deve ser das maiores frases escritas até hoje num romance: desenvolve-se ao longo de 7 páginas! Provavelmente isto pouco de novo tem para muitos de vós, até porque a obra passou a ser de estudo obrigatório no ensino secundário.
Voltando à longa frase que me fez escrever este texto. Na minha opinião Saramago demonstrou com esta opção e criação o seu génio. A frase em causa relata uma procissão. De início, por ser uma descrição, somos levados a ler rapidamente para chegarmos à acção, para pegarmos de novo na história das personagens. No entanto, a frase parece interminável, e à medida que avançamos mais rápido tenderemos a lê-la cada vez mais rapidamente. Esta estratégia do escritor faz com que o leitor entre numa dinâmica acelerada, ganhando todo o evento uma vivacidade frenética muito própria. Assim, à medida que sentimos o movimento de todo o aparato descrito, que serve para descrever toda uma sociedade - as suas características, as suas injustiças, hipocrisias, crenças e inocências –, entramos na visão que o autor quer transmitir do evento em causa e suas implicações. Saramago faz assim uma longa descrição, que até se torna rápida e dinâmica, numa sequência de contra-sensos e absurdos que vai salientando. 
Concordando-se ou não com a visão do autor, é magistral o modo como o faz!

domingo, 10 de julho de 2011

O optimismo de «A Metamorfose» de Kafka

Duvido que alguém que leia por completo a obra A Metamorfose de Kafka lhe fique indiferente. Aliás, duvido sequer que quem acabe de ler a última página deste livro não pare, pelo menos uns minutos, para pensar, reflectindo, na vida - se é que não o fez ao longo da leitura da obra -, na sua existência e de todas as existências em sociedade, como a das próprias sociedades humanas que existem, especialmente as contemporâneas.
O Bestiário - André Masson
A história é dramática e duramente realista (estilisticamente falando). Dizem e diz-se que representa o desespero humano e as limitações da condição humana, num rol de frustrações fantasiosas e grotescas do característico e realismo de tantas vidas. A discrição é, como já disse, tão realista e crua que as palavras tocam e transportam o leitor para a irrealidade da realidade descrita em A Metamorfose. Mas, apesar de tudo, de tudo o que de negro e desesperante o conto encerra, penso que a história de Kafka pode ter um lado positivo e até optimista.
Apesar da descrição, que por vezes no arrepia com os ambientes e formas repulsivas, sobre a forma e vivência de Gregor depois da sua metamorfose que o tornou num ser monstruoso semelhante a um insecto, apesar da frieza de tratamento da família para com o modificado Gregor, apesar do fim trágico quase ridículo de Gregor: há uma mensagem positiva na obra. Apesar da desgraça da personagem principal, foi toda a uma família - a de Gregor (pai, mãe e irmã) - que, por causa dessa desgraça, soube sair, ainda que com grande crueldade e frieza, da situação insustentável em que estava e persistia.
Assim, esta obra poderá ter vários "morais" - num sentido nada dogmático - e um deles pode ser: mesmo da maior e mais estranha das calamidades, podem sempre surgir oportunidades.
No entanto, esta parece-me uma obra "difícil", não de leitura mas do modo como o leitor tem de lidar com as descrições dos ambientes e da acção, especialmente pelo seu forte cariz psicológico disfuncional patente em todo livro.

Duvido que alguém que leia A Metamorfose, com olhos de ler e consciência de reflectir, lhe fique indiferente.

sábado, 18 de dezembro de 2010

D. Quixote - o romance que satiriza o próprio romance

A obra «D. Quixote de La Mancha» é a obra prima de Cervantes e o livro laico mais impresso em todo o mundo. Cervantes quando escreveu esta sua obra, baseando-se na sua própria experiência e aventuras pessoais dramáticas - ora intensas e de aventura, ora de inércia e marasmo -, criou um género novo que rompia com o que se fazia na época, aliás, criou algo que criticava e que era uma sátira à literatura popular de então - aventuras e contos cavalheirescos onde destemidos heróis provavam a sua coragem e força, superando provas e obstáculos impossíveis, culminando quase sempre no salvamento de uma donzela encarcerada.
D. Quixote e a mula - Honoré Daumier
Assim, o autor de "D. Quixote", segundo o documentário "Cervantes e a Lenda de D. Quixote" da autoria de Daniel e Jaume Serra, escreveu este conto como critica àquilo que considerava ser baixa literatura: os contos e novelas de cavaleiros - por serem livros produzidos em massa sem cuidados mínimos na forma e conteúdo, desfasados de realidade e que serviam apenas para entreter sem nada transmitirem de verdade.  Em pleno século XVII, estando Espanha no seu auge, Cervantes, através da sua sátira, que foi muito além da mera crítica, redefine, involuntariamente - ou não -, o modelo literário daquilo que seriam os posteriores Romances: cria a figura do herói como manifestação que retrata a condição e limitações humanas; descreve e apresenta ideais e valores - incluindo as utopias - de indivíduos e sociedades através das suas personagens e ambientes; mistura humor e drama, os condimentos de uma história bem realista pois é assim que a vida de facto é, uma mescla de "bem e mal", de alegria e tristeza, sucesso e insucesso; e até, dizem os autores do documentário, concretiza pela primeira vez em personagens literárias os arquétipos da dualidade antagónica das parelhas de heróis, algo que será copiado e readaptado posteriormente na literatura e cinema (por exemplo: "Sherlock Holmes e Dr. Watson", "Bucha e estica",  entre muitos outros - basta pensar um pouco e logo muitas outras parelhas nos surgem).
Em jeito de resumo, Cervantes, com o seu D. Quixote de La Mancha (historia de um velho meio louco que se torna num cavaleiro andante, acompanhado pela voz da razão que é Sancho Pança, sempre à procura de aventuras, de defender os fracos e oprimidos, e de salvar a sua Dulcineia), para além de criticar um modelo de literatura do seu tempo que considerava inferior, redefine o modelo em que se irão basear posteriormente algumas das grandes obras do Romance e da Ficção Literária dos séculos subsequentes.

Agora pergunto eu - falando de arte e cultura -, será que alguém conseguirá pegar neste exemplo de acção criativa de  Cervantes e transformar algum "lixo" que nos invade em algo de novo e de qualidade?
Uma reciclagem cultural hoje provavelmente também não seria de todo despropositada a meu ver, pelo menos para alguns casos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

'Quando Nietzsche Chorou', mais que um romance

Depois de passado um ano ou mais sem ler um romance ou qualquer outra obra do género ficcional, aproveitei o sol, o mar e o ambiente veraneante mais dado aos pensamentos emocionais para ler algo não documental. Aproveitando também o facto de me ter sido oferecida uma obra sui generis intitulada de ‘Quando     Nietzsche chorou’ – literatura ficcional fruto da escrita de um professor universitário da Universidade de Stanford da área da psiquiatria médica com especial gosto por filosofia – pareceu-me mais que adequado optar por essa obra para as “férias literárias”. Nesse livro, escrito pelo professor Irvin D. Yalom, são reunidas na Viena do final do século XIX, através de um enredo ao jeito do género literário do romance, várias personagens históricas (Breuer, Nietzsche, Freud, etc.). São estas personagens e os seus diálogos, enriquecidos e que ganham profundidade emocional e intelectual devido aos conhecimentos técnicos e académicos do autor, que fazem com que esta obra de ficção se demarque e quase se aproxime do ensaio psicológico/filosófico.
 As duas personagens principais – Breuer e Nietzsche – vão criando, e aprofundado entre si, uma relação de cumplicidade e partilha intelectual: grande parte da obra é dedicada aos diálogos entre Breuer e Nietzsche e à descrição das meditações e pensamentos individuais de ambos, sem esquecer também os importantes contributos de outras personagens secundárias como é o caso de Sigund Freud. Yalom consegue juntar numa ficção Breuer e Nietzsche (que na verdade nunca se conheceram), conciliando assim as duas áreas do saber que os distinguiram através de uma simbiose capaz de cativar um público generalista e não especialistas em psicologia e filosofia. Esta natural relação entre estas duas áreas do saber é facilitada pela abordagem comum à condição humana e a leitura torna-se fácil pela introdução de dilemas pessoais e sociais que nos podem ser tão próximos.
Destaco também neste original livro as notas finais do autor por permitirem esclarecer o que é ficção e o que não é. São identificadas as referências e os dados históricos reais e os que foram criados especificamente para dar forma e coerência ao romance. Esta feliz e pertinente opção do autor vem de encontro ao que tenho vindo a defender: a necessidade de, numa obra de ficção, informar os leitores ou espectadores do que é documental e do que foi premeditadamente criado ou readaptado como fruto do processo criativo em causa. 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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