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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Em que falharam as democracias segundo Bobbio?

Gianfranco Pasquino, no seu livro Curso de Ciência Política, cita Bobbio. Mas porquê abrir assim um texto? A resposta reside na importância e interesse do livro em causa e do autor citado. O livro de Pasquino é um dos poucos livros traduzidos para português de Portugal que permite servir de manual introdutório à ciência política, especialmente importante porque nas sociedades democráticas é suposto que todos os cidadãos participem nos processos políticos. Bobbio é um dos autores de referência sobre a teoria da democracia, apesar de ter falecido em 2004. Parece coisa comum e banal exercer e viver numa democracia, mas afinal quantos pensaram profundamente sobre a essência desta forma de governo? Bem, Norberto Bobbio pensou e escreveu. Pasquino tem o mérito de o citar e dar, através da tradução, aos leitores portugueses alguns dos seus ensinamentos. Pasquino é um os discípulos de Bobbio e é atualmente um dos principais autores da ciência política. Se fizerem uma pesquisa no Wook por Bobbio verificarão que nada existe disponível em português de Portugal. Não que tenha algum mal ler em português do Brasil, mas justificava-se haver mais acesso generalizado a este ator.

Visão depois do sermão - Gauguin

Feitas as apresentações podemos seguir para os conteúdos que queria aqui abordar. Pasquino refere que Bobbio defendia que a democracia não tinha conseguido cumprir as suas promessas. Aqui o termo promessas é curioso, porque ainda hoje há uma grande esperança que a democracia se possa reinventar e evoluir em benefício das sociedades humanas, especialmente porque não parecem haver alternativas radicalmente diferentes que possam ser benéficas. Assim, Bobbio dizia que a democracia foi incapaz de:
- Gerar uma sociedade de iguais sem corpos intermédios;
- Eliminar os interesses organizados e particulares que se opõem ao interesse comum e coletivo através do sistema representativo;
- Estender-se às empresas e aos aparelhos burocráticos, administrativos e militares dos Estados;
- Destruir os poderes invisíveis;
- Elevar o nível da educação política dos cidadãos.

Bobbio considerava que a democracia, como sistema político, tinha sido idealizada para sociedades muito menos complexas que aquelas onde hoje vivemos. Poderão os cidadãos estar plenamente informados sobre o sistema de governo das sociedades em que vivem? Será que querem e procuram esse conhecimento? Em liberdade podem simplesmente dedicar o seu tempo a outra coisa qualquer. Ainda assim Bobbio era otimista e considerava que as sociedades tenderiam para um aprofundamento da democracia.

As esperanças de Bobbio têm o efeito de nos deixar menos receosos perante o futuro. Mas estarão as sociedades informadas para o processo avançar? Será o ato de votar mais racional e os governantes mais capazes, tendendo todo o sistema representativo para mais qualidade? Havendo liberdade de escolha, será que os cidadãos irão canalizar o seu tempo e esforço para o seu aprofundamento como participantes dos processos democrático que Bobbio tanto desejava? Na atualidade, com tantas solicitações ao hedonismo e ao apolitismo, estará realmente a sociedade a pender para um maior aprofundamento democrático?

Podem muito bem-estar a ocorrer as previsões de Bobbio, trazidas por Pasquino. Nunca foi possível prever o futuro, há sempre algo que nos escapa e perante um assunto tão complexo não se esperam facilidade de compreensão e previsão. Podemos dizer que o fator liberdade e as novas formas de comunicação e deslocação, de tudo e de todos, estão a transformar muitas das estruturas sociais e assim os sistemas políticos. A liberdade de não querem participar nos modelos de representação democrática pode não ser o fim a democracia em si, mas apenas a degradação do atual sistema que caminha para outro. Democracias há muitas

Referências bibliográficas:

terça-feira, 13 de março de 2018

Ser de Direita ou de Esquerda dependeu da forma de sentar

Pensando nos textos aqui no blogue sobre política, foram sendo abordadas as diferenças entre esquerda e direita por diversas vezes, mas nunca de uma forma em que isso constituísse o tema principal de um texto. Chegou então a hora de fazer esse texto, muito por causa de um livro da autora de Diogo Freitas do Amaral que recentemente li. No seu livro, “Uma Introdução à Política”, o conhecido político e professor universitário, resume, de forma simples a génese dessa distinção [1].
A diferença entre esquerda e direita surgiu da Revolução Francesa, mais concretamente dos Estados Gerais, que foram as assembleias representativas da população francesa que quebraram com décadas de absolutismos, justificadas pelas crises financeiras do Estado francês e domínio filosófico do iluminismo entre as elites intelectuais. Os Estados Gerais desempenharam um importante papel na fase inicial do processo revolucionário. Os Estados Gerais iriam transforma-se em Assembleia Nacional [2].

Abertura dos Estados Gerais em Versalhes - Auguste Couder

Os termos distintivos surgiram por razões de posicionamento na assembleia. Observando pelos olhos do presidente da assembleia, os que se sentavam à sua direita ficaram apelidados de partidários de direita e os restantes de esquerda. Mas esta forma de sentar, segundo Diogo Freitas do Amaral, não surgiu do acaso. Essa disposição foi influenciada pela tradição greco-romana e cristã de que “os melhores ou mais qualificados se sentavam à direita do magistrado ou de Deus, ao passo que os piores ou menos qualificados estavam do lado esquerdo”. O autor refere também a origem latina da palavra esquerda, que, ainda hoje em italiano, se diz “sinistra”.  Também em português antigo “filho da mão esquerda” significava filho ilegítimo [1].

Resumidamente, as classes privilegiadas que pretendiam conservar os seus privilégios, passaram a ser apelidados de partidários de Direita, ou conservadores. Os que queriam conquistar mais direitos e melhorar a sua condição económica e social, passaram a constituir os partidários de esquerda. De notar que o autor deixa transparecer aqui a sua opinião, referindo que no primeiro caso a designação foi pejorativa enquanto que na segunda foi elogiosa [1].

Para Diogo Freitas do Amaral, foi somente no século XX, com a modernidade das ideologias extremistas, do comunismo e do fascismo, que se separaram as esquerdas e as direitas entre moderados e extremistas. No entanto, os extremismos políticos são mais antigos, sugiram na própria revolução francesa, sendo famoso o caso dos jacobinos. Posteriormente FORAM VÁRIOS os episódios políticos desencadeados pelos defensores do retorno do absolutismo monárquico, tal como dos anarquistas entre os vários movimentos socialistas e libertários [3]. Seja como for, o objetivo do livro é uma introdução, pelo que se trata de uma simplificação perfeitamente adequada.

Assim, da próxima vez em que se sentarem numa assembleia pensem bem em que ala querem ser vistos.

Referências bibliográficas:
[1] Amaral, Diogo Freitas do (2014). Uma Introdução à Política. Lisboa: Bertrand.
[2] Vovelle, Michel (2007). A revolução Francesa 1789-1799. Lisboa: Edições 70.
[3] Fernandes, António José (2008). Introdução à Ciência Política: teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto Editora.

domingo, 4 de setembro de 2016

A ilusão da aceleração e os benefícios da demora - Um ensaio filosóficos de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han parece um nome estranho para um filósofo da escola alemã especialista em Heidegger. Independentemente disso o autor germano-koreano tem lançado algumas obras interessantes, de leitura mais leve, mas sem serem simplistas, sobre temas da filosofia contemporânea próximos do cidadão comum, minimamente informado.
Ophelia - John Everett Millais
No seu livro "Aroma do Tempo - um ensaio filosófico sobre a arte da demora" Byung-Chul Han fala efetivamente do nosso tempo, do modo como a vida contemporânea parece ser mais acelerada, um frenesim mesmo. Mas o autor tem uma visão alternativa. Para ele o tempo não acelerou. Simplesmente removemos barreiras que nos ajudavam a estabelecer etapas e limites naturais. Hoje tudo parece acontecer num contínuo e em sobreposição, simplesmente porque não há o tempo de pausa que contribua para definição etapas e momentos de vida, aquilo que nos que nos ajudaria a situar e localizar num percurso finito, do qual queremos tirar maior e melhor partido.

Byung-Chul Han  refere-se constantemente ao termo "atomização" do tempo, uma contínua dispersão sem momentos diferentes, o que parece uma crítica e comparação do modo de vida contemporâneo aos princípios do sistema de produção fordista/taylorista, da produção em massa e numa linha de montagem com processo ininterruptos e repetitivos.
Esta perda de referências temporais torna-nos impreparados para lidar a realidade da vida e a inevitabilidade da morte. Se com a estruturação balizar das fases de vida nos preparávamos para a morte, agora parece faltar o apoio  natural e graduação perante um caminho que tem sempre um fim, mas que não tem de ser uma correria contínua. Talvez seja aqui que Byung-Chul Han se aproxima de Heidegger, que se dedicou, direta e indiretamente, à morte.
Isto pode parecer um bocado vago. Tentemos materializar com exemplos. Quando começa a adolescência e a idade adulta hoje em dia? Até quando somos jovens? Um idoso, o que o define, especialmente quando se diz que a idade é um estado mental? Existe ainda uma idade para estudar, trabalhar ou constituir família? E quanto tempo passa entre todas estas etapas?
Todas estas questões levantam imensas dúvidas e ainda mais questões. As respostas são imensas. Dificilmente se chegará a um consenso ou às respostas certas tendo em conta o nosso atual modo de vida e organização social, tendo em conta que vivemos em sociedades pós-modernistas. Talvez essa dificuldade se prenda no fundo com o que Byung-Chul Han pretende alertar: perante a ânsia de acelerar o tempo e não investir na adequada demorara que ajudaria a definir as várias etapas de vida e uma preparação para a morte, parecemos viver de modo acelerado longas vidas sem que efetivamente tivéssemos aproveitado o tempo finito que dispomos, pois parece que nunca paramos para saborear cada etapa.
Apesar do arriscar interpretativo, fica a referência e a contribuição para dar a conhecer este autor e assim refletir sobre o modo acelerado como vivemos. Apesar dessa vontade de aproveitar o tempo ao máximo muito provavelmente até podemos fazer menos, pior e nem sequer ser mais felizes com o tempo que dispomos.


Referências bibliográficas:
Han, Byung-chul. "O Aroma do Tempo - um ensaio filosófico sobre a arte da demora". Lisboa: Relógio d'Água, 2016

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária

Vamos falar em decrescimento, esse assunto polémico. Não se trata de dietas mas de economia, modelos de sociedade, valores e estilos de vida. Serge Latouche no seu “Um pequeno tratado do decrescimento sereno” parece querer abalar toda a nossa existência.
Ambiente Espacial - Lúcio Fontana

Quando a economia de um país não está a crescer o dito país entra em crise. Mesmo se crescer abaixo de um determinado nível a crise pode ser inevitável. Mas como podemos continuar infinitamente a crescer, sendo que estes crescimentos acumulados geram evoluções exponenciais pois crescemos sempre relativamente ao acumulado anterior? Os recursos do planeta não são ilimitados. Se o planeta é finito como pode ser infinito o crescimento? Ainda que a tecnologia consiga tirar melhor partido dos recursos naturais, até aproveitando o que outrora era desperdício ou resíduo, haverá sempre limites materiais.

Latouche, no seu ensaio, quer preparar-nos para aquilo que considera inevitável. Vamos ter de decrescer, inverter todo este sistema de valores e organização social e económica. Se neste momento já se consome em média o equivalente a mais de uma terra, isto considerando uma pegada ecológica média, como poderemos manter este nível no futuro? O autor recusa o desenvolvimento sustentável, pelo simples facto de que manter os níveis de desenvolvimento não será sustentável de todo ao ser inviável continuar a consumir mais do que o planeta pode produzir sem perdas irreversíveis.

Imagine-se então como seria uma sociedade do decrescimento. Teríamos de consumir menos, evitar os atuais os reduzidos ciclos de obsolescência. Teríamos de produzir localmente para consumir localmente, tendo em conta as colheitas de época. Teríamos de impor restrições aos mercados impedindo que fossem apenas regulados pela lei da oferta e procura com base num sistema de livre circulação de capitais. Reduzir o número de horas trabalhadas, a intensidade e velocidade do que fazemos, pensando mais na prevenção e nos estilos de vida mais naturais e saudáveis. Teríamos de evitar o turismo como grande consumidor de recursos e desestabilizador dos ambientes naturais e humanos. Direcionar os ímpetos consumistas para o consumo de conhecimento e cultura que podem ser inesgotáveis. Isto e muitas outras coisas verdadeiramente radicais aos olhos contemporâneos. O mundo seria muito diferente.

Latouche alerta para esta necessidade, que será tanto mais forte quando os níveis de vida começarem a aumentar nos países onde os níveis de consumo e exploração estão abaixo da média. Se pensarmos que um Norte-americano consome em média o equivalente a 6 terras per capita, podemos ver o nível de desigualdade existente no planeta.

Tudo isto será uma utopia, mas, seguindo as alternativas propostas pelos defensores do decrescimento, a humanidade terá de repensar os seus modelos de desenvolvimento, pois será impossível manter determinados estilos e níveis de vida sem com isso arriscarmos o equilíbrio planetário.

Referência bibliográfica:
Latouche, Serge. Um pequeno tratado do decrescimento sereno. Lisboa: Edições 70, 2011.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Boca do Inferno – Leituras de história contemporânea


Ler as crónicas de Ricardo Araújo Pereira é arriscar várias coisas. Primeiro, arrisca-se a ler algo escrito em bom português, com uma pontuação, construção frásica e recursos gramaticais impecáveis. Depois, e como é expectável, arrisca-se o sorriso e o riso, ou, para outros, aquela associação bem-humorada que diverte mas que fica guardada no pensamento individual, sem quaisquer manifestações físicas externas – admito que esse é mais o meu caso.

Mas o que me leva a escrever este texto não é nenhum dos dois casos anteriores. O que me motiva a invocar aqui os livros das crónicas “Boca do Inferno” é o seu potencial histórico. Quando peguei no último livro destas crónicas (o 3º no caso em questão), dei por mim a ler as crónicas de uma época passada, daquilo que era a actualidade na altura. Não sei se podem considerar como documentos históricos. Isto porque são crónicas subjectivas de humor, e porque o autor não é obrigado a nenhuma metodologia de criação de conhecimento histórico – embora Paul Veyne diga que a história não tem método. Ricardo Araújo Pereira não esconde os seus gostos e preferências, o que é aceitável e até útil já que se tratam de artigos de opinião. No entanto, por as fazer sobre temas de importância geral contemporânea – na maior parte dos casos – acaba por fazer uma súmula da história recente. Basta pegar nos livros, e se os lermos de seguida, vamos recordar episódios históricos recentes, e vamos fazê-lo de um modo leve e agradável, pois a motivação é a busca pelas interpretações humorísticas do autor. Assim, Ricardo Araújo Pereira faz, talvez sem intenção, bastante pelo desenvolvimento da história contemporânea nas suas obras “A Boca do Inferno”, pois faz-nos recordar a história (no sentido lato do termo) dos últimos anos. E, com as suas opiniões, contribui para que construamos a nossa, interpretando a história recente. Pelo menos não há o risco de sermos ocultamente direccionados para uma determinada prespetiva mascarada de imparcialidade, pois nisso não há dúvidas. Ricardo Araújo Pereira é tudo menos imparcial.
Importa não esquecer que a análise histórica da antiguidade se faz recorrendo também aos cronistas da época, e, que em muitos casos, será difícil saber quais desses escritos constituem provas incontestáveis do que realmente aconteceu. Nunca saberemos, em muito deles, se são de facto imparciais.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso – A Morte e a Imortalidade para os filósofos

Socorro-me de um livro improvável para ensaiar algumas respostas sobre a nossa mortalidade, mais concretamente do livro de humor filosófico “Heidegger e um hipopótamo chegam às portas do paraíso” (dos mesmos autores de “Platão e um Ornitorrinco entram num Bar”, aqui já referido no blogue). Apesar de sabermos que vamos morrer dificilmente nos imaginamos a um dia deixar de existir de facto (ver Ernest Becker). Se assim não fosse não haveriam tantas tentativas e teorias para entender a morte, e por consequentemente ensaiar a imortalidade ou o que eventualmente poderá vir depois desta nossa existência. São muitas as referências neste livro - sempre em tom bem-humorado - que valem a pena referir. 
Marat Assassinado - Jacques Louis David
Na tentativa de buscar a imortalidade, para fugir à fatalidade da morte, desenvolveram-se soluções para todos os gostos, e os filósofos foram particularmente criativos nisso – ainda que por vezes incompreensíveis. As várias religiões ofereceram e continuam a oferecer várias possibilidades para a vida depois da morte terrena, umas recorrendo a conceitos de paraísos ou infernos eternos, outras através de reencarnações, e ainda umas outras que fugiam em parte a estes arquétipos. Mas o que interessa para este texto é o modo como os pensadores e suas filosofias lidam com a morte. Por isso, aqui vai, de um modo mais ou menos cronológico!
Platão terá sido o principal teórico da alma. Ao definir concreta e metodicamente a alma como algo imaterial e diferente do corpo que morre, permite a possibilidade da imortalidade dos seres humanos através da persistência das suas almas. 
Séneca, como estoico que era, não considerava que uma longa vida fosse algo de importante. Para ele a qualidade era mais importante que a quantidade, pelo que a imortalidade era assim relativizada e diminuída. Essa tese seria posteriormente recuperada por Camus nas suas reflexões sobre o suicídio.
Descartes colocou a visão dualista de Platão em causa, pois como poderiam a alma e o corpo ser separáveis se ambos são interdependentes e dependentes entre si. Surgia a dúvida que levaria a questionar a imortalidade segundo os antigos ensinamentos. Assim Leibniz definiu essa dualidade como um funcionamento síncrono perfeito e dependente, criado por Deus. Em oposição, Huxley referiu que a consciência era apenas um efeito secundário do corpo, mais concretamente do cérebro. 
Para Kierkegaard o problema da morte prende-se com a noção de uma vida finita, uma em que nunca poderemos experimentar todas as coisas nem viver tudo. Assim, para evitar a necessidade de querer a imortalidade, o melhor é não viver mais que momentos triviais. Assim dispensa-se a imortalidade pois não haverá necessidade de viver mais do que o estritamente necessário. Schopenhauer segue mais ou menos pelos mesmos princípios, pois considera a vida um constante processo de morte, e são as espetativas que a tornam num sofrimento e frustração, por isso, tal como Kierkegaard, o melhor é viver de um modo simples. 
Para Freud é o subconsciente que inventa um ser supremo de modo a garantir uma sensação de segurança para com a grande dúvida e medo que é a morte. Já Jung defendia que o subconsciente, com a idade, se preparava para aceitar e lidar com a morte, em oposição à razão. 
Heidegger considera que o melhor modo de lidar com a morte é aceita-la, só assim se poderá viver de facto. Para ele a eternidade é entediante e algo a evitar, sendo que importa fazer da vida uma sequência de grandes momentos que nos levem a desfrutar dela ao máximo.  
Referindo de novo às teorias de Becker, um modo de atingir a imortalidade, ainda que indiretamente, é optar por deixar grandes obras ou feitos para que se seja recordado na posteridade. Não será uma imortalidade inteira, consciente ou ativa, mas à falta de melhor é algo a que muitas pessoas se agarram. Outras especulam e depositam todas as esperanças em adquirir a imortalidade através das ciências médicas, via criopreservação, clonagem, robotização biónica e um infindável rol de ficções que parecem aproximar-se cada vez mais da realidade.
Em jeito de tentativa de resumo: a morte é inevitável, o modo como cada pessoa lida com essa inevitabilidade é que pode ser muito variável.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os Bichos humanos e os Humanos que são piores que bichos de Miguel Torga

Li os Bichos de Miguel Torga quase por auto-obrigação, já há alguns anos. Propus-me, na altura, em jeito de exercício forçado, a tentar ler algo que fosse de um autor conhecido português e que o volume da obra em causa não me assustasse à partida. Com hábitos de leitura bem reduzidos à data lá comecei a juntar, lendo, as palavras que Torga juntara nesse pequeno compêndio de contos sobre animais.

Natureza morta com caça, fruta e vegetais num mercado - Frans Snyders
No livro contam-se pequenas estórias, de vidas simples, mas pejadas de supostos sentimentos e sensibilidades de vários animais. As personagens, grande parte delas animais domésticos ou em contacto, seja por que motivo for, com a sociedade humana, comportam-se e sentem como pessoas. Aliás, os tais bichos retratados são, tendencialmente, muito mais humanos nos comportamentos e atitudes que os próprios homens e mulheres que também surgem nas narrativas.
Talvez seja uma sátira social intemporal, talvez apenas um acaso literário alegórico, ou talvez nada disso. No entanto, a sensação que me ficou foi a da intencionalidade de fazer ver à sociedade humana que a sua própria humanidade comporta variedade e indivíduos que muitas vezes se comportam como bichos, ignorantes do que afinal é (ou pode ser) o comportamento animal.
Seremos mais bichos e selvagens que os próprios animais, ou a nossa humanidade é apenas uma manifestação de comportamento selvagem e animal próprio de uma espécie que tenta sobreviver entre tantas outras, mesmo depois de supostamente ter dominado o planeta e todas as outras espécies?
Seja como for, vale a pena ler r conhecer estes “Bichos”.

sábado, 13 de abril de 2013

CONTEMPORANEIDADES - Um livro indiretamente ligado a este blogue


Esta é a primeira publicação aqui no blogue relacionada com poesia, mas não poderia deixar de assinalar aqui, no meu primeiro blogue, o lançamento do meu primeiro livro. Essa primeira obra individual não tem relação direta aqui com A Busca Pela Sabedoria, mas tem uma imensa relação indireta. 
O livro em causa é o resultado do trabalho de análise opinativa social, na forma de 15 telas e 30 poemas, da realidade contemporaneidade portuguesa. Pode-se dizer que os poemas são tomadas de posição, numa mesma estrutura rígida e em rima. As telas surgem de fundos negros e recorrem, sem preocupações de traço e fidedignidade nas proporções,  ao simbólico para fazer despertar a reação emotiva.
A Busca pelo livro aberto - Micael Sousa
Porque a busca pela sabedoria passa também pela experimentação, registo aqui a referência ao livro CONTEMPORANEIDADES, deixando um dos poemas e uma das telas do projeto para tentar fazer despertar a curiosidade. A sinopse e mais informação sobre o livro em causa pode ser visto aqui.

SABEDORIA INTERESSEIRA

Estuda para ganhares muito dinheiro! – Ordenou.
Cedo, ainda quando não podíamos entender,
Ensinaram-nos a ver no ensino o que sempre faltou
A este povo, que só agora pode aceder
Às oportunidades do saber. Quem atulhou
De ilusões este povo de humilde complexão,
Afastando-o de uma desinteresseira erudição?

A sabedoria é a maior das riquezas,
Com ela vamos além dos limites,
Preparamo-nos melhor para as incertezas,
Condicionamos os ignorantes tiques,
Encarando o mundo com uma cética firmeza.
Por vezes apenas serve para sabermos
O que verdadeiramente desconhecemos.

Mas o saber só por si não é sinónimo
De fortuna, dinheiro e sucesso.
É apenas um imaterial património
Que pode dar origem a um processo
Mais longo que qualquer matrimónio,
Mais fiel que qualquer compromisso,
Que alimenta o espírito insubmisso.

O saber pode fazer a fortuna, mas nada garante.
O saber é ferramenta que pode ajudar a ir avante.

domingo, 7 de abril de 2013

Um gole para ler os "Contos do Gin-Tonic"

Porque o surrealismo não é só uma expressão plástica, não é uma coisa só passado - mais concretamente, do início de século XX -, e porque também tivemos os nossos casos nacionais, hoje trago aqui um excerto de uma recomendação literária feita por um amigo. Quando me foi emprestado para ler achei estranho o título do livro em causa. Só depois percebi que era uma colectânea surrealista de poemas, prosas, descrições, diálogo e devaneios, sempre regados de um humor, por vezes, desconcertante. Na amalgama, que aparentemente parece composta sem nexo, há mensagens dissimuladas e outras mais ou menos evidentes. Não seria de esperar outra coisa, pois a obra nasce ainda durante a ditadura do Estado Novo. 
No entanto, a pesar de tudo, quando muito do que está escrito nos "Contos do Gin-Tonic" parece fazer pouco sentido, podemos especular se o autor teria ou não bebido uns copos a mais. 


Dois limões em férias - António Dacosta

Deixo aqui um curto excerto, somente para dar uma ideia e abrir o apetite, tal como fui aliciado quando me emprestaram o livro:

"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."


Bem... Digam lá que não sentem que precisam de um copo?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

sábado, 27 de outubro de 2012

Investir na Bolsa – A Ilusão da Superioridade Individual Perante o Mercado


Por vezes é, mesmo, preciso ler uma ideia escrita para depois essa mesma ideia, desconhecida e encoberta até então, se tornar evidente e clara. Um livro, como haverá muitos mais, onde se divulga um infindável rol de ideias é o “Pensar, Depressa e Devagar”, de Daniel Kahneman, psicólogo vencedor do prémio Nobel da Economia. A obra é um verdadeiro marco – grande em todos os sentidos, pois consta com mais de 500 páginas -, um compêndio de exemplos e explicações sobre economia comportamental, segundo a visão da psicologia social.

Os Amantes - Magritte
Uma das ideias fortes do livro, com vários estudos a demonstraram, defende que, em muitos casos, para situações de incerteza considerável, não há especialista e informação que valha: normalmente a sorte é quem desempenha o principal papel. Esta posição é polémica, mesmo entre a comunidade científica. No fundo, o autor tentar alertar para os constantes enviesamentos e erros de perceção na tomada de decisão, mesmo entre os mais sabedores e experientes, considerando que isso é próprio do modo como funciona o pensamento humano (ou cognições) - podendo ser dividido um conjunto de dois sistemas, um mais imediato e simples (mas potencialmente erróneo), e outro mais aprofundado e moroso (mas altamente consumidor de "energia").
O caso dos investimentos em bolsa é um dos exemplos trazidos pelo autor para demonstrar como, por vezes, os especialistas tomam decisões, supostamente sustentadas, mas com resultados completamente aleatórios, sem o admitirem (sem admitirem enviesamentos). O autor vai mais longe: acaba por, com as suas palavras, nos fazer refletir sobre a própria condição humana. Kahneman leva-nos a refletir e questionar sobre: o que leva os corretores e investidores, tendencialmente em pé de igualdade entre pares, a pensarem que sabem mais que os restantes negociadores em bolsa? Quando alguém vende assume que a ação irá descer, esperando que o comprador pense o contrário; e quem compra assume e segue pelo caminho exatamente oposto, esperando o contrário do vendedor. Entre amadores e curiosos que se aventuram na bolsa seria de esperar que façam erros de investimento, mas o mesmo não será  aceitável para especialistas, pelo menos em condições "normais". Podemos até lembrar um dos princípios da teoria económica clássica, de onde se conjetura que os mercados e os atores económicos são racionais nas suas escolhas – supostamente, é claro. Então não seria racional admitir que, estando nas mesmas condições - de um modo aproximado é claro -, os nossos semelhantes e concorrentes saberiam o mesmo que nós? Não seria essa posição, no mínimo, um sinal de humildade? Supostamente, a eficiência dos mercados levaria que a margem dos preços fosse mínima, pois quem vende falo-ia pelo valor justo e no sentido da compra o mesmo aconteceria. Mas, como comprova Kahneman, as decisões humanas, mesmo as económicos, são, por vezes, muito pouco racionais.
Na sua suposta arrogância intelectual, o filósofo Sócrates só poderia rir  enquanto, hipoteticamente, diria algo do género: só sei que nada seimas saberão eles que sabem muito menos do que pensam, sabendo todos o mesmo, e equilibrando-se enquanto grupo assim?
Sempre fomos condicionados pela nossa soberba, pelos mercados e pelas decisões, e parece que iremos continuar a ser, com ilusões de sabedoria altamente enviesadas. Os resultados estão à mostra, ou talvez não, pois estas palavras podem ser apenas ser mais um enviesamento de perceção e análise.

Referências bibliográficas:
Kahneman, Daniel. "Pensar, Depressa e Devagar". Temas e Debates, 2011.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Enciclopédia - O Monumento do Iluminismo

A praticamente todas as épocas históricas conseguimos, direta ou indiretamente, associar monumentos, construções humanas ou obras de arte incontornáveis. Algumas dessas criações quase as definem e servem de ícones e marcas desses momentos históricos.
O Iluminismo foi marcante para a sociedade ocidental, e até para o mundo que se foi encurtando e aproximando nos séculos seguintes (especialmente depois da industrialização e do colonialismo). Dessa importante época história o principal monumento, na aceção do termo e sua relação com objeto ou coisa que serviu e serve para recordar na memória coletiva (Choay, 2010), não foi um edifício, conjunto urbano, obra de arte plástica ou afins. O principal, e mais importante, monumento que nos legou o Iluminismo foi a Enciclopédia (Schwanitz, 2012). Ou seja, um objeto. Não de arte, mas de saber!
Experiência de Um Pássaro Numa Bomba de Ar - Joseph Wright of Derby
Nessa época de transição, e que levou em muitos sítios, mas especialmente em França, à revolução, esse livro foi incontornável. Aliás, nesse mesmo e noutros formatos, ainda continua a ser – veja-se a importância das enciclopédias online. Consciente, ou inconscientemente, a Enciclopédia pretendia deter todo o conhecimento da humanidade, de um modo ordenado e de fácil consulta. Seria a “bíblia da ciência” – paradoxos à parte -, acessível e universalista. Para certos autores e pensadores (Schwanitz, 2012) a Enciclopédia tinha, para além disso, como objetivo substituir a própria Bíblia: substituir o obscurantismo da religião de então pela nova ciência, pelo positivismo do novo empirismo que ajudava a desvendar os mistérios do mundo. Vontades de substituição da religião pela ciência à parte, isso não significava, nem de perto nem de longe, que os iluministas fossem ateus. Poucos, ou quase nenhuns, o eram de facto. De um modo geral, não negavam Deus, até porque precisavam de uma entidade para explicar o início e a ordem do universo, a razão de todas as regras e leis que comprovavam e registavam. Os iluministas eram, tendencialmente, deístas (visão de Deus como arquiteto/planeador das regras do universo, mas não como agente interventivo e presente num mundo que se foi desenvolvendo pelas suas próprias regras) em oposição a posição tradicional teísta (Deus como ser que criou e intervém constantemente no universo) da religião instituída.
Hoje, esse grande monumento do Iluminismo persiste. Ficou a herança de ordenar e catalogar o conhecimento. Não se substituiu a bíblia, por várias razões que nem dependem da qualidade enciclopédias que se foram criando. Muito pelo contrário, até parece que a enciclopédia ajudou a criar mais bíblias, pois contribuiu para o banalizar do nome, tornando-o um adjetivo. Nos nossos dias existem enciclopédias e bíblias de tudo e mais alguma coisa, num especificar cada vez maior do conhecimento, sendo o termo “bíblia” aplicado para um livro importante de uma determinada área do saber – há bíblias para tudo e todos os temas, no sentido de ser um livro “quase sagrado”, de tão importante que pode ser no tema em causa.
Para além do contributo científico e cultural que foi a enciclopédia, e para além do universalismo do conhecimento que permitiu, ela demonstrou que não existem livros infalíveis – ou não tivessem as enciclopédias e bíblias erros como todos os outros livros e escritos por mão humana.

Referências Bibliográficas
  • Choay, Françoise. “Alegoria do Património”. Edições 70. Lisboa, 2010.
  • Schwanitz, Dietrich. “Cultura – Tudo o Que é Preciso Saber”. Dom Quixote. Lisboa, 2012.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Introdução à História – Uma obra sem ponto final de Marc Bloch

Este último ano teve, sem dúvida, uma leitura que me marcou. Não se trata de ficção, romance ou conto. O título do livro diz tudo: “Introdução à História”. Com um nome tão direto e quase cru, direcionado para um área tão específica do saber, o mais provável é não despertar um interesse generalizado, e até parecer estranho ser aqui referida. Este título, quase quadrado, esconde um conteúdo único muito eclético. O próprio livro e o autor têm uma história para além da história, da história que pretendem querer introduzir. Esta obra de Marc Bloch - importante historiador medieval do século XX – tem a sua própria história, escrita num dos períodos mais negros da história do século XX. Nesse labor, do conhecido historiador, é dado o passo para uma “nova história”, termo que a própria história registará como nova abordagem ao estudo e análise da própria história enquanto ciência.
Marc Bloch - David Levine
Fonte
Marc Bloch, neste, como em mais escritos da sua autoria, e em consonância com outros companheiros historiadores do seu tempo que seguiam a mesma tendência, quis mudar o modo como se contava, registava e fazia história – a historiografia não seria mais a mesma. Queria que a história deixasse de abordar e tratar apenas os grandes feitos, os grandes líderes, as grandes coisas. Queria que a história passasse a estudar toda a sociedade, também os pequenos feitos, os indivíduos comuns, a sociedade no seu todo, algo que nos fizesse aproximar mais do passado, com uma visão apropriada ao Homem real. Bloch queria que na história passasse a constar o todo, e não o particular que alguém decidiu destacar no passado, por razões várias. Bloch defendia que a história devia ser mais um exercício de reflexão e criação que propriamente de acumulação acrítica de conhecimento passado. Esta nova forma de ver o passado foi revolucionária para a História, e tem hoje claras influências na sociedade contemporânea. Emancipou o Homem na história, e permitiu que o estudo da história fosse dinâmico e passível de novas construções para o presente e futuro. Fez com que a história se relacionasse com as outras ciências de um modo pluridisciplinar e fosse uma das bases de planeamento para o futuro.
Introdução a História” é uma obra inacabada, Marc Bloch nunca a terminou… Não lhe permitiram dar o ponto final no seu magistral trabalho. Muito mais haveria para escrever, tal como o próprio autor planeara. Marc Bloch foi fuzilado em 1944. Bloch era judeu, tinha sido soldado na primeira Guerra Mundial, e quando a França fora ocupada pelos Nazis abandonou o mundo académico e alistou-se na Resistência Francesa. Durante a Guerra foi capturado, torturado pela Gestapo, e executado por ordens de Klaus Barbie, o conhecido oficial das SS e da dirigente da Gestapo.
Da obra inacabada surgiu a oportunidade de fazer jus ao autor e continuar o seu trabalho. Muitos historiadores o fizeram, muitos continuaram a fazer história, abraçando-a como “nova”. Por ironia do acaso, e do papel que o próprio Marc Bloch deixou na história, hoje temos todos ao nosso dispor uma obra inacabada para continuar a escrever a nossa história.
Nota: este texto foi criado propositadamente para o blogue "7 Autores", a convite de Silvia Alves, mas como a temática se enquadra âmbito deste espaços, decido publica-lo aqui também.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Estupidez Humana – Um Ensaio de Cipolla


Lidamos diariamente com a estupidez, pelo menos não temos qualquer problema em, na mais ingénua e despreocupada das análises, classificar e adjetivar comportamentos e ações como sendo estúpidas. Ao enveredarmos por esses ajuizamentos podemos cair, paradoxalmente (ou não), na estupidez. Por mais simples que possa parecer, distinguir entre a estupidez e não estupidez nem sempre é fácil. Pois, nem sempre temos todos os dados, todas as informações e todo o discernimento para tais aventuras cognitivas. As nossas limitações e enviesamentos são muitos, com o pensamento imediato – útil mas por vezes estúpido – a ganhar a melhor perante o sistemático e aprofundado (1) – tendencialmente mais preguiçoso.
Ego - De Chirico
Por tudo isso, e por muito mais, o curioso ensaio de Carlo M. Cipolla intitulado de “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana” ganha um particular interesse. Essa obra, tendencialmente bem-humorada, sarcástica, irónica, caustica e crítica tenta simplificar e sistematizar, de um ponto de vista utilitarista, a estupidez humana. Assim, é quase um escrito de intervenção social, conceptual.
Cipolla defende que a estupidez humana é uma caraterística universal, que afeta todos os grupos humanos de igual modo e em igual proporção. O autor dividiu a humanidade, principalmente segundo as ações de influência económico-sociais (privilegiando os efeitos das relações entre indivíduos), em: Ingénuos; Inteligentes; Bandidos; e Estúpidos. Essa divisão é feita através de uma análise custo-benefício, um excelente princípio e ferramenta para quantificar caraterísticas difíceis de quantificar e avaliar.
Passo apenas a citar então, tento em conta as quatro divisões anteriores, a definição que Cipolla dá aos estúpidos (2): “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso". Segundo esses mesmos princípios, então os Ingénuos seriam os se prejudicam a si próprios mas trazem ganhos aos outros (2). Os Inteligentes seriam os que trazem ganhos a si e aos outros (2). Por fim, os Bandidos traziam ganhos próprios à custa de prejuízos para os demais (2).
As quatro categorias, aplicando-as a um gráfico de dupla escala ortonormado cartesiano (com um eixo a representar os ganhos próprios e o outro os custos ou danos), definem quatro quadrantes. Assim, de um modo muito simples – talvez até demasiado simples, mas mais que adequado pois trata-se de um ensaio tendencialmente humorístico, não científico e exaustivo -, recorrendo a geometria básica, catalogam-se os comportamentos da humanidade, e seus efeitos. Esta construção e ordenação seria de extrema utilidade caso a estupidez se conseguisse evitar, pois, tal como a define o autor, ser estúpido resulta, de um modo absoluto, na introdução de perdas na Humanidade, vista como um sistema económico-social onde se podem considerar as várias facetas da humanidade. 
O livro “Allegro ma non troppo” contém ainda um divertido ensaio sobre a história da Europa, tendo o gosto, consumo e busca pela pimenta como força motriz dos principais acontecimentos. Mas é na segunda parte, no ensaio sobre a estupidez que a obra ganha uma outra vertente. Não se podendo obrigar ninguém a ler ou a apreciar as letras – e ainda bem -, pelo menos pode-se sugerir. Desse modo, recomendo fortemente a leitura deste livro, especialmente porque estes pequenos excertos de “As leis fundamentais da estupidez humana” são apenas partes de um texto muito mais divertido e rico. Estupido será, podendo, não ler… Pois, é imensa a nossa capacidade para ignorar a nossa ignorância (1), ou estupidez… Neste caso (2), ignorar a estupidez, pode ser extremamente danoso, especialmente para os outros!

Referências Bibliográficas
1 –Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012
2 – Cipolla, Carlo M. “Allegro ma non troppo – seguido de as leis fundamentais da estupidez humana”. Edições Textografia, 2008.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Guerra dos Tronos - Fantasia Medieval para Adultos

A Guerra dos Tronos” ou “ O Jogo dos Tronos” – na tradução direta do inglês – é uma das mais cotadas séries televisivas da atualidade (ver no IMDB). Os 10 livros que compõem as “As crónicas do Gelo e do Fogo” foram adaptadas para televisão pela HBO e o resultado foi, no mínimo, positivo e original. Depois do sucesso de “Roma”  (ver no IMDB) esta é mais uma grande série épica. No entanto, essa anterior grande realização seja, em alguns aspetos, substancialmente diferente: "Roma" baseiam-se em História factual, produzida com especial atenção ao rigor histórico, ainda que seja uma adaptação romanceada, podendo ser quase vista como um documentário (ou não tivesse o envolvimento também da BBC).
Mas a “A Guerra dos Tronos” é uma ficção. George. R. R. Martin, o autor, admite a influência de clássicos da literatura associada ao “fantástico medieval”, especialmente da monumental obra que é “O Senhor dos Anéis”. Apesar de não ser uma obra Histórica, o universo fantástico medieval criado por Martin para a sua grande história revela sólidos conhecimentos do passado factual. São muito evidentes na terra de Westeros – área geográfica, tipo continente, onde se passa a maior parte da história - as influências da Europa Medieval: das relações feudais, da monarquia absoluta, as lides da guerra, da política e tramas palacianas, dos códigos de cavalaria e comportamentos de classe, do campesinato e suas ligações à terra, etc. São também notórias as inspirações bebidas diretamente da mitologia nórdica e germânica, entre muitas outras, no mundo fantasioso de “A Guerra dos Tronos”. George. R. R. Martin conseguiu criar uma fantasia encorpada por um enredo elaborado – aliás, muito elaborado – de relações entre personagens, bem trabalhadas, e uma política altamente complexa, que se concretiza no desenrolar da história e se vai aprofundando com o emaranhado da intriga e as correrias de uma infindável panóplia de personagens.
O autor criou uma “fantasia medievalescapara adultos, evitando alguns lugares comuns e um Excessivo apego a uma personagem principal (ou grupo restrito) que normalmente costuma assumir o papel de herói (ou heróis), até porque nesta série eu diria que, tal como na vida real, não existem heróis, pelo menos pelos padrões habituais no género. Em “A Guerra dos Tronos” as personagem são humanas, acima de tudo. Mesmo aquelas que mais poderiam tender para o modelo heroico são retratadas com defeitos, e o tratamento de supremacia não é absoluto e linear, e muitas vezes fica muito longe de ser justo. Martin cria um mundo ficcional fantástico realista, muito pouco habitual para o género, e até para qualquer criação televisiva ou cinematográfica de géneros ditos mais correntes. As personagens vão-se moldando com o desenrolar dos acontecimentos, vão demonstrando o seu carácter, vão ficando mais complexas. Muitas vão morrendo, muitas são injustiçadas, algumas criam percursos de sucesso e afirmação, mas a tragédia é o pano fundo. As alterações podem ser repentinas. Por vezes, enquanto espectadores ou leitores, não estamos preparados para as mudanças, e menos ainda para as mortes.
Um especto muito importante da série é a fidedignidade dos diálogos e da série para com a história contida nos livros. Isso tem sido garantido pelo envolvimento na escrita dos guiões, produção e realização do Próprio George R. R. Martin.
Pessoalmente – como já se notou - sou um apreciador deste tipo de criações, mas a popularidade de “A Guerra dos Tronos” é tão grande e incontornável que merece ser analisada. Tal só pode significar qualidade, com ose explicaria, que mesmo aquelas e aqueles que não seja particularmente apreciadores do género fiquem rendidos a esta magistral obra, quer seja em livro ou em série televisiva?
Também existe uma versão de “A Guerra dos Tronos” em formato de jogo de tabuleiro. Aliás existem duas, com a 2ª edição a conseguir ascender aos melhores jogos do género, segundo os aficionados desse tipo de jogos. Por outro lado, a versão realizada para jogos computador no género estratégia (versão génesis), segundo as críticas, não faz jus à obra original, chegando mesmo a ser medíocre. Aí, provavelmente o autor não se preocupou, ou foi chamado, a guiar a adaptação tal como o fez na série televisiva.
Em jeito de resumo, “A Guerra dos Tronos” é já uma das mais importantes e incontornáveis obras televisivas deste novo milénio.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

As adaptações dos rituais cristãos – A adaptação de toda a construção humana


Poucas construções humanas são imutáveis, ainda mais aquelas que não têm a substância da ocupação de um espaço físico. Se mesmo um edifício, monumento ou construção física, com o passar dos anos, se vai degradando, rearranjado, reabilitando, mudando os usos e os fins, e até ficando completamente transfigurado, que dizer de todas as construções humanas não físicas que ainda estão mais sujeitas às mudanças culturais, sociais, psicologias e outras mais influências metafísicas?
O Sacrifício de Isaac - Caravaggio
Tal inevitabilidade pode ser vista como progresso ou degeneração. Tais mudanças, e desenvolvimentos divergentes perante as próprias origens, em movimentos originais ou de fusão e influência do já existente, são bem evidentes nas religiões. Pensando no caso do cristianismo existe nessa mesma religião ambos os exemplos. Se o cristianismo foi revolucionário no seu universalismo, na igualdade doutrinária que se associa à igualdade de todos os homens perante Deus, já no que toca aos ritos e rituais foi muito pouco original.  Segundo David Nicholas, importante historiador norte-americano, na obra “A Evolução do Mundo Medieval”, o cristianismo pediu emprestado a outras religiões muitos dos seus rituais. Por exemplo: os cristãos começaram a celebrar o nascimento de Jesus por volta do Festival de Saturno; A Páscoa Cristã era calculada segundo o equinócio da Primavera, associada ao Festival do Sol, mas também acontecia em simultâneo com a Páscoa Judaica; A forma da cerimónia do batismo foi retirada do culto de Mitra (que fora batizado com sangue de touro); Mesmo o conceito polémico da transubstanciação tem semelhanças com outros cultos religiosos. Para além destas, muitas mais influências exteriores teve, quer no clero, quer na arquitetura religiosa, quer em muitos outros aspetos.
O autor diz ainda que muitos dos rituais foram deliberadamente adotados para que os romanos, e os povos que viviam no seio do seu império, não os achassem tão estranhos. Ter só um deus era estranho, não o representar mais estranho era, e não ter rituais era simplesmente incompreensível para a mentalidade religiosa da época. 
Ainda hoje várias religiões usam de técnicas várias para cativar novos crentes e se inserirem em comunidades que lhes podem ser estranhas. Algumas, como por exemplo os pregadores do cristianismo mais evangélico, cuidam muito do seu aspeto quando se apresentam junto das populações. O seu aspeto, linguagem e abordagem é pensada e trabalhada para causar o máximo de simpatia – isto sem qualquer juízo de valor sobre a sinceridade de tais condutas. Tal opção não é de estranhar, até porque noutras atividades, especialmente nas mais comerciais, a opção é mais ou menos a mesma: a marca, a personalidade, a ideia, o valor, o conceito adapta-se, quase sempre, ao meio
Depois há sempre quem queira, apesar de tudo, voltar às origens, mesmo que as origens sejam pouco ou nada originais, ou de tal modo diferentes do atual contemporâneo que ficariam irreconhecíveis ou outra coisa completamente diferente e contrária aos próprios princípios pelos quais encetaram tal demanda.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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