quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As grandes mentiras da História e o afundamento do Lusitânia: um documentário de Luc David

Começou a ser exibido no canal Odisseia uma nova serie de documentários dedicados a algumas das grandes mentiras da história. No primeiro episódio, do documentário "As maiores mentiras da história" de Luc David, aborda-se o tema do afundamento do barco transatlântico “Lusitânia”, que foi torpedeado e afundado em 1915 por um submarino U-Boat alemão – embora para os alemães se devesse designar U-Boot. 

Desenho artístico representativo do afundamento do Lusitânia - autor desconhecido
Fonte: https://www.express.co.uk/news/world-war-1/566316/RMS-Lusitania-single-torpedo-sinking

Este poderá ter sido um exemplo de fabricação de noticias falsas na imprensa por ação do governo britânico. Em 1915 o Império Britânico estava em guerra com o Império Alemão. Decorria a primeira Guerra Mundial. Os alemães usavam a sua novíssima, os U-Boats, submarinos que permitiam, pela primeira vez, fazerem intervenções de longa distância. A Royal Navy - a marinha inglesa - não tinha qualquer arma que pudesse combater eficazmente esta ameaça alemã. Por isso os U-Boat faziam com alguma eficácia constantes afundamentos de barcos, incluindo barcos de mercadorias que abasteciam as ilhas britânicas. Embora nessa época os britânicos conseguissem produzir mais barcos do que os que eram afundados pelos alemães.

Em 1915 o “Lusitânia”, o maior e mais rápido transatlântico da época foi alvo de um ataque. Os relatos oficiais britânicos dão conta de ter sido alvo de dois torpedos. No entanto os registos alemães referem apenas um. Tudo indica, fazendo fé no material que o documentário expõe, que apenas terá sido efetivamente disparado um torpedo, mas que uma segunda explosão se tenha devido a uma reação em cadeia, uma vez que o navio transportava ocultamente munições de artilharia e outros equipamentos militares a bordo, carregados em Nova York. De notar que os abastecimentos que chegavam de barco desde os E.U.A. eram essenciais para o esforço de guerra britânico. Era importante que o governo britânico terá ocultasse este transporte, nunca tendo sido assumido. O incidente foi utilizado pela propaganda britânica para fomentar o ódio aos alemães, e para tentar trazer os E.U.A. para a guerra, uma vez que morreram mais de uma centena de norte americanos nesse afundamento. Os britânicos tentaram passar a mensagem de que os alemães eram maléficos, desumanos e que não poupavam sequer os civis inocentes. Se fosse descoberto que o navio transportava uma carga militar oculta o próprio governo inglês sofreria consequências políticas.

Consta que o barco se terá afundado em apenas alguns minutos, algo pouco provável para ser um barco daquela envergadura, com mais de 200 metros de comprimento, sob o efeito de dois torpedos apenas. Há que relembrar que a tecnologia de guerra submarina era bastante arcaica, e que os torpedos nem sempre eram eficazes. Uma explosão interna de um volume considerável de munições ajuda a explicar esse rápido afundamento. No diário de bordo do comandante do U-Boat alemão refere-se que perante o drama humano decidiram ir embora sem disparar mais torpedos. Costa também que o comandante do U-boat teria indicações de que o barco era um alvo militar válido na sua base de dados, uma vez que estava identificado como um dos barcos que poderia ser requisitado pela marinha militar para adaptação durante o período de guerra. 

O documentário expõe muitos outros pormenores, pretensas provas e evidências que suportam esta teoria. Segundo essas fontes, em torno do afundamento do Lusitânia terá sido criada uma noticia falsa – uma fake news –muito conveniente para a propaganda britânica e do próprio almirantado, liderado por Winston Churchill nessa altura. Ou seja, as noticias falsas têm servido fins políticos há muito tempo, e se analisarmos mais para trás na cronologia histórica seguramente encontraremos mais casos disso.

Referência:
David, Luc (2017). History´s greats lies. [filme].

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Das Saturnálias ao culto do Sol e o nascimento de Cristo: a origem do Natal

O festival familiar da Saturnalia, ou saturnálias, era provavelmente o festival mais importante do final do ano, tanto para as famílias romanas, mas especialmente para os escravos. Nas Saturnalias os papeis invertiam-se entre senhores e escravos, e havia uma liberdade generalizada para cometer todo o tipo de atos que não seriam permitidos durante os restantes dias do ano, algo semelhante ao carnaval. Pelos registos que nos chegaram, as festividades começariam, segundo nosso calendário atual, a 17 de dezembro e duravam entre 3 e 7 dias, dependendo do período histórico. Deveria ser feito um sacrifício a Saturno, quer para os romanos estava associado à agricultura e a vida feliz. Faziam-se um grande festim, com refeições onde a inversão dos papeis e hierarquia social se dava de modo formal ou informal. Em algumas famílias, depois dessa refeição, dava-se uma troca de presentes, seguindo-se jogos, discussões literárias e bebidas desregradas (Dolansky, 2010). Podemos encontrar semelhanças entre as celebrações das saturnalias e as atuais festividades de Natal.

Saturnalia - Antoine Callet
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saturnalia_by_Antoine_Callet.jpg

Igualmente importante na influência das festividades cristãs foram os diversos cultos do Sol, sistematizados como culto imperial numa altura em que se exigia unidade política. Este culto imperial, personalizado na figura do imperador, do Invictus Dominus Imperii Romani, instituiu-se em 274. d.C. As associações de Cristo, e de todas as figuras da nova religião, aos cultos solares são evidentes em várias fontes. O estabelecimento do que seriam as festividades do natal cristão deve ter ocorrido entre 243 e 336 d.C., coincidindo com os cultos do sol, assumidos pelo regime imperial e comuns a vários cultos mais antigos fortemente estabelecidos nas provinciais imperiais romanas. O dia de nascimento de cristo terá sido assumido, por conveniência, no dia 25 de dezembro em 350 d.C.. Essa data ficaria a vigorar no ocidente e atribui-se ao Papa Júlio I (Roll, 1995). 

Assim, como tantas outras festividades e tradições, o Natal, que hoje também se afasta dos cultos cristãos primordiais, resulta de uma construção social ao longo da história. Por isso, não é de estranhar que as festividades continuem a evoluir pelas múltiplas influências sociais e conveniências que vão surgindo.

Referências bibliográficas:
Dolansky, F. (2010). Celebrating the Saturnalia: religious ritual and Roman domestic life. A companion to families in the Greek and Roman worlds, 488-503.
Roll, S. K. (1995). Toward the origins of Christmas (Vol. 5). Peeters Publishers.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Quando o Urbanismo de Haussman dificultou as manifestações e revoluções

Haussman, o Barão, foi perfeito de Paris no reinado de Napoleão III que instituiu o segundo império. Liderou a gestão da cidade de Paris entre 1853 e 1870, implementando um programa que pretendia estabilizar mas igualmente modernizar a cidade, seguindo os duplos impulsos do novo imperador. Odiado por muitos na época, mas sem a visão deste homem Paris hoje seria algo muito diferente. Transformou a cidade, à custa de um elevado grau de destruição urbana. Do tecido medieval de Paris pouco ficou. Abriram-se grandes avenidas, espaços públicos e a cidade ficou mais fluida e arejada. Na época vigorava a necessidade de normas de higienização e sanitárias, uma vez que as grandes metrópoles, e principalmente Paris, eram focos de doenças e insalubridade, tal como infindáveis problemas sociais. Com essa intervenção, mas também por ser a capital de um dos mais poderosos estados europeus, Paris foi a cidade dominante a nível mundial durante todo o final do século XIX.

Lamartine, em frente à câmara municipal de Paris, recusa a bandeira vermelha, em 1848 - Félix Philippoteaux

Ainda hoje Haussman é criticado pelos defensores do património urbano por ter destruído a morfologia medieval urbana de Paris, no entanto consta não ter destruído qualquer monumento relevante, ajustando os traçados ao edificado histórico mais importante. Obviamente que não poupou as construções vernáculas e populares. Ficamos ainda hoje com essa dupla sensação de amor ódio, de apreciarmos hoje a Paris de Haussman, com os seus novos prédios de época, mas com pena de não desfrutarmos do que seria uma das maiores cidades medievais de sempre. Ainda podemos encontrar alguns traços da estrutura urbana medieval, especialmente na zona do Quartier Latin, perto das zonas urbanas ocupadas pela antiga universidade. No entanto, mesmo essa parte da cidade, foi sendo modernizada.

Mas tudo isto para falar da dimensão política do desenho e funcionalismo urbano. Haussman viveu numa época de grande instabilidade política, em que Paris era recorrentemente o foco de manifestações, golpes e revoluções. Aliás, ele só chega ao comando de Paris pela ação revolucionário de Napoleão III. Diz-se que o plano de renovação urbana de Haussman tinha também outra intenção, de abrir os arruamentos para impedir as barricadas e apoio urbano aos revoltosos. Com facilidade de movimentos nas grandes artérias as tropas do regime podiam facilmente intervir, e seria muito mais dificil criar zonas defensivas ou condicionar a circulação urbana pelo revoltosos. Não podemos afirmar isso com certeza, embora possamos ler isso nas entrelinhas dos planos e das soluções práticas. O certo é que as revoluções em Paris deixaram de ocorrer da mesma forma desde então.

O modelo de urbanismo de Haussman generalizou-se por muitas outras cidades, seguindo-se múltiplos ímpetos que tentaram higienizar e desafogar os tecidos urbanos, dando continuidade a alguns projetos de urbanismo do período do absolutismo, em que monarcas quiseram deixar a sua marca urbana através da monumentalidade dos edifícios públicos, praças e avenidas.

As novas intervenções inspiradas na gestão de Haussman vieram forçar a pensar na cidade como um todo. Não foi por isso que se deixaram de fazer manifestações e revoluções, mas passou a exigir-se outra escala. Por isso, curiosamente, até me arrisco a dizer que Haussman criou as condições para que os movimentos sociais tivessem mais impacto nas cidades, pois aumentou-lhes a fasquia. Dificilmente alguém planearia algo pequeno depois.


Algumas referências bibliográficas de apoio:
Chueca Goitia, F. (1985). Breve historia del urbanismo (No. 307.7672 C4).
Delfante, C., & Feio, L. M. C. (2000). A grande história da cidade: da Mesopotânia aos Estados Unidos.
Mumford, L. (1998). A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas (p. 67). São Paulo: Martins Fontes.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Das mulheres para as trincheiras: a utilização do relógio de pulso

O relógio de pulso é uma invenção relativamente recente.  Se o relógio mecânico terá surgido por volta do século XIV, a invenção do relógio de pulso terá surgido apenas na última metade do século XIX, e terá sido, nessa época, primeiro um adereço prático de mulheres, que assumia também forma de joia ou então algo mais prático com as pulseiras de couro. Nessa época os homens usavam, maioritariamente, relógios de bolso, com as típicas correntes ornamentais fora dos coletes. 

Mulher sentada com relógio - Picasso
fonte da imagem: https://www.flickr.com/photos/136930126@N05/22168444116

Foi no início do século XX, com a necessidade de ter um modo de consultar as horas de forma mais prática que o relógio de pulso ganhou dominância. Foi especialmente na I Guerra Mundial que o uso se generalizou entre os homens, dada a necessidade de ter um meio prático de coordenar as operações militares, numa guerra em massa e acelerada pela escala e novas tecnologias. 

Consta que os pilotos também aderiram a esta solução, uma vez que lhe libertava as mãos para operar veículos, aviões e etc. 

Curiosamente, hoje me dia voltamos a andar com os relógios no bolso, na forma de smartphones. O uso de relógio de pulso tende a ser uma opção decorativa para homens e mulheres dos nossos tempos. 

Referências bibliográficas:
Doensen, P. (1994). WATCH: History of the modern wrist watch. Jan van Scorelstraat, 80(3583), 174.
Stephens, Carlene; Dillon,Amanda; Dennis, Margaret (1997). Revolution on Your Wrist. National Museum of American History. Disponível em: http://amhistory.si.edu/docs/Dennis_Stephens_Dillon_%20Revolution_on_Wrist_1997.pdf



terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Quando a família não chega para impedir uma guerra mundial

A Primeira Guerra Mundial trouxe muitas novidades, das mais horríveis militarmente até então. Morreram milhões de soldados e civis. Os efeitos foram muito além disso, geradores de crises mundiais e de posteriores conflitos ainda mais catastróficos. 

9 soberanos no funeral de Eduardo VII - 1910 em Londres
Jorge V sentado ao meio e Guilherme II de pé atrás. Manuel II de Portugal à esquerda de Guilherme.
Fonte da imagem: https://rarehistoricalphotos.com/nine-kings-one-photo/

Um dos aspetos caricatos, no meio de tantos episódios terríveis, passou-se ao nível familiar. Guilherme II, Kaiser alemão, e Jorge V, rei de Inglaterra, eram primos direitos. A rainha vitória, que dominou a coroa inglesa durante grande parte do século XIX, casou os seus filhos com as principais casas reais europeias, sendo a mãe de Guilherme irmã do pai de Jorge, e ambos netos da famosa rainha inglesa. Mas a grande diferença de idade entre ambos não terá ajudado ao relacionamento entre primos, pois havia o hábito do convívio familiar regular, incluindo também férias e festividades, apesar de serem famílias que  representavam nações distintas e das comunicações serem difíceis. Consta, no entnto, que Guilherme não apreciava particularmente a sua família não alemã. Já Nicolau II, Czar da Rússia, era também primo direito de Jorge V de Inglaterra, pois suas mães eram irmãs. Estes primos, provavelmente pela proximidade de idade, privaram bastante. Consta que Nicolau tinha um inglês e era muito conhecedor da cultura britânica. 

Jorge V e Nicolau II - 1913 em Berlin
Fonte: https://rarehistoricalphotos.com/king-george-tsar-nicholas-1913/

Estes relacionamentos familiares não eram fruto do acaso, aconteciam devido ao sistema tradicional de alianças na Europa. Mas, em 1914, estas relações familiares não foram suficientes para evitar a guerra, especialmente as fortes ligações as casas reais Inglesas e Alemãs, lideradas na altura por Jorge e Guilherme, respetivamente. Consta que até poderão ter incentivado o conflito. Guilherme teria desde a infância um mau relacionamento com a sua mãe inglesa. Jorge e Nicolau, que passavam férias em família na Dinamarca com o avó Cristiano IX, eram influenciados por um odio dos Dinamarqueses aos seus vizinhos Alemães pela anexação de Schleswig-Holstein em 1868. Estes são apenas alguns exemplos do cruzamento da vida familiar com a geopolítica da época.

A Primeira Guerra Mundial foi a primeira Guerra moderna por várias razões. Pelas estratégias, táticas, armas, logística e escala do conflito, mas também pelo fim das tradicionais relações diplomáticas internacionais associadas aos conflitos.

Referências bibliográficas de apoio:
Carter, M. (2009). The three emperors: three cousins, three empires and the road to World War One. Penguin UK.
Keegan, J. (2014). The first world war. Random House.
Willmott, H. P., & Willmott, H. P. (2003). World War I. New York: Dorling Kindersley.

domingo, 18 de novembro de 2018

A importância das árvores em meio urbano

Quando pensamos em árvores tendemos a idealizar florestas. Mas as árvores podem e devem existir nos meios urbanos. São essenciais para a qualidade de vida nas cidades, pois desempenham inúmeras funções.

As cidades devem ter espaços verdes suficientes para garantir um equilíbrio ecológico, desde o grande jardim urbano até ao pequeno jardim de proximidade. Todos eles são necessários, mas não será apenas nos jardins que as árvores são importantes para as cidades.

Avenida de Montmartre numa manhã de inverno - Camille Pissarro
Fonte: https://www.metmuseum.org

Os espaços públicos de circulação, acessibilidade e fruição necessitam de árvores. São muito importantes como elementos de ruas, praças e avenidas. A conjugação com o edificado, arruamentos e espaços públicos é de extrema importância. Garantem a regularização e equilíbrio dos microclimas urbanos, aumentando a humidade relativa atmosférica, contribuindo para o abaixamento das temperaturas no verão e favorecendo a circulação atmosférica. Produzem oxigénio, sendo um sumidouro natural das emissões de dióxido de carbono. Retêm poeiras e outros poluentes, quase sempre associados ao intenso tráfego automóvel. De um ponto de vista mais físico, são ótimas sombras naturais e barreiras de proteção contra o ruido, especialmente como isolamento entre o ruido dos veículos automóveis e o sucesso que se deseja no interior do edificado. As árvores servem também de abrigo para alguma fauna local, aves e outros animais que se adaptaram à vida citadina. Por fim, o contacto com a natureza, especialmente em meio urbano, e mesmo que seja apenas pela proximidade de algumas árvores, é de máxima importância para a qualidade de vida de quem habita esses espaços.

Do ponto de vista da estética e funcionalidade urbana, importa referir que as árvores podem ser elementos de ordenamento dos espaços, separações, definição de alinhamentos e de sinalização à escala humana. Esteticamente podem valorizar um espaço ou até o próprio edificado.
Por tudo isto importa planear e gerir o património vegetal em meio urbano, porque precisamos das árvores e porque os espaços no centro das cidades são muito cobiçados. Ter florestas nas imediações das cidades não é suficiente. Uma cidade sem árvores é ineficiente, mais desagradável. A ausência de árvores torna as cidades ainda mais artificiais e estranhas à natureza humana, que nelas vê tesouros pelos quais vale a pena lutar.

Precisamos então de arborizar as nossas cidades, mas de forma planeada e ordenada. Optar por qualquer tipo de árvore, em qualquer local totalmente é desaconselhável. Algumas árvores não se adaptam ao meio urbano. Outras criam problemas de limpeza e crescimento conflituante com as infraestruturas urbanas. Certas árvores podem ter frutos venenosos, ramagem e espinhos perigosos, impróprios para uma proximidade com os peões. A própria manutenção deve ser feita por especialistas, pois as podas desadequadas podem matar em pouco tempo árvores vigorosas.

Assim, coloca e defender as arvores na cidade não é uma mero capricho, nem sequer uma demanda de ambientalistas radicais. Trata-se de uma necessidade e de elementos essenciais do urbanismo sustentável. Se somos nós que fazemos as cidades, então podemos fazê-las com árvores adequadas para a melhoria da qualidade de vida urbana. 

Nota: Este texto foi parcialmente publicado na coluna de opinião quinzenal de Micael Sousa no Diário de Leiria.

Referências bibliográficas:
Brandão, Pedro (coord.) (2002). O Chão da cidade: guia de avaliação do design de espaço público. Lisboa: Centro Português de Design.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Diorama sobre urbanismo sustentável com peças de jogos de tabuleiro modernos

A origem dos dioramas remonta ao seculo XIX e às experiências de Daguerre – um pioneiro da fotografia. Desde então, os dioramas popularizaram-se como formas de representar fisicamente e tridimensionalmente cenas várias, quer sejam artísticas quer não. O objetivo relaciona-se com a necessidade de criar uma exposição de instrução ou diversão. Estes dioramas tendem a ser modelos de menor escala da realidade que pretendem representar e simular. Os museus, desde o início do século XX, usam recorrentemente estas técnicas expositivas de pequena escala para descrever eventos historicamente relevantes, alguns altamente detalhados e que ajudam a compreender eventos como batalhas ou cenas da vida quotidiana (Kamcke C. & Hutterer R., 2015). Hoje em dia alguns destes dioramas têm sido substituídos por criações digitais, no entanto, ainda não são obsoletos em certas situações.

Diorama sobre urbanismo Sustentável - foto do autor

Partindo da ideia do potencial dos dioramas surgiu-me a ideia para um novo projeto. Os jogos de tabuleiro modernos têm componentes cada vez mais originais e personalizados, alguns bem realistas por sinal. Então, tendo em conta todas imensas possibilidades que tinha à minha disposição, por ter uma ludoteca que neste momento ultrapassa as duas centenas de títulos diferentes, comecei a criar dioramas com peças de jogos de tabuleiro modernos. Cada dia publico um na minha pagina de Instagram, normalmente alusivo à efeméride do dia. Este texto esta a ser narrado de uma forma muito pessoal, mas para este assunto não havia outra forma de o fazer. Curiosamente foi publicada uma breve fotorreportagem sobre este projeto no P3.

Um desses dioramas aponta para alguns ideias base do urbanismo sustentável. Serve de exemplo para mostrar o potencial dos dioramas, que podem ser feitos de vários modos, sem a rigidez de recorrer a modelos a escala realistas. Através do simbolismo e da semiótica e possível criar dioramas igualmente comunicativos e carregados de conteúdos, nestes casos de forte simbolismo também. 

No diorama aqui apresentado podemos identificar vários elementos generalistas que facilmente veríamos citados em manuais de sustentabilidade urbana (Farr, 2011), entre eles:
  • Presença de árvores em meio urbano;
  • Espaços públicos do tipo praça e ruas para a fruição pedonal;
  • Desenho orgânico da malha urbana, para garantir descontinuidades e quebras de linearidades que evitam a monotonia, mas sem criar constrangimentos e tendo canais de visibilidade social;
  • Acesso condicionado de automóveis privados, e prioridade ao transporte público que pode aceder ao centro e conjugar-se com os modos suaves, aqui representados pelos peões; 
  • Manutenção de edificado histórico, em utilização contemporânea para as funções urbanas. 

Estes são apenas alguns exemplos. Tendo estes materiais, que são componentes de jogos, é possível fazer isto e muito mais, criando narrativas alternativas para conteúdos que se queiram transmitir. 


Referências bibliográficas para aprofundamento do tema:
  • Kamcke C., Hutterer R. (2015) History of Dioramas. In: Tunnicliffe S., Scheersoi A. (eds) Natural History Dioramas. Springer, Dordrecht
  • Farr, D. (2011). Sustainable urbanism: Urban design with nature. John Wiley & Sons.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

La Rochefoucauld: o filósofo do século XVII que dava bons Tweets

François VI de La Rochefoucauld - Théodore Chassériau
Fonte: https://commons.wikimedia.org/

La Rochefoucauld foi um pensador Francês do século XVII. É pouco conhecido na atualidade, talvez porque produziu obras pequenas e compostas de frases custas, segundo um estilo de escrita chamado de aforismos, típicos da sua época e contexto social. Mas se estudarmos a sua obra, que pode ser lida frase a frase - que é como quem diz pensamento a pensamento - ou de seguida, percebemos que não é por ser simples que é menos relevante para a história do pensamento ocidental. Aliás, são essas mesmas caraterísticas que tornam La Rochefoucauld incrivelmente atual. A sua obra resulta da vivência dos salões, espaços que eram suportados por mecenas da alta nobreza francesa, onde se promoviam encontros regulares de intelectuais para debates constantes, mas que deveriam ser agradáveis formas de entretenimento cortês. De pouco servia ler e expor complicadíssimas teses nesses espaços. Ninguém estaria disposto a isso na maior parte do tempo. Procurava-se ativar a mente com temas profundos, mas abordados de modo imediato e cativante. La Rochefoucauld foi mestre nessa arte, expondo a essência dos seus pensamentos em expressivas frases cheias de múltiplos significados. Vejamos algumas delas, retiradas da sua obra “Máximas e Reflexões Morais” (1) que o site Citador (2) nos traduziu e disponibiliza online:

O verdadeiro amor é como a aparição dos espíritos: toda a gente fala dele, mas poucos o viram.”

Há falsidades disfarçadas que simulam tão bem a verdade, que seria um erro pensar que nunca seremos enganados por elas.”

Não devemos julgar os méritos de um homem pelas suas boas qualidades, e sim pelo uso que delas faz.”

A virtude não iria tão longe se a vaidade lhe não fizesse companhia.”

Os homens não viveriam muito tempo em sociedade se não fossem enganados uns pelos outros.”

No entanto La Rochefoucauld nem sempre foi e é considerado como filosofo, exemplo disso é o Dicionário de Filosofia, da autoria de Noella Baraquin e Jacqueline Laffitte, editado pela Edições 70, onde o nome do autor não consta (3). Para os mais ortodoxos, La Rochefoucauld não é um filosofo, talvez apenas um escritor, um moralista e até humorista. Mas porque não pode a filosofia ser feita com humor e uma certa informalidade? Se o objetivo da filosogia é ativar a mente humana para as questões da existência e transcendia, porque não usar uma abordagem mais descontraída e divertida? Apesar de poder parecer estranho, a obra de La Rochefoucauld teve influência em Nietzsche, especialmente em “Humano Demasiado Humano”, sendo o único dos autores francês da época dos salões a que o famoso filosofo alemão dava crédito (5).

É certo que La Rochefoucauld na sua filosofia não cria uma superestrutura do seu próprio conhecimento, nem um sistema filosófico complexo, cheio de referências a outros filósofos, a conceitos que ele próprio inventa ou refuta para gerar tentativas de solução últimas. Em vez disso sintetiza o seu pensamento em cadeias de frases que podemos agrupar por temas, mas que nem por isso nos induzem a pensar menos. 

A técnica dos aforismos é incrivelmente atual nos dias que correm, sendo massivamente utilizada nas redes sociais, especialmente no Twitter e Facebook. O domínio desta arte de comunicar é importantíssimo para quem quer ter muitos seguidores, comentários, gostos e partilhas. Como seria um La Rochefoucauld dos dias de hoje? Seria um mestre das redes sociais? Vemos a sua influencia sempre que pegamos no smartphone. São imensos os conteúdos rápidos e imediatos, que tentam ir fundo na condição humana. Uns fazem de modo displicente, outros aprenderam com La Rochefoucauld, mesmo sem saber.

Vale também a pena ver o seguinte vídeo de “The School of Life” sobre La Rochefoucauld:


Referências bibliográficas:
2 – Citador. François, Duque de La Rochefoucauld. Consultado em 29 de outubro, disponível em: http://www.citador.pt/frases/citacoes/a/francois-duque-de-la-rochefoucauld
4 - Faber, Marion (1986). The Metamorphosis of the French Aphorism: La Rochefoucauld and Nietzsche. Comparative Literature Studies (2) Vol. 23, No. 3 (Fall, 1986), pp. 205-217

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Origens da cooperação: os indíviduos ou as normas sociais

Um artigo científico recente, com destaque online da revista Science News,  propõe algo de novo sobre o desenvolvimento dos processos de colaboração sociais, tendo em conta aquilo que se pensava serem as origens dos processos de colaboração sociais que levaram à atual complexidade das sociedades humanas. 

A marcha da humanidade - David Alfaro Siqueiros
O artigo, de Kristopher M. Smith, Tomás Larroucau, Ibrahim A. Mabulla e Coren L. Apicellada  refere a experiência realizada com o povo Hazda, cuja organização social e modo de vida se aproxima das primeiras sociedades de caçadores-recolectores, associadas aos primeiros estágios de desenvolvimento que terão estado na origem das atuais sociedades humanas. Os autores concluíram que não são os indivíduos que definem o modelo de cooperação, ao contrário do que é o pensamento generalista vigente sobre o desenvolvimento dos processos de partilha e interajuda social. Segundo os autores, são as normas sociais que definem os níveis de cooperação e não os indivíduos isoladamente. Na experiência realizada e sistematizada no artigo, indica-se que os indivíduos do povo Hazda apresentavam comportamentos que sustentam esta ideia. 

Sendo caçadores-recolectores, os Hazda circulam livremente em territórios extensos, de onde recolhem os recursos necessários à sua sobrevivência. Assim, movimentam-se ciclicamente e regularmente entre diversos locais que assumem formas de estabelecimentos permanentes no território, acessíveis a toda a comunidade. Registou, através de uma experiência semelhante a um jogo de partilha, que os indivíduos que circulavam de campo em campo adaptavam o seu comportamento às normas de cooperação sociais desse campo. O mesmo individuo era muito mais cooperante e partilhava  o resultado das recolhas de alimentos e caçadas nuns campos e comunidades que noutros. Nesses campos onde o sistema de partilha e cooperação era mais intenso, existiam mais normas de regulamentação sociais que fomentavam a cooperação, e que se precaviam de eventuais oportunistas.

Estas descobertas e conclusões parecem simples, mas as implicações são imensas. Significa que a personalidade de partilha ou não partilha individual pode não ser a dimensão mais relevante para o sucesso do desenvolvimento da cooperação social. As sociedades mais cooperantes tendem a estabelecer normas de regulação desse funcionamento coletivo, incluindo sistemas para se precaverem dos indivíduos que queiram aproveitar, sem contribuir, desses sistemas de cooperação. Ou seja, mesmo que os indivíduos que não sejam naturalmente, pelo seu perfil individual, cooperantes, eles tendem a ser igualmente cooperantes nas sociedades onde as normas de cooperação são implementadas por todos. Se fizermos uma análise inversa, podemos também concluir que a ausência de normas sociais de cooperação pode impelir indivíduos naturalmente propensos à cooperação a assumir comportamentos mais individualistas.

No que toca a políticas de desenvolvimento da cooperação estes conhecimentos são muito importantes para implementar e continuar a aprofundar aquilo que são os métodos colaborativos, sendo uma importante tendência para renovação dos sistemas democráticos. Embora o modo como se construíram e continuam a construir as normas sociais seja ainda pouco conhecido, sabemos assim que a via para fomentar mais cooperação passa pela assimilação e generalização das mesmas normas sociais que fomentam a cooperação social.

Referências:
Smith, Kristopher M. ; Larroucau, Tomás ; Mabulla, Ibrahim A. ; Apicella, Coren L. (2018). Hunter-Gatherers Maintain Assortativity in Cooperation despite High Levels of Residential Change and Mixing, Current Biology 28, 1–6 October 8,  Elsevier Ltd. https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.07.064

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Os jogos digitais de construção de cidades podem simular cidades reais?

Em 1989 apareceram os jogos digitais de construção de cidades (JCC), cujo título SimCity foi o primeiro a surgir no mercado (Poplin, 2014). Desde então surgiram novos jogos deste género, evoluindo bastante o nível de simulação.

Excerto do jogo Sim City de 1989

Estes jogos permitiam ao jogador comum gerir cidades virtuais, simplificadas e orientadas para os objetivos específicos. Estas novas ferramentas, apesar de marcadamente lúdicas, despertaram interesse nos investigadores e planeadores urbanos. Gaber (2007) defendeu que as simulações através destes JCC podem ajudar os estudantes a pensar as cidades de forma holística, como sistemas complexos interligados. 

No entanto os JCC têm imensas limitações, por gerarem incorreções nas modelações das realidades que pretendem abordar (Devisch 2008; Minnery & Searle 2014), e por dependerem das ideológicas e enviesamentos criados pelos designers, tais como os recorrentes incentivos ao crescimento populacional e económico (Lauwaert, 2007). Tal como refere Lobo (2004), os JCC estão aquém de simular o funcionamento das sociedades abertas, a política e complexidade dos problemas sociais, tendo os jogadores poderes quase ilimitados. Os JCC lidam mal com os usos mistos do solo e incentivam o mero zonamento funcionalista. A dimensão patrimonial das cidades, aspetos culturais e étnicos das populações são descurados nos JCC que incentivam a constante renovação, tal como ao uso massivo de automóveis e autoestradas, o que induz excessiva simplificação dos sistemas de transportes (Bereitshaft, 2016). 

jogo Cities: Skylines de 2015

Algumas destas dificuldades poderiam ser ultrapassadas se os jogadores pudessem jogar colaborativamente, tratando de partes temáticas ou setores da cidade de forma interativa.  No entanto, como ferramentas introdutórias os JCC, e como identificadores das lacunas de simulação de cidades reais, podem ser relevantes pedagogicamente, se conjugados com outros métodos (Minnery & Searle, 2014). 

Resta saber como continuarão a ser desenvolvidos estes jogos, se irão aproveitar as oportunidades das tecnologias de informação em rede, da internet, das redes sociais e dos dispositivos móveis. A complexidade urbana nasce da múltipla conjugação de atividades, grupos sociais e caraterísticas físicas e morfológicas. As cidades são repositórios de cultura, sistemas complexos de produção e consumo. Será um desafio constante conseguir modela-las no formato jogo, mas será sem dúvida útil tentar continuar com esse objetivo.

Referências Bibliográficas:

Bereitschaft, B. (2016), Gods of the City? Reflecting on City Building Games as an Early Introduction to Urban Systems, Journal of Geography, 115:2, 51-60, DOI: 10.1080/00221341.2015.1070366.

Devisch, O. (2008), Should planners start playing computer games? Arguments from SimCity and Second Life, Planning Theory & Practice, 9:2, 209 – 226.

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