quinta-feira, 6 de junho de 2019

Mecânicas nos jogos de tabuleiro modernos: quando a teoria não coincide com a prática

Existem imensas definições para o conceito de mecânicas de jogos, o que leva a várias confusões semânticas sobre o que significa afinal isso no contexto dos jogos, e ainda mais no âmbito dos jogos de tabuleiro modernos. 

Habitualmente usa-se o termo “mecânica” para descrever, de um modo vago, o que os jogadores fazem durante o decorrer de um jogo (Woods, 2012). Para Salen & Zimmernan (2003) uma mecânica é “a atividade de jogo essencial que os jogadores realizam recorrentemente num jogo”. Assim, para Woods (2012), segundo esses termos, a mecânica de jogo descreve a principal forma de interação funcional entre o sistema de jogo e os jogadores. Assim todos os jogos envolvem uma ou mais mecânicas pelas quais os jogadores influenciam o resultado de um jogo. Partindo deste princípio, Jarvinen (2009) definiu 40 mecânicas que são comuns em jogos (separando em mecânicas principais, submecânicas e mecânicas de modificação). 

Quarto em Nova York - Edward Hopper
Fonte: https://www.edwardhopper.net/room-in-new-york.jsp

Woods (2012) recorreu à lista das mecânicas apresentadas por Jarvinen e avaliou mais de 100 eurogames com base nelas, tendo chegado à conclusão de quais seriam as mais recorrentes e comuns na sua amostra: Votar; Evoluir; Ordenar; Procura de informação; Tirar; Trocar; Comprar; Submeter; Alocar; Construir; Leiloar; Movimento ponto para ponto; Colocar; Escolher.

Ao analisarmos esta lista não encontramos uma relação com as principais mecânicas identificadas pelos utilizadores e designers de jogos de tabuleiro modernos. Exemplo disso é a identificação feita por Yehuda Berlinger (2009) que apenas considera 6 mecânicas principais: Colocação de peças; Leilões; Trocar/Negociar; Alocação de trabalhadores/escolha de papel; Construir conjuntos; Controlo de área.

Nem sempre é fácil estabelecer uma relação entre as mecânicas identificadas por investigadores e académicos como Jarvinen e designers/jogadores de Jogos de tabuleiro modernos como Berlinger. Em alguns casos, mecânicas como a construção de conjuntos (set colection) e o controlo de área (área control) podem ser entendidos como objetivos em vez de mecânicas (Woods, 2012), sendo apenas exemplos paradigmáticos. Isto levanta uma serie de problemas para quem pretende enveredar pela investigação na área dos jogos de tabuleiro modernos e esteja envolvido no hobby, dificultando também análises de jogos numa vertente mais formal. 

Uma das razões para esta confusão entre mecânicas e objetivos pode estar relacionada com a própria natureza dos jogos de tabuleiro modernos, com a tendência para a simulação e para as mecânicas se relacionarem diretamente com isso, sendo feitas e implementadas de modo realmente "mecânico" e físico, no sentido clássico do termo. Claramente precisamos de mais investigação nesta área, no entanto, mesmo que seja feita, nada garante que a comunidade de jogadores e designers as adotem posteriormente. 

Facilmente podemos transpor esta problemática para outras áreas além dos estudos dos jogos.

Nota: grande parte deste texto é uma descrição do livro “Eurogames: The Design, Culture and Play of Modern European Board Games”, que continua a ser a principal referência no estudo de jogos de tabuleiro modernos. 

Referências bibliográficas:
Berlinger, Y. (2009). The Modern Euroame Revolution. In Board Game Studies Colloquia XII, Jerusalem.
Järvinen, A. S. (2009). Games without Frontiers: Theories and Methods for Game Studies and Design.
Woods, S. (2012). Eurogames: The design, culture and play of modern European board games. McFarland.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Quando os jogos de tabuleiro eram rituais e manifestações religiosas: Senet e Jogo Real de Ur

Nos vestígios arqueológicos das civilizações da Suméria e do Egipto, naquelas que foram algumas das primeiras cidades do mundo, encontraram-se jogos de tabuleiro. 

Mas esses jogos não eram apenas diversão. Tanto na Mesopotâmia como no Egito os jogos assumiam um papel importantíssimo na vida social e religiosa, criando narrativas e dinâmicas de jogo que tinham leituras simbólicas, místicas e espirituais. Os jogos faziam parte dos rituais e doutrinas religiosas. No Egito descobriu-se o Senet e em Ur, na Mesopotâmia, o “Jogo Real de Ur”.  

Rainha Nefertari a jogar Senet
Pintura mural do túmulo de Nefertari, esposa de Ramses II
Fonte: https://www.sciencephoto.com/media/185929/view/queen-nefertari-playing-senet

O egiptólogo Peter Piccione propõe que o jogo Senet, que se traduz por “passar, servia de guia para a reflexão espiritual, enquadrada nas crenças de vidas após a morte da religião egípcia. Segundo esse investigador o jogo terá sido readaptado e interpretado pelos cultos religiosos como uma poderosa atividade narrativa. No jogo, que se baseava em movimentos de peças num tabuleiro, mas que desconhecemos as regras exatas, teria uma associação com a viagem que os mortos faziam, de como depois a sua vida era avaliada, e de como então poderiam atingir ou não a vida eterna se disso fossem dignos. Alguns dos jogos foram encontrados com motivos de decoração associados às etapas dos rituais funerários egípcios. Existem pinturas morais da rainha Nefertari a jogar este jogo, sozinha, provavelmente, simbolicamente contra a sua própria alma. Através desse jogo indicia-se que os jogadores poderiam analisar os seus próprios comportamentos, que os poderiam levar à condenação eterna ou à salvação. 

Jogo Real de Ur
Um dos 5 exemplares encontrados por Leonard Woolley em Ur. Hoje patente no British Museum
fonte: By BabelStone (Own work), CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10861909


Já sobre jogo real de Ur sabe-se hoje como o jogavam os antigos sumérios. Pois nos anos 80 do século XX Irving Finkel, ao procurar nos arquivos do British Museum, descobriu registos das regras. Tratava-se de um jogo de corrida em que os jogadores tinham de levar as peças de jogo de um lado para o outro, lançando dados feitos de ossos de ovelha. Apesar de ser uma diversão, tratava-se de uma ferramenta de adivinhação do futuro. A cada casa associavam-se estados e situações que depois eram interpretadas para e pelos jogadores. 

Para ambos os jogos, que nos são apresentados por Tristan Donovam no seu livro “Its all a Game: the history of board games from Monopoly to Settlers of Catan”, o autor faz uma referência de como aleatoriedade e a sorte podiam ser vistas por estes povos antigos como manifestações místicas e formas de comunicação transcendentes, provavelmente uma forma dos mortos e dos deuses comunicarem com os jogadores.
Por isso, quando lançarem um dado, ou tirarem à sorte algo, lembrem-se que para muitas pessoas isso chegou a ser uma manifestação espiritual e religiosa. 

Referências bibliográficas:
Donovan, T. (2017). It's all a game: The history of board games from Monopoly to Settlers of Catan. Macmillan.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Introdução ao Planeamento Colaborativo

O planeamento colaborativo não é uma solução de planeamento pronta a aplicar. Digamos que são objetivos orientadores, e que existem então muitas metodologias nele inspiradas que então são possíveis de aplicar. Podemos dizer que o planeamento colaborativo se insere numa intenção e vontade de criar sistemas de planeamento mais inclusivos em que as pessoas e instituições podem participar e gerar em conjunto soluções geradoras de consenso ou então que atendam ao máximo a todas as complexidades e diversidade das atuais sociedades humanas. No fundo é uma espécie de demanda, pois considera-se que os resultados são melhores e mais justos se aplicados aos processos de planeamento. Há aqui algo de ideológico mas também de racional e direcionado para objetivos concretos e mensuráveis.


A colheita - Bruegel
Filosoficamente, podemos dizer que se trata de um conjunto de metodologias, relacionadas com a construção social estruturalista avançada por Anthony Giddens, em que as comunidades constroem e adaptam as suas próprias estruturas sociais e com isso as estruturas de poder. Mas também com a abordagem da ação/crítica comunicativa de Jurgen Habermas, em que o modo de comunicar permite mudar a distribuição e mobilização do poder, o modo de fazer e organizar, criando novas realidades.  

Então, de um modo muito simplificado, pegando no livro de Patsy Healy – Collaborative Planning”, podemos decalcar alguns dos requisitos para que esses sistemas metodológicos possam ser aplicados.
Esses sistemas de planeamento devem:
- Reconhecer a grande variedade de preocupações e exigências das pessoas e instituições, inerentes a diversidade dentro das atuais sociedades humanas;
- Reconhecer que muitos dos aspetos da governação das sociedades ocorrem foram dos sistemas formais de poder e administração;
- Favorecer a oportunidade e intervenção informal nos sistemas de governação local, regional e nacional;
- Promover a inclusão de todos os membros das comunidades políticas;
- Ser constantes e continuados, abertos a múltiplas formas de avalização e capazes de fornecer informação e respostas às questões dos cidadãos e instituições.
Esses sistemas de planeamento devem garantir recursos para:
- Que todos os membros das comunidades políticas tenham mínimos dignos de qualidade de vida;
- Que todos possam exercer ativamente a sua cidadania;
- Superar as barreiras de participação de alguns cidadãos e instituições, de acordo com as suas particularidades;
- Investimentos dos pequenos e grandes projetos definidos pelas comunidades;
- Redirecionar os efeitos negativos dos que são afetados por determinadas iniciativas políticas;
- Garantir que a informação prestada é de boa qualidade e está acessível a todos os membros das comunidades políticas. 

Nos sistemas de planeamento colaborativo é necessário implementar uma abordagem argumentativa durante os processos, garantindo:
- Que todas as preocupações e reivindicações de todos os cidadãos e instituições são tidas em atenção, encorajando a partilha de preocupações e compreensão entre todos, em vez de uma competição entre adversários;
- Todas as decisões tomadas pelos governantes têm de ser justificadas perante todos os membros das comunidades políticas;
- Todos os governantes devem dar boas razões para as decisões que tomam, considerando os diferentes modos de pensar, argumentar e compreender dos membros da comunidade política. 

Esta é apenas uma breve introdução aos requisitos das metodologias do planeamento colaborativo. Para saber mais é recomendável ler a obra aqui utilizada como referência, tal como algumas publicações mais atuais que aqui irei referi no futuro. 

Referências bibliográficas:
Healey, P. (1997). Collaborative planning: Shaping places in fragmented societies. Macmillan International Higher Education.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Aprender sobre colaboração através do jogo do dilema do prisioneiro

A área de teoria de jogos, que tem muito mais que ver com matemática do que com a dimensão lúdica ou social dos jogos, tem sido nas últimas décadas uma área de estudos e investigação bastante ativa. Um dos casos de estudo recorrentes prende-se com o jogo do dilema do prisioneiro (JDP), especialmente na sua vertente interativa ou repetida, que prevê múltiplas jogadas seguidas. Através destes exemplos de estudos têm sido retiradas várias conclusões sobre o comportamento humano perante a tomada de decisão e os processos de colaboração. 

Prisoners Exercising - Van Gogh
Fonte:  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vincent_Willem_van_Gogh_037.jpg

No fundo o JDP consiste, de um modo simplificado, num jogo de escolhas, em que dois prisioneiros são submetidos a escolhas de denuncia ou de colaboração com os demais prisioneiros para garantir que ninguém denuncia outrem. Pois se ninguém denunciar todos cumprem uma pena mais pequena. Mas se alguém denunciar isoladamente outro esse prisoneiro ganha o máximo benefício. Por outro lado, se todos denunciarem todos maximizam perdas, pois todos sofrem a pena máxima. Na forma interativa ou repetida podem ser estabelecidos padrões, havendo uma tendência de melhorar os benefícios da cooperação entre prisioneiros no longo prazo e em jogadas repetidas (Axelrod, 1980). No entanto, nada de isto invalida os conhecidos equilíbrios de Nash, que de uma forma simplificada se pode resumir como aquelas situações em que os jogadores deixam de querer alterar as suas estratégias por ficarem satisfeitos com os resultados obtidos (Vives, 1990).

Estas investigações continuam a ser desenvolvidas. A título de exemplo aqui ficam algumas constatações retiradas de diversos artigos científicos recentes:
• Dal Bo (2005) considera que a cooperação aumenta na medida em que a probabilidade de continuação do jogo aumenta, e que a cooperação é maior em jogos de duração indefinida que nos jogos de duração finita;
• Duffy & Ochs (2009) comprovaram que a cooperação no JDP é maior quando os pares se conhecem e passaram por vários jogos.
• Dal Bó & Fréchette (2011) geraram evidências de que a experiência no jogo desempenha um papel importante no surgimento de cooperação em jogos de DP. Descobriram que com experiência, o efeito da perda total tem um papel importante no fomentar da cooperação, da confiança.
• Lugovskyy et al. (2017) encontraram evidência de menor cooperação na última ronda do jogo. 

Estes são apenas alguns exemplos, entre muitos artigos recentes produzidos, sobre as leituras dos comportamentos dos jogadores em casos e variantes do dilema do prisioneiro (DP). São exemplos de como os jogos, embora aqui estejamos perante um problema matemático e não sobre um jogo lúdico, podem ser utilizados para fins sérios que extravasam os jogos e com os quais podemos estabelecer múltiplos paralelismos. Podemos aprender muito com isso.

Conseguimos identificar aqui algumas condições que podem contribuir para o estímulo dos processos de colaboração. A proximidade, conhecimento e interação entre as pessoas, o convívio em atividades mútuas, ajudam a gerar confiança que leva à cooperação. Salienta-se também a importância da demonstração e consciência dos efeitos de perdas globais da não cooperação ao longo do tempo. A continuidade dos processos de interação é uma necessidade para o estabelecimento da cooperação, de preferências com as mesmas pessoas.  

Tal como noutras abordagens, a cooperação e colaboração não ocorrem por milagre. Desenvolvem-se porque trazem benefícios coletivos e porque existem condições sociais para que isso possa acontecer.

Referências bibliográficas:
Axelrod, R. (1980). Effective choice in the prisoner's dilemma. Journal of conflict resolution, 24(1), 3-25.
Dal Bó, Pedro, 2005. Cooperation under the shadow of the future: experimental evidence from infinitely repeated games. Amer. Econ. Rev.95, 1591–1604.
Dal Bó, Pedro, Fréchette, Guillaume, 2011. The evolution of cooperation in infinitely repeated games: experimental evidence. Amer. Econ. Rev.101, 411–429.
Duffy, John, Ochs, Jack, 2009. Cooperative behavior and the frequency of social interaction. Games Econ. Behav.66, 785–812.
Lugovskyy, V., Puzzello, D., Sorensen, A., Walker, J., & Williams, A. (2017). An experimental study of finitely and infinitely repeated linear public goods games. Games and Economic Behavior, 102, 286-302.
Vives, X. (1990). Nash equilibrium with strategic complementarities. Journal of Mathematical Economics, 19(3), 305 321.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Pensar constantemente nos custos de oportunidade seria uma loucura?

O conceito de custo de oportunidade é algo essencial para qualquer análise económica, mas muito pouco comum nas nossas decisões do dia-a-dia. Sabemos que os modelos económicos têm dificuldades em simular todas a realidade, pois são simplificações da realidade para mais fácil definição e análise. Nessas simplificações é dificil replicar, entre outras coisas, a complexidade e imprevisibilidade do comportamento humano. Normalmente, os modelos económicos, ditos clássicos, consideram que os atores dos sistemas económico tomam as melhores opções, as mais racionais. Mas os economistas, munidos dos seus modelos, sabem que isto não é verdade. Eles, mais que ninguém, sabem das limitações dos seus modelos.

Christina’s World (1948) – Andrew Wyeth

Se adotássemos decisões sempre racionais, e munidos de todas as informações necessárias, teríamos de estar sempre a considerar os custos de oportunidade, de tudo o que fazemos. Teríamos de ter alternativas constantes para tudo e conhecer as possibilidades análogas ou outras possíveis de serem empreendidas. 

Os custos de oportunidade podem ser definidos como tudo aquilo que nos custa, ou perdemos, ao não investirmos ou direcionar os nossos recursos para outras atividades que seriam mais rentáveis. Ou seja, imaginem estar constantemente a analisar tudo o que fazem de modo a escolher aquilo que vos traria mais benefícios. E não se podem esquecer que nem todos os benefícios têm forçosamente de ser monetários. Seria desejável ter sempre este conhecimento na hora de decisão, mas seria altamente impraticável. Primeiro porque obrigava a massivas quantidades de informação e de cálculos. Gastaria imenso tempo. Depois porque nos obrigava a atribuir valor a tudo, incluindo coisas que não têm valor definido ou que podem ser imensamente subjetivas. Por exemplo, quanto vale observar uma paisagem?

Não desesperem, pois existem métodos e técnicas para considerar e contabilizar bens e atividades associadas a bens sem valor de mercado. Talvez seja um tema para um próximo texto.

Em resumo, fica dificil estarmos sempre a fazer análises dos custos de oportunidade de tudo o que fazemos. Mas é imensamente útil ter esta noção em mente, nem que seja para valorizar certas coisas que fazemos e que inicialmente até podemos nem valorizar na devida conta. Podemos não saber o valor exato, mas podemos ter a certeza que têm algum valor. O certo é que existe sempre, no mínimo, um valor de comparação. Algo como eu estar a escrever este texto pelo simples prazer de o fazer, em vez de estar a escrever outra coisa que eventualmente me pudesse dar um rendimento. E quem fala em escrever poderia falar em muitas outras atividades alternativas consumidoras do meu tempo. Já sabem, o tempo habitualmente é dinheiro, mas de valor incerto e variável. 

Referências de apoio para saber mais sobre custos de oportunidade:
Buchanan, J. M. (1991). Opportunity cost. In The world of economics (pp. 520-525). Palgrave Macmillan, London.
Frederick, S., Novemsky, N., Wang, J., Dhar, R., & Nowlis, S. (2009). Opportunity cost neglect. Journal of Consumer Research, 36(4), 553-561.
Kurzban, R., Duckworth, A., Kable, J. W., & Myers, J. (2013). An opportunity cost model of subjective effort and task performance. Behavioral and Brain Sciences, 36(6), 661-679.
Palmer, S., & Raftery, J. (1999). Opportunity cost. Bmj, 318(7197), 1551-1552.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Algumas definições sobre o que é um Jogo

A área de estudos dos jogos é neste momento um campo de investigação académica muito ativo. O modo como se criam, desenvolvem e aplicam jogos tem muito para ser estudado, mais ainda se quisermos analisar o que está para além dos jogos, com tudo aquilo que implica a sua utilização social e individual. O meta-jogo, pode muito bem ser considerado uma nova área da filosofia. Muito provavelmente voltarei a este tema, mas para já dedico este texto ao compêndio de algumas definições do que é um jogo, com base na obra de Katie Salen e Eric Zimmerman.



Os tópicos que se apresentam de seguida são transcrições e traduções do trabalho dos autores anteriormente referidos, que por sua vez citam os principais pensadores que se dedicaram a definir os jogos ou a referir características dos jogos. Ficam de seguida alguns desses excertos:
  • David Parlett distingue entre jogos formais e informais: “Um jogo informal é apenas um jogar indireto, algo que as crianças fazem. Um jogo formal tem uma estrutura definida por meios e fins.”
  • Clark C. Abt: “Um jogo é um contexto com regras em que adversários tentam ganhar objetivos.”
  • Johann Huizinga, que não distingue o jogar do brincar, diz mais ou menos isto sobre os jogos: “Brincar/jogar é uma atividade livre situando-se fora da vida comum por não ser séria, mas ao mesmo tempo envolve o jogar profundamente e intensamente.”
  • Roger Caillois descreve que jogar é: “Livre, um ato à parte, incerto, não produtivo, governado por regras, e uma atividade “faz de conta”.”
  • Bernard Suits: “jogar um jogo é o esforço voluntário para ultrapassar um obstáculo desnecessário.”
  • Chris Crawford identifica quatro qualidades nos jogos: “Representação, interação, conflito, segurança. 
  • Greg Costikyan: “Um jogo é uma forma de arte em que os participantes tomam decisões de modo a gerir recursos através dos elementos dos jogos para perseguir um objetivo.”
  • Elliot Avedon & Brian Sutton-Smith: “Os jogos são um exercício de sistemas de controlo voluntário, em que existe concorrência entre poderes, confinados por regras de modo a produzir um resultado desequilibrado.”

Por fim importa apresentar a definição dos próprios autores, de Katie Salen e Eric Zimmerman, que resulta de uma análise crítica das anteriores definições e dos seus próprios contributo: Um jogo é um sistema em que os jogadores se envolvem num conflito artificial, definido por regras, que permitem um resultado quantificável.”

O livro em que se baseiam estas informações “The Rules Of Play: Game Design Fundamentals” é um livro profundo, repleto de informações, com a informação devidamente sistematizada numa abordagem académica, mas que pode ser um precioso auxiliar para a prática de design de jogos.

Referências bibliográficas:

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A fome dos Pardais na china de Mao Tsé-Tung e ignorância da ideologia

Mao Tsé-Tung conseguiu, com os seus camaradas, depois de uma longa guerra civil e dos efeitos da ocupação japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, implementar um regime comunista na China. Em 1949 Mao consegue juntar a presidência do partido comunista chines à da própria china. Intitulava-se como o Grande Timoneiro, implementando um regime totalitário onde o culto da personalidade do líder foi muito forte. Mao era, acima de tudo, um ideólogo e um doutrinador, tentando utilizar os ensinamentos marxistas para modernizar a China, numa relação nem sempre de cooperação com a URSS.

Poster da campanha "mata um pardal" - autor desconhecido

A China que Mao Tsé-Tung conquistou em meados do século XX ERA esmagadoramente rural e atrasa do ponto de vista tecnológico, a nível de desenvolvimento quase medieval, especialmente nas zonas rurais. Durante a década de 50 os resultados da governação de Mao não foram os esperados, por isso implementou aquilo a que chamou “O Grande Salto em Frente”, entre 1958 e 1962. Para ele uma das prioridades seria acabar com as 4 pestes: os ratos, moscas, mosquitos e pardais. Aos ratos e moscas atribuía a culpa de doenças e da falta de higiene. Os mosquitos relacionavam-se com a malária, e os pardais com as perdas das colheitas. 

Assim, em 1960 popularizou-se a campanha “matar um pardal”, que incentivava as pessoas, especialmente nas áreas rurais a caçar e matar pardais nos seus tempos livres. Foi uma matança enorme, que quase exterminou todos os pássaros da china. Mas ao eliminarem os pardais e muitas outras aves, eliminaram também os principais predadores das pragas de insetos que atacavam também as colheitas agrícolas. A china sofreu uma fome massiva que causou a morte de dezenas de milhões de chineses. Há estimativas de terem morrido de fome pelo menos 20 milhões de pessoas por causa deste erro, embora outras estimativas sejam muito mais dramáticas.

Atribui-se a Mao Tsé-Tung a frase “Prefiro um vermelho a um técnico”. Isto revela o pensamento de Mao, a desconfiança perante os intelectuais, os técnicos e quem detinha conhecimento aplicado, algo que se sentiria mais fortemente na época da “Revolução Cultural”. A sua ideologia e a sua doutrina estavam acima de tudo, de todos os conhecimentos e saberes, especialmente os técnicos e académicos. O ditador irritava-se facilmente com a crítica e com todos aqueles que discordavam dele. Foram várias as purgas e as perseguições. “O Grande Salto em Frente” foi um descalabro e Mao Tsé-Tung foi forçado a afastar-se do governo em 1962. Mais tarde, em 1966 voltaria ao poder, munido do seu “livro vermelho”, que era um compêndio de várias fases da sua autoria, pronto a fazer a famosa “Revolução Cultural” e que rapidamente passaria do ferver ideológico ao marasmo social. A supressão e afastamento da influência dos membros mais cultos, esclarecidos e conhecedores da vida ativa chinesa, substituídos assim pelo movimento popular miliciano da Guarda Vermelha, composta por fanáticos que se mostravam incompetentes nos assuntos da governação e produção, voltou a estagnar novamente o desenvolvimento do país. Essa tendência só se alteraria posteriormente com o retorno de Deng Xiaoping a partir de meados dos anos 70, que iria abrir a china e a sua economia ao mundo, mas mantendo o domínio do partido comunista chinês. 

Este episódio da história universal, tão estranho que quase parece uma ficção, demonstrou os efeitos catastróficos que podem surgir das políticas públicas dirigidas apenas pela ideologia política, sem recurso a conhecimentos técnicos e científicos. Foram eventos desta natureza que desacreditaram e continuam a desacreditar a ideologia política. No entanto, ainda assim, conhecemos casos de líderes políticos que continuam a lutar por convicções pessoais, sem demais fundamentos para além dos seus sistemas de crenças. 


Referências bibliográficas:


Li, W., & Yang, D. T. (2005). The great leap forward: Anatomy of a central planning disaster. Journal of Political Economy, 113(4), 840-877.

Peng, X. (1987). Demographic consequences of the Great Leap Forward in China's provinces. Population and development review, 639-670.

Roberts, J. A. (2011). A history of China. Macmillan International Higher Education.

Saada,  Philippe (2017) Mao, le père indigne de la Chine moderne, In Les coulisses de l'Histoire.
Cinétévé & Arte



quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Hitler não foi um génio militar e a Bomba Atómica não derrotou os Japoneses: uma série de documentários franceses

Neste momento estão novamente a ser exibidos alguns bons documentários na televisão portuguesa, tanto em canais livres e pagos. Podemos ver regularmente documentários nos vários canais da RTP, especialmente na RTP2, ainda que fosse desejável haver mais. Mas parece que o Canal de História, ainda cheio de "reality Shows", também parece querer diversificar e voltar a ter documentários de história. Veremos se realmente as políticas de programação mudam para algo que sejam efetivamente conteúdos de relevância histórica ou se foi apenas uma exceção. Um desses exemplos é a recente série de documentários de 2017, de origem francesa, produzido pela Cinétévé & Arte, com o nome original de Les Coulisses de l’Histoire e traduzido para português por “História Revelada”. 

"Sempre que partires uma noz pensa em Hitler" - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942-1945)

No primeiro episódio, realizado por Christiane Ratiney, aborda-se o mito de Hitler ser um génio da estratégia militar. No documentário defende-se essa tese, de que Hitler foi de facto um estratega militar amador e que cometeu erros crassos, uma vez que na hierarquia militar nunca tinha sido oficial nem tido qualquer formação nessa área tão específica e complexa. O mérito das conquistas militares deveu-se, em grande parte, aos generais da influente escola prussiana, desde Frederico o Grande, ao pensamento de Von Clausewitz e pela prática das guerras estratégicas desencadeadas com sucesso durante o século XIX, que permitiram construir o império alemão pela direção política de Bismarck. Mesmo o conceito de “Guerra Relâmpago” e o sucesso incrível da vitória sobre a França dependeu do Marechal Erich von Manstein e não de Hitler, que soube aproveitar a superioridade do seu equipamento bélico e treino militar da Wehrmacht. Quem venceu foi o Plano Manstein, cujo o sucesso surpreendeu Hitler, até porque teve falhas, ao ponto de se ter gerado um massivo engarrafamento de veículos alemães que poderia ter culminado num desaire total por falta de planeamento. E a vitoria teria sido retumbante perante os britânicos, que depois de estarem cercados apenas conseguiram evacuar o seu exercito em Dunquerque por culpa do Fuhrer. Isto devido às hesitações amadoras de Hitler, que não decidiu rapidamente o que fazer quando todos os generais pediam para que o ataque fosse incisivo e rápido, de forma a tentar forçar a rendição da Inglaterra, algo que Carl Von Clusewitz seguramente aprovaria. 

A operação Barbarossa, de invasão da URSS, foi uma sequência de erros tomados por Hitler, entre eles a decisão de cercar Estalinegrado e forçar a cidade à rendição em vez de avançarem rapidamente pela sua conquista, tal como a hesitação em avançar para Moscovo, temendo o desfecho que culminou na derrota de Napoleão em solo russo. Tudo isso deu tempo, numa frente excessivamente alargada, para que os Russos se organizassem. Hitler, convencido da sua superioridade tendia a subestimar os inimigos, algo que se pode comprovar nos registos dos seus generais, ao ponto de no final da Guerra ter assumido ele mesmo o comando militar, achando-se mais competente que os seus generais. 

Segundo os autores do documentário, a versão de que Hitler seria um génio militar teria sido alimentado pelos Aliados, para tornar a sua vitória ainda mais grandiosa, uma vez que Hitler passou rapidamente a ser o culpado de todos os males do mundo. Parece que as operações militares a leste, perante o poder massivo do exercito vermelho e de toda a mobilização cívica dos russos, enfraqueceu de tal modo o poder alemão que a derrota na frente ocidental também seria inevitável depois de 1942. No entanto essa versão não era conveniente para os EUA.

"Se trabalhares tanto e tão rápido como um japonês"  - Office for Emergency Management. War Production Board. (1942 1945)

No segundo episódio desta série de documentários, neste caso da autoria de Cédric Condon, refere-se à rendição do Japão. No qual se defende que não foram as duas bombas nucleares que forçaram o Japão à rendição incondicional, mas sim o avanço soviético que, depois de derrotada a Alemanha, mobilizava as suas forças para a Manchúria, no norte da China, e Coreia. Assim os japoneses, que ainda controlavam imensos territórios na china e sudoeste asiático sabiam que estavam encurralados e que a vitória não seria mais possível, pois quer os Soviéticos quer os Americanos estavam a planear operações de desembarque massivos em solo japonês. Os japoneses tentaram negociar com ambas as potencias a paz, mas os soviéticos não aceitavam a manutenção do governo imperial, tão importante para manter as tradições japonesas. Por outro lado, os Americanos aceitaram esse pedido e assim assinaram a rendição formal. Isto explica o continuar dos conflitos nos anos seguintes na Coreia e depois na Indochina, tal como a destabilização na própria China, enquanto o Japão se manteve estável e sua essência cultural milenar. Tudo indica que os generais Japoneses defendiam a guerra total até ao último soldado, mas que foi o imperador Hirohito a impor a sua autoridade e a decidir a paz com os EUA, não pelo efeito das bombas nucleares, mas por ser o modo de poder manter o trono. Assim, esta decisão Japonesa foi uma derrota para Estaline que não conseguiu ter influência no Japão, tal como algo muito útil para os EUA, que pouparam vidas dos seus militares, tal como contribuiu para construir o mito do poder do seu novo armamento nuclear. 

Mais que pensar que estamos perante verdades absolutas, esta série de documentários força-nos a ensaiar novas perspetivas e pontos de vista, daquilo que são os bastidores da história. Isto porque a história é sempre uma narrativa construindo pela mão humana, que nem sempre se aproxima da verdade, e sofre uma inevitável influência de outros poderes. Cabe-nos então cruzar conhecimentos, fontes e usar das nossas capacidades cognitivas para desvendar aproximações à verdade.

Referências:
Condon, Cédric (2017). Hiroshima, la défaite de Staline, In Les coulisses de l'Histoire. Cinétévé & Arte

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lipovetsky em Coimbra: reflexões sobre hipermodernidade, hiperindividualismo e hiperconsumismo

Quem tem estado atento a alguns textos que vou escrevendo aqui para o blogue já percebeu que Gilles Lipovetsky é um daqueles autores que vou regularmente citando. Lipovetsky é um dos filósofos e sociólogos mais curiosos do nosso tempo, dos tempos hipermodernos como o próprio apelida. Por isso não podia desperdiçar a oportunidade de o ouvir ao vivo quando na passada sexta-feira, dia 18 de janeiro este em Coimbra numa palestra em que falou de individualismo e consumismo. Não contava tirar muitas notas, uma vez que já li várias obras do autor. Mas foi impossível não o fazer, o que me levou a ter de estar sempre a escrevinhar no telemóvel para aproveitar algumas declarações que me pareceram relevantes. São dessas anotações que surge este texto, pois pareceu-me valer a pena deixar aqui o registo. 

Gilles Lipovetsky na conferência: "La société d'hyperconsommation: sommes-nous plus heureux?"

Lipovetsky descreve-nos como consumidores. Para ele vivemos na hipermodernidade e não na pós-modernidade como defendem outros filósofos e pensadores. Defende que a modernidade não terminou, que apenas se intensificou. Segundo ele somos hipermodernos porque amplificamos o que considera essencial do modernismo: o sistema democrático liberal, o individualismo e o consumismo. Na conferencia não referiu as mudanças no peso das grandes narrativas políticas e ideológicas que quebram esse aspeto da modernidade, algo que invoca na sua obra literária. Teria sido uma boa questão para lhe colocar, mas não me lembrei na altura. Ou seja, hoje defendemos sistemas democráticos mais profundos, garantias de todas as liberdades, somos muito mais individualistas e consumimos a uma escala sem precedentes. 

E todas estas mudanças são bem recentes, tendo ocorrido nos últimos 30 anos nas sociedades ditas ocidentais e ricas, do norte global como alguns gostam de chamar. Mas a sociedade do consumo é mais antiga, identificável com o pós 2.ª Guerra Mundial. A diferença consiste na escala, forma e tipo de consumo, que anteriormente era marcadamente coletivo. O automóvel era para a família, tal como as comodidades dos lares, eletrodomésticos e televisão. Não se tratava de um consumo individualizado e personalizado como ocorre hoje. 

O consumo afirma-se como uma forma de afirmação e contribuição para o individualismo crescente. Os indivíduos escapam hoje ao controlo de classe. Já não existe uma cultura de classe que legitima comportamentos a grupos de pertença, nem um controlo coletivo sobre as práticas de um consumo que se foi desregularizando . Nós é que escolhemos o que queremos ser e com quem nos identificamos. Desapareceu a hierarquia do gosto. No entanto não somos mais felizes. Lipovetsky afirmou que a felicidade através do consumo ocorre naturalmente quando nos elevamos da pobreza, mas que a partir de um determinado limiar a proporção do que se consome fica muito aquém da felicidade que esse consumo traz. Esse é um dos sentimentos paradoxais da hipermodernidade. Apesar de muitos de nós conseguirem escolher de acordo com as nossas preferências, isso não garante a felicidade. Ficamos sem saber o que nos impede de sermos felizes e isso pode ser angustiante. 

O consumo tornou-se emocional, mas ao mesmo tempo informado, e ingenuamente carregado de consciência ambiental, embora não seja isso que nos impeça de consumir cada vez mais. As emoções, no entanto, não nos incitam a compras de impulso. Cada vez mais comparamos e procuramos o melhor preço para o melhor produto. A economia do consumo tende para incentivar os consumidores a colecionarem experiências, a elevarem a um valor supremo a distração. Escolhemos com critério apenas para termos dinheiro para consumir mais e diferente. 

No entanto Lipovestky tem uma visão positiva do consumo. Acredita que tem um lado benéfico, de distrair de outras intenções e projetos políticos que levaram aos maiores dramas da humanidade. Considera ser incompatível com o totalitarismo e com as restrições da liberdade. As grandes narrativas de um sacrifício no presente para garantir um paraíso religioso ou uma utopia política no futuro tendem a ser controlados pelo hedonismo generalizado, e atraem apenas minorias da sociedade. Queremos o prazer agora e não depois. Mas isso não imuniza dos problemas políticos como bem sabemos. Existe uma deceção com os políticos, mas não com as marcas e o consumo. Por isso, as soluções políticas que queiram defender a possibilidade de consumir cada vez mais terão forte apoio popular, mesmo que a consciência ambiental seja universal, porque no dia-a-dia simplesmente consumimos. 

Para Lipovetsky a solução, de manter o nível de consumo e de garantir a sustentabilidade ambiental passa pela economia circular e partilhada. Só assim poderemos manter o nível de consumo do qual dependemos sem tendermos para a autodestruição. Passa também por dar primazia à educação e cultura, para que possamos consumir algo imaterial que nos dá felicidade e realização. 

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