segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Séries: filosofar em "The Good Place"

Há séries que são produzidas para agradar às massas mesmo utilizando temas que habitualmente não são assim tão generalistas. “The Good Place” é uma dessas séries, ao ser uma sitcom que fala de filosofia, muito particularmente de ética e moral. Trata-se de uma série da NBC disponibilizada pela Netflix em Portugal, com atores mais ou menos conhecidos, à exceção de Ted Danson e da estrela em ascensão Kristine Bell. Por falar em atores, o desempenho de todos é impecável, especialmente da personagem Janet. 


Nesta série há que evitar descrever os episódios, pois o perigo de revelar informações que estraguem o enredo original criado por Michael Schur é real. Devo apenas dizer que se passa na vida pós-morte, que é alucinada, hilariante e carregada de citações filosóficas e filósofos, embora nunca apareçam diretamente. Espero não ter revelado demasiado. Mas há muito tempo que não sentia tanto fascínio por uma série deste tipo. A velocidade com que a história avança de forma imprevisível é quase vertiginosa. Não arrisquem saltar episódios!

O modo como os postulados filosóficos e as citações são introduzidas nos diálogos garante interesse para quem acha que a filosofia é um tédio. Aqueles que eventualmente conheçam os esses filósofos famosos vão sorrir também, pois é tão raro vermos conteúdos filosóficos serem abordados em criações deste tipo – o que é pena porque já se demonstrou que a filosofia pode ser hilariante, tal como se demonstrou neste blogue por várias vezes. 

“The Good Place” acaba por ser uma série de reflexão filosófica, ética e moral, cheia de sarcasmos e críticas ao nosso modo de vida. É uma série para acabarmos o dia a refletir na nossa vida e tentar melhorar a nossa pontuação com um sorriso. Não perceberam, então vão lá ver e terão acesso a um lugar melhor, nem que seja na vossa consciência.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Tarot: o primeiro jogo de storytelling que inspirou os jogos modernos?

Existem muitas atividades que poderiam ser vistas como jogos. A arte de contar histórias é tão antiga como a humanidade, ou pelo menos tão antiga como a capacidade de comunicar oralmente. Desde que a nossa espécie começou a comunicar surgiu, invariavelmente, a possibilidade de contar histórias, e gerar narrativas para os mais diversos propósitos e a socorrer-se de elementos que pudessem tornar a dita história ainda mais cativante e emocionantes -  envolvente e imersiva como se diz agora.

A Cartomante - François Joseph Navez
Fonte: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/lot.205.html/2016/voyage-rome-particuliere-italienne-pf1640
O lado narrativo dos jogos tem sido muito importante para a sua afirmação como produto cultural e como elemento atrativo, algo que tem sido muito explorado nos jogos digitais. No entanto há jogos muito mais antigos que já faziam isso. Lembrando alguns dos primeiros jogos de tabuleiro, como o Senet egípcio e o Jogo Real de Ur da mesopotâmia, tem-lhes sido atribuída forte possibilidade de terem sido utilizados para fins religiosos e de geração de narrativas, enquadrados em rituais e até como formas de adivinhação e análise moral dos vidas e comportamentos dos jogadores (Donovan, 2017). Num texto anterior estes dois jogos foram explorados em mais detalhes (ver aqui).

Por outro lado, existem os jogos puramente narrativos, que servem para gerar histórias, ou então ainda os jogos que são histórias. Marco Arnaudo (2018) faz esta distinção, entre os jogos em que são os jogadores que contam as histórias, através dos componentes do jogo, e os jogos cujo elemento central é uma história em que os jogadores participam, mas sem total liberdade de a alterar ou construir de base. Ou seja, temos os jogos em que os jogadores criam o storytelling e os jogos que têm de lidar com um storytelling mais definido.   Exemplo disso são os jogos como o Dixit, em que os jogadores constroem histórias a partir das cartas, e jogos de role play (RPG) como Dungeons & Dragons em que há uma história e os jogadores vão interagir sobre ela com muitas restrições, através das suas personagens. Assim, embora os jogos de RPG possam ser mais recentes, poucas décadas se considerarmos os designs ditos contemporâneos, os jogos de storytelling são muito mais antigos. Um destes primeiros jogos de storytellig que ainda circula são as cartas de Tarot, com as suas múltiplas ilustrações e personagens, utilizadas nas cortes da renascença para gerar histórias e múltiplas narrativas (Arnaudo, 2018). De notar que, mesmo hoje, quando se usam as cartas para fazer adivinhações e interpretações, estão a ser gerados processos de storytelling. Resta saber até que ponto o Dixit não se inspirou nesta utilização lúdica do próprio Tarot. Se notarem, o próprio tamanho das cartas de Dixit é o tamanho Tarot. 

Jogos há muitos, histórias também. Quase todos os jogos contam histórias, dependendo muito também de quem os joga. No entanto, uns contam mais histórias que os outros.

Referências bibliográficas:
Arnaudo, M. (2018). Storytelling in the Modern Board Game: Narrative Trends from the Late 1960s to Today. McFarland.
Donovan, T. (2017). It's all a game: The history of board games from Monopoly to Settlers of Catan.
Macmillan.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Porque nos coçamos?

Coçar é um estímulo neurológico. As células ao produzem histamina permitem que neurónios especializados reajam a esse efeito, e assim nos induzam à vontade de coçar. Ou seja, trata-se de um processo neurológico, embora possa ser ativado por várias razões. Parece algo tão físico no seu efeito, mas acaba por ser resumido a um processo químico. Ao coçarmos surgem depois novos efeitos, mais compostos químicos são produzidos, incluindo alguns que nos geram prazer.  Trata-se de um exemplo em que a química se mistura com a biologia e a física, palavra de leigo.

As criadas - Paula Rego
Fonte: https://www.saatchigallery.com/artists/artpages/rego_paula_the_maids.htm

As razões para surgir a comichão podem ser muitas, fruto de desequilíbrios bioquímicos, mas que podem ter origens que fenómenos puramente físicos e mecânicos, como choques, cortes e perfurações. No fundo são sinais de alerta do sistema nervoso para nos levar a tomar medidas, embora possa não ser evidente e até ser fruto de patologias que geram ainda mais problemas se não pararmos de coçar. 

Confesso que este tema sempre me despertou curiosidade. Sendo a biologia e a saúde áreas das quais sei muito pouco foi ainda mais complicado procurar algumas fontes para coçar o assunto. Mas deu para perceber a complexidade do assunto, que existe investigação este momento a ser feita sobre o assunto e que provavelmente os cientistas ainda vão ter muito com que se coçar para resolver os mistérios das comichões. Comichões existem muitas, e nós coçadores inevitáveis. Mas será que coçar é sempre a melhor solução? O problema não poderá ser outro?

Referências bibliográficas:
Bautista, D. M., Wilson, S. R., & Hoon, M. A. (2014). Why we scratch an itch: the molecules, cells and circuits of itch. Nature neuroscience, 17(2), 175.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Participar não é sinónimo de colaborar

É muito comum usar os termos participação e colaboração quase como sinónimos, por vezes mesmo como meros adjetivos em tentativas de descrever alguns processos de decisão pública como sendo abertos aos cidadãos. No entanto os dois conceitos são muito diferentes, convindo evitar o seu uso como mero floreado para adornar um qualquer exercício de poder público. 

American Gothic - Grant Wood
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/American_Gothic
Convém ir ler um pouco o que foi sendo escrito sobre isto. Podemos voltar a Arnstein (1969) que definiu a sua escada da participação, com 8 degraus crescentes de participação e decisão dos cidadãos: manipulação, terapia, informação, consulta, apaziguamento, parceria, delegação de poder, controlo cidadão. Notamos na base desta escada um poder manipulador do poder político e no topo um poder partilhado com os cidadãos. Creighton (1992) simplificou e definiu apenas 4 divisões: informação pública, em que os cidadãos são meramente informados das decisões; participação formal, devendo haver audição antes das decisões; consulta, com abertura e poder dos cidadãos para influenciarem a decisão; construção de consensos com os cidadãos, incluindo reformulações e ajustes até que se concorde com a decisão. Münster et al. (2017) simplificaram ainda mais, dividindo os processos de participação em três níveis básicos: informação, consulta e colaboração.

Estas breves referências servem apenas de enquadramento para percebermos que a participação pode ser muito diferente da colaboração. Participar podem ser uma atividade tão passiva como estar presente para ser manipulado pelo poder político representativo, segundo o primeiro nível da escada de Arnstein (1969), mas pode ser, numa perspetiva menos negativa, apenas uma forma de aceder à informação, embora sem possibilidade de intervir, segundo a abordagem de Creighton (1992) e Münster et al. (2017).

Assim, a colaboração relaciona-se com a construção de consensos, o que obriga a uma atividade de negociação, cedências e criação conjunta de novas soluções. Ou seja, na prática é algo que obriga a um processo propositadamente desenhado para esse efeito e que não ocorre naturalmente. Está muito além de uma mera comunicação ou explicação de uma decisão, obrigando a que se criem as metodologias para que as pessoas possam participar livremente e em igualdade, sem constrangimentos de poder. Normalmente uma dessas condições relaciona-se com o conceito de racionalidade comunicativa de Habermas (1981). Não basta juntar as pessoas numa sala e esperar que surja algo, um consenso e uma resolução. 

Assim, devemos ser críticos de quem mistura deliberadamente os termos participação e colaboração, especialmente quando servem para manipulação dos ditos participantes. Não esquecer o primeiro nível da escala de Arnstein (1969). 

Bibliografia:
Arnstein, S. (1969). A ladder of citizen participation. Jaip, 35(4), 216–224.
Creighton, J. L. (1992). Involving citizens in community decision making: A guidebook. Program for Community Problem Solving.
Habermas J. (1981), The Theory of Communicative Action: Reason and the Rationalization of Society. Boston: Beacon Press.
Münster, S., Georgi, C., Heijne, K., Klamert, K., Noennig, J. R., Pump, M., ... & van der Meer, H. (2017). How to involve inhabitants in urban design planning by using digital tools? An overview on a state of the art, key challenges and promising approaches. Procedia computer science, 112, 2391-2405.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Racionalidade Ignorante: somos ignorantes porque queremos

Na era da informação massificada, facilmente acessível e em tempo real, porque grassa tanta ignorância? Krek (2005) avança com uma explicação, ao dizer que as pessoas tendem a ser “racionalmente ignorantes”. Com isto quer dizer que fazem uma seleção com base no esforço necessário para conhecer ou dominar um certo assunto ou atividade. Como esse esforço pode ser grande, longo e sem trazer qualquer garantia de sucesso, podemos optar por ser ignorantes. 

Homens lendo - Goya
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Men_Reading#/media/File:Hombres_leyendo.jpg

E isto tende a ser cada vez mais comum porque o mundo está cada vez mais complexo. Tanto porque o conhecimento científico avança e tentar dominar apenas uma pequena área do saber pode ser um esforço pesado, se não mesmo impossível, podendo levar a uma vida inteira de estudo e investigação sem se chegar a esse objetivo. Por outro lado, os nossos contextos sociais estão mais complexos. A própria realidade é de uma profunda complexidade por todo o mundo. Estamos rodeados de problemas complexos, que se podem definir como aqueles para os quais existem múltiplas soluções possíveis sem existir uma solução ótima clara (Innes & Booher, 2016). De notar que o ótimo depende sempre do critério de avaliação, e que hoje em dia existem critérios imensamente distintos, de indivíduos para indivíduos. A complexidade de valores é imensa e variada.

Tendemos então a ser ignorantes em determinados assuntos e a escolher outros para nos especializarmos. O tempo é limitado e as solicitações cada vez mais. O critério de seleção nem sempre se guia pela busca de conhecimento ou aperfeiçoamento. Muitas vezes é simplesmente uma escolha pelo que dá mais prazer, algo muito tipico de sociedades livres, hedonistas, consumistas e do pós-modernismo, em que cada um se configura e reconfigura ao seu bel-prazer. Na verdade, não é bem assim, ou não é assim algo que se faça tão facilmente apesar de ser possível, porque as estruturas sociais têm efeitos e implicam restrições, ainda que sejam cada vez mais fáceis estes processos de escolha. Estes fenómenos ocorrem em redes, potenciadas pela tecnologia que escapam às delimitações territoriais (Castells, 1996), num movimento que podemos ver explicado pelo estruturalismo de Giddens (1984), que nos diz que tanto somos influenciados pela sociedade como a influenciamos. 

Então estão criadas as condições para sermos ignorantes por opção, porque racionalmente assim decidimos. Poderia pensar-se que o futuro a humanidade seria uma era de conhecimento gerado pela liberdade e acesso à informação, mas provavelmente será apenas livremente ignorante. Parece absurdo, mas pode ser tudo reduzido a uma questão de liberdade. Se antigamente, fruto do pensamento humanista e iluminista, a humanidade queria libertar-se para saber, agora liberta-se para poder escolher entre o saber e a ignorância.

Referências bibliográficas:
Castells, M. 1996. The rise of the network society. The Information Age: Economy, society and culture. Vol 1. Cambridge, MA: Blackwell.
Giddens, A. (1984). The constitution of society. Berkeley: University of California Press.
Innes, J. E., & Booher, D. E. (2016). Collaborative rationality as a strategy for working with wicked problems. Landscape and urban planning, 154, 8-10.
Krek, A. (2005), Rational ignorance of the citizens in public participatory planning. In 10th Symposium on information- and communication-technologies (ICT) in urban planning and spatial development and impacts of ICT on physical space, CORP 05. Vienna University of Technology: Vienna.

sábado, 31 de agosto de 2019

10 anos do blogue "A Busca pela Sabedoria"

Parece incrível, mas o blogue a Busca pela Sabedoria Faz hoje 10 anos! Pouca importância terá para outras pessoas, mas para mim – Micael Sousa, o autor – é muito importante. Este blogue surgiu numa altura da minha vida em que precisava de respirar coisas novas, e quem diz respirar diz ativar o pensamento com novos assuntos. Isto surgiu depois de estar a trabalhar há 2 anos no ramo da engenharia, mas onde, na prática, pouca era a verdadeira engenharia que fazia. Não passavam de rotinas e desencadear hábitos já estabelecidos sem muita oportunidade para pensar e inovar, especialmente no que fosse além daquele restrito mundo profissional, mas baseado na experiência que no conhecimento sistematizado. 



Acredito que isto aconteça a mais pessoas. Terminam as vossas formações, em cursos que até vos deram prazer a fazer, e depois vão para o mercado de trabalho e encontram uma realidade que não vos estimula nem desafia, mas que vos faz cair um peso sobre os ombros repressivo. Foi assim que me senti, porque sempre gostei da novidade de aprender coisas novas e cruzar conhecimentos, tal como de admirar e seguir apenas aqueles que merecessem respeito pelo que eram e faziam, não por qualquer outra convenção ou construção social fruto do acaso. 

Ao longo de 10 anos o blogue serviu de repositório para aquilo que ia descobrindo, aprendendo, estudando, projetando e estudando – repeti estudar porque foi no estudo formal que descobri um escape nos múltiplos cursos superiores que fui fazendo enquanto trabalhava. São bem percetíveis essas etapas e estados nos temas que dominam certos períodos de produção do blogue. Houve épocas especificamente dedicadas ao cinema, a filosofia, arte, política, património, ambiente, planeamento espacial e jogos de tabuleiro, isto só para citar alguns temas dominantes. O blogue sempre serviu como exercício de autorreflexão e estruturação do conhecimento. Não que seja uma fonte de conhecimento infalível, nada disso, mas porque é uma busca para o tentar ordenar conhecimento. Não são os textos mais úteis, mais inteligentes, com mais sabedoria, mas são aqueles que me foram possíveis e importantes de fazer nestes exercícios camuflados, nesta busca. 

O ritmo de produção já não é o que era. O blogue já vai longe das quase 1.000 visualizações por dia que chegou a atingir em certos momentos, até porque tenho cada vez menos tempo, mas solicitações e até mais blogues e vblogues para alimentar. É verdade, até pelo youtube tenho andado, principalmente para falar sobre jogos de tabuleiro modernos, enquanto arrisco, por vezes, uns textos sobre conteúdos aqui abordados. No fundo são mais exercícios de quem não teme o ridículo ou a produção de qualidade duvidosa porque sabe que isso é imensamente útil e necessário para se sentir vivo enquanto segue um caminho dinâmico rumo a alguma coisa de melhor. 

Então passaram 10 anos, mais de 650.000 visualizações, 452 textos e quase um milhar de comentários. A vontade é continuar, sempre ao ritmo próprio de cada momento da minha vida, porque isto dos blogues são coisas que fazem sentido por serem pessoais.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Variações no cinema português: um filme sobre António Variações

Tenho de admitir que tenho sempre uma certa desconfiança dos filmes portugueses. Mero preconceito, especialmente porque não lhes dou assim tantas oportunidades para me surpreenderem. Ontem fui ver “Variações”, que retrata a vida de António Variações, um cantor muito especial da história da música portuguesa. 

Fonte da imagem: https://mag.sapo.pt/cinema/filmes/criticas/variacoes-estar-alem-da-criatividade-para-revelar-antonio-ao-mundo

António Variações era um excêntrico, com uma personalidade com uma estravagância que irradiava em tudo o que fazia, especialmente na música, a sua paixão. Barbeiro de profissão, e cantor por vocação, ainda que sem formação, falamos de um homem que quebrava as regras e convenções sociais. Andou pelo mundo, mas não podia escapar à sua alma lusa. As suas músicas eram polémicas, ousadas e muito à frente do seu tempo, porque no fundo eram mesmo do seu tempo mas feitas com liberdade. Morreu cedo, de broncopneumonia muito provavelmente relacionada com o HIV, numa época em que não havia tratamentos adequado para essa calamidade. A sua homossexualidade, quase de forma inexplicável, acabou por ser aceite pela sociedade portuguesa da época, ainda fortemente conservadora. Os anos 80 foram um período de liberdade em Portugal, resultado da estabilidade que a jovem democracia ganhava. Variações, apesar da sua curta carreira e fama, fez parte desse movimento cultural. Hoje não duvidamos disso. António Variações era único, dificil de classificar no estilo e no tipo de música que criava. 

Este breve resumo pretende enquadrar a riqueza desta personagem e o seu lugar na história recente de Portugal. Ou seja, havia mais do que conteúdo para fazer um filme de qualidade, embora os filmes baseados em factos reais possam ser desinteressantes, pois a criatividade fica sempre condicionada. Neste caso, conhecer Variações é por si um ato de inspiração criativa, especialmente pela forma como o filme foi feito. Através desta longa metragem conhecemos a vida de António Ribeiro, que adotaria o nome de António Variações. Conhecemos o contexto social dos anos 50 no Portugal Rural, de finais dos anos 70 e inícios de 80 em Lisboa. Percebemos como foi o processo criativo deste autodidata e o mundo da música na época. Somos introduzidos à vida noturna e também, de algum modo, à comunidade gay de então. 

Mas mais que tudo isso. O filme é forte. É lento quando necessário, mas também ritmado e repleto de música interpretada pelo próprio protagonista, o que deve ter sido um enorme desafio. É magnificamente interpretado por Sergio Praia como António Variações e por Filipe Duarte como Fernando Ataíde, que encarnam uma relação amorosa de forma credível e repleta de emoção, algo que não terá sido fácil de fazer, tendo em conta toda a carga social e de preconceito associados às relações homossexuais, que por vezes são abordadas de forma incompetente, transformadas e retratadas de forma pouco digna, em situações de gozo e de ridículo. Guarda-roupa, ambientes, cenários, tudo feito com qualidade. Realização e produção irrepreensível, ao nível do que se faz de bom noutros países do mundo. João Maia está de parabéns! Trata-se de um filme tecnicamente rigoroso, mas passível de ser apreciado pelo grande público. 

Não estava com grandes expetativas, confesso, mas Variações emocionou-me. Era uma terça-feira e o filme estava em exibição há vários dias. Só consegui bilhetes para a primeira fila, o que é impressionante para um filme português. Provavelmente seria sempre um chamariz pela vida da personagem retratada e pelo sucesso que as suas músicas ainda hoje têm. Apesar disso a concretização não dececiona, pelo menos a mim não desiludiu, naquilo que foi, a meu ver, um dos melhores filmes portugueses feitos nos últimos tempos.

domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Uns comboios diferentes que trazem viagens inesquecíveis para aprendermos

Philippe Gougler é um jornalista e documentarista francês com uma extensa carreira, mas que nos tem chegado a Portugal de comboio, através da série de documentários “Des trains pas comme les autres” , exibidos na RTP2 com o nome “Inesquecíveis Viagens de Comboio”. Esta série tinha começado originalmente em 1987 na Antenne 2, mas foi recuperada e reformulada em 2011 pelo canal France 5, já como o atual apresentador e coautor. 

Philippe Gougler
Fonte: https://www.france.tv/france-5/des-trains-pas-comme-les-autres/saison-6/655355-zimbabwe-zambie.html
Em cada episódio desta série sobre comboios o apresentador, que escreve também os textos para o programa, segue “sozinho” pelos cominhos de ferro do mundo. O tema dos comboios, das estações e dos seus percursos serve para explorar as sociedades e culturas humanas contemporâneas. É uma forma de aprendermos história, geografia e cultura enquanto estamos no sofá a ver os comboios deslizar sobre os carris. Podemos encontrar curiosidades sobre o funcionamento dos comboios, dos sistemas de transportes, das cidades e das culturas de todo o mundo. A viagem de comboio até um certo sítio serve habitualmente de mote para tratar outros conteúdos, como o património histórico, a gastronomia, sistemas políticos, natureza, ambiente, economia, etc.

Gougler parece fazer o programa com tanta paixão, e falar tão genuinamente e de forma interessada com as pessoas com que se cruza, que dificilmente deixamos de ficar também apaixonados pelos contextos relatados. A série está feita para parecer que as viagens seguem sem formalismos, mas obviamente tudo foi planeado no percurso. Somente algumas das conversas dependem do acaso, embora algumas claramente tenham sido combinadas ou escolhidas perante muitas outras que se devem ter revelado desinteressantes.

Este documentário mostra como se podem fazer programas generalistas, para os grandes públicos, mas mantendo os conteúdos, com o devido informalismo. Estas são viagens a não perder. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

One Punch Man e a nostalgia do Dragon Ball

Volto aqui no blogue a um tipo de texto mais opinativo e pessoal. Para a minha geração a exibição do Dragon Ball na SIC foi algo de incrivelmente marcante. Hoje andamos já perto dos 40 mas este desenho animado da escola nipónica da Manga continua a mexer connosco. As referências continuam lá, tendo sido uma série que ajudou a construir a nossa identidade coletiva. 

Dragon Ball Z
Desde então poucos foram os desenhos animados que vi assim de enfiada. Acredito que isso tenha acontecido com muitos dos potenciais e reais leitores deste texto. Cheguei a ver outras criações Manga mas nenhuma teve aquele impacto, provavelmente pela idade que tinha na altura da exibição da versão dobrada em português e porque foi assim a série que demonstrou que tornou consciente do que se fazia lá para os lados do sol nascente. A partir de aí jamais esqueceria o estilo típico Manga, que nos provava que não havia nada de errado em sermos adultos e apreciarmos desenhos animados.


Exposição Manga-Tokyo in Paris
Fonte da Imagem: https://www.japantimes.co.jp/culture/2019/01/06/general/second-chance-japans-manga-museum/#.XSPL1PZFwic







No final do ano de 2018 estive em Paris e aproveitei para ir ver uma exposição sobre o universo Manga e a sua relação com a cidade de Tóquio. Foi surpreendente, pois não ia com grandes expectativas. A exposição era simplesmente fabulosa para quem gosta de Manga e de Urbanismo. Através das criações Mangas contava-se a história do Japão e de Tóquio. Maquetes gigantes da cidade com projeções de cenas de filmes clássicos manga. A cultura de animação japonesa influenciava a cidade e a cidade influenciava estas criações, conseguido através de exposição de obras originais, recriações e projeções num grande armazém da arquitetura do ferro. Até o primeiro Godzila lá estava. 

Esta visita trouxe-me a vontade em voltar a entrar no universo Manga. Por isso decidi ver algo que me tinham recomendado. Comecei a ver o One Punch Man e fiquei aparvalhado! Sabia a Dragon Ball, com mais humor, sarcasmo e repleto de sátiras ao próprio universo Manga. Genial! Devolveu-me anos de alegria esquecida, que contrastavam com o estado de espírito do herói Saitama, que vivia em depressão por derrotar todos os adversários somente com um murro. 

One Punch Man
Por isso fica aqui a recomendação. Se gostaram de ver Dragon Ball nos anos 90 e se querem ver uma coisa nova, satírica e divertida então vão já a correr ver One Punch Man.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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