quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O que é uma moeda local?

Existe uma extensa literatura associada às moedas locais. Este tipo de moedas, habitualmente implementadas por cidades ou até mesmo por aglomerados urbanos mais pequenos, existem em muitos formatos diferentes, criadas por muitos motivos distintos embora se destaque o desenvolvimento sustentável como principal objetivo. Podemos encontrar na literatura exemplos da criação de moedas locais para responder aos impactos locais de crises económicas de dimensão nacional, para responder à falta de moeda circulante ou para combater fenómenos de inflação, facilitando e coordenando uma economia de troca direta local. As moedas locais têm servido também como aplicação de políticas de desenvolvimento local e regional, permitindo, numa economia de mercado sem fronteiras, ter intervenção coletiva para assuntos concretos locais. Trata-se da tentativa de promover formas de desenvolvimento económico fortemente influenciado pelos conceitos de desenvolvimento sustentável, que conjuga as dimensões económicas, culturais, sociais, ambientais e de própria governação das comunidades.

O Banqueiro e a sua mulher - Marinus van Roejmerswaelen

Na prática as moedas locais podem ser quase eufemismos, e apenas existir como sistemas de troca por ações e comportamentos, escapando à abordagem economicista mais dura. Podem ser também suportes de apoio a processos de gamificação. Atualmente existem aplicações de moeda local prendem-se com a promoção de certos comportamentos cívicos, convertíveis em ganhos monetários, implementando uma espécie de “moeda local cívica”. Não se trata propriamente de substituir o modelo económico, mas de criar um sistema alternativo de recompensas, que existe de forma paralela, onde os cidadãos podem aceder a essas mais-valias, quer seja em cripto-moedas ou em moeda materializável, como recompensa por comportamentos benéficos para a comunidade.  Esses ganhos podem ser trocados por moeda corrente, mediante as regras de quem implementou e monitoriza o sistema de moeda local. Invariavelmente, as moedas locais tendem a estar ligadas aos movimentos ecologistas, à promoção de comportamentos alternativos e a formas de consumo mais sustentáveis. No entanto, apesar de tudo, podem servir como promoção turística dos territórios e como formas diferenciadoras de fazer marketing territorial. Mas as moedas locais podem ser tanto instituídas por organismos estatais ou governos locais, tanto como de modo mais informal por comunidades locais. 

As moedas locais, quer sejam implementadas através de sistemas de recompensas ou como mecanismos de intervenção económica direta, tendem assim a ser utilizadas para promover a produção e o comércio local, pois funcionam como subsídios que capacitam e alavancam a produção. Enquanto se faz isso estabelecem-se também redes sociais locais baseadas nas relações de consumo de vizinhança, que podem ser atividades para outras matérias, aumentando a resiliência das comunidades locais para responderem coletivamente a outros desafios. 

De um ponto de vista político, a implementação de moedas locais tende a ser vista como uma medida intervencionista, pouco popular entre os defensores do liberalismo económico mais radical. Apesar disso estas moedas podem servir como mecanismos de garantia de mais autonomia e alguma emancipação económica, atuando como um contrapeso perante a incapacidade de controlar os efeitos dos fluxos monetários globalizados nas economias locais. As moedas locais tendem a gerar atalhos e redireccionamento dos fluxos financeiros dentro de espaços territoriais delimitados, mas de forma a reduzir efeitos macroeconómicos. São formas de fixar alguns recursos localmente e de depender menos de ajudas externas, mesmo dentro de um sistema nacional. Ao estudar os fluxos das moedas locais é possível compreender melhor o funcionamento das economias locais.

As moedas locais apresentam vantagens passíveis de serem utilizadas nas políticas de desenvolvimento territorial, especialmente em territórios bem delimitados e quando aplicadas para objetivos precisos e atividades estrategicamente definidas. Nunca serão uma forma de substituir as moedas vigentes, embora isso tenho sido experimentado em casos de crise económica generalizada, mas que rapidamente se abandonou assim que os sistemas monetários nacionais se estabilizam. As moedas locais, não sendo um milagre, podem ser então ferramentas poderosas para o futuro das comunidades, quando devidamente conjugadas com outras formas de promoção do desenvolvimento local. Podem igualmente servir para refletir e verificar os efeitos locais da liberalização económica e dinâmicas de equilíbrios e desequilíbrios que se geram nas várias escalas territoriais. 

Referências bibliográficas:
Gomez, G. M., & Helmsing, A. H. J. (2008). Selective spatial closure and local economic development: What do we learn from the Argentine local currency systems?. World Development, 36(11), 2489-2511.
Helleiner, E. (2000). Think globally, transact locally: Green political economy and the local currency movement. Global society, 14(1), 35-51.
Pacione, M. (1999). The other side of the coin: local currency as a response to the globalization of capital. Regional Studies, 33(1), 63.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Os jogos como rituais de símbolos

Um jogo consiste num sistema de conflitos onde jogadores interagem, segundo regras, para tentar atingir objetivos, evidenciando-se o desempenho de forma mensurável (Salen & Zimmerman, 2004). Os jogos podem ser vistos como arenas de treino, como formas de arte e expressividade e, de um ponto de vista mais filosófico, como atividades que transpõem a realidade e transportam quem os joga para espaços mágicos. Johan Huizinga (2014), que foi provavelmente o primeiro grande filosofo moderno a dedicar-se ao estudo dos jogos, foi quem nos apresentou primeiro este conceito transcendental. Para ele os jogos permitiam transportar os jogadores para o “círculo mágico”, algo que se formava enquanto estávamos envolvidos e imersos num jogo, formando um espaço não sério onde a realidade era transfigurada num novo universo, que cativava e permitia outras formas de expressão, interação e criatividade. No entanto, este fenómeno e as emoções geradas pelos jogos podem ser nefastos, quando se tornam vícios, pelo que se exige equilibrio. Para Huizinga, o homo sapiens (sapiens), através da sua íntima relação com os jogos, torna-se homo ludens, indo para além da mera inteligência dita técnica e cognitiva. Apesar de não ser o único animal que brinca, é o único que joga deliberadamente e ao longo de toda a sua existência, em todas as idades e como forma de comunicação, geração de significados e vinculação social. Há que relembrar que jogar é diferente de brincar, pelo que no brincar não há um objetivo a atingir, enquanto que no jogo há sempre, há uma construção racional e ricas narrativas para explorar. 

Macacos a jogar cartas - Abraham Teniers

Então quando se procede a um ritual, incluindo as expressões religiosas mas não exclusivamente, através da conjugação de vários símbolos, não haverá tentativa de transposição para uma espécie de “círculo mágico”? O que são os símbolos se não elementos que combinamos para explorar significados e construir narrativas? Um jogo é uma construção criativa e social através de múltiplos elementos, de mecânicas e de estéticas, deliberadamente combinadas para um determinado objetivo jogável. Nos rituais combinam-se símbolos e procedimentos, gerando estruturas de significados que transmitem narrativas. Isto acontece em todos os rituais, religiosos ou não. Tomemos em conta os rituais familiares e de grupos mais ou menos informais como aqueles que caracterizamos como “grupos de amigos”. Os símbolos no geral são passíveis de múltiplas interpretações, mas nos jogos são vinculados por sistemas de regras básicas que deveremos obedecer. O jogo será então um ritual? Nessas atividades de jogos, vistos como rituais, tudo isso se materializa e adensa de modo crescente para atingir os tais objetivos. Pode ser tão simplesmente o ato de marcar um golo, que na prática consiste em introduzir uma bola numa baliza, mas que simbolicamente tem um significado poderoso de simbolizar o cumprimento do derradeiro objetivo, ganhando esse significado quando interpretado no “círculo mágico” de Huizinga, mesmo que não nos apercebamos.  

Indo um pouco mais a fundo nesta abordagem aos jogos, especialmente aos jogos analógicos, podemos chegar a uma diferente forma de “jogos dos símbolos”, o que não exclui a transferência da mesma analogia para o fenómeno digitais. Falar de jogos de entretenimento, seja em que formato for, carece igualmente de uma análise. Porque todos os jogos podem ser lúdicos no sentido de proporcionarem diversão, mas ao mesmo tempo sérios, tudo dependendo da interpretação e modo como são explorados. Quando se assiste a um ritual sem se compreender o devido significado, podemos ser levados a entender essas dinâmicas como brincadeiras ou infantilidades inúteis. Mas se compreendermos os significados e os objetivos ficam evidentes, tudo fica mais claro, e sobressai a importância da sua realização.

Nos jogos analógicos existem limitações óbvias. Não se recorre a multimédia, animação de imagens e sons, nem existem as automatizações que guiam os jogadores durante o jogo de forma tutorial. Nos jogos digitais as regras são forçosamente cumpridas através da programação estabelecida. São mais imediatos e intensos, mas igualmente mais efémeros e tendencialmente descartáveis. Já os jogos analógicos, vulgarmente conhecidos como jogos de tabuleiro, têm de recorrer a componentes físicos, altamente simbólicos das realidades que pretendem representar, algo só completamente conseguido quando conjugados com mecânicas de jogo, forçosamente ativadas pelos jogadores de forma consciente e intencional. Existem sistemas de regras, mas nada força a que os jogadores os tenham de seguir se isso resultar de um comum acordo. Podem simplesmente ignorar as regras escritas e fazer a sua própria interpretação, podendo criar outras harmonias ou caos, ou seja, outras regras. Mesmo seguindo as regras formais do jogo, previamente estabelecidas, nada garante que a interpretação pessoal de cada jogador ou grupo de jogadores seja a mesma do criador do jogo. Estas limitações são igualmente oportunidades, pois capacitam os jogadores para mais envolvimento, para interpretações pessoais e coletivas. Jogar este tipo de jogos nunca é uma atitude passiva. No entanto, estes jogos nem sempre geram interesse ou cativam todos os jogadores. Nem sempre os componentes e as mecânicas geram narrativas que transportam os jogadores para o “círculo mágico”. Nem todos percebem e retiram toda a riqueza deste sistema, tal como nem todos compreendem a forma e importância dos rituais, sejam eles quais forem. 

Referências bibliográficas:
Huizinga, J. (2014). Homo Ludens Ils 86. Routledge.
Salen, K. & Zimmerman, E. (2004). Rules of play: Game design fundamentals. MIT press.



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