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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Existiu uma civilização urbana no Amazonas que fabricava solo e geria a selva?

Das civilizações pré-colombianas das américas pouco se fala dos índios da bacia hidrográfica do Amazonas. Essas populações têm sido consideradas pouco desenvolvidas quando comparadas com as culturas da Mesoamérica e dos Andes. Os famosos, Maias, Incas, Aztecas, entre muitas outras civilizações e culturas, são dominantes no imaginário coletivo. Neste contexto os índios do Amazonas eram considerados povos seminómadas, de caçadores-recolectores que apenas pontualmente se dedicavam à agricultura, com tecnologia pouco mais desenvolvida que a dos povos da pré-história. 

GEORGE RETSECK (map); LUIGI MARINI (aerial view) in 
 Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

No entanto a ideia de que a bacia do Amazonas era pouco povoada antes da chegada dos europeus, e os seus povos pouco desenvolvidos, está totalmente errada. Estudos recentes têm contrariado esta ideia. Mas há que recordar que essa ideia de uma civilização amazónica tinha inspirado Percy Fawcett numa arriscada aventura, tendo desaparecido na selva brasileira em 1925, enquanto procurava por vestígios de uma grande civilização urbana desaparecida. Fawcett procurava pela cidade perdida de Z. 

Ao longo do século XX, especialmente nas últimas décadas, a possibilidade de encontrar cidades no Amazonas despertou o interesse dos arqueólogos. Destaca-se a descoberta do local arqueológico de Kuhikugu, pelo antropólogo Michael Heckenberger.  O local era composto por várias aldeias conectadas num sistema complexo polinucleado que no total podia acolher perto de 50.000 pessoas. Este achado foi muito badalado por um artigo publicado na revista Time em 2005. O nível de desenvolvimento destas comunidades é comprovado pela qualidade da cerâmica encontrada nas escavações, mas especialmente pela capacidade de engenharia hidráulica e agrícola. As escavações têm revelado a construção de sistemas complexos de drenagem e a criação de solo antropogénico, chamado “terra negra”. Este solo era produzido pelos índicos através de composições minerais e matéria orgânica, com forte presença de carvão vegetal. Este solo apresenta características únicas, de Ph neutro e que ainda não foi possível replicar.

Tudo indica que a bacia do Amazonas estaria povoada por estes sistemas urbanos polinucleados e altamente conectados. A Selva pode muito bem ter sido furto de uma manipulação e gestão orientada para suportar estas comunidades humanas, tendo esta realidade mudado com a chegado dos europeus e doenças que dizimaram a população nativa, obrigando os resistentes a optar por um modo de vida seminómada. Não existiam cidades de pedra, pois esse elemento é escasso nesses locais. Estas urbes construíam-se de madeira, barro e terra, elementos facilmente absorvidos pela selva ao longo dos anos. A selva tem apagado os vestígios, mas os solos encerram muita informação e novas tecnologias como o LIDAR permitem identificar estruturas e elementos produzidos pela mão humana ocultos pela vegetação e solo.

À medida que vamos sabendo mais sobre a ocupação humana pré-colombiana do Amazonas mais poderemos aprender sobre o que foi um sistema sustentável ecológico de desenvolvimento urbano. Pode ser uma solução para o nosso futuro, pois as cidades não têm de ser todas de pedra. 

Referências:

Clement, C.R.; Klüppel, M.P.; German, L.A.; Almeida, S.S.; Major, J., Aragão, L.E.O.C.; Guix, J.C.; Lleras, E.; WinklerPrins, A.M.G.A.; Hecht, S.B.; McCann, J.M. (2009). Diversidade vegetal em solos antrópicos da Amazônia. In As Terras Pretas de Índio da Amazônia -- Sua Caracterização e Uso Deste Conhecimento na Criação de Novas Áreas W.G. Teixeira, D.C. Kern, B.E. Madari, H.N. Lima, e W.I. Woods (eds.), pp. 147-161.  Manaus: Embrapa Amazônia Ocidental.

Clement, C., Denevan, W., Heckenberger, M., Junqueira, A., Neves, E., Teixeira, W., & Woods, W. (2015). The rain forest is a human creation. Embrapa Solos. 

Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

Heckenberger, M.J., A. Kuikuro, U.T. Kuikuro, J.C. Russell, M. Schmidt, C. Fausto, and B. Franchetto (2003). 1492: Pristine forest or cultural parkland? Science 301: 1710–1714. Heckenberger, M.J., J.C. Russell, J.R. Toney, and M.J. Schmidt. 2007. The legacy of cultural landscapes in the Brazilian Amazon: Implications for biodiversity. Philosophical Transactions of the Royal Society (B) 362: 197–208

Mann, C.M. 2005. 1491: New revelations of the Americas before Columbus. New York: Alfred Knopf.

WinklerPrins, A.M.G.A.  (2009). Sweep and char and the creation of Amazonian Dark Earths in homegardens. In Amazonian Dark Earths: Wim Sombroek’s Vision, W.I. Woods, W. Teixeira, J. Lehmann, C. Steiner, and A.M.G.A. WinklerPrins, and L. Rebellato (eds.), pp. 205-211.  Dordrecht: Springer Publisher

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Como a erva mudou a humanidade

Tendemos a minimizar a importância da erva, parece uma coisa comum, sendo por vezes até incómodo quando se trata de ervas daninhas. Mas as ervas, ou mais correctamente as gramíneas, foram muito importante para a evolução e história da humanidade. Podemos mesmo dizer que sem ervas não haveria humanidade como a conhecemos hoje.
 
Campo de Trigo - Silva Porto
Há cerca de 2.5 milhões as grandes planícies dominadas por espécies de gramíneas, ou seja, de ervas, começaram a ocupar áreas consideráveis do globo. Terá sido por essa altura que surgiu a espécie “Homo” e daí em diante todas as suas ramificações. As novas paisagem, dominadas pelas novas espécies vegetais, obrigaram a adaptações das restantes espécies animais. Para os “homos”, nossos antepassados, surgiu a necessidade de deslocação sobre duas pernas, garantindo segurança e visão acima das “ervas”.

Curiosamente, milhões de anos mais tarde, os atuais humanos, homo sapiens sapiens, por volta de 10.000 A.P., desenvolveram a agricultura. Cultivaram novamente gramíneas: trigo, centeio, aveia, etc. Foi a agricultura que permitiu desenvolver civilizações, as grandes cidades, a escrita, a organização política e a complexidade da organização social, dos cultos e do conhecimento.

Será também das estepes, das grandes pradarias euroasiáticas, que surgiram hordas de povos nómadas que destruíram, conquistaram e se fundiram com as civilizações, criando ciclos de ascensão e declínio ao longo da história, especialmente no Norte de África, Médio Oriente, Oriente e Europa. Estes povos são repetidamente registados, ao longo da história, pelas civilizações que com eles lidaram com vários nomes. Os registos arqueológicos comprovam estas mudanças, invasões, assimilações e adaptações. Talvez os mais conhecidos sejam os Hunos e os Mongóis, mas centenas de anos antes, e não milénios, há registos de grandes distúrbios também causados por povos invasores sobre as civilizações estabelecidas, especialmente a partir do advento da domesticação do cavalo.

Mais tarde, já depois da Idade Média, aquando da colonização dos continentes americanos, as “ervas” entram novamente em cena, contribuindo para o comércio triangular atlântico que iria moldar a história das américas e o comércio mundial. Os europeus criaram o comércio triangular entre Africa, Améria e Europa, sendo que a produção de cana-de-açúcar levada para as américas e produzida com mão-de-obra escrava africana foi essencial nesse processo. Hoje o açucar tem uma importância incontornável na nossa civilização, isto para não dizer que somos viciados em açúcar.

Assim, tendo aqui ignorado imensos casos e influências, pois daria um texto imensamente logo e moroso, fica um breve registo de como as “ervas” nos influenciaram e continuam a influenciar.

Algumas referências bibliográficas:
  • AMARAL, Ferreira do – Os filhos de Caim e Portugal: povos e migrações no II milénio a. C. Lisboa: Quetzal, 2003.
  • KEEGAN, John – Uma história da Guerra. Lisboa: Tinta da China: 2006.
  • SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir) – História Universal. 10 volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.
 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma introdução ao Sushi

A proibição de comer carne (primeiro decreto no século VII) e o não consumo de lacticínios levaram a que o peixe fosse a principal fonte de proteínas no Japão. 

Um provérbio japonês diz: “em primeiro lugar come-o cru, só depois grelha-o ou coze-o, como último recurso”. Dai a predileção pelo sashimi. 

O conceito de sushi nasceu um pouco por todo o sudoeste asiático como forma de preservar peixe (e carne), sendo cortado e colocado entre camadas de arroz para ser guardado durante os invernos e monções. A fermentação natural que ocorre quando o peixe é associado ao arroz gera ácido láctico que previne o apodrecimento. A junção do vinagre faz acelerar todo o processo. 

Foi no século XVII que surgiu a ideia de colocar pedaços de sashimi sobre bolas de arroz, nascendo os nigiris. Posteriormente começaram a enrolar, utilizando folhas de algas secas, os primeiros makis.
Bigsushi - Mary Ellen Johnson
O arroz do japão, fruto de séculos de manipulação natural, tem o bago mais curto e arredondado, tento também uma especial aderência que permite fazer os vários tipos de sushi e permite ser comido mais facilmente com recurso a pauzinhos. O processo de cozinha do arroz é bastante exigente, não podendo perder demasiada humidade, nem as peças de sushi serem feitas com o arroz demasiado quente para não afetar a frescura do peixe, nem demasiado frio para que não se perca a aderência. 

O peixe terá de ser sempre muito fresco. No caso dos peixes azuis (como o carapau e a sardinha) o próprio filete de peixe deve manter-se durante algum tempo em vinagre para assegurar a sua frescura e garantir um efeito anti-bacteriológico adicional. 

Da cultura japonesa o sushi recebe o conceito de equilíbrio. O Arroz deve ser cozido na mesma quantidade da água. Os vários sabores e as texturas devem equilibrar-se: o doce com o amargo, o crocante com o cremoso. 

Deve mergulhar-se os pedaços de sashimi e sushi no molho de soja para assegurar uma mais fácil digestão. Separadamente, ou diretamente no molho de soja, deve adicionar-se wasabi, que tem um efeito anti-bacteriológico. O gengibre, que é uma raiz tal como o wasabi, é também anti-bacteriológico, mas serve também para “limpar o paladar” sempre que se altera de tipo de sushi ou sashimi. 

Um mito japonês sugere que só os homens podem fazer devidamente o sushi, uma vez que a temperatura e humidade das mãos femininas alteram as propriedades do peixe. Obviamente é um mito sem qualquer fundamentação. 

As peças de sushi e sashimi devem ser comidas integralmente, sem cortes adicionais ou qualquer outro tipo de deturpação, de uma só vez. Não se devem usar as mãos nem metal para pegar as peças. Qualquer violação destes preceitos é considerada uma falta de etiqueta e respeito pelos japoneses.
Referência s bibliográficas:
  • Lins, Ana; Morais, Paulo; "Sushi em casa", Matéria Prima, 2012.
  • Wikipédia; "Sushi", disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sushi
  • Vários; "Sushi", Dinalivro, 2006.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Sociedade Portuguesa é Malthusiana?

Muitas coisas se poderiam dizer sobre a sociedade portuguesa, adjetivações boas e más. Uma delas é que se trata de uma sociedade Malthusiana [1]. Não se trata de um palavrão ofensivo, nem pouco mais ou menos, mas também, analisando o seu significado demográfico, social e económico, pode não significar nada excecionalmente bom.
Pastor - Amadeo de Souza Cardoso
A teoria Malthusiana, de um modo muito resumido, defendia que o crescimento da população, por assumir, tendo em conta os registos históricos estatísticos, um crescimento com base numa progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos seguia pelo crescimento aritmético, daria origem a uma incapacidade futura de alimentar a população. Para além dos dois crescimentos a tempos diferentes, criando o tal défice entre alimentos e pessoas a alimentar, a produção de bens agrícolas teria sempre um limite máximo que não poderia ser ultrapassado [2].
As teorias Malthusianas, que defendiam o controlo apertado da natalidade, foram refutadas depois da revolução industrial devido aos novos desenvolvimentos tecnológicos que fizeram subir muito a produtividade agrícola.
Atualmente, os índices de natalidade de Portugal nas últimas década observa-se uma forte queda [3]. A natalidade não está a assegurar a reposição das gerações. Isto deve-se, muito provavelmente, independentemente de razões do crescente individualismo da sociedade portuguesa, aos recursos disponíveis. Já não se trata de alimentação propriamente dita, mas mais de todos os custos que acarreta uma vida contemporânea em que a competitividade pode depender muito das condições de partida dos indivíduos. Ou seja, há, tendencialmente, a noção de que os meios que as famílias dispõem não são suficientes para proporcionar a um número considerável de filhos os padrões de vida ótimos e que os farão ter sucesso de um modo geral.
Assim, a sociedade portuguesa assume comportamentos neomalthusianos, para o bem e para o mal. Característica nem sempre replicada em paises semelhantes ou coparáveis a Portugal.
 
Referências
[1] - Arroteia, Jorge Carvalho; 2007. "Leiria e o pinhal litoral : sistema geográfico e contextos de desenvolvimento". Universidade de Aveiro.
[2] - "Teoria populacional malthusiana", disponível na Wikipédia.
[3] - "Nascimentos e Fecundidade", disponível na Pordata.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Portugal - Um País Históricamente Dependente do Exterior

Portugal, atendendo às caraterísticas geográficas não se distingue da vizinha Espanha quando se tenta comparar os dois lados da fronteira (1). No entanto, as fronteiras seguiram, sempre que possível, as linhas de água e cumeada de algumas serras. Tal como Espanha, Portugal vaira nas suas características geográficas de Norte para Sul e do Litoral para o Interior. Talvez por isso se afirme (2;6) que Portugal, enquanto realidade geográfica independente, é uma criação puramente humana. Talvez por isso mesmo se justifique a uniformidade e coesão do território nacional. Ou seja, Portugal nasceu no norte litoral e expandiu-se para sul (3), agregando as novas a diferentes zonas ao longo da reconquista, e posteriormente nas ações de povoamento e dinâmicas internas de ocupação que tentaram desenvolver o território. As várias zonas agregadas contribuíram com determinadas características para um todo nacional interdependente (3). Por exemplo, de um modo resumido: do norte atlântico saíram as grandes massas humanas, a nobreza medieval e a definição da repartição social; do norte interior o sistema municipal e organização concelhia; e do sul a economia urbana com forte relação com a área rural (1). Também as fortes tradições migratórias internas, trabalho sazonal e comércio contribuíram para a homogeneização nacional (6).
Título desconhecido - Amadeo de Souza Cardoso

A tendência dominante de um norte que, através da reconquista se impôs ao sul mas que foi depois por ele influenciado, não são as únicas razões para a coesão nacional. Segundo Orlando Ribeiro (3;6) já existiria uma língua, e talvez culturas comuns, antes da reconquista cristã. A península ibérica, por ser um local de passagem entre continentes, ainda que remoto, conheceu ocupação humana antiga (3). Na faixa ocidental litoral atlântica - sempre a mais remota da península - desenvolveram-se culturas distintas, mas ligadas ao exterior, tanto no paleolítico (os “concheiros”) e no paleolítico (civilização dolmética). Migrações posteriores criaram, na idade do ferro, o desenvolvimento de castros fortificados em altura que dominavam a paisagem. A posterior ocupação romana, integrou os antigos castros e ordenou o território em latifúndios e conventi - surgem muitas das delimitações territoriais, cidades, vias de comunicação que ainda hoje persistem. Terão sido essas delimitações administrativas que contribuíram para a definição das fronteiras do Estado, especialmente porque os Romanos terão também atendido às diferenças étnicas nesses ordenamentos (3). Com as consequentes invasões germânicas, e muçulmanas, grande parte das delimitações persistiram, mudando, em certos casos, apenas quem exercia o poder. A influência muçulmana ocorreu mais na cultura e técnicas que propriamente em mudanças nos limites administrativos.
Com as guerras de reconquista, surgiu a necessidade de repovoar os novos territórios. Desde logo o Estado português criou dependências com o exterior, começando pela própria primeira dinastia, responsável pela independência  que era de origem borgonhesa (4). Tanto a reconquista com o povoamento dependeram do exterior: cruzados estrangeiros ajudaram a tomar as principais praças-fortes do sul; colonos cristãos migraram para os novos territórios; e foram as ordens religiosas que conquistaram os grandes territórios do sul. A dependência para com o exterior continuou, posteriormente, a notar-se na balança de transações. Desde então a produtividade agrícola de Portugal nunca foi suficiente, as terras, apesar do baixo potencial agrícola (1) nunca foram aproveitados em todo o seu potencial, ainda que a esmagadora maioria da população se dedicasse à agricultura. 
O litoral, no final da idade Média e depois com a expansão marítima portuguesa, tendeu a ser a zona mais ocupada. Lisboa foi-se assumindo também como capital e importante cidade Europeia (3), mas sempre em grande dependência, pois era apenas um ponto de passagem do grande comércio que seguia rumo ao norte da Europa  No século XVIII, quando cessaram as remessas de ouro do Brasil e o comércio decresceu, o país tentou desenvolver o território da metrópole, ainda que se tenha continuado a apostar no expansionismo colonialista em África (5).
Importante também foi a recente afirmação de Portugal sobre uma grande zona de domínio económico e político. No entanto, essa pretensão tem assentado mais na herança histórica que no efetivo domínio e controlo dessas águas (2), algo que reforça a sensação da continua incapacidade de tirar o máximo partido do território continental.


Bibliografia

  1. Belo, Duarte; Daveau, Suzanne; Mattoso, José; 2011.”Portugal – O Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões”. Lisboa, Temas e Debate.
  2. Daveau, Suzanne; 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1998.
  3. Lautensach, Hermann; Ribeiro, Orlando. 1989. “Geografia de Portugal - Comentários e atualização de Suzzane Daveau. Lisboa: Edições João Sá da Costa.
  4. Mattoso, José; 1997. “História de Portugal vol.II – Monarquia Feudal”. Lisboa, Editorial Estampa.
  5. Medeiros, Carlos Alberto. 2006. “Primórdios da evolução dos pais. A expansão marítima e os seus reflexos”. Geográfica de Portugal. Revista Portuguesa de Geografia.
  6. Ribeiro, Orlando; 2011. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”. Lisboa, Letra livre.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mediterrânico – A estranheza de um clima pouco apto para a Agricultura


Em Portugal, como em qualquer outro país de clima predominantemente mediterrâneo, os Invernos são as estações mais húmidas e frias (ainda que desordenadamente) e os Verões secos e quentes. Por cá [Portugal] podemos pensar que pelo resto do globo os Invernos e Verões, a nível climático, se estruturam de modo semelhante aos nossos, apenas com variações nas quantidades de precipitação e temperatura. No entanto, o clima mediterrâneo é tudo menos comum na terra: apenas 3% do globo apresenta um clima do tipo mediterrânico (Bacia Mediterrânica; Costa da Califórnia; Costa central do Chile; Sudoeste da África do Sul; Costa Sul e Sudoeste da Austrália).
Montanhas na Provença - Cezanne
No clima mediterrânico, por mais normal que nos possa parecer – como habitantes de um país marcado por esse tipo de clima -, os Verões são muito singulares, pois é, simultaneamente, a época mais seca do ano. Curiosamente – provavelmente só para nós -, nas restantes regiões subtropicais temperadas, por exemplo, em Washington, que fica à mais ou menos à mesma latitude que Braga, os meses de Verão são os de maior precipitação! Aí, o calor significa mais humidade, e não secura como por cá [Portugal].
Apesar do clima mediterrânico ter muitas vantagens turísticas, pois o calor e a quase ausência de chuva nos Verões são ideais para atividades exteriores, na agricultura a mesma combinação é uma desvantagem, pois a vida vegetal desenvolve-se preferencialmente com humidade e calor em simultâneo – basta lembrar o caso da exuberância das selvas tropicais. Ou seja, no clima mediterrânico, à medida que os meses avançam e da primavera se passa para o verão, as chuvas começam a diminuir. Faltando a humidade e calor em simultâneo, a vegetação e a agricultura, por consequência, tenderá a ser menos favorecida nos países mediterrânicos. Mesmo assim, algumas espécies, tal como as oliveiras e as videiras adaptam-se bem a este clima, tal como todo o tipo de culturas de regadio, garantindo a mão humana aquilo que a natureza não provém.
Poderíamos então dizer que a irrigação resolveria os problemas e obstáculos à agricultura nos climas secos, tal como é o clima mediterrânico no verão. Mas podemos muito bem estar enganados, pois o excesso de irrigação leva à salinização dos solos e à sua consequente infertilidade. Esse fenómeno explica-se pela presença de sais, ainda que em pequenas quantidades, na água doce e que acabam por precipitar e se depositar nos solos, uma vez que o calor faz evaporar apenas a água (alusão direta às salinas). Apesar de ser um processo lento, a salinização dos solos acaba por ser inevitável. Hoje, na Mesopotâmia  muitos dos solos que foram irrigados e férteis durante séculos são agora estéreis. O mesmo parece estar a acontecer em Israel.
Esperemos então que as zonas mediterrânicas não atinjam o mesmo nível de saturação e salinização dos solos existentes já noutras regiões - onde se inclui obviamente Portugal, e mais particularmente o Alentejo. Esperemos que saibamos perceber as nossas limitações e o modo de as ultrapassar, sem soluções que agravem ainda mais as condicionantes naturais. Nem sempre forçar a natureza a uma coisa não natural tem bons resultados – redundâncias e trivialidades à parte. Por vezes a "fatura" vem anos, séculos ou milénios depois...
Nota: Usar o termos Mediterrânico ou Mediterrâneo é indiferente, segundo o sítio da Internet "Cinerdúvidas". Ver mais em: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=15372

Referências Bibliográficas:
  • Daveau, Suzanne. 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa.
  • Pereira, Ana Ramos. 2002. “Geografia Física e Ambiente”. Universidade Aberta
  • Ribeiro, Orlando. 2011. “Portugal o Mediterrrâneo e o Atlântico”. Letra livre.
  • Wikipédia. "Mediterranean climate". Consultado em 18 de Dezembro de 2012, disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Mediterranean_climate

sábado, 20 de março de 2010

O Neocolonialismo agrícola

Para quem pensa que o colonialismo é coisa do passado, que findou, quase na sua totalidade, durante o século XX, mantendo-se apenas resquícios de uma soberania meramente protocolar (Commonwealth, por exemplo), que se prepare para ser surpreendido. É sabido que, apesar das potências colónias terem abandonado o governo efectivo das suas colónias, mediante a globalização do capitalismo ocidental, a sua presença manteve-se através de ligações comercias, dívidas externas e a presença de empresas que continuam a operar e explorar os recursos das antigas colónias em proveitos das antigas metrópoles, embora que de uma forma mais benéfica para os países que nasceram das antigas colónias - pelo menos assim se diz nesses países.
Guardando porcos - Gauguin
No entanto, algo de novo começa a ganhar forma: uma espécie de neocolonialismo orientado para as reservas de terrenos férteis. Muitos são os países africanos que, devido à sua falta de meios, infra-estruturas organização interna e cultura para o aproveitamento, em benefício próprio, dos seus recursos naturais, enveredam vela venda e pela cedência dos seus melhores solos agrícolas a agricultores e empresas estrangeiras. Isto, mais que tudo, prejudica as economias locais desses mesmos países africanos e torna-os, inevitavelmente, dependentes das potências estrangeiras, tal como permite ao países compradores e investidores suprir as suas necessidades actuais e as futuras, inerentes ao seu crescimento (demográfico e económico).
Podemos dividir os países investidores no setor agrícola em dois tipos distintos, tendo em conta a sua situação actual e a futura: alguns  as chamadas potências emergentes apresentando elevadas taxas de crescimento demográfico (Índia, China, etc.), algo que não poderá ser sustentável pois num futuro próximo tenderão a exaurir os seus próprios recursos; outros são alguns países desenvolvidos, que actualmente estão já em défice de produção alimentar e completamente dependentes da produção externa para poderem crescer (Japão, Coreia do Sul, etc.).
Continuando este estado de coisas, no futuro, as potências compradoras e arrendatárias poderão continuar a crescer, economicamente e demograficamente à custa de recursos alheios (algo que a Europa já fez), desequilibrando e controlando grande parte dos recursos alimentares mundiais.

A meu ver, esses países africanos que têm vindo a ceder grande parte dos seus terrenos agrícolas em troca de ajudas externas, na forma de fundos, infra-estruturas e tecnologia, deveriam poder ter opção de escolha. Deviam ser devidamente informados das consequências destes acordos (embora acredito estarem conscientes, pelo menos os seus governantes) e ajudados pelas actuais Nações desenvolvidas, de modo a que possam, por si só, gerir convenientemente os seus recursos, evitando que apenas um punhado de países detenham o monopólio dos recursos alimentares mundiais. Pode estar em causa a estabilidade internacional.

Referências:

Segundo o artigo “A grande corrida aos solos agrícolas”, publicado em Dezembro de 2009 na “Courrier Internacional” (texto original de: Fernando Peinado Alcaraz, do El País), "o Congo cedeu cerca de 1/3 do seu território para utilização por parte de agricultores estrangeiros".
Também na edição portuguesa do "Le monde diplomatique" de Janeiro de 2010, segundo o texto “Corrida às terras africanas cultiváveis” da autoria de Joan Baxter, se refere a tendência para a procura de terras férteis agrícolas por parte das grandes potencias, algo que aconteceu no passado quando o petróleo se assumiu com um dos recursos mais importantes da economia mundial.

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