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sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Geopolítica do Médio-Oriente explicada através de "The Game of Thrones"

Benyamin Nethanyaohu terá,  perante o congresso dos EUA, comparado  a geopolítica do Médio-Oriente ao mundo fantasioso de "The Game of Thrones" e à geopolítica de Westeros. Os comentários a este bizarro acontecimento serão seguramente imensos. Deixo isso aos leitores deste texto. Interessante foi o desenvolvimento subsequente e profundamento da comparação em causa, divulgada depois pelo Washington Post e pelo Courrier International.
 

Aqui fica então o resumo do aprofundamento da comparação (traduzido pelo autor deste blogue) entre a várias casas (ou famílias) e grupos que compõem o universo geopolítico do reino de Westeros:
 
Lannisters – Arabia Saudita. É a casa mais rica e mais pujante de Westeros, assumem-se como "fazedores de reis" ou mesmo como os seus influenciadores mais diretos. Os eus assuntos familiares são sempre prioritários. Muitos criticam a sua brutalidade ou o facto do seu poder residir principalmente nos seus imensos recursos naturais. Mias que tudo defendem a sua hegemonia em Westeros, mas estão em cheque pelas suas recentes ações políticas.

Stark – Movimentos democráticos de oposição internos. Os movimentos existentes nos vários países que chegam ao poder mas são derrubados ou que ficam perto de o conseguir mesmo antes de serem esmagados. Tiveram um pequeno momento de sucesso, mas depois são atraiçoados e aniquilados. Alguns membros sobreviventes desta família entram na clandestinidade ou sob a proteção de poderes que não podem confiar.
Baratheon – Autocratas Árabes. Governaram durante algum tempo Westeros. Agora dependem dos Lannister devido às agitações generalizadas no reino, mas tentam encontrar novos aliados fora da sua terra natal.
Targaryen – Estados Unidos da América. São uma dinastia que vem de longe e dominou durante décadas. A sua hegemonia deve-se ao seu superior poder de fogo. As relações de interesses com os Lannisters entraram em crise, Muitos em Westeros desejam o seu regresso e intervenção para garantir a estabilidade do reino.
Greyjoy – Turquia. São nostálgicos da época em que reinavam sobre grandes áreas do território de Westeros. Para todas as outras casas isso são apenas histórias antigas, pois os Greyjoy mantém-se isolados nas suas fortalezas, rodeados de inimigos.
Martell – Irão. Vêem-se como distintos das outras grandes casas de Westeros, de uma origem etnica orgulhosamente diferente. Têm profundo ódio aos Lannisters e Tyrells.
Tyrell – Israel. Possuem um reino prospero. Apesar das diferenças, encontraram uma causa comum com os Lannister.
Os selvagens – os islamitas instalados a norte do muro. Intitulam-se como os povos livres que recusam as regras do sistema instituído.
Os caminhantes brancos – O Estado Islámico. A sua tática de terrível eficácia consiste em recrutar em massa novos membros. Ninguém sabe ao certo de onde vêm e o que querem, mas todos concordam que são abomináveis.
A guarda da Noite – Os Curdos. Estão encarregados da defesa de Westeros das invasões vindas do norte do muro, dos selvagens e dos caminhantes brancos. Há quem pense que são apenas mais uns criminosos.

Os povos dos rios - Iémen, Síria, Iraque e outros. São os povos que pagaram o maior preço com as guerras e destruição entre as grandes casas, pois, outrora, as suas terram eram pacíficas.


Fontes:

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Porque incomodam tanto aos Muçulmanos os Cartoons Maomé

Depois dos ataques terroristas ao Charlie Hebdo o mundo ocidental ficou estarrecido. A justificação terá sido o modo insultuoso como o jornal havia representado, diversas vezes, o profeta do Islão. Mas, conhecendo um pouco da cultura e tradições islâmicas, percebe-se que, mesmo que os cartoons não fossem insultuosos haveria sempre protestos fortes contra qualquer tipo de representação do profeta. Falo de reações puramente religiosas e não políticas, embora isso seja difícil de separar no Islão.
Muitos Xiitas e Sunitas, as duas principais correntes atuais do islamismo, condenam qualquer representação antropomórfica do profeta. Embora aparentemente essa não seja uma proibição direta expressa no Alcorão, alguns Hadith – tradições islâmicas de valor jurisprudencial - condenam-nas diretamente. Esta justificação tem origem antiga, advém do perigo da idolatria, quando um ídolo passa a ser mais importante que o significado representado. Também existem correntes que seguem pela proibição, pois somente Alá pode criar vida, mesmo que somente em representação.
O Profeta orando na Kaaba - gravura otomana do século XVI
Curiosamente, no próprio cristianismo surgiram movimentos semelhantes, por exemplo o movimento iconoclasta Bizantino e algumas tendências Protestantes já da época moderna, condenam qualquer representação de Jesus e demais personalidades bíblicas, muito menos de Deus. Apenas a cruz era possível de representar.
Voltando ao islamismo, não é de estranhar que para identificação visual do profeta se tenha recorrido a representações monográficas em escrita árabe. Também não é estranho estarem banidas das mesquitas quaisquer representações decorativas de vida. Habitualmente recorriam e recorre-se apenas a formas geometrizadas e às passagens do Alcorão como decorações e formas de passar a mensagem religiosa.
Por outro lado, se há registos de Hadith que fazem a proibição representativa de Maomé, também se encontraram Hadith que o representam, ainda que em alguns ele possa aparecer encoberto por véus ou representado simbolicamente como uma chama.
Extremismos, fanatismos e fundamentalismos à parte, para compreender o que se passa no mundo atualmente é necessário conhecer um pouco mais dos princípios pelos quais se regem os muçulmanos, e perceber que nem sempre os valores e ideais são universais entre todas as culturas. O que pode ser inofensivo para uma cultura pode não ser para outra.

Referências Bibliográficas
  • Donini, Pier Giovanni. “O Mundo Islâmico - Do Século XVI à Actualidade”. Editorial Presença, 2008.
  • Larsson, Göran. “Muslims and the New Media”. Ashgate, 2011
  • Grabar, Oleg. "The Story of Portraits of the Prophet Muhammad". Studia Islamica, 2003.
  • Robinson, C. F. “Islamic Historiography”. Cambridge University Press, 2003.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A Maçonaria (portuguesa) segundo o Diário de Notícias

 Parece que Portugal acordou para a Maçonaria, apesar de estar por terras lusas há pelo menos dois séculos. Curioso, mas coisa simples de explicar quando são os próprios Media que definem os interesses pela notícia, enquanto coisa valorativa. Como o tema está na berra, não podia deixar de recuperar um recorte de jornal de há uns tempos que guardei, de uma edição do Diário de Notícias (DN) que fazia uma grande reportagem sobre a maçonaria nacional. O artigo em si, demorando-se em pelo menos 12 páginas, aborda e faz uma leitura abrangente dessas sociedades secretas, expondo alguns casos e características da maçonaria em Portugal (referindo mesmo alguns dos destacados membros de hoje e de ontem – aquilo que parece cativar a imaginação das pessoas nos dias que correm). De tudo o que trata e apresenta a dita reportagem, trago aqui ao blogue principalmente os conteúdos explicativos e de razão de ser – segundo o DN – da própria maçonaria, especialmente da portuguesa.
O mito de Orfeu - Marc Chagall
  Se a origem medieval da maçonaria é real ou fictícia – uma espécie de mito histórico da criação da própria maçonaria – quase ninguém saberá. Provavelmente só os membros dessas sociedades maçónicas mais tradicionais, caso guardem documentos e outros testemunhos ou provas, o podem atestar. De qualquer dos modos, mesmo podendo a maçonaria não ser tão antiga como a existência das guildas ou grupos de mestres-pedreiros que construíram as catedrais e edifícios mais complexos medievais, os símbolos e associações, tal como o próprio nome, bebem muito desses tempos. Não é por acaso que maçon em francês quer dizer pedreiro - aquele que trabalha a pedra. É que na Europa Medieval cristã os mestres-pedreiros medievais eram dos poucos a ter conhecimentos de matemática, geometria, gestão e capazes de projetar. Há que lembrar que as poucas universidades que existiam eram de criação muito recente e se dedicavam quase exclusivamente aos estudos da teologia e do direito (quanto muito medicina também em alguns casos com a denominação de física); o estudo das bases que seriam a ciência de hoje nas universidades ainda teria que esperar uns séculos. Ainda na língua francesa, “franc-maçon” significa “pedreiro livre”, numa relação com o livre construtor, aquele que pela sua liberdade, capacidade e conhecimentos podia construir algo de novo ( e no caso da pedra, transformar uma pedra bruta num elemento perfeitamente geométrico e/ou ornamentado). Os conhecimentos que estes mestres construtores tinham deram-lhe, em tempos feudais medievais e de liberdades condicionadas, um estatuto social distinto. Não eram nobres, mas tinham algumas regalias e liberdades especiais (incluindo a de deslocação e trabalho por conta de quem escolhessem), pois o poder secular e religioso precisava dos seus saberes e conhecimentos para a construção das grandes obras – aquelas que aspiravam a tocar os céus e ficar, metaforicamente, mais perto de Deus.
  Mais tarde, depois do renascimento, quando o conhecimento dos antigos clássicos começou a ser redescoberto. Também com um maior acesso à informação e sua disseminação mediante a invenção e generalização da imprensa, o conhecimento acumulado do passado e restrito a alguns grupos – guildas de ofícios, onde se incluíam os mestres-pedreiros, o saber das universidades e do mundo sacro – passa a ser de acesso mais facilitado. Mas foi durante o Iluminismo do século XVIII – sem se saber o que deu origem a quê, se o iluminismo à maçonaria ou a maçonaria ao iluminismo, ou se mera coincidência entre ambos - que a maçonaria ganhou o cunho, simbolismo e razão de ser que a caracteriza ainda hoje. A Maçonaria nessa altura ganhou o cunho, mais que tudo, filosófico e cultural - os pedreiros talhariam da ignorância o saber, e do homem rude o homem aperfeiçoado. O objetivo não seriam as construções de pedra mas as do saber. Diz-se que foi da maçonaria que nasceu o triplo ideal de: igualdade, liberdade e fraternidade. Diz-se também que a maçonaria esteve envolvida em muitas das revoluções e lutas pela liberdade, exemplo da Revolução francesa, Independência Americana, da Independência do Brasil e da Revolta Liberal em Portugal (1820). Já a relação com a Implantação da República em Portugal em 1910 é também inegável.
  Hoje existem pelo menos dois tipos diferentes de maçonaria: a regular e a irregular. Na regular é obrigatório que cada maçon confesse uma religião, pois, independentemente de qual for, terá de crer no “Grande Arquitecto” ou GADU – a entidade, força ou divindade da qual o universo tem origem e razão de ser, seja qual for o nome que lhe atribua (Javé, Jeová, Alá, Deus, Buda, etc.). Ou seja, na maçonaria regular é possível estarem reunidos na mesma loja (a maçonaria organiza-se em lojas, o que pode não ser um espaço físico mais apenas a designação do grupo em causa) maçons de várias religiões, sendo vedada a presença apenas a ateus. Por outro lado, na maçonaria irregular podem ser admitidos ateus. Também apenas na maçonaria irregular se permite a iniciação de mulheres, em lojas femininas ou mistas.
  Segundo o artigo onde se baseia a maior parte da informação, que a primeira loja maçónica nasceu em Inglaterra em 1717, mas as origens, tal como já foi referido, parecem ser muito anteriores. Em Portugal a maçonaria organiza parece ter surgido no dealbar do século XIX, embora se haja indícios de alguns destacados portugueses que já anteriormente tinham ligações maçónicas a lojas fora do país. Atualmente existem em território nacional duas grandes obediências: uma regular com a designação de “Grande Loja Legal de Portugal” ou “Grande Loja Regular de Portugal” (GLLP/GLRP); e outra irregular com a designação “Grande Oriente Lusitano” (GOL). Consta que ambas terão cerca de 2000 maçons entre os seus membros, perfazendo então mais de 4000 maçons a nível nacional inseridos em ambas as duas grandes obediências, mas existem seguramente mais maçons com outras obediências não tão numerosas e conhecidas.
Os graus da maçonaria, ou hierarquias, podem obedecer a dois sistemas distintos. Ou se segue o rito escocês ou o rito de York. No primeiro existem 33 graus (ou níveis) enquanto no segundo apenas 10. Em Portugal o mais praticado parece ser o escocês.
  Os símbolos maçónicos são muitos, podendo ser consideramos os seguintes como mais importantes: o compasso (símbolo da retidão, ação do homem sobre a matéria e sobre si mesmo, e moralidade); o esquadro (símbolo da justiça, exatidão, do espírito, pensamento, e do absoluto pela relação com o círculo); a letra “G” (significa: gravitação, geometria, geração, génio, gnose, glória, e grandeza); o avental (símbolo de trabalho, com diferentes cores e inscrições para distinguir os vários níveis dentro da hierarquia maçónica); os 3 pontos (significam: luz, trevas e tempo; nascimento, vida e morte; sabedoria, força e beleza; liberdade, igualdade e fraternidade); a pedra por talhar e a pedra talhada (relação com a busca pela perfeição através da dedicação e trabalho), e; as colunas (símbolos dos limites do mundo, da vida e da morte, do ativo e do passivo, do elemento masculino e feminino).
  Hoje, atendendo novamente à reportagem, o acesso à maçonaria é mais liberalizado que em épocas do passado. Hoje pode-se ser iniciado na maçonaria por convite ou por autoproposta. No entanto, os maçons, segundo eles mesmos, tendem a ser cuidadosos e exigentes na admissão de novos membros. Explica o DN que são város os paços para se tornar maçon: Convite (ou autoproposta); investigação sobre o candidato; rito de iniciação, com chegada de olhos vendados ao local para o efeito (templo ou local de reunião da loja ou obediência), seguido de interrogatório e “testamento maçónico” – um documento de teor filosófico -, de 3 voltas ao templo - na presença dos “irmãos” maçónicos de loja - e por fim, dada a última volta, o candidato é considerado maçon, recebendo o grau mais baixo – grau de “aprendiz” -, sendo de seguida queimado o seu testamento maçónico.
  Nos dias que correm, em sociedades democráticas e onde se aspira a cada vez mais transparência pode ser difícil de perceber e compreender a razão de ser deste tipo de sociedades secretas. Tais receios e incompreensões ganham outra dimensão, no caso da maçonaria, por serem constituídas, habitualmente, por elites. Ou seja, é normal, especialmente por desconhecimento, que se se desconfie sobre quais os assuntos e propósitos maçónicos. Os receios, tendo em conta alguns casos divulgados nos Media, poderão ter real fundamento. No entanto, atendendo a história (perseguições, punições, violências e intolerâncias), é igualmente compreensível que alguns maçons tenham receio em revelar a sua filiação iniciática.
  Para melhor compreensão da maçonaria e seus objetivos, é útil citar aqui José Manuel Anes e a definição que ele próprio dá de maçonaria: “Organizações fraternais, com uma determinada regra de funcionamento e de vida, sujeita a uma hierarquia cujo o objetivo é o aperfeiçoamento espiritual dos seus membros”. Com esta definição e objetivos não será difícil ter simpatia perante estas organizações. No entanto, podem existir linhas muito ténues entre desenvolvimento (e aperfeiçoamento) dos membros destes grupos e favorecimento dos mesmos à custa de toda a sociedade. Claramente isso, a acontecer, seria uma óbvia subversão dos ideais maçónicos tal como são apresentados pelos próprios membros; provavelmente é mesmo ai que reside toda a polémica em torno da maçonaria nos dias que correm. Numa sociedade democrática até faz todo o sentido que os indivíduos se queiram aperfeiçoar pelo seu próprio mérito e valor, pois até será toda a sociedade que ganhará com isso. O que falha depois será a relação do ideal com o real
  De qualquer dos modos, tal como em muitas outros assuntos, há que evitar o obscurantismo e preconceito. Uma opinião sobre este assunto será tanto mais válida quanto mais informada for. Aqui entramos no paradoxo, pois, como estas sociedades são supostamente secretas, dificilmente as opiniões sobre o que são e o que fazer poderão ser verdadeiramente informadas.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Especulação Imobiliária - um mau investimento

  Num artigo (1) do jornal Le Monde Diplomatique, Pedro Bingre do Amaral, trata o assunto do descontrolo do sector imobiliário e dos efeitos da bolha especulativa imobiliária nacional. Muitos foram já os escritos sobre a especulação imobiliária, mas este artigo vai mais longe, nele o autor acaba por retratar também os hábitos e tendências económicas de investimento nacionais, apontando algumas razões para a debilidade da economia portuguesa e sua relação – causa efeito - com o sector imobiliário nacional, e também com a política de gestão de solos e ordenamento do território.

Corvos voando sobre Seara de trigo - Van Gogh
  Apesar dos axiomas do liberalismo económico apontarem para a defesa do mercado livre, sem regulamentação estatal, alguns dos ideólogos - e verdadeiros paladinos - dessas mesmas teorias (Stuart Mill e David Ricardo), tal como cita Pedro Bingre Amaral, advertiam que: “numa economia demasiado leve na tributação do património e mal regulada em termos de mercados de solo (agrícola ou urbanizável) existe uma tendência irreversível para a maioria dos ganhos de produtividade – de crescimento da riqueza – ser apropriada por rentistas e especuladores imobiliários, espoliando-se toda a sociedade para pagar o oportunismo de um ínfimo número acaparadores de imóveis”. Ou seja, sem regulação e controlo alguns indivíduos beneficiam de ganhos sem que, pelo valor direto ou indireto da transação (ou até valor acrescentado), tragam valor à sociedade em que se inserem e que se relaciona com os solos em causa. Ainda mais pernicioso que isso, tal como refere o autor, é o crescimento económico com base na especulação imobiliária que prejudica tanto a economia nacional como a vida do cidadão comum, os efeitos são micro e macro económicos. Aprofundando mais essa questão, as pessoas que contraem dívida para adquirir os bens inflacionados acabam por perder os ilusórios ganhos de poder de compra associados ao natural e espectável crescimento dos salários, pois estão a comprar algo inflacionado e longe do valor real do bem não inflacionado. Em suma, em vez das famílias prosperarem economicamente a tendência pode ser efetivamente o contrário devido à especulação imobiliária, podendo-se atingir a catástrofe se a bolha especulativa efetivamente rebentar e ficar evidente que se pagou e continuará a pagar algo que não vale o que se supunha. Em parte foi isto que aconteceu nos EUA – a crise do subprime - e a razão do início da crise de 2008 que alastrou por contaminação ao mundo. Mas por cá a nossa economia sofre também, ainda que doutro modo, de uma muito própria especulação e descontrolo imobiliário.
  O caso do imobiliário nacional é paradigmático. Com 12% dos imóveis vazios, valor que pode atingir os 25% se se considerarem as habitações de segunda residência, como explicar o contínuo contrair de crédito para continuar a investir no imobiliário? Como explicar que, em Portugal, uma das primeiras opções, apesar da quantidade de casa vazias, seja optar pelo endividamento para construir ou comprar novo, vendo essa opção como um bom investimento, proveitoso e de rentabilidade garantida para o futuro? Provavelmente, de um modo simplista, a resposta para isso é: a instalada ilusão especulativa imobiliária. Tal como refere o autor do artigo que sustenta este texto, como explicar que o preço do m2 de uma construção de habitação em zona rural de Portugal seja cerca de 1200€ enquanto que no perímetro urbano de Berlim, com salários que facilmente triplicam os nossos, os valores rondem os 1400€? As respostas são várias, entre elas ficam algumas bem evidentes: as falhas de planeamento, controlo e ordenamento do território que deixaram terreno livre para a criação de uma bolha especulatória imobiliária e desordenamento do território (e da utilização dos próprios solos) alargados a todo o território nacional.
  Outro aspeto caricato da nossa nacionalidade, já também referido, é a tendência de investimento. É usual, quando um cidadão português pensa em investimento, considerar logo, como umas das primeiras opções, em adquirir imobiliário para legar à família ou para esperar a sua valorização para posterior venda. Mas de onde vem então essa suposta valorização? A resposta é, salvo algumas exceções – valor artístico, de autor, ou outros do imóvel -, a especulação. Pois, se pensarmos, um imóvel por si só nada, pior ainda quando muito deles estão vazios (25% na pior das hipóteses), nada acrescenta ou produz de valor. Esta afirmação pode ser contestada, dizendo por exemplo que uma habitação traz valor acrescentado por criar mais habitabilidade. Certo, mas se ninguém necessitar dessa suposta mais-valia o imóvel de pouco serve, logo pouco vale.
  Os investimentos dos portugueses tendem muito para o sector imobiliário, dai talvez a razão para a qual o investimento em Portugal, estatisticamente, ser pouco rentável (2) comparado com outros países. Isto pode ser apenas mais uma especulação, mas que será de Portugal quando e se a bolha da especulação imobiliária, ainda que de dimensões não comparáveis à dos EUA, verdadeiramente rebentar e muito do valor investido revelar ser uma mera ilusão? Pior será quando se demonstrar que esse investimento foi, ainda por cima, urbanisticamente desordenado causando insustentabilidade urbana (3)(4). Preocupante será também o excesso de peso do sector da construção civil na economia portuguesa, sector que com a contração na construção contrai diretamente a própria economia.
  Esperemos que o choque possa ser evitado: que todas as habitações vazias possam ser habitadas, que seja evitado o recurso excessivo ao crédito e se recorra mais ao arrendamento (com regras adequadas), e claro, que se regule o sector imobiliário (e se faça efetivo ordenamento dos solos e do território) de modo a que a especulação seja uma área de investimento insustentável.

Referências Bibliográficas:
1 – "Neoliberalismo, um álibi da especulação imobiliária". Pedro Bingre do Amaral. Nº43 da edição portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique de Maio de 2010.
2 – “Economia Portuguesa – as últimas décadas”. Luciano Amaral. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010
3 – “Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos”. Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/05/transportes-urbanos-e-habitacao-uma.html
4 – “As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias". Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/01/as-disfuncionalidades-urbanas-das.html

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

As vantagens e virtudes da mediocridade

Estava eu a desfolhar uma revista Super Interessante (SP) à toa e dou por mim a ler um artigo sobre os antagonismos: genialidade e mediocridade. Até aqui tudo normal, ninguém duvida que os termos são opostos e têm significados que servem para caracterizar eventos ou realizações radicalmente diferentes. Podem até ser, cada um dos termos respectivamente, sinónimos por associação de bom e mau. No entanto, no artigo intitulado de “O ataque dos Medíocres” da edição portuguesa de Março de 2011, da anteriormente citada revista, são explorados e explanados tanto os aspectos negativos como positivos, especialmente as vantagens sociais, tantos dos medíocres como dos génios.
Decalcomania - René Magritte
Diz-nos o senso comum, independentemente dessa excelente ferramenta do juízo imediato ser genial ou medíocre, que um génio traz vantagens para uma determinada sociedade na mesma medida em que pode trazer também alguns problemas. Se a inovação, a capacidade de ir além dos limites do comum nos fazem evoluir, e até poderem ser as características que nos tenham tornado uma espécie de sucesso, para além disso existe  também o lado negro da genialidade. Uma sociedade humana precisa igualmente de estabilidade, de ordem, de membros que desempenhem funções mais corriqueiras – mais igualmente importantes -, e até uma certa capacidade de obediência, a bem da  necessária coesão social. Estes pretensos defeitos  e incapacidades da genialidade podem ser então as virtudes da mediocridade. Penso ser aqui que reside o especial interesse do artigo que serviu de base ao presente texto, pois é pouco habitual falar nas “virtudes da mediocridade”.
Como se refere no artigo da SP, os medíocres são extremamente úteis socialmente: garantem a estabilidade; são obedientes e manipuláveis; aceitam e são felizes realizando trabalhos menos complexos e criativos, e mais repetitivos; apreciam a rotina. No entanto, tal como é citado no artigo em causa, a mediocridade pode-se manifestar em três níveis distintos. Luís de Rivera, catedrático de psiquiatria, faz essa distinção:

  • 1º Nível a mediocridade comum - falta de originalidade e hiper-adaptação.
  • 2º Nível a mediocridade pseudo-criativa - semelhante à primeira com o acréscimo pernicioso da imitação dos processos criativos, numa relação com a necessidade de ostentação e indiferenciação do belo e do feio, do bom e do mau.
  • 3º Nível a mediocridade inoperante activa (já numa forma de patologia) – resulta em práticas de assédio enquanto que os anteriores níveis têm, de um modo geral, apenas a incapacidade de reconhecer e identificar a genialidade; estes indivíduos não são produtivos nem criativos, mas possuem um enorme desejo de notoriedade e influência.
Assim, tendo em conta o que se disse anteriormente, e ao fazermos uma breve análise superficial sobre a história da humanidade, parece que quase sempre existiu uma contínua disputa entre génio e medíocres. Parece que, independentemente dos conflitos armados, muitos foram os conflitos entre os inovadores e desalinhados e os ordeiros e “cinzentões”,  ao longo da nossa existência enquanto espécie. No fundo a oposição entre genialidade e mediocridade era muitas vezes a justificação para lutas de poder (relacionamento com a genialidade versus nível de mediocridade inoperante), ainda que esse poder pudesse passar por coisas tão variadas como os hábitos, os costumes, os modos de organização social e até visões do mundo.
Neste caso, como em muitos outros, parece que no meio-termo é que estará a virtude e o caminho para uma sociedade coesa, harmoniosa e com capacidade de progresso, isto porque numa sociedade complexa há sempre muitos papeis a desempenhar pelos vários actores sociais. Penso que com esta afirmação me posso classificar, como dizia no artigo o professor Luís Rivera, como um medíocre pseudo-criativo, pois se analisarmos bem esta afirmação (e até todo o texto) bem que a podemos considerar um plágio que nada traz de novo.

domingo, 8 de maio de 2011

A melhor defesa militar da História fica em Portugal

Sim, podemos dizer que a melhor defesa (ou complexo de defesas) militar da História, ou pelo menos aquela que foi mais eficaz por ter sido intransponível, fica em Portugal. Provavelmente, quando se fala em grandes e eficazes defesas pensa-se em grandes e altos castelos medievais ou em arrojados e recortados fortes pós renascentistas (ver texto relacionado). 
Batalha da Roliça - Thomas Sutherland
Mas, a aquela defesa a que me refiro não se assemelha a nada disso. Falo das Linhas de Torres Vedras, o complexo de fortificações construído para defender Lisboa durante as Invasões Francesas. Este sistema era constituído por redutos, baterias, paliçadas, taludes e por um magistral aproveitamento do terreno, potenciando ainda mais os obstáculos naturais - os grandes declives e as linhas de água - na sua capacidade defensiva. No fundo, mais do que um majestoso e resplandecente conjunto de muralhas, morro, torres, baluartes e afins, a Linha de Torres Vedras era composta por elementos simples, improvisados - sem grande estética ou beleza -, pouco duráveis - dai pouco hoje sobrar -, mas que permitiam e davam uma confortável vantagem defensiva a quem as ocupasse. Vantagem tão grande que nunca foi ultrapassada pelo exércitos agressores contra os quais foi construída - os exércitos de Napoleão. Para as Linhas de Torres Vedras foram construídas 152 fortificações, contendo 523 peças de artilharia, munições e outros mantimentos, muitas vias de ligação e sistemas próprios de comunicação - sistema de balões e bandeiras -, tal como sistemas de drenagem de águas e esgotos.

O projecto foi liderado e conduzidos pelos Ingleses - os velhos aliados da nação Lusa (ver texto  relacionado) -, que vieram, propositadamente, no inicio do século XIX para ajudar no combate aos Franceses, mas executado por mão-de-obra nacional. Parece que foi também incrivelmente barato, tendo em conta o volume, complexidade e celeridade dos trabalhos. Estima-se que tenha custado, à moeda actual, 300.000 euros.

Passados hoje já quase 2 séculos sobre estas construções, que podemos nós aprender dela e por ela para a nossa actualidade? Será que somente com lideranças estrangeiras e força de trabalho nacional conseguimos construir algo barato, funcional e cumprindo os prazos? Bem, penso que não, pois isso seria demasiado pessimista! Mas parece-me que podemos concluir que, trabalhando em equipa, aproveitando os pontos mais fortes de todos os envolvidos e dos recursos disponíveis, tanto ontem como hoje, seremos capazes de feitos consideráveis.

Nota: A grande maioria destas informações foram retiradas do artigo "Adeus, Napoleão!  - a defesa mais eficaz da história é Portuguesa" da edição de Novembro de 2010 da revista Super Interessante. O texto do artigo original pode ser consultado, quase na integra, no blogue "Clube de história de Valpaços" em: http://clubehistoriaesvalp.blogspot.com/2011/02/adeus-napoleao.html.

domingo, 3 de abril de 2011

Utilização involuntária do blogue como pseudónimo - um blogónimo?

Nunca pensei criar um pseudónimo  - um nome fictício usado em alternativa ao nome legal, usualmente para assinar obras ligadas às artes e literatura [1], muito menos um heterónimo - utilização de nome e criação de toda uma diferente personalidade associada a ele em alternativa ao nome legal [2]. Nunca tive tempo nem vi utilidade em mais esse invento, mas curiosamente acabei por o fazer involuntariamente. 

Recorte da edição de 26-03-2011
Então não é que fiz um comentário, utilizando a página de facebook do blogue A Busca pela Sabedoria, a uma notícia divulgada na também página de facebook no semanário regional Região de Leiria e essas palavras foram publicadas na sua edição em papel? Curioso de facto, pois este comentário não fora feito com esse objectivo, pelo menos não o de sair na edição física do jornal. O objectivo era apenas, através deste blogue, que, a mal ou a bem, até tenta procurar o saber e compilar trechos daquilo a que se pode chamar cultura geral, apoiar e felicitar uma iniciativa local de recriação histórica do Município de Leiria - ou não se inserissem muitos dos textos do blogue nos saberes, ainda que amadores, da História.

Este comentário muito provavelmente passou ao lado dos leitores do jornal, até porque não é evidente, pelo menos para quem não faz ideia de que A Busca pela Sabedoria é um blogue. Mesmo assim, o mínimo que posso fazer é agradecer ao Região de Leria pela publicação, que acaba por ser uma forma de divulgação do blogue - para mim, apesar de ser um sorvedouro de tempo, escrever nele é uma enorme fonte de prazer.

Ao fim ao cabo, não terei, mesmo que involuntariamente, me servido de algo que se poderia considerar um  pseudónimo ou "blogónimo"? Com esta questão não terei também acabado de criar também um neologismo?

Fontes:
[1] - http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/pseud%C3%B3nimo
[2] - http://www.infopedia.pt/$heteronimo

terça-feira, 15 de março de 2011

Serão as Redes Sociais um perigo intelectual?

Parece que lá nos confins da Grécia Antiga, lá para os lados da Atenas Democrática, Sócrates, aquando do auge da influência de em vida, dizia temer a escrita. Parece que o filósofo tinha receio de que a o acto de escrever e ler, em vez do falar e reflectir sem auxiliares físicos, contribuísse para que as pessoas ficassem esquecidas. Ou seja, como podiam escrever tudo, não tinham de exercitar a memória. Curioso é que conhecemos estes receios de Sócrates porque Platão usou da temida escrita para nos legar essas informações. 
Os condutores - Fernand Léger
 
Hoje, e a propósito de um artigo da revista Super Interessante, intitulado de "Dissidentes Digitais", da edição mensal de Novembro de 2010, alguns pensadores e investigadores temem também os efeitos da tecnologia na intelectualidade, mais propriamente as Redes Sociais e a própria Internet.
Segundo esse artigo Nicholas Carr adverte para os "efeitos devastadores nas nossas aptidões cognitivas" e para a redução drástica da "capacidade de concentração". Refere-se que Jaron Lanier considera a capacidade de qualquer um fazer divulgações, e interacções por comentários ou outros, torna difícil de reconhecer o talento dos criadores e a qualidade do que se produz. Ainda no mesmo texto Lee Siegel é apresentado como o mais incisivo dos detractores das Redes Sociais, desvendando porventura o cerne das críticas negativas: "a Web 2.0 [onde se incluem as redes sociais] destrói a autoridade dos especialistas e afecta de uma forma muito negativa o progresso da sociedade e da cultura".
Mas parece que nem todos os opinantes destes assuntos, pelo menos os que o artigo revela, se opõem às novas possibilidade da Web 2.0. O texto refere Michael  Agger que considera muitas das ideias anteriormente citadas como o reflexo de uma elite que teme perder a importância e peso intelectual que detinha até há pouco tempo. Agger considera positiva a democratização da rede e todas as possibilidades de partilha e troca de ideias que permite.

Todo o tipo de receios acerca da Web 2.0 não devem seguramente ser ignorados, havendo muitos que fogem para além das temáticas aqui tratadas, nomeadamente a segurança de menores e a privacidade quando é inconsciente e irreflectida. No entanto, do ponto de vista da informação, há que ter em conta a qualidade dos conteúdos que vamos partilhando. Os padrões mínimos terão de ser estabelecidos pelos próprios utilizadores da rede. Isto será verdadeiramente um reflexo democrático e que pode potenciar o espírito crítico e intelectual, uma vez que terá de ser cada utilizador  a fazer o filtro entre o que pode ter interesse e qualidade.

Já não é primeira vez que refiro aqui no blogue a necessidade de haver cada vez mais formação para lidar com toda a informação que nos chega, especialmente se pensarmos que isso está também relacionado com o próprio exercício da cidadania em democracia - a cidadania só é plena quando informada. Sendo parte dessa informação e saber, que do meu ponto de vista interessa cultivar, a capacidade de não temer a tecnologia e dela tirar o melhor proveito, tal como fez Platão na altura quando começou a usar a escrita para registar filosofia. Quão pobres estaríamos se não se Platão, tal como muitos outros, tivesse temido a tecnologia?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O que é a Bolsa, e será que precisamos dela?

Numa altura que todos já andamos de bolsa vazia à conta das socialmente obrigatórias prendas de Natal, pareceu-me adequado abordar aqui o tema da Bolsa - a de valores, aquela que nos entra em casa pelos noticiários sem percebermos muito bem o que é. Na verdade, trago aqui o tema da Bolsa simplesmente porque descobri um texto pertinente sobre o assunto, da autoria do economista Frédéric Lordon e presente na edição portuguesa de Fevereiro de 2010 do Le Mode Diplomatique.
Governadores da guilda dos mercadores de vinho - Ferdinand Bol

Nesse texto, intitulado de «E se encerrássemos a Bolsa?», o autor critica as instituições Bolsistas e as operações que nela se fazem. Refere que essas actividades são de importância menor pois a maioria do emprego real e das empresas não estão cotadas em Bolsa e nem sequer têm relações directas com elas - o caso das PMEs portuguesas. Lordon revela algum dos seu radicalismo - mesmo que seja apenas estilística do próprio discurso - ao defender que poderíamos bem passar sem as Bolsas, especialmente porque hoje elas não servem o seu propósito fundamental e funcional: financiar as empresas e obter dividendos sustentáveis para os accionistas.
Mas o que me cativou especialmente neste texto é a simplicidade como se explica o que é a Bolsa e os seus objectivos. Vejam-se então as palavras do próprio Lordon:
"Certos agentes (as pessoas com poupanças) dispõem de recursos financeiros em excesso que procuram aplicações, ao mesmo tempo que outros  agentes (as empresas) procuram capitais; a Bolsa seria a forma institucional idónea que poria em contacto toda essa gente, efectivando o encontro mutuamente vantajoso das capacidades de financiamento de uns com as necessidades dos outros."
No entanto, Lordon, chama a atenção para as realidades e práticas nos Mercados Bolsistas, algo que anda longe do crescimentos e prosperidade económica sustentável que se pretendia - na prática, muitas vezes,  são as empresas que financiam a Bolsa e não o contrário. Lordon diz:
"Doravante, o que sai das empresas para os investidores [que exigem actividades de rendibilidade inalcançável] é superior ao movimentado em sentido inverso (...). Os capitais reunidos pelas empresas tornam-se inferiores aos volumes de cash sugados pelos accionistas e a contribuição líquida dos mercados de acções para o financiamento da economia tornou-se negativa."
Mas ainda falta considerar aqui o efeito da especulação, que,  segundo Lordon se relacionam com a sua anterior afirmação do seguinte modo: "Não havendo novas emissões de acções para absorver os referidos [anteriormente] volumes financeiros , estes limitam-se a engrossar a actividade especulativa".
As palavras do autor adensam-se ainda mais no tema das "Bolsas e Mercados Financeiros", mas o que salientava ainda do texto é a referência que se faz  ao evidente sentimento de estranheza e intangibilidade que estes temas provocam na opinião pública.

Nós que não somos economistas e que, quase todos os dias, somos bombardeados com as "coisas dos Mercados e das Bolsas", provavelmente, estaríamos bem melhor - pura especulação psicológica e social - se não nos chegassem todos os dias  informações, aparentemente negativas, que dificilmente podemos compreender - pois não podemos ser todos economistas. 
Não digo encerrar  mas poderíamos exigir o resfriar do alarmismo económico e bolsista que nos chega através dos Media todos os dias aos nossos lares.

domingo, 21 de novembro de 2010

Gandhi o disfuncional sexual?

Mohandas Karamchand Gandhi é ainda hoje uma das personalidades mais importantes e conhecidas do século XX, e até de toda a História da Humanidade. Gandhi, que era apelidado de Mahatma – “A Grande Alma” –, inspirou e continua a inspirar os defensores e activistas pelos direitos cívicos, pela autodeterminação dos povos, mas especialmente todos aqueles que optam pela “luta” através da não-violência – por mais contraditório que isso possa parecer o estudo da sua vida e obra provam que tal modo de luta é possível.
Mohandas Gandhi - Vikas Kamat
Mas, tal como quase todas as grandes personalidades da história, especialmente quando a sua vida e obra é registada com fins políticos ou outros, a vida de Gandhi foi, de algum modo, alvo de um "tratamento" direccionado que quase o divinizou, tendo sido deliberadamente “esquecidos” alguns acontecimentos menos próprios de alguém que se queria que fosse recordado como incontroverso. No artigo “Sexo, Mitos e Gandhi”, da autoria de Jad Adams, publicado originalmente no “The Independent” em 7/04/2010, que nos chega a Portugal através da edição de Julho de 2010 do Courrier Internacional, é abordada a vida sexual de Gandhi, mas também o modo como “Mahatma” teorizou e divulgou as suas ideias sobre os comportamentos e condutas sexuais a adoptar. Sexo, ou condutas sexuais, não é usualmente algo que se refira ou associe a Gandhi e à sua obra, mas na verdade o sexo (ou a falta dele) foi uma das grandes preocupações na vida deste grande activista e líder político e espiritual indiano. De um modo resumido, Gandhi defendia o celibato e propagandeava-o como conduta desejável a adoptar, isto para si próprio mas também para todos os Indianos – até para os jovens casais. Mas a verdadeira polémica até nem é a acérrima defesa do celibato – mesmo pensando em todos os efeitos negativos que isso teria a nível demográfico -, o que chocou, e ainda continua a chocar todos os que se debruçam sobre esta faceta de Gandhi, eram os constantes testes que Gandhi fazia à sua capacidade de resistir às tentações e impulsos sexuais: chegava a tomar banho com muitas das jovens mulheres da sua família alargada; dormiu repetidamente com jovens mulheres, referindo que o fazia estando ambos completamente nus. Que se saiba nunca resultou qualquer contacto sexual destas experiências e testes a que Gandhi se sujeitava e com quais queria provar que dominava a sua sexualidade e vontade de ser celibatário, no entanto, este comportamento chocou os seus contemporâneos, os seus familiares e os seus apoiantes políticos. Os mais acérrimos críticos desta conduta e comportamentos viam-no como um disfuncional sexual, um desequilibrado que reprimia e defendia a repressão sexual.
Posteriormente, à medida que o mito de Gandhi ganhava forma, especialmente depois da sua morte e do nascimento do Estado Indiano que queria criar os seus próprios heróis, estes episódios foram propositadamente omitidos.
 
Apesar de tudo, não se pode pôr em causa a importância e o papel de Gandhi para a história da Índia e para a própria história da humanidade, especialmente pelo exemplo que deu: por nos ter mostrado que para vencer não é preciso recorrer à violência – apesar da repressão sexual poder ser considerada também uma forma de violência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma retrospectiva, síntese e opinião histórico-económica do estado da economia

Hoje trago aqui ao blogue um texto sobre economia – da pura e dura. Trago este texto pois faz uma análise simples, objectiva e concisa sobres as causas que causaram a situação económica que hoje vivemos em Portugal. O texto em causa intitula-se «PIIGS versus FUKD: dilemas do pensamento económico provinciano», da autoria de João Pinto e Castro e publicado no Le Monde Diplomatique de Março de 2010 na sua versão portuguesa.
A última ceia - Frida Kahlo
Então o autor começa assim: “Ora o que se passou em Portugal era perfeitamente previsível à luz da elementar teoria económica: baixando rapidamente os juros, aumentou como consequência directa e imediata o endividamento dos particulares, das empresas e do Estado, ao mesmo tempo que baixava a poupança interna. Rareando a poupança interna, os bancos foram buscá-la ao exterior, daí resultando o rápido crescimento do endividamento externo (…) a entrada de em força das exportações chinesas na Europa, completada pelo livre acesso ao mercado dos países de leste. Mercê de uma economia frágil e pouco qualificada, a indústria portuguesa soçobrou. (…) a integração na zona euro privou Portugal de instrumentos de política económica que ajudassem a reagir às suas dificuldade.”
A nível internacional: “no do fatídico mês de Agosto de 2007. O pior parece ter sido evitado a partir do momento em que intervenções maciças dos governos permitiram deitar mão a sistemas bancários à beira do colapso e estimular a procura intervindo em sectores e empresas e lançando investimentos públicos de emergência. (…) Eis porém, que por todo o mundo se ergue um coro de protestos contra o rápido crescimento do endividamento dos Estados e um existência de medidas urgentes para controlar a situação”
Estas palavras do autor - que tive de extrair desmembrando o texto original pois é muito mais complexo e longo - penso serem capazes de sintetizar alguns dos acontecimentos que nos levaram ao actual panorama económico.
"
Continuando com mais exemplos e com algumas perspectivas inovadoras: “(…) a dívida não é tudo. (…) o aumento do endividamento não é a causa dos problemas, mas um mero sintoma. (…) se o que conta é o nível da dívida em proporção do produto, uma quebra acentuada do produto pode contribuir para agravar ainda mais a situação ao contrariar os recursos quer permitiriam pagá-las.(…) se às persistentes quebras do consumo e do investimento privado sem fim à vista somarmos a da dívida pública, o mundo entra em colapso. (…) Estamos perante uma um impossibilidade lógica: se alguém exporta é porque alguém importa; ao nível global é, portanto, impossível todos crescerem por essa via.”
Agora as soluções do autor, embora possam ser pouco vagas, vale a pena referir para completar aqui a exposição do artigo: “A necessidade de reformar o sistema monetário europeu deve ser decididamente assumida e colocada em cima da mesa. (…) questionar  os objectivos do BCE [Banco Central Europeu] que escandalosamente secundizaram o crescimento e o emprego, exigir maior transparência no seu funcionamento; e impor-lhes a obrigação de prestar contas. (…) [implementar uma] centralização orçamental deveria por sua vez ser acompanhada de um reforço dos poderes do Parlamento Europeu para assegurar o controlo democrático do processo político.”
Abraço amoroso - Frida Kahlo
Concorde-se ou não com o autor, com partes ou com o todo, este excelente texto, cheio de exemplos e relações que tornam a história recente económica mais tangível, permite-nos reflectir sobre estes eventos e acontecimentos que hoje nos afectam. Nem que seja nas noticias que nos chegam todos os dias pelos Media.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

'Um cérebro de cada lado': um texto que é mais que uma opinião

Segundo Platão, na sua obra "A República", a opinião, de acordo com a sua própria definição - algo muito próximo do palpite e suposição infundada -, pouca ou nenhuma validade tem quando usada numa discussão ou na transmissão de saber. Isto porque, segundo o filosofo, a opinião é quase sempre insustentada e fruto de emoções e gostos do opinante - nota-se aqui um vislumbre da defesa do empirismo cientifico. No entanto, recorrendo a uma visão mais moderada, penso que nem todas as opiniões estão ao mesmo nível, havendo algumas que devem merecer a nossa atenção. Um exemplo disso é o texto que aqui trago ao blogue. José Luís Pio Abreu, psiquiatra e professor universitário de medicina, autor da obra 'Como tornar-se um doente Mental' brinda-nos com um livro que é um compêndio de artigos de opinião publicados no jornal gratuito 'Destak'. Dessa obra, intitulada de 'Estranho quotidiano', trago aqui um texto que é mais que uma  mera opinião, é uma opinião com fundamentação cientifica - devido a formação académica do autor - e escrita de um modo bastante apelativo. Aqui fica o texto:
Baudelaire, Edgar Poe, Mallarmé e Fernando Pessoa - Júlio Pomar
"Um cérebro de cada lado
Se perguntar o que é que nos distingue dos macacos, pode ficar com esta: nós temos dois cérebros, eles não. Os nossos antepassados símio distinguiram-se dos outros mamíferos por terem os braços independentes das pernas. Nós, para além disso, separámos o lado direito do lado esquerdo. E separámo-los para quê? Para deixar o braço e a mão direitos, bem como a perna e o pé, esculpirem o mundo: pela escrita, desenhos, obras, projectos, regras, teorias ou mesmo pontapés.
Ficámos assim com dois cérebros. O esquerdo – que está ligado ao lado direito do corpo – ficou preenchido pelo mundo. Não necessariamente o mundo que existe ou que mais importa, mas o que construímos na relação com os outros. É feito com palavras, imagens, regras e teorias. Em contraste, o cérebro direito vela por nós: pelas emoções, pela intuição, pelos significados entre si e têm de se entender. Mas podem existir conflitos, a ponto de um dos lados ter de anular o outro.
Nos esquerdinos, os lados estão invertidos sem que ocorram problemas de maior. Mas a existência de grandes confusões entre direita e esquerda não é boa para a saúde mental, pois deixamos de saber quem somos.
As mulheres têm o cérebro menos assimétrico, talvez porque, durante milénios, lhes foram negados os trabalhos externos. Assim, o mundo ocupa-lhe parte do cérebro direito, e as emoções também correm pelo lado esquerdo. Por isso, as mulheres são mais agarradas à terra – à casa, aos filhos. Os homens alternam entre estarem agarrados à terra – às mulheres – e vivem nas nuvens."

Espero que este texto seja um bom cartão de visita para a leitura das obras de J. L. Pio Abreu e um aperitivo capaz de fazer despertar o apetite pela leitura integral dos restantes textos deste 'estranho quotidiano'. O texto 'Um cérebro de cada lado', em primeira instância, e mais do que a utilidade que aqui lhe dou como introdução ao livro,  transmite também uma série de conhecimentos e levanta uma série de questões - capazes de animar uma qualquer discussão - sobre a biologia e psicologia humana, tal como o modo como nos relacionamos. 
Fernando Pessoa - Júlio Pomar
P.S. (Esta constatação de um cérebro bi-partido levanta muitas questões sociais e psicológicas mas fico-me por uma literária: em quantas partes se dividiria o cérebro de Fernando Pessoa?)

terça-feira, 22 de junho de 2010

Uma lei Belga quase xenófoba em plena capital da UE?

Já algum tempo que não referia um artigo da ‘Courirer Internacional’. Trago aqui um da edição Portuguesa de Maio de 2010, intitulado “Bem-vindo à República Soviética da Flandres”, um texto de Luckas Vander Taelen publicado originalmente no jornal ‘De Standaard´ em Bruxelas e traduzido por Maria João Coucha. O autor conta um caso estranho, no mínimo bizarro, que se passa na Bélgica. Segundo Taelen, nos municípios Flamengos Belgas é proibida a compra de casa, ao abrigo do decreto 'Wonen in eigen streek '(viver na sua Região), a forasteiros. Para que uma pessoa, mesmo sendo Belga, possa ter autorização para a compra de uma habitação é preciso ter “um vínculo suficiente ao município”, algo que é rigorosamente fiscalizado pelas autoridades locais. Esse dito vínculo consiste no seguinte, segundo palavras do autor: “residir lá há 6 anos ou num dos municípios vizinhos; ter pelo menos um trabalho a meio-tempo na zona abrangida pelo decreto e ter estabelecido com o município uma ligação profissional, familiar, social e económica importante e de longa data”.
Ritmo de linhas negras - Mondrian
Há que salientar que Bruxelas, capital das Bélgica e que também é considerada a capital da União Europeia, fica situada na zona Flamenga da Bélgica, ou seja, onde o decreto em causa é válido. A meu ver isto é no mínimo um contra-senso, dado que um dos objectivos primordiais da União Europeia foi a livre circulação de Pessoas e Bens. Numa altura em que a União Europeia estremece, certamente que situações como esta da Bélgica não são de todo positivas, pelo menos não de um ponto de vista da coerência

domingo, 31 de janeiro de 2010

A crise e os ataques ao Estado-providência

Na edição Portuguesa do “Le Monde Diplomatique” de Dezembro de 2009, provavelmente pela actual conjuntura mundial, momento em que se questionam os modelos económicos e de gestão pública (ou falta dela), foi publicada uma série de textos sobre o papel do Estado, -incidindo na Justiça fiscal, na corrupção e no papel e história do Estado-providência (ou Social).

Torre de Babel - Pieter Bruegel
No texto de Serge Halimi, “Uma dívida providencial”, o autor explora um termo sobejamente divulgado pelo Media Portugueses. Falo do défice das contas públicas, um “problema” nacional dado o compromisso em cumprir o pacto de estabilidade europeu. Segundo Halimini, os conservadores e os neo-liberais a partir da década de 1970 (Tatcher,     Reagen, etc.), optaram pela criação consciente dos défices públicos, tornando assim possível o corte de despesas e a amputação de meios dos Estados-providência (especialmente os Europeus): [a criação consciente dos défices públicos] ”…É uma prática laxista que amputa as receitas e que é reforçada por um discurso catastrofista, para fazer recuar despesas do Estado-providência...“

Gostaria de referir também o texto de Eduardo Paz Ferreira, “Justiça e fiscal e boa sociedade”, onde esse autor salienta a importância da cobrança de impostos. Somente por uma política justa fiscal, onde todos contribuam de acordo com as suas possibilidades (pagando impostos) se pode tentar almejar um Estado que promova a igualdade de oportunidades, ou seja, um dos pilares dos Estados-providência democráticos. Paz Ferreira cita as reveladoras, e cheias de significado, palavras de Oliver Wendel Holmes: “…Gosto de pagar impostos. Com eles compro civilização…”, acrescentando que pagar impostos é a garantia da existência de bens públicos fundamentais.

Actualmente há um ressurgimento neo-liberal, ou até mesmo neo-neo-liberal - dado que, na minha opinião, a crise mundial de 2008-2009 despoletou um novo tipo de neo-liberalismo. Será essa uma nova corrente política e económica pseudo-ideológica, que não hesita em recorrer ajuda dos Estados para manter a economia em funcionamento, mas que ao mesmo tempo exige Estados menos pesados? É, no mínimo, paradoxal, tal como a anúncio da necessidade da diminuição das cargas fiscais, apesar da necessidade de manter em funcionamento serviços públicos essenciais, de extrema importância para os menos favorecidos. Sendo que os tais menos favorecidos contribuem sempre, indiretamente, para a manutenção dos mais favorecidos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A "má-educação" das vacas e o efeito de estufa

Foi me dada a conhecer, recentemente, uma revista, que apesar de já a conhecer de vista nas várias bancas de venda,  nunca a tinha analisado e lido aprofundadamente. Depois de ter comprado e lido o meu primeiro exemplar, não consegui evitar de comprar o segundo e de estar agora a ponderar em assinar a revista. Falo da Courrier Internacional, na versão portuguesa.
Vaca amarela - Franz Marc
Um dos artigos, da edição de Dezembro, relacionado com o ambiente e os recursos naturais - temas actualmente bastante em voga, quer seja pela sua importância, quer pela recente conferência de Copenhaga - suscitou este texto aqui no blogue.
O artigo em causa, da autoria de Weronika Zarachowicz, publicado originalmente na revista Télérama, intitula-se de “Vacas pioram o efeito de estufa”. Neste artigo a autora refere os efeitos perniciosos que a criação intensiva de animais para produção de carne tem no ambiente, tal como os efeitos negativos na saúde humana devido ao excesso de consumo de carne.
Citarei agora parte do artigo original: “A produção de carne é o segundo maior emissor mundial de gases com o efeito de estufa, logo atrás da produção de energia. Provêm desse sector 18 por cento daqueles gases, ou seja, mais do que todos os transportes planetários reunidos (14 por cento)!
São 18 por cento, emitidos ao longo de toda a cadeia de fabrico dos nossos bifes: desde os adubos para as forragens até ao azoto do estrume, passando pelos gases e, sobretudo, os arrotos das vacas, carregados de metano, um gás com efeito de estufa 25 vezes maior do que o dióxido de carbono

Estas informações à primeira vista podem até parecer engraçadas, mas para além de nos  poderem fazerem rir, os gases e arrotos das vacas, devia-nos fazer repensar na repercussão que os nossos hábitos alimentares têm no ambiente.
Na produção intensiva de criação de animais é comum cometerem-se atrocidades contra os próprios animais, dadas as poucas condições de higiene e saúde em alguns casos, da falta de espaço e mesmo algumas de mutilações a que esses animais são submetidos nos centros de produção, autenticas fábricas de produzir carne barata e rápida.

Assim, uma reformulação dos nossos hábitos alimentares, especialmente das populações ocidentais é urgente a médio e longo prazo, tendo em vista a saúde futura do planeta, a nossa e a dos próprios animais explorados. Estas flatulências e arrotos excessivos das "vacas" são verdadeiras faltas de respeito para com o ambiente, como se tem comprovado.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O sector privado é o melhor gestor?

Desta vez venho falar de um artigo da edição de Novembro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) intitulado de “A Economia dos Bens Comuns”, texto de José Castro Caldas baseado em excertos do mesmo autor e de Francisco Louçã, que aborda as teorias desenvolvidas pela vencedora do Prémio Nobel da Economia Elinor Ostrom. Neste artigo são reveladas algumas das razões que contribuíram para a atribuição do prémio de 2009 a Elinor Ostrom, que se distinguiu por advogar uma visão alternativa para o modo como é vista a administração e gestão de propriedades comuns. Ostrom defende assim que determinadas comunidades, populações ou grupos conseguem ter um bom desempenho económico na administração de recursos e na maximização dos proveitos dai obtidos, sem uma aparente organização externa e apenas através da partilha comum entre os indivíduos do grupo. 

A sesta - Van Gogh
No artigo é apresentado também um exemplo de Garrett Hardin que contrapõe o aparente melhor desempenho económico do sector privado em oposição à administração colectiva. Hardin usa como exemplo uma pastagem comunitária onde vários proprietários criam os próprio seus animais, tendo em conta que essa pastagem tem um limite de animais a suster: “Tomemos X como o benefício de criar um novo animal para o seu dono e Y como o custo de o fazer para a sociedade. O beneficio, X, é o valor de mercado do animal no momento de ser vendido. O custo, Y, consequência do sobre-pasto, é a perda de peso de todos os outros animais que se alimentam da pastagem comum decorrente da presença de mais um animal. Para o conjunto dos criadores, o custo de um novo animal é pois Y (custo social), mas do ponto de vista de quem decide se deve ou não cria-lo é apenas uma parte de Y, chamemos-lhe Z (custo privado). A análise custo-beneficio privada pode então aconselhar o que é contrário ao interesse da sociedade – a criação de mais um animal na pastagem comum. O indivíduo supostamente motivado pela maximização do ganho pessoal adoptará o ponto de vista individual. Conclui Hardin: mesmo quando a capacidade da pastagem foi ultrapassada e casa novo animal origina perdas colectivas que ultrapassam os benefícios, os criadores individuais insistirão em sobrecarregá-las mais e mais”.
Com este exemplo Garrett Hardin comprova que, em certos casos, para que o sector privado tenha lucros outro privado ou até toda a comunidade deixa de ganhar o que por administração colectiva e sustentável poderia conseguir.

Numa altura em que os modelos económicos vigentes foram seriamente afectados pela última grande crise financeira, a qual ainda que estamos a vivenciar, há que voltar a analisar os conceitos de custo e beneficio, e averiguar se efectivamente não haverá outra forma de organizar a economia, de um modo mais justo e mais a favor do bem-estar das comunidades.

domingo, 15 de novembro de 2009

Ig Nobel, os outros Prémios Nobel

Da minha habitual leitura da revista “Super Interessante”, onde mensalmente encontro artigos bem recheados de informação - mesmo que por vezes o modo como são apresentados nos leve a esperar mais -, com base no que se vai descobrindo nas várias áreas do conhecimento científico (apesar de não ser uma revista cientifica formal), fiquei surpreendido com um dos artigos da edição do mês de Novembro. Isto porque não fazia ideia que existisse uma gala anual para a entrega de prémios que distinguissem as investigações científicas mais humorísticas. Algo semelhante aos “Prémios Nobel”, mas repletos de humor e premiando as investigações mais originais e bizarras, mas todas elas ciência rigorosa e metódica (como é suposto). Estou a falar dos prémios “Ig Nobel”, um jogo de palavras que lido de enfiada soa a “ignóbil”. 

Deixo aqui alguns exemplo das investigações e cientistas premiadas com os ditos prémios, que, estranhamente ou não, muito apreciados pelos cientistas mais bem humorados
 Estes prémios provam que a ciência e a investigação cientifica podem ser divertidas e o acto de aprender um grande prazer recheado de boa disposição.

Passo a citar parte do artigo da Super Interessante “Ciência para rir”, do autor que assina como R.L.:


Alguns dos melhores de sempre:


Química 2008: Exequo para a equipa de cientistas que descobriu que a coca-cola era um espermicida eficaz… e para a que demonstrou que não o era.

Linguística 2007: Uma equipa da Universidade de Barcelona, por provar que os ratos nem sempre distinguem uma pessoa que fala japonês ao contrário de outra que fale holandês ao contrário.

Ornitologia 2006: Dois californianos por explicarem porque é que os picapaus não sofrem de dor de cabeça.

Medicina 2006: Dois trabalhos, um do Tennesse e outro de Israel , intitulados “Terminação dos soluços intratáveis através de massagem rectal digital”.

Química 2005: Uma experiência destinada a responder à eterna pergunta sobre se as pessoas nadam mais depressa em água ou xarope.

Fluidos Dinâmicos 2005: Um cientista alemão e outro húngaro, pelo estudo “Pressões produzidas quando um pinguim defeca: cálculos de excreções de aves”

Medicina 2004:Um estudo norte-americano sobre o efeito da música country nos suicídios.
Biologia 2004: Uma investigação sueca, dinamarquesa e canadiana que demonstrou que os arenques comunicam entre si, aparentemente, através de gases intestinais.

Biologia 2003: Atribuído ao holandês C.W. Moeliker por documentar o primeiro caso de necrofilia homossexual em patos.


Vencedores 2009:

Veterinária: A equipa da Universidade de Newcastle Demonstrou que as vacas cujos donos lhe atribuem nomes dão mais leite.

Paz: Cientistas Suíços testaram experimentalmente se é melhor que nos batam na cabeça com uma garrafa de cerveja cheia ou com uma vazia.

Economia: Administradores de bancos islandeses demonstraram que quatro bancos pequenos podem transformar-se em grandes, e vice-versa, e que isso pode ser aplicado à economia de um país.

Química: Um grupo de professores mexicanos criaram diamantes a partir de um líquido, concretamente, a tequila.

Física: Investigadores norte-americanos determinaram por que motivo as grávidas não caem para a frente, no estudo “Carga fetal e a Evolução da Lordose Lombar em Hominídeos Bípedes”

Saúde Pública: Investigadores de Chicago inventaram um soutien que se pode transformar, em caso de emergência, num par de máscaras anti-gás, uma para a mulher que o usa e outra para alguém próximo.

Matemática: O Banco central do Zimbabwe, criou um método simples para lidar com uma grande quantidade de números, emitindo notas que vão de um cêntimo a cem biliões de dólares.

Biologia: Um estudo nipónico demonstrou que a massa de resíduos produzidos nas cozinhas pode ser reduzido em 90% com recurso a bactérias das fezes de pandas gigantes.

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