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sexta-feira, 19 de julho de 2019

Uns comboios diferentes que trazem viagens inesquecíveis para aprendermos

Philippe Gougler é um jornalista e documentarista francês com uma extensa carreira, mas que nos tem chegado a Portugal de comboio, através da série de documentários “Des trains pas comme les autres” , exibidos na RTP2 com o nome “Inesquecíveis Viagens de Comboio”. Esta série tinha começado originalmente em 1987 na Antenne 2, mas foi recuperada e reformulada em 2011 pelo canal France 5, já como o atual apresentador e coautor. 

Philippe Gougler
Fonte: https://www.france.tv/france-5/des-trains-pas-comme-les-autres/saison-6/655355-zimbabwe-zambie.html
Em cada episódio desta série sobre comboios o apresentador, que escreve também os textos para o programa, segue “sozinho” pelos cominhos de ferro do mundo. O tema dos comboios, das estações e dos seus percursos serve para explorar as sociedades e culturas humanas contemporâneas. É uma forma de aprendermos história, geografia e cultura enquanto estamos no sofá a ver os comboios deslizar sobre os carris. Podemos encontrar curiosidades sobre o funcionamento dos comboios, dos sistemas de transportes, das cidades e das culturas de todo o mundo. A viagem de comboio até um certo sítio serve habitualmente de mote para tratar outros conteúdos, como o património histórico, a gastronomia, sistemas políticos, natureza, ambiente, economia, etc.

Gougler parece fazer o programa com tanta paixão, e falar tão genuinamente e de forma interessada com as pessoas com que se cruza, que dificilmente deixamos de ficar também apaixonados pelos contextos relatados. A série está feita para parecer que as viagens seguem sem formalismos, mas obviamente tudo foi planeado no percurso. Somente algumas das conversas dependem do acaso, embora algumas claramente tenham sido combinadas ou escolhidas perante muitas outras que se devem ter revelado desinteressantes.

Este documentário mostra como se podem fazer programas generalistas, para os grandes públicos, mas mantendo os conteúdos, com o devido informalismo. Estas são viagens a não perder. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando os portugueses ensaiaram e planearam o comércio atlântico de escravos

O tráfego triangular atlântico é sobejamente conhecido e referido quando se analisa a história universal do século XVII e XVIII. A europa fornecia bens manufaturados que serviam para comprar escravos em África que, por sua vez, eram utilizados nas Américas para explorar metais preciosos, matérias-primas e outros produtos como o açúcar e tabaco. Esta descrição é muito simplificada, mas ajuda a compreender o fenómeno das rotas da escravatura que ocorreram de Africa para a América, da exploração que as potenciais coloniais fizeram dos recursos das suas colónias e o desenvolvimento industrial que se deu nas metrópoles. Embora há que ressalvar duplo papel dos EUA, que no norte desenvolveram industrias e no sul explorações agrícolas que participavam no comércio triangular também. Esta dupla vertente, da presença de indústrias relevantes desde cedo na história do país, deve-se, em parte, às migrações em massa de europeus que dominavam esses processos e se deslocaram, por vários motivos, para a América do Norte. 

Chafariz d’el Rey em Lisboa - Autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Nas caraíbas e na américa do sul, especialmente no Brasil, implementou-se um exploração e produção em massa de açúcar. Esta indústria só era viável devido ao comércio triangular, pela necessidade de grande intensidade de mão-de-obra que era garantida pelos escravos vindos de África e alavancada pela crescente procura de açúcar na Europa, e depois por todo o mundo. Ainda hoje somos dependentes do consumo excessivo de açúcar.

Até aqui nada disto é grande novidade. Mas para que tal ocorresse teve de haver algum tipo de teste e ensaio. Isso foi previamente planeado pelos portugueses, que ensaiaram esse comércio global atlântico numa escala inferior, entre Luanda, São Jorge da Mina (El mina) e São Tomé. No último quartel do século XV já os portugueses faziam o ensaio da triangulação, levando escravos de Luanda, para trabalhar nas explorações de açúcar de São Tomé, tal como para São Jorge da Mina, onde eram necessários para apoio às explorações de ouro. Tanto o comércio em Luanda como na Mina eram alimentados também por produtos trazidos da europa que tinham muita procura pelos africanos. São Tomé estava desabitada antes da chegada dos portugueses, tendo sido o ensaio e apoio para o comércio esclavagista, apoio à navegação de passagem e local de ensaio da massificação da exploração açucareira que iria dominar a américa latina. 

Todas estas informações constam do documentário “As Rotas da Escravatura”, exibido na RTP1, uma iniciativa da Arte France, RTBF Telévision Belge, Lx Filmes, RTP, IRAP, TV5 Monde, e produzido por Jean Labib e Fanny Glissant, com direção de produção de Nathalie de Mareuil e criado por Daniel Cattier, Juan Gélas e Fanny Glissant. NesSe documentário, especialmente no segundo episódio, os portugueses são apresentados com exploradores e empreendedores, mas também como saqueadores e comerciantes sem escrúpulos. Tinham do seu lado uma bula papal, concedida por Nicolau V, que concedia ao rei de Portugal a liberdade de “combater, conquistar subjugar quaisquer sarracenos e pagãos (…) suas terras e bens e a todos reduzir à servidão perpétua”. Os relatos Gomes Eanes de Zurara, cronista oficial do reino, relata o modo como os africanos eram aprisionados: o seu desespero, o modo como sofriam todo o tipo de violências, a separação à força das mães de filhos, familiares e conhecidos, tratando-os como meras mercadorias vivas. São estes relatos, de alguém que não esconde a violência e desumanização, justificando esses atos pela legitimidade de Portugal atuar em nome da Igreja, devidamente legitimado pelo papa, e por se tratarem de selvagens aos seus olhos, que nos deve fazer refletir. 

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo
Lisboa tornou-se então nos finais do século XV e inícios de XVI a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, estimando-se que a população de africanos pudesse ascender a 10% do total da população. Um quadro de um artista flamengo, intitulado “O Chafariz d'El Rei” que retrata, a Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa por volta de 1570/1580 revela uma cena da vida social lisboeta onde surgem muitos africanos nos mais diversos papeis, incluindo papeis de prestigio e igualdade. Isto indica que muitos destes africanos tenham sido, apesar da violência perante os escravos, sido paulatinamente integrados na sociedade portuguesa.

Excerto do "Chafariz d’el Rey em Lisboa" - autor desconhecido
Fonte: Coleção Berardo

Assim, esta série de documentários, especialmente este segundo episódio, merece ser visto. São citadas as fontes e surgem análises de historiadores e especialistas de várias origens sobre estes temas, incluindo portugueses associados a universidades de prestígio internacional. Este tipo de criações são de extrema utilidade para compreender a nossa história, especialmente a manto que mascara o drama humano associado aos feitos do expansionismo marítimo português. Mas revela a importância de Portugal, para o bem e para o mal, na história da humanidade. 


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As grandes mentiras da História e o afundamento do Lusitânia: um documentário de Luc David

Começou a ser exibido no canal Odisseia uma nova serie de documentários dedicados a algumas das grandes mentiras da história. No primeiro episódio, do documentário "As maiores mentiras da história" de Luc David, aborda-se o tema do afundamento do barco transatlântico “Lusitânia”, que foi torpedeado e afundado em 1915 por um submarino U-Boat alemão – embora para os alemães se devesse designar U-Boot. 

Desenho artístico representativo do afundamento do Lusitânia - autor desconhecido
Fonte: https://www.express.co.uk/news/world-war-1/566316/RMS-Lusitania-single-torpedo-sinking

Este poderá ter sido um exemplo de fabricação de noticias falsas na imprensa por ação do governo britânico. Em 1915 o Império Britânico estava em guerra com o Império Alemão. Decorria a primeira Guerra Mundial. Os alemães usavam a sua novíssima, os U-Boats, submarinos que permitiam, pela primeira vez, fazerem intervenções de longa distância. A Royal Navy - a marinha inglesa - não tinha qualquer arma que pudesse combater eficazmente esta ameaça alemã. Por isso os U-Boat faziam com alguma eficácia constantes afundamentos de barcos, incluindo barcos de mercadorias que abasteciam as ilhas britânicas. Embora nessa época os britânicos conseguissem produzir mais barcos do que os que eram afundados pelos alemães.

Em 1915 o “Lusitânia”, o maior e mais rápido transatlântico da época foi alvo de um ataque. Os relatos oficiais britânicos dão conta de ter sido alvo de dois torpedos. No entanto os registos alemães referem apenas um. Tudo indica, fazendo fé no material que o documentário expõe, que apenas terá sido efetivamente disparado um torpedo, mas que uma segunda explosão se tenha devido a uma reação em cadeia, uma vez que o navio transportava ocultamente munições de artilharia e outros equipamentos militares a bordo, carregados em Nova York. De notar que os abastecimentos que chegavam de barco desde os E.U.A. eram essenciais para o esforço de guerra britânico. Era importante que o governo britânico terá ocultasse este transporte, nunca tendo sido assumido. O incidente foi utilizado pela propaganda britânica para fomentar o ódio aos alemães, e para tentar trazer os E.U.A. para a guerra, uma vez que morreram mais de uma centena de norte americanos nesse afundamento. Os britânicos tentaram passar a mensagem de que os alemães eram maléficos, desumanos e que não poupavam sequer os civis inocentes. Se fosse descoberto que o navio transportava uma carga militar oculta o próprio governo inglês sofreria consequências políticas.

Consta que o barco se terá afundado em apenas alguns minutos, algo pouco provável para ser um barco daquela envergadura, com mais de 200 metros de comprimento, sob o efeito de dois torpedos apenas. Há que relembrar que a tecnologia de guerra submarina era bastante arcaica, e que os torpedos nem sempre eram eficazes. Uma explosão interna de um volume considerável de munições ajuda a explicar esse rápido afundamento. No diário de bordo do comandante do U-Boat alemão refere-se que perante o drama humano decidiram ir embora sem disparar mais torpedos. Costa também que o comandante do U-boat teria indicações de que o barco era um alvo militar válido na sua base de dados, uma vez que estava identificado como um dos barcos que poderia ser requisitado pela marinha militar para adaptação durante o período de guerra. 

O documentário expõe muitos outros pormenores, pretensas provas e evidências que suportam esta teoria. Segundo essas fontes, em torno do afundamento do Lusitânia terá sido criada uma noticia falsa – uma fake news –muito conveniente para a propaganda britânica e do próprio almirantado, liderado por Winston Churchill nessa altura. Ou seja, as noticias falsas têm servido fins políticos há muito tempo, e se analisarmos mais para trás na cronologia histórica seguramente encontraremos mais casos disso.

Referência:
David, Luc (2017). History´s greats lies. [filme].

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pagamos com mérito as desigualdades: um documentário de Alex Gabby

O preço do que é justo, no original “The Price of Fairness”, é um documentário de Alex Gabby que nos faz pensar sobre a justiça e igualdade. O documentário começa por relatar diversas experiências da sociologia e psicologia comportamental sobre situações de tomada de decisão, que implicam questões de distribuição e justiça. Uma dessas experiências consistia em formar pares com pessoas de desempenho diferente num jogo em que individualmente cada participante tenha recebido dinheiro virtual em função da sua capacidade para resolver desafios e problemas matemáticos.  Depois propunham ao par que distribuísse os rendimentos somados de ambos, associados à soma da prestação individual de cada um deles. Constatou-se que os indivíduos que tinham melhores resultados eram menos propensos à partilha desses rendimentos de forma igualitária, enquanto os detentores de resultados próximos da média, mesmo que acima dela, mais facilmente abdicavam da sua parte correspondente de forma a permitirem que se fizesse uma distribuição igualitária dos ganhos, mesmo abdicando de uma parte do seu contributo. Comprova-se que há uma noção de competitividade, associada à meritocracia, que legitima a desigualdade. Curiosamente, uma vez que o público da experiência eram alunos do ensino superior norueguês, os alunos de gestão e economia revelaram ser os mais egoístas.


No documentário somos levados a concluir que a meritocracia é uma farsa, uma impossibilidade pois a bagagem e contexto em que crescemos são claramente promotores da desigualdade. O sucesso depende fortemente das “heranças”, em todas as suas dimensões (patrimonial, genética e de contexto), mas também muito da sorte. Mesmo que as crianças tenham uma noção de justiça quase desde a nascença os contextos sociais e familiares impedem a meritocracia. Essas constatações são apresentadas com base noutra experiência realizada nos EUA por investigadoras de psicologia de desenvolvimento apresentada no documentário.

Surgem então imensas questões que nos fazem colocar em causa grande parte das estruturas sociais, da forma como se constroem (ou como as construímos). Podem os pobres faze escolhas diferentes das que assumiram? Existem regras diferentes para os ricos e poderosos, mesmo nas democracias? Apesar de tudo quem produz e legitima leis e as regras que regem as sociedades não estará a reforçar as mesmas estruturas e hierarquias desde sempre? Poderemos mudar o sistema mesmo que seja controlado por poderes antigos?

O documentário levanta imensas questões, fala de muitos casos. Começa com abordagens académicas, da sociologia e psicologia comportamental. Passa pela referência à psicologia do desenvolvimento moral e avança para as teorias de desenvolvimento económico e social. Refere-se a muitos exemplos de muitas regiões e países contrastantes. Revela casos de tentativas de inovação, de escândalos que abalaram o mundo. Fala do caso surpreendente da Costa Rica, onde o PIB não é digno de destaque internacional mas o índice de desenvolvimento humano é bastante grande, significando que qualidade de vida não tem de significar riqueza no sentido da acumulação massiva de capital. Apresenta-se o Partido Pirata na Islândia como alternativa ao sistema político que pretende implementar um novo modelo de justiça e de democracia participativa, num país que expulsou do poder a classe política dominante e decidiu coletivamente não assumir na sua dívida público produtos de especulação financeira.
Fica a introdução.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Origem do termo “Freelancer”

Tal como a tradução direta  do inglês indica um “freelancer” é uma lança livre. A origem do termo estará relacionada com a Idade Média, quando os cavaleiros “alugavam” a sua lança. Ou seja, trabalhavam ao serviços do senhor feudal que os contratasse, isto porque era responsabilidade desse senhor garantir a seguranças das suas terras e participar em guerras, desencadeadas por ele ou a quem devesse vassalagem. No sistema feudal cada proprietário, ou “gestor” em nome doutrem, de terras devia vassalagem a um senhor de estatuto superior, que em teoria gerava uma cadeia de ligação até ao próprio rei. O rei (que supostamente era o maior dos senhores, num sistema que não conhecia ainda os valores do nacionalismo nem a organização do Estado Moderno), ou os vários senhores feudais poderiam solicitar aos seus vassalos (dependentes hierárquicos) serviços militares, quase sempre contabilizados em homens de armas ou abastecimentos, para além dos habituais impostos cobrados das mais variadas formas. Num sistema em que a moeda era escassa, o imposto poderia ser cobrado e pago em horas de serviço, dependendo da especialidade das pessoas em causa.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux

Ao analisarmos a Tapeçaria de Bayeux, referente à batalha de Hastings de 1066, que confirmou a conquita do reino de Inglaterra pelo Duque da Normandia (que curiosamente era vassalo do rei de França), ficou evidente a importância que a cavalaria deteve no campo de batalha. Nesta tapeçaria, que é um verdadeiro documento de suporte histórico, registam-se visualmente as mudanças e diferenças entre as táticas militares dos exércitos anglo-saxónicos, que defendiam Inglaterra com as suas táticas de infantaria pesada que recorria maioritariamente a grandes machados, e a flexibilidade do exército normando e da sua cavalaria conjugada com outras unidades militares especializadas, tais como arqueiros. Na batalha de Hastings ainda se ilustram alguns dos cavaleiros a usar as suas lanças como armas de arremesso e penetração de estocada, mas sem transmitirem o potencial de carga da cavalaria que ficaria associada ao imaginário popular dos torneios medievais.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux
 
Posteriormente, os cavaleiros passaram a dominar os campos de batalha, sendo os “tanques da idade média”, e a lança usada nas cargas de cavalaria de modo semelhante ao que se representa nas recriações contemporâneas dos torneios medievais. O cavaleiro passou a usar a sua lança de uma forma mais sólida e integrada, criando uma simbiose artificial entre a arma, o seu corpo, a armadura e o cavalo, como arma que permitia transferir eficazmente e com precisão a força da carga do cavalo contra os oponentes. Terá sido isto a fazer destacar o valor das lanças, ao ponto de representarem os próprios cavaleiros.

Séculos depois, o termo foi adaptado, já na época contemporânea, para qualquer profissional que “alugasse” os seus trabalhos de forma temporária para a realização de um determinado serviço, habitualmente relacionado com uma ou mais áreas de especialidade, reforçando a sua individualidade.

Nota: o documentário "Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History " foi exibido em Portugal no canal Odisseia, com informação disponível em: http://odisseia.pt/programas/combate-armado-da-espada-a-metralhadora/

Fontes vídeo e online:
• “Freelancer”.  Wikipédia. [em linhas], disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Freelancer
• Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History. [documentário vídeo]  Trailer disponível em in: https://www.youtube.com/watch?v=OgYQ9d0rRQU

Foste bibliográficas de apoio
• NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval: Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Públicações Europa-América, 1999.
• SOLAR, David; VILLALBA, Javier (Dir.). História da Humanidade: Idade Média. Barcelona: Circulo de Leitores: 2007.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os Segredos da Bíblia - Um documentário à moda antiga do Canal de História

Provavelmente o título deste texto já terá afastado a grande parte dos interessados. Ultimamente o Canal de História não tem exibido verdadeiros documentários e apresenta um rol repetitivo de reality shows, de contexto norte-americano, que têm vindo a destruir a credibilidade do canal. Não que se deva esperar assistir a profundos e exaustivos documentários académicos, mas pelo menos exige-se que o dito canal tenham alguns conteúdos que se baseiem em fontes e em construções historiográficas minimamente sérias, caso contrário seria preferível e mais honesto mudar-lhe o nome.

A descrença de São Tomas - Caravaggio

No entanto, recentemente, provavelmente recuperando programas mais antigos, o Canal de História voltou a exibir um documentário à moda antiga. Ainda que seja bastante sensacionalista pela temática, a série de programas “Os Segredos da Bíblia” parece indiciar a tentativa de mais seriedade. São referidas fontes. Surgem comentários de enquadramento de alguns especialistas e a informação é apresentada quase sempre na forma de hipótese.

Em “Os Segredos da Bíblia” questiona-se a origem dos textos que compõem a coletânea de textos históricos, míticos e religiosos a que chamamos Bíblia. Entre muitas curiosidades são levantadas muitas questões que podem ser de extrema relevância, uma vez que os escritos da bíblia foram muito influentes na história da humanidade.
Refiro de seguida alguns exemplos de questões levantadas no documentário em causa, apenas a título de exemplo:

O novo testamento pode ter sido escrito por pessoas que não eram contemporâneas de Jesus, que podem ter vivido mais de 100 anos depois e que assinaram em nome dos seus discípulos para serem mais credíveis.

A referência a "virgem" Maria pode ser o resultado de um erro de tradução, pois no texto original estaria escrito "jovem mulher" que depois deu origem a “virgem” nas posteriores traduções.
Existem evangelhos que relatam o episódio do nascimento de Cristo numa casa normal, sem referências aos estábulos e animais.

O relato do episódio da ressurreição terá sido adicionado muitos anos depois ao texto original do evangelho, colmatando páginas supostamente desaparecidas para dar um final mais interessante ao relato que originalmente terminava com o relato do túmulo vazio.

Sabe-se que a compilação da bíblia tradicional católica romana resulta de ordens imperiais de uniformização dos vários cultos cristãos, que eram imensamente diversos e estavam espalhados especialmente pela zona oriental do império. De referir que foram muitos os livros e textos da época que foram retirados à versão final aprovada, isto porque detinham referências que, supostamente, não se conjugavam com a visão dos líderes religiosos cristãos no poder eclesiástico e nem com a visão política administrativa do Império Romano que via na uniformização religiosa uma ferramenta poderosa de gestão e estabilidade política. Ainda hoje existem várias versões da Bíblia com variações nos textos que inclui.

A postura e atitudes de Deus também parecem ir mudando ao longo dos textos, tornando-se mais benevolente à medida que a antiguidade dos textos diminui.

Todas estas referências são apresentadas como hipóteses viáveis no documentário, pelo que têm a grande vantagem de nos levarem à reflexão e a questionar. Só por isso vale a pena ver o programa, pois é uma maneira quase lúdica de aceder de forma introdutória a estes conteúdos, que habitualmente estão em formatos mais pesados.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Máquina da Dívida e a ditadura dos credores

Recentemente, o canal Odisseia exibiu o documentário "Máquina da Dívida" da autoria de Laure Delesalle. Nele a autora faz uma sucinta análise sobre o modo como se foram construindo as dívidas dos Estados.
 
O Banqueiro e a sua mulher - Marinus Van Reymerswaeke
 
A autora, numa clara tendência económica e política anti neoliberal, resume a uma série recente de eventos históricos para estabelecer a origem das colossais dívidas públicas dos países desenvolvidos. Tudo terá começado com o fim do padrão-ouro aplicado ao Dólar, tornando-se uma moeda fiduciária, sem relação com as reservas federais de ouro dos EUA, em 1971. Terá sido o modo encontrado pelos EUA para emitir moeda necessária ao financiamento das dispendiosas guerras periféricas, mas que eram essenciais para a dinâmica da Guerra Fria. Posteriormente, os sucessivos efeitos das crises petrolíferas, iniciadas em 1973, com as escaladas de preços nas economias de consumo, completamente dependentes do petróleo, geraram grandes inflações, aumento generalizado dos preços, quebras de investimento, redução das poupanças e a necessidade de recorrer ao crédito para manter os níveis de vida crescentes nos países desenvolvidos.

Este terá sido o processo inicial, que passou a decorrer numa economia mundial globalizada e de intrincadas interdependências, que tornou os Estados, na construção e manutenção das suas políticas sociais e de bem-estar, completamente dependentes dos credores. A própria globalização económica terá contribuído para a dificuldade de controlo das dívidas futuras, pois nos anos 80 reforçou-se o otimismo nas políticas neoliberais que acentuaram as tendências de desregulamentação e redução do peso dos Estados na economia, tornando as dívidas soberanas cada vez mais suscetíveis de serem influenciadas pela especulação e pelos mercados financeiros internacionais flutuantes.

Segundo Laure Delesalle instalou-se a ditadura dos credores. Se na Idade Média os soberanos podiam contrair divida quase infinita aos credores para as suas dispendiosas guerras e projetos, pois podiam simplesmente recorrer da força para apagar literalmente as dívidas soberadas, atualmente os mecanismos de controlo são indiretos ou quase inexistentes. Mesmo que se apliquem medidas de austeridade, a carga de juros pode ser tão pesada que se torna insustentável pagar efeitvamente a dívida, contraindo-se novos empréstimos para pagar os empréstimos antigos e os seus juros. Por outro lado, hoje os credores perderam o rosto.


Podem ser obtidas mais informações sobre este documentário em: http://odisseia.pt/programas/a-maquina-da-divida/
 
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Depois de Hitler (After Hitler) - um documentário sobre o lado negro do pós-guerra

No documentário "After Hitler" de David Korn-Brzoza e Olivier Wieviorka, de 2016, recuperam-se imagens e registos pouco conhecidos do pós 2.ª Guerra Mundial. É muito comum, quando se estuda a história do século XX ignorar o modo como se reorganizou a europa e se deu a "desnazificação". Habitualmente, até nos livros de história do ensino secundário para os alunos de humanaidades, a sequência é direta. Depois da Guerra Mundial, numa descrição genralista e pouco pormenorizada das desnazificação, surgem as tensões entre aliados e soviéticos, manifestadas por discursos de Churchill, Estaline e Truman que, depois levariam à Guerra Fria.
 
Fonte da imagem: https://www.zed.fr/en/tv/distribution/catalogue/programme/after-hitler
Mas existe um período negro que parece querer ser escondido, talvez por ser incómodo para os vencedores aliados. Com a derrota alemã a europa ficou profundamente desorganizada. Respondeu-se com violência às violências da guerra. Judeus continuaram a morrer nos campos de concentração, enquanto outros continuavam a ser chassinados por populações claramente instrumentadas por ódios antigos e antisemitismo, mesmo do lado "aliado". Deu-se uma caça às bruxas com execuções sumárias e populares dos antigos colaboracionistas nazis. Comunidades germânicas em paises do centro da europa, que residiam nesses territórios há séculos, foram expulsas e massacradas. Muitos alemães comuns e seus descendentes foram executados em grupo, à semelhança do que faziam os nazis na suas limpezas etnicas. Foi permitida a escravatura da população alemã por parte dos aliados como modo de castigo e recuperação dos destroços de guerra causados. Deu-se um exodo massivo na europa com milhões depessoas em movimento em todos os sentidos, pois as delimitações feiteiriças nunca tinha sido capazes de delimitar e definir no território a diversidade das comunidades etnicas e nacionais Mesmo entre os aliados deram-se violências e exenofobias várias.
 
A guerra fria haveria de transformar os inimigos em aliados e os aliados em inimigos. Tudo mudou rapidamente e a memória do passado parecia ser apagada ou relembrada sempre com violência.
 
"After Hitler" é um daqueles documentários importantes para conhecer a história recente da Europa e refletir sobre o seu futuro.
 
 


 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Castro de Monte Mozinho – O génio da adaptação romana à geografia física e humana

Existe um tesouro arqueológico em Penafiel herdado da ocupação romana do território português. Este e outras preciosidades arqueológicas e da história nacional tiveram direito a destaque na série de documentários “Escrito na Pedra”, da autoria de Júlia Fernandes e recentemente exibidos na RTP2. Trata-se do castro de Monte Mozinho.

Fonte da imagem: http://www.cm-penafiel.pt/

Os vestígios desta povoação são particularmente curiosos. Uma vista aérea poderá levar os mais imaginativos aficionados da ficção científica a identificar o desenho de uma nave espacial – houve que dissesse que parecia o Millenium Falcon da saga Star Wars. Mas o sítio é especialmente curioso por ser um castro construído por romanos.

Os castros eram as povoações fortificadas de origem antiga, reconhecíveis nos povoados celtiberos da península, associados à Idade do Ferro. Constituíam-se em locais elevados, aglomerando casas de planta circular e telhados de colmo, defendidas por muralhas simples. Ou seja, com a romanização este tipo de ocupação foi sendo abandonada e a população indígena começou a adotar o modelo urbano romano, de planeamento em malha quadrangular, a ortogonalidade do cardo-decumanos, centralidade do fórum, praças e outros edifícios públicos. Importantes foram também as vilas - edificações centralizadoras que organizavam latifúndios e áreas de exploração do território rural, semelhantes a quintas de grandes dimensão e que poderiam ser imensamente ricas e autossuficientes.

Mas o Castro de Montezinho foi construído pelos romanos no século I. d.C., sendo ocupado até ao século V da nossa era. Não se trata da romanização de uma povoação mais antiga. Tudo indica, tal como salienta o documentário, que os romanos terão adotado este design de castro para atrair para aquele novo povoado a mão-de-obra indígena, pois pretendiam explorar o território da envolvente, rico em minérios. Não sendo de descurar o valor estratégico de domínio do território.

Assim, este castro é urbanisticamente híbrido. É singular, para além de proporcionar uma experiencia de visita única pela riqueza dos achados arqueológicos e vestígios dos edifícios descobertos e expostos para contemplação. Tudo indica que se trata de mais uma manifestação do génio de gestão e organização territorial dos romanos, sempre capazes de se adaptarem à geografia física e humana dos territórios que dominaram, tentando tirar deles o melhor partido.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quem inventou os camuflados de guerra?

Supostamente foram os pintores cubistas que inventaram as pinturas de camuflados modernas, isto segundo o documentário "As Aventuras da Arte Moderna", no original "Les aventuriers de l'art moderne", da autoria de Amélie Harrault, Pauline Gaillard, Valérie Loiseleux  .  
 
Parque de Carrières-Saint-Denis - Georges Braque
 
Segundo a anterior fonte, durante uma das muitas batalhas da Primeira Guerra Mundial um telefonista francês recebeu instruções para transmitir a ordem de fogo à artilharia. Mal o canhão disparou foi atingido pelo inimigo e explodiu. O telefonista questiona-se: "Porque não proteger os homens com uma camuflagem que imitasse as formas e cores da natureza?"
 
O telefonista era o pintor  Lucien-Victor Guirand de Scévola , que de imediato transmitiu a ideia ao Estado-Maior francês. Em fevereiro de 1915 o Ministério da Guerra francês aceitou criar uma equipa sob sua direção. Scévola recorreu aos cubistas por serem capazes, com se tinha provado nas suas criações revolucionárias, de representar um ou mais objetos na sua íntegra, em todas as suas perspetivas, e não apenas sobre o ponto de vista do observador. Assim, supostamente, os cubistas inventaram as primeiras pinturas de camuflagens tais como as conhecemos hoje.
 
Pintores e escultores desenharam a aguarela também cenários falsos atrás das linhas. Pintam folhagens em tons naturais nos capacetes. Pintaram, esculpiram e construíram cadáveres, cavalos, fardos de palha, veículos, homens, ruinas e tudo o mais que pudesse contribuir para iludir o inimigo e ocultar os verdadeiros planos e estratégias de guerra. O famoso pinto Georges Braque, coinventor do cubismo juntamente com Picasso, terá participado ativamente nesses projetos.
 
Curiosamente os cubistas terão sido criticados por pelos academistas pela suas bizarras criações, mas acabaram por criar, indiretamente, ainda que pudesse ser pouco evidente para o não especialista, uma solução prática que ainda hoje as forças armadas não dispensam.
 
 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Felicidade no Trabalho – Um documentário de Martin Meissonnier

O trabalho é um dos pilares da vida contemporânea. Desde que o capitalismo traduziu o trabalho em valor, indiretamente, transacionável colocou-o sob pressão. Ou seja, modificou as relações de trabalho e submeteu os trabalhadores a novos desafios.

Os trabalhadores de hoje estão cada vez mais submetidos ao “turbocapitalismo” e ao desenvolvimento económico mundializado onde se diluem restrições, direitos e as velhas estruturas laborais. São imensos os casos de trabalhadores em situações insustentáveis, tanto na dimensão salarial mas especialmente pela pressão do stress.
 

O presente texto não é um manifesto político ou sindical. Nada disso. Serve de introdução ao documentário “Felicidade no Trabalho”, realizado por Martin Meissonnier, em 2015. O que torna esse filme especialmente interessante é a inversão do problema. Foca-se na solução para os problemas laborais através do recurso à felicidade. Fá-lo recorrendo a vários exemplos de empresas e instituições que se modernizaram e melhoraram a sua produtividade e desempenho através dessa estratégia. Centrar o funcionamento da empresa na garantia da felicidade dos trabalhadores demonstrou ser capaz de recuperar empresas/instituições em situação difícil e torna-las casos de sucesso com o devido retorno económico para trabalhadores, proprietários e investidores.

Passemos a alguns dos exemplos que levaram ao sucesso:
• Envolvimento dos trabalhadores em todas as atividades da instituição, especialmente na decisão de funcionamento e estratégia geral;
• Organização horizontal, evitando uma fria e distante hierarquia vertical;
• Valorização do potencial e capacidades individuais dos trabalhadores, incluindo recompensas financeiras e outras vantagens quando contribuem para o melhor desempenho da instituição;
• Responsabilização e autonomia nas tarefas e funções de cada trabalhador;
• Participação na escolha das chefias, predispostas para modelos colaborativos contínuos e em melhoria constante;
• Flexibilidade nos horários, possibilidade de trabalho à distância, respeito pelo ritmo individual de cada trabalhador e trabalho orientado para objetivos;
• Sentimento de que as funções que os trabalhadores desempenham são socialmente benéficas e importantes.

Estes são apenas alguns exemplos generalistas que se podem resumir os casos concretos de empresas descritas no documentário. De notar que algumas empresas já fazem isto em Portugal, mas são exceções, pelo que seguramente haveria muito a ganhar em produtividade tal como se demonstra nos casos de sucesso identificados.

Em jeito de conclusão importa lembrar mais alguns dados que o documentário enuncia. Lembra que passamos maior parte do nosso tempo ativo a trabalhar, mais que em lazer, família e outras atividades. Que as sociedades ocidentais têm assentado numa cultura democrática e de respeito pela liberdade e individualismo, mas que nas empresas e instituições essa mudança não ocorreu. Que o choque de gerações é evidente, no caso concreto da geração Y isso é notório, em que os modelos rígidos de organização do trabalho não têm em conta as mudanças sociais e de mentalidades das novas gerações. Esses novos trabalhadores valorizam mais a flexibilidade, criatividade, independência e o propósito das funções laborais assumidas que a estabilidade e a remuneração como o principal valor para garantir a felicidade e realização no trabalho.

Tendo em conta uma realidade europeia, o documentário refere que somente cerca de 10% dos trabalhadores são felizes no trabalho. Que para 60% deles o trabalho é-lhes indiferente e que os restantes 30% simplesmente detestam o que fazem. Se os trabalhadores só atribuem ao salário cerca de um terço das razões para serem felizes, tudo o resto dependerá daquilo que já se enunciou como medidas a implementar para melhorar a felicidade no trabalho e produtividade das empresas e instituições. Trabalhadores desmotivados, stressados e contrariados não contribuem para a produtividade das empresas/instituições. No fundo é bastante simples.

Assim, o documentário comprova que compensa, tanto pela saúde psíquica dos trabalhadores como pelos ganhos económicos, apostar na felicidade dos trabalhadores, seja em que ramo de atividade for, quer seja nos sectores públicos ou privados.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Adam Smith mal interpretado?


A obra mais conhecida de Adam Smith é imensamente citada e provavelmente um dos textos mais influentes da época moderna. Diz-se que foi uma das principais construções teóricas e intelectual que terá dado suporte ao capitalismo, inaugurando a abordagem à economia duma perspetiva científica. Mas será que temos interpretado bem A Riqueza das Nações?
 
Estudo de cor, quadrados com círculos concêntricos - Kandinsky

O recente documentário Capitalismo, da autoria de Ilan Ziv, faz, ao longo de 6 episódios, a história do capitalismo. Nesse documentário vários economistas e professores universitários são chamados a abordar a história do próprio capitalismo. O segundo episódio é dedicado a Adam Smith, sendo especialmente interessante o modo esse pensador é apresentado, muito menos liberal do que seria de supor.

Diz-se que a divisão do trabalho é o motor do desenvolvimento do capitalismo. Adam Smith dá o exemplo da produção de alfinetes, de como, através da divisão do trabalho, a produção pode crescer imensamente. Mas depois conclui que é um péssimo sistema do ponto de vista humano, estupidificando os trabalhadores e retirando-lhes humanidade. Poucos parecem ter lido a Riqueza das Nações para além das primeiras centenas de páginas.
 
Outro ensinamento de Smith é o do empreendedorismo individual. Quando um empreendedor desenvolve o seu interesse próprio contribui mais ainda mais o interesse coletivo, diz Smith. Mas só considerava esse princípio do capitalismo válido quando compatibilizado com os princípios morais. Adam Smith só deixou duas obras completas, destruiu todos os seus textos que considerava ser inferiores. Para além de A Riqueza das Nações escreveu também A Teoria dos Sentimentos Morais. As duas obras eram complementares e não deveriam ser analisadas separadamente. Sabemos que o foco nos interesses pessoais tem como efeito ignorar uma visão abrangente da envolvente. A não preocupação ou secundarizar tudo o resto gera problemas sociais, ambientais e outros, já para não falar das falhas éticas e morais que denota.
 
Mas o termo mais emblemático de Adam Smith é a “mão invisível”, uma das grandes metáforas usadas na economia. O seu criador apenas usou a expressão uma vez em todo o texto de A Riqueza das Nações. Parece que a frase está fora de contexto, pois no texto é aplicada a um exemplo particular. Smith fala do caso concreto dos investidores locais serem levados por uma “mão invisível” a investir na sua terra, por estar mais perto e ser mais seguro quando não seja espectável terem lucros maiores mais longe. Essa “mão” seria uma segurança para a economia local e nacional perante a liberalização dos mercados. Isto é oposto ao significado utilizado correntemente. Ficando ainda mais fragilizada a sua aplicação num mundo globalizado. A metáfora da mão invisível serviu primeiro como argumento para lutar contra o feudalismo e o antigo regime. Agora serve para lutar contra o Estado Providência.
 
Por fim, as últimas questões. Será possível contrariar o mercado livre? Será questionável sequer? Provavelmente diremos que não. Mas, tal como se afirma no documentário, se pensarmos no trabalho infantil e outras problemáticas facilmente chegamos ao ponto de negarmos e repudiarmos essa liberdade total. Será então o mercado livre uma utopia a evitar?
 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Decifrando o Estado Islâmico - Um documentário sobre propaganda contemporânea


Dos muitos documentários que atualmente passam nos canais da especialidade em Portugal, infelizmente poucos são os que merecem ser vistos. Mas, felizmente, há sempre exceções. Uma delas é documentário “Decifrando o Estado Islâmico”, exibido no canal Odisseia, da autoria de Riccardo Mazzon, Antonio Albanese e Graziella Giangiulio.


Muitos programas falam do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh), mas este documentário ganha especial interesse. Isto porque exibe informações, muito pouco conhecidas, sobre o modo como funciona a propaganda do Daesh, algo que não chega ao comum espectador ocidental.

A máquina de propaganda do Daesh é profissional, produzindo conteúdos em vários formatos. Os vídeos são chocantes, não tanto pela violência que exibem, mas pelo simples facto de existirem e e retratarem situações reais. Ou seja, a máquina de propaganda do Daesh é incrivelmente forte e sofisticada no modo como alia a técnica à mensagem. Recorrem a técnicas cinematográficas vistas em filmes de qualidade mundial, tudo feito para criar impacto e dimensão épica. Utilizam as mesmas ferramentas do marketing e comunicação utilizadas no ocidente para fomentar o consumo e entretenimento. Utilizam esses meios aplicados ao terror.

Ao contrário do cinema, que tenta simular a realidade, a propagando do Daesh usa a realidade para simular o cinema de acção épico, criando imagens poderosas. Só vendo para acreditar. Mas esses conteúdos, talvez corretamente, são censurados no ocidente, pois servem efectivamente para recrutar jovens ocidentais susceptíveis à sua mensagem. Publico não faltará, uma vez que nas sociedades pós-modernistas os valores estão em contante reformulação e por vezes é difícil definir uma identificação colectiva e individual. Os efeitos do capitalismo consumista e individualista e das políticas falhadas de integração social contribuem também por sua vez para o problema em causa. Misturando os ingredientes da susceptibilidade dos jovens, do seu desenraizamento, da falta de perspetivas de futuro, de uma busca por identidade e sentimento de pertença, fervor religioso, necessidade de realização e glória pessoal, tal como o efeito da cultura de filmes e jogos de vídeo violentos, criam-se as condições para o jihadismos se desenvolver.

A geopolítica, a história e a religião explicam por sua vez também as razões de existirem territórios e momentos próprios ainda mais propícios para o extremismo islâmico ocorrer. Isso daria, como é óbvio, muito mais que escrever.

Assim , do documentário, pode concluir-se que o Daesh tem usado os meios audiovisuais, as redes sociais e outras ferramentas próprias do mundo ocidental, da seu capitalismo, liberalismo e democracias para derrotar o seu inimigo: o próprio Ocidente.

Dificilmente poderá haver uma solução para este problema enquanto continuarmos a ver o problema somente segundo a matriz de valores do ocidente., ainda mais se de modo sectário.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cleópatra era Feia?

Alguns estudos e investigações mais recentes revelam que a imagem popular da a última governante do Egipto faraónico talvez não seja verdadeira. Parece que Cleópatra não era particularmente bonita, muito menos portadora de uma beleza capaz de hipnotizar. Os registos romanos, talvez encomendados e orientados por razões políticas, sejam apenas manipulações falsas. De facto houve um relacionamento entre Cleópatra e dois dos homens mais poderoso da época, cada um a seu tempo. Primeiro foi o envolvimento com Júlio César e depois com Marco António. Os cronistas romanos fizeram-nos crer que tanto Júlio César como Marco António teriam cedido aos encantos magnetizantes da beleza e sexappeal da exótica rainha do Egipto, tentando fazer diminuir a sua excecional educação/cultura e capacidades intelectuais/políticas – algo mal visto pela mentalidade romana daquele tempo, fruto de uma sociedade patriarcal que secundarizava o papel social/político da mulher.
Cleopatra testando veneno em condenados - Alexandre Cabanel
Estudos de Sally Ann Ashton e Joyce Tyldesley, com base em antigos registos, estatuária, numismática e outro tipo de gravuras, sugerem que Cleópatra seria de facto exótica mas que não seria um exemplo espetacular de beleza, podendo ser considerada, pelos padrões atuais, até feia. 
Reconstituição de Cleopatra. Fonte: Ancients Behaving Badly

Numa das reconstituições Cleópatra assume um aspeto pouco simpático: testa proeminente, queixo pontiagudo, lábios finos e nariz encurvado. Noutra reconstituição foi-lhe considerada como uma jovem portadora de uma beleza exótica com forte mistura étnica europeia e africana.
Reconstituição de Cleópatra. Fonte: Daily Mail 
Restam então muitas dúvidas sobre o aspeto real de Cleópatra, mas certo é que as imagens que o cinema nos deixou, especialmente com Elizabeth Taylor, estão quase de certeza muito longe da realidade. De qualquer dos modos, mesmo que Cleópatra não tenha sido a mulher mais bela do seu tempo, teve sem dúvida uma capacidade ímpar de cativar os homens mais poderosos de então, fascinando também as gerações posteriores até hoje. Bela ou não, Cleópatra tinha com certeza algo de muito especial, seguramente um personalidade muito forte e cativante, tanto que continuamos a falar dela mais de 2000 anos depois.

Fontes bibliográficas:
Vídeos

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Terror Viking – Um documentário sem cornos



De uma série de documentários intitulados de Guerreiros (Wariors), exibidos no Canal de História, dedicados às classes guerreiras de várias sociedades ao longo da história, trago aqui algumas palavras sobre os vikings. Apesar de algumas imprecisões e de um excesso de recurso ao espectáculo visual e de ação forçada, o documentário tem a capacidade, através de exemplificações práticas, de nos conseguir fazer entrar, um pouco, no mundo dos vikings.
Os vikings eram os guerreiros mais temidos e odiados do seu tempo, foram considerados piratas, salteadores, bárbaros, mas será que foram tudo isso? Ou será que foram também algo mais? E, já agora, quando ganharam os vikings os cornos?


Chegada de Vikings a Wirral - Chris Collingwood


A História, cultura e geopolítica
Aparentemente, de um momento para o outro, no debaldar do século VIII a Europa começou a sofrer ataques (Em 793 d.C. navios vikings chegam a Lindisfarne em Inglaterra e saqueiam violentamente o mosteiro existente, chacinando os monges. Estes ataques que iriam durar pelos próximos 300 anos), investidas e pilhagens por parte de povos que chegavam nos seus rápidos barcos vindos do norte. 
Vejamos primeiro a geografia da península escandinava, mais concretamente aquela que caracteriza a Noruega. Naquilo que hoje são alguns dos países mais civilizados do mundo, especialmente na Noruega e Suécia, mas também na Dinamarca, durante a baixa Idade Média ascende e desenvolve-se a cultura Viking. A geografia e o clima adverso desses territórios, (só a Noruega tem mais de 24.000 quilómetros de costa com Fyords profundos a dilacerar a paisagem), condicionaram a formação de grandes estados ou uniões políticas coerentes. Esses territórios eram dominados por pequenas tribos e grupos que lutavam habitualmente entre si, unidos por uma cultura semelhante que os incentivava a essa atitude bélica, formava-se uma cultura de guerreiros destemidos e implacáveis. Para esses povos o ponto de encontro mais acessível, estranhamente, situava-se no Mar. Os seus barcos eram utilizados para trocas comerciais, mas especialmente para, quando unidos nos embates das abordagens, servirem de campos de batalha aquático. Habitualmente, durante essas batalhas e depois de múltiplas abordagens, os barcos eram unidos formando plataformas mais ou menos conexas de combate. A dificuldade em combater no mar, em espaço exíguos, balançantes, instáveis e confusos obrigam os guerreiros vikings a desenvolver técnicas de combate que evitavam o erro e o descuido, obrigavam-nos a muita coordenação e manobras de equilíbrio incomparáveis. Eram mestres em combates corpo a corpo a curta distância, exímios no combate rápido anfíbio.
As artes bélicas, como modo de vida e influência económico-social, assumiam grande importância nas sociedades escandinavas. Provavelmente terão sido essas razões que levaram a que os povos escandinavos saírem dos seus territórios e partissem à aventura, conquistando e saqueando o mundo conhecido. A própria religião viking exercia também uma importante influência marcial. O deus supremo do panteão viking era Odin, deus da guerra. Os vikings acreditavam que se morressem honradamente e com bravura em combate teriam acesso ao paraíso, ao valhala, com o próprio Odin a resgatar todos os bravos guerreiros que tombassem em batalha. A sua perícia e convicções religiosas faria deles guerreiros temíveis.
Outra razão, associada também à cultura e religião, era a política interna na Escandinávia e o modo como estava organizada a economia e o poder das elites locais. Na altura dos maiores ataques vikings os grandes estados da Escandinávia estavam em formação e os novos reis e líderes, devido à cultura guerreira em lhes assistia, foram impelidos a provar a sua coragem e capacidade bélica em conquistas, pilhagens e atos de bravura no estrangeiro. Sendo que as riquezas pilhadas eram igualmente essenciais para o estatuto necessário a um rei viking. A guerra no estrangeiro servia para financiar a própria guerra no país natal, nas habituais disputas entre reis e pretendentes, com exércitos cada vez mais numerosos e bem equipados. 
A partir do século IX praticamente toda a Europa do Norte é pilhada, os vikings atacam: Dublin, Edimburgo  Hamburgo, Paris, etc. Por volta do século X a maior parte das cidades rendiam-se automaticamente quando surgiam os temíveis homens do norte, pagando enormes quantias de resgate para serem poupadas da destruição. 
Mas depois de séculos de conquistas e pilhagens por toda a Europa, depois de terem sofrido processos de aculturação, as comunidades escandinavas tornaram-se menos belicosas, tendo a conversão ao cristianismo para isso contribuído. 


Técnicas e tecnologias
Uma das armas terrestres preferidas dos vikings eram os machados. Usavam, preferencialmente, machados de uma só mão que lhes permitia erguer um escudo na outra. No entanto, o machado dinamarquês, pensado para se usar com as duas mãos, era impressionantemente grande: composto por um cabo de madeira que podia atingir os 2 metros, com uma lâmina de aço que podia chegar a pesar 3 kg. Por outro lado, utilizavam também pequenos machados de arremesso, por exemplo semelhantes com as “Franciscas” dos Francos, que conseguiam atirar certeiramente a mais de 45 metros
Sem matéria-prima dificilmente os vikings poderiam ter as armas necessárias aos constantes combates que desencadeavam. Pela Escandinávia, a turfa contém muito minério de ferro arrastado das montanhas e depositado nas zonas baixas. Os vikings desenvolveram técnicas siderúrgicas e metalúrgicas (inspirados nos inventores da técnica de fundição de metal dos pântanos inventada pelos romanos) de tratarem este material natural, extrair o necessário ferro para produzirem então as suas armas que eram especialmente letais nas suas mãos. 
Os Vikings foram também exploradores, comerciantes e colonizadores. Sabe-se que atingiram, com os seus barcos, o Mar Negro, o Mediterrâneo e até a América do Norte - antecedendo Cristóvão Colombo em mais de 400 anos. Formaram vários Reinos na Europa, por exemplo: alguns pequenos reinos na Irlanda e Inglaterra, o Ducado Normando (normando significava Homem do Norte) em França, o Reino de Nápoles e Sicília em Itália. Paradoxalmente constituíram a guarda de elite do Imperador Bizantino: os varegues. O próprio principado de Novgorod, que mais tarde daria origem ao reino e Império Russo, tem também origens e relações com os Vikings. Ou seja, para além de guerreiros temíveis, tiveram de ser também os melhores marinheiros do seu tempo. Para isso contribuiu a mestria no domínio da vela em alto mar, uma vela muito manobrável controlável por cordas, que ajudava a condução do barco em simultâneo com o tradicional leme. Essas velas eram feitas de lá ou linho e impermeabilizadas com sebo – pensa-se que valiam mais que o próprio barco. Os barcos – os drakars -podiam alcançar velocidades de 48 km/h com tripulações que iam até um máximo de 60 homens. No mar orientavam-se pelo Sol, pelas algas (se eram velhas ou novas e que direção tomavam com as correntes), pela direção do voo das aves, observavam todos os elementos, animais e plantas marinhas para ajudar na sua localização. Os vikings podiam aguentar meses em alto mar, pescando e dormindo no fundo dos navios em sacos cama de pele me morsa ou foca. Apesar de toda a tecnologia que na altura os distinguia, o facto das tripulações serem compostas por homens que eram simultaneamente guerreiros e marinheiros/remadores garantia que o barco poderia estar sempre em movimento – isso obrigava a um exercício constante da tripulação, que detinha, inevitavelmente, força e resistência muito acima da média. Também por utilizarem barcos muito exíguos, criava-se, indiretamente, o reforçar dos laços entre os tripulantes, criando uma camaradagem e confiança que lhes davam uma vantagem táctica militar superior no campo de batalha. 
Os viking eram também distintos engenheiros navais. Os tripulantes dos drakars sabiam construir os seus próprios barcos. Com os seus machados conseguiam habilmente transformar troncos de árvores em tábuas, e sem esquemas escritos, conseguiam construir os seus barcos apenas recorrendo à memória e as dimensões medidas a olho. Um barco médio precisava de madeira de mais de uma dúzia de árvores de porte médio (carvalhos, abetos e pinheiros). O design dos barcos permitia que fosse remado para trás e para a frente instantaneamente, sem terem de dar a volta. Eram calafetados com lá, pelo de animais ou musgo cobertos de sebo. Mas a maior vantagem da embarcação era o seu pequeno calado. Os fundos apenas mergulhavam 50 cm na água, permitindo navegar em águas muito baixas e desembarcar praticamente em todo o lado. 
Mas os barcos não era as únicas construções Vikings que os distinguiam no seu tempo. O modo com construíam fortes em terra dava-lhes também distinta vantagem. Construíam, habitualmente, recintos de planta circular perfeita, com diâmetros entre os 100 e os 300 metros. O perímetro era formado por uma elevação de terra reforçada de madeira e cercada por um fosso. No interior as construções eram dispostas seguindo um padrão quadrangular, existindo: estábulos, oficinas, armazéns, residências e até cemitérios.
No que toca às armas, os vikings não utilizavam só machados de combate. Recorriam muito habitualmente também a espadas, com design muito típico. Essas lâminas eram semelhante aos gládios romanos, mas mais esbeltas e alongadas, com punho quase sem proteção de mão. Por outro lado, as lanças eram muito populares, tendo, à semelhança dos hoplitas gregos, técnicas próprias de combate em grupo, que potenciavam a coordenação em linhas ordenadas, conjugando sobreposições de escudos e lanças em riste – podiam formar o chamado muro de escudos.

Então e os Cornos?
Sabe-se hoje que os vikings estavam muito longe de ser selvagens desmiolados, brutos que espalharam violência e destruição pela Europa. Eram na realidade formidáveis guerreiros, vindos de uma zona geográfica agreste e de extremos que os endurecia. Eram portadores de uma cultura guerreira que fomentava a coragem e os feitos militares. Detinham tecnologia pragmaticamente evoluída e adequada para as suas conquistas e explorações.
Funeral de um Viking - Frank Bernard Dicksee

Então e os capacetes Vikings? O seu aspeto era muito diverso, mas parece que nunca foi hábito utilizarem cornos como ornamentação. Essa visão foi inventada na época vitoriana (século XIX) para recriações românticas historicamente pouco fiáveis. Os únicos cornos que usavam tinham como função servir de recipientes de bebida, até porque os cornos estavam associados à fertilidade e não à arte bélica pelo que se sabe. Os vikings, a terem cornos não os usariam nos capacetes…

Este documentário pode ser visto, em 5 parte, respetivamente, mas sem legendas em:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Outras referências bibliográficas de cruzamento de dados:
“Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Média”. Círculo de Leitores.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

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