Mostrar mensagens com a etiqueta Mitologia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mitologia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Das Saturnálias ao culto do Sol e o nascimento de Cristo: a origem do Natal

O festival familiar da Saturnalia, ou saturnálias, era provavelmente o festival mais importante do final do ano, tanto para as famílias romanas, mas especialmente para os escravos. Nas Saturnalias os papeis invertiam-se entre senhores e escravos, e havia uma liberdade generalizada para cometer todo o tipo de atos que não seriam permitidos durante os restantes dias do ano, algo semelhante ao carnaval. Pelos registos que nos chegaram, as festividades começariam, segundo nosso calendário atual, a 17 de dezembro e duravam entre 3 e 7 dias, dependendo do período histórico. Deveria ser feito um sacrifício a Saturno, quer para os romanos estava associado à agricultura e a vida feliz. Faziam-se um grande festim, com refeições onde a inversão dos papeis e hierarquia social se dava de modo formal ou informal. Em algumas famílias, depois dessa refeição, dava-se uma troca de presentes, seguindo-se jogos, discussões literárias e bebidas desregradas (Dolansky, 2010). Podemos encontrar semelhanças entre as celebrações das saturnalias e as atuais festividades de Natal.

Saturnalia - Antoine Callet
Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Saturnalia_by_Antoine_Callet.jpg

Igualmente importante na influência das festividades cristãs foram os diversos cultos do Sol, sistematizados como culto imperial numa altura em que se exigia unidade política. Este culto imperial, personalizado na figura do imperador, do Invictus Dominus Imperii Romani, instituiu-se em 274. d.C. As associações de Cristo, e de todas as figuras da nova religião, aos cultos solares são evidentes em várias fontes. O estabelecimento do que seriam as festividades do natal cristão deve ter ocorrido entre 243 e 336 d.C., coincidindo com os cultos do sol, assumidos pelo regime imperial e comuns a vários cultos mais antigos fortemente estabelecidos nas provinciais imperiais romanas. O dia de nascimento de cristo terá sido assumido, por conveniência, no dia 25 de dezembro em 350 d.C.. Essa data ficaria a vigorar no ocidente e atribui-se ao Papa Júlio I (Roll, 1995). 

Assim, como tantas outras festividades e tradições, o Natal, que hoje também se afasta dos cultos cristãos primordiais, resulta de uma construção social ao longo da história. Por isso, não é de estranhar que as festividades continuem a evoluir pelas múltiplas influências sociais e conveniências que vão surgindo.

Referências bibliográficas:
Dolansky, F. (2010). Celebrating the Saturnalia: religious ritual and Roman domestic life. A companion to families in the Greek and Roman worlds, 488-503.
Roll, S. K. (1995). Toward the origins of Christmas (Vol. 5). Peeters Publishers.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Viriato era mais espanhol que português?

Viriato tem sido uma daquelas personagens ressurgentes, e quase sempre presente, na memória coletiva nacional. O termo “lusitano” é utilizado de uma forma bastante comum para identificar determinados elementos e características materiais ou imateriais ligados a Portugal e aos portugueses. No entanto, a historiografia sobre os lusitanos e Viriato tem abalado a relação direta entre ambos e Portugal, abalando e remetendo para o mito a suposta relação entre ambos os povos e territórios.
Para poder tirar algumas conclusões sobre o modo como surgiu e se desenvolveu a identificação e associação de Viriato à identidade nacional portuguesa importa fazer um breve périplo pela principal historiografia dedicada ao tema, na mesma medida em que se deve analisar também a restante produção literária erudita e criativa que ajudou a alicerçar a memória colectiva.
Apesar de fortes evidências historiográficas que colocam o mito de Viriato, na sua relação com os portugueses, em causa, será difícil apagar da memória colectiva o sentimento de identificação enquanto as pessoas assim pretenderem.
 
Monumento a Viriato - Marianno Benlliure
Fonte da Imagem: http://amigos-de-portugal.blogspot.pt/2013/01/viriato.html

Fontes historiográficas clássicas
As primeiras fontes a referirem Viriato surgem no século I a.C. (Mattoso, 2006), da autoria de Posidónio e Diodoro. Segundo José Mattoso terá sido o primeiro desses historiadores a descrever Viriato como “um herói puro e justo, porque nasceu e viveu em ambientes selvagens, não corrompidos pela decadência que a civilização acarreta”, enquanto que Diodoro terá ajudado a transmitir a imagem construída por Posidónio.
Apesar de considerar estas primeiras fontes pouco sólidas José Mattoso afirma que do cruzamento dessa primeira historiografia com os posteriores autores greco-latinos será possível concluir que Viriato “teria nascido da Lusitânia, junto do Oceano” e que nada justifica a tradição de atribuir à Serra da Estrela como local do seu nascimento, pois nessas fontes o “Monte Hermínio” não surge em momento algum associado a Viriato ou às Guerras Lusitanas.
As fontes romanas descrevem as Guerras Lusitanas, situando-as na atual Andaluzia Espanhola, numa região muito mais próxima da civilização e núcleos urbanos mediterrânicos que do ocidente peninsular mais selvagem. Aí, na zona central e meridional da atual Espanha, Viriato parece ter sabido movimentar-se com mestria e conhecimento da região, tanto que obteve sucessos militares consideráveis. Isto parece colocar em causa a tese da uma origem mais ocidental e selvagem do chefe dos lusitanos.
 
Literatura e a construção da personagem de Viriato
A literatura desenvolvida em torno de Viriato, enquanto herói, foi sem dúvida o mais consequente modo de transmissão do mito (Salema, 2010) e o alimento da memória coletiva dai proveniente. Esse movimento terá sido iniciado no século XVI, em pleno renascimento e  florescimento humanista em Portugal, especialmente pela acção de Sá de Miranda e Luís de Camões (Martins, 2000).
Sá de Miranda utiliza Viriato como o arquétipo moral do Portugal, anterior à dissolução dos costumes sociais causados, na opinião do autor, pela expansão portuguesa e riquezas fáceis trazidas do oriente.
Camões segue noutro sentido, atribuindo a Viriato o papel de patriarca heróico militar dos portugueses, figura muito útil tendo em conta o pendor ideológico da sua obra maior – Os Lusíadas.
Mais tarde, Frei Bernardo de Brito, na sua obra “Monarquia Lusitana”, durante a perda da independência nacional, e Brás Garcia Mascarenhas, em “Viriato Trágico”, durante a Guerra da Restauração, ligam directamente os portugueses a viriato, já sem o assumirem como símbolo ou arquétipo como Camões e Sá de Miranda. De notar que estas duas obras épicas e de forte sentido nacionalista demonstravam descrições fantasiosas de Viriato, especialmente a segunda, tendo Brás Garcia de Mascarenhas inclusivamente sido inspirado pela sua própria vida e experiência na Guerra da Restauração para materializar a tragédia de Viriato.
Associado ao movimento do romantismo que varreu a europa durante o século XIX desenvolveram-se tendências populares celtizantes, que no caso nacional reforçou, a partir de 1870, o mito de Viriato e dos Lusitanos (Pereira, 2011). A monarquia constitucional, e mais tarde o regime republicano, voltarão a adaptar Viriato aos seus intentos ideológicos e políticos (Martins, 2000).
Seguindo essa tendência, Leite de Vasconcelos e Mendes Correia, cruzando a etnografia e a arqueologia, tentam defender teses de ligação entre os portugueses e os lusitanos.
Mas é Teófilo Braga que tenta contribuir mais para essa nova redescoberta utilitarista de Viriato. Cria assim um longo romance histórico, “Viriato - Narrativa epo-histórica”, em 1904, onde tenta, através da sua erudição fazer uma aproximação de “raça” entre os portugueses e os lusitanos. Parte dos registos romanos de Galba para fazer a distinção étnica entre os iberos e os lusitanos. A obra de Teófilo Braga denota uma necessidade de reforçar o nacionalismo como resposta ao Ultimato Inglês e dar fundamentos nacionalistas ao próprio movimento republicano.
Em 1930 o pedagogo João de Barros adapta a obra “Viriato Trágico”, de Brás Garcia Mascarenhas, contribuindo para a persistência da memória de Viriato, tanto que o livro foi incluído na colecção “Os Grandes Livros da Humanidade”. Essa obra seria utilizada no ensino básico, contribuindo fortemente para a difusão e persistência da história fantasiosa de Viriato, carregada de uma grande carga nacionalista (Martins, 2000).
A última grande ficção escrita por Viriato deve-se a João Aguiar, intitulada “A Voz dos Deuses” e datada de 1984. O seu romance histórico readapta novamente a imagem de Viriato, tornando-o mais democrático e liberal, próprio da nova democracia portuguesa, ainda que mantendo algum rigor histórico.

A Morte de Viriato, Chefe dos Lusitanos -  José de Madrazo
 

Historiografia Contemporânea em conflito com o mito
Alexandre Herculano terá sido o primeiro historiador contemporâneo a minimizar a importância da ligação entre os lusitanos e os portugueses (Herculano, 2007). Essa sua história de Portugal, produzida em 1846, influenciou os posteriores manuais escolares na forma como Viriato seria apresentado (Salema, 2010). Foi somente em finais do século XIX, quando ainda estava bem presente em Portugal a humilhação do Ultimato Inglês, que alguns eruditos, especialmente Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga, assumiram a crítica direta a Herculano.
O espanhol Anselmo Arenas López, ao escrever a biografia de Viriato em 1900, concluiu que não teria nascido, vivido ou realizado qualquer façanha militar relevante em território ligado a Portugal, tendo estado sempre afastado 200 km da atual fronteira (Pereira, 2011).
Adolf Schulten contribui, por seu lado, já nas primeiras décadas do século XX, na sua obra monográfica sobre as antiguidades hispânicas, para o reforço da identificação de Viriato como sendo um dos grandes heróis bárbaros. Foi esse o autor que, tentando socorrer-se da arqueologia e fontes antigas, mesmo sem grandes certezas e com alguns métodos pouco rigorosos (Fabião & Guerra, 1992), atribuiu à Serra da Estrela o local de nascimento de Viriato. Esse trabalho contribuiu muito para o suporte das ações de Leite de Vasconcelos e Teófilo Braga de devolução de Viriato aos portugueses (Salema, 2010).
Carlos Fabião e Amílcar Guerra (1992) são muito contundentes em tentar fazer desmoronar o mito de Viriato e sua ligação a Portugal, que ainda tão vincadamente persiste na memória colectiva portuguesa. Enunciam para isso uma série de referências que importa lembrar, entre elas:
•A Lusitânia só adquire existência territorial depois da ocupação e organização administrativa romana.
•A Lusitânia não correspondeu ao atual território continental português.
•As fontes antigas têm muitas dificuldades em identificar e descrever os lusitanos.
•Não existem fontes que façam corresponder, sem dúvidas, o Monte Hermínio com a Serra da Estrela. Apesar disso Jorge de Alarcão defende a hipótese dos diversos acidentes geográficos do cento do atual território português poderem ser associados ao Monte Hermínio (Fabião & Guerra, 1992).
•A descrição de Possidónio era mais influenciada por intenções filosóficas que factos históricos.
José Mattoso (2006) descreve o episódio de Viriato deliberadamente como um mito, alertando, no entanto, para a não existência de qualquer outra fonte fidedigna que possa contrapor e negar totalmente as descrições de Posidónio e Diodoro. Mesmo com essas lacunas não nos poderemos esquecer que para esses dois historiadores a história de Viriato e dos lusitanos servia para transmitir os seus ideais estóicos. Tal como foi utilizado para fins nacionalistas da nação Portuguesa, tudo indica que na antiguidade tivessem utilizado o mito com intuitos ideológicos, independentemente da veracidade ou razoabilidade dos factos e sua coerência.
Já autores como Vitor Oliveira Jorge e Julian Thomas (2008) referem também o modo como Oliveira Salazar, durante a chefia do Estado Novo, terá inicialmente aproveitado o mito de Viriato para a ele se associar enquanto se assumia como defensor dos interesses nacionais contra os imperialismos estrangeiros nas colónias portuguesas. Essa associação pretendia enviar também uma forte mensagem do autoritarismo do regime e seu ditador, pois, tal como Viriato que morreu traído pelos seus companheiros, se alguém tentasse o mesmo para com Salazar levaria a que os interesses nacionais fossem tomados pelo imperialismo externo.
De notar que em 1940, na sequência da comemoração do centenário da dupla fundação de Portugal, é inaugurada a estátua de Viriato em Viseu. O discurso ai proferido por Lopes Dias, baseado nas descrições literárias humanistas, aproveita o mito para funções nacionalistas (Fabião & Guerra, 1992), tão caras ao Estado Novo.
Apesar desta primeira associação dos desígnios nacionalistas do regime do Estado Novo a Viriato, o regime haveria posteriormente de renegar o chefe lusitano. Foi difícil posteriormente conciliar a identidade nacional, herdeira da romanização, com um Viriato opositor a Roma. Esse paradoxo aprofundou-se ainda mais com a Guerra Colonial, pois Viriato simbolizava a resistência indígena perante o imperialismo estrangeiro, nesse caso o português. Talvez por ai se explique o desaparecimento de Viriato dos manuais escolares a partir de 1968
 
Em conclusão
A memória colectiva portuguesa persiste em relembrar Viriato, sentindo-se honrada na ligação que estabelece com esse símbolo e arquétipo nacional. Ainda que a historiografia, já desde o século XIX, tenha definido a história de Viriato e sua ligação aos portugueses como mítica, Viriato não desaparece da memória dos portugueses. O herói lusitano parece querer resistir à historiografia com a mesma bravura e determinação que terá resistido aos romanos.
Assim, o mito de Viriato, mesmo podendo não ser história factual dá origem indireta à história nacional, de como se tentou alicerçar a identidade nacional num símbolo mais antigo que a própria nacionalidade. Essa história demonstra a existência de um mito quase vivo, que conseguiu sobreviver aos séculos, sendo constantemente adaptado conforme os interesses dos homens, especialmente o interesse de alguns portugueses. Ainda que de uma forma mitológica, Viriato é português, nem que seja por empréstimo utilitário.
Quanto aos factos históricos, dificilmente poderão sustentar o mito comum de Viriato, mas certo é que também não o negam completamente, ainda que as ligações aos portugueses possam ser ténues, dada a distância dos séculos e as muitas movimentações políticas, culturais e de povos que se entrepõem entre ele e os portugueses.
A verdade é que Viriato ainda vive na memória coletiva dos portugueses, contribuindo assim para a sua identidade coletiva.

Referências Bibliográficas
FABIÃO, Carlos & GUERRA, Amílcar. “Viriato: Genealogia de um Mito”. Penélope – Fazer e desfazer a história, nº 8. Lisboa: Edições Cosmos & Cooperativa Penélope, 1992.

HERCULANO, A.” História de Portugal desde o começo da monarquia até ao fim do
reinado de Afonso III.” Vol.1. Lisboa: Bertrand Editora, 2007.


JORGE, Vitor Oliveira & THOMAS, Julian. “Archaeology and The Politics of Vision in a Post-Modern Context”. Newcastle: Cambridge Scholar Publishing, 2008.

MARTINS, Luís. “Representações do Poder Político na Literatura - O exemplo de Viriato”. Revista Discursos: língua, cultura e sociedade. Lisboa: Universidade Aberta, 2000

MATTOSO, José (coord.). “História de Portugal – Antes de Portugal”. Vol. 1. Lisboa: Editorial Estampa, 2006.

PEREIRA, Maria da Conceição Meireles. "A etno-epo-história e os mitos fundacionais da Nação - «Viriato» de Teófilo Braga". Atas do Seminário Internacional “Identidade Nacional” - entre o Discurso e a Prática, realizado em Lisboa. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2011.

SALEMA DAS NEVES, Manuel. “Entre nacional e local, entre história e memória: estratégias para uma patrimonialização identitária de Viriato”. Múrcia: Universidade Católica San António de Múrcia, 2010.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Havia igualdade de género no antigo Egipto?

As fontes não são conclusivas, mas existem algumas evidências que conseguem sustentar uma quase igualdade de género no antigo Egipto. Pelo menos, comparativamente a outras culturas e civilizações da época, a do antigo Egipto terá garantido uma relativa igualdade de género entre homens e mulheres. No entanto, parece que o domínio terá sido sempre masculino.
Vejamos então alguns dados. Começamos pela mitologia. No antigo mito de Osíris e Iris, é Isis que, recorrendo à sua determinação e magia, faz ressuscitar Osíris (seu irmão e marido) assassinado por Seth. Depois é o filho de ambos, Hórus, que passa a governar o Egipto, enquanto Osíris se torna o governante do reino dos mortos. A importância de Isis, do seu papel de mãe e mulher, é essencial neste mito egípcio. Este era um verdadeiro mito da criação da sociedade egípcia e da sua crença na vida após a morte, tão importante para aquela civilização.

Homem e mulher egípcios - XXIV a.c.

A egiptóloga Barbara Lesko defende que existia igualdade jurídica ente homem e mulheres no antigo Egipto, pois a ambos era permitida a posse e uso-e-fruto dos bens, tal como venda e passar em testamento. No entanto Gay Robbins, igualmente egiptóloga, refere que mesmo havendo esse estatuto, na prática tal direito seria destinado ao papel assumido como mãe, tal como o de Isis no mito. Assim, na prática, sem a proteção masculina essa igualdade poderia ser difícil de existir de facto.
Não existem certezas absolutas, até porque a história da vida comum não era o principal foco dos registos antigos (sempre interessados em grandes conquistas, reinados e celebrações religiosas). Há que lembrar que as correntes historiográficas que focaram a importância desse tipo conhecimento histórico só se desenvolveram na primeira metade do século XX, pelos historiadores da famosa escola e corrente dos Annales.
Analisando o modo como como os antigos egípcios representavam os dois géneros também pode levar a resultados inconclusivos. Se existem representações em que o homem parece dominar a mulher, também existem outras em que ambos se representam nivelados em igualdade estrita.
No que toca à monarquia egípcia existem provas do governo de mulheres. Por exemplo, Hatchepsut, governou em nome próprio como faraó no XV a.c.. Muito conhecido é também o governo de Cleópatra, ainda que num período posterior completamente diferente, e sob influência de culturas externas. Pode muito bem ter havido uma progressiva tendência para a igualdade, mas por enquanto não há certezas.
Estátua de uma homem, mulher e criança - XIV a.c.
Tendo havido ou não verdadeira igualdade de género no antigo Egipto, é seguro que a mulher assumia um papel de maior liberdade e igualdade em relação às sociedades contemporâneas de então. Isto talvez se explique pela própria natureza da sociedade egípcia, mais estável, menos violenta e tumultuosa que outras grandes civilizações da época.
 
Referências bibliográficas:
  • ARAÚJO, Luís Manuel de. Mitos e Lendas – Antigo Egipto. Livros e Livros, 2008.
  • BALTHAZAR, Gregory da Silva. “Feminismo e a Igualdade de Gênero no Antigo Egito:
  • Uma Utopia da Emancipação Feminina”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011
  • LESKO, Barbara. The Remarkable Women of Ancient Egypt. Providence: Scribe, 1996.
  • ROBINS, Gay. Women in Ancient Egypt. Cambridge: Harvard University Press, 1996.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As Capelas Imperfeitas da Batalha eram Realizáveis

Mosteiro da Batalha - José Cardoso
Fonte: http://davincigallery.net/art/t-13963

Corre um história antiga, provavelmente mais mito que realidade, que as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória - ou popularmente mais conhecido como Mosteiro da Batalha - não teriam sido concluídos por se ter achado impossíveis de construir. Ou seja, que o vão - a área livre sem apoios - seria impossível de fazer em pedra pela tecnologia disponível na época. No entanto, tal como refere Paulo Ferreira*, se analisarmos com algum cuidado a planta do mosteiro, notamos que a sala do capítulo tem uma cobertura em pedra e que o vão não é muito diferente, em dimensão livre - sem contar com as capelas radiais, do que existe por concluir nas capelas imperfeitas.


Assim sendo, dificilmente terá sido a limitação técnica a impedir a conclusão das capelas. Se foi possível realizar a sala do capítulo também seria concretizável a cobertura das capelas imperfeitas.
 Talvez, contribuindo para a especulação, os fundos e outros meios necessários tenham sido desviados da Batalha para outros projetos, entre eles arrisco a sugerir o Mosteiro dos Jerónimos e os investimentos necessários no Império além mar que se alargava.
 
Referências bibliográficas
Ferreira, Paulo; 2011. "Arte Portuguesa - História Essencial", Lisboa, Temas e Debates.
 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Terror Viking – Um documentário sem cornos



De uma série de documentários intitulados de Guerreiros (Wariors), exibidos no Canal de História, dedicados às classes guerreiras de várias sociedades ao longo da história, trago aqui algumas palavras sobre os vikings. Apesar de algumas imprecisões e de um excesso de recurso ao espectáculo visual e de ação forçada, o documentário tem a capacidade, através de exemplificações práticas, de nos conseguir fazer entrar, um pouco, no mundo dos vikings.
Os vikings eram os guerreiros mais temidos e odiados do seu tempo, foram considerados piratas, salteadores, bárbaros, mas será que foram tudo isso? Ou será que foram também algo mais? E, já agora, quando ganharam os vikings os cornos?


Chegada de Vikings a Wirral - Chris Collingwood


A História, cultura e geopolítica
Aparentemente, de um momento para o outro, no debaldar do século VIII a Europa começou a sofrer ataques (Em 793 d.C. navios vikings chegam a Lindisfarne em Inglaterra e saqueiam violentamente o mosteiro existente, chacinando os monges. Estes ataques que iriam durar pelos próximos 300 anos), investidas e pilhagens por parte de povos que chegavam nos seus rápidos barcos vindos do norte. 
Vejamos primeiro a geografia da península escandinava, mais concretamente aquela que caracteriza a Noruega. Naquilo que hoje são alguns dos países mais civilizados do mundo, especialmente na Noruega e Suécia, mas também na Dinamarca, durante a baixa Idade Média ascende e desenvolve-se a cultura Viking. A geografia e o clima adverso desses territórios, (só a Noruega tem mais de 24.000 quilómetros de costa com Fyords profundos a dilacerar a paisagem), condicionaram a formação de grandes estados ou uniões políticas coerentes. Esses territórios eram dominados por pequenas tribos e grupos que lutavam habitualmente entre si, unidos por uma cultura semelhante que os incentivava a essa atitude bélica, formava-se uma cultura de guerreiros destemidos e implacáveis. Para esses povos o ponto de encontro mais acessível, estranhamente, situava-se no Mar. Os seus barcos eram utilizados para trocas comerciais, mas especialmente para, quando unidos nos embates das abordagens, servirem de campos de batalha aquático. Habitualmente, durante essas batalhas e depois de múltiplas abordagens, os barcos eram unidos formando plataformas mais ou menos conexas de combate. A dificuldade em combater no mar, em espaço exíguos, balançantes, instáveis e confusos obrigam os guerreiros vikings a desenvolver técnicas de combate que evitavam o erro e o descuido, obrigavam-nos a muita coordenação e manobras de equilíbrio incomparáveis. Eram mestres em combates corpo a corpo a curta distância, exímios no combate rápido anfíbio.
As artes bélicas, como modo de vida e influência económico-social, assumiam grande importância nas sociedades escandinavas. Provavelmente terão sido essas razões que levaram a que os povos escandinavos saírem dos seus territórios e partissem à aventura, conquistando e saqueando o mundo conhecido. A própria religião viking exercia também uma importante influência marcial. O deus supremo do panteão viking era Odin, deus da guerra. Os vikings acreditavam que se morressem honradamente e com bravura em combate teriam acesso ao paraíso, ao valhala, com o próprio Odin a resgatar todos os bravos guerreiros que tombassem em batalha. A sua perícia e convicções religiosas faria deles guerreiros temíveis.
Outra razão, associada também à cultura e religião, era a política interna na Escandinávia e o modo como estava organizada a economia e o poder das elites locais. Na altura dos maiores ataques vikings os grandes estados da Escandinávia estavam em formação e os novos reis e líderes, devido à cultura guerreira em lhes assistia, foram impelidos a provar a sua coragem e capacidade bélica em conquistas, pilhagens e atos de bravura no estrangeiro. Sendo que as riquezas pilhadas eram igualmente essenciais para o estatuto necessário a um rei viking. A guerra no estrangeiro servia para financiar a própria guerra no país natal, nas habituais disputas entre reis e pretendentes, com exércitos cada vez mais numerosos e bem equipados. 
A partir do século IX praticamente toda a Europa do Norte é pilhada, os vikings atacam: Dublin, Edimburgo  Hamburgo, Paris, etc. Por volta do século X a maior parte das cidades rendiam-se automaticamente quando surgiam os temíveis homens do norte, pagando enormes quantias de resgate para serem poupadas da destruição. 
Mas depois de séculos de conquistas e pilhagens por toda a Europa, depois de terem sofrido processos de aculturação, as comunidades escandinavas tornaram-se menos belicosas, tendo a conversão ao cristianismo para isso contribuído. 


Técnicas e tecnologias
Uma das armas terrestres preferidas dos vikings eram os machados. Usavam, preferencialmente, machados de uma só mão que lhes permitia erguer um escudo na outra. No entanto, o machado dinamarquês, pensado para se usar com as duas mãos, era impressionantemente grande: composto por um cabo de madeira que podia atingir os 2 metros, com uma lâmina de aço que podia chegar a pesar 3 kg. Por outro lado, utilizavam também pequenos machados de arremesso, por exemplo semelhantes com as “Franciscas” dos Francos, que conseguiam atirar certeiramente a mais de 45 metros
Sem matéria-prima dificilmente os vikings poderiam ter as armas necessárias aos constantes combates que desencadeavam. Pela Escandinávia, a turfa contém muito minério de ferro arrastado das montanhas e depositado nas zonas baixas. Os vikings desenvolveram técnicas siderúrgicas e metalúrgicas (inspirados nos inventores da técnica de fundição de metal dos pântanos inventada pelos romanos) de tratarem este material natural, extrair o necessário ferro para produzirem então as suas armas que eram especialmente letais nas suas mãos. 
Os Vikings foram também exploradores, comerciantes e colonizadores. Sabe-se que atingiram, com os seus barcos, o Mar Negro, o Mediterrâneo e até a América do Norte - antecedendo Cristóvão Colombo em mais de 400 anos. Formaram vários Reinos na Europa, por exemplo: alguns pequenos reinos na Irlanda e Inglaterra, o Ducado Normando (normando significava Homem do Norte) em França, o Reino de Nápoles e Sicília em Itália. Paradoxalmente constituíram a guarda de elite do Imperador Bizantino: os varegues. O próprio principado de Novgorod, que mais tarde daria origem ao reino e Império Russo, tem também origens e relações com os Vikings. Ou seja, para além de guerreiros temíveis, tiveram de ser também os melhores marinheiros do seu tempo. Para isso contribuiu a mestria no domínio da vela em alto mar, uma vela muito manobrável controlável por cordas, que ajudava a condução do barco em simultâneo com o tradicional leme. Essas velas eram feitas de lá ou linho e impermeabilizadas com sebo – pensa-se que valiam mais que o próprio barco. Os barcos – os drakars -podiam alcançar velocidades de 48 km/h com tripulações que iam até um máximo de 60 homens. No mar orientavam-se pelo Sol, pelas algas (se eram velhas ou novas e que direção tomavam com as correntes), pela direção do voo das aves, observavam todos os elementos, animais e plantas marinhas para ajudar na sua localização. Os vikings podiam aguentar meses em alto mar, pescando e dormindo no fundo dos navios em sacos cama de pele me morsa ou foca. Apesar de toda a tecnologia que na altura os distinguia, o facto das tripulações serem compostas por homens que eram simultaneamente guerreiros e marinheiros/remadores garantia que o barco poderia estar sempre em movimento – isso obrigava a um exercício constante da tripulação, que detinha, inevitavelmente, força e resistência muito acima da média. Também por utilizarem barcos muito exíguos, criava-se, indiretamente, o reforçar dos laços entre os tripulantes, criando uma camaradagem e confiança que lhes davam uma vantagem táctica militar superior no campo de batalha. 
Os viking eram também distintos engenheiros navais. Os tripulantes dos drakars sabiam construir os seus próprios barcos. Com os seus machados conseguiam habilmente transformar troncos de árvores em tábuas, e sem esquemas escritos, conseguiam construir os seus barcos apenas recorrendo à memória e as dimensões medidas a olho. Um barco médio precisava de madeira de mais de uma dúzia de árvores de porte médio (carvalhos, abetos e pinheiros). O design dos barcos permitia que fosse remado para trás e para a frente instantaneamente, sem terem de dar a volta. Eram calafetados com lá, pelo de animais ou musgo cobertos de sebo. Mas a maior vantagem da embarcação era o seu pequeno calado. Os fundos apenas mergulhavam 50 cm na água, permitindo navegar em águas muito baixas e desembarcar praticamente em todo o lado. 
Mas os barcos não era as únicas construções Vikings que os distinguiam no seu tempo. O modo com construíam fortes em terra dava-lhes também distinta vantagem. Construíam, habitualmente, recintos de planta circular perfeita, com diâmetros entre os 100 e os 300 metros. O perímetro era formado por uma elevação de terra reforçada de madeira e cercada por um fosso. No interior as construções eram dispostas seguindo um padrão quadrangular, existindo: estábulos, oficinas, armazéns, residências e até cemitérios.
No que toca às armas, os vikings não utilizavam só machados de combate. Recorriam muito habitualmente também a espadas, com design muito típico. Essas lâminas eram semelhante aos gládios romanos, mas mais esbeltas e alongadas, com punho quase sem proteção de mão. Por outro lado, as lanças eram muito populares, tendo, à semelhança dos hoplitas gregos, técnicas próprias de combate em grupo, que potenciavam a coordenação em linhas ordenadas, conjugando sobreposições de escudos e lanças em riste – podiam formar o chamado muro de escudos.

Então e os Cornos?
Sabe-se hoje que os vikings estavam muito longe de ser selvagens desmiolados, brutos que espalharam violência e destruição pela Europa. Eram na realidade formidáveis guerreiros, vindos de uma zona geográfica agreste e de extremos que os endurecia. Eram portadores de uma cultura guerreira que fomentava a coragem e os feitos militares. Detinham tecnologia pragmaticamente evoluída e adequada para as suas conquistas e explorações.
Funeral de um Viking - Frank Bernard Dicksee

Então e os capacetes Vikings? O seu aspeto era muito diverso, mas parece que nunca foi hábito utilizarem cornos como ornamentação. Essa visão foi inventada na época vitoriana (século XIX) para recriações românticas historicamente pouco fiáveis. Os únicos cornos que usavam tinham como função servir de recipientes de bebida, até porque os cornos estavam associados à fertilidade e não à arte bélica pelo que se sabe. Os vikings, a terem cornos não os usariam nos capacetes…

Este documentário pode ser visto, em 5 parte, respetivamente, mas sem legendas em:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Outras referências bibliográficas de cruzamento de dados:
“Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Média”. Círculo de Leitores.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As Bruxas ardiam mais na Idade Moderna que na Idade Média


Apesar dos casos de caça às bruxas, e condenações à fogueira de supostos comparsas do demónio e praticantes de magia, ter ocorrido já durante a Idade Média, foi no início da Idade Moderna (do renascimento à revolução industrial) que o fenómeno cresceu e atingiu o culminar.
Curiosamente, ou talvez não, os fenómenos de caça às bruxas em massa iniciaram-se na Europa do século XV (por decreto papal, e não só), mas depois de um período de acalmia, atingiu o culminar das perseguições no início do século XVII, coincidindo esse facto com os picos de tensão provocados pelas guerras da religião. Essa paranóia agudizava-se quando a Europa caia no rigorosíssimo religioso reformista e contrarreformista (opondo protestante e católicos). No entanto, as tensões eram muito mais que religiosas, eram também económicas e sociais. Aliás, foram, para além do preconceito e medo do desconhecido, razões materialistas e sociais que sustentavam grande parte da perseguição à bruxaria (especialmente a feminina).
O Sabbath das Bruxas (O grande Bode) - Goya
As pessoas processadas por bruxaria foram maioritariamente mulheres, seguindo o estereótipo de velha camponesa que vivia num local isolado. Mas esse estado de situação foi comum durante o período das guerras da religiosas (nomeadamente na Guerra dos 30 anos) que assolaram a Europa do século XVII, com muitas mulheres a viver sozinhas e abandonadas depois dos maridos terem sido mortos em combate. Fazendo uma leitura da época, podem encontrar-se, tal como já referi, razões socioeconómicas para a marginalização e perseguição dessas mulheres. Muitas delas tinham então de viver de esmolas e da caridade alheia, o que as obrigava também a comportamentos mais agressivos e marginalizantes. Logo, eram consideradas um peso para a sociedade de então, nem que fosse inconscientemente. Segundo, havia também as razões políticas, com vários casos registados de denúncias entre opositores políticos, que atacavam os inimigos acusando suas mulheres de bruxaria, tentando assim denegrir-lhes a imagem e prestígio público. Por fim, existiam também as razões económicas, especialmente quando essas mulheres dispunham de heranças consideráveis. Em certos casos registados foram os familiares dessas mulheres a mover as acusações de bruxaria, garantido assim o acesso fácil à herança. Por exemplo, na Nova Inglaterra, 90% das mulheres acusadas de bruxaria não tinham descendentes varões.
Sobre a caça às bruxas, independentemente das motivações religiosas, pode dizer-se que: foi, especialmente, uma perseguição para com as mulheres, e um sinal de uma sociedade intolerante, impreparada para lidar com os dramas sociais e até algo interesseira. Quanto teremos mudado? Terão desaparecido as bruxas e o modo de caça intolerante?

Referências Bibliográficas
Delumeau, Jean. 2007. “A civilização do Renascimento”. Edições 70
Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Moderna”. Círculo de Leitores.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Guerra dos Tronos - Fantasia Medieval para Adultos

A Guerra dos Tronos” ou “ O Jogo dos Tronos” – na tradução direta do inglês – é uma das mais cotadas séries televisivas da atualidade (ver no IMDB). Os 10 livros que compõem as “As crónicas do Gelo e do Fogo” foram adaptadas para televisão pela HBO e o resultado foi, no mínimo, positivo e original. Depois do sucesso de “Roma”  (ver no IMDB) esta é mais uma grande série épica. No entanto, essa anterior grande realização seja, em alguns aspetos, substancialmente diferente: "Roma" baseiam-se em História factual, produzida com especial atenção ao rigor histórico, ainda que seja uma adaptação romanceada, podendo ser quase vista como um documentário (ou não tivesse o envolvimento também da BBC).
Mas a “A Guerra dos Tronos” é uma ficção. George. R. R. Martin, o autor, admite a influência de clássicos da literatura associada ao “fantástico medieval”, especialmente da monumental obra que é “O Senhor dos Anéis”. Apesar de não ser uma obra Histórica, o universo fantástico medieval criado por Martin para a sua grande história revela sólidos conhecimentos do passado factual. São muito evidentes na terra de Westeros – área geográfica, tipo continente, onde se passa a maior parte da história - as influências da Europa Medieval: das relações feudais, da monarquia absoluta, as lides da guerra, da política e tramas palacianas, dos códigos de cavalaria e comportamentos de classe, do campesinato e suas ligações à terra, etc. São também notórias as inspirações bebidas diretamente da mitologia nórdica e germânica, entre muitas outras, no mundo fantasioso de “A Guerra dos Tronos”. George. R. R. Martin conseguiu criar uma fantasia encorpada por um enredo elaborado – aliás, muito elaborado – de relações entre personagens, bem trabalhadas, e uma política altamente complexa, que se concretiza no desenrolar da história e se vai aprofundando com o emaranhado da intriga e as correrias de uma infindável panóplia de personagens.
O autor criou uma “fantasia medievalescapara adultos, evitando alguns lugares comuns e um Excessivo apego a uma personagem principal (ou grupo restrito) que normalmente costuma assumir o papel de herói (ou heróis), até porque nesta série eu diria que, tal como na vida real, não existem heróis, pelo menos pelos padrões habituais no género. Em “A Guerra dos Tronos” as personagem são humanas, acima de tudo. Mesmo aquelas que mais poderiam tender para o modelo heroico são retratadas com defeitos, e o tratamento de supremacia não é absoluto e linear, e muitas vezes fica muito longe de ser justo. Martin cria um mundo ficcional fantástico realista, muito pouco habitual para o género, e até para qualquer criação televisiva ou cinematográfica de géneros ditos mais correntes. As personagens vão-se moldando com o desenrolar dos acontecimentos, vão demonstrando o seu carácter, vão ficando mais complexas. Muitas vão morrendo, muitas são injustiçadas, algumas criam percursos de sucesso e afirmação, mas a tragédia é o pano fundo. As alterações podem ser repentinas. Por vezes, enquanto espectadores ou leitores, não estamos preparados para as mudanças, e menos ainda para as mortes.
Um especto muito importante da série é a fidedignidade dos diálogos e da série para com a história contida nos livros. Isso tem sido garantido pelo envolvimento na escrita dos guiões, produção e realização do Próprio George R. R. Martin.
Pessoalmente – como já se notou - sou um apreciador deste tipo de criações, mas a popularidade de “A Guerra dos Tronos” é tão grande e incontornável que merece ser analisada. Tal só pode significar qualidade, com ose explicaria, que mesmo aquelas e aqueles que não seja particularmente apreciadores do género fiquem rendidos a esta magistral obra, quer seja em livro ou em série televisiva?
Também existe uma versão de “A Guerra dos Tronos” em formato de jogo de tabuleiro. Aliás existem duas, com a 2ª edição a conseguir ascender aos melhores jogos do género, segundo os aficionados desse tipo de jogos. Por outro lado, a versão realizada para jogos computador no género estratégia (versão génesis), segundo as críticas, não faz jus à obra original, chegando mesmo a ser medíocre. Aí, provavelmente o autor não se preocupou, ou foi chamado, a guiar a adaptação tal como o fez na série televisiva.
Em jeito de resumo, “A Guerra dos Tronos” é já uma das mais importantes e incontornáveis obras televisivas deste novo milénio.

sábado, 12 de maio de 2012

Curiosidades sociais sobre canhões em cidades do Sul de França


Fruto de algumas viagens, e recolher de informações em diversos locais por onde fui passando, lembro duas curiosidades sobre canhões em duas das maiores cidades do Sul de França. Ambas as “estórias”, apesar de o elemento relacional serem os canhões de fortalezas existentes nas cidades em causa, denotam elementos contraditórios sociais, para não dizer o antagonismo entre classes sociais
Os canhões destas estórias são os das cidades de Marselha e Nice, ambos pertencentes a fortalezas que defenderam, durante muitos anos, os portos e as próprias cidades. Hoje os canhões já não cumprem as suas funções. Em Nice quase nada existe da fortaleza,  e seus canhões, sob um jardim e miradouro – uma ruina que até assenta muito bem na cidade. Das fortalezas, ainda bem conservadas que protegem o Porto Antigo de Marselha, também já não se avistam canhões, ficaram apenas as aberturas de onde anteriormente espreitavam. Mas vamos às curiosidades propriamente ditas, vamos às "estórias".
Entrada do Porto de Marselha - Claude Joseph Vernet
Consta que no século XIX, na altura em que Nice era uma colónia balnear muito importante e muito frequentada por Ingleses – pela burguesia e nobreza inglesa, tendo a própria rainha Victória por lá andado -, um inglês teve uma ideia. Conta a lenda que, de modo a evitar que a sua esposa se esquecesse de preparar o almoço a horas – mais um reforçar da ideia da grande pontualidade dos ingleses -, o tal inglês mandava disparar, exatamente às 12h00, do alto do monte do antigo forte (mesmo junto ao porto), um dos canhões. Hoje, todos os dias pelas 12h00, continua a ouvir-se o ecoar do som do canhão em Nice, embora tal seja assegurado por um moderno sistema de som de grande potência. O canhão já não se dispara, mas para os distraídos turistas, o susto, provavelmente, é o mesmo.
Já em Marselha, diz a história – desta vez com “h” - que os canhões, dispostos nos vários fortes e complexos defensivos, apontavam em duas direções distintas - no sentido figurado. Os canhões, como em todas as fortalezas do género, apontavam para os pontos estratégicos a defender, aqui especialmente para a entrada do porto, que era a grande riqueza deste que foi um dos maiores portos da Europa. No entanto, consta também que os canhões dos fortes apontavam, em simultâneo, para a própria cidade, especialmente para os bairros mais populares. A razão de ser disto deveu-se ao grande historial de revoltas que foram acontecendo por Marselha ao longo da história, especialmente no século XVIII e XIX. Não é por acaso que o hino de França, adotado depois da revolução francesa, se chame “A Marselhesa”. 
Muitas leituras se poderão fazer destas duas histórias/estórias sobre tão particulares canhões. Mas, é evidente que existe aqui uma relação dicotómica e até luta entre classe: enquanto em Nice o canhão servia os caprichos dos mais abastados, em Marselha oprimia dos menos afortunados. As armas sempre tiveram essa particularidade: a de servirem para benefício de quem as dispunha...

Nota: qualquer roteiro turístico contará estas mesmas histórias, e também os autóctones de ambas as cidades. 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Prostituição – a segunda profissão mais antiga do mundo

Não sei porquê - talvez algum mito urbano -, mas é comum dizer-se que a prostituição é a mais antiga profissão do mundo. Mas não sei mesmo, não consigo, recorrendo a uns quantos resquícios de saber histórico/sociológico avulsos, encontrar justificação (aproximada sequer) para tal afirmação.
Dando alguma seriedade ao assunto, primeiro há que investigar sobre o que significa o termo profissão. Segundo a Infopédia significa: exercício habitual de uma actividade económica como meio de vida; ofício; mister; emprego; ocupação. Certo, então a prostituição, segundo este significado, que não varia muito de dicionário para dicionário, pode ser verdadeiramente considerada uma profissão.
O Beijo - Toulouse Lautrec
Agora, esquecendo bibliografias e documentários, vou teorizar munido apenas da lógica e de algum senso comum histórico/económico.
Comecemos pelo princípio, pelo inicio antes da história. Para que alguém tenha uma profissão, ou seja profissional de alguma coisa, esse alguém tem que ser retribuído pela sua actividade, pelo que faz ou produz. Então, imaginando-nos lá para os confins da pré-historia – período que defino aqui como a aurora da Humanidade – com que faríamos os nossos pagamentos ou retribuições? Seguramente que não era com dinheiro, pois não tinha sido inventado. Ou seja, tinha de haver algo para fazer a troca. Então, o que quer que fosse que se usasse para pagar à suposta “mais antiga profissão do mundo” tinha de ser obtido da natureza. Então, não é possível que existissem prostitutas primeiro que, por exemplo, caçadores/recolectores. Só então depois, tendo caça ou outro qualquer bem ou objecto de valor, poderia ser possível pagar serviços e favores sexuais. Trivial!
Penso que se prova assim que a prostituição não pode ser a mais antiga profissão do mundo, quanto muito é a segunda, terceira, quarta ou qualquer outro número subsequente – mas que é antiga isso é indiscutível. 
Não acredito que alguma vez esta profissão se extinga, pois no fundo o ser humano é uma animal de hábitos e tradições.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Espadas Papais - o poder politico/religioso e as espadas

As Espadas, pelo menos desde o final do Império Romano do ocidente, quando as culturas nativas do centro e norte da Europa começaram a redefinir o que seria posteriormente o Ocidente, tiveram, para além do cariz militar, uma função de distinção social para quem as possuía.  
Homem sentado com uma espada e flor - Picasso
 Soberanos, descendentes das antigas tribos a quem os Romanos chamavam Bárbaros e que criaram os seus próprio reinos no vazio político que se formou a seguir à queda do império, praticavam uma espécie de Culto da Espada. Usualmente, esses Reis ou Senhores poderosos locais, ofereciam espadas como sinal de distinção para com os seus vassalos que lhes prestavam grandes e meritórios serviços - basta lembrarmo-nos do episódio de "armar  um cavaleiro", algo tão recorrente, por exemplo, no cinema histórico.  A Espada, nessa altura, estava associada à nobreza de carácter, estatuto social e até à virilidade - nas sociedades ocidentais europeias que se formaram no inicio da idade médias, os guerreiros (nobreza) estava no topo da pirâmide social.
Muitos heróis medievais, ou pré-medievais, míticos ou inspirados por personagens reais, foram imortalizados pelos romances cavalheirescos medievais. Até nós chegaram também o nome das suas espadas - sinal da importância destas ferramentas de fazer guerra e pelejar. Por exemplo: Siegfried lutava com a sua Balmung, Ogier com a Courtain, El-Cid com a Tizona e o Rei Artur com a famosíssima Excalibur.
Mas o uso das Espadas, enquanto atribuição de uma espécie de "medalha de mérito", não estava apenas generalizada pelo soberanos ditos laicos. O Papado, o herdeiro da burocracia e cultura do Império Romano do Ocidente - o único poder internacional que conseguia dar alguma unidade ao mundo Medieval Feudal -, entre o século XI e XIX atribuiu as suas próprias Espadas Papais. As Espadas Papais caracterizavam-se por  ser "armas de lâmina longa usadas por pontífices como símbolo de respeito e admiração por parte, essencialmente, dos chefes militares que estes julgavam merecedores do título de "defensores da fé" (...)"(2). Consta que "era tradição que as espadas fossem benzidas pelo papa no dia de Natal, e, durante séculos, era raro que este dia passasse sem que algum governante ou herói militar fosse honrado desta maneira" (2). O culto das espadas estava muito enraizado, tal como a sua ligação à Igreja Católica (ou por outro lado, a igreja é que também se associou ao cultos dos descendentes das tribos bárbaras - uma aculturação, intencional ou não), que, através da sua estrutura burocrática - que poderíamos ver como um espécie de continuidade do império romano do ocidente - a quem todos, apesar de terem alguma autonomia política, deveriam respeitar e prestar tributo físico e espiritual.
Claramente, hoje as Espadas ainda são vistas como objectos de distinção, mas não me parece que, numa sociedade em que o catolicismo (ou outro tipo de cristianismo) supostamente se separou do Estado e que essas mesmas religiões apelam agora à paz e ao fim dos confrontos armados - pelo menos as religiões maioritárias praticadas no Ocidente -, fosse aceitável que se oferecesse, como sinal de distinção religiosa, algo relacionado com as artes bélicas. Mas não nos podemos esquecer que as espadas sempre foram mais do que instrumentos de corte ou estoque

Fontes: 
1 - A queda de Roma e o fim da civilização - Bryan Ward-Perkins  
2 - Espadas, Adagas e Alfanges - Gerard Weland

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Platão tenta mesmo provar a imortalidade da alma?

Platão, em algumas das suas obras, colocando as suas palavras na boca de Sócrates – enquanto uma quase “personagem” que substitui o próprio autor -, reflecte e teoriza sobre a alma humana, isto especialmente nas obras Fédon e República onde tenta comprovar a existência e a imortalidade da alma. Em ambas as obras, mas mais aprofundadamente no Fédon (ou da alma), Platão recorre a uma poderosa dialéctica – arte de convencer através do diálogo devidamente fundamentado e encadeado – para comprovar a imortalidade da alma, iniciando o debate com uma forte argumentação – um possível exemplo daquilo que mais tarde Aristóteles apelidaria de retórica lógica (ou tentativa disso). 
A morte de Sócrates - Jacques Louis David
Mas, à medida que a discussão – sendo Sócrates a “personagem” que na discussão defende a tese de Platão perante os demais intervenientes – se vai adensando e aprofundando o discurso e a dialéctica de Sócrates mudam. Não vou aqui focar os primeiros argumentos – verdadeira arte dialéctica – de Platão através da intervenção de Sócrates, mas os últimos por serem os mais surpreendentes e inesperados – se bem que intelectualmente menos conseguidos. Sócrates, a uma determinada altura, numa das suas intervenções, começa a fazer referências à mitologia, relacionando a com a alma. Já no final da obra essa relação é então completamente abraçada e evidente, sendo transformada na derradeira justificação para a imortalidade da alma – transparecendo a ideia de que houve uma desistência da argumentação lógica. No mínimo estranho este desfecho, especialmente se considerarmos que Platão era um acérrimo defensor da discussão com base em sólidos argumentos e não em opiniões infundadas ou difíceis de justificar. Mas se atendermos às limitações tecnológicas do saber de então, este tipo de recurso não é de todo despropositado. No entanto não deixa de ser estranho este caso pois, mesmo na Grécia do séc. V a.C. havia já quem contestasse a validade das análises mitológicas, ou seja, não era algo que Platão pudesse usar como uma verdade incontestável capaz de validar a tese a que se propunha.
Mas será que este desfecho de Fédon não terá sido propositado? Platão poderia simplesmente querer demonstrar que alguns temas e assuntos simplesmente não podem ser provados ou comprovados pela razão? Ou seria uma espécie de crítica aqueles que, mesmo iniciando um debate com forte oratória, baseada em argumentos logicamente encadeados, quando vêm os seus argumentos esgotados, invariavelmente, enveredam pelo recurso à mitologia e ao sobrenatural para justificarem a sua posição, não admitindo que são incapazes de compreender aquilo que inicialmente se propuseram a defender ou porque simplesmente não têm razão?

Bem, esta é mesmo só uma possível interpretação, pois o conceito de Alma que Platão descreve pode até ser visto como a própria razão que é toldada pelo “corpo”: senso comum. Bem, mas isso dava outra discussão.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Moisés – um dos grandes generais da história?

No documentário «Batalhas Lendárias: Moisés perseguição mortal» (ou no original «Batles BC: Moses death chase») é feita, segundo uma perspectiva militar, toda uma nova abordagem ao episódio bíblico do êxodo (saída e fuga do Egipto dos Israelitas por volta do século XIII a.C., depois de uma permanência nas terras dos Faraós de cerca de 400 anos – pelo menos pelo que conta bíblia). Nesse documentário Moisés é apresentado mais como um chefe político e militar do que propriamente religioso, mesmo sem o excluir de tal papel - até porque nesses tempos antigos não se faziam o tipo de distinções de papéis que hoje se tenta fazer.
Viagem de Moisés para o Egipto -  Pietro Vannucci Perugino
Na Bíblia, mais concretamente no livro do Êxodo, é descrita a fuga dos israelitas e a consequente deambulação pelos desertos entre Egipto e Canaã, sempre escapando e evitando a adversidade rumo à terra prometida e aos combates que lá teriam de travar para a conquistar. Até aqui nada de novo mas tudo muda quando se começam a analisar alguns desses eventos, que normalmente são atribuídos a intervenções do Deus dos Israelitas, como meras estratégias e tácticas militares provenientes do génio e chefia de Moisés.
Primeiro, no documentário os Israelitas são tidos como guerreiros ao serviço dos Faraós, dai a sua permanência em terras do Egipto, mais concretamente no Nordeste do delta. Aí formavam um exército irregular controlável - pelo Faraó - que constituía uma barreira entre as riquezas do império do Nilo e potenciais povos invasores.
Foi a alteração de estatuto e das condições de serviço ao Faraó que levou os Israelitas à revolta e à saída do Egipto. Supostamente, perderam o estatuto de defensores e guerreiros para o de agricultores e artesãos. Isto aconteceu porque os Egípcios pois começaram a temer que os Israelitas – que eram um importante força militar - e a considera-los como potenciais invasores e conquistadores.
A perda de estatuto obviamente desagradou aos Israelitas, de tal modo que decidiram levar todos os bens que acharam necessários e, sob chefia de Moisés, partiram rumo à terra prometida. De notar que no texto hebraico a palavra usada para descrever a acção dos israelitas é “saquear” e não “pedir” viveres, provavelmente a razão que levou o Faraó a persegui-los posteriormente.
Milagre da Água que sai da rocha de Moisés - Jocopo Tintoretto
Já fora do Egipto, é deserto que a astúcia e genial liderança militar de Moisés se manifesta, pelo menos segundo o documentário em causa. Moisés viveu anteriormente muitos anos nesses desertos, o que fazia dele um conhecedor do terreno – um pressuposto fundamental para boas decisões estratégicas e tácticas no que toca ao comando de exércitos. Moisés conhecia também a organização dos exércitos Egípcios e usou essa informação para os derrotar – principio militar de recolha de informações sobre o inimigo.
No documentário analisa-se o episódio da coluna de fogo e nuvem de fumo que acompanhavam a frente, respectivamente de noite e de dia, da marcha israelita, fenómeno que na bíblia é tido como a manifestação de Deus guiando o seu povo escolhido. No entanto esta manifestação pode ter sido apenas uma imitação dos modos de conduzir e organizar exércitos em marcha segundo os preceitos egípcios, pois era comum que usassem recipientes elevados com brasas incandescentes na frente das colunas de marcha dos seus exércitos. Durante o dia tapavam essas brasas provocando fumo que se via à distância servia para guiar os exércitos, durante a noite atiçavam as brasas de modo a formarem um sinal luminoso igualmente visível à distância. Moisés, aplicando o seu génio militar, inverteu este sistema de comando confundindo os Egípcios que o perseguiam. Colocou o recipiente das brasas à cauda da coluna de marcha e não à cabeça, o que fazia crer aos egípcios que os israelitas andavam perdidos e se aproximavam.
Num outro episódio Moisés usou as chamas para novamente enganar os egípcios. Numa determinada noite, quando os egípcios acampavam perto de si, colocou fogueiras entre o seu povo e os Egípcios, permitindo-lhe esgueirar-se durante a noite mesmo em frente aos olhos egípcios sem ser por eles notado. Já na altura se sabia uma luz numa noite escura oculta o que se passa para além dela. Foi nessa derradeira fuga que Moisés utilizou novamente os seus conhecimentos do terreno, atravessando o Mar de Juncos - e não o Mar Vermelho como se costuma afirmar. Esse Mar era uma espécie de pântano, muito afectado pelas marés e pelos ventos, sendo que em marés baixas e com ventos favoráveis podia de ser atravessado a pé. De manhã, quando os Egípcios tomaram consciência que tinham sido ludibriados decidiram atravessar o Mar de Juncos de Imediato. No entanto, nessa altura, a maré começava de novo a subir e inutilizou os carros de combate egípcios – a principal forma de combate dos faraós – que ao tentar atravessar se atascavam no pântano alagado.
 
Por estes e outros episódios, tendo em conta uma análise militar, bem que Moisés, a ter existindo enquanto figura histórica, pode ter sido um dos melhores generais e estrategas da história militar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

Nike - Paionios
Ignoramos a origem e significado de muitas das actuais marcas. Uma delas, por ser uma das mais conhecidas marcas de desporto e roupa, merece umas quantas palavras pois tem uma origem que remonta a lendas, mitos, religiões de há vários milénios e até de eventos históricos da antiguidade.
Nike era a Deusa Grega da Vitória, uma deusa representada como uma jovem alada. Os atenienses tinham especial devoção por esta deusa e ergueram templos em sua honra para assinalar as vitórias militares que foram tendo. Muitas vezes esses cultos eram conjugados com outros dedicados à própria Atena – deusa protectora da cidade de Atenas, deusa da sabedoria e da guerra justa.
 Consta que os Atenienses, quando ganharam a Batalha de Maratona (490 a.C.), enviaram o seu melhor corredor, de seu nome Filípides, para levar a notícia da vitória  até à cidade de Atenas. A velocidade era urgente pois os Persas tinham prometido que quando chegassem a Atenas destruiriam a cidade, violariam as mulheres e torturariam até à morte todos os que encontrassem. Por isso, tinha ficado decidido que se os soldados atenienses perdessem a batalha as mulheres matariam os seus próprios filhos e se suicidariam de seguida, evitando colocar os seus destinos nas mãos dos Persas. O mensageiro percorreu os cerca de 42 quilómetros que separavam Maratona de Atenas – razão para a distância da actual prova olímpica da maratona (prova que não constava nos jogos olímpicos da antiguidade) – tendo parado somente quando chegou à acrópole (local mais alto e importante de uma cidade grega) de Atenas de onde gritou Nike!!! (Vitória), anunciando assim aos atenienses que tinham ganho a batalha contra os Persa. Conta a lenda que o corredor morreu de exaustão (ou de desidratação) assim que acabou de fazer o seu bem-aventurado anuncio. Esta História/Lenda é um exemplo de quando a história toca sem fronteira verdadeiramente definida o mito. Dificilmente sabemos a verdade dos acontecimentos, até porque Herodoto diz que Filípides foi primeiro a outras cidades-estado gregas pedir ajuda, pois não era certo que a vitória fosse completa devido aos enormes recursos do Império Persa, tendo para isso percorrido em 2 dias mais de 200 quilómetros.

Friso de Nike em Éfeso
No século passado a marca Norte-americana Nike foi criada por inspiração e alusão directa à Deusa grega da Vitória, obtendo dela o seu nome e o seu símbolo que é alusivo às asas dessa mesma divindade mas também ao modo como é representado o vestido da Deusa ao vento um friso que ainda hoje se encontra na cidade de Éfeso na Turquia. Para além dessas explicações, também era comum na antiguidade utilizar como saudação ou gesto de vitória um sinal que se fazia com a mão aberta unindo todos dedos à excepção do polegar, formando uma espécie de V assimétrico, algo muito parecido com o actual símbolo da conhecida marca de desporto.
Apesar de muitas das nossas actuais invenções e criações poderem parecer muitíssimo originais, a grande maioria delas vive de ideias do passado.

Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails

TOP WOOK - Arte

TOP WOOK - Dicionários

TOP WOOK - Economia e Finanças

TOP WOOK - Engenharia

TOP WOOK - Ensino e Educação

TOP WOOK - Gestão

TOP WOOK - LITERATURA





A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



Introduza o seu e-mail para receber a newsletter do blogue: