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sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Evitar as perdas de produtividade num brainstorming através de jogos de tabuleiro

 Pode haver tentações para fazer processos ou atividades de brainstorming por tudo e por nada. Estão perfeitamente disseminadas as vantagens de fazer brainstorming, de como podem permitir ajudar a gerar novas ideias, de forma a que possam ser depois desenvolvidas para alavancar projetos, empresas e instituições. Sabemos que temos de garantir alguns pressupostos e condições para que isso possa ser possível, por exemplo: a liberdade de expressão sem comentários prévios e juízos de valor quando as ideias estão a ser apresentadas, mesmo que sejam absurdas numa primeira análise. É também do conhecimento comum que os brainstorming são feitos em grupo.

No Moulin Rouge - Toulouse-Lautrec

Mas, mesmo tendo estes cuidados existem alguns problemas adicionais, conhecidos como perdas de produtividade. Existe uma noção de que o trabalho em equipa é mais produtivo num brainstorming, embora isso, na prática, nem sempre seja verdade. Alguns indivíduos trabalham e são muito mais criativos quando trabalham sozinhos e só assim poderão inovar verdadeiramente. Ao trabalhar em grupo alguns membros podem simplesmente andar à boleia, pouco fazendo. Outros, sentindo que estão a ser pouco produtivos podem tentar disparar o máximo de contributos mesmo que nada acrescentem para tentar estar a par. Outros, pelo mesmo efeito, sentindo que estão a ser demasiado produtivos podem refrear a sua participação para evitar o domínio do processo, mesmo quando os seus contributos são claramente melhores que os demais. Noutros casos, as interrupções ou a obrigação em fazer rondas circulatórias de participação, podem induzir quebras no desenvolvimento das ideias, prejudicando-as. As pessoas podem simplesmente esquecer-se do que estavam a pensar ou dizer, ficando apenas a ideia abordada de forma superficial. Quando alguns participantes têm uma personalidade “magnética” ou de liderança inata podem fazer com que, mesmo que de forma não intencional, os processos convirjam demasiado depressa para uma determinada ideia, sem surgir a disrupção que se deseja num processo de inovação. O modo como se comunica, os canais utilizados – expressão escrita, oral ou outra - , a precisão de linguagem podem ser demasiado restritas e condicionar também a criatividade. 

Tendo em conta estas restrições e efeitos indesejados, os processos de brainstorming deveriam ser implementados com alguma cautela. Basear todo o processo de inovação neles pode ser um problema. São uteis e devem ser feitos, mas definindo processos e regras para retirar deles o melhor partido, tentando evitar os enviesamentos, quebras de produtividade e pouca profundidade, tal como enunciado anteriormente. 

Recentemente, numa conferência apresentei da especialidade, apresentei um artigo onde os jogos de tabuleiro podem ser utilizados para abordar estes problemas e melhorar os processos de brainstorming: Fast Brainstorm techniques with modern board games adaptations for daily uses in business and project managing. Esse artigo pode ser consultado aqui em inglês. De notar que os jogos podem gerar as necessárias regras que garantem igualdade de participação, as múltiplas formas de expressão sem domínio externo, produzir processos de cocriação controlados com mais ou menos influência externa, gerar uma atividade que motive e envolva todos os participantes, tal como criar verdadeiros processos disruptivos em que os participantes têm intencionalmente de fazer convergir. Os jogos não são soluções mágicas para os problemas associados aos processos de brainstorming, mas podem ajudar. 


Referências bibliográficas:

Sousa, M. (2020). Fast Brainstorm techniques with modern board games adaptations for daily uses in business and project managing. In Proceedings of the International Conference of Applied Business and Management (ICABM2020), (pp.508-524). 


segunda-feira, 30 de março de 2020

Repensar a cidade alargada na era da globalização, do trabalho remoto e das pandemias

No início do século XX o famoso arquiteto Frank Lloyd Wright propôs um modelo urbano e de cidade que não vingou. Chamava-se Broadacre city. Consistia, tal como o próprio nome indica, numa cidade alargada, com base na unidade do acre, implicando um alargado consumo de solo. Partia do princípio da integração de vivendas num ambiente urbano ruralizado, em que cada vivenda dispunha de uma área de solo de 0,4 hectares que serviriam para a sua própria produção ou para atividades de exterior. Esta proposta seria a antítese do urbanismo modernista e que se tornou no modelo de inspiração vigente um pouco por todo o mundo (Mumford, 1961; Chueca Goitia, 1985).

Broadacre City Model - Frank Lloyd Wright
Fonte: https://www.architecturelab.net/what-broadacre-city-can-teach-us/

Este tipo de cidade nunca foi implementado como modelo de cidade propriamente dito, mas foi continuamente replicado nos EUA como subúrbio, inspirando no modelo habitacional para a família americana de classe média e na dependência da industria automóvel nos pós 2.ª Guerra mundial, embora a utilização dos solos associados a cada vivenda nunca tenham tido uma exploração agrícola associada, e não tenham chegada à unidade de área recomendada para cada casa. Os subúrbios cresceram em massa com os centros das cidades americanas esvaziarem-se de residentes, ficando apenas os mais pobres a viver nesses antigos espaços. Algo que, na época, levou a socióloga Jane Jacobs (2016) a dizer que as grandes cidades americanas estavam mortas, pela perda das estruturas urbanas e suas relações sociais que deveriam manter a coesão e funcionamento das sociedades urbanas. 

O modelo proposto pelo famoso Lloyd Wright, conhecido pelo organicismo modernista da Casa da Cascata, e das formas arrojadas do Museu Guggenheim de Nova York, falhava porque dependia totalmente do automóvel. Para garantir tanto espaço livre para cada habitação, e por não se preverem aglomerados em altura, as distâncias a percorrer neste modelo urbano individualista teriam de ser feitas por automóvel privado. Se, mesmo sem levar este modelo à prática, as cidades atuais se mostraram insustentáveis pelo excesso de automóveis, imagine-se como seria se o modelo cidade alargada se tivesse generalizado. Curiosamente, atendendo à realidade Portuguesa, e ao conceito de urbanismo disperso que se manifesta nas periferias urbanas e nas zonas rurais de transição, acabamos por implementar estes modelos de cidade alargada, mas ao longo de vias, naquilo a que Álvaro Domingues (2010), Domingues chamou “A Rua da Estrada”.

Mas numa altura em que vivemos sob clausura, devido à pandemia do COVID-19, estes modelos de cidade alargada parecem ser boas soluções, por permitirem afastamento social com fruição da vida fora de portas e área de solo suficiente para explorar agricolamente para subsistência das unidades familiares. No enanto, não deixam de ser modelos urbanos que tendem para uma forte insustentabilidade, que implicam custos que podem chegar a ser até cerca de 5 vezes mais para o fornecimento de infraestruturas públicas, serviços e transportes (Carvalho et al., 2013). Por isso, a aparente sustentabilidade agrícola perde-se nos efeitos negativos da insustentabilidade geral, pois a vida contemporânea exige muitas outras necessidades. Nunca nos podemos esquecer que o solo é um recurso natural não renovável. No entanto, na era das comunicações instantâneas de banda larga e do teletrabalho pela internet, onde se dispensam tantas deslocações, alguns destes modelos possam ser repensados. Se considerarmos que os próprios sistemas de transportes, com os veículos autónomos movidos a energias sustentáveis a surgir, ficamos com ainda mais incertezas sobre a ocupação futura do território. Será que passaremos a considerar os modelos de ocupação do solo de média densidade como a melhor opção?

Referências bibliográficas
Carvalho, J., D'Abreu, A., Pais, C., & Gomes, P. (2013). Ocupação Dispersa: Custos e benefícios à escala local. Direcção Geral do Território, Lisboa, Portugal.
Chueca Goitia, F. (1985). Breve historia del urbanismo (No. 307.7672 C4).
Domingues, Á. (2010). A rua da estrada. Cidades-Comunidades e Territórios, 59-67.
Jacobs, J. (2016). The death and life of great American cities. Vintage.
Mumford, L. (1961). The city in history: Its origins, its transformations, and its prospects (Vol. 67). Houghton Mifflin Harcourt.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Algumas definições sobre o que é um Jogo

A área de estudos dos jogos é neste momento um campo de investigação académica muito ativo. O modo como se criam, desenvolvem e aplicam jogos tem muito para ser estudado, mais ainda se quisermos analisar o que está para além dos jogos, com tudo aquilo que implica a sua utilização social e individual. O meta-jogo, pode muito bem ser considerado uma nova área da filosofia. Muito provavelmente voltarei a este tema, mas para já dedico este texto ao compêndio de algumas definições do que é um jogo, com base na obra de Katie Salen e Eric Zimmerman.



Os tópicos que se apresentam de seguida são transcrições e traduções do trabalho dos autores anteriormente referidos, que por sua vez citam os principais pensadores que se dedicaram a definir os jogos ou a referir características dos jogos. Ficam de seguida alguns desses excertos:
  • David Parlett distingue entre jogos formais e informais: “Um jogo informal é apenas um jogar indireto, algo que as crianças fazem. Um jogo formal tem uma estrutura definida por meios e fins.”
  • Clark C. Abt: “Um jogo é um contexto com regras em que adversários tentam ganhar objetivos.”
  • Johann Huizinga, que não distingue o jogar do brincar, diz mais ou menos isto sobre os jogos: “Brincar/jogar é uma atividade livre situando-se fora da vida comum por não ser séria, mas ao mesmo tempo envolve o jogar profundamente e intensamente.”
  • Roger Caillois descreve que jogar é: “Livre, um ato à parte, incerto, não produtivo, governado por regras, e uma atividade “faz de conta”.”
  • Bernard Suits: “jogar um jogo é o esforço voluntário para ultrapassar um obstáculo desnecessário.”
  • Chris Crawford identifica quatro qualidades nos jogos: “Representação, interação, conflito, segurança. 
  • Greg Costikyan: “Um jogo é uma forma de arte em que os participantes tomam decisões de modo a gerir recursos através dos elementos dos jogos para perseguir um objetivo.”
  • Elliot Avedon & Brian Sutton-Smith: “Os jogos são um exercício de sistemas de controlo voluntário, em que existe concorrência entre poderes, confinados por regras de modo a produzir um resultado desequilibrado.”

Por fim importa apresentar a definição dos próprios autores, de Katie Salen e Eric Zimmerman, que resulta de uma análise crítica das anteriores definições e dos seus próprios contributo: Um jogo é um sistema em que os jogadores se envolvem num conflito artificial, definido por regras, que permitem um resultado quantificável.”

O livro em que se baseiam estas informações “The Rules Of Play: Game Design Fundamentals” é um livro profundo, repleto de informações, com a informação devidamente sistematizada numa abordagem académica, mas que pode ser um precioso auxiliar para a prática de design de jogos.

Referências bibliográficas:

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Como os Webinars podem poupar recursos às organizações

Um Webinar é um conceito muito em voga atualmente. A palavra resulta da contração dos termos "Web-based-seminar", que é como quem diz em português: seminário baseado na rede (internet). A designação do termo não podia ser mais explicita. Trata-se de uma ferramenta informática que usa equipamentos multimédia, vídeo, áudio e outros de transmissão de conteúdos digitais para fazer reuniões e seminários. Os participantes ligam-se ao evento, ao webinar em causa, através do seu computador e de um software próprio que pode ser feito também através de páginas online. Nos webinars tende a haver uma moderação, tal como num evento presencial, que vai marcando a ordem de trabalhos, dando a palavra – que neste caso é o ecrã e todos os outputs multimédia que chegam aos recetores. Os oradores têm possibilidade de comunicar por voz, por vídeo e partilhar as apresentações tal como se fosse uma exibição normal de um powerpoint. Os recetores podem conversar entre si, incluindo os oradores e moderadores, através de chat, sem interromper a comunicação principal, tal como solicitar a possibilidade de intervir por áudio ou vídeo.

Reunião das expressões das 35 cabeças - Honore Daumier
Este sistema está vulgarizado em diversos setores de atividade, havendo múltiplos softwares, aplicações e paginas online que permitem, gratuitamente ou pagando por um serviço mais personalizado, fazer este tipo de reuniões e seminários. Trata-se de um meio eficaz de poupar recursos de deslocações e de comunicar rapidamente, em tempo real, bastando um equipamento digital, computador, tablet ou smartphone com ligação à internet para poder utilizar esta ferramenta poderosa. O formato webinar, dependendo do software utilizado, permite guardar registos de uma forma natural, sempre uteis para posterior trabalho e desenvolvimento dos projetos, sem que sejam necessárias elaborar atas profundamente descritivas. Até o papel se pode dispensar.

Podemos sempre dizer que se perde o contacto humano com os Webinars e outros sistemas de interação à distância. É um facto. Mas quando se trata de produzir de modo eficaz e com poucos custos esta é uma opção a ter em conta, cada vez mais. Em muitas organizações e projetos opta-se pelo mix, de comunicação presencial e à distância para aproveitar o melhor dos dois mundos.

Este sistema (ou sistemas) de webinars tem sido muito utilizado no projeto Urbanwins, uma vez que que são múltiplas as reuniões entre participantes que se encontram geograficamente muito distantes. Sendo um projeto que visa a sustentabilidade ambiental, através do estudo do metabolismo urbano associado principalmente aos resíduos urbanos, é notória a intenção de reduzir impactes ambientais, ao mesmo tempo que se garante um meio eficaz de comunicação, que atende às tendências contemporâneas de funcionamento em rede.

Nota: aqui ficam algumas referências de softwares de webinars que podem experimentar:
https://www.capterra.com/webinar-software/
https://zapier.com/blog/best-webinar-software/
https://www.growthmarketingpro.com/best-webinar-software/
https://www.earningguys.com/hosting/best-webinar-software/
https://www.softwarefindr.com/best/webinar-software/
https://www.eztalks.com/webinars/best-webinar-software-comparison.html

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Quando os Media formam consumidores em vez de cidadãos

Existe, desde há alguns anos para cá, uma tendência para o esvaziamento das entidades que tradicionalmente exerciam poder sobre indivíduos e sociedades (Naim, 2014). Essas instituições, políticas, religiosas, corporativas, cívicas e etc., têm perdido o seu peso nas sociedades contemporâneas. No caso das democracias isso traz um problema considerável, pois é a própria sociedade civil que perde (Levine, 2002). Nessa perda de poder há um acentuar de perda nos grupos de pressão, especialmente dos defendiam os mais desfavorecidos e impotentes, habitualmente defendidos por congregações religiosas, partidos políticos e sindicatos. Há que lembrar também Tocqueville (2001), quando demonstrou que era nessas instituições cívicas que se formava a massa humana crítica e ativa que tornavam uma democracia sadia.
Michael Jackson e Bubbles - Jeff Koons
Um outro aspeto curioso passa pelo falhando do efeito cívico previsto para o crescimento da generalização da educação. Muitos dos poderes tradicionais referidos foram-se esbatendo, direta e indirectamente, pelo crescimento da liberdade individual aliada à universalização da educação. No entanto, esse alargamento da escolarização em quantidade e qualidade, não se transformou em reforço da participação cívica e na melhoria das democracias, isto ao contrário do que muitos previam (Ginsborg, 2008). Apesar desse imprevisível marasmo cívico, não significa que as sociedades contemporâneas sejam incapazes de mobilização por causas particulares. Existem mesmo casos de mobilização massiva, especialmente amplificada pelo acesso à Internet. Mas esse envolvimento cívico assume, muitas vezes, contornos efémeros e pontuais, e não uma atitude continuada que faça parte da vivência quotidiana. 

Curiosamente, nesta derrocada de poderes tradicionais os menos afectados têm sido os económicos, especialmente os de grande escala. As sociedades são cada vez mais consumistas, propensas à busca pela constante novidade material. Entra-se assim numa fase de consumismo e individualismo exacerbado. Essas entidades económicas têm saindo reforçadas e continuam a marcar a sua posição de dominância, contribuindo para fabricar a cultura de massas e o consumismo a ela associada. A vida familiar está impregnada destes valores. Não será de espantar, pois os meios de difusão cultural e informativa – os Media – são controlados pelos tais grupos económicos, interessados no reforço das tendências consumistas. O caso da televisão é o mais marcante, por ser o principal instrumento de difusão cultural familiar. Especialmente por esse meio vão-se formando e reforçando consumidores e não cidadãos. A televisão pretende entreter e não formar. Interessam as audiências e o consumo de determinados produtos e serviços. Parece não importar formar cidadãos com consciência política cívica e democrática (Ginsborg, 2008).


Tendo em conta este estado de coisas, não é estranho o afastamento entre o exercício da cidadania política e os valores e hábitos que se ganham através da cultura familiar. No entanto será interessante perceber os efeitos do reforço do individualismo na procura de entretenimento, especialmente porque o uso da Internet – que é um espaço muito mais livre – vai alastrado e porque a televisão também está a evoluir para formatos mais costumáveis em que se pode escolher o que ver e quando.
 
Referências bibliográficas
• Ginsborg, Paul. “A Democracia que Não Há - O que fazer para proteger o bem político mais precioso dos nossos tempos”. Editorial Teorema, 2008.
• Levine, Peter. “Can the Internet Rescue Democracy? Toward an On-line Commons. Democracy’s Moment: Reforming the American: Political System for the 21st Century”.Lanham, MD, Rowman & Littlefield. 2002.
• Naim, Moises. “O Fim do Poder - Dos campos de Batalha às administrações, aos Estados e às Igrejas. Porque ter poder já não é o que era”. Gradiva, 2014.
• Tocqueville, Alexis de. “Da Democracia na América”. Princípia, 2001.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Porque incomodam tanto aos Muçulmanos os Cartoons Maomé

Depois dos ataques terroristas ao Charlie Hebdo o mundo ocidental ficou estarrecido. A justificação terá sido o modo insultuoso como o jornal havia representado, diversas vezes, o profeta do Islão. Mas, conhecendo um pouco da cultura e tradições islâmicas, percebe-se que, mesmo que os cartoons não fossem insultuosos haveria sempre protestos fortes contra qualquer tipo de representação do profeta. Falo de reações puramente religiosas e não políticas, embora isso seja difícil de separar no Islão.
Muitos Xiitas e Sunitas, as duas principais correntes atuais do islamismo, condenam qualquer representação antropomórfica do profeta. Embora aparentemente essa não seja uma proibição direta expressa no Alcorão, alguns Hadith – tradições islâmicas de valor jurisprudencial - condenam-nas diretamente. Esta justificação tem origem antiga, advém do perigo da idolatria, quando um ídolo passa a ser mais importante que o significado representado. Também existem correntes que seguem pela proibição, pois somente Alá pode criar vida, mesmo que somente em representação.
O Profeta orando na Kaaba - gravura otomana do século XVI
Curiosamente, no próprio cristianismo surgiram movimentos semelhantes, por exemplo o movimento iconoclasta Bizantino e algumas tendências Protestantes já da época moderna, condenam qualquer representação de Jesus e demais personalidades bíblicas, muito menos de Deus. Apenas a cruz era possível de representar.
Voltando ao islamismo, não é de estranhar que para identificação visual do profeta se tenha recorrido a representações monográficas em escrita árabe. Também não é estranho estarem banidas das mesquitas quaisquer representações decorativas de vida. Habitualmente recorriam e recorre-se apenas a formas geometrizadas e às passagens do Alcorão como decorações e formas de passar a mensagem religiosa.
Por outro lado, se há registos de Hadith que fazem a proibição representativa de Maomé, também se encontraram Hadith que o representam, ainda que em alguns ele possa aparecer encoberto por véus ou representado simbolicamente como uma chama.
Extremismos, fanatismos e fundamentalismos à parte, para compreender o que se passa no mundo atualmente é necessário conhecer um pouco mais dos princípios pelos quais se regem os muçulmanos, e perceber que nem sempre os valores e ideais são universais entre todas as culturas. O que pode ser inofensivo para uma cultura pode não ser para outra.

Referências Bibliográficas
  • Donini, Pier Giovanni. “O Mundo Islâmico - Do Século XVI à Actualidade”. Editorial Presença, 2008.
  • Larsson, Göran. “Muslims and the New Media”. Ashgate, 2011
  • Grabar, Oleg. "The Story of Portraits of the Prophet Muhammad". Studia Islamica, 2003.
  • Robinson, C. F. “Islamic Historiography”. Cambridge University Press, 2003.

domingo, 16 de setembro de 2012

Após Acordo Ortográfico a maioria das visitas ao Blogue veem do Brasil

O mais recente acordo ortográfico, que entrou em vigor em 2009 em Portugal (1.1), gerou desde então, ao longo de um processo moroso que começou muito antes (1.2), grande discussão e contestação. 
Do lado dos detratores do acordo defende-se, entre muitas posições, a descaracterização da Língua Portuguesa, e o seu afastamento para com as suas origens históricas. Do lado dos defensores do acordo empunha-se o estandarte da oportunidade de crescimento da língua, dos espaços e mercados do português como língua muito mais universalista. No fundo, as mudanças, via acordo ortográfico, aproximariam o português dos vários países de língua oficial portuguesa, dando-lhes escala em todos os sentidos, potencialmente alargando o próprio grupo da lusofonia. A isso juntar-se-lhe-ia todo o potencial económico associado decorrente do alargamento e criação de um mercado cultural único para os vários países, ou seja, haveriam muitos mais leitores e os custos de publicação e divulgação seriam reduzidos.
Bem, ambas as posições são, no mínimo, defensáveis, mas ainda haverá - com certeza - muita discussão sobre este assunto, e só o tempo revelará que as previsões se concretizarão.
Baile Popular -Di Cavalcanti
A experiência aqui do blogue, no que toca à escrita segundo o novo Acordo Ortográfico, tem sido reveladora: desde que os textos começaram a ser publicados segundo o novo Acordo Ortográfico o número de visitas vindas do Brasil subiu exponencialmente, sendo hoje o país de onde mais se visita A Busca pela Sabedoria. Obviamente que este exemplo não é representativo e não serve para provar nada, mas pode servir para refletir. 
No entanto, apesar das vantagens de crescimento do mercado para as publicações em português há um dado curioso que raramente é divulgado. Apesar de existir um novo Acordo Ortográfico com o intuito uniformizar o português falado pelo mundo fora, existem variantes para cada país dentro do atual acordo! No fundo, continua a não haver uniformidade total.
Talvez venha um dia em que o português seja uma língua uniforme mundial ou então que desapareça para dar origem a outras línguas. Ninguém saberá isso, até porque a Língua Portuguesa nunca foi estanque, até porque não nasceu do nada e porque tem, como todas as línguas, uma história de reformulações alterações, divergências e uniformizações.

Fontes:
(1) -Portal da Língua Portuguesa, disponível emhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/acordo.php
(2) - História da língua portuguesa, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_l%C3%ADngua_portuguesa

sábado, 18 de agosto de 2012

Manipular as Ações Alheias Sugerindo Ideias Indiretas – A Impulsão Ideomotora


E se conseguissem influenciar os nossos comportamentos e ações físicas através de ideias indiretas? Bem, parece que podem de facto, que de um modo inconsciente somos altamente influenciáveis, sem disso termos a mínima perceção, pelas mais ínfimas sugestões. 
Os papagaios  (os acrobatas)- Fernad Léger
Uma das experiências clássicas da psicologia social, uma entre muitas referidas no livro “Pensar, Depressa e Devagar”, realizada pelo John Bargh revela o modo como, indiretamente, qualquer pessoa é altamente influenciada apenas por ideias. Nessa experiência foi pedido a um grupo de jovens que ordenassem um conjunto limitado de palavras numa frase coerente. A metade dos indivíduos disponibilizou-se um rol de palavras relacionadas indiretamente com o tema da velhice. Aos restantes não havia qualquer relação de conjunto das palavras a qualquer tema evidente. Depois de todos participantes na experiência concluírem a tarefa proposta, atravessaram um corredor para continuarem com mais testes, mas era no percurso entre salas que residia verdadeiramente a experiência. Por mais surpreendente que possa parecer, os jovens que tinham formulado frases com alusões à velhice deslocaram-me mais lentamente que os outros. Num questionário posterior a maioria dos jovens a quem tinham sido fornecidas palavras relacionadas com velhice consideraram não ter notado qualquer tema em comum nas palavras.
Este exemplo experimental, relatado por Daniel Kahneman na obra já citada, revela como podemos ser facilmente influenciados por impulsões. Neste caso concreto foi uma ideia subliminar que gerou uma ação inconsciente e não premeditada: deu-se o efeito ideomotor (*). Então, tendo em conta o exemplo e aplicando o pensamento indutivo, muitos poderão ser os casos em que os nossos comportamentos e ações são, propositadamente ou não, influenciados pelas ideias que existem e são disseminadas à nossa volta. É quase preocupante concluir quão facilmente podemos ser influenciados, quão ténues e simples podem também ser os meios e os modos de o fazer, e quão evidentes podem ser os resultados. Se, muitas vezes, sem intenção podemos ser levados a ter certos comportamentos, imagina-se então quando essa influência é propositada. O primeiro passo para tentar minimizar essa disposição natural, caso se pretenda enveredar por esse caminho, é começar por admitir e assumir a facilidade como qualquer um de nós é influenciado pelo meio e pelas ideias.

Nota: O Livro no qual se fundamentou o presente texto é incrivelmente útil e interessante para quem se quer iniciar na psicologia social. Daniel Kahneman escreve de um modo simples, por vezes até sarcasticamente divertido, recorrendo e referindo muitos exemplos de experiências que ajudam à compreensão de conceitos e saberes complexos e de especialidade. Seguramente que esta mesma obra será utilizada posteriormente como base a mais textos. Sem dúvida que a recomendo. Não foi por acaso que o autor, que é psicólogo, ganhou o prémio Nobel da Economia, por mais estranho que possa parecer à primeira vista.

Referências Bibliográficas
(*) Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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