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quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Variações no cinema português: um filme sobre António Variações

Tenho de admitir que tenho sempre uma certa desconfiança dos filmes portugueses. Mero preconceito, especialmente porque não lhes dou assim tantas oportunidades para me surpreenderem. Ontem fui ver “Variações”, que retrata a vida de António Variações, um cantor muito especial da história da música portuguesa. 

Fonte da imagem: https://mag.sapo.pt/cinema/filmes/criticas/variacoes-estar-alem-da-criatividade-para-revelar-antonio-ao-mundo

António Variações era um excêntrico, com uma personalidade com uma estravagância que irradiava em tudo o que fazia, especialmente na música, a sua paixão. Barbeiro de profissão, e cantor por vocação, ainda que sem formação, falamos de um homem que quebrava as regras e convenções sociais. Andou pelo mundo, mas não podia escapar à sua alma lusa. As suas músicas eram polémicas, ousadas e muito à frente do seu tempo, porque no fundo eram mesmo do seu tempo mas feitas com liberdade. Morreu cedo, de broncopneumonia muito provavelmente relacionada com o HIV, numa época em que não havia tratamentos adequado para essa calamidade. A sua homossexualidade, quase de forma inexplicável, acabou por ser aceite pela sociedade portuguesa da época, ainda fortemente conservadora. Os anos 80 foram um período de liberdade em Portugal, resultado da estabilidade que a jovem democracia ganhava. Variações, apesar da sua curta carreira e fama, fez parte desse movimento cultural. Hoje não duvidamos disso. António Variações era único, dificil de classificar no estilo e no tipo de música que criava. 

Este breve resumo pretende enquadrar a riqueza desta personagem e o seu lugar na história recente de Portugal. Ou seja, havia mais do que conteúdo para fazer um filme de qualidade, embora os filmes baseados em factos reais possam ser desinteressantes, pois a criatividade fica sempre condicionada. Neste caso, conhecer Variações é por si um ato de inspiração criativa, especialmente pela forma como o filme foi feito. Através desta longa metragem conhecemos a vida de António Ribeiro, que adotaria o nome de António Variações. Conhecemos o contexto social dos anos 50 no Portugal Rural, de finais dos anos 70 e inícios de 80 em Lisboa. Percebemos como foi o processo criativo deste autodidata e o mundo da música na época. Somos introduzidos à vida noturna e também, de algum modo, à comunidade gay de então. 

Mas mais que tudo isso. O filme é forte. É lento quando necessário, mas também ritmado e repleto de música interpretada pelo próprio protagonista, o que deve ter sido um enorme desafio. É magnificamente interpretado por Sergio Praia como António Variações e por Filipe Duarte como Fernando Ataíde, que encarnam uma relação amorosa de forma credível e repleta de emoção, algo que não terá sido fácil de fazer, tendo em conta toda a carga social e de preconceito associados às relações homossexuais, que por vezes são abordadas de forma incompetente, transformadas e retratadas de forma pouco digna, em situações de gozo e de ridículo. Guarda-roupa, ambientes, cenários, tudo feito com qualidade. Realização e produção irrepreensível, ao nível do que se faz de bom noutros países do mundo. João Maia está de parabéns! Trata-se de um filme tecnicamente rigoroso, mas passível de ser apreciado pelo grande público. 

Não estava com grandes expetativas, confesso, mas Variações emocionou-me. Era uma terça-feira e o filme estava em exibição há vários dias. Só consegui bilhetes para a primeira fila, o que é impressionante para um filme português. Provavelmente seria sempre um chamariz pela vida da personagem retratada e pelo sucesso que as suas músicas ainda hoje têm. Apesar disso a concretização não dececiona, pelo menos a mim não desiludiu, naquilo que foi, a meu ver, um dos melhores filmes portugueses feitos nos últimos tempos.

domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Morte Negra - Um filme de ação credível sobre a Idade Média

Morte Negra pode parecer, à primeira vista, um filme de terror. É assustador, não por ser feito para esse fim, mas porque retrata uma época da história da europa hoje inimaginável.  Este filme de Christopher Smith conta com um elenco de atores bastante conhecidos e reconhecidos pela qualidade das suas performances em filmes de época. Sean Bean, Eddie Redmayne, Tim McInnemy, Carice Van Houten entre outros. As interpretações não dececionam, contribuindo para a credibilidade e realismo próprio do filme.
 

É essa credibilidade que eleva este filme acima de tantos outros filmes de acção de cariz histórico. Trata-se de uma história inserida no contexto das grandes pestes que assolaram a europa durante o século XIV, época conhecida como o período da Peste Negra. Não se pense que é um documentário. Obviamente tem as suas falhas, mas comparado com outros filmes este tem mais interesse do ponto de vista histórico.

O mais difícil de recriar nos filmes ditos históricos são as mentalidades, pois tendemos a representar épocas passadas segundo os nossos valores e princípios contemporâneos. Nota-se uma preocupação neste filme, apesar de ser direcionado a um público generalista, para com a profundidade das personagens e para o enquadramento histórico geral. As personagens são complexas, atormentadas, fruto da época em que vivem. A obra não escapa a alguns clichés, mas enriquece os espectadores com pormenores que não dececionam um publico mais exigente quanto aos conteúdos.

Sem desvendar o enredo seguem-se alguns exemplos. O guarda-roupa está bem conseguido, com distinção nas roupas e armamento entre as ordens sociais e hierarquias. O cavaleiro representante do bispo tem espada e uma armadura coerente, enquanto os restantes mercenários recorrem a armamento variado, usado e de menor qualidade.  Há alguma coerência na organização da aldeia descrita. O facto de existirem territórios pouco desconhecidos, quase bravios, que escapam ao poder feudal e eclesiástico é também verossímil. Na idade média o poder laico e eclesiástico tinha deveras dificuldades em controlar determinados territórios, tanto pela falta de meios e limitações técnicas, como pela própria organização em que se fundava.

A razão pela qual o filme tem passado quase despercebido e ter recebido algumas avaliações pouco positivas pode estar relacionado com o seu realismo. Morte Negra mostra o lado negro do cristianismo, da igreja e do radicalismo religioso medieval. Aborda a credulidade humana e regista episódios assustadores, próprios de uma época violenta onde a religião e a superstição amplificaram a crise de saúde pública provocada pelas pestes.
Provavelmente o título poderá ter contribuído para alguma confusão nos públicos para os quais o filme foi pensado. Não se trata de um filme de terror. Sendo um filme de ação não tem a sequência de ação por vezes apreciada. O fim pode ser surpreendente. Tal como o público que goste de uma recriação mais soída seja também afastado pelo título e pelo modo "hollywoodesco" com que o filme é apresentado.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A filosofia na Cultura Pop: cinema de ficção científica e super-heróis

Lembro-me de uma determinada professora de filosofia do ensino secundário pela abordagem diferente que fazia nas suas aulas. Conseguia-nos cativar com alguns temas e referências muito especiais. Infelizmente esqueci-me do nome dela, mas ficou uma imagem idealizada dessa professora que tem servido de inspiração.


Sweet Dreams Baby - Roy Lichtenstein

Um desses assuntos foi a temáticas dos filmes de ficção científica, quando deles tirava conclusões sobre a condição humana e as relações sociais de cada tempo em que eram realizados. Lembro a referência a mensagens que se poderiam retirar de filmes tão populares como “Blade Runner”, “Exterminador Implacável” e “Alien: o oitavo passageiro”. Cada um deles falava da problemática das máquinas com inteligência artificial. Em todos estes filmes, de um modo ou de outro, as máquinas eram os vilões. Ou seja, havia um medo claro dos limites da descoberta científica. Depois, curiosamente, nos anos 90, surgem sequelas, surgem novos filmes em que as máquinas já parecem querer também ajudar contra outras máquinas ou dificuldades. Mudaram-se então as mentalidades? Talvez, ou simplesmente era a novidade que permitia alimentar esta industria tão carente de coisas novas para consumo rápido.

Um outro fenómeno curioso, com o qual também se podem fazer extrapolações, é o crescimento do interesse pelos super-heróis. Se antigamente, a partir dos anos 90 e por ai fora, reinaram filmes de acção populares para os mais jovens em que os heróis eram “mauzões” que dominavam, com meios muito pouco ortodoxos, do tipo anti-heróis e ao estilo “gangster”, desde há uns anos para cá as coisas parecem ter mudado.

 São cada vez mais os filmes de super-heróis clássicos (com capas, fatos e nomes originais) e suas adaptações, no seu individualismo e idealismo do "bem", ainda que existam excreções como é normal. Será também uma mudança social e de valores? Ou seja, mantém-se o individualismo típico das sociedades pós-industriais e ultraliberais, mas parece querer renascer o sentimento de altruísmo, do praticar o “bem” e de encontrar um sentido para existência individual? Será o reflexo de sociedades que, vivendo na abundância, pretendem agora a felicidade individual que nem sempre passa por mais bens materiais?

Não se poderá concluir disto grandes certezas. Mas podemos dizer que é possível retirar dos filmes e produções da cultura pop significados e referências mais profundas do que seria expectável em produtos de consumo rápido. Podemos filosofar sobre isso. Podemos usar do intelecto para colocar questões e problemáticas.

 Poderá ser a prova de que a filosofia se pode massificar e ao mesmo tempo diferenciar no individualismo ultraliberal, com cada um a poder abordar, sejam quais forem os temas e perspetivas, do modo e no formato que mais lhe convier?

Isto é uma extrapolação arriscada, mas sem arriscarmos o erro e fazer as perguntas não poderemos avançar com mais conhecimento e compreensão. Afinal, até podemos fazer um bocadinho de filosofia assim.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Hannah Arendt - um filme para filosofar e conhecer uma época

Ver um filme para tentar aprender algo sobre filosofia costuma não dar em grande coisa. Há poucos filmes sobre filósofos e os poucos que se fazem nem sempre chegam aos espectadores. Mas há sempre canais que conseguem romper com essas tendências gerais. A RTP2 é um desses casos. Recentemente exibiram o filme “Hannah Arendt “, de Margarethe Von Trotta.


Trata-se de um filme que retrata partes da vida da famosa filósofa. Explora a personalidade dessa mulher, considerada por muitos uma das principais e mais influentes filósofas do século XX, ainda que a própria nunca se tenha verdadeiramente assumido como tal. O enredo incide sobre o período em que Arendt acompanhou o julgamento de Eichmann pelo recém-formado Estado de Israel. Seria suposto fazer apenas um artigo para a revista New Yorker, de estilo jornalístico, mas Arendt foi muito mais fundo que isso, filosofando sobre a “Banalidade do Mal”. Esse artigo, que mais tarde daria origem a uma das suas mais famosas obras, constata que a desumanização do ser humano, quando privado de pensamento crítico próprio, pode levar a que uma pessoa comum cometa os atos mais horríveis como sendo algo banal, sem que a isso esse sujeito seja de facto um ser especialmente diabólico. Esta conclusão surge na sequência de estudos anteriores de Arendt, sobre "As Origens do Totalitalismo”, mas ganha corpo depois de analisar “A Banalidade do Mal” de Eichamann, um burocrata que cometeu crimes contra a humanidade sem remorsos, por simplesmente achar que estava a fazer o seu papel, a cumprir o seu dever perante o Reich.

Hanna Arendt tinha origem alemã e judia. Tinha sido presa e por pouco não foi também ela deportada para os campos de concentração e para a morte. Consta que terá sido o seu amante de juventude, o filosofo Heidegger que a terá salvo, ele que era um simpatizante nazi. Terá sido depois da guerra Arendt a ajudar a sanear o antigo amante e mestre, evitando os processo que aconteceram a outros nazis.

 Há que lembrar que Eichmann foi um dos responsáveis do sistema de extermínio em massa do povo judeu. A capacidade de uso da razão que Arendt terá tido perante aquela confrontação com Eichmann, é notável. Ainda hoje os judeus desconsideram Arendt por ter criticado nos seus escritos as lideranças dos judeus no tempo do holocausto e de ter racionalizado o ódio que todos queria manifestar e corporizar contra a figura de Eichmann. Acusaram-na de ser friamente racional.

Hannah Arendt é um daqueles filmes para quem quer conhecer uma época e uma personalidade importantíssima do pensamento do século XX. O desempenho dos atores é irrepreensível, especialmente de Barbara Sukowa, no papel de Hannah Arendt. Boa fotografia e ambientes credíveis, com uma acção a ritmo próprio para pensar. De notar o recurso  a excertos do próprio julgamento de Eichmann, dando quase uma dimensão documental ao filme.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Sideways - Um fIlme que Sabe a Vinho

Aqui está um filme interessante. Há coisas muito originais neste filme, apesar do traçado geral do enredo ser algo visto noutras histórias. No fundo relata-se a viagem de dois amigos em jeito de despedido da solteiro para um deles. Até aqui nada de especial, mas é o local e o tipo de actividades que planeiam fazer para diversão que se torna interessante. Vão percorrer, de automóvel, a zona vinícola da Califórnia. Estes amigos não são os típicos vintões ou trintões que aparecem normalmente neste tipo de filmes de despedidas de solteiro. São quarentões e o ritmo da viagem é bem diferente, feita, ou pelo menos idealizada, para saborear bons vinhos.

Quase parece que o filme foi patrocinado pela indústria do vinho. A sensibilidade das personagens manifesta-se pela forma como degustam, debatam e analisam os vinhos. Bebem-se quantidades imensas desse néctar neste filme, mais do que parece ser aconselhável.  Mas bebe-se por prazer e em honra da arte de o produzir. Por momentos parece quase um documentário ou uma formação inicial de introdução ao vinho.

Paul Giamatti encarna a personagem principal, de um professor apaixonado por vinho. Destaca-se a anos-luz das restantes pela sua interpretação. Consegue transmitir a profundidade da sua personagem culta, deprimida, falhada mas ainda com força para saborear um copo de vinha na companhia certa. As restantes personagens não parecem ser também conseguidas, mas talvez porque sejam apenas interpretações realistas de pessoas normais. Acima de tudo isto é um filme que simula uma história que poderia muito bem ser real, com pessoais reais.

A fotografia e banda sonora contribuem para a construção do ambiente vinícola e de viagem.

Apesar de ser considerada uma comédia, Sideways conta uma história de pessoas maduras, com alguns toques de humor e bastante drama. Centra-se muito na personagem principal, complexa como o ser “vivo” que é o vinho que corre amadurecido neste filme.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Ágora – Um filme sobre um período obscuro do cristianismo

 
Muito tempo depois do que contava pude finalmente ver “Ágora”. Trata-se de uma recriação de um episódio histórico que terá mesmo acontecido. Como se diz: “Um filme baseado em factos verídicos”. Na prática tal aspeto, por si, nada garante de qualidade e interesse para a obra, pois pode muito facilmente desviar-se das fontes históricas e desinformar em vez de informar, uma vez que o formato ideal para isso seria o documentário. Mas claro, baseando uma ficção em casos reais, como é habitual fazer-se, é a possibilidade de fazer chegar conhecimento do tema ou história do filme a um público mais vasto, ainda que podendo perder-se originalidade no processo criativo, ou não fosse difícil conjugar a fidedignidade histórica com os rasgos de criatividade quase sempre deturpadores, especialmente pelo incutir de valores da atualidade e outros que tornam os filmes históricos anacrónicos.

Mas sobre o filme em concreto.” Ágora” regista as mudanças sociais, políticas, religiosas e culturais que ocorreram com a afirmação do cristianismo no seio do Império Romano, já numa fase de decadência. A ação passa-se em Alexandria, uma das cidades mais dedicadas ao ensino e conhecimento da antiguidade, nos finais do século IV e inícios de século V d.C., exatamente no período em que se considera o início do fim antiguidade tardia. Retrata-se parte da vida da filósofa Hypatia, das convulsões entre pagãos e cristãos em ascensão. É um registo em filme do choque entre o mundo antigo clássico e o novo mundo cristão que daria origem aos valores cristãos ocidentais e até à influência islâmica posterior. Grande parte destes conflitos violentos acontecem no espaço público da cidade, sendo provavelmente dai a origem do nome "Ágora" - que seria o espaço público onde acontecia a vida cívica das cidades gregas.

Existem pouquíssimos filmes sobre esta época em que se foca a violência que acompanhou a implantação e domínio do cristianismo sob o Império Romano, em que de perseguidos, e depois tolerados, os cristãos passam a ser perseguidores, contribuindo para o fim da antiguidade clássica em simultâneo com outros acontecimentos, tais como as invasões bárbaras e a posterior queda do Império Romano do Ocidente. Fica evidente como a política vivia ligada à religião e vice-versa, de como muitas opções religiosas tinham impactos e fundamentos políticos, independentemente da coerência teológica.

O filme não será brilhante no seu todo. Diria somente que é extremamente interessante. Os desempenhos das personagens são aceitáveis, destacando-se Rachel Weisz no papel principal com um bom desempenho. Parecem existir algumas pequenas incoerências no enredo e na construção de algumas personagens, mas nada de muito grave se considerarmos o ambiente e o enquadramento do filme o mais importante. O guarda-roupa, cenografia e fotografia estão bem conseguidos, especialmente a opção por algumas cenas filmadas de modo invertido, de pontos de vista diferentes e em certos planos aéreos.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Capitão Falcão - O filme fascista defensor da liberdade e democracia

O primeiro super-herói português é um fascista que idolatra Salazar e o Estado Novo.  Aqui está o mote para o filme “Capitão Falcão” de João Leitão. Obviamente que se trata de uma paródia, mas mesmo assim ainda terá sido um risco considerável avançar com este tipo de produção. Um risco ganho e que reforça o próprio espírito democrático. Criar um filme em torno de um super-herói cuja principal tarefa é derrotar feministas, livres pensadores, artistas, comunistas, democratas, intelectuais, ateus, homossexuais, transformistas e todos aqueles que podem atentar contra o fascismo conservador e hipócrita do Estado Novo é prova de maturidade democrática. Finalmente podemos ser livres e gozar connosco mesmos e com um período negro da nossa história, pois este herói ridiculariza-se a ele próprio e aos valores que defende, sendo a apologia perfeita de tudo aquilo que o antagoniza.
Assim, Capitão falcão é um hino dissimulado à democracia e liberdade. O enredo e os conteúdos do filme sobrepõem-se em camadas que se aprofundam na medida em que se analisam o ridículo de alguns discursos e cenas. Na primeira camada estão os combates, as artes marciais e o cómico básico de sátira aos filmes de super-heróis de Banda Desenhada. Nas restantes camadas critica-se o obscurantismo do salazarismo e mais a fundo a própria sociedade portuguesa, com inúmeras referências à época contemporânea. O manancial de piadas e trocadilhos revelam um trabalho de originalidade na escrita que dão substrato ao filme.
Em tudo se notam as limitações orçamentais, mas tudo acaba por funcionar bem. Os atores são bastante bons, especialmente Gonçalo Waddington que tem algumas performances brilhantes, alternado entre a parvoíce calma e o desvario. Os restantes atores adequam-se, tirando um ou outro papel secundário menos conseguido. A fotografia está igualmente bastante aceitável, embora os cenários e ambientes não sejam muito ricos.
Um aspeto que acaba por prejudicar o filme é a sua duração. Se fosse condensado em menos meia hora provavelmente ficaria no ponto, com a dinâmica de ação mais fluida e sem pausas para o espetador recuperar do rol de (boas) parvoíces contidas na história.
Pela novidade que representa, pelo espírito empreendedor dos criadores, pela originalidade da ideia em si, e como ela surge numa altura em que se coloca em causa a democracia, faz todo o sentido ir ao cinema ver o Capitão Falcão.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Uma lugar para viver – Um filme que faz pensar quando se está naquela fase de vida

Há uns anos lembro-me perfeitamente de José Paulo Alcobia ter recomendado este filme. Como era um filme não tão comercial como é hábito nos filmes americanos que inundam as salas de cinema mais populares, acabei por não o conseguir ver na altura. Recentemente consegui adquiri-lo para a minha cinemateca em DVD e agora foi-me possível apreciar esta obra de arte.
Sim, o filme é simples, mas gracioso, ou seja, uma obra de arte. É simples na história de base, mas muito rico nas personagens e locais que mostra. A música ajuda e a fotografia está perfeita no emolduramento da originalidade das personagens, que o conseguem ser sendo  quase irreais de tão "reais" que são nos seus comportamentos. São personagens humanas, com defeitos e virtudes - ainda que pro vezes exagerados -, em belas fotografias do real. Talvez mais que as personagens, descrevem-se bem as relações humanas, pois, por vezes, parecem ser elas os motivos principais do filme. Sam Mendes consegue criar assim um filme de grande qualidade e originalidade, ainda que simples, sem grandes exuberâncias.
Diria que é uma comédia, inteligente e ao mesmo tempo quase ousada, repleta de críticas a grupos, faixas etárias e personagens que podem ser vistas como alegorias particulares ou de conjunto. Mas pode ser também um drama, pois certas cenas são de facto comoventes.
Por isso, para quem quiser passar um bom momento de cinema no conforto do sofá de sua casa, para depois ficar uns momentos a reflectir nas pequenas e grandes coisas da vida, especialmente para quem está na fase de vida em que procura uma casa para viver, onde, quem sabe, possa construir uma família.
O título original: Away We Go

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Gaiola Dourada – Um filme de caricatura e cliché para compreender os Emigrantes

Volto, depois de uma ausência de algum tempo, ao cinema. Volto, embora tivesse decidido diminuir a preponderância desse tema aqui no blogue, pois trago um filme especial. No final do filme em causa pensei para comigo – aqueles euros, ainda consideráveis que paguei pelos bilhetes, valeram a pena! O filme é luso-francês, com muitos atores portugueses, luso-descendentes e franceses talentosos. O ambiente é o da comunidade portuguesa em Paris. 
Trata-se de um filme simples, com uma trama e enredo habitual ao que se assiste no cinema mainstream, no entanto é quase documental. Apesar de ser uma caricatura de clichés – com muitos estereótipos e alguns exageros das personagens utilizadas para fazer aquele particular retrato social -, ora com comédia ora com drama, retrata com alguma fidedignidade a comunidade emigrante portuguesa que de final do século XX rumou para França, seus descendentes, sentimentos, valores, imaginário e relações que criaram no país de acolhimento. É o próprio realizador que assume o estilo caricatural. É notório que Ruben Alves conhece muito bem a realidade que pretende descrever. Ele próprio é luso-descendente e seus pais emigrantes – a mãe porteira e o pai operário da construção civil.
Assim, para quem quiser ter um momento light de cinema animado e, ao mesmo tempo, perceber um pouco melhor como vive a comunidade emigrada em França, aconselho a conhecer A Gaiola Dourada. Quem tenha visto e não tenha apreciado está no seu direito - como é óbvio -, mas se calhar isso poderá significar que ainda está longe de compreender os nossos emigrantes, que, por muitas razões e circunstâncias da vida, foram forçados a uma adaptação a realidades muito distintas dos seus meios de origem, aculturando-se vincadamente. Desse misto de culturas, encarnadas por pessoas bem reais, resultou uma nova cultura que tenta nunca perder a ligação à origem, ainda que a própria origem se institua como um imaginário quase mitológico.

Nota: para quem tiver mais curiosidade em compreender um pouco mais a emigração em França, especialmente a portuguesa, fica aqui a sugestão de outro texto, de cariz sociológico - Porque são diferentes os Emigrantes Portugueses em França?

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Sentido da Vida (em 10 segundos)

Neste texto que será curto, pois a referência é igualmente muito curta - demasiado curta para tudo o que na história da humanidade se desenrolou em torno dessa grande questão. A justificação destas palavras impõem-se para referir um daquelas momentos ímpares do cinema, num filme, mas mais concretamente num sketch, onde os Monty Python resumem em 10 segundos qual o sentido da vida, depois de terem feito uma viagem de mais de 100 minutos tentando satiricamente tratar a nossa Humanidade.
Então, segundo os Monty Python, o sentido da vida é "viver bem", e para isso:

"Tentem ser bons para os outros, evitem comer gorduras, leiam um livro de tempos a tempos, façam algumas caminhadas, e tentem viver em paz e harmonia com todos os credos e nações"


Apesar de ser um filme que vi já muitas vezes, e um dos mais estimados da minha cinemateca, foi no livro "Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso", de Daniel Klein e Thomas Cathcart ,que voltei a recordar este sketch. Nessa obra única, onde se mistura a Morte com a já difícil mistura de Filosofia e Humor,  refere-se, depois de várias alusões às posições e correntes de muitos filósofos, que o sentido da vida pode ser algo bem simples, tal como sumariaram os Python.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Filme "O Rei" - A Ausência de Desenvolvimento Moral


No filme “O Rei” (The King) não há nenhuma recriação histórica nem qualquer alusão a monarquias. O título da obra resulta da análise simbólica de como a personagem principal se comporta ao longo da ação. Neste filme americano – muito mais lento do que muitos outros filmes conterrâneos pensados para o grande público -, passado num ambiente de bem típico de algumas comunidades religiosas dos EUA, explora-se a noção de moralidade. Apesar das sólidas bases religiosas que norteiam o comportamento das personagens secundárias, toda a trama é um subtil continuado de imoralismo e de comportamentos hipócritas, que começa levemente e vai crescendo em brutalidade.
Praticamente todas as personagens demonstram a fraqueza do seu desenvolvimento moral, e, como em muitos casos, o rei, como primeiro de todos, é o pior deles.
Este “Rei” não é um filme que sobressaia muito, mas fica uma sensação de incomodidade e estranheza que persiste bem depois de chegarmos ao final da sua visualização. A parte técnica está com a qualidade que se exige, e o ator principal – o mexicano Gael Garcia Bernal - segue pela trilha que já habituou.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Crítica ao filme: Para Roma com Amor

Quando me dirigi ao cinema para ver mais este filme de Woody Allen ia com grandes espectativas, por duas razões: porque o último filme do autor, passado em Paris, tinha sido sublime; e, porque Roma, o pano de fundo do filme em causa, é uma cidade única e fantástica.
Depois de ver “Para Roma com Amor” fiquei um pouco sem saber se o realizador tinha tentado aplicar a fórmula de sucesso de “Meia-noite em Paris” - filme já aqui analisado -, ou se a opção tinha sido outra. Ficou-me a sensação que este filme, apesar de no geral ser uma obra de qualidade, poderia ter sido muito melhor concebido. Pareceu-me que tinha sido feito um pouco à pressa.
O filme constrói-se por várias histórias que decorrem, supostamente ao mesmo tempo, em Roma, mas o estranho é não existir qualquer relação entre elas. Estranhamente a cidade Roma como fundo só sobressai pelas paisagens urbanas, não se notando muito mais influência para além disso.

Depois de ter começado este texto de um modo pouco simpático, acabo elogiando aquilo que me parece ser positivo no filme – e que até é muito.
Em "Para Roma com Amor", o ambiente urbano é fantástico, ou não fosse um filme que mostra Roma, - a cidade eterna - ainda que pudesse mostrar muito, muito mais. As personagens, e seus diálogos e iterações (com boas performances dos actores), são divertidos, bem ao jeito particular e desconcertante de Woody Allen. Os salpicos de surrealismo dão especial interesse ao filme, tal como as cenas caricatas e improváveis, repletas de crítica social e um sarcasmo, por vezes irónico, que tendem a levar-nos à reflexão.
Em resumo, aconselho a  ver o filme. É bom, divertido e complexo, mas, como Woody Allen já nos habituou a melhor, parece que fica a faltar algo.
Se algum dia Woody Allen fizer um filme em Lisboa, espero que seja mais parecido com o que fez em Paris do que com o de Roma - o que é injusto para as cidades, pois são incomportáveis, mas igualmente importantes.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Efeito Borboleta - O Filme


Ao pegar no DVD “Efeito Borboleta” – confesso – preparava-me para o ver já com algumas ideias pré-concebidas em mente. Contava que o filme tratasse algum tema relacionado com  teorias da conspiração, ou então contasse a história de um qualquer pequeno evento, insignificante, que pudesse causar no final do filme um grande e imprevisível acontecimento, contando especialmente que isso fosse uma grande catástrofe. Espera por uma história de traços ficcionais mas que traduzisse uma realidade credível e possível de acontecer na nossa realidade, ainda que pudesse ser "hollywoodescamente catastrófica". Ou seja, esperava que fosse uma demonstração, em grande escala, de um emaranhado de personagens e grandes eventos que envolvessem, de algum modo, o coletivo e a própria humanidade. Mas não se passsou nada disso.

O filme começa por citar um chavão e citação das teorias de Edward Lorenz, que, relacionando-as com a Teoria do Caos, alerta para que:  pequenas mudanças nas variáveis iniciais de sistemas complexos podem resultar em grandes efeitos de grande escala. No entanto, há que lembrar que as teorias de Lorenz eram de cariz climático, sendo a conhecida citação das asas da hipotética borboleta, que provocariam uma tempestade do outro lado do planeta, uma metáfora climática.
Voltando ao filme. Em o “Efeito Borboleta” a teoria do caos é adaptada à vida de um jovem, interpretado por Ashton Kutcher – provavelmente a sua melhor performance no cinema até hoje. O protagonista tem a capacidade de, através de inexplicáveis poderes, modificar acontecimentos e atos que teve no passado, podendo mudar assim o seu presente, no entanto sem controlar todas as consequência efeitos desencadeados por essas pequenas mudanças do passado. Não revelarei mais, mas digo ainda que o filme é rápido e violentamente emocionalmente, surpreendente, com cenas que quase chegam a assustar pela tensão que induzem, e empolgante até um final imprevisível.
Apesar deste filme ser uma tentativa demonstrativa muito parcial e particular das ideias subjacentes à teoria do caos, é um bom filme para exercícios de autorreflexão, que demonstram como atos simples podem condicionar toda uma vida, ou vidas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Linhas de Wellington – As linhas de vida cruzadas de uma sociedade em fuga


Sempre que um filme português, sobre Portugal ou feito por portugueses, se destaca, de algum modo, tento aborda-lo aqui no blogue. Muitos me escaparam com certeza, mas “As Linhas de Wellington” não podia deixar de por cá passar.
No primeiro impacto, no filme, impressiona o rol de atores e atrizes - verdadeiramente impressionante. Conseguiram juntar: Jonh Malkovich, Catherine Deneuve, Michel Piccoli, Isabelle Huppert, Marisa Paredes, Melvil Poupaud, Chiara Mastroianni, Vincent Perez, e muitos outros intérpretes estrangeiros. Do lado dos portugueses são de destacar: Nuno Lopes, Adriano Luz, Soraia Chaves. Tantos nomes sonantes, de tantas nacionalidades, que deve ter sido difícil reunirem todos eles. Provavelmente valeu nesse admirável feito o prestígio de quem pensou inicialmente no filme, mas que não teve tempo de o ver nascer antes de morrer – Raoul Ruiz morreu em 2011, tendo sido a sua esposa, Valeria Sarmiento, auxiliada por Paulo Branco, a realizar o filme. Apesar de algumas grandes performances, nem todas são assim tão boas, especialmente as de alguns atores que, apesar de contínuos desempenhos fracos, continuam a ter papeis aqui e ali. Mas Escolhendo o desempenho que mais surpreende pela positiva: parece que o filme foi feito a pensar em Victoria Guerra, ou então a jovem atriz é realmente muito talentosa.
Passando ao enredo. O filme retrata a caminhada das gentes do centro de Portugal e dos exércitos Luso-Ingleses desde a Batalha do Buçaco até à segurança das Linhas de Torres Vedras, desenhadas e pensadas por Wellington – o comandante das tropas que defendiam Portugal, e que mais tarde derrotaria Napoleão em Waterloo. Apesar na vitória luso-inglesa no Buçaco, civis e militares vêm-se obrigados à fuga, descendo o mais rápido que podem rumo a sul, fugindo do colossal exército do Marechal Massena - comandante da terceira invasão francesa, que tinha como objetivo controlar de vez Portugal. Essa caminhada forçada é descrita e recriada através da visão dos seus vários participantes, soldados e toda una sociedade que seguia em fuga. São cruzadas histórias de vida, relatados os dramas e dificuldades de quem viveu e foi sujeito àquele negro período da nossa história. Estas Linhas de Wellington poder-se-iam chamar as “Linhas de vida dos Fugitivos de Massena”. A ação do filme é lenta, tal como aquela longa marcha de fuga, em tempos que a tração animal era o mais veloz dos meios de transporte terrestres. O desenrolar dos acontecimentos é polvilhado de episódios de forte carga emocional e outros de forte dimensão poética.
Tirando um ou outro apontamento não muito conseguido no ambiente e cenário de recriação, um ou outro mau desempenho de um ou dois atores, e também alguns diálogos que parecem desajustados da mentalidade e cultura dos primeiros anos do século XIX português, estamos perante um bom filme! Recomendável de ver, especialmente para os Portugueses, sendo um bom modo de ver cinema de qualidade, feito cá, e de aprender algo sobre e com a nossa história.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"A Vida de Brian (Life of Brian)" - História de um filme Irreverente

A Vida de Brian” é a segunda longa-metragem de cinema dos Monty Python. Depois de sucessos que abalaram e mudaram para sempre o humor, com a série Flying Circus exibida na BBC entre 1969 e 1974 e filme “Monty Python e a Busca pelo Cálice Sagrado” de 1974, os Monty Python arriscaram em cinemas de humor como nunca se tinha visto. Em 1979 ousaram levar a sua irreverência humorística mais uma vez ao cinema, e dessa vez com uma sátira refinada, ainda que tendencialmente absurda e até parva, sobre temas religiosos! Não é que não o tivessem já feito por diversas vezes, nos seus muitos sketchs, mas em “A Vida de Brian” essa seria a razão de ser de todo o filme. Ainda se especula o que os terá levado a entrar em tal arriscada aventura. Há quem diga que a ideia surgiu por acaso, fruto de um desabafo de Eric Idle e Terry Gilliam, que, depois de infindáveis pressões dos Media para que se soubesse qual seria o seu próximo filme, disseram um dos primeiros nomes que lhes veio à cabeça: “Jesus Cristo – A Busca pela Glória (ou, O Deseja de Glória)”. Estranhamente ou não, em 1978, todo o grupo decide fazer umas férias de trabalho nos Barbados, nas caraíbas, e de lá surge a ideia final para um segundo filmes, com Jesus como tema principal.
Excerto de cena polémica do filme, com crucificados cantando

A EMI, que tinha assumido o financiamento do filme quando todas as outras grandes companhias o tinham recusado, depois de ver o guião desistiu também da ideia. O filme era demasiado vanguardista, ousado e arriscado! Por isso, reconhecendo o valor das ideias dos Monty Python, George Harryson – ex-beatle – mobilizou a comunidade artística britânica, formou uma nova produtora – “Hand-Made Films”, e conseguiu assegurar os 4 milhões de dólares necessários para que o filme se fizesse. Foi um exemplo de mobilização e voluntariado, sem precedentes, entre os artistas da época, por um projeto polémico, criativo e inovador.
A estreia do filme caiu como uma bomba! As polémicas foram imensas. Em muitas locais foi apelidado de blasfemo. Deu origem e infindáveis debates e discussões, o que trouxe ainda mais notoriedade à obra. Os Monty Python envolveram.se nos debates e tentaram defender-se das acusações públicas de blasfémia por parte de algumas comunidades e instituições religiosas. Os Python defendiam que a sátira era para com todas as pessoas e acontecimentos que se criaram e formaram em torno da vida de Jesus, e não para com próprio Jesus, seus princípios e filosofia. Para os Python, o filme, acima de tudo, servia para criticar o fanatismo e as visões afuniladas. O filme serviria, através do humor, para “abrir mentes” e defender a liberdade religiosa e de opinião, com respeito pelas liberdades filosóficas e religiosas de todos.
Hoje, “A Vida de Brian” é considerado uma das melhores comédias de sempre, um marco do cinema que contribuiu para o debate sobre a liberdade de crença – seja ela qual for – e do próprio humor. O Filme destacou-se também pelo movimento voluntário de artistas, decididos a contribuir para um projeto artístico e intelectual que acreditavam ser importante e merecedor de ser visto e apreciado por todos. Por fim, é também um hino ao otimismo e de como a atitude positiva perante a vida pode ajudar em qualquer situação!

Fontes:
  • "Os Monty Python - Autobiografio pelos Monty Python". Oficina do Livro. 2007
  • Documentário: "Monty Python: Almost the truth (Lawyer's Cut)"

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Hard Candy - Drama Psicológico Sexual Distorcido


Hard Candy é um daqueles filmes que marcam! Primeiro, no filme, apesar de ser desempenhado por um rol de 5 personagens, praticamente toda a ação é encarnada apenas pelas duas personagens principais. São elas que dão toda a alma (e corpo) ao filme, é da interpretação superior dos dois atores que este filme, com um enredo originalmente bem desenhado, se constrói. O ambiente, tal como o número de personagens verdadeiramente ativas, é bastante restritivo, pois o filme desenrola-se, praticamente todo, numa luxuosa casa de arquitetura contemporânea, que se permite a uma fotografia própria com cenas visualmente muito interessantes.
Este é um filme de enganos, de reviravoltas e de sequências de cenas surpreendentes. Trata-se o tema da pedofilia, com as duas personagens a criarem um drama psicológico muito intenso, onde transpiram de tensão, e nós com elas.
Ellen Page demonstra, mais uma vez, ser uma incrivelmente talentosa atriz, apesar da idade. Incrível como são tantos os filmes onde as suas interpretações se destacam, sendo neste a sua performance levada ao auge do bom. Parece até que a história foi feita propositadamente a pensar nela, ou simplesmente engana-nos por ser uma atriz tão talentosa.
Apesar de tudo, Hard Candy, é um filme intenso, emotivo e capaz de nos prender, um doce cinematográfico com amargos agridoces psicológicos, de humor negro e expiatório, demonstrando o pior e o melhor da condição humana.

sábado, 28 de julho de 2012

Filme: Shutter Island


Martin Scorsese, em mais um filme onde dá o protagonismo a Di Caprio, surpreende-nos com a tensão, quase terror, predominantemente – que é para não dizer completamente – psicológica de Shutter Island. Este tipo de filme não é muito comum, e menos ainda para o diretor em causam, especialmente tendo em conta a obra anterior. Assistir a Shutter Island é entrar num enredo de reviravoltas surpreendentes. Mas desengane-se quem pense que se trata de um filme de ação dos mais típicos e de puro entretenimento visual. A ação desta obra de Scorsese é intensa e cativante pela curiosidade que desperta, pelo desconhecido e pelas emoções e sensações que provoca, independentemente de cenas altamente produzidas visualmente. Parece-me difícil de catalogar o filme, podendo dizer-se que é um filme de ação, drama, terror, policial, desde que a cada uma destas possíveis classificações adicionarmos a palavra “psicológico”.
A trama, ao jeito policial, vai-se adensando com o decorrer do filme, o “suspense” é a regra. O final é surpreendente, apesar de várias pistas espalhadas ao longo do filme que o pudessem prever. Essas informações, inicialmente incompreensíveis, podem deixar-nos a pensar no final - a mim pelo menos deixou. Para além de uma história bem original, o modo como nos é apresentada permite diversidade nas interpretações. Muitos poderão não gostar de algumas “pontas soltas” mas, a meu ver, isso acrescenta e torna o filme mais rico, dado um papel mais ativo e interpretativo a quem vê o filme, isto apesar de estar longe de ser um filme é que a sua compreensão dependa totalmente da imaginação do espetador. 
Algumas reflexões então sobre a história propriamente dita: Afinal o que é real?, até que ponto podemos confiar no que consideramos ser real, ou que é construído?
Di Caprio excede-se na excelente interpretação, mesmo em cenas mais intensamente duras (psicologicamente). Todos os atores revelam suas qualidades, respondendo com as emoções e reações que se esperam para os eventos aos quais são sujeitos na trama. A fotografia está muito bem conseguida. A Ilha é verdadeiramente sinistra, ora calma e aprazível.
Recomendo o filme, mas recomenda também que se preparem para cenas mais pesadas, com alguma violência física e psicológica.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Filme: Bamboozled

Guardei este filme durante muito tempo na prateleira antes de o ver, cerca de 2 anos para ser exacto. Guardei por saber que se tratava de uma polémica e profunda obra de Spike Lee. Neste filme, de comédia burlesca, comédia negra e drama, faz-se também intervenção racial - não se esperaria outra coisa num filme de Spike Lee.
O filme em causa parece desarranjado. O modo como foi filmado e produzido faz lembrar o género documental ou reportagem, mas depois a velocidade das cenas tendem a fazer salientar a comicidade das imagens em movimento.
As personagens mudam ao longo do filme, de sábios passam a tolos, de avisados a desprevenidos, e vice-versa, numa manipulada inconsistência. Sim, é mesmo um filme estranho!
Diria que é um bom filme, apesar (ou por ser, para algumas opiniões), estranho. Mesmo a própria moral da história - pois aqui parece-me evidente que há uma deliberada mensagem moralizante associada ao filme - é destruturada. Por vezes as prestações dos actores parecem medíocres, mas tal pode ter sido também manipulação com vista ao burlesco, pois certas cenas são de excelente interpretação.
Toda a estranheza - e usei esta palavra e suas derivações várias vezes - do filme, a minha opinião, tem um grande objectivo de fundo: desmontar preconceitos!, desmontar que algo pré-construído ao nível dos valores e juízos pode ser um grande erro!  Não são só preconceitos raciais sobre Afro-Americanos que o filme aborda, mas todo o tipo de preconceitos, em ambos os sentidos, e até outros sociais que não dependem de questões raciais. Fica a sugestão deste estranho filme, algo a ver para reflectir!

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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