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domingo, 28 de julho de 2019

Aprender sobre marxismo com o filme: O Jovem Karl Marx

O Jovem Karl Marx é um daqueles filmes que toca no género documental. Embora com elementos romanceados, para criar dinâmicas na narrativa que garantam o entretenimento dos espetadores, tem muito mais que isso. As personagens desempenham muito bem os seus papeis, no sentido em que conseguem entrar na complexidade das relações humanas, que vão ocorrendo em múltiplas línguas. Marx e Engels são bem encarnados, embora de forma a que nos mereçam uma simpatia que pode estar amplificada. Mesmo assim, o seu idealismo está patente, não no idealismo filosófico do termo, mas como pessoas que seguem ideais de forma apaixonada, apesar de as querem tornar científicas, enquanto arriscam múltiplas aventuras físicas e intelectuais. 

Fonte da imagem: https://filmspot.pt/filme/le-jeune-karl-marx-400020/

Ensinar a doutrina marxista não é fácil. Tenho passado por essa experiência sempre que alguém me pede ajuda para os exames nacionais de História A de 12.º Ano. Compreender o marxismo é uma daquelas coisas essenciais para compreender a história do século XX e quem sabe dos seculos seguintes também. Isto a propósito do filme, porque aí se explicam as relações tumultuosas de Marx com os restantes socialistas, a quem chamava utópicos. É um facto curioso, pois tantas pessoas criticam hoje o comunismo por ser solidamente utópico. No entanto a dialética materialista ou socialismo cientifico desenvolvido por Marx continuam a ser imensamente importantes. São incontornáveis, pois temos de compreender os contributos de Marx para a sociologia, economia e ciência política. Novas formas de marxismo continuam a ser desenvolvidas, e mesmo os críticos têm inevitavelmente de o citar para ir além dele, enquanto o tenta refutar. 

Em O Jovem Karl Marx assistimos ao processo de construção do pensamento marxista, que foi o primeiro a dizer que o modo como os indivíduos vêm a sociedade depende da sua posição histórica e social. Parece obvio, mas na altura não era. Vemos também as questões da exploração dos operários, no período anterior às revoluções que se iniciaram em 1848 e que iriam alimentar nacionalismos, lutas por igualdade e liberdade pelo mundo fora nas décadas seguintes. Esse período seria conhecido como a primavera dos povos. Embora no filme me pareça que a importância do manifesto do partido comunista seja exageradamente associada às revoluções de 1848. Mas isso ajuda a perceber a importância dos novos movimentos socialistas inspirados em Marx, que iam além dos idealismos dos socialismos ditos utópicos, porque lhes faltava uma filosofia de base sólida e soluções para o futuro. Marx não se contentava em identificar as injustiças da sua época. 

A filosofia marxista provou ser tão sólida que ainda influencia o mundo académico e político, enquanto que os outros socialismos, à exceção da vertente democrática, converteram-se em curiosidades excêntricas, embora alguns tentem ser reinventados – caso do anarquismo em algumas formas de democracia direta e deliberativa  A personagem de Marx no filme vive entre constantes conflitos com os restantes pensadores e a busca pelo conhecimento, ou não defendesse uma solução revolucionária, inevitavelmente violenta, no processo da luta de classes pela apropriação dos meios de produção, que era de onde vinha o poder político e também todas as injustiças de classe que queria derrubar. Marx vive obcecado pelo capital enquanto objeto concetual de trabalho, enquanto tem dificuldade em o reunir para sobreviver com a sua família. Não fosse Engels, na sua situação social e económica paradoxal, dificilmente Marx se tinha transformado na importância que hoje tem.

Penso que o filme permite introduzir todas estas coisas, através de bons desempenhos dos autores, cuidado na apresentação dos conteúdos que podem ser complexos, mas com ritmo e ação num contexto de época credível.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Introdução ao Planeamento Colaborativo

O planeamento colaborativo não é uma solução de planeamento pronta a aplicar. Digamos que são objetivos orientadores, e que existem então muitas metodologias nele inspiradas que então são possíveis de aplicar. Podemos dizer que o planeamento colaborativo se insere numa intenção e vontade de criar sistemas de planeamento mais inclusivos em que as pessoas e instituições podem participar e gerar em conjunto soluções geradoras de consenso ou então que atendam ao máximo a todas as complexidades e diversidade das atuais sociedades humanas. No fundo é uma espécie de demanda, pois considera-se que os resultados são melhores e mais justos se aplicados aos processos de planeamento. Há aqui algo de ideológico mas também de racional e direcionado para objetivos concretos e mensuráveis.


A colheita - Bruegel


Filosoficamente, podemos dizer que se trata de um conjunto de metodologias, relacionadas com a construção social estruturalista avançada por Anthony Giddens, em que as comunidades constroem e adaptam as suas próprias estruturas sociais e com isso as estruturas de poder. Mas também com a abordagem da ação/crítica comunicativa de Jurgen Habermas, em que o modo de comunicar permite mudar a distribuição e mobilização do poder, o modo de fazer e organizar, criando novas realidades.

Então, de um modo muito simplificado, pegando no livro de Patsy Healy – Collaborative Planning”, podemos decalcar alguns dos requisitos para que esses sistemas metodológicos possam ser aplicados.
Esses sistemas de planeamento devem:
- Reconhecer a grande variedade de preocupações e exigências das pessoas e instituições, inerentes a diversidade dentro das atuais sociedades humanas;
- Reconhecer que muitos dos aspetos da governação das sociedades ocorrem foram dos sistemas formais de poder e administração;
- Favorecer a oportunidade e intervenção informal nos sistemas de governação local, regional e nacional;
- Promover a inclusão de todos os membros das comunidades políticas;
- Ser constantes e continuados, abertos a múltiplas formas de avalização e capazes de fornecer informação e respostas às questões dos cidadãos e instituições.
Esses sistemas de planeamento devem garantir recursos para:
- Que todos os membros das comunidades políticas tenham mínimos dignos de qualidade de vida;
- Que todos possam exercer ativamente a sua cidadania;
- Superar as barreiras de participação de alguns cidadãos e instituições, de acordo com as suas particularidades;
- Investimentos dos pequenos e grandes projetos definidos pelas comunidades;
- Redirecionar os efeitos negativos dos que são afetados por determinadas iniciativas políticas;
- Garantir que a informação prestada é de boa qualidade e está acessível a todos os membros das comunidades políticas. 

Nos sistemas de planeamento colaborativo é necessário implementar uma abordagem argumentativa durante os processos, garantindo:
- Que todas as preocupações e reivindicações de todos os cidadãos e instituições são tidas em atenção, encorajando a partilha de preocupações e compreensão entre todos, em vez de uma competição entre adversários;
- Todas as decisões tomadas pelos governantes têm de ser justificadas perante todos os membros das comunidades políticas;
- Todos os governantes devem dar boas razões para as decisões que tomam, considerando os diferentes modos de pensar, argumentar e compreender dos membros da comunidade política. 

Esta é apenas uma breve introdução aos requisitos das metodologias do planeamento colaborativo. Para saber mais é recomendável ler a obra aqui utilizada como referência, tal como algumas publicações mais atuais que aqui irei referi no futuro. 

Referências bibliográficas:
Healey, P. (1997). Collaborative planning: Shaping places in fragmented societies. Macmillan International Higher Education.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Aprender sobre colaboração através do jogo do dilema do prisioneiro

A área de teoria de jogos, que tem muito mais que ver com matemática do que com a dimensão lúdica ou social dos jogos, tem sido nas últimas décadas uma área de estudos e investigação bastante ativa. Um dos casos de estudo recorrentes prende-se com o jogo do dilema do prisioneiro (JDP), especialmente na sua vertente interativa ou repetida, que prevê múltiplas jogadas seguidas. Através destes exemplos de estudos têm sido retiradas várias conclusões sobre o comportamento humano perante a tomada de decisão e os processos de colaboração. 

Prisoners Exercising - Van Gogh
Fonte:  https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Vincent_Willem_van_Gogh_037.jpg

No fundo o JDP consiste, de um modo simplificado, num jogo de escolhas, em que dois prisioneiros são submetidos a escolhas de denuncia ou de colaboração com os demais prisioneiros para garantir que ninguém denuncia outrem. Pois se ninguém denunciar todos cumprem uma pena mais pequena. Mas se alguém denunciar isoladamente outro esse prisoneiro ganha o máximo benefício. Por outro lado, se todos denunciarem todos maximizam perdas, pois todos sofrem a pena máxima. Na forma interativa ou repetida podem ser estabelecidos padrões, havendo uma tendência de melhorar os benefícios da cooperação entre prisioneiros no longo prazo e em jogadas repetidas (Axelrod, 1980). No entanto, nada de isto invalida os conhecidos equilíbrios de Nash, que de uma forma simplificada se pode resumir como aquelas situações em que os jogadores deixam de querer alterar as suas estratégias por ficarem satisfeitos com os resultados obtidos (Vives, 1990).

Estas investigações continuam a ser desenvolvidas. A título de exemplo aqui ficam algumas constatações retiradas de diversos artigos científicos recentes:
• Dal Bo (2005) considera que a cooperação aumenta na medida em que a probabilidade de continuação do jogo aumenta, e que a cooperação é maior em jogos de duração indefinida que nos jogos de duração finita;
• Duffy & Ochs (2009) comprovaram que a cooperação no JDP é maior quando os pares se conhecem e passaram por vários jogos.
• Dal Bó & Fréchette (2011) geraram evidências de que a experiência no jogo desempenha um papel importante no surgimento de cooperação em jogos de DP. Descobriram que com experiência, o efeito da perda total tem um papel importante no fomentar da cooperação, da confiança.
• Lugovskyy et al. (2017) encontraram evidência de menor cooperação na última ronda do jogo. 

Estes são apenas alguns exemplos, entre muitos artigos recentes produzidos, sobre as leituras dos comportamentos dos jogadores em casos e variantes do dilema do prisioneiro (DP). São exemplos de como os jogos, embora aqui estejamos perante um problema matemático e não sobre um jogo lúdico, podem ser utilizados para fins sérios que extravasam os jogos e com os quais podemos estabelecer múltiplos paralelismos. Podemos aprender muito com isso.

Conseguimos identificar aqui algumas condições que podem contribuir para o estímulo dos processos de colaboração. A proximidade, conhecimento e interação entre as pessoas, o convívio em atividades mútuas, ajudam a gerar confiança que leva à cooperação. Salienta-se também a importância da demonstração e consciência dos efeitos de perdas globais da não cooperação ao longo do tempo. A continuidade dos processos de interação é uma necessidade para o estabelecimento da cooperação, de preferências com as mesmas pessoas.  

Tal como noutras abordagens, a cooperação e colaboração não ocorrem por milagre. Desenvolvem-se porque trazem benefícios coletivos e porque existem condições sociais para que isso possa acontecer.

Referências bibliográficas:
Axelrod, R. (1980). Effective choice in the prisoner's dilemma. Journal of conflict resolution, 24(1), 3-25.
Dal Bó, Pedro, 2005. Cooperation under the shadow of the future: experimental evidence from infinitely repeated games. Amer. Econ. Rev.95, 1591–1604.
Dal Bó, Pedro, Fréchette, Guillaume, 2011. The evolution of cooperation in infinitely repeated games: experimental evidence. Amer. Econ. Rev.101, 411–429.
Duffy, John, Ochs, Jack, 2009. Cooperative behavior and the frequency of social interaction. Games Econ. Behav.66, 785–812.
Lugovskyy, V., Puzzello, D., Sorensen, A., Walker, J., & Williams, A. (2017). An experimental study of finitely and infinitely repeated linear public goods games. Games and Economic Behavior, 102, 286-302.
Vives, X. (1990). Nash equilibrium with strategic complementarities. Journal of Mathematical Economics, 19(3), 305 321.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Pensar constantemente nos custos de oportunidade seria uma loucura?

O conceito de custo de oportunidade é algo essencial para qualquer análise económica, mas muito pouco comum nas nossas decisões do dia-a-dia. Sabemos que os modelos económicos têm dificuldades em simular todas a realidade, pois são simplificações da realidade para mais fácil definição e análise. Nessas simplificações é dificil replicar, entre outras coisas, a complexidade e imprevisibilidade do comportamento humano. Normalmente, os modelos económicos, ditos clássicos, consideram que os atores dos sistemas económico tomam as melhores opções, as mais racionais. Mas os economistas, munidos dos seus modelos, sabem que isto não é verdade. Eles, mais que ninguém, sabem das limitações dos seus modelos.

Christina’s World (1948) – Andrew Wyeth

Se adotássemos decisões sempre racionais, e munidos de todas as informações necessárias, teríamos de estar sempre a considerar os custos de oportunidade, de tudo o que fazemos. Teríamos de ter alternativas constantes para tudo e conhecer as possibilidades análogas ou outras possíveis de serem empreendidas. 

Os custos de oportunidade podem ser definidos como tudo aquilo que nos custa, ou perdemos, ao não investirmos ou direcionar os nossos recursos para outras atividades que seriam mais rentáveis. Ou seja, imaginem estar constantemente a analisar tudo o que fazem de modo a escolher aquilo que vos traria mais benefícios. E não se podem esquecer que nem todos os benefícios têm forçosamente de ser monetários. Seria desejável ter sempre este conhecimento na hora de decisão, mas seria altamente impraticável. Primeiro porque obrigava a massivas quantidades de informação e de cálculos. Gastaria imenso tempo. Depois porque nos obrigava a atribuir valor a tudo, incluindo coisas que não têm valor definido ou que podem ser imensamente subjetivas. Por exemplo, quanto vale observar uma paisagem?

Não desesperem, pois existem métodos e técnicas para considerar e contabilizar bens e atividades associadas a bens sem valor de mercado. Talvez seja um tema para um próximo texto.

Em resumo, fica dificil estarmos sempre a fazer análises dos custos de oportunidade de tudo o que fazemos. Mas é imensamente útil ter esta noção em mente, nem que seja para valorizar certas coisas que fazemos e que inicialmente até podemos nem valorizar na devida conta. Podemos não saber o valor exato, mas podemos ter a certeza que têm algum valor. O certo é que existe sempre, no mínimo, um valor de comparação. Algo como eu estar a escrever este texto pelo simples prazer de o fazer, em vez de estar a escrever outra coisa que eventualmente me pudesse dar um rendimento. E quem fala em escrever poderia falar em muitas outras atividades alternativas consumidoras do meu tempo. Já sabem, o tempo habitualmente é dinheiro, mas de valor incerto e variável. 

Referências de apoio para saber mais sobre custos de oportunidade:
Buchanan, J. M. (1991). Opportunity cost. In The world of economics (pp. 520-525). Palgrave Macmillan, London.
Frederick, S., Novemsky, N., Wang, J., Dhar, R., & Nowlis, S. (2009). Opportunity cost neglect. Journal of Consumer Research, 36(4), 553-561.
Kurzban, R., Duckworth, A., Kable, J. W., & Myers, J. (2013). An opportunity cost model of subjective effort and task performance. Behavioral and Brain Sciences, 36(6), 661-679.
Palmer, S., & Raftery, J. (1999). Opportunity cost. Bmj, 318(7197), 1551-1552.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Algumas definições sobre o que é um Jogo

A área de estudos dos jogos é neste momento um campo de investigação académica muito ativo. O modo como se criam, desenvolvem e aplicam jogos tem muito para ser estudado, mais ainda se quisermos analisar o que está para além dos jogos, com tudo aquilo que implica a sua utilização social e individual. O meta-jogo, pode muito bem ser considerado uma nova área da filosofia. Muito provavelmente voltarei a este tema, mas para já dedico este texto ao compêndio de algumas definições do que é um jogo, com base na obra de Katie Salen e Eric Zimmerman.



Os tópicos que se apresentam de seguida são transcrições e traduções do trabalho dos autores anteriormente referidos, que por sua vez citam os principais pensadores que se dedicaram a definir os jogos ou a referir características dos jogos. Ficam de seguida alguns desses excertos:
  • David Parlett distingue entre jogos formais e informais: “Um jogo informal é apenas um jogar indireto, algo que as crianças fazem. Um jogo formal tem uma estrutura definida por meios e fins.”
  • Clark C. Abt: “Um jogo é um contexto com regras em que adversários tentam ganhar objetivos.”
  • Johann Huizinga, que não distingue o jogar do brincar, diz mais ou menos isto sobre os jogos: “Brincar/jogar é uma atividade livre situando-se fora da vida comum por não ser séria, mas ao mesmo tempo envolve o jogar profundamente e intensamente.”
  • Roger Caillois descreve que jogar é: “Livre, um ato à parte, incerto, não produtivo, governado por regras, e uma atividade “faz de conta”.”
  • Bernard Suits: “jogar um jogo é o esforço voluntário para ultrapassar um obstáculo desnecessário.”
  • Chris Crawford identifica quatro qualidades nos jogos: “Representação, interação, conflito, segurança. 
  • Greg Costikyan: “Um jogo é uma forma de arte em que os participantes tomam decisões de modo a gerir recursos através dos elementos dos jogos para perseguir um objetivo.”
  • Elliot Avedon & Brian Sutton-Smith: “Os jogos são um exercício de sistemas de controlo voluntário, em que existe concorrência entre poderes, confinados por regras de modo a produzir um resultado desequilibrado.”

Por fim importa apresentar a definição dos próprios autores, de Katie Salen e Eric Zimmerman, que resulta de uma análise crítica das anteriores definições e dos seus próprios contributo: Um jogo é um sistema em que os jogadores se envolvem num conflito artificial, definido por regras, que permitem um resultado quantificável.”

O livro em que se baseiam estas informações “The Rules Of Play: Game Design Fundamentals” é um livro profundo, repleto de informações, com a informação devidamente sistematizada numa abordagem académica, mas que pode ser um precioso auxiliar para a prática de design de jogos.

Referências bibliográficas:

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Lipovetsky em Coimbra: reflexões sobre hipermodernidade, hiperindividualismo e hiperconsumismo

Quem tem estado atento a alguns textos que vou escrevendo aqui para o blogue já percebeu que Gilles Lipovetsky é um daqueles autores que vou regularmente citando. Lipovetsky é um dos filósofos e sociólogos mais curiosos do nosso tempo, dos tempos hipermodernos como o próprio apelida. Por isso não podia desperdiçar a oportunidade de o ouvir ao vivo quando na passada sexta-feira, dia 18 de janeiro este em Coimbra numa palestra em que falou de individualismo e consumismo. Não contava tirar muitas notas, uma vez que já li várias obras do autor. Mas foi impossível não o fazer, o que me levou a ter de estar sempre a escrevinhar no telemóvel para aproveitar algumas declarações que me pareceram relevantes. São dessas anotações que surge este texto, pois pareceu-me valer a pena deixar aqui o registo. 

Gilles Lipovetsky na conferência: "La société d'hyperconsommation: sommes-nous plus heureux?"

Lipovetsky descreve-nos como consumidores. Para ele vivemos na hipermodernidade e não na pós-modernidade como defendem outros filósofos e pensadores. Defende que a modernidade não terminou, que apenas se intensificou. Segundo ele somos hipermodernos porque amplificamos o que considera essencial do modernismo: o sistema democrático liberal, o individualismo e o consumismo. Na conferencia não referiu as mudanças no peso das grandes narrativas políticas e ideológicas que quebram esse aspeto da modernidade, algo que invoca na sua obra literária. Teria sido uma boa questão para lhe colocar, mas não me lembrei na altura. Ou seja, hoje defendemos sistemas democráticos mais profundos, garantias de todas as liberdades, somos muito mais individualistas e consumimos a uma escala sem precedentes. 

E todas estas mudanças são bem recentes, tendo ocorrido nos últimos 30 anos nas sociedades ditas ocidentais e ricas, do norte global como alguns gostam de chamar. Mas a sociedade do consumo é mais antiga, identificável com o pós 2.ª Guerra Mundial. A diferença consiste na escala, forma e tipo de consumo, que anteriormente era marcadamente coletivo. O automóvel era para a família, tal como as comodidades dos lares, eletrodomésticos e televisão. Não se tratava de um consumo individualizado e personalizado como ocorre hoje. 

O consumo afirma-se como uma forma de afirmação e contribuição para o individualismo crescente. Os indivíduos escapam hoje ao controlo de classe. Já não existe uma cultura de classe que legitima comportamentos a grupos de pertença, nem um controlo coletivo sobre as práticas de um consumo que se foi desregularizando . Nós é que escolhemos o que queremos ser e com quem nos identificamos. Desapareceu a hierarquia do gosto. No entanto não somos mais felizes. Lipovetsky afirmou que a felicidade através do consumo ocorre naturalmente quando nos elevamos da pobreza, mas que a partir de um determinado limiar a proporção do que se consome fica muito aquém da felicidade que esse consumo traz. Esse é um dos sentimentos paradoxais da hipermodernidade. Apesar de muitos de nós conseguirem escolher de acordo com as nossas preferências, isso não garante a felicidade. Ficamos sem saber o que nos impede de sermos felizes e isso pode ser angustiante. 

O consumo tornou-se emocional, mas ao mesmo tempo informado, e ingenuamente carregado de consciência ambiental, embora não seja isso que nos impeça de consumir cada vez mais. As emoções, no entanto, não nos incitam a compras de impulso. Cada vez mais comparamos e procuramos o melhor preço para o melhor produto. A economia do consumo tende para incentivar os consumidores a colecionarem experiências, a elevarem a um valor supremo a distração. Escolhemos com critério apenas para termos dinheiro para consumir mais e diferente. 

No entanto Lipovestky tem uma visão positiva do consumo. Acredita que tem um lado benéfico, de distrair de outras intenções e projetos políticos que levaram aos maiores dramas da humanidade. Considera ser incompatível com o totalitarismo e com as restrições da liberdade. As grandes narrativas de um sacrifício no presente para garantir um paraíso religioso ou uma utopia política no futuro tendem a ser controlados pelo hedonismo generalizado, e atraem apenas minorias da sociedade. Queremos o prazer agora e não depois. Mas isso não imuniza dos problemas políticos como bem sabemos. Existe uma deceção com os políticos, mas não com as marcas e o consumo. Por isso, as soluções políticas que queiram defender a possibilidade de consumir cada vez mais terão forte apoio popular, mesmo que a consciência ambiental seja universal, porque no dia-a-dia simplesmente consumimos. 

Para Lipovetsky a solução, de manter o nível de consumo e de garantir a sustentabilidade ambiental passa pela economia circular e partilhada. Só assim poderemos manter o nível de consumo do qual dependemos sem tendermos para a autodestruição. Passa também por dar primazia à educação e cultura, para que possamos consumir algo imaterial que nos dá felicidade e realização. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pagamos com mérito as desigualdades: um documentário de Alex Gabby

O preço do que é justo, no original “The Price of Fairness”, é um documentário de Alex Gabby que nos faz pensar sobre a justiça e igualdade. O documentário começa por relatar diversas experiências da sociologia e psicologia comportamental sobre situações de tomada de decisão, que implicam questões de distribuição e justiça. Uma dessas experiências consistia em formar pares com pessoas de desempenho diferente num jogo em que individualmente cada participante tenha recebido dinheiro virtual em função da sua capacidade para resolver desafios e problemas matemáticos.  Depois propunham ao par que distribuísse os rendimentos somados de ambos, associados à soma da prestação individual de cada um deles. Constatou-se que os indivíduos que tinham melhores resultados eram menos propensos à partilha desses rendimentos de forma igualitária, enquanto os detentores de resultados próximos da média, mesmo que acima dela, mais facilmente abdicavam da sua parte correspondente de forma a permitirem que se fizesse uma distribuição igualitária dos ganhos, mesmo abdicando de uma parte do seu contributo. Comprova-se que há uma noção de competitividade, associada à meritocracia, que legitima a desigualdade. Curiosamente, uma vez que o público da experiência eram alunos do ensino superior norueguês, os alunos de gestão e economia revelaram ser os mais egoístas.


No documentário somos levados a concluir que a meritocracia é uma farsa, uma impossibilidade pois a bagagem e contexto em que crescemos são claramente promotores da desigualdade. O sucesso depende fortemente das “heranças”, em todas as suas dimensões (patrimonial, genética e de contexto), mas também muito da sorte. Mesmo que as crianças tenham uma noção de justiça quase desde a nascença os contextos sociais e familiares impedem a meritocracia. Essas constatações são apresentadas com base noutra experiência realizada nos EUA por investigadoras de psicologia de desenvolvimento apresentada no documentário.

Surgem então imensas questões que nos fazem colocar em causa grande parte das estruturas sociais, da forma como se constroem (ou como as construímos). Podem os pobres faze escolhas diferentes das que assumiram? Existem regras diferentes para os ricos e poderosos, mesmo nas democracias? Apesar de tudo quem produz e legitima leis e as regras que regem as sociedades não estará a reforçar as mesmas estruturas e hierarquias desde sempre? Poderemos mudar o sistema mesmo que seja controlado por poderes antigos?

O documentário levanta imensas questões, fala de muitos casos. Começa com abordagens académicas, da sociologia e psicologia comportamental. Passa pela referência à psicologia do desenvolvimento moral e avança para as teorias de desenvolvimento económico e social. Refere-se a muitos exemplos de muitas regiões e países contrastantes. Revela casos de tentativas de inovação, de escândalos que abalaram o mundo. Fala do caso surpreendente da Costa Rica, onde o PIB não é digno de destaque internacional mas o índice de desenvolvimento humano é bastante grande, significando que qualidade de vida não tem de significar riqueza no sentido da acumulação massiva de capital. Apresenta-se o Partido Pirata na Islândia como alternativa ao sistema político que pretende implementar um novo modelo de justiça e de democracia participativa, num país que expulsou do poder a classe política dominante e decidiu coletivamente não assumir na sua dívida público produtos de especulação financeira.
Fica a introdução.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sabia que é naturalmente racista mas depende de si não ser?

No documentário “É Racista?” de 2015 exibido pela RTP3, com o título original de “The Truth About Racism”, da autoria de Paul Scott, descreve-se uma experiência social com 5 voluntários. São 5 pessoas residentes na Austrália, todos de origens éticas e raciais diferentes. De notar que irei usar aqui o termo racial não por haver mais do que uma raça humana, mas para ajudar a reforçar as diferenças físicas que aqui são importantes para compreender os conteúdos. O documentário, tem uma clara mensagem política que tenta desmontar e explicar o racismo, é inegável que tem essa intenção pelo que se deve referi de antemão. Mas não o faz através de uma análise histórica da humanidade, dos episódios mais polémicos. Foca-se, em alternativa, na neurociência, na psicologia comportamental e efeitos sociológicos das dinâmicas de grupos.


O documentário relata a forma como os voluntários são submetidos a várias experiências que, gradualmente, vão demonstrando que, mesmo os que não se consideram racistas – pois no grupo está um militante de um movimento político que defende a supremacia racial branca – tendem a adotar comportamentos claramente racistas de forma inconsciente. Numa das experiências, os vários participantes foram submetidos a uma dinâmica que consistia em reconhecer caras que iam sendo mudadas em painéis numerados. Percebeu-se que conseguiam identificar mais facilmente as mudanças dentro do seu intra-grupo étnico e racial, que nos restantes. Por exemplo: quando um asiático era substituído por outro asiático, os não asiáticos tinham dificuldade em reconhecer a substituição.

Afinal todos reconhecemos mais facilmente as diferenças de rostos dentro da nossa etnia? Parece que sim. Sendo válido para todos os grupos. Consoante estamos a analisar uma face, se for do nosso grupo étnico e racial, a maioria de nós fixa mais os olhos e outras partes mais distintivas e expressivas da face. Isto leva a uma incapacidade de perceber e ler as emoções e estados de espírito que transparecem através das expressões faciais. Noutro exercício também se demonstrou que, dentro do nosso intra-grupo étnico e racial, sabemos ler mais facilmente a rapidamente a passagem de um estado alegre para triste e irado pelas expressões faciais.

Numa outra experiência, apenas olhando para fotografias de faces que representavam a zona dos olhos e envolvente, e às quais se associavam palavras que representavam emoções positivas e negativas, os participantes tendiam a atribuir as emoções mais negativas às etnias e raças que não a sua. Há que relembrar que apenas um dos voluntários se assumia como racista.

Foram feitas experiências com crianças que demonstraram comportamentos semelhantes, numa quase sempre preferência por leituras positivas de situações dúbias quando o interveniente era caucasiano do que quando se tratava de um africano. Isto ocorria mesmo quando as situações se invertiam, favorecendo sempre os caucasianos. Seguiu-se uma escolha de bonecas com traços étnicos distintos. As crianças escolhiam as que se pareciam consigo, mas quando foi na altura de adjetivar as bonecas de “boa” e “bonita” escolhiam maioritariamente a caucasiana, mesmo que não fosse o seu grupo étnico e racial. Aqui denota-se, provavelmente, um peso dos valores sociais incutidos pela própria sociedade.

No documentário são reveladas mais experiências que seguem a mesma tendência. Conclui-se que tendemos a não conseguir ler faces diferentes das nossas, e assim a sermos puco competentes na comunicação corporal com indivíduos diferentes de nós. Tendemos a desconfiar e temer o que é diferente e á não compreensão, sendo difícil estabelecer empatia. A melhor maneira para remover estas tendências que geram intolerância e falta de empatia passa pelo fortalecimento do convívio, da interação com base em sentimentos positivos. Quantas mais pessoas um determinado individuo conhecer de outra etnia e origem racial, associadas a boas experiências, diferente melhor poderá com eles lidar e tratar com igualdade, sem preconceitos. Por vezes não é preciso forçar experiências agradáveis, basta a abertura para conhecer os outros, as suas histórias. É um ensinamento e uma cultura humana relevante para o seculo XXI. Nas sociedades multiculturais, onde as pessoas de várias etnias e que apresentem traços corporais diferentes convivam em clima de paz social, dificilmente se irá instalar um comportamento racista, pois só assim conseguimos contrariar o modo como processamos informação sobre os outros. Se não tivermos consciência destas tendências e não promovermos a integração racial como forma de cultural irão sempre pairar estes preconceitos, que são tanto biológicos como fruto das construções sociais. Temos opção. A nossa realidade não precisa de ser racista. Em súmula é isso que este documentário transmite.

Para saber mais sobre este documentário: 
https://www.sbs.com.au/guide/article/2017/01/31/truth-about-racism-there-scientific-cure


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Estamos prontos para implementar o planeamento colaborativo?

Se o planeamento assistido se relacionada com o contexto da pós-modernidade o planeamento colaborativo parece ter uma relação ainda maior com as mudanças sociais das últimas décadas, resultando da necessidade emergente de poder planear para o futuro num ambiente de crescente incerteza e complexidade, enquanto se tenta aprofundar os valores da liberdade e da democracia participativa. A incerteza dificulta fortemente o ato de planear, especialmente quando as mudanças são súbitas e cada indivíduo tende a atuar isoladamente e num contexto de liberdade que incentiva ao individualismo, em paralelo com o consumismo, num mundo globalizado. Essa é a realidade que os planeadores têm de enfrentar na atualidade.

Discutindo a divida comédia com Dante - Dai Dudu, Li Tiezi & Zhang Na

Segundo as visões filosóficas do pós-modernismo não existe conhecimento objetivo em forma alguma. Todo o conhecimento é assim relativo. A tendência será crescente na medida em que as sociedades se tornam cada vez mais plurais e fragmentadas. Jurgen Habermas, através da teoria da ação comunicativa, herdeira do pensamento da nova teoria crítica da escola de Frankfurt, refere que é possível, apesar de todas as diversidades e fragmentação, encontrar pontos comuns de cooperação entre diferentes grupos sociais. A crescente diversidade das sociedades contemporâneas obriga a que se procurem esses pontos de contacto passíveis de gerarem cooperação.

A cooperação, segundo Habermas, só pode ocorrer através da capacidade comunicativa racional, ou racionalidade comunicativa, garantindo-se: a verdade das proposições externas; direito e legitimidade de estabelecer relações entre indivíduos; compreensão da linguagem utilizada; interação livre de dominação e manipulação; interação livre de intenções estratégicas próprias dos atores envolvidos; garantia da igualdade argumentativa dos atores participantes nos processos; ausência de restrições à participação, e; que a única autoridade seja um bom argumento. A implementação destes princípios é de dificil concretização e não existem casos em que tenha sido tentada em larga escala, sendo um paradigma em competição com tantos outros, onde se destaca a democracia legalista e representativa que domina o espetro político. Na comunicação racional aplicada ao planeamento colaborativo, segundo a visão de Habermas, será necessário que os cidadãos participem em nome individual, sem que sejam representantes de outros ou de instituições, sendo a pertença e participação aberta a todos em igualdade de importância. Apesar dessa abertura importa garantir foco, assegurar que as dinâmicas colaborativas devem ser orientadas para a resolução de problemas concretos.

Estes princípios de abertura dos processos de planeamento conflituam com a noção de que os planeadores detêm uma formação em disciplinas que lhes dão acesso ao conhecimento científico e técnico privilegiado, superior a outras formas de conhecimento, de isso os preparar para a realização dos planos e de que mais ninguém poderá participar neles. Mas o conhecimento racional baseia-se em eventos passados, enquanto que os planeadores têm de projetar o futuro. Os modelos científicos são apenas simplificações da realidade. Existe um efeito inevitável da crença e da ideologia na escolha das diferentes teorias e metodologias de planeamento a aplicar aos casos concretos da realidade. Na prática, os planeadores enfrentam problemas ambíguos e mal definidos, onde a informação é incompleta sobre os contextos dos problemas e da panóplia de alternativas passíveis de aplicar para os resolver. Estão também condicionados pela dificuldade em reconhecerem os seus próprios valores, influências, interesses e alcance, mas também dos demais atores envolvidos nos processos de planeamento. Por fim, são restringidos pela escassez de recursos e conhecimentos.

Nas sociedades contemporâneas o poder não está igualmente distribuído. Os poderes instituídos, as organizações e estruturas sociais vão determinar quem fala mais, mais alto quem é escutado e com mais atenção. Devido a distorções de comunicação, os cidadãos podem ser facilmente enganados e excluídos dos seus direitos cívicos democráticos. Pode ocorrer a tendência para a despolitização e exclusão dos processos cívicos participativos por parte dos cidadãos. Os planeadores podem contribuir para estes efeitos de exclusão cívica, favorecendo e legitimando outros poderes.

Para que se possa implementar o planeamento colaborativo será necessário: cultivar uma rede de contactos e ligações comunitárias; ouvir atentamente; integrar nos processos de planeamento interesses menos organizados; educar os cidadãos, planeadores e as organizações comunitárias para a participação e trabalho em grupo; prestar e disponibilizar informações técnicas e políticas; encorajar a formação de grupos de pressão baseados na comunidade; encorajar revisões de projetos independentes e com base nas necessidades da comunidade local, e; antecipar a pressão política e social. Para além disto é necessário planear os próprios processos e dinâmicas de planeamento colaborativo. Será necessário identificar onde vão decorrer as discussões e quais os locais mais adequados para desenvolver os processos de produção colaborativa, tal como definir o estilo de comunicação, os assuntos a abordar e de como podem surgir as interações. Por fim, importa perceber como pode a comunidade chegar a acordo sobre o seu plano.

Estes novos processo de planeamento colaborativo podem recorrer a múltiplas formas de apresentação e técnicas de análise, adaptadas a cada contexto, realidade e comunidade, tentando almejar outros níveis mais eficazes e adaptados de comunicação e compreensão mutua, que envolvam todos. Pretende-se facilitar a discussão proveitosa, racional onde se formulam claramente os problemas e identificam os conflitos. Os interesses não devem ser fixos pois faz parte do processo interativo de aprendizagem mútua a possibilidade de mudar e alterar prioridades. Deste modo é possível desafiar ou apoiar o poder instituído de forma fundamentada. O objetivo é chegar a novos consensos que se espera serem suficientes para que os planos possam posteriormente ser implementados sem repulsas gerais. Mas, tal como ocorre no conceito de democracia participativa, há que ter a noção de que os cidadãos dificilmente estarão sempre disponíveis e interessados em participar em todos os assuntos da comunidade, o que tem gerado a noção de que os processos representativos são os modos mais realistas de planear.

Referências bibliográficas:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Namoro em Portugal durante a Ditadura do Estado Novo

Nos anos 50 Portugal vivia em ditadura de cariz conservador, em que os padrões morais eram assumidos diretamente pelas forças sociais dominantes e pelo próprio Estado, de mão dada com a Igreja Católica.

Para o estudo da melancolia em Portugal - Nikias Skapinakis

Sobre os relacionamentos amorosos caia um profundo peso moralista, que tentava asfixiar demonstrações públicas de carinho, mesmo entre os casais casados e moralmente enquadrados na doutrina católica vigente. Os namoros eram encenações que tendiam à encenação social e a uma certa dose de hipocrisia, própria das normas sociais vigentes. A homossexualidade nem sequer era considerada por ser um tabu.

As raparigas eram vistas como as principais culpadas dos atrevimentos dos rapazes, tal como demonstra do texto de 1958 de Maria Franco na revista Menina & Moça (M&M), uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina. Defendia-se que as raparigas deveriam ser as guardiãs da moral e dos bons costumes. Se demonstrassem esse tipo de comportamento e conduta, segundo os valores da época, poderiam então aceder ao topo do seu papel social: serem as donas de casa, defensoras da harmonia do lar. Alertavam-se as raparigas de que os rapazes gostavam de diversão, mas que só casavam com raparigas moralmente intactas. Ou seja, virgens e sem experiências relacionais. Isto colocava um peso enorme sobre os impulsos amorosos e criava uma poderosa da repressão da sexualidade, uma vez que era o próprio ditador, Oliveira Salazar, quem reservava e defendia publicamente para as mulheres o papel doméstico. Se as jovens mulheres não conseguissem casar seriam párias da sociedade ditatorial do Estado Novo.

Curioso é também o editorial do padre Gustava de Almeida, de 1964, escrito na mesma revista M&M, em que culpa as influências estrangeiras pela degradação da moral das jovens e das mulheres. Criticava o uso de calças e do ato de fumar. Argumentava contra os perigos da época: dos efeitos nefastos da influência de “camaradagens suspeitas”, “influência da maldita literatura francesa”, do “figurino francês” e do “ensino universitário”.

Assim, os encontros entre os jovens português da época eram sujeitos a uma apertada vigilância. O namoro era uma instituição rígida que servia para elevar as virtudes femininas definidas pelo conservadorismo da época. O namoro servia para casar. Acontecia à soleira da porta ou no interior da casa se a relação tivesse notória aprovação. A maior liberdade social dava-se nas classes sociais mais pobres, nos meios rurais e operários. Era nos grupos mais abastados em que o controlo se dava de forma mais apertada, pois estavam em causa questões económicas e de estatuto social. A aprovação parental para o casamento era muito forte nas classes médias e altas, enquanto que nas classes mais pobres podiam assistir-se a taxas de reprovação de 66% para as raparigas e de 73% nos rapazes.

Estas informações devem ser contextualizadas na época. Não esquecer da periferia de Portugal, longe das ideias progressistas do centro e norte da Europa. Os métodos contracetivos não estavam generalizados em Portugal e o peso de uma classe clerical moralmente dominante tinha enorme influência num país que se fechava ao mundo mais desenvolvido. A esmagadora maioria da população portuguesa vivia com escassos recursos e numa situação de quase analfabetismo e infoexclusão. Isto viria a mudar na década de 70, fortemente depois do 25 de abril de 1974, mas, ainda assim, muitas destas heranças ainda haveriam de persistir muitos anos na sociedade portuguesa, abertamente ou sob diversos disfarces.

Referências bibliográficas:
Almeida, Ana Nunes de (coord.) (2011), Os Nossos Dias.  In Mattoso, José (Dir.) História da Vida Privada em Portugal. Lisboa: Temas e Debates.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Planeamento Assistido (Advocative Planning): uma forma de democratizar o planeamento?

Há que começar por alertar que se utiliza o termo Planeamento Assistido como uma tradução do conceito de Advocative Planning, uma vez que a tradução direta literal poderia induzir em erro e apontar para conceitos e termos da área jurídica, tais como planeamento advogado ou advocatório.

Duplo retrato no tempo - Helen Lundeberg

A teoria do planeamento assistido associa-se ao trabalho de Paul Davidoff (1930-1984), que se diferenciou e distinguiu pela defesa da necessidade de uma visão mais política do exercício do planeamento. Tratava-se de uma abordagem contrastante e quase antagónica face à visão apolítica e burocrática do planeamento. Era uma tentativa de democratizar o exercício do planeamento, afastando-o das visões racionalistas sistémicas em que o planeamento era executado exclusivamente por especialistas, que, em teoria, podiam prever e modelar o funcionamento eficiente de cidades, regiões e países, recorrendo a ferramentas de planeamento.
 
Paul Davidoff queria evitar os casos recorrentes em que os técnicos e especialistas pelo planeamento se desligavam das realidades locais e necessidades das comunidades. Queria que os cidadãos, utilizadores, moradores e quem fosse influenciado pelos planos pudessem participar também nos processos de planeamento. Pretendia que se diminuísse o potencial de conflito entre planeadores e cidadãos, evitando casos de arrogância técnica em que as propostas dos técnicos eram vistas como puramente racionais e a dos cidadãos meros exercícios de irracionalidade. Davidoff pretendiam aproximar a prática técnica do exercício da cidadania, evitar a arrogância e incompreensão de ambas as partes, transformando o planeamento num exercício de justiça social. Considerava que os planeadores recorriam também às suas crenças e que não estavam isentos de influências ideológicas, que os factos e os valores não podiam ser separados. Davidoff defendia que a neutralidade de valores não existia, nem os planeadores eram isentos nos processos de planeamento. Recomendava que cada interveniente assumisse os seus valores, aqueles que levavam a que escolhessem determinados caminhos e opções. Para Davidoff os planeadores deveriam trabalhar em instituições, organizações e com todos aqueles cujos valores coincidiam. Assim, os planeadores teriam de se envolver nos processos políticos como assistentes dos interesses em que acreditavam, quer fossem assumidos por governos, grupos, organizações ou indivíduos interessados ou mobilizados por determinadas causas de interesse coletivo e público. Os planeadores teriam um importante papel cívico e de participação nas dinâmicas democráticas.

Nos processos de planeamento assistido pressupõem-se que existam múltiplas propostas produzidas e defendidas por diferentes grupos, assistidos por planeadores. As propostas podem ser contraditórias entre si, incluindo planos opostos às propostas do poder público. O resultado do processo de planeamento assistido seria uma competição de ideias, uma espécie de dialética de planeamento. Estas mudanças permitiriam: informar melhor o público sobre as várias alternativas; forçar os decisores políticos a competirem com outros grupos, ganhando com isso apoios políticos com o desenvolvimento do processo, e; forçar os críticos a desenvolverem e apresentarem propostas alternativas. Apesar de não se ter apresentado um sistema de avaliação e de tomada de decisão nesta dialética de planeamento, pode-se partir do principio que os planos realizados por esta via resultariam de múltiplas etapas em que as propostas com mais apoios e que melhor cumpriam os objetivos traçados seriam as escolhidas, embora subsistam dúvidas de como seria feito esse processo na prática, em situações dúbias e antagónicas.
 
No Reino Unido implementou-se um sistema semelhante ao planeamento assistido de inspiração norte-americana, em que grupos e cidadãos poderiam recorrer a planeadores públicos, em períodos fora das suas funções públicas para esclarecer dúvidas e ajudar na elaboração de propostas de planeamento alternativas. Este sistema ficou conhecido por Planning Aid, planeamento de ajuda.

Em resumo, do planeamento assistido realça-se a importância da diversidade e dos múltiplos valores e pontos de vista nas dinâmicas de planeamento, de um relativismo muito próprio, algo que podemos facilmente relacionar com a influências do pensamento pós-modernista.

Referências bibliográficas:
Allmendinger, Philip (2017). Planning Theory. Third edition. London: Palgrave

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quando um jogo de tabuleiro contribui para um projeto colaborativo sobre metabolismo urbano: Urbanwins e Dixit


Penso que já todos ouvimos e lemos muitas referências ao uso de jogos de tabuleiro modernos em contextos não lúdicos, até em empresas, aplicados a dinâmicas orientadas para as suas necessidades e atividades. Este texto não aborda essas imensas possibilidades, mas apenas um caso muito concreto de aplicação real em Leiria.


A propósito de um projeto da União Europeia, que está a decorrer em Leiria, chamado UrbanWins, surgiu a necessidade de animar as sessões colaborativas públicas locais. Do guião e indicações de orientação constava a necessidade de criar algum tipo de atividade para fazer “desbloquear” os participantes.

As sessões de trabalho públicas cooperativas do projeto UrbanWins pretendiam envolver vários cidadãos locais, técnicos e não técnicos. Os participantes que se inscrevessem nas sessões de trabalho destinadas a abordar o tema do metabolismo urbano, dos resíduos e demais assuntos relacionados, seriam alocados a várias mesas de trabalho. Nelas iriam encontrar, seguramente, muitos desconhecidos. Havia necessidade de desbloquear e incentivar as pessoas a falarem um pouco de si e do tema em causa, antes de partir para a metodologia colaborativa propriamente dita do projeto.

Foi para este momento de preparação e desbloqueamento que surgiu a ideia de utilizar cartas do jogo Dixit. À entrada do espaço em se realizou o evento, depois de cada participante receber, de forma alectória, indicação da mesa em que se iria sentar, havia um painel disposto com várias cartas do Dixit Odissey. Cada participante foi convidado a escolher uma carta do seu agrado, sem qualquer sugestão ou outra orientação.

Depois de todos os participantes estarem devidamente sentados o condutor da sessão pediu para que cada pessoa se apresentasse e explicasse se havia alguma relação entre o tema a tratar e a carta que cada um havia escolhido. De notar que os participantes não sabiam o intuito da escolha da carta.

De um modo geral, quase todos os participantes disseram que escolheram a carta de forma aleatória, mas de imediato conseguiram fazer uma leitura e análise da sua escolha, encontrando uma justificação de cariz ambiental para a sua opção subjetiva e supostamente aleatória. Afinal as escolhas não tinham sido assim tanto ao acaso. Afinal havia sempre uma relação, mesmo que inconsciente, com o tema a tratar. As cartas, com os seus desenhos surrealistas, permitiram explorar a subjetividade de cada participante e iniciar o processo criativo que se queria depois potenciar posteriormente na sessão propriamente dita do Urbanwins, direcionada para os temas do metabolismo urbano e ambiente urbano.
Nota: para conhecer as atividades que se realizam em Leiria envolvendo jogos de tabuleiro modernos basta seguir a página do Clube de Boardgamers de Leiria.
#urbanwins #dixit #boardgamersleiria

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Como identificar o fascismo?

Tal como dizia Zygmunt Bauman, estamos numa época de transição, num impasse sem conseguirmos perceber qual o futuro. Esta impressão pode ser comum a todos os tempos, tendo a em conta a incerteza do futuro aos olhos de quem vive esse determinado tempo como contemporâneo. Há registos disso em textos de todos os tempos e de todas as sociedades, especialmente em épocas de crise ou de final de ciclo. Será o nosso caso? Talvez.
 
Síntese Fascista - Alessandro Bruschetti
Neste momento parecem estar a ressurgir alguns movimentos que se reinventam numa adaptação aos tempos contemporâneos, aliás, como também é comum acontecer ao longo da história, dos múltiplos processos de reciclagem e reinvenção de ideias e valores mais antigos. Não faltam exemplos de casos da ascensão de movimento sociais e políticos que muitos caracterizam como sendo “fascistas” ou “neofascistas”. Algumas dessas tendências, mais intensamente nuns casos que noutros, podem ser sentidas em alguns governos e líderes nacionais. Mas como aferi e distinguir o fascismo?
 
Proponho recorrer a William Ebenstein, professor de ciências políticas, que definiu, nos anos 40 do século XX, em alguns tópicos, as características do fascismo. São elas, nas palavras de António José Fernandes:
  • Falta de confiança na razão;
  • Negação da igualdade humana fundamental;
  • Código de conduta baseado em mentiras e violência;
  • Governo da Elite;
  • Totalitarismo;
  • Racismo e Imperialismo;
  • Oposição às leis e regras internacionais.

Estes tópicos podem ser excelentes pontos de partida, mas são fruto de uma metodologia que se baseia em casos historicamente situados. Dificilmente haverá outro modo de analisar uma realidade social como os contextos políticos, pois são sempre e forçosamente historicamente situado. Para podermos fazer alguma análise comparativa com os políticos e as políticas da actualidade temos de fazer inúmeras adaptações. O facto das sociedades se terem aberto, criando redes sobrepostas e concorrentes, e das novas tecnologias de informação e comunicação massificarem o poder da comunicação interativa mudou muito o nosso mundo. Estamos numa fase em que vemos os princípios orientadores dos fascismos a procurarem uma adaptação a estas novas realidades. Vamos ver novidades com certeza num futuro próximo. E isto é apenas uma actualização no nesta pequena dimensão. Muitas outras mudaram. Fiquemos com este ponto de partida.

Referências
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desenvolvimento Sustentável - Uma ideologia dos nossos tempos?

No livro "O Urbanismo depois da Crise" Alain Bourdin defende que o desenvolvimento sustentável se transformou numa ideologia. Só por si esta afirmação merece ser analisada, tanto do ponto de vista político como do desenvolvimento sustentável em si.

Esta suposta ideologia pode ser tão frágil como as demais à beira de extinção, próprias de um modernismo que já passou. Vejamos então como se cria uma ideologia: primeiro surge uma ideia, dá-se depois um processo de doutrinação e por fim constitui-se uma ideologia. Sendo que a ideologia pode ser considerado como um conjunto estruturado de ideias que podemos aplicar sem questionar. Serão então essas mesmas características que podem fazer do desenvolvimento sustentável uma ideologia mas ao mesmo tempo impedir que tal possa de facto assumir-se pelo conflito com o contexto socioeconómico em que vivemos.
 
Ferragosto - Cy Twombly

Encontraremos imensas  definições de desenvolvimento sustentável, numa tendência cada vez mais abrangente e holística. Se o conceito nasceu da conjugação da dimensão ambiental, social e económica, cada vez mais dimensões são acrescentadas. Componentes como a cultura, a governança e outras são comummente incluídas nas definições mais recentes. Se a isto juntarmos as teorias do decrescimento, a tendência de um desenvolvimento acumulado que tende a aumentar, compensando a necessidade de maiores consumos com o desenvolvimento tecnológico ou outros, podemos chegar a becos sem saída. Dificilmente alguém se opõe ao desenvolvimento sustentável enquanto conceito vago ou aplicado em exemplos práticos isentos de conflitos, ainda que tal possa depois ser problemático quando choca com hábitos e direitos adquiridos dos indivíduos. Por exemplo: quando se recomenda a redução do uso de água, do excesso de aquecimento dos edifícios, do uso massivo do transporte individual, entre outros.

O Desenvolvimento Sustentável parece ser capaz de intervir em todas as dimensões da nossa vida, contribuindo para uma mudança social profunda. Tem uma teoria fundamentada que o suporta, permite construir projectos de pequena e grande escala. Não é de espantar que se abandone a dicotomia esquerda-direita e se opte por este novo tipo de ideologia, aparentemente mais isenta dos chavões partidários que tantas pessoas têm afastado do exercício da cidadania política. Mas área de intervenção pode ser tão vasta que o torna difícil de assimilar de forma simples e imediata, o que pode dificultar a doutrinação, especialmente numa sociedade “hipermoderna”, onde tudo é rápido, superficial e efémero, tanto como o consumismo em que assenta. Tudo isto pode ser paradoxal.

A definição de desenvolvimento sustentável “ter um desenvolvimento atual de modo a que não condicione o desenvolvimento futuro” parecer ter ganho uma complexidade que o pode tornar vazio de sentido. Para Bourdin o conceito de desenvolvimento sustentável peca por se ficar pelas recomendações e não pela definição exata de medidas e projetos. Para outros autores, como Rogério Roque Amaro, a dificuldade prende-se mais pelo uso excessivo das palavras, de um conceito que parece gasto por uso excessivo sem a devida aplicação. As palavras desenvolvimento sustentável parecem estar a ficar agstas antes de tempo, arriscando-se à insustentabilidade como as ideologias mais tradicionais. No entanto, existem cada vez mais projetos que vão materializando os princípios do desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável, a ser uma ideologia é-o no contexto do pós-modernismo, ou hipermodernismo como diz Lipovetsky, no ocidente, pois é flexível, indefinido e altamente adaptável a cada caso e realidade. Pode ter dificuldades de afirmação e aplicação por se ter diluído numa sociedade que usa informação em massa sem a aprofundar, tornando-se o conceito potencialmente gasto pela sua complexidade e necessidade de compreender caso a caso de um modo multidisciplinar. Por outro lado pode condicionar os indivíduos, o que choca com o princípio basilar do individualismo consumista próprio das sociedades pós-modernas. Será assim uma ideologia de choque e mudança perante os hábitos e estios de vida atuais?

Digamos então que é uma ideologia líquida, como dizia Bauman, e algo indefinida. Ou seja, na era do pós-modernismo, em que as ideologias despareceram com a afirmação do individuo perante os valores ideológicos colectivos de construção das sociedades do futuro, quase sempre utópicas, a causa do desenvolvimento sustentável parece ser a única capaz de sobreviver, apesar da sua indefinição e aplicabilidade prática poder estar em conflito com os valores que estruturam as sociedades contemporâneas. Pode no entanto persistir como ideologia em grupos restritos, isto porque hoje as sociedades são cada vez menos homogéneas, compostas por grupos de pertença mais ou menos instáveis.

Só no futuro saberemos se a sustentabilidade será atingível e se os consumismos, e outros impulsos individualistas, podem ser refreados, se a tecnologia consegue acompanhar as necessidades de crescimento num mundo material e físico finito. Poderá surgir um momento de conflito entre ideologias líquidas, a do individualismo consumista e a do desenvolvimento sustentável, quem sabe mesmo a do decrescimento. Misturando-se as águas turva-se a capacidade de ver através destes fluídos dinâmicos.

Será essa eminência dialética a encerrar o pós-modernismo das sociedades hedonistas individualistas de consumo, inaugurando uma nova época? Não sabemos, pois as sociedades contemporâneas parecem cada vez menos dispostas a uma dialética aprofundada em que as ideias confrontam ideias.
 
Algumas referências:
* Intervenção no” II Congresso Internacional, Educação, Ambiente e Desenvolvimento”, organizado pela OIKOS, de 9 a 12 de Novembro de 2016, em Leiria

Bauman, Zygmunt – Amor Líquido. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.
Bourdin, Alain – O Urbanismo depois da Crise. Lisboa: Livros do Horizonte, 2011.
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.
Latouche, Serge –  Pequeno tratado do decrescimento sereno.  Lisboa: Edições 70, 2011.
Lipovestsky, Gilles – Tempos hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2011.
 
 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Simplificação Arriscada de Lipovetsky: Um Filósofo das Coisas Banais e da Nossa Vida Atual

Lipovetsky é um filósofo francês, conhecido conferencista, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Participou nos movimentos culturais e intelectuais do Maio de 68 em França, mas desde logo ultrapassou o marxismo para definir novas orientações e maneiras de interpretar o mundo. É o próprio que diz: “Só os idiotas nunca mudam de opinião”.
 
Fonte: http://www.lenouveleconomiste.fr/
É um dos mais famosos e importantes filósofos contemporâneos. Muitos consideram-no um “átomo livre”, um pensador polémico que não hesita em desconstruir a filosofia dos filósofos para a aproximar das pessoas e da actualidade.

Tem-se destacado pela reflexão sobre o mundo contemporâneo, mais concretamente nos temas do individualismo, liberdade, consumo, moda, mercados e outros. Em geral, tem-se dedicado ao estudo do capitalismo e seus efeitos positivos e negativos. Ao contrário de outros filósofos, Lipovetsky parece gostar de tratar as coisas banais, para desconcerto de muitos.

Tem imensas obras publicadas, quase todas traduzidas para português, sendo utilizadas quer por curiosos quer pelos meios académicos. Referem-se então, de um modo quase criminosamente simples, algumas das suas reflexões.

Na “Era do Vazio” e “Império do Efémero” lembra as características das sociedades de consumo capitalistas onde pouco persiste, quase tudo é efémero, gerando-se o vazio entre o frenético da novidade.

Em “O crepúsculo do dever” fala das modificações dos sentimentos de dever, do individualismo no confronto das sociedades com as tradições impostas.

Em “Os Tempos Hipermodernos” defende a tese de um novo termo ("híper") para definir esta nossa época de excessos, do “híper tudo”, do híper consumo, das híper relações, do híper mediatismo da informação.
Na “Sociedade da deceção” refere-se à desconstrução social operada pelo capitalismo, da ilusão individual do tupo poder em potência, mas do, aparentemente, quase nada conseguir para muitos nas sociedades ocidentais (hipermodernas).

Em todas estas obras, e em muitas não outas não citadas, estão sempre presentes os temas da liberdade, individualismo e o fim último que é a felicidade. O capitalismo, apesar de poder parecer, não é demonizado, mas expiado. Se traz malefícios também se relaciona com a democracia e liberdade.
 
Para Lipovetsky, sem capitalismo não há consumo, não há democracia nem liberdade, estando tudo relacionado. É a liberdade - sem juízos de valor associados ao termo - que gera todos esses excessos e híper novos estados e estádios da condição humana. Querer mudar isso é atentar contra a própria liberdade. Mas alerta que nada disto é um fatalismo. A humanidade pode continuar a ser uma comunidade social com projetos comuns, simplesmente só o será e terá tais projetos se em liberdade os pretender.
 
Se o capitalismo é expiado será para lhe fazer a apologia de ser o motor da liberdade e da democracia, através do consumo. Esta opção gera um paradoxo intencional: a crítica do "turbo capitalismo" que desequilibrou o poder entre Mercados e Estados. Lipovetsky também crítica esta mudança, não desligando da sua matriz marxista, pedindo um novo equilíbrio para afinal, como bem identificou: garantir a liberdade e felicidade humana.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Decifrando o Estado Islâmico - Um documentário sobre propaganda contemporânea


Dos muitos documentários que atualmente passam nos canais da especialidade em Portugal, infelizmente poucos são os que merecem ser vistos. Mas, felizmente, há sempre exceções. Uma delas é documentário “Decifrando o Estado Islâmico”, exibido no canal Odisseia, da autoria de Riccardo Mazzon, Antonio Albanese e Graziella Giangiulio.


Muitos programas falam do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh), mas este documentário ganha especial interesse. Isto porque exibe informações, muito pouco conhecidas, sobre o modo como funciona a propaganda do Daesh, algo que não chega ao comum espectador ocidental.

A máquina de propaganda do Daesh é profissional, produzindo conteúdos em vários formatos. Os vídeos são chocantes, não tanto pela violência que exibem, mas pelo simples facto de existirem e e retratarem situações reais. Ou seja, a máquina de propaganda do Daesh é incrivelmente forte e sofisticada no modo como alia a técnica à mensagem. Recorrem a técnicas cinematográficas vistas em filmes de qualidade mundial, tudo feito para criar impacto e dimensão épica. Utilizam as mesmas ferramentas do marketing e comunicação utilizadas no ocidente para fomentar o consumo e entretenimento. Utilizam esses meios aplicados ao terror.

Ao contrário do cinema, que tenta simular a realidade, a propagando do Daesh usa a realidade para simular o cinema de acção épico, criando imagens poderosas. Só vendo para acreditar. Mas esses conteúdos, talvez corretamente, são censurados no ocidente, pois servem efectivamente para recrutar jovens ocidentais susceptíveis à sua mensagem. Publico não faltará, uma vez que nas sociedades pós-modernistas os valores estão em contante reformulação e por vezes é difícil definir uma identificação colectiva e individual. Os efeitos do capitalismo consumista e individualista e das políticas falhadas de integração social contribuem também por sua vez para o problema em causa. Misturando os ingredientes da susceptibilidade dos jovens, do seu desenraizamento, da falta de perspetivas de futuro, de uma busca por identidade e sentimento de pertença, fervor religioso, necessidade de realização e glória pessoal, tal como o efeito da cultura de filmes e jogos de vídeo violentos, criam-se as condições para o jihadismos se desenvolver.

A geopolítica, a história e a religião explicam por sua vez também as razões de existirem territórios e momentos próprios ainda mais propícios para o extremismo islâmico ocorrer. Isso daria, como é óbvio, muito mais que escrever.

Assim , do documentário, pode concluir-se que o Daesh tem usado os meios audiovisuais, as redes sociais e outras ferramentas próprias do mundo ocidental, da seu capitalismo, liberalismo e democracias para derrotar o seu inimigo: o próprio Ocidente.

Dificilmente poderá haver uma solução para este problema enquanto continuarmos a ver o problema somente segundo a matriz de valores do ocidente., ainda mais se de modo sectário.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Memória e identidade – Interrelação entre o colectivo e individual

Nas sociedades contemporâneas pós-modernistas, tendencialmente liberais, inseridas no fenómeno de mundialização, apesar das forças homogeneizantes das identidades culturais, persistem as diferenciações associadas a grupos sociais e espaços territoriais (Lacroix, 1999).

Para falar de identidade será necessário começar por definir o que é a memória, pois todas as identidades existem, persistem, mudam, constroem-se, reconstroem-se e reinventam-se (Cuche, 2006), apesar de serem imateriais, nas memórias dos indivíduos. É nesse ambiente, e involucro, que são depositadas, sem que essa deposição seja permanente e estanque.

Segundo a psicofisiologia, existem memórias de curto (MCP) e longo prazo (MLP). Sendo que as MCP relacionam-se mais com a operacionalização de raciocínios imediatos (João, 2010), são às MLP que sistematicamente se recorre para enquadrar as cognições, comportamentos valorativos e atitudes. Esses valores éticos e culturais contribuem para a definição de identidade. Apesar da MCP operacionalizar a prática identitária dos indivíduos, será a MLP que mais a define.

Retrato da Memória - David Szauder
 
Já se referiu que as sociedades pós-modernistas, ou hipermodernas como refere Lipovestky (2010), são profundamente individualistas. Se a identidade coletiva só existe na individualidade dos sujeitos (Cuche, 2006) então dificilmente teremos identidades coletivas unitárias. Entramos na “multi-identidade”, própria das sociedades livres, pois aí, ao contrário dos totalitarismos culturais, cada indivíduo tem considerável liberdade de associação identitária a grupos reais ou mais ou menos imaginários. No entanto, o fator de influência do meio continua a ser relevante e de não descurar. Apesar do individualismo, de modo algum ficam em causa os processos coletivos de identificação ou a identidade coletiva. Ocorrem tanto ou mais, mas agora desenvolvem-se em liberdade, pois são os indivíduos que os escolhem e assumem, pelo menos na parte em que são livres de o fazer. A definição de identidade individual complica-se ainda mais se considerarmos que cada indivíduo assume vários papéis sociais na sua vida, muitos em simultâneo também. Assume várias identidades. A estruturação das identidades coletivas, cada vez mais voláteis, liga-se assim às mutabilidades das sociedades humanas.

Esta dificuldade de definição de identidades no mundo globalizado leva a que sejam os próprios indivíduos a querer olhar para o passado, para a memória (histórica ou mítica) como modo de encontrar identificações pessoais, para garantir algum tipo de sentimento de pertença coletiva (Rodrigues, s.d.). Assim procura-se a tangibilidade trazida pelo património, que pode ser material ou imaterial. Essa necessidade pode recorrer mais à memória coletiva, que é menos estruturada, mítica e não localizada com precisão temporalmente, ou a uma visão mais estruturalista e científica da história (Le Goff, 1984). Esta distinção técnica pode não ser consciente por parte dos indivíduos. Na era da liberalização da informação e do poder de comunicação dos Media, a informação tende a ser produto de consumo, sendo que cada indivíduo será sujeito a essa análise, mesmo que inconscientemente. Essa liberdade contrasta com a ação tradicional dos Estados-Nação, tão ávidos de garantir a coesão social e étnica dos seus espaços territoriais pro razões políticas. Hoje são os próprios indivíduos a reconstituirem as suas árvores genealógicas, arquivarem as suas fotografias e outros registos.

Assim, os conceitos de memória coletiva e individual estão estritamente ligados, pois dificilmente existirá um sem o outro, apesar de todas as forças uniformizadoras exógenas aos indivíduos. As identidades resultam de ambas as memórias, apesar de se puder considerar que, mais que nunca, os próprios indivíduos têm a necessidade em se identificarem a si e aos grupos a que pertencem, também eles de limites difusos e mutáveis.

Algumas referências bibliográficas
  • CUCHE, Denys - A noção de cultura nas ciências sociais, Lisboa: Fim de Século, 2006.
  • JOÃO, Maria Isabel - Memória, História e Educação. Noroeste. Revista de História, 1, Braga: Universidade do Minho, 2005.
  • LACROIX, Michel - O Princípio de Noé ou a ética da salvaguarda, Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
  • LE GOFF, Jacques - Memória. In Enciclopédia Einaudi. vol. 1, Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1984.
  • LIPOVETSKY, Gilles - Os tempos Hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2013.
  • RODRIGUES, Donizete - Património cultural, Memória social e Identidade: uma abordagem antropológica.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hipermodernismo hiper resumido

Na cama - Ron Mueck
Lipovertsky, como poucos filósofos contemporâneos, fala em linguagem do nosso tempo para o nosso tempo. Claro que não resiste à caracterização e utilização de termos sociológicos e filosóficos. Usa o termo "Hipermodernismo" para distinguir estes nossos tempos do "Pós-Modernismo". Os tempos "hipermodernos" não são um "pós-pós-modernismo", mas sim um "Pós-modernismo" exacerbado, exagerado e potenciado.
 
Então, de um modo muito simples, o hipermodernismo é próprio das sociedades democráticas e liberalizadas da mundialização. São as sociedades em rede, de complexas relações e interrelações mas onde o individualismo se reforça. É a era do "híper" tudo. Da velocidade, do imediato e do fugazmente intenso. Dá-se o primado do individualismo e do consumismo.
 
No entanto, nem tudo é, supostamente, negativo. Os indivíduos híper reforçados pela sua hiperliberdade são guiados por um novo modelo hedonista. Procuram os prazeres e a felicidade. Nada disso significa o fim dos projetos coletivos, mas a adesão a esses projetos só ocorre em liberdade, sem os ditos indivíduos os valorizarem e considerarem benéficos. O hedonismo liga-se à solidariedade e ao prazer do envolvimento nas causas nobres, geradoras de felicidade.
 
Mas estas liberdade e individualismo também geram frustração e deceção, tal como Lipovetsky refere na sua obras "Sociedade da Deceção". A liberdade tem estes paradoxos e os tempos "Hipermodernos" são complexos e vertiginosos.


Referências bibliográficas:
  • Lipovetsky, Gilles. "Os tempos hipermodernos". Lisboa: Edições 70, 2011.
  • Lipovestky, Gilles. "A sociedade da deceção". Lisboa: Edições 70, 2012.

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