terça-feira, 26 de abril de 2011

Gestão dos bens comuns - sustentabilidade e participação colectiva

Num anterior texto intitulado de "O sector privado é o melhor gestor?" apresentou-se aqui no blogue, muito superficialmente, algumas das teorias de Elinor Ostrom - a única economista laureada com o prémio Nobel da Economia até ao momento. Uma vez que essas teorias foram levemente referidas e têm muito interesse - pelo menos na minha opinião -, não posso deixar de reaproveitar um outro texto produzido para um outro blogue e cita-lo aqui. 
A vinha vermelha - Van Gogh
 De seguida então algumas conclusões sobre as principais teorias de Elinor Ostrom, aquelas que lhe valeram o Nobel e que versam sobre a Gestão dos Bens Comuns - recursos naturais tais como: bancos de pesca; pastagens; florestas; recursos hídricos; entre outros. Veja-se o excerto:
"Ostrom evidenciou que para se ter uma saudável economia (e seus mercados - mais ou menos complexos) os recursos naturais – vistos como bens colectivos – têm de ser geridos e monitorizados de uma forma sustentável, isto, também, numa clara relação com a sustentabilidade ambiental.
O passado está repleto de exemplos de usos excessivos e insustentáveis pelas sociedades humanas dos recursos naturais existentes, mas também há bons exemplos a seguir, caso contrário já nos teríamos extinguido como espécie ou não tínhamos evoluído para sociedades mais complexas - trivial. Deste modo e assim, é evidente para todos que teremos, enquanto grupo, de trilhar rumo a um uso e gestão sustentável dos recursos à nossa disposição – mais uma trivialidade.
É usual sugerir-se que explorar recursos que são comuns a uma determinada sociedade leva ao uso excessivo das mais-valias por ai provenientes, e que é aconselhável reduzir essa utilização através de regulamentações governamentais, tais como: taxas; quotas; ou privatizando o recurso. Tal postulado leva à construção do seguinte argumento: cada utilizador ganha proveitos privados em oposição a custos privados (por se prover dos recursos colectivos para os seus lucros privados), o que leva a negligenciar o impacto negativo nos outros utilizadores (que dependem desse mesmo recurso colectivo para tirar os seus próprios proveitos).
No seu trabalho Ostrom, através de estudos empíricos com referências a exemplos espalhados um pouco por todo o mundo, demonstra que na maioria dos casos os bens comuns são surpreendentemente bem geridos por muitas comunidade. Refere que os argumentos contra os sistemas de utilização de bens comuns são excessivamente simplistas, ao desconsiderarem que os utilizadores desses sistemas colectivos podem criar e reforçar regras para mitigar a sobre-exploração. A economista refere também que se descuram, usualmente, as dificuldades práticas em privatizar e implementar regulação governamental adequada a cada caso.
Realmente marcante no trabalho de Ostrom são os, anteriormente referidos, relatos exemplificativos e elucidativos que apresenta: os bons e maus exemplos de casos onde os sistemas de utilização dos bens colectivos tiveram sucesso ou falharam.
Uma das conclusões do seu estudo, e aquela que saliento principalmente, é a necessidade de uma certa dose de regulamentação e monitorização para garantir a sustentabilidade desses bens comuns, mas que tal controlo nunca pode vir do exterior. Essas regras têm de ser obrigatoriamente participadas e criadas em parceria com os utilizadores dos bens em causa."

Depois desta tão grande citação, que penso servir para acrescentar algo ao que já foi anteriormente iniciado no anterior texto, seguramente muito haverá por concluir. Destaco aqui a originalidade do estudo, pois, enquanto muitos estudam as características e dinâmicas intangíveis - pelo menos para o leigo - dos mercados financeiros e afins, Ostrom demonstra-nos que a economia procede e pode ser a gestão dos recursos naturais mais simples. Dessa gestão, que forçosamente terá de ser sustentável, ambientalmente e economicamente, podemos tirar pequenas e grandes ilações. Podemos ver um rumo e futuro para estas sociedades - a nossa por exemplo - que vivem em crise, muito devido à sua insustentabilidade. Há que partir e tentar perceber o simples para chegar ao complicado.

Já dizia Sun Tzu dizia algo do género quando falava de exércitos: "a gestão do pouco é igual à gestão do muito, é só uma questão de organização". Ostrom demonstra-nos que para bem se gerirem as coisas comuns, pelo menos pelo melhor possível, há que nos envolvermos, enquanto proprietários e utilizadores comuns rumo a essa gestão sustentada e participada. Se assim é para a gestão de coisas mais simples, tal como diz Sun Tzu, assim o deverá ser para as gestões mais complexas também. Ou não será assim?
Fontes: 
http://elinorostrom.indiana.edu/ 
A arte da Guerra - Sun Tzu

12 comentários:

  1. Olá Micael.
    Sun Tzu tinha toda a razão! Viveu no séc IV A.C. mas o que é facto, é que a Sabedoria é intemporal. O problema é dizê-lo agora aos nossos contemporâneos... estamos num Mundo e numa Era que quanto mais sensatas e mais simples que sejam as soluções, as pessoas tendem forçosamente a complicar... especialmente o que é simples. Não sei se é da falta de contacto com a Natureza, se é da informação, eu diria antes da desinformação, a mais, mas é realmente um facto. Ainda por cima a partir dos anos 80 e com a senhora Tatcher a incrementar escandalosamente a cultura do egoísmo pútrido, para finalidades dos capitalistas, não estou a ver sinceramente as pessoas especialmente as dos países ocidentais adoptarem uma postura cooperante, ou cooperativa. Cada um acha que o bem é dele e pronto.
    Temos um País que escandalosamente nada produz, uma crise política que deixa qualquer pessoa sensata com os cabelos em pé e uma predominância do sentimento inveja avassalador!
    Eu tenho esperança que isto tome um rumo , que os sensatos comecem a dar ouvidos a pessoas com soluções sensatas como Ostrom, mas Micael, receio que antes disso venha um surto de fome avassalador, pois só assim, só a "bater no fundo" como acontece com os tóxico-dependentes, é que vem a Luz e a consciencialização para novos horizontes, saídas viáveis e espírito de colaboração e fraternidade. Se a conjuntura negativa que o País está agora a viver servir pelo menos para dar um avanço civilizacional, já é muito bom, porque realmente como vão as coisas... não há outra saída.
    Para os portugueses "bem comum" é uma um conjunto de duas palavras que associadas se tornam depreciativas. Quase que lho garanto... e mais, teimam em não seguir os bons exemplos, infelizmente.

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  2. Como optimista não posso deixar de tentar ver os pontos positivos mesmo dos episódios mais negativos. Crise pode ser oportunidade. E a contemporaneidade, tirando mediatismos e algumas espectacularidade de alguns, vai demonstrando que vão surgindo quem pense diferente e queira tornar o simples um caminho a seguir.

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  3. E são pessoas assim que me fazem ter Esperança, Micael, pois acima de optimista, sou realista e é aqui que os mais jovens em quem confio inteiramente, têm um papel fundamental a desempenhar... exactamente como o Micael e o seu trabalho de divulgação do SABER.

    Um abraço.

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  4. Quando refere trabalho só me posso lembrar de Séneca e de um objectivo que deveríamos procurar todos: "descobre o que gostas de fazer e nunca mais terás de trabalhar"

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  5. Bem... Micael... bem lembrado. Agora entalou-me! :)
    E logo eu que gosto do que faço! Ora aqui está um bom exemplo! Sim, um objectivo que devemos procurar todos, porque realmente em vez de nos sentirmos a envelhecer, como seria de esperar, sentimo-nos rejuvenescer. O tempo deixa de ter o significado que realmente lhe costumam dar...

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  6. Olá Micael
    Antes de mais um pequena nota. A citação de Sun Tzu é um pouco diferente.
    " A gestão de poucos é igual à gestão de muitos. É uma questão de organisação."
    Esta teroria é apicada à dimensão estrutural na medida em que um exercito pequeno ou grande devem usar os mesmo principios para o seu bom funcionamento. Ou uma empresa. Ou mesmo um país. Não é propriamente aplicado a recursos, embora penso que de alguma forma pode ser transporto tambem para essa area. Tirando este aparte, Penso que um dos grandes problemas nacionais é a infeliz cultura sobre "o comum".
    Infelizmente a vários niveis, seja publico ou privado, o comum é tratado como o quintal de alguem. Alguem pretende liderar para usar em proveito proprio o bem/recurso comum.
    Esta é a na minha opinião uma das razões porque os Portugueses, apesar das imensadas capacidades e qualidade que acredito que tem, tem dificuldade em vingar.`
    Se quiser usando uma linguagem Sun Tzu, funcionamos como se qualquer um pretendesse ser General para poder mandar em todos e usar os recursos do seu exercito não para a sobrevivencia desse mesmo exercito, mas sim para obter conforto pessoal, engordar e enriquecer. Quando der para o torto salta fora e deixa o seu exercito entregue à sua sorte...
    Nenhum exercito venceu desta forma, nenhum pais venceu desta forma...
    Deixo mais uma citação de Sun Tzu:
    "Quando o governo toma medidas aberrantes… quando o superior e o subalterno não mais têm estima um pelo outro… Campos negligenciados e colheitas mal guardadas… Espigas abafadas por erva daninha que não se arrancou… se estes maus presságios engendrados pela desordem aparecem todos ao mesmo tempo, anunciam o fim irremediável do Estado… não basta espantarmo-nos com eles, é preciso também receá-los e corrigi-los."

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  7. Sim, a citação que fiz de Sun Tzu não é exactamente a original - mais isso foi consciente. Fi-lo de modo a poder traçar um paralelismo no sentido de que gerir o simples é semelhante ao complicado, pelo menos ao nível dos princípios de gestão, dependendo isso da organização.

    Muito obrigado pelo seu comentário. Ficou mais rica a discussão e o próprio texto original! Era exactamente este tipo de participação que pretendia. Os comentários suplantarem o texto original.

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  8. Uma coisa muito curiosa é quando pesquisamos os fractais... será que são uma demonstração na Natureza das teorias de Sun Tzu?"Um fractal (anteriormente conhecido como curva monstro) é um objeto geométrico que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objeto original" Para o grande e para o pequeno... curioso isto não?!

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  9. E eu a observar as rosas, de todas as cores, que desabrocham por todos os cantos e lados, sempre na expectativa de que nós as apreciemos.

    E como eu gosto de rosas e de tudo o que de trasncendentemente belo ela nos sugerem da Natureza.
    E de como todos os bens que nos satisfazem as necessidades a que viver nos obriga são resultado de processos infinitamente fora do alcance da nossa capacidade de apreensão.
    Não estamos a conseguir organizarmo-nos de forma a gerirmos o que a Natureza nos proporciona para nos permitir viver. Os processos de facilitarmos a nossa vida em comunhão com a Natureza estão muito difíceis, pelo contrário, parece-me que temos andado a complicar, a meter grãos de areia nesta engrenagem demasiado esotérica para nós a entendermos e, assim, racionalizar a forma como nos organizamos em sociedade.
    Não conheço as teorias de Sun Tzu mas fiquei com vontade de investigar.

    Um abraço dum curioso duma matéria tão complexa.

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  10. Caro António Nunes, assim que puder leia "A Arte da Guerra" de Sun Tzu. É uma das obras mais importantes da Humanidade e, por extravasar momentos históricos e circunstâncias, ainda hoje é fonte de muitos e válidos ensinamentos para o futuro. Ah, e lê-se muito bem!

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  11. "A gestão de poucos é igual à gestão de muitos. É uma questão de organização."

    Pois é, é uma questão de organização e de gestão... como disse J. F. Kennedy, “pode-se enganar todos por pouco tempo, pode-se enganar alguns o tempo todo, mas não se pode enganar todos o tempo todo”.

    O problema está nas entrelinhas, quando há poucos a saberem do muito que se passa (nos vários domínios, nas várias organizações/institutições) e muitos (todos nós!) a saberem pouco do que e do como se passa!

    Exemplo 1: Bancos ganham 2,8 milhões por dia. Lucros de 252,5 milhões nos primeiros três meses, apesar da crise económica (qual crise?);

    Exemplo 2:Dados do primeiro trimestre: Lucros do BES caem 49% para 61 milhões (que pena!!)



    Teremos a coragem e a vontade necessária para nos organizarmos?

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  12. Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote(87anos),não tenho a capacidade intelectual como a dos comentadores aqui estampada,mas o que me despertou a atenção foi a palavra COMUM.E a propósito penso que há muita gente partidária do neo-liberalismo e do«salve-se quem puder» que quer retirar do Dicionário o termo COMUM,porque êste termo está relacionado com COMUNA,COMUNIDADE,COMUNISMO,e substituí-lo pelo termo normal.E então já se diria por exemplo,que guerra,tortura,usura,peita
    especulação,prostituição,corrupção,fraude,etc.
    são substantivos normais femininos do singular.

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