quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O sector privado é o melhor gestor?

Desta vez venho falar de um artigo da edição de Novembro do Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) intitulado de “A Economia dos Bens Comuns”, texto de José Castro Caldas baseado em excertos do mesmo autor e de Francisco Louçã, que aborda as teorias desenvolvidas pela vencedora do Prémio Nobel da Economia Elinor Ostrom. Neste artigo são reveladas algumas das razões que contribuíram para a atribuição do prémio de 2009 a Elinor Ostrom, que se distinguiu por advogar uma visão alternativa para o modo como é vista a administração e gestão de propriedades comuns. Ostrom defende assim que determinadas comunidades, populações ou grupos conseguem ter um bom desempenho económico na administração de recursos e na maximização dos proveitos dai obtidos, sem uma aparente organização externa e apenas através da partilha comum entre os indivíduos do grupo. 

A sesta - Van Gogh
No artigo é apresentado também um exemplo de Garrett Hardin que contrapõe o aparente melhor desempenho económico do sector privado em oposição à administração colectiva. Hardin usa como exemplo uma pastagem comunitária onde vários proprietários criam os próprio seus animais, tendo em conta que essa pastagem tem um limite de animais a suster: “Tomemos X como o benefício de criar um novo animal para o seu dono e Y como o custo de o fazer para a sociedade. O beneficio, X, é o valor de mercado do animal no momento de ser vendido. O custo, Y, consequência do sobre-pasto, é a perda de peso de todos os outros animais que se alimentam da pastagem comum decorrente da presença de mais um animal. Para o conjunto dos criadores, o custo de um novo animal é pois Y (custo social), mas do ponto de vista de quem decide se deve ou não cria-lo é apenas uma parte de Y, chamemos-lhe Z (custo privado). A análise custo-beneficio privada pode então aconselhar o que é contrário ao interesse da sociedade – a criação de mais um animal na pastagem comum. O indivíduo supostamente motivado pela maximização do ganho pessoal adoptará o ponto de vista individual. Conclui Hardin: mesmo quando a capacidade da pastagem foi ultrapassada e casa novo animal origina perdas colectivas que ultrapassam os benefícios, os criadores individuais insistirão em sobrecarregá-las mais e mais”.
Com este exemplo Garrett Hardin comprova que, em certos casos, para que o sector privado tenha lucros outro privado ou até toda a comunidade deixa de ganhar o que por administração colectiva e sustentável poderia conseguir.

Numa altura em que os modelos económicos vigentes foram seriamente afectados pela última grande crise financeira, a qual ainda que estamos a vivenciar, há que voltar a analisar os conceitos de custo e beneficio, e averiguar se efectivamente não haverá outra forma de organizar a economia, de um modo mais justo e mais a favor do bem-estar das comunidades.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa