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domingo, 19 de novembro de 2017

Participação e colaboração não são sinónimos nos processos políticos e cívicos

É muito comum assistir-se ao uso das palavras "participativo" e "colaborativo" como sinónimos, especialmente em contextos políticos e cívicos. Apesar dos processos políticos e cívicos poderem ser as duas coisas em simultâneo não devem ser utilizados como sinónimos. Quando tal ocorre podemos desconfiar de que se trata apenas de uma recurso estilístico para embelezar um discurso ou um determinado conteúdo escrito. 

Os banhistas - Fernand Léger

O termo participativo é um adjetivo que descreve algo ou alguém que "participa ativamente nalguma atividade ou tarefa, fomenta ou propicia a participação, que se exprime ou comunica facilmente, numa relação com o termo comunicativo". O termo colaborativo é também um adjetivo, servindo para descrever algo ou alguém que "colabora ou serve para colaborar". Sendo que colaborar é um verbo que indica "trabalhar em comum com outrem, agir com outrem para a obtenção de determinado resultado, ter participação em obra coletiva". 

Depois destas breves descrições, com base no dicionário online Priberan, percebemos que o ato participativo tem uma conotação individualista enquanto que um ato colaborativo resulta num trabalho coletivo, forçosamente de mais de uma pessoa. Já o ato participativo pode implicar uma certa passividade, podendo significar um "estar presente passivo", como mera assistência, sem mais interações. Por outro lado, a colaboração exige trabalho de interação, originando um produto que será forçosamente diferente do mero somatório das participações individuais que habitualmente são produzidos nos processos participativos*. Apesar da Infopédia referir que o adjetivo participativo implica "participar ativamente em algo" essa participação ativa pode ser simplesmente o ato passivo de ouvir ou estar presente, nada impedindo que ação seja o mero movimento até se colocar nessa posição passiva. Ou seja, os processo colaborativos são sempre participativos, embora os processos participativos possam não ser colaborativos.

No que toca aos processo cívicos e políticos são tanto mais ricos quando se conseguir ir além da mera participação para atingir a colaboração. O Priberam refere que o substantivo política significa "a ciência de governo das nações e a arte de regular as relações de um Estado com outros Estados". Já a Infopédia diz que política é também "a orientação administrativa de um governo, os princípios diretores da ação de governo ou um conjunto dos princípios e dos objetivos que servem de guia a tomadas de decisão e que fornecem a base da planificação de atividades em determinado domínio". Pegando nestes vários significados percebemos que a política diz, quase sempre, respeito a Estados. Quando se diz Estados podemos simplesmente estar a dizer comunidades e coletivos humanos, sociedades no fundo. 

Portanto, podem existir muitos processos políticos e cívicos, quase sempre necessitados de participação, mas nem sempre de colaboração, sendo os casos de processos colaborativos bem mais raros nas práticas políticas e cívicas*. Os processos de colaboração têm ganho popularidade enquanto instrumentos criativos de estudo em laboratórios sociais nas academias e nas empresas mais inovadoras, mas na vertente política, especialmente nas práticas democráticas, parece não haver explicação para a sua não generalização na atividade corrente. Fica a dúvida se essas práticas serão assim tão democráticas como nos querem fazer crer.

Participation is not the same as collaboration. Brief Summary in English.
Participative is not a synonymous of collaborative. Sometimes in political and civic process the two terms are used as the same thing. But to participate don’t have a group dimension, leading to process that only sum the participation of every individual. In a collaborative process the result depends form a group participation, where the result is more and different form just the sum of every individual participation. So, a collaborative process requires participation and a participation process don’t need a collaborative method to work.

* Exemplo comum do orçamento participativo onde cada indivíduo faz uma proposta sem mais interações que o voto dos demais cidadãos.
**Um exemplo de processo colaborativo é o caso do projeto UrbanWINS, em que a problemática em causa - os resíduos urbanos - é abordada do ponto de vista académico mas também incentivando a participação cívica em processo colaborativos. 

Referências:
Infopédia. Disponível em: https://www.infopedia.pt/
Priberan. Disponível em: https://www.priberam.pt/dlpo/

#UrbanWINS
#Abuscapelasabedoria

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Alemanha, alemães e os exónimos: chamar nomes estranhos aos outros

São inúmeros os povos que ficaram conhecidos por nomes pelos quais não se reconheceriam normalmente, mas que acabam por os tolerar e até adotar, ainda que as origens possam não ser as mais simpáticas. Como alguns destes processos ocorreram há séculos, depois de múltiplas aculturações, mudanças mais ou menos violentas, já ninguém os toma como insultuosos ou desadequados. No fundo, os exónimos podem ser isso mesmo, dar nomes estranhos a termos estrangeiros para os adaptar à língua própria, mesmo que nada tenha que ver com o original.
 
Idun and the Apples - James Doyle Penrose

Um desses casos prende-se com a etimologia da Germania que para nós portugueses, é conhecida como Alemanha. Pegando apenas em algumas entradas da Wikipédia, devidamente referenciados, e outros textos de especialistas, podemos fazer um pequeno exercício de curiosidade sobre a origem do nome desse povo e dessa terra que conhecemos por alemães (ou germânicos) e Alemanha (ou Germânia).

Existem várias alternativas, umas mais rebuscadas que outras, mas todas elas igualmente interessantes. O objetivo aqui não é encontrar a mais correta, até porque pelas fontes não existem certezas absolutas, mas fazer um apanhado das várias possibilidades e refletir sobre as várias possibilidades.

A primeira hipótese é de que “Germanus”  e o plural “Germani” em latim surgiram a partir de “gérmen”, que significa semear ou disseminar, sendo utilizada também com o sentido de “parente” ou “aparentado”. Esse termo terá sido primeiro utilizado em 223 a.C. na inscrição Fasti Capotolini “Galleis Insvbribbus et Germ”, que pode ser traduzida por “povos próximos ou relacionados com os gauleses”. Também por influência de exônimo (que consiste numa tradução de um nome próprio para um língua estrangeira) celta o termo parece ter significado simplesmente “vizinho”. Em Irlandês antigo “vizinho” dizia-se “gair” e em galês “ger”, que apontava para a noção de “próximo”. Por outro lado, em Inglês “gash” significava “corte ou arranhão”, derivando dos proto-indo-europeu: “Khar”, “Kher”, “Ghar”, “Gher”. Esta última hipótese já aponta para uma relação com termos militares e bélicos.

Tácito parece ser o único autor antigo a sugerir que a origem do nome “germânico” remontasse ao nome de uma antiga tribo que durante o domínio romano havia mudado de nome, embora não existam mais provas do que a mera referência do autor. Já Estrabão associou os povos bárbaros do norte da Europa que não eram Celtas a descrição de “germânico”. Mas foi Posidónio o primeiro a utilizar o nome, por volta de 80 a.C. no seu livro n.º 30. Sabe-se desta referência pela citação do 4.º livro de Ateneu, que em cerca de 190d.C. citou Posidónio: “Os Germani à tarde servem à mesa carne assada com leite, e bebem seu vinho não diluído”. [1].

Sem dúvida que “Germano”, ou “German”, era o apelido usado por gauleses e romanos para designar os povos do outro lado do Reno. Mas existe outras possibilidades para a origem dessa palavra. Da composição de “ger”, que significaria lança,  surgem os “homens da lança [4]”. Outra possibilidade, embora aparentemente menos direta, é a da palavra “Wermann”, relacionada “War” em inglês e que provém do velho “ger” de origem indo-europeia. De índole militar surge “Germanus” em latim e “Guerra” como palavra de adaptação para os galo-romanos, que já teriam utilizado o termo antes dos romanos para os seus “vizinhos” [2]. O termo “alemães” deriva do baixo latim, “alamanus”, tomado do "Alemannen" em germânico que era uma das etnias dos povos germânicos que vivia no sudoeste do atual território Alemão, podendo significar “homens estrangeiros” também [3].

Segundo Johann Zeuss, em irlandês antigo, “gair” significava “vizinho”. Por seu lado, Eric Patridge sugere que “gar” ou “govin” significava “gritar”, defendendo que a teoria de relacionamento com “ger”, a lança, estava obsoleta [4], e que a origem da palavra estava então no termo “homens barulhentos” [5]. Outra possibilidade é a da relação com ganância “greed” [5].

São então várias as possibilidades. Para os restantes povos, os germânicos poderiam bem ser aqueles vizinhos barulhentos que andam armados com lanças, sempre preparados para a guerra. Talvez por isso os alemães não usarem nem os termos de origem alemã nem germânica e optarem por Deutsch que em germânico antigo significará qualquer coisa como “do povo“ ou “popular“. Ou seja, o mais correto será mesmo utilizar o termo Deutsch e Deutschland pois estes termos parecem ser menos exónimos, ou seja, traduções de outras línguas que nem sempre são muito simpáticas e adequadas a descrever e identificar quem descrevem. Colocando-nos atualmente no papel dos alemães, parece credível que gostem mais de ser conhecidos como „vizinhos“ do que como „homens das lanças“, sendo que „povo“ sempre parece muito mais neutro.

Referências bibliográficas:
[1] “Germanos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Germanos
[2] BOSWORTH, Joseph. (1836). The Origin of the English, Germanic, and Scandinavian
Languages and Nations: With a Sketch of Their Early Literature and Short Chronological Specimens ... from the Moeso-Goths to the Present Time,

[3] “Germanicos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alem%C3%A3es
[4] “Names of Germany”, Wikipédia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Names_of_Germany
[5] PARTRIDGE, Eric (1958). Origins: A short etymological dictionary of modern engkish. Routledge.

terça-feira, 1 de março de 2016

Corrupção, moral e ética - definições e relações

Como se relaciona a corrupção com a ética? Qualquer desonestidade ou comportamento desviante moral, mesmo que pequeno e aparentemente pouco significante, será corrupção?

 Partamos então para aos significados das palavras de modo a ensaiar uma conclusão, utilizando uma fonte isenta e de uso comum: um dicionário online, neste caso o da Porto Editora.
 
Vaca com chapéu de sol - Marc Chagall
 
Corrupção significa, no sentido literal: decomposição física de alguma coisa, modificação das características originais de algo, uma adulteração. Ou seja, uma mudança para um estado de qualidade inferior, caso contrário a modificação não seria adulteração mas melhoria e/ou aperfeiçoamento. Existe também um significado figurado para corrupção: que é o acto de corromper a moral, de gerar uma perversão.

De notar que ética e moral são comumente utilizados como sinónimos, com os próprios dicionários a referir isso mesmo.

Será a filosofia a insistir na distinção entre moral e filosofia. No mesmo dicionário, a Ética é “aquela disciplina que procura determinar a finalidade da vida humana e os meios de a alcançar, preconizando juízos de valor que permitem distinguir o bem do mal”. A ética pode ser também um código moral ao deontológico. É através dessa codificação que a ética se pode transformar em moral, através da regulamentação e codificação, quando os juízos de valor são pré-estabelecidos, para que se defina aquele comportamento moral que é sinónimo de bem e o imoral que corporiza o mal. A ética tem como objetivo distinguir o bem do mal, criando uma “dialética” própria. A moral pretende instituir o bem e condenar o mal, segundo um conjunto pré-determinado de juízos de valor.

Se a corrupção é um comportamento, ação e atitude humana, que adultera e cria uma perversão a um estado original ou ideal bem definido e codificado, isso ocorre ao nível da moral. Mas essa moral pode ser apenas perversão ética, caso não esteja adaptada às necessidades e objetivo da vida humana. A humanidade é uma espécie em mudança constante, quiçá evolução em determinados casos, pelo que a rigidez moral terá de se adaptar a essa natureza dinâmica, sendo que tal mudança imperativa se dará através das ferramentas da ética.

Se a corrupção é uma perversão da moral, adulterando a conduta íntegra de quem a pratica para um estado moral pior, também o é da ética, pois, em última instância, a moral é um produto do pensamento e construção ética. O que está em causa não é a dimensão ou a gravidade do ativo de corromper, mas a noção de que a corrupção é sempre um desvio em relação a um estado ideal inicial de valores.

A corrupção é sempre uma degeneração, uma mudança para um estado pior, independentemente do assunto, do tema ou do caso concreto. Nos comportamentos humanos é sempre um assunto do foro da ética.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Porque se chama Invicta à cidade do Porto?

Quando se refere o nome da cidade do Porto é muito comum usar em simultâneo o epíteto ou título de “Cidade Invicta”, que é o mesmo que dizer “cidade invencível”.
Então mas de onde virá este honroso titulo? Será alguma influência dos efeitos das vitórias do seu clube de futebol local? Não, nada disso, a razão é histórico/política e remonta a alguns séculos.
Cerco do Porto - Marques de resende. Fonte: http://www.historiadeportugal.info
Recuando na história, constata-se que a cidade foi tomada pelos mouros em 715, sendo apenas reconquistada por Vimara Peres em 868, fundando-se assim o Condado Portucalense. Depois não se regista mais nenhum ataque significativo, com a dilatação das fronteiras em direção a sul. Ou seja, invencível perante os mouros não foi, que de facto ocuparam o território por mais de um século.
Depois o Porto surge associado a alguns grandes feitos da história de Portugal. De notar o apoio imediato ao Mestre de Avis, em 1385, e o contributo para a expansão ultramarina, que lhes atribuíram o título honroso de “tripeiros”, por terem escolhido comer as entranhas dos animais e cedido a carne limpa para o esforço nacional da conquista de Ceuta e sua consequente expansão.
Mas é no século XIX que nasce a principal razão do título. Não terá sido a resistência às invasões francesas, pois foram terríveis para a cidade que nãos lhes conseguiu resistir. No entanto, durante as Guerras Liberais (1832-1834), o Porto foi cercado pelas tropas absolutistas depois do desembarque no Mindelo das tropas liberais apoiando D. Pedro IV, que lutava para garantir o trono à sua filha, a futura D. Maria II, e consequentemente a implementação do liberalismo em Portugal. O Porto demonstrou-se invicto perante os assalto de D. Miguel, tendo sido um ponto-chave para mais tarde assegurar a vitória dos liberais liderados por D. Pedro em todo o país.
D. Maria II então que atribui posteriormente o título de Invicta cidade do Porto, constando ainda hoje essa referência no seu brasão municipal.

Referências Bibliográficas para aprofundar:
  • Câmara Municipal do Porto – História da Cidade. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: http://www.cm-porto.pt/historia-da-cidade
  • Bonifácio, Maria de Fátima – Reis de Portugal - D. Maria II. Temas e Debates, 2007.
  • Martelo, David - Cerco do Porto 1832-33 – A Cidade Invicta. Prefácio, 2001.
  • Mattoso, José – História de Portugal – Antes de Portugal. Vol. I.  Editorial Estampa, 1997.
  • Mattoso, José – História de Portugal – O Liberalismo. Vol. V. Editorial Estampa, 1998.
  • Santos, Eugénio - Reis de Portugal - D. Pedro IV. Temas e Debates, 2007.
  • Wikipédia – Porto. Consultado em 24/06/2015. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Porto

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Um ensaio filosófico sobre Liberdade e Tolerância

Depois das primeiras leituras e investigações ficou evidente que era difícil definir tolerância, pois é um conceito imensamente lato. Mais fácil seria tentar definir o seu oposto, que por exclusão de partes levaria então ao objetivo inicial.
Então qual a origem da Intolerância? Porque existe quem admita apenas uma via e opção quando o mundo é naturalmente diverso? Talvez a verdade seja a resposta. Talvez seja porque: havendo convencimento total que se conhece e detém a verdade, tudo o que é diferente só pode ser falso, deturpado, defeituoso e mau. Então importa também definir o que é a Verdade?
Isto não é um cachimbo - Magritte
 
Mas, de um ponto de vista filosófico, existem muitas definições de verdade.
Sócrates dizia: “que só sabia que nada sabia”. Uma certeza de verdade que duvidava de tudo, de todas as verdades, ainda que reservando uma para si. Seria o início do individualismo da verdade? De que para qualquer verdade há pelo menos uma crença inicial?
Platão aparentemente simplifica, diz: “o discurso que diz as coisas como são é verdadeiro, e o que as diz como não são é falso”. Mas como sabemos como são as coisas? Temos aqui o conceito de teoria da verdade tradicional, que define a verdade como assente em juízos que resultam de sistemas de crenças ou verdades anteriormente assentes.
Depois Aristóteles complica quando dizia: “Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é falso, ao passo que dizer do que é que é, e do que não é o que não é, é verdadeiro”. Mas como sabemos o que é e o que não é? Caímos novamente na necessidade de uma crença inicial da verdade?
Destes pensadores, especialmente de Aristóteles, herdamos a noção de verdades lógicas, que estão na origem da razão. A verdade obtinha-se através da correspondências e conjugação de juízos verdadeiros, em preposições verdadeiras, para chegar a verdades. Mas essas verdades eram várias e, no extremo, até podiam ser contraditórias quando utilizadas em contextos mais complexos. Então não existia verdade mas sim verdades?
Posteriormente, durante a Idade Média, com o cristianismo a dominar a sociedade ocidental europeia, surge a escolástica. Os pensadores medievais conheciam as definições dos filósofos clássicos. Muniram-se da sua teologia, da sua fé, e remeteram para Deus a origem das verdades primeiras e das verdades eternas. A partir dai seria fácil definir todas as restantes verdades e falsidades.
Inúmeros pensadores depois continuaram a desenvolver o conceito de verdade, afastando-se da solução teológica escolástica. Muitos seguiram por aquilo que mais tarde seria definido como o racionalismo e o experimentalismo, que ativamente contribuiriam para o método científico. Voltava a possibilidade das muitas verdades. Enraíza-se a teoria da verdade pragmática, em que é a demonstração prática e verificabilidade das hipóteses que leva à verdade. Então e as teorias e hipóteses indemonstráveis? Teríamos de voltar novamente atrás, à teoria das verdades primeiras e das verdades indemonstráveis, os pré-conceitos indiscutíveis?
Kant, por sua vez, introduziu o conceito de verdades necessárias, que eram então aquelas que não se obtinham através da experiência. Eram as verdades analíticas, em que o termo-perdicado é propriedade do termo-sujeito. Mas isto não resolveu nada no que toca à definição da verdade. Era apenas a constatação da trivialidade. Apenas demonstra que há certas verdades que não necessitam de verificação.
Novas teorias surgiram. De notar a noção a teoria idealista, com muitos adeptos entre os filósofos germânicos dos séculos XIX, com Hegel entre os mais conhecidos. Segundo essa corrente a verdade será aquilo que provinha das nossas melhores teorias. No entanto, mesmo sendo as melhores e mais desenvolvidas teorias não são isentas de falhas. Sabemos que uma coluna defeituosa pode deitar a baixo todo o templo.
Depois das tendências positivistas dos finais de século XIX, onde havia crença na capacidade infinita da razão e ciência humana - sendo aqui o termo crença aplicado propositadamente de forma irónica -, surge no início do século XX o relativismo. Se as bases da física se ligavam à teoria da relatividade, segundo Einstein, então tudo podia ser relativo, incluindo a verdade? Isto seria um paralelismo exemplificativo que encontraria ecos na filosofia e na definição de verdade.
Vários pensadores e filósofos da época alertaram para a falibilidade de tudo o que é humano, incluindo a ciência e as teorias do conhecimento. Assim desenvolve-se mais uma teoria de verdade, a teoria realista, em que se considera verdadeiro aquilo que, à luz das teorias mais cuidadosamente estabelecidas segundo padrões rigorosos de racionalidade, controlo de erros e experimentação sistémica, leva a que se definam probabilidades suficientes para se considerar que algo como verdadeiro. Ou seja, fica sempre a dúvida, mas reduzimos o erro e ensaia-se sempre uma justificação para a verdade, tendo sempre de admitir a sua falibilidade. Apesar da possibilidade de erro podemos tomar posições, evitando o fundamentalismo. Isto faz lembrar Bertrand Russell, segundo o qual: podemos ser incrédulos perante algo se as suas probabilidades forem reduzidas.
Heidegger consegue também acrescentar algo, ao ser mais original dizendo que “a verdade é a descoberta”, pelo que lhe dá um sentido dinâmico.
Depois de tudo isto cresce a possibilidade de haver muitas verdades, e não uma só. Talvez isso se fundamente noutra teoria da verdade, a teoria da verdade consensual, em que a verdade não se estabelece a partir da correspondência entre juízo e o real, mas resulta do consenso ou do acordo entre indivíduos de uma determinada comunidade ou cultura quanto ao que se considera aceitável ou justificável na sua maneira de encarar o real.
Com isso surgem outras questões: então e o que é o real? O real podia ser obtido através do recurso às teorias da verdade? Obteríamos muitos reais competindo entre si, e uns negando outros, defendendo que se muniam da verdade. Mas o real não será apenas aquilo que uma maioria considera como tal? A loucura nega o real. Consideramos louco apenas aquele que vive o real diferente da maioria.
Para continuar a definir verdade importa também falar de conhecimento, que é uma relação entre o sujeito e o que é conhecido, sendo impossível saber algo sem acreditar no que se sabe - era por isso que Sócrates, ao negar que nada sabia, admitia que sabia pelo menos isso. Ou seja, sem uma qualquer crença, mesmo que muito simples e primordial, não há conhecimento.  Sendo através do conhecimento da realidade que se chega à verdade, relembrando que a realidade é um conceito também dúbio que parece depender da perceção de uma maioria e da verificabilidade estatística, que deverá ter sempre as suas dúvidas.
Se tudo se baseia nessa crença inicial de que pelo menos sabemos que sabemos algo, muitas outras crenças servem para justificar a verdade e vice-versa. Reforço que não é força da convicção que torna verdadeira uma crença, mas as características do objeto em causa. Voltamos, invariavelmente, de novo ao conceito de verdade e realidade e da noção de que não existem verdades absolutas, apenas muitas mais ou menos probabilidades de o serem, que se obtém através da validação tendencialmente racional.
E somos sempre racionais? Não, não somos. Talvez nem devemos ser. Recorremos quase sempre a heurísticas, atalhos que nos fazem decidir por intuição, com base nos nossos pré-conceitos, experiências e conhecimentos. Não será errado fazer isto, pois seria impraticável estar constantemente a testar tudo e a ter de recorrer a procedimentos racionais de verificação e experimentação para tomar uma decisão. O problema será quando o fazemos, por comodidade, e consideramos que chegámos a verdades absolutas.
São as verdades absolutas que levam à intolerância, pois é delas que se nasce a intolerância para com aquilo que é diferente (as outras verdades).
Tendo de chegar a uma conclusão, parece-me então que a verdade absoluta é irreal, pois parecem existir muitas e não uma só. Se assim é, como concilia-las todas de modo a evitar conflitos? Idealmente seria adoptar uma atitude de abertura de espírito e tolerância. O limite dessa tolerância será a própria necessidade que a criou: a garantia da diversidade e liberdade, pois só em liberdade mantemos a possibilidade das múltiplas verdades. Então a tolerância surge da necessidade do convívio harmonioso das várias verdades. Só o fundamentalismo se pode opor a esta visão. Mas quando se afirma algo assim, absoluto, podemos correr o risco de seguir pelas mesmas tendências.
Sobre a tolerância também vários pensadores a abordaram, especialmente a partir do iluminismo, quando os ideais da razão surgiram para erradicar o obscurantismo. John Locke foi uma dessas forças construtoras, tendo centrado o seu tratado sobre a tolerância na religião, pois essa era, na altura, um dos principais veículos de opressão e condicionamento das liberdades individuais. Defendeu, em 1689, a separação de poderes entre o Estado e a Igreja. Dizia que o Estado devia garantir as leis naturais, a liberdade, a conservação e desenvolvimento dos indivíduos, os bens pessoais e coletivos, a construção social, a paz e a prosperidade comum. Isto fazia-se através da Lei. Já a Igreja seria a sociedade livre e voluntária, que nem corresponde a necessidade como a política, nem à obrigação como a lei natural. Ela nascia da necessidade de cada um assumir publicamente a sua fé, de o fazer em público e comum. Formava-se pelo livre acordo em professar e praticar a religião que cada um considera verdadeira e lhe salvará a alma. Essa salvação tem de ser pura e voluntária, caso contrário não terá sucesso. Assim, para Locke, a liberdade é um pilar fundamental, o direito e a tolerância os garantes disso. Tudo o que lhes seja estranho será má política e falsa religião.
O liberalismo de Locke foi aprofundado nos séculos seguintes. Surgiram políticos em melhoria constante. Mas essas construções não eram perfeitas, não eram verdades absolutas.
Stuart Mill, um outro grande pensador do liberalismo e principal arauto do utilitarismo, alertava recorrentemente para o perigo da “tirania da maioria”, com Tocqueville a alertar para o mesmo. No ensaio “Sobre a Liberdade” Mill tenta identificar a natureza e os limites do poder que a sociedade pode legitimamente exercer sobre o individuo. Esta posição permite denunciar como despótica uma democracia que, confundindo a maioria, ainda que unânime, com a vontade geral, esmague a individualidade.
Então, tendo cada ser a sua individualidade, tal só pode ser respeitado enquanto respeitar essa mesma distinção livre respeitar a diversidade alheia, lembrando sempre que a verdade pode ser mais que uma. Foi por isso que, consciente de que a individualidade tem ligação com a liberdade e que o homem vive em comunidade onde os individualismos podem gerar conflitos entre os seus membros (devido à individualidade própria de cada um deles), é importante a tolerância. Quando Voltaire disse “posso não concordar contigo, mas tudo farei para defender o teu direito a discordares de mim”, acabou por dizer quase tudo.
 
 
Referências bibliográficas:
  • Caillé, Alain.“História crítica da filosofia política e moral”. Verbo, 2005.
  • Galvão, Pedro (org.).“Filosofia – Uma introdução por disciplinas”. Edições 70, 2013.
  • Kaneman, Daniel .“Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2014
  • Lobo, António.“Dicionário de filosofia”. Plátano Editora, 1991.
  • Locke, John. "Carta sobre a Tolerância”. Edições 70, 2014
  • Mill, Stuart. “Sobre a Liberdade”. Edições 70, 2006.
  • Palmarini, Massimo Piattelli. “A ilusão de saber”. Circulo de Leitores, 1997.
  • Tocqueville, Alexis de. “Da Democracia na América”, Relógio de Água, 2008.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nem tudo o que parece é Cuscuz (ou Couscous)

Num artigo sobre culinária vou tentar ser ligeiro, ou seja, light. Como frequentador de restaurantes de origem Norte Africana e tendo na família várias pessoas que fazem receitas diferentes de Cuscuz (ou couscous), tenho de falar de Cuscuz.

É cada vez mais corrente por Portugal fazer-se Cuscuz, como receitas próprias, acompanhamento de saladas ou afins. É aqui que se justifica este artigo. Especialmente por cá, talvez por ser algo novo, confunde-se Cuscuz com Sêmola.

A Sêmola é o resultado incompleto da moagem de cereais. A Sêmola é utilizada como acompanhamento do Cuscuz. Logo, o Cuscuz não é só a Sêmola. O Cuscuz é todo o prato, composto pelo cozinhado de vegetais, carnes e então a sêmola. Existem muitas receitas de Cuscuz, cada uma característica de cada zona, sendo típicas do Norte de África.

Receita de Cuscuz Tradicional Marroquino - fonte: receitas gnt
Dizer que se come Cuscuz quando se come algo feito apenas com a Sêmola seria o mesmo que comer só o arroz do tríptico "Cozido à Portuguesa" e dizer que estamos a comer todo o prato, e sempre que comêssemos arroz disséssemos que comíamos cozido à portuguesa. 

Por isso, quando comerem Cuscuz, comam tudo, com tudo o que é suposto e têm direito. Mas podem comer só a sêmola, pois fica muito bem noutros pratos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Economia e Ecologia - Quase sinónimos quase opostos

Economia e Ecologia são termos que remetem para áreas de atividade por vezes tão distintas apesar de terem origem onomástica semelhante. Ou seja, ambos derivam da palavra grega Oikos, que significa casa. A economia será então, traduzindo literalmente, “a gestao da casa” que será “Oikos + Nomos”, sendo que Nomos significa Lei/costume/gestão. A ecologia será então, traduzido literalmente, “o estudo da casa” que será “oikos + logos”, sendo que Logos significa conhecimento.

Título desconhecido - Walt Kuhn
Esta constatação onomástica (origem dos nomes) levanta, no mínimo, muitas questões. Se o objecto - Oikos, a casa - é o mesmo porque será que estas duas áreas de conhecimento tantas vezes andam em conflito e lados opostos, defendendo visões, praticas e atitudes nem sempre compatíveis. Se a “ lei ou gestão da casa” anda longe do “conhecimento da casa” a casa não pode estar “arrumada”. Hoje em dia, o conceito da sustentabilidade tem vindo a aproximar as duas áreas, uma vez que ambas recorrem a ele e ele próprio só se concretiza na sua plenitude se a sustentabilidade for financeira e ambiental (tal como outras possíveis vertentes, com tendência para o alargamento do conceito).
Ambientalistas como Satish Kumar, entre outros, têm lutado pela aproximação entre economia e ecologia, sendo que coloca a primeira a depender da segunda, defendendo que “para se gerir uma casa é preciso conhece-la primeiro”. Ou seja, para que se faça economia é preciso primeiro fazer ecologia.
Para além dos jogos de palavras em que podemos cair, a aproximação entre economia e ecologia, independentemente de uma eventual guerra pela supremacia disciplinar, é o um caminho inevitável para garantir a sustentabilidade. Garante-se assim, supostamente, a dimensão ambiental e económica das actividades humanas.

Felizmente a tendência será a aproximação entre economia e ambiente, felizmente para todos nós e para as gerações futuras.


Nota: um agradecimento à Telma Fontes pela indicação do ambientalista Satish Kumar para citação neste texto.

Referências bibliográficas:

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Espirrar em várias línguas

Recuperando parte de um antigo texto aqui do blogue [1], pois na sua parte final consta algo que merece ser destacado por si só num texto isolado. Isto a propósito dos espirros.
Mulher em Lágrimas - Picasso
Quando espirramos fazemo-lo como um movimento involuntário, ainda que algumas pessoas os tentem conter e travar. Não isso que vou discutir ou analisar. O que aqui vale a pena referir é o som que fazemos. A onomatopeia (processo de formação de uma palavra por imitação de um som natural [2]) do espirro é uma curiosidade em si, pois pode ser muito diferente de língua para língua, apesar de até poderem ter origens comuns.

Assim, quando espirrarem no estrangeiro, muito provavelmente denunciam a vossa condição de forasteiros.

Aqui ficam então alguns exemplos demonstrativos [3]:
• Em Árabe é "عطسة"
• Em Alemão é "hatschi"
• Em Búlgaro é "апчих"
• Em Cantonês é "hut-chi" (乞嚏)
• Em Chinês é "penti" (喷嚏)
• Em Dinamarquês é "atjuu"
• Em Esloveno é "kihanje".
• Em Espanhol é "atchís" e "atchús"
• Em Francês é "atchoum"
• Em Hebreu é "apchee"
• Em Hindi é "chheenk".
• Em Indonésio é "'hatchi'"
• Em Inglês é “Atchoo”
• Em Islandês é "Atsjú"
• Em Japonês é "hakushon" ou "kushami". Escrito como はくしょん ou 嚏(くしゃみ).
• Em Letão é "apčī",
• Em Marata é "shheenka".
• Em Neerlandês é "hatsjoe" e "hatsjie"
• Em Norueguês é "atsjo"
• Em Polaco é "apsik"
• Em Romeno é "hapciu"
• Em Tagalo é "hatsing"
• Em Tailandês é "Hutchew ou Hutchei" (ฮัดชิ่ว or ฮัดเช่ย)
• Em Tâmil é "Thummal".
• Em Telugu é "Thummu".
• Em Turco é "hapşuu"
 
 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"No geral somos idiotas" - Um vídeo inspirado nos textos deste blogue

Recentemente participei em mais um Ignite, o nº 53 realizado em Portugal. Nessa edição comemoraram-se os 40 anos da liberdade política em Portugal. O tema desse Ignite foi a Democracia, e o espaço o Museu da Eletricidade - esse marco nacional do património industrial, excelentemente aproveitado e valorizado como museu e sala de eventos.
Partilho aqui o vídeo dessa minha participação pois ela inspirou-se em vários dos textos criados para este blogue, entre eles: Afinal de onde vêm e quem são os idiotas? ; Quando os Ministros eram escravos ; etc.
O vídeo tinha como objetivo fazer consciencialização para a necessidade de mais participação cívica política, pois esse é o único modo de concretizar na plenitude uma democracia. Se assim não for dificilmente a democracia será conveniente e verdadeiramente democrática, pensada e criada para todos os cidadãos, independentemente das eventuais hierarquias ou classes sociais, formais ou informais. A ignição para este vídeo foram as origens etimológicas dos termos "idiota", "ministro", entre outras curiosidades e conhecimentos multidisciplinares.
Fica então a partilha do vídeo.  

terça-feira, 24 de junho de 2014

A economia serve para buscar a felicidade?

Existem imensas definições para caracterizar a economia. Se começarmos pela origem etimológica do termo (Oikos + Nomos = Casa + leis/costume/normas) concluímos que o termo pode ser incrivelmente vasto. Já desde a antiga Grécia filósofos e pensadores dedicaram atenção aos estudos da “economia”, ainda que com uma metodologia e abordagem muito distinta daquilo em que esta ciência (humana) viria a usar atualmente. Terá sido durante a Idade Moderna, com o mercantilismo, e depois na Idade Contemporânea com o desenvolvimento do capitalismo e revolução industrial, que o significado e método clássico de economia se terá definido.

Estúdio com crânio - Georges Braque

De um modo simplista poderia dizer-se que: a economia é a ciência humana que estuda os mecanismos de produção, consumo, distribuição e rendimentos de bens e serviços (sempre limitados) com vista à sua otimização. A definição é simples, e muito limitada, tendo em conta a sua abrangência, porque economia pode ser quase tudo, pois se pensarmos na origem etimológica do termo, será tudo menos simples definir o que são as regras (naturais e artificiais) da nossa casa (ambiente).
 
No entanto, encontrei recentemente uma possibilidade curiosa para o fim ou objetivo da economia que pode ajudar na sua compreensão e simplificação. Segundo o livro “Economia para totós”, a economia é a ciência que pretende otimizar o uso de bens e serviços para garantir o máximo de felicidade aos indivíduos. Não sei se isto é inocente ou não, mas não entra aqui a palavra lucro e acumulação de capital. É curiosa esta mudança, pois a essa “busca pela felicidade” os autores acrescentam também a componente ambiental, no sentido de que a “boa” economia será também a que garante sustentabilidade dos recursos. Ou seja, a economia será então a ferramenta que permite avaliar os recursos e bens, sempre escassos limitados, e organizar todo o sistema produtivo e distributivo de modo a garantir o que as pessoas pretendem, gerando felicidade e sustentabilidade ambiental.
 
Tudo isto pode ser ingenuidade, ou uma mudança de paradigma, especialmente relevante se pensarmos que vivemos numa altura em que se diaboliza a economia e os economistas. Será isto apenas uma ação de marketing, intencional ou não, dos economistas para defenderem a sua ciência - que não por acaso é humana -, tentando liga-la à causa ambiental, humanizando-a e modernizando-a perante o individualismo contemporâneo centrado na busca da felicidade individual?
 
Referência bibliográficas

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quando os Ministros eram escravos

Numa conferência sobre alterações climáticas, realizada no Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, assisti a uma intervenção digna de mais uma curiosidade para registar aqui no blogue. Em jeito de comentário, quando se tratava da importância dos decisores políticos nas medidas, políticas e soluções para os impactos das alterações climáticas, o professor Alveirinho Dias partilhou, entre muitas outras coisas, algo digno de despertar surpresa. Curiosamente, nada teve que ver diretamente com ambiente, geologia ou afins.
O Ministro (Sacerdote) patinador - Henry Raeburn
O professor reportou para a etimologia da palavra Ministro. Supostamente, segundo ele, ministro seria alguém a quem os romanos designavam como gestor caseiro, habitualmente um escravo. Ou seja, os romanos abastados delegavam essa missão (esse ministério, essa tarefa) aborrecida e trabalhosa de gerir num escravo. Se fosse um mau gestor, simplesmente era “substituído”. A tal referência histórica serviu para que a plateia refletisse sobre os nossos atuais gestores ministros, de como se delega neles ainda essa tarefa chata de gestão da coisa pública, sem grande preocupação e com bastante irresponsabilidade cívica por parte dos próprios cidadãos. A ligação com a condição de escravo ou servo da própria palavra dá-se pela composição associada ao termo “minor”, que se subordina ao maior, ao “magis”, que compõe a palavra “magíster”. Nessa altura o “minister” obedecia ao “magíster”. Esta relação de dependência foi sendo dissipada pelas épocas seguintes, ainda que tenham subsistido as duas funções, magistrado e ministro, numa lógica de separação de poderes dos tempos contemporâneos.
No entanto, tendo em conta o atual momento em Portugal, o professor considerava, em jeito de brincadeira e de alerta para a tomada de consciência, que neste momento os escravos destes ministros seriamos nós, e não ao contrário como seria no tempo da antiga Roma.
Independentemente das mensagens políticas e cívicas fica a curiosidade etimológica capaz de despertar reações bem variadas. Ficam também algumas referências – as possíveis – para fundamentar este texto.

Referências bibliográficas
Online Etymology Dictionary, “Minister”, disponível em:
http://www.etymonline.com/index.php?term=minister

Wikipédia, “Ministro”, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ministro

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Uma câmara fotográfica replica o funcionamento do olho humano? É biomimética?

Apesar do título ser longo e ter uma palavra pouco comum, o objetivo deste texto é ser o mais simples possível, relacionando o funcionamento de uma câmara fotográfica com o modo natural como “trabalha” o olho humano e adotamos alguns comportamento humanos inconsciente a esse funcionamento. Ou seja, a tese – que nem é muito original - aqui presente pretende demonstrar que se pode considerar uma câmara fotográfica como uma recriação do olho humano, logo um ato de biomimética.

A simplificação será a mais possível, pois facilmente se poderia cair em termos da ótica e biologia demasiado complicados. Então aqui vai.


lágrimas (1932) - Man Ray
Se deixarmos passar, através de um pequeno orifício luz para o interior de numa câmara escura, vinda do exterior, no local onde esse raio se projetar irá surgir uma cópia invertida da imagem exterior. Ou seja, isto é mais ou menos o principio base de funcionamento tradicional de uma “câmara escura” - um fenómeno ótico que acontece nas nossas câmaras fotográficas e nos nossos olhos. No caso das máquinas fotográficas essa projeção é registada em filme ou em sensor digital, o que permite posteriormente revelar fisicamente esse “registo de luz” – ou não significasse o termo fotografia “desenho de luz”. Para o olho humano, simplificando, o mecanismo é semelhante, com a projeção e ser lida e registada pelo cérebro humano através der impulso elétricos no nervo ótico.

Abordando as características das objetivas (ou lentes embora seja menos correto este termo, pois uma objetiva é normalmente composta por conjuntos de lentes) das máquinas fotográficas podemos encontrar justificações biológicas para alguns comportamentos humanos involuntários quando usamos os nossos olhos, pois o cristalino e a pupila funcionam mais ou menos como as objetivas. Por exemplo, é a dilatação da pupila que controla a entrada de luz para o interior do olho (a tal câmara escura), tão necessária para a adaptação às condições de luz natural que nos permite literalmente ver. Quando há pouca luminosidade a pupila dilata de modo a deixar entrar mais luz. O mesmo é válido para as objetivas, que têm vários tipos de abertura (normalmente as que permitem maiores aberturas, com melhores desempenhos em condições de pouca luz são as mais caras). É por isso que quando saímos de um local escuro para um outro espaço muito iluminado ficamos encadeados, conseguindo ver só passado algum tempo, somente quando a pupila se ajustou à abertura adequada para se construírem imagens.

No entanto, quanto maior for a abertura, tanto da pupila como da abertura do diafragma da objetiva, menor será a profundidade de campo - algo que se pode definir, simplificadamente, como definição em todos os planos nas várias distâncias: quanto maior a profundidade de campo maior a definição em todos os planos até uma determinada distância em profundidade de uma imagem. Assim, com aberturas pequenas conseguimos focar tanto o que está perto como o que está longe. É por isso que, inconscientemente, quando queremos ver melhor ao longe colocamos, tendencialmente, a mão sobre a testa a sombrear o olho, de modo a fazer diminuir o tamanho da pupila  e podermos focar o objeto lá longe (com uma maior profundidade de campo).

Muito mais haveria para falar entre a relação biomimética das câmaras fotográficas com o olho humano, mas o artigo vai longo. Quem sabe talvez num próximo.

Referências Bibliográficas

  • Ang, Tom; 2009. "Manual de Fotografia Digital". Civilização Editora.
  • Santos, Joel; 2010. "Fotografia - Luz, exposição, composição, equipamento". Centro Atlântico.
  • Wikipédia, "Olho Humano", disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Olho_humano




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Compêndio de curiosidades e tradições sobre casamentos


No ano passado, por volta desta altura, decidi, por razões particularmente pessoais, fazer uma pesquisa informal pela Internet sobre curiosidades e tradições associadas directamente e indirectamente aos casamentos. Assim resultou um pequeno compêndio de duas páginas destinado a encher com outros conteúdos algumas mesas. Muitas destas informações são mitos ou interpretações erróneas, algumas perto da verdade ou do que se sabe historicamente, outras são meras fantasias criadas para dar sentido a alguns comportamentos- ainda que tenha feito alguma filtragem. De qualquer dos modos, verdade ou mito, algumas destas explicações são divertidas e curiosas o suficiente para que sejamos levados a investigar sobre a sua veracidade. Fica então o dito compêndio, ordenado alfabeticamente. Agora é uma questão de investigar, ficando aqui a possibilidade para comentar, refutando ou reforçando com fontes credíveis, para quem quiser entrar nessa busca.
O Casamento - Adrien Moreu

Alianças
As alianças de casamento e de compromisso são usadas no quarto dedo, porque outrora no Egipto se pensava que uma veia nesse dedo estava directamente ligada ao coração. A aliança representa um circulo, ou seja, uma ligação perfeita entre o casal. O círculo representava para os Egípcios a eternidade, tal como o amor, que deveria durar para sempre.

Algo velho, novo, emprestado e azul
O ditado, "Algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul” é usado desde os tempos Victorianos. O “algo velho” representa os laços da família e a sua vida passada; "Algo novo" representa a sua nova vida juntos e os seus desejos de felicidade, prosperidade e sucesso; "algo emprestado" de uma mulher casada e feliz para emprestar a boa sorte; e "algo azul" representa a felicidade e a constança.

Atirar Arroz
A tradição de atirar grãos de arroz sobre os noivos, após a cerimónia nupcial, teve origem na China, onde um Mandarim quis mostrar a sua riqueza, fazendo com que o casamento da sua filha se realizasse sob uma "chuva" de arroz.

Brindes e bebidas
No Japão, o casal de noivos bebe 9 goles de sake, tornando-se marido e mulher a partir do primeiro gole.
Na China, a cor do amor é o vermelho, durante a cerimónia do casamento, o casal bebe vinho com mel de dois copos atados com uma fita vermelha.
As noivas do Médio Oriente pintam motivos henna nas suas mãos e pés para as proteger do mau-olhado. 
Os franceses muitas vezes fazem brindes num copo especial com duas pegas, especial para os noivos.

Beijo
Nos tempos romanos, o beijo selava o acordo do casal de assumir um compromisso para a vida.

Bolo de Casamento
A tradição do bolo de casamento remonta à antiga Roma, onde na cerimónia de casamento se partia um pedaço de pão sobre a cabeça da noiva para o bem da fertilidade.
O bolo da noiva é, desde há séculos, um símbolo de boa sorte e de festividade. No tempo dos Romanos, a noiva comia um pedaço de bolo, e exprimia o desejo de que nunca lhes faltasse o essencial para viverem.
A tradição do "tradicional" bolo de casamento empilhado, partiu de um jogo, onde a noiva e o noivo tentavam beijar-se por cima de um bolo, que se tornava cada vez maior, tentando não o derrubar.

Bouquet da noiva
O bouquet da noiva tem origem medieval. Nesta época, as mulheres levavam ervas aromáticas para afugentar os maus espíritos. Pouco a pouco, o ramo da noiva tornou-se um hábito em todos os casamentos e, com a passagem do tempo, acrescentaram-se significados às diferentes flores.
O bouquet pode ter surgido também na Grécia como uma espécie de amuleto contra o mau-olhado e, na sua confecção, era utilizado o alho.

Chover no casamento
De acordo com a tradição hindu, chover no dia do casamento é considerado um sinal de sorte.

Damas de Honor
As testemunhas, ou damas de honor exigidas num casamento romano, protegiam a noiva, vestindo-se de maneira semelhante a ela, enganado assim os maus espíritos, evitando o mau olhado e a inveja.

Dar o Nó
A expressão “dar o nó” vem de antigas tradições relativas aos casamentos Egípcios e Hindus, onde as mãos da noiva e do noivo são literalmente atadas, demonstrando o seu laço de união.

Diamantes
Diamantes sobre ouro ou prata, ficaram muito populares a formalizar um compromisso, devido aos Venezianos o terem feito, por volta início do século XVI.

Danças
Na Turquia, antes da noiva sair do local da cerimónia, pede às suas amigas solteiras para escreverem os seus nomes na sola dos seus sapatos. Depois da noite de dança, a tradição dita que a assinatura da pessoa que estiver mais gasta será a próxima pessoa a casar.

Data para casar

A popularidade dos casamentos em Junho descende da deusa Romana Juno, que era o deusa do casamento, do nascimento e do coração.
No Brasil, o mês preferido também é Maio, provavelmente, pela referência de Maya, Maria, mãe.

Despedidas de solteiro
As despedidas de solteiro foram originadas pelos soldados Espartanos, que se despediam dos seus dias de solteiros com uma festa desconcertante.
Em Portugal o típico vestido de casamento, antes do século vinte era tradicionalmente preto.

Evitar casar em família
Na tradição católica originalmente usava-se anunciar o casamento, afixando a intenção dos noivos, para assegurar que estes não eram família.

Flor na lapela
A tradição do casamento de o noivo usar uma flor no fato origina dos tempos medievais quando os cavaleiros usavam uma flor para simbolizar a pessoa amada como prova do seu amor. 

Levar a noiva ao colo

Os romanos carregavam a mulher no colo ao levá-la para casa, para evitar que ela tropeçasse, o que significava mau presságio.

Lua-de-Mel
A Lua-de-mel tem origem no povo germânico, pois era costume se casar na Lua Nova. Na cerimonia, os noivos bebiam uma mistura de água com mel para proporcionar boa sorte. 
O costume também poderia ter nascido em Roma: os convidados pingavam gotas de mel na porta de entrada da casa dos noivos para que estes tivesse uma "vida doce". 
Os judeus acreditam que casar na Lua Crescente é prenúncio de felicidade.
Outra opção é termo lua-de-mel vir também do tempo em que o casamento era um rapto, muitas vezes contra a vontade da rapariga. O homem apaixonado raptava a mulher e escondia-a durante um mês (de uma lua cheia até à outra) num lugar afastado. Durante esse período, tomavam uma bebida fermentada, à base de mel, que devia durar 28 dias, o tempo do mês lunar. 
A lua-de-mel, tal como a conhecemos hoje, tem origens nos hábitos ingleses do século XIX. O recém-casado passava uma época no campo para se libertar das obrigações sociais

Posição dos Noivos
A razão da noiva ficar sempre do lado esquerdo do seu noivo tem a sua origem nos anglo-saxões. O noivo, temendo a tentativa de rapto da noiva, deixava sempre o braço direito livre para tirar a sua espada.

Roubar a noiva e bater o pé
Na Finlândia existe a tradição do  roubo da noiva, feito pelo padrinho do noivo. Para a reaver, não necessariamente sóbria, o noivo terá de completar com sucesso uma ou mais tarefas. Também na Finlândia existe a tradição do "bater do pé": o casal deve bater o pé (com força) no momento em que a faca toca o fundo do prato do bolo. O primeiro a bater o pé demonstra logo aí quem manda em casa.

Sorte e Fertilidade

As ferraduras são consideradas objectos de boa sorte num casamento devido à sua forma em lua, que se diz símbolo da fertilidade.
Na Alemanha, a noiva transporta sal e pão no seu bolso para assegurar recompensa, o noivo transporta grãos de cereais, para dar saúde e sorte.
Os ingleses acreditam que se a noiva encontrar uma aranha no vestido de casamento, esta trará sorte ao casamento. 
Na Holanda planta-se um pinheiro fora da casa dos recém-casados, símbolo de fertilidade e de sorte.
 Uma noiva sueca costuma colocar uma moeda de prata oferecida pelo seu pai e uma moeda de ouro oferecida pela sua mãe, em cada sapato, assegurando que ela nunca passará sem eles.
Na Índia, o irmão do noivo atira com flores sobre o casal no fim da cerimónia para os proteger do mal.
No Egipto, para dar boa sorte, as mulheres egípcias beliscam a noiva no dia do seu casamento.
Na África do Sul, ambos os pais da noiva e do noivo, transportam fogo, simbolizando o fogo que passa dos seus corações acendendo um novo fogo no coração dos recém-casados.
As mulheres marroquinas tomam um banho de leite para se purificarem antes da cerimónia do casamento.

Vestido de Noiva
A tradição ocidental do vestido branco foi iniciada em 1840 em Inglaterra pela Rainha Victoria, no seu casamento com o príncipe Alberto. No Japão, o branco foi utilizado para as noivas, muito antes da Rainha Victoria o ter popularizado no mundo ocidental.
Na Dinamarca, as noivas e os noivos tradicionalmente trocam as roupas um com o outro, para confundir os maus espíritos.

Véu e grinalda da Noiva
O uso do véu da noiva era um costume da antiga Grécia. Os gregos acreditavam que a noiva, ao cobrir o rosto, ficava protegida do "mau-olhado" das mulheres e da cobiça dos homens. Tinha ainda um significado especial para a mulher: separava a vida de solteira da vida de casada e futura mãe. Hijab (véu), quer dizer, em árabe, "o que separa duas coisas".
O uso da grinalda permitia que a noiva se distinga dos convidados, fazendo com que se pareça com uma rainha. Tradicionalmente, quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e de riqueza.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

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