sábado, 31 de agosto de 2019

10 anos do blogue "A Busca pela Sabedoria"

Parece incrível, mas o blogue a Busca pela Sabedoria Faz hoje 10 anos! Pouca importância terá para outras pessoas, mas para mim – Micael Sousa, o autor – é muito importante. Este blogue surgiu numa altura da minha vida em que precisava de respirar coisas novas, e quem diz respirar diz ativar o pensamento com novos assuntos. Isto surgiu depois de estar a trabalhar há 2 anos no ramo da engenharia, mas onde, na prática, pouca era a verdadeira engenharia que fazia. Não passavam de rotinas e desencadear hábitos já estabelecidos sem muita oportunidade para pensar e inovar, especialmente no que fosse além daquele restrito mundo profissional, mas baseado na experiência que no conhecimento sistematizado. 



Acredito que isto aconteça a mais pessoas. Terminam as vossas formações, em cursos que até vos deram prazer a fazer, e depois vão para o mercado de trabalho e encontram uma realidade que não vos estimula nem desafia, mas que vos faz cair um peso sobre os ombros repressivo. Foi assim que me senti, porque sempre gostei da novidade de aprender coisas novas e cruzar conhecimentos, tal como de admirar e seguir apenas aqueles que merecessem respeito pelo que eram e faziam, não por qualquer outra convenção ou construção social fruto do acaso. 

Ao longo de 10 anos o blogue serviu de repositório para aquilo que ia descobrindo, aprendendo, estudando, projetando e estudando – repeti estudar porque foi no estudo formal que descobri um escape nos múltiplos cursos superiores que fui fazendo enquanto trabalhava. São bem percetíveis essas etapas e estados nos temas que dominam certos períodos de produção do blogue. Houve épocas especificamente dedicadas ao cinema, a filosofia, arte, política, património, ambiente, planeamento espacial e jogos de tabuleiro, isto só para citar alguns temas dominantes. O blogue sempre serviu como exercício de autorreflexão e estruturação do conhecimento. Não que seja uma fonte de conhecimento infalível, nada disso, mas porque é uma busca para o tentar ordenar conhecimento. Não são os textos mais úteis, mais inteligentes, com mais sabedoria, mas são aqueles que me foram possíveis e importantes de fazer nestes exercícios camuflados, nesta busca. 

O ritmo de produção já não é o que era. O blogue já vai longe das quase 1.000 visualizações por dia que chegou a atingir em certos momentos, até porque tenho cada vez menos tempo, mas solicitações e até mais blogues e vblogues para alimentar. É verdade, até pelo youtube tenho andado, principalmente para falar sobre jogos de tabuleiro modernos, enquanto arrisco, por vezes, uns textos sobre conteúdos aqui abordados. No fundo são mais exercícios de quem não teme o ridículo ou a produção de qualidade duvidosa porque sabe que isso é imensamente útil e necessário para se sentir vivo enquanto segue um caminho dinâmico rumo a alguma coisa de melhor. 

Então passaram 10 anos, mais de 650.000 visualizações, 452 textos e quase um milhar de comentários. A vontade é continuar, sempre ao ritmo próprio de cada momento da minha vida, porque isto dos blogues são coisas que fazem sentido por serem pessoais.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Variações no cinema português: um filme sobre António Variações

Tenho de admitir que tenho sempre uma certa desconfiança dos filmes portugueses. Mero preconceito, especialmente porque não lhes dou assim tantas oportunidades para me surpreenderem. Ontem fui ver “Variações”, que retrata a vida de António Variações, um cantor muito especial da história da música portuguesa. 

Fonte da imagem: https://mag.sapo.pt/cinema/filmes/criticas/variacoes-estar-alem-da-criatividade-para-revelar-antonio-ao-mundo

António Variações era um excêntrico, com uma personalidade com uma estravagância que irradiava em tudo o que fazia, especialmente na música, a sua paixão. Barbeiro de profissão, e cantor por vocação, ainda que sem formação, falamos de um homem que quebrava as regras e convenções sociais. Andou pelo mundo, mas não podia escapar à sua alma lusa. As suas músicas eram polémicas, ousadas e muito à frente do seu tempo, porque no fundo eram mesmo do seu tempo mas feitas com liberdade. Morreu cedo, de broncopneumonia muito provavelmente relacionada com o HIV, numa época em que não havia tratamentos adequado para essa calamidade. A sua homossexualidade, quase de forma inexplicável, acabou por ser aceite pela sociedade portuguesa da época, ainda fortemente conservadora. Os anos 80 foram um período de liberdade em Portugal, resultado da estabilidade que a jovem democracia ganhava. Variações, apesar da sua curta carreira e fama, fez parte desse movimento cultural. Hoje não duvidamos disso. António Variações era único, dificil de classificar no estilo e no tipo de música que criava. 

Este breve resumo pretende enquadrar a riqueza desta personagem e o seu lugar na história recente de Portugal. Ou seja, havia mais do que conteúdo para fazer um filme de qualidade, embora os filmes baseados em factos reais possam ser desinteressantes, pois a criatividade fica sempre condicionada. Neste caso, conhecer Variações é por si um ato de inspiração criativa, especialmente pela forma como o filme foi feito. Através desta longa metragem conhecemos a vida de António Ribeiro, que adotaria o nome de António Variações. Conhecemos o contexto social dos anos 50 no Portugal Rural, de finais dos anos 70 e inícios de 80 em Lisboa. Percebemos como foi o processo criativo deste autodidata e o mundo da música na época. Somos introduzidos à vida noturna e também, de algum modo, à comunidade gay de então. 

Mas mais que tudo isso. O filme é forte. É lento quando necessário, mas também ritmado e repleto de música interpretada pelo próprio protagonista, o que deve ter sido um enorme desafio. É magnificamente interpretado por Sergio Praia como António Variações e por Filipe Duarte como Fernando Ataíde, que encarnam uma relação amorosa de forma credível e repleta de emoção, algo que não terá sido fácil de fazer, tendo em conta toda a carga social e de preconceito associados às relações homossexuais, que por vezes são abordadas de forma incompetente, transformadas e retratadas de forma pouco digna, em situações de gozo e de ridículo. Guarda-roupa, ambientes, cenários, tudo feito com qualidade. Realização e produção irrepreensível, ao nível do que se faz de bom noutros países do mundo. João Maia está de parabéns! Trata-se de um filme tecnicamente rigoroso, mas passível de ser apreciado pelo grande público. 

Não estava com grandes expetativas, confesso, mas Variações emocionou-me. Era uma terça-feira e o filme estava em exibição há vários dias. Só consegui bilhetes para a primeira fila, o que é impressionante para um filme português. Provavelmente seria sempre um chamariz pela vida da personagem retratada e pelo sucesso que as suas músicas ainda hoje têm. Apesar disso a concretização não dececiona, pelo menos a mim não desiludiu, naquilo que foi, a meu ver, um dos melhores filmes portugueses feitos nos últimos tempos.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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