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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A fome dos Pardais na china de Mao Tsé-Tung e ignorância da ideologia

Mao Tsé-Tung conseguiu, com os seus camaradas, depois de uma longa guerra civil e dos efeitos da ocupação japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, implementar um regime comunista na China. Em 1949 Mao consegue juntar a presidência do partido comunista chines à da própria china. Intitulava-se como o Grande Timoneiro, implementando um regime totalitário onde o culto da personalidade do líder foi muito forte. Mao era, acima de tudo, um ideólogo e um doutrinador, tentando utilizar os ensinamentos marxistas para modernizar a China, numa relação nem sempre de cooperação com a URSS.

Poster da campanha "mata um pardal" - autor desconhecido

A China que Mao Tsé-Tung conquistou em meados do século XX ERA esmagadoramente rural e atrasa do ponto de vista tecnológico, a nível de desenvolvimento quase medieval, especialmente nas zonas rurais. Durante a década de 50 os resultados da governação de Mao não foram os esperados, por isso implementou aquilo a que chamou “O Grande Salto em Frente”, entre 1958 e 1962. Para ele uma das prioridades seria acabar com as 4 pestes: os ratos, moscas, mosquitos e pardais. Aos ratos e moscas atribuía a culpa de doenças e da falta de higiene. Os mosquitos relacionavam-se com a malária, e os pardais com as perdas das colheitas. 

Assim, em 1960 popularizou-se a campanha “matar um pardal”, que incentivava as pessoas, especialmente nas áreas rurais a caçar e matar pardais nos seus tempos livres. Foi uma matança enorme, que quase exterminou todos os pássaros da china. Mas ao eliminarem os pardais e muitas outras aves, eliminaram também os principais predadores das pragas de insetos que atacavam também as colheitas agrícolas. A china sofreu uma fome massiva que causou a morte de dezenas de milhões de chineses. Há estimativas de terem morrido de fome pelo menos 20 milhões de pessoas por causa deste erro, embora outras estimativas sejam muito mais dramáticas.

Atribui-se a Mao Tsé-Tung a frase “Prefiro um vermelho a um técnico”. Isto revela o pensamento de Mao, a desconfiança perante os intelectuais, os técnicos e quem detinha conhecimento aplicado, algo que se sentiria mais fortemente na época da “Revolução Cultural”. A sua ideologia e a sua doutrina estavam acima de tudo, de todos os conhecimentos e saberes, especialmente os técnicos e académicos. O ditador irritava-se facilmente com a crítica e com todos aqueles que discordavam dele. Foram várias as purgas e as perseguições. “O Grande Salto em Frente” foi um descalabro e Mao Tsé-Tung foi forçado a afastar-se do governo em 1962. Mais tarde, em 1966 voltaria ao poder, munido do seu “livro vermelho”, que era um compêndio de várias fases da sua autoria, pronto a fazer a famosa “Revolução Cultural” e que rapidamente passaria do ferver ideológico ao marasmo social. A supressão e afastamento da influência dos membros mais cultos, esclarecidos e conhecedores da vida ativa chinesa, substituídos assim pelo movimento popular miliciano da Guarda Vermelha, composta por fanáticos que se mostravam incompetentes nos assuntos da governação e produção, voltou a estagnar novamente o desenvolvimento do país. Essa tendência só se alteraria posteriormente com o retorno de Deng Xiaoping a partir de meados dos anos 70, que iria abrir a china e a sua economia ao mundo, mas mantendo o domínio do partido comunista chinês. 

Este episódio da história universal, tão estranho que quase parece uma ficção, demonstrou os efeitos catastróficos que podem surgir das políticas públicas dirigidas apenas pela ideologia política, sem recurso a conhecimentos técnicos e científicos. Foram eventos desta natureza que desacreditaram e continuam a desacreditar a ideologia política. No entanto, ainda assim, conhecemos casos de líderes políticos que continuam a lutar por convicções pessoais, sem demais fundamentos para além dos seus sistemas de crenças. 


Referências bibliográficas:


Li, W., & Yang, D. T. (2005). The great leap forward: Anatomy of a central planning disaster. Journal of Political Economy, 113(4), 840-877.

Peng, X. (1987). Demographic consequences of the Great Leap Forward in China's provinces. Population and development review, 639-670.

Roberts, J. A. (2011). A history of China. Macmillan International Higher Education.

Saada,  Philippe (2017) Mao, le père indigne de la Chine moderne, In Les coulisses de l'Histoire.
Cinétévé & Arte



quarta-feira, 28 de março de 2018

Sabia que é naturalmente racista mas depende de si não ser?

No documentário “É Racista?” de 2015 exibido pela RTP3, com o título original de “The Truth About Racism”, da autoria de Paul Scott, descreve-se uma experiência social com 5 voluntários. São 5 pessoas residentes na Austrália, todos de origens éticas e raciais diferentes. De notar que irei usar aqui o termo racial não por haver mais do que uma raça humana, mas para ajudar a reforçar as diferenças físicas que aqui são importantes para compreender os conteúdos. O documentário, tem uma clara mensagem política que tenta desmontar e explicar o racismo, é inegável que tem essa intenção pelo que se deve referi de antemão. Mas não o faz através de uma análise histórica da humanidade, dos episódios mais polémicos. Foca-se, em alternativa, na neurociência, na psicologia comportamental e efeitos sociológicos das dinâmicas de grupos.


O documentário relata a forma como os voluntários são submetidos a várias experiências que, gradualmente, vão demonstrando que, mesmo os que não se consideram racistas – pois no grupo está um militante de um movimento político que defende a supremacia racial branca – tendem a adotar comportamentos claramente racistas de forma inconsciente. Numa das experiências, os vários participantes foram submetidos a uma dinâmica que consistia em reconhecer caras que iam sendo mudadas em painéis numerados. Percebeu-se que conseguiam identificar mais facilmente as mudanças dentro do seu intra-grupo étnico e racial, que nos restantes. Por exemplo: quando um asiático era substituído por outro asiático, os não asiáticos tinham dificuldade em reconhecer a substituição.

Afinal todos reconhecemos mais facilmente as diferenças de rostos dentro da nossa etnia? Parece que sim. Sendo válido para todos os grupos. Consoante estamos a analisar uma face, se for do nosso grupo étnico e racial, a maioria de nós fixa mais os olhos e outras partes mais distintivas e expressivas da face. Isto leva a uma incapacidade de perceber e ler as emoções e estados de espírito que transparecem através das expressões faciais. Noutro exercício também se demonstrou que, dentro do nosso intra-grupo étnico e racial, sabemos ler mais facilmente a rapidamente a passagem de um estado alegre para triste e irado pelas expressões faciais.

Numa outra experiência, apenas olhando para fotografias de faces que representavam a zona dos olhos e envolvente, e às quais se associavam palavras que representavam emoções positivas e negativas, os participantes tendiam a atribuir as emoções mais negativas às etnias e raças que não a sua. Há que relembrar que apenas um dos voluntários se assumia como racista.

Foram feitas experiências com crianças que demonstraram comportamentos semelhantes, numa quase sempre preferência por leituras positivas de situações dúbias quando o interveniente era caucasiano do que quando se tratava de um africano. Isto ocorria mesmo quando as situações se invertiam, favorecendo sempre os caucasianos. Seguiu-se uma escolha de bonecas com traços étnicos distintos. As crianças escolhiam as que se pareciam consigo, mas quando foi na altura de adjetivar as bonecas de “boa” e “bonita” escolhiam maioritariamente a caucasiana, mesmo que não fosse o seu grupo étnico e racial. Aqui denota-se, provavelmente, um peso dos valores sociais incutidos pela própria sociedade.

No documentário são reveladas mais experiências que seguem a mesma tendência. Conclui-se que tendemos a não conseguir ler faces diferentes das nossas, e assim a sermos puco competentes na comunicação corporal com indivíduos diferentes de nós. Tendemos a desconfiar e temer o que é diferente e á não compreensão, sendo difícil estabelecer empatia. A melhor maneira para remover estas tendências que geram intolerância e falta de empatia passa pelo fortalecimento do convívio, da interação com base em sentimentos positivos. Quantas mais pessoas um determinado individuo conhecer de outra etnia e origem racial, associadas a boas experiências, diferente melhor poderá com eles lidar e tratar com igualdade, sem preconceitos. Por vezes não é preciso forçar experiências agradáveis, basta a abertura para conhecer os outros, as suas histórias. É um ensinamento e uma cultura humana relevante para o seculo XXI. Nas sociedades multiculturais, onde as pessoas de várias etnias e que apresentem traços corporais diferentes convivam em clima de paz social, dificilmente se irá instalar um comportamento racista, pois só assim conseguimos contrariar o modo como processamos informação sobre os outros. Se não tivermos consciência destas tendências e não promovermos a integração racial como forma de cultural irão sempre pairar estes preconceitos, que são tanto biológicos como fruto das construções sociais. Temos opção. A nossa realidade não precisa de ser racista. Em súmula é isso que este documentário transmite.

Para saber mais sobre este documentário: 
https://www.sbs.com.au/guide/article/2017/01/31/truth-about-racism-there-scientific-cure


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Como os bancos criam moeda virtual e a alternativa do Bitcoin

No documentário ”Bitcoin: O fim do dinheiro como nós o conhecemos”, da autoria de Torsten Hoffmann, faz-se uma breve introdução à história do dinheiro, mas o objetivo é projetar no futuro como será o sistema monetário e financeiro. No documentário é abordado conceito de moeda virtual conhecido como Bitcoin, que permite criar um modelo monetário internacional sem intervenção estatal nacional e bancário, em teoria imune a criação descontrolada de moeda fiduciária (que depende apenas da confiança que nela se deposita). Ou seja, apesar do Bitcoin ser uma moeda virtual permitiria controlar a multiplicação de dinheiro virtual no sistema financeiro internacional, basicamente porque evita replicação de crédito para além da quantidade de moeda preestabelecida. Ou seja, ao contrário de um banco, que pode emprestar dinheiro que não tem de facto, criando artificialmente nova moeda na economia, com o Bitcoin implementado de forma generalizada tal não seria possível, pois o dinheiro só é transferido se existir ainda que seja um número virtual. Isto pode parecer estranho, mas vamos aprofundar um pouco mais esta temática, com base nas informações presentes no documentário já referido.
 
Mercadores a contar dinheiro - Salomon Koninck

Os Estados, desde o momento em que abandonaram a relação com o padrão ouro das suas moedas, podem emitir a quantidade de moeda que entenderem, sendo que os limites são apenas definidos pela reação do sistema financeiro a essa emissão de moeda. Ou seja, não necessitam de ter essa quantidade de dinheiro a circular na economia equivalente ao ouro nas suas reservas nacionais, basta haver confiança de que aquele papel ou metal vale o que nele se inscreve, daí o termo fiduciário que é um sinónimo de “confiança”. Habitualmente são os indicadores de inflação e deflação que levam à produção de moeda, tal como da confiança dos seus utilizadores. Se existe inflação e aumento dos preços evita-se produzir mais moeda pois é uma forma de impedir que o dinheiro circulante desvalorize e os preços aumentem ainda mais. Por outro lado, com a deflação produz-se mais moeda, de modo a desvaloriza-la, encorajar o consumo e evitar que se acumule dinheiro com a espectativa de ganhos futuros, uma vez que o dinheiro acumulado tende a valer menos com cada nova emissão de moeda. Simplesmente deixa de compensar ter o dinheiro “parado” e os detentores de capital são impelidos ao investimento. A tudo isto, tanto pela via da inflação e deflação, tem uma relação com a especulação financeira, uma vez que existe grande imprevisibilidade pela complexidade destes sistemas que são altamente reativos.

Neste documentário de Torsten Hoffmann refere-se também o efeito dos bancos que, ao acumularem e emprestarem dinheiro, através dos saldos negativos, criam moeda artificial na economia. De modo simplificado: se um banco tem mais dinheiro em crédito do que tem na realidade em depósitos e ativos acaba por colocar mais moeda em circulação na economia do que realmente deveria existir. E este fator multiplicativo pode ser grande se o pensarmos enquanto sistema de depósitos, investimento e empréstimos em que o mesmo dinheiro é continuamente investido e emprestado na forma de dívida que pode não corresponder aos ativos e onde existem múltiplos lucros potenciais relacionados com algo que na prática não existe.

Em teoria, segundo os defensores do Bitcoin, um sistema económico com base nesta moeda poderia ser menos propenso a crises e a bolhas especulativas. Seria supostamente mais estável, ainda que os Estados perdessem parte dos seus meios de intervenção na economia através da manipulação da moeda. Paradoxalmente, seria um sistema altamente restritivo mas incrivelmente liberal pois impedia a intervenção estatal. Ou seja, seria liberal e restritivo em simultâneo, virtual mas real por não crescer descontroladamente.

Não sou economista e muito menos especialista em sistemas financeiros e bancários, mas o documentário é interessante para explorar estas questões e para tentarmos perceber a complexidade do sistema financeiro e monetário que utilizamos todos os dias, tal como perceber que existem alternativas ao dinheiro, tal como o conhecemos.
 
 
 

 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Decifrando o Estado Islâmico - Um documentário sobre propaganda contemporânea


Dos muitos documentários que atualmente passam nos canais da especialidade em Portugal, infelizmente poucos são os que merecem ser vistos. Mas, felizmente, há sempre exceções. Uma delas é documentário “Decifrando o Estado Islâmico”, exibido no canal Odisseia, da autoria de Riccardo Mazzon, Antonio Albanese e Graziella Giangiulio.


Muitos programas falam do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Daesh), mas este documentário ganha especial interesse. Isto porque exibe informações, muito pouco conhecidas, sobre o modo como funciona a propaganda do Daesh, algo que não chega ao comum espectador ocidental.

A máquina de propaganda do Daesh é profissional, produzindo conteúdos em vários formatos. Os vídeos são chocantes, não tanto pela violência que exibem, mas pelo simples facto de existirem e e retratarem situações reais. Ou seja, a máquina de propaganda do Daesh é incrivelmente forte e sofisticada no modo como alia a técnica à mensagem. Recorrem a técnicas cinematográficas vistas em filmes de qualidade mundial, tudo feito para criar impacto e dimensão épica. Utilizam as mesmas ferramentas do marketing e comunicação utilizadas no ocidente para fomentar o consumo e entretenimento. Utilizam esses meios aplicados ao terror.

Ao contrário do cinema, que tenta simular a realidade, a propagando do Daesh usa a realidade para simular o cinema de acção épico, criando imagens poderosas. Só vendo para acreditar. Mas esses conteúdos, talvez corretamente, são censurados no ocidente, pois servem efectivamente para recrutar jovens ocidentais susceptíveis à sua mensagem. Publico não faltará, uma vez que nas sociedades pós-modernistas os valores estão em contante reformulação e por vezes é difícil definir uma identificação colectiva e individual. Os efeitos do capitalismo consumista e individualista e das políticas falhadas de integração social contribuem também por sua vez para o problema em causa. Misturando os ingredientes da susceptibilidade dos jovens, do seu desenraizamento, da falta de perspetivas de futuro, de uma busca por identidade e sentimento de pertença, fervor religioso, necessidade de realização e glória pessoal, tal como o efeito da cultura de filmes e jogos de vídeo violentos, criam-se as condições para o jihadismos se desenvolver.

A geopolítica, a história e a religião explicam por sua vez também as razões de existirem territórios e momentos próprios ainda mais propícios para o extremismo islâmico ocorrer. Isso daria, como é óbvio, muito mais que escrever.

Assim , do documentário, pode concluir-se que o Daesh tem usado os meios audiovisuais, as redes sociais e outras ferramentas próprias do mundo ocidental, da seu capitalismo, liberalismo e democracias para derrotar o seu inimigo: o próprio Ocidente.

Dificilmente poderá haver uma solução para este problema enquanto continuarmos a ver o problema somente segundo a matriz de valores do ocidente., ainda mais se de modo sectário.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Geopolítica do Médio-Oriente explicada através de "The Game of Thrones"

Benyamin Nethanyaohu terá,  perante o congresso dos EUA, comparado  a geopolítica do Médio-Oriente ao mundo fantasioso de "The Game of Thrones" e à geopolítica de Westeros. Os comentários a este bizarro acontecimento serão seguramente imensos. Deixo isso aos leitores deste texto. Interessante foi o desenvolvimento subsequente e profundamento da comparação em causa, divulgada depois pelo Washington Post e pelo Courrier International.
 

Aqui fica então o resumo do aprofundamento da comparação (traduzido pelo autor deste blogue) entre a várias casas (ou famílias) e grupos que compõem o universo geopolítico do reino de Westeros:
 
Lannisters – Arabia Saudita. É a casa mais rica e mais pujante de Westeros, assumem-se como "fazedores de reis" ou mesmo como os seus influenciadores mais diretos. Os eus assuntos familiares são sempre prioritários. Muitos criticam a sua brutalidade ou o facto do seu poder residir principalmente nos seus imensos recursos naturais. Mias que tudo defendem a sua hegemonia em Westeros, mas estão em cheque pelas suas recentes ações políticas.

Stark – Movimentos democráticos de oposição internos. Os movimentos existentes nos vários países que chegam ao poder mas são derrubados ou que ficam perto de o conseguir mesmo antes de serem esmagados. Tiveram um pequeno momento de sucesso, mas depois são atraiçoados e aniquilados. Alguns membros sobreviventes desta família entram na clandestinidade ou sob a proteção de poderes que não podem confiar.
Baratheon – Autocratas Árabes. Governaram durante algum tempo Westeros. Agora dependem dos Lannister devido às agitações generalizadas no reino, mas tentam encontrar novos aliados fora da sua terra natal.
Targaryen – Estados Unidos da América. São uma dinastia que vem de longe e dominou durante décadas. A sua hegemonia deve-se ao seu superior poder de fogo. As relações de interesses com os Lannisters entraram em crise, Muitos em Westeros desejam o seu regresso e intervenção para garantir a estabilidade do reino.
Greyjoy – Turquia. São nostálgicos da época em que reinavam sobre grandes áreas do território de Westeros. Para todas as outras casas isso são apenas histórias antigas, pois os Greyjoy mantém-se isolados nas suas fortalezas, rodeados de inimigos.
Martell – Irão. Vêem-se como distintos das outras grandes casas de Westeros, de uma origem etnica orgulhosamente diferente. Têm profundo ódio aos Lannisters e Tyrells.
Tyrell – Israel. Possuem um reino prospero. Apesar das diferenças, encontraram uma causa comum com os Lannister.
Os selvagens – os islamitas instalados a norte do muro. Intitulam-se como os povos livres que recusam as regras do sistema instituído.
Os caminhantes brancos – O Estado Islámico. A sua tática de terrível eficácia consiste em recrutar em massa novos membros. Ninguém sabe ao certo de onde vêm e o que querem, mas todos concordam que são abomináveis.
A guarda da Noite – Os Curdos. Estão encarregados da defesa de Westeros das invasões vindas do norte do muro, dos selvagens e dos caminhantes brancos. Há quem pense que são apenas mais uns criminosos.

Os povos dos rios - Iémen, Síria, Iraque e outros. São os povos que pagaram o maior preço com as guerras e destruição entre as grandes casas, pois, outrora, as suas terram eram pacíficas.


Fontes:

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nem tudo o que parece é Cuscuz (ou Couscous)

Num artigo sobre culinária vou tentar ser ligeiro, ou seja, light. Como frequentador de restaurantes de origem Norte Africana e tendo na família várias pessoas que fazem receitas diferentes de Cuscuz (ou couscous), tenho de falar de Cuscuz.

É cada vez mais corrente por Portugal fazer-se Cuscuz, como receitas próprias, acompanhamento de saladas ou afins. É aqui que se justifica este artigo. Especialmente por cá, talvez por ser algo novo, confunde-se Cuscuz com Sêmola.

A Sêmola é o resultado incompleto da moagem de cereais. A Sêmola é utilizada como acompanhamento do Cuscuz. Logo, o Cuscuz não é só a Sêmola. O Cuscuz é todo o prato, composto pelo cozinhado de vegetais, carnes e então a sêmola. Existem muitas receitas de Cuscuz, cada uma característica de cada zona, sendo típicas do Norte de África.

Receita de Cuscuz Tradicional Marroquino - fonte: receitas gnt
Dizer que se come Cuscuz quando se come algo feito apenas com a Sêmola seria o mesmo que comer só o arroz do tríptico "Cozido à Portuguesa" e dizer que estamos a comer todo o prato, e sempre que comêssemos arroz disséssemos que comíamos cozido à portuguesa. 

Por isso, quando comerem Cuscuz, comam tudo, com tudo o que é suposto e têm direito. Mas podem comer só a sêmola, pois fica muito bem noutros pratos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Espirrar em várias línguas

Recuperando parte de um antigo texto aqui do blogue [1], pois na sua parte final consta algo que merece ser destacado por si só num texto isolado. Isto a propósito dos espirros.
Mulher em Lágrimas - Picasso
Quando espirramos fazemo-lo como um movimento involuntário, ainda que algumas pessoas os tentem conter e travar. Não isso que vou discutir ou analisar. O que aqui vale a pena referir é o som que fazemos. A onomatopeia (processo de formação de uma palavra por imitação de um som natural [2]) do espirro é uma curiosidade em si, pois pode ser muito diferente de língua para língua, apesar de até poderem ter origens comuns.

Assim, quando espirrarem no estrangeiro, muito provavelmente denunciam a vossa condição de forasteiros.

Aqui ficam então alguns exemplos demonstrativos [3]:
• Em Árabe é "عطسة"
• Em Alemão é "hatschi"
• Em Búlgaro é "апчих"
• Em Cantonês é "hut-chi" (乞嚏)
• Em Chinês é "penti" (喷嚏)
• Em Dinamarquês é "atjuu"
• Em Esloveno é "kihanje".
• Em Espanhol é "atchís" e "atchús"
• Em Francês é "atchoum"
• Em Hebreu é "apchee"
• Em Hindi é "chheenk".
• Em Indonésio é "'hatchi'"
• Em Inglês é “Atchoo”
• Em Islandês é "Atsjú"
• Em Japonês é "hakushon" ou "kushami". Escrito como はくしょん ou 嚏(くしゃみ).
• Em Letão é "apčī",
• Em Marata é "shheenka".
• Em Neerlandês é "hatsjoe" e "hatsjie"
• Em Norueguês é "atsjo"
• Em Polaco é "apsik"
• Em Romeno é "hapciu"
• Em Tagalo é "hatsing"
• Em Tailandês é "Hutchew ou Hutchei" (ฮัดชิ่ว or ฮัดเช่ย)
• Em Tâmil é "Thummal".
• Em Telugu é "Thummu".
• Em Turco é "hapşuu"
 
 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Uma introdução ao Sushi

A proibição de comer carne (primeiro decreto no século VII) e o não consumo de lacticínios levaram a que o peixe fosse a principal fonte de proteínas no Japão. 

Um provérbio japonês diz: “em primeiro lugar come-o cru, só depois grelha-o ou coze-o, como último recurso”. Dai a predileção pelo sashimi. 

O conceito de sushi nasceu um pouco por todo o sudoeste asiático como forma de preservar peixe (e carne), sendo cortado e colocado entre camadas de arroz para ser guardado durante os invernos e monções. A fermentação natural que ocorre quando o peixe é associado ao arroz gera ácido láctico que previne o apodrecimento. A junção do vinagre faz acelerar todo o processo. 

Foi no século XVII que surgiu a ideia de colocar pedaços de sashimi sobre bolas de arroz, nascendo os nigiris. Posteriormente começaram a enrolar, utilizando folhas de algas secas, os primeiros makis.
Bigsushi - Mary Ellen Johnson
O arroz do japão, fruto de séculos de manipulação natural, tem o bago mais curto e arredondado, tento também uma especial aderência que permite fazer os vários tipos de sushi e permite ser comido mais facilmente com recurso a pauzinhos. O processo de cozinha do arroz é bastante exigente, não podendo perder demasiada humidade, nem as peças de sushi serem feitas com o arroz demasiado quente para não afetar a frescura do peixe, nem demasiado frio para que não se perca a aderência. 

O peixe terá de ser sempre muito fresco. No caso dos peixes azuis (como o carapau e a sardinha) o próprio filete de peixe deve manter-se durante algum tempo em vinagre para assegurar a sua frescura e garantir um efeito anti-bacteriológico adicional. 

Da cultura japonesa o sushi recebe o conceito de equilíbrio. O Arroz deve ser cozido na mesma quantidade da água. Os vários sabores e as texturas devem equilibrar-se: o doce com o amargo, o crocante com o cremoso. 

Deve mergulhar-se os pedaços de sashimi e sushi no molho de soja para assegurar uma mais fácil digestão. Separadamente, ou diretamente no molho de soja, deve adicionar-se wasabi, que tem um efeito anti-bacteriológico. O gengibre, que é uma raiz tal como o wasabi, é também anti-bacteriológico, mas serve também para “limpar o paladar” sempre que se altera de tipo de sushi ou sashimi. 

Um mito japonês sugere que só os homens podem fazer devidamente o sushi, uma vez que a temperatura e humidade das mãos femininas alteram as propriedades do peixe. Obviamente é um mito sem qualquer fundamentação. 

As peças de sushi e sashimi devem ser comidas integralmente, sem cortes adicionais ou qualquer outro tipo de deturpação, de uma só vez. Não se devem usar as mãos nem metal para pegar as peças. Qualquer violação destes preceitos é considerada uma falta de etiqueta e respeito pelos japoneses.
Referência s bibliográficas:
  • Lins, Ana; Morais, Paulo; "Sushi em casa", Matéria Prima, 2012.
  • Wikipédia; "Sushi", disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sushi
  • Vários; "Sushi", Dinalivro, 2006.

domingo, 16 de setembro de 2012

Após Acordo Ortográfico a maioria das visitas ao Blogue veem do Brasil

O mais recente acordo ortográfico, que entrou em vigor em 2009 em Portugal (1.1), gerou desde então, ao longo de um processo moroso que começou muito antes (1.2), grande discussão e contestação. 
Do lado dos detratores do acordo defende-se, entre muitas posições, a descaracterização da Língua Portuguesa, e o seu afastamento para com as suas origens históricas. Do lado dos defensores do acordo empunha-se o estandarte da oportunidade de crescimento da língua, dos espaços e mercados do português como língua muito mais universalista. No fundo, as mudanças, via acordo ortográfico, aproximariam o português dos vários países de língua oficial portuguesa, dando-lhes escala em todos os sentidos, potencialmente alargando o próprio grupo da lusofonia. A isso juntar-se-lhe-ia todo o potencial económico associado decorrente do alargamento e criação de um mercado cultural único para os vários países, ou seja, haveriam muitos mais leitores e os custos de publicação e divulgação seriam reduzidos.
Bem, ambas as posições são, no mínimo, defensáveis, mas ainda haverá - com certeza - muita discussão sobre este assunto, e só o tempo revelará que as previsões se concretizarão.
Baile Popular -Di Cavalcanti
A experiência aqui do blogue, no que toca à escrita segundo o novo Acordo Ortográfico, tem sido reveladora: desde que os textos começaram a ser publicados segundo o novo Acordo Ortográfico o número de visitas vindas do Brasil subiu exponencialmente, sendo hoje o país de onde mais se visita A Busca pela Sabedoria. Obviamente que este exemplo não é representativo e não serve para provar nada, mas pode servir para refletir. 
No entanto, apesar das vantagens de crescimento do mercado para as publicações em português há um dado curioso que raramente é divulgado. Apesar de existir um novo Acordo Ortográfico com o intuito uniformizar o português falado pelo mundo fora, existem variantes para cada país dentro do atual acordo! No fundo, continua a não haver uniformidade total.
Talvez venha um dia em que o português seja uma língua uniforme mundial ou então que desapareça para dar origem a outras línguas. Ninguém saberá isso, até porque a Língua Portuguesa nunca foi estanque, até porque não nasceu do nada e porque tem, como todas as línguas, uma história de reformulações alterações, divergências e uniformizações.

Fontes:
(1) -Portal da Língua Portuguesa, disponível emhttp://www.portaldalinguaportuguesa.org/acordo.php
(2) - História da língua portuguesa, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_l%C3%ADngua_portuguesa

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Porque são diferentes os Emigrantes Portugueses em França?

Agosto é tipicamente, e desde há algumas décadas, o mês de retorno de muitos emigrantes portugueses à pátria de origem, e também agora de muitos dos seus descendentes que nunca chegaram a morar em Portugal. Com a chegada dos portugueses emigrados Portugal muda, sente-se a diferença nos espaços públicos e locais onde tendem a juntar-se mais pessoas: ouvem-se mais “línguas estranhas” um pouco por todo o lado. Também as famílias crescem nesta altura, pois dificilmente haverá quem não tenha familiares emigrados. Com estas mudanças, e respetivos novos influxos humanos, tendem a ocorrer intercâmbios e, por vezes, choques de culturais. O efeito (ou embate) pode dar-se no sentido do de enriquecimento ou de conflito. 
Carga Humana (tríptico 2) - Paula Rego

De um modo geral, independentemente do país de acolhimento, o surgimento dos ditos choques é espectável e normal. No caso de países onde existe forte tradição de emigração o choque tende a ser ainda maior (*), pois tendem a ser países em processo de mudança, restruturação e reconstrução a vários níveis. Ou seja, quem emigra é naturalmente aculturado, mudando e adaptando-se à cultura dos países de acolhimento, mas quando volta às suas raízes também muito do que ficou mudou. O desfasamento é duplamente acentuado tanto pela aculturação dos emigrados como pelas mudanças que ocorrem no próprio país de origem. Pode-se dizer que Portugal é um país com forte tradição de emigração, e que a sociedade portuguesa mudou muito desde a década de 60 do século XX (ver documentário: Portugal um Retrato Social).
Para além disso, e especialmente para o caso dos emigrados em França, o choque cultural é ainda mais forte e evidente, muito devido às próprias características da cultura francesa. Em França a cultura é muito centralizada, exigindo aos imigrantes que a adotem integralmente para melhor integração. Tal não é verdade para outros países de forte tradição de imigração; Um exemplo importante a ter em conta é o da comunidade italiana, tendo sido feito um estudo que comparou o tipo de aculturação que sofreram os  imigrados italianos nos EUA e em França (*): nos EUA, por ser uma cultura federalista que cria condições favoráveis para o continuar da identidade cultural de origem dos imigrantes, os italianos mantiveram muito da sua herança cultural; por outro lado, em França, pelo peso do centralismo e força da cultura francesa, a aculturação foi muito marcada, com a herança da cultura de origem a dissipar-se rapidamente. Assim, é compreensível a forte aculturação dos emigrantes portugueses a viver em França, contribuindo para que pareçam muito mais estranhos aos portugueses residentes que os emigrados noutros países.
No entanto, existem também outras razões internas que podem ajudar a tentar compreender os choques culturais, a própria noção de “cultura de origem” pode ser polémica.. Na verdade não existe uma cultura de origem (*). Existem sim muitas. A cultura urbana nacional não é igual à rural, e mesmo dentro dos meios rurais e urbanos existem grupos bastante distintos, com reações e comportamentos diferentes face às aculturações. Assim, nem todos os emigrantes tendem a comportar-se do mesmo modo perante as mesmas solicitações, até porque, para além disso, cada individuo terá sempre a sua personalidade própria, mais ou menos independente do meio.
Agora em Agosto, quando ouvirem um emigrante a misturar palavras e conceitos, pensem que todos nós, mesmo aqueles que nunca saíram do país e experimentaram viver noutra cultura, recorremos abundantemente a estrangeirismos sem fazermos grande esforço para recorrer aos termos existentes da língua portuguesa – quem nunca disse: “Link”, email, “post”, “briefing”, etc. e tal. A tecnologia, e outras áreas de especialidade, têm tido uma forte influência na língua e contribuído, em parte, para uma certa aculturação anglo-saxónica. Se pensarmos nos termos informáticos e da área da gestão/marketing o rol de estrangeirismos é imenso!
Muito mais haveria para dizer sobre este tema. Para já o melhor é aproveitar o Verão, o clima, as férias e a oportunidade para nos enriquecermos culturalmente com os emigrantes que nos visitam, pois parece que muitos vão continuar a emigrar, esperando um dia voltar.

Referências bibliográficas
(*) Cuche, Denys. “Noção de Cultura em Ciências Sociais”. Fim de Século: 2006

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aos Franceses pouco interessam os Escândalos Sexuais dos seus Políticos?


O escândalo sempre foi algo muito apetecível como tema de controvérsia, quer as pequenas fofocas entre amigos, conhecidos ou vizinhos ou até aquelas relacionadas com as grandes figuras públicas. Dos vários tipos de escândalos, os de conduta sexual estão estre os mais sensacionalistas, e, no caso das figuras públicas ou de proa da sociedade, esse potencial de interesse parece subir ainda mais. Uma razão sociológica evidente relaciona-se com a procura, pelas massas, daquelas características mundanas naquelas personalidades que lhes são, por vezes, apresentadas como arquétipos de perfeição, e modelos a seguir e sinónimos de sucesso. 
Infinidade de maquinas de escrever e infinidade de macacos, e infinidade de tempo = Hamlet - Arman

Mas essa importância pelo escândalo associado às elites não se verifica em todos as sociedades, umas valorizam mais esta procura pelo escândalo privado que outras. Por exemplo, nisto, Inglaterra e França são muito diferentes, especialmente no que toca à vida dos seus políticos/líderes. São os próprios jornalistas franceses a admitir que a vida privada e os escândalos dos seus políticos não interessam à população – alguns jornalistas, em recente reportagem do magazine “Capital” do canal francês M6, referiram vários casos de escândalos abafados e não divulgados por não interessarem ao público francês, um exemplo foi o caso da segunda família de François Mitterrand, que nunca foi revelada durante os anos da sua presidência*. 
Curioso? Sim, de facto. Que quererá isto significar do ponto de vista sociológico e cívico? Um nível superior de cidadania política? Mais respeito pelas pessoas enquanto representantes das pessoas? Uma ilusão e estado que se pretende manter, independentemente da verdade? Bem. Talvez, talvez sim, talvez não. 

sábado, 10 de março de 2012

A Melhor Juventude - Um filme sobre famílias, pessoas e história recente de Itália

Por diversas vezes resisti a pegar neste filme e começar a vê-lo. Assustavam os 366 minutos, divididos em duas partes. Mas como as cotações e avaliações ao filme eram tão positivas, ainda para mais por ser um filme italiano, com verdadeiros atores italianos e a passar-se, quase na íntegra, em Itália, não podia deixar de dar uma oportunidade ao filme.
Diria, em jeito de resumo, que se trata de uma saga familiar, onde se acompanha a vida (e morte) de personagens com ligações familiares e afectuosas, entre si, ao longo de quase 40 anos. Nesse longo desenrolar, dessas vidas pessoais, que se contam no filme, conta-se também a história da Itália, e da própria sociedade Italiana, desde os finais dos anos 60 do século XX até ao início do século XXI.
Ou seja, o filme A melhor Juventude (no original "La meglio gioventù" ou em inglês "The Best of Youth") é uma experiência a não perder para quem se interessar por um filme de forte pendor descritivo das relações sociais, familiares e afectivas. Marco Tullio Giordana dirigiu este bom filme quase ao jeito de uma (boa) novela, bem escrito também por Sandro Petraglia e Stefano Rulli e muitíssimo bem representado por muitos atores italianos, tais como Luigi Lo Cascio, Alessio Boni e Jasmine Trinca. O enredo, desempenho das personagens e ambientes estão bem conseguidos - as personagens estão mesmo muito convincentes. Somente parece que não houve muito cuidado (ou orçamento) para a caracterização das personagens, especialmente porque a maioria delas são desempenhadas pelos mesmos atores ao longo dos quase 40 anos da narrativa da história - algumas perucas parece que não "assentam" bem.
Depois de ter visto o filme fiquei logo de seguida com saudades das personagens, dos ambientes sociais e históricos - ambientes que se passavam em bairros populares, nas universidades, nos movimentos políticos e sociais, nas instituições de saúde e justiça, etc.) e dos espaços (Roma, Turím, Sicília, Florença, etc.). Este filme é uma viagem à sociedade italiana e seus espaços físicos, sociais e culturais. É uma viagem cinematográfica a fazer!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Alguns atlas para viajar até locais prováveis e improváveis



Um dia quando passava por uma livraria perto de casa dois livros da montra despertaram o meu interesse pelas suas exuberantes capas. Era evidente que se tratavam de atlas, e à primeira vista pareciam relacionar-se com geografia. Depois de entrar na livraria, e de os pegar para ver mais de perto, reparei que eram livros de viagens. Mais do que terem vistosas capas, os conteúdos eram igualmente cativantes. Um deles, intitulado de “Viagens – Onde ir e quando” pretendia traçar destinos do mundo recomendáveis a cada mês do ano. Algo extremamente útil pois quando pretendemos ir um pouco mais longe em viagem nem sempre temos a perceção sobre quais as melhores épocas para alguns sítios mais exóticos. Por exemplo poderá ser catastrófico visitar a Índia em plena época das Monções!
Cito então algumas sugestões do primeiro livro, a título de exemplo, sobre os melhores locais para visitar em cada mês com pelo menos um sítio por mês referido no livro:
  • Janeiro: Banguecoque (Tailândia)
  • Fevereiro:Egipto
  • Março: Riviera Maia (México)
  • Abril: Petra (Jordânia)
  • Maio: Creta
  • Junho: Peru
  • Julho: Copenhaga (Dinamarca)
  • Agosto: Sri Lanka
  • Setembro: Munique (Alemanha)
  • Outubro: Lassa (Tibete)
  • Novembro: Tokyo (Japão)
  • Dezembro: Helsínquia (Finlândia)

O segundo livro, por sinal da mesma editora que o primeiro - a DK ou Civilização -, de seu nome “Viagens – Os lugares menos visitados, 1000 locais fascinantes fora das rotas turísticas”, é o mais peculiar e até algo discutível para o género literário. Nesse livro os autores tentam defender a tese de que podemos escapar aos roteiros turísticos conhecidos (cheios de multidões de turistas) e visitar igualmente locais ímpares e de valor semelhante aos mais conhecidos. Esta abordagem é muito interessante e pode ser muito útil, pois revela de facto lugares que são pouco conhecidos e que são de uma originalidade e beleza merecedoras de visita. No entanto, por mais opções que possam haver, simplesmente não podemos substituir certos lugares, edifícios, eventos ou festividades por equivalentes. Podemos tentar, mas não conseguiremos e estaremos a tentar mentir a nós próprios. Pois, se a história não se repete, a singularidade de um determinado local ou acontecimento também não pode ser substituído por outro. Por exemplo, por mais interessantes que sejam, as Pirâmides de Meroé (no Sudão) elas não podem substituir a importância e incontornável obrigatoriedade de visitar as Pirâmides de Gizé – a única das 7 maravilhas do mundo antigo ainda intacta. Este é mesmo só um exemplo entre tantos, entre outros que cito de seguida:
  • Stonehege vs. Avebury
  • Acrópole de Atenas vs. Agreigento e Slinunte
  • Coliseu de Roma vs. Arena de Pula
  • Pompeia  vs.  Herculaneum
  • Chichén Itzá vs. Tikal

Críticas à parte, ambos os livros da DK podem ser deliciosas experiências visuais e informativas. São muitas também as dicas práticas a seguir nos roteiros e locais propostos a visitar. 
Pensando na contemporaneidade, e no que se passa em Portugal em especial, é nestas épocas de crise que precisamos de decidir bem os nossos investimentos, de um modo o mais informado e consciente possível, sendo que as escolhas turísticas não são exceção. Por isso, para quem pretenda viajar para o estrangeiro e goste de atlas, estes são dois livros a não deixar escapar!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Influências para as unidades e divisões dos países e nações da América Latina

Ao fazer alguns estudos sobre o livro do registo do II Congresso do Distrito de Leiria e Alta Estremadura deparei-me com um precioso texto de Joaquim Romero de Magalhães, intitulado de "Os espaços da administração portuguesa do século XVI". O autor, nesse texto, defende a tese de que em portugal sempre se organizou o seu território de modo a que fosse sempre fortalecida a unidade nacional, mesmo ainda em tempos anteriores  à invenção do próprio nacionalismo - aquele que hoje conhecemos e se associa à ascensão dos Estados-Nação do século XIX. Em Portugal, por várias razões, entre elas a necessidade de unidade para fins militares relacionadas com o receio permanente de invasões do vizinha Espanha, nunca se pretendeu reforçar o poder regional, nem pela criação de novas fronteiras regionais com poder efectivo, nem pela união dos concelhos em regiões, isto já em pleno século XVI. Não é então de estranhar, ainda que as muitas razões de antigamente pouco sentido talvez ainda façam, que ainda hoje seja difícil discutir o tema da regionalização, quanto mais proceder à discussão dos modelos de aplicação a Portugal.
Paineis "Guerra e Paz" - Candido Portinari
Para Joaquim Romero Magalhães foram a característica unidade portuguesa e o separatismo de Espanha (com as suas regiões com fortes tendências nacionalistas que acentuam a distinção e separação, por exemplo são notórios os casos do País Basco e da Catalunha) que condicionaram a história e geopolítica dos países da América Latina. Teriam sido então as características de unidade interna e nacional dos países colonizadores a influenciar os países que nasceram das antigas colónias. Daí termos apenas um país falante do Português nas Américas e uma imensidão de outros falantes de Castelhano.  Claro que as influências das metrópoles europeias não foram as únicas razões para as fronteiras e existências dos vários países, até porque as culturas e sociedades pré-colombianas existentes contribuíram também indiscutivelmente para isso (a civilização Azteca influenciou muito o México, tal como a Inca o Peru).
Os países da América Latina, ainda que muitos habitantes desses países não hesitem em dizer que prefeririam ter sido originalmente colónias de países anglo-saxónicos, herdaram muita da genética a cultura dos países Ibéricos - para o bem e para o mal. Fica a questão: qual terá sido o melhor modelo herdado afinal afinal?

sábado, 22 de outubro de 2011

País ou Estado mais pequeno do mundo?

Numa recente conversa à mesa, discutia-se entre amigos qual o país mais pequeno do mundo. A discussão começou por centrar-me mais naquilo que distinguia um País de um Estado. Nem sempre a distinção entre estes dois conceitos é óbvia – os pratos e talheres foram nossas testemunhas -, pois o termo País pode ser utilizado para nomear um Estado ou outra Entidade Política – por exemplo federação de Estados. De um modo simplista e pragmático, País e Estado podem ser consideramos a mesma coisa, se assim forem considerados por outros países e estados - o risco de paradoxo aqui é evidente, pois caso ninguém reconhecesse outrem não existiriam Países ou Estados. Confuso (1)(2)! 
Para ser mais simples ainda, apesar dos termos poderem significar a mesma coisa, um Estado relaciona-se mais com o governo e o país com o espaço territorial (3), ou seja, Estado com a dimensão política e País com a geográfica (4). Apesar desta distinção, política e geografia aparecem muitas vezes relacionadas uma com a outra: a política (no sentido da organização e gestão de sociedades humanas) relaciona-se ou acontece para ou numa determinada geografia e a ocupação humana e exploração dos recursos partem sempre de um tipo de política, por mais simples que seja.
Estas simples explicações, ou até talvez mesmo ingénuas, servem para a introdução àquele que é o propósito deste texto: Estado ou País mais pequeno do mundo. O Estado ou país – neste caso discutível para alguns - oficial mais pequeno do mundo será o Vaticano. Mas existe um, ainda que não sendo reconhecido por outros Estados ou países, que consegue ser ainda mais pequeno que o Estado Pontífice; falo de Sealand.
Sealand situa-se no Mar do Norte mas não é uma ilha, nem sequer tem terra, rochas ou areias. Sealand é uma plataforma militar marítima construída durante a 2º Guerra Mundial como posto avançado para prever e prevenir os ataques alemães, tendo sido no final da guerra utilizada como apoio ao ataque continental do Aliados às forças nazis que ocupavam a Europa continental (5)(6). Mas é depois da guerra, e de ser abandonada pelos ingleses, que a história desta antiga plataforma – intitulada até 1966 de Rough Towers - ganha contornos de excentricidade, um tanto ou quanto burlesca.
Em 1967 a estrutura é ocupada por Roy Bates, alguns familiares e amigos. Baytes autonomeou-se príncipe, constituindo assim o principado de Seland. Desde então começou a emitir passaportes e selos de correio, criou uma constituição, um hino e uma bandeira, tendo até cunhado dólares de ouro e prata (5)(6). Esta bizarria só foi possível de manter por a plataforma hoje estar fora das águas territoriais inglesas, a umas meras 3 milhas.
Mais haverá para contar sobre sealand, mais casos caricatos: chegou a ter um golpe de estado - encetado por um alemão - e de um terrível incêndio. Até a crise financeira passou por Sealand, com o príncipe herdeiro disposto a vender o seu principado (5).
Mesmo com todos os esforços dos seus governantes, Sealand não é considerado um país ou Estado de facto, pois nenhum outro o reconheceu como tal.

Referências e Notas:
(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADs
(3) Definição de Estado: Nação organizada politicamente. Fonte: Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Estado
(4) Definição de País: - espaço demarcado por fronteiras geográficas e dotado de soberania própria; estado; nação. Fonte Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Pa%C3%ADs
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/Sealand
(6) http://www.sealandgov.org/

sábado, 1 de outubro de 2011

Terá a "Troika" vindo da Rússia?

A palavra Troika tem sido utilizada neste último ano em Portugal de forma constante, pois foi o termo adoptado pela equipa constituída pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, criada para resgatar Portugal (entre outros países) e a sua dívida estatal, adoptou um nome que soa a trio. Como a crise afecta directamente, mais do que provavelmente esperavam os portugueses inicialmente,  palavra vai-se repetindo.
Mas afinal de onde vem o termo Troika? Terá sido inventado aquando da crise das dívidas soberanas especificamente para representar a união das 3 entidades anteriormente referidas? 

Troika de Inverno - Yuri Aleksandrovich Sergeyev

Bem, parece que não. Parece que foi uma adopção de uma palavra russa. Originalmente a palavra Troika (1) em russo servia para nomear o conjunto de três cavalos a um carro (carruagem, carroça ou trenó). No fundo significa uma associação, uma composição de três entidades que se unem para algo.
 
Terá então a Troika, que tem visitado Portugal, sido constituída para “puxar”, numa relação com a palavra russa, Portugal da crise?
 
Referências: 
(1) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Troika

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando os heróis nacionais não coincidem com as fronteiras - Garibaldi

Cá por Portugal, provavelmente por termos fronteiras continentais definidas há séculos – se excluirmos o caso de Olivença –, Estado e Nação significam, na prática, a mesma coisa. Mas, em muitas regiões da Europa os dois conceitos são bem diferentes, muito devido à história geopolítica desses locais, com fronteiras a mudarem e territórios a alternar de Estado para Estado. Em certos países, alguns dos seus heróis e personalidades famosas não nascerem nesses mesmos países que hoje os reclamam com orgulho. Casos como o de Garibaldi são quase caricatos.
Homenagem a Giuseppe Garibaldi - Rubens Fogacci
O conhecido revolucionário italiano, que muito contribuiu para a unificação de Itália (numa altura em que outras Estados controlavam partes do actual território italiano), e até para as independências e afirmações nacionalistas da América do Sul (Rio Grande do Sul, Uruguai, Brasil, etc.), afinal não nasceu no actual território de Itália. Garibaldi nasceu em Nice, na sua altura Nizza , uma cidade que pertencia ao ducado da Sabóia. Ou seja, Garibaldi nasceu na actual França, mesmo que na altura o território ainda não fosse francês. Parece paradoxal que Garibaldi tivesse conseguido unificar a Itália sem que a sua cidade natal fosse integrada nesse projecto nacional, uma frustração para o próprio e, provavelmente, para os italianos de hoje, que recordam Garibaldi um pouco por todo o país através da toponímia e de estátuas em alguns dos locais mais nobres das suas cidades. Curiosamente Garibaldi é também reconhecido como herói em França. Não é também por acaso que foi na época de Garibaldi, ao longo do século XIX, que se “inventaram” muitas nacionalidades e até o próprio nacionalismo na Europa, sendo de então a criação do Estado-Nação de forte cariz nacionalista, um tipo de Estado forte, sustentado nas populações - características, cultura, necessidades, etc. - e não na figura de um monarca despótico. Essa "invenção" teve aspectos positivos, pois dotaram os Estados de uma força que permitiu reforçar a protecção social, as liberdades e a implementação, em alguns casos, de mais liberdade. No entanto existiu o reverso da medalha e nem todas as experiências foram positivas. Muitos Estados-Nação, munidos de forte sentimento nacionalista, muitas vezes associado a um culto da superioridade da raça levou à xenofobia, ao expansionismo desumanizante e a constantes estados de guerra - as Guerras Mundiais, por exemplo. 
Mas Garibaldi é lembrado por ter sido um dos principais defensores de um projecto socialista para as nações que viviam ainda algemadas pelos Estados Policiais absolutistas do século XIX. Por isso, e pelo seu envolvimento em muitos palco no antigo e novo mundo, Garibaldi é um herói Internacional.  
Discordando ou não das tendências políticas desta personagem histórica, há que reconhecer no homem o mérito de ter tentado algo novo, algo diferente com o intuito de libertar os Povos da opressão - um idealista, mas alguém que devemos recordar com estima!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Uma monarquia pode ser totalmente democrática?

Aparentemente, se desconhecêssemos o mundo que nos rodeia, especialmente se estivéssemos desatentos à geopolítica europeia e só considerássemos o significado das palavras , provavelmente diríamos categoricamente que "Monarquia" e "Democracia" remetem para conceitos opostos e incompatíveis.  Pois, Monarquia, que significa "governo de um ou por um", é exactamente o oposto - se considerarmos que o singular é oposto do plural - da Democracia, que significa "governo do povo ou governo de muitos".  Mesmo que não sejam conceitos antagónicos, são pelo menos incompatíveis do ponto do vista ideal político ou então do semântico/lógico - o que é plural não pode ser singular em simultâneo. Quanto muito, uma Democracia poderia ser singular no sentido de um só governar, mas esse alguém teria de ser o Povo enquanto grupo, ou seja, no trono não poderia haver um só rei vitalício.
Retrato da família do Rei Carlos IV - Goya
Supostas incompatibilidades à parte, pela nossa Europa existem muitas Democracias - algumas bem antigas como a Inglesa -  que vivem sobre a alçada de Monarquias. Apesar de serem Democracias de facto, muitas até mais livres e desenvolvidas do que outras que persistem em regimes republicados, afirmo, sem receios, que uma Democracia desse tipo não pode ser uma "Democracia Completa". Isto porque, focando a atenção no exemplo do "Chefe de Estado", basta esse cargo ser vedado ao Povo, mesmo que alguém desse Povo demonstre ser o mais capaz para o assumir o cargo em benefício de todo o dito Povo, para que o "Governo do Povo" seja parcial e logo parcial a concretização da Democracia. Por outras palavras, se o Povo não pode aceder a todos os cargos de chefia do Estado então a Democracia plena ficou por realizar - se se atender ao significado do termo em causa.
 
Apesar de tudo o que aqui afirmei, não tenho também receio em afirmar - agora numa perspectiva muito mais pragmática - que é preferível uma boa monarquia assente num regime democrático do que uma república assente numa "má democracia"
.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Portugal com vergonha do passado Colonial?

No passado dia 21 de Junho de 2011, na Livraria Arquivo, tive oportunidade de assistir à apresentação do mais recente livro do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, obra de título “Portugal – Ensaio contra a autoflagelação”. 
Perturbação na Floresta - Malangatana
Do muito que o autor partilhou, das reflexões e teorizações, muitas delas baseadas nos conhecimentos que adquiriu ao longo de anos de estudos, investigação e ensino, houve uma que não pude deixar de reter e aqui divulgar. Essa referência surgiu a propósito de uma questão colocada durante o período de debate por uma das pessoas que assistia à sessão. A questão prendia-se com a Guerra Colonial e o processo de descolonização, prendia-se com desabafos pessoais sobre o modo como foram tratados os soldados que combateram no Ultramar.

A resposta de Boaventura de Sousa Santos não poderia ter sido mais interessante - e até surpreendente tendo em conta de todo o seu historial ideológico/político -, referiu que Portugal, aquando da entrada na União Europeia, “teve vergonha” do seu passado colonial e não soube capitalizar o papel que tinha desempenhado em África. Para Boaventura de Sousa Santos Portugal, indirectamente, tinha estado ao serviço da NATO e dos interesses das Democracias Ocidentais ao travar os avanços comunistas que se associavam aos movimentos independistas dos territórios ultramarinos portugueses. O autor refere que: era muito importante, para a NATO, garantir que a África do Sul (nessa altura em pleno regime do Apartheid) ficasse fora das influências Soviéticas e que as suas riquezas fossem salvaguardadas. Curiosa esta perspectiva atendendo ao que já referi sobre o autor.

 Já em anterior texto referi que a NATO se tinha oposto à Guerra Colonial portuguesa e que até tinha contribuído para a difusão de valores democráticos nos oficiais das Forças Armadas nacionais, tendo isso mais tarde influenciaria o golpe militar e revolução de 25 de Abril. Mas esta perspectiva refere, sem receios, a aliança, não assumida, entre os interesses do Portugal Fascista e os da NATO no espaço geopolítico Africano.
Fica aqui mais alguma matéria para reflexão sobre o nosso passado recente, que, inevitavelmente, influencia o nosso presente.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Revolta Estudantil de 69 e o 25 de Abril de 74 - Uma Possível Relação

No Documentário Crise Académica de 69, uma produção nacional do Canal de História, é apresentado e descrito um dos eventos políticos nacionais mais importantes entre o periodo da candidatura de Humberto Delgado em 1958 e da Revolução de 25 de Abril de 1974.
Os anos 60 foram verdadeiros anos de revolução e mudanças sociais por toda a Europa (e não só), especialmente entre os mais jovens e os meios académicos. No documentário em causa referem-se algumas das razões dessa mudança. Entre elas: a criação do Pacto de Varsóvia, como a possibilidade que permitia democratizar o acesso ao Ensino Superior especialmente pela possibilidade de ser frequentado pela classe operária; os escritos e influência filosófica de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, através da corrente filosófica do existencialismo que valorizava os indivíduos e as suas liberdades, que levou a exigir na prática mais liberdade e democracia. Em França o culminar dessa mudança foi o conhecido Maio de 68. Em Portugal, essas mesmas ideias, que por cá eram ainda mais revolucionárias - devido à existência de um Estado Anti-democrático desde 1928 -, chegaram e foram assumidas pela comunidade académica de Coimbra, especialmente pelos seus estudantes, em 1969, o que levaria aos acontecimentos da Crise Académica de 69.
Maio de 68 II - Júlio Pomar
Os estudantes de Coimbra exigiam mais liberdade na sua Universidade, que era um modo indirecto de o fazer para toda a sociedade Portuguesa. A partir de então os estudantes, através das repúblicas, associações, grupos culturais, e até movimentos políticos clandestinos, concretizaram, neste período histórico específico, a um novo activismo cívico e político.
Provavelmente o evento que despoletou todas as posteriores acções mais visíveis foi o acontecimento que ocorreu aquando da inauguração do edifício da Faculdade de Matemática. Para esse evento deslocaram-se a Coimbra os Ministros das Obras Públicas, da Educação (o célebre historiador televisivo Hermano Saraiva) e Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás. Os estudantes defendiam que deveriam participar activamente nessa acontecimento académico. De modo a cumprir essa vontade é decidido, entre os estudantes, que Alberto Martins, presidente da Associação académica de Coimbra, deveria pedir a palavra durante o decorrer da cerimónia.  Hoje em dia a possibilidade de alguém se fazer ouvir e poder intervir é um dado adquirido, mas naquela altura este acto era uma verdadeira afronta ao Regime e uma manifestação mais que evidente vontade de ter mais liberdade.
Assim, Alberto Martins cumpre a sua missão, levanta-se e diz: ”Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me permissão que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?”. A História conta que a palavra lhe foi negada e que a cerimónia fora repentinamente terminada.
Esta tomada de posição valei a prisão a Alberto Martins, que no dia seguinte viria a ser libertado, depois da pressão dos estudantes que se mobilizaram e se manifestaram junto do cárcere. Apesar do sucesso da manifestação os manifestantes, como seria de esperar,  foram violentamente dispersados e os feridos foram bastantes.
A partir de então as manifestações e activismos despoletaram e foram ganhando cada vez mais força e notoriedade por Coimbra. Fizeram-se assembleias gerais, marchas, protestos e até greves às aulas e exames, tudo de um modo pacífico e simbólico.
Uma das resposta do Regime fascista foi punir os elementos mais activistas dos movimentos estudantis, incorporando-os no exercito, e forçando-os a lutar no Ultramar, ao todo foram 59. Foram incorporados como "traidores à pátria". Isso deixou um grande incomodo entre os militares, por se considerarem diminuídos do seu estatuto de "espelho e orgulho da nação" para algo semelhante a "ferramenta de repressão e castigo do Regime".
Assim, directa ou indirectamente, estes 59 castigados foram "minando" - palavras dos entrevistados para o documentário - e estabelecendo contactos com os oficiais mais liberais, aqueles que pretendiam também mais liberdade e democracia (é nesses militares que se manifestou a influência dos ideias democráticos ocidentais que chegavam via formação militar de topo através da NATO - algo já aqui referido no blogue em anterior texto) e que mais tarde seriam os Capitães e os responsáveis pela Revolução - que foi na sua génese principalmente militar (algo tratado também em anterior texto aqui no blogue) - do 25 de Abril de 1974. Não será de todo descabido então considerar que a revolta académica de 69 também influenciou o golpe militar e revolução de 74.
No entanto, com a mudança de Ministro da Educação, quando José Hermano Saraiva foi substituído em Janeiro de 1970, todos os castigos e medidas de repressão foram retirados e revogados. Assim, pode-se dizer - e são os próprios dirigentes das revoltas estudantis que o afirmam - que de facto a revolta estudantil de 1969 triunfou. Não admira que os envolvidos se sintam honrados e orgulhosos disso hoje.  
Será que no futuro as gerações de hoje terão motivos para se orgulhar pelo seu activismo cívico e político, ainda por cima quando não temem repressões e têm liberdade de actuação?

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