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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Diorama sobre urbanismo sustentável com peças de jogos de tabuleiro modernos

A origem dos dioramas remonta ao seculo XIX e às experiências de Daguerre – um pioneiro da fotografia. Desde então, os dioramas popularizaram-se como formas de representar fisicamente e tridimensionalmente cenas várias, quer sejam artísticas quer não. O objetivo relaciona-se com a necessidade de criar uma exposição de instrução ou diversão. Estes dioramas tendem a ser modelos de menor escala da realidade que pretendem representar e simular. Os museus, desde o início do século XX, usam recorrentemente estas técnicas expositivas de pequena escala para descrever eventos historicamente relevantes, alguns altamente detalhados e que ajudam a compreender eventos como batalhas ou cenas da vida quotidiana (Kamcke C. & Hutterer R., 2015). Hoje em dia alguns destes dioramas têm sido substituídos por criações digitais, no entanto, ainda não são obsoletos em certas situações.

Diorama sobre urbanismo Sustentável - foto do autor

Partindo da ideia do potencial dos dioramas surgiu-me a ideia para um novo projeto. Os jogos de tabuleiro modernos têm componentes cada vez mais originais e personalizados, alguns bem realistas por sinal. Então, tendo em conta todas imensas possibilidades que tinha à minha disposição, por ter uma ludoteca que neste momento ultrapassa as duas centenas de títulos diferentes, comecei a criar dioramas com peças de jogos de tabuleiro modernos. Cada dia publico um na minha pagina de Instagram, normalmente alusivo à efeméride do dia. Este texto esta a ser narrado de uma forma muito pessoal, mas para este assunto não havia outra forma de o fazer. Curiosamente foi publicada uma breve fotorreportagem sobre este projeto no P3.

Um desses dioramas aponta para alguns ideias base do urbanismo sustentável. Serve de exemplo para mostrar o potencial dos dioramas, que podem ser feitos de vários modos, sem a rigidez de recorrer a modelos a escala realistas. Através do simbolismo e da semiótica e possível criar dioramas igualmente comunicativos e carregados de conteúdos, nestes casos de forte simbolismo também. 

No diorama aqui apresentado podemos identificar vários elementos generalistas que facilmente veríamos citados em manuais de sustentabilidade urbana (Farr, 2011), entre eles:
  • Presença de árvores em meio urbano;
  • Espaços públicos do tipo praça e ruas para a fruição pedonal;
  • Desenho orgânico da malha urbana, para garantir descontinuidades e quebras de linearidades que evitam a monotonia, mas sem criar constrangimentos e tendo canais de visibilidade social;
  • Acesso condicionado de automóveis privados, e prioridade ao transporte público que pode aceder ao centro e conjugar-se com os modos suaves, aqui representados pelos peões; 
  • Manutenção de edificado histórico, em utilização contemporânea para as funções urbanas. 

Estes são apenas alguns exemplos. Tendo estes materiais, que são componentes de jogos, é possível fazer isto e muito mais, criando narrativas alternativas para conteúdos que se queiram transmitir. 


Referências bibliográficas para aprofundamento do tema:
  • Kamcke C., Hutterer R. (2015) History of Dioramas. In: Tunnicliffe S., Scheersoi A. (eds) Natural History Dioramas. Springer, Dordrecht
  • Farr, D. (2011). Sustainable urbanism: Urban design with nature. John Wiley & Sons.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Quem reconstruiu o Castelo de Leiria?

Quem conhece o Castelo de Leiria tem presente a sua peculiar forma, pouco habitual em Portugal. O castelo, especialmente pelas suas arcadas góticas dos paços do castelo, viradas a sul para a cidade, é um miradouro único. Desse espaço “romântico” podemos ver toda a baixa, mas da torre de menagem vigia-se quase todo o concelho e outras terras além.
Ao contrário de muitos outros castelos que se encontram arruinados, o castelo de Leiria foi reconstruído. Diz-se que foi Ernesto Korrodi que o reconstruiu, mas isto não é bem verdade.
Korrodi elaborou, em 1898, um projecto de reconstrução do castelo de leiria, muito ao estilo de Viollet-le-duc, adotando um estilo histórico principal para orientar toda a intervenção, partindo das existências e indícios materiais, mas colmatando o remanescente com a sua imaginação e coerência de estilo adotado. Baseou-se na fase joanina, atribuída a D. João I e D. Duarte, o gótico tardio manifestado em parte no Mosteiro da Batalha. Ou seja, o castelo seria mais um paço residencial tardo gótico que uma fortaleza medieval da reconquista.
Essa proposta foi polémica, tanto pelo estilo principal adotado, pois ao castelo de Leiria localmente surgia sempre a menção a D. Dinis e Rainha Santa Isabel, como pela própria solução de reconstrução integral. Já nessa época, Camillo Boito e outros pensadores do património, condenavam esse tipo de solução, considerando-a destrutiva. Para eles, a opção correta seria a preservação das existências e não a reconstrução e seus perigos de desvirtuamento original.
Contudo, a partir de 1915, o castelo, através de pressões cívicas e políticas locais, principalmente através da Liga de Amigos do Castelo de Leiria, dirigida por Korrodi, o castelo começa a ser intervencionado. Surgiram polémicas entre as entidades e responsáveis envolvidos, mas a partir de 1921 as obras são novamente retomadas, já sobre direção indiscutível de Korrodi.
Até 1933, ano em que Korrodi foi afastado do projeto, o castelo foi sendo reparado e estabilizado, garantindo a sua preservação. Korrodi, já nessa altura, não seguia pelos princípios da reconstrução integral. Dos conhecidos 8 arcos existentes nos paços do castelo, apenas reconstruiu 3. Reabilitou e refez apenas algumas partes, mantendo-se o castelo quase como uma ruina romântica, tirando um ou outro caso (torre de menagem e casa do guarda).
Interpretação da reconstrução do castelo de Leiria por Korrodi
Ou seja, a grande reconstrução, com o traçado mais militar, surge depois do afastamento de Korrodi. Foram imensas as intervenções posteriores no castelo. Reconstruíram-se os pisos superiores dos paços do castelo, demoliram-se alterações feitas por Korrodi na Torre de Menagem e Igreja da Pena. Refizeram-se extensas partes das muralhas, torres e barbacãs. Adotaram-se os merlões (ou ameias) retangulares, embora existam vestígios de terem sido piramidais, de inspiração moçárabe. Refizeram-se acessos e ouros “melhoramentos”, tudo isto em plena ditadura do Estado Novo, com a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) a concretizar a visão ideológica oficial de fundação nacional militarista e austera, ainda que seguindo parcialmente e nada inovando para além dos projetos iniciais de korrodi.
Recorreu-se imenso a betão, tanto para ligar alvenaria de pedra, como o betão armado estrutural para garantir a estabilidade dos elementos mais antigos. Essas intervenções estão disfarçadas e ocultas.
Assim, a reconstrução do Castelo de Leiria deve-se bastante a korrodi, mas a maioria e maior volume de trabalhos foram realizados posteriormente pela DGEMN em pleno Estado Novo.

Ver estudo do autor: Breve Introdução à História do Vandalismo do Castelo de Leiria
Referências bibliográficas
CABRAL, João – Anais do Município de Leiria. Vol. I. Segunda edição revista e aumentada. Leiria, Câmara Municipal de Leiria, 1993.
CORREIA, Adélia Caldas – Valores estéticos-urbanísticos de Leiria Seiscentista. “Actas do Colóquio sobre história de Leiria e da sua região”. Volume I. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 1995.
CARVALHO, Vânia; INÁCIO, Isabel - “Relatório: O projecto de investigação arqueológica do Núcleo do Castelo de Leiria: enquadramento, objectivos e resultados”. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2011.
CARVALHO, Vânia; INÁCIO, Isabel - O projecto de investigação arqueológica do Núcleo do Castelo de Leiria: enquadramento, objectivos e resultados. “Revista da Associação dos Arqueólogos Portugueses”. Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2013.
COSTA, Lucília Verdelho da – Ernesto Korrodi – 1889-1994 Arquitetura, ensino e restauro do património. Lisboa: Editorial Estampa, 1997.
ESTRELA, Jorge – Korrodi e o restauro do Castelo de Leiria. Leiria: Fundação Mário Soares, 2009.
GOMES, Saul António – Introdução à história do castelo de Leiria. 2ª edição revista e ampliada. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2004.
GOMES, Saul António – Materiais na região de Leiria em tempos medievais. “História da construção. CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” & LAMOP - LAMOP – Laboratoire de Médiévistique Occidentale de Paris, 2012.
KORRODI, Ernesto – Estudos sobre a reconstrução do Castelo de Leiria. Reedição do caderno de 1898. Leiria, Imagens & Letras, 2009.
MENDONÇA, Isabel & MATIAS, Cecília - Castelo de Leiria. DGMEN - Direcção-geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 1991-2000.
MENDONÇA, Isabel & MATIAS, Cecília - Castelo de Leiria / Castelo e cerca urbana de Leiria. SIPA - Sistema de Informação para o património. Actualizado em 2010. Consultado em 6 de Junhos de 2015, disponível em:
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3312
NABAIS, António; LOURENÇO, Vitor; FERREIRA, Pedro (coord.) – Torre de Menagem do Castelo de Leiria. Leiria: Câmara Municipal de Leiria, 2001.
SILVA, José Custódio Vieira da Silva – Leiria – 450 anos da Diocese e Cidade. Conferências das Comemorações 1545-1995. Leiria, Arquivo Distrital de Leiria, 1996.
[S.N.] – Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria. 4ª edição ou transcrição da 2ª Edição de 1898. Leiria, Textiverso, 2011.
TOMÉ, Miguel – Património e Restauro em Portugal. Porto: Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto – FAUP, 2002.
ZÚQUETE, Afonso – Monografia de Leiria – A Cidade e o Concelho – 1950. 2ªEdição. Leiria: Folheto Edições & Design, 2013.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Origem das Finanças Municipais - As Muralhas

Muitas das cidades europeias, e também as portuguesas, têm origem na antiguidade clássica, nomeadamente na colonização e desenvolvimento grego e depois romano. Foram esses povos que desenvolveram alguns dos modelos mais complexos e completos de governo cívico. Foi ai que de desenvolveu o próprio conceito de cidadania, cidadão, civismo, e etc.

Ilustração do foral de Évora  de 1501 - Autor desconhecido

No entanto, grande parte da nossa organização municipal das nossas cidades tem origem medieval. As cidades medievais eram, num mundo feudal, polos de liberdade, e onde as relações diretas pessoais de vassalagem eram minimizadas perante um sentimento e concordância colectiva perante as necessidades e desafios comuns da comunidade. São famosos os foros ou forais, por decreto real, onde cada vila e cidade assumiam a sua individualidade, as suas regras particulares de governo e existência perante todas as demais entidades, senhorios e poderes. Esta era uma época das leis particulares e não das leis universais e igualitárias que hoje definem as nossas sociedades.
As finanças municipais surgiram da necessidade de construir muralhas e defesas para comunidade. De início, constituíram-se fundos pontuais para garantir os meios necessários para as fortificações, devendo todos contribuir. Quem não contribuísse arriscava a expulsão. Rapidamente essas contribuições pontuais passaram a ser permanentes e os fundos recolhidos utilizados para outros fins, tais como vias de comunicação e outros serviços públicos.
Havendo necessidade de gerir os fundos e de tomar decisões sobre o desenvolvimento de cada localidade, surgiu a necessidade de estabelecer governos locais. Essas terão sido as primeiras assembleias de “homem bons”, uma espécie de democracia medieval e que terão contribuído também para a constituição daquilo que seriam as câmaras municipais. Obviamente que não eram democracias plenas, até porque a legislação não era universal e os direitos e deveres estavam longe de ser comuns, pois vivia-se numa sociedade hierarquizada, por classes e onde prevaleciam os vínculos feudais. Mas sem dúvida que o carácter excepcional da vida nas cidades constituiu, em tempo medievais, verdadeiros focos e centelhas de liberdade e governo cívico.
 
Referências bibliográficas:
  • Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.
  • Mattoso, José. "História de Portugal - Vol.II - Monarquia Feudal", Editorial Estampa, 1997.
  • Ramos, Rui (Coord.). "História de Portugal", Esfera dos Livros, 2012.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ramalho Ortigão e a Defesa do Património Edificado em Portugal

Ramalho Ortigão foi um homem do seu tempo, um erudito dedicado a várias áreas de atividade, mas especialmente às letras. Era um homem de causas e valores, por isso colocou a sua vida e escritos ao serviço do que considerava civicamente importante, tendo sido uma das suas lutas a defesa do património edificado nacional. Nessa demanda participou em várias iniciativas, desempenhou alguns cargos de responsabilidade e escreveu muito, tendo uma das suas obras marcado para sempre a essa temática entre terras lusas, constituindo-se quase como uma cartilha e modelo para a identificação do património e critérios de intervenção (Custódio, 2013). Essa obra, ainda hoje relevante e importantíssima, foi “O Culto da Arte em Portugal”, onde o autor ensaia um documento crítico e descritivo sobre o património artístico português, identificando muito património que, na época, se iam perdendo (Ortigão, 2007).
Excerto da imagem de Ramalho Ortigão pertencente à obra "O grupo do Leão" - Columbano Bordalo Pinheiro
Em finais do século XIX a preservação do património em Portugal estava mais atrás do da realidade dos países mais desenvolvidos da Europa. Tal facto seria devido ao atraso económico e de desenvolvimento do país, com a sua tardia industrialização (Costa et al, 2011) – essa revolução que mudou os sistemas produtivos e a própria sociedade que se queria livrar do obsoleto (Choay, 2010). Mas o progresso industrial teve os seus efeitos destrutivos, o que levou ao despertar de algumas elites, especialmente as artísticas e intelectuais, para um romantismo que procurava na simplicidade do passado o expoente da beleza e estética em oposição à uniformização galopante e massiva da industrialização. Assim surgiu a necessidade de preservar patrimónios móveis e imóveis. O sentimento de defesa do património distintivo das várias regiões bebeu também bastante dos movimentos nacionalistas (Rémond, 2011). O caso português não foi exceção, e a ação de Ramalho Ortigão inseriu-se nesse movimento que brotava pela Europa fora (Alves, 2009).

Mas mais do que identificar obras, a crítica de Ortigão – supostamente o primeiro crítico de arte em Portugal (Oliveira, 2008) – é uma reflexão sobre a sua área de estudo enquanto membro dirigente da comissão dos monumentos, tentando superar os modelos vigentes de salvaguarda e proteção do património (Custódio, 2013).

Para Ortigão existia um desleixo e desorganização da política da arte e património (Infopédia, 2014). Ortigão lamenta a falta de museus e o desvirtuamento do que tinha qualidade artística pela simples ignorância das gentes e artistas, que, sem conhecerem a arte nacional, emperram no banal e na imitação do estrangeiro e evitam a criação original. O papel de Ortigão na defesa do ensino nas temáticas do património foi igualmente importante e visionário.
 
O trabalho da comissão a quem esteve ligado foi em parte efémero pelo pouco tempo em que esteve constituída – tal como as iniciativas que já tinham acontecido no passado - (Alves, 2009) -, mas ficou lançada a semente, de uma entidade que bebeu muito do espírito crítico, erudito e batalhador de Ortigão (Custódio, 2013).

Apesar dos seus cuidados estudos, dos muitos ensaios, relatórios, memórias descritivas e visitas aos vários locais, existem autores que questionam os resultados práticos e a consequência dos seus trabalhos (Alves, 2009). Mesmo a sua famosa e importante obra, “O Culto da Arte em Portugal”, não está isenta de críticas, uma vez que “ não é uma obra técnica destinada à construção de um modelo de interpretação e definição dos monumentos, nem do modo como esse modelo pode intervir na estruturação da conservação e restauro” (Custódio, 2013). Também surgem críticas à obra por se considera que a “falta de referências mais pormenorizadas acaba por transformar a primeira parte deste livro num arrolamento sem ordem das desgraças do nosso património, muitas vezes descontextualizadas, misturando as ações oitocentistas de restauro com as transformações arquitetónicas setecentistas, executadas sob uma orientação totalmente distinta daquelas e, como tal, como uma leitura e compreensão totalmente diferentes” (Alves, 2009).

Nos seus vários cargos, chegou mesmo a desempenhar o papel de presidente do conselho dos monumentos nacionais, mas, ao contrário do seu sucesso nas questões das artes decorativas, as suas ações para o património edificado não obtiveram o êxito que desejava, tendo-se afastado posteriormente (Alves, 2009), pois os movimentos de salvaguarda ainda pouco podiam perante a força da modernidade, do novo e do moderno, especialmente naquela época de positivismo exacerbado.

Críticas à parte, pois quando se inova e se parte quase do zero, como foi o caso de Ramalho Ortigão nas questões da conceptualização escrita em português sobre as questões do património, é fácil, à distância dos anos, evidenciar críticas e lacunas. Mesmo criticável, a sua obra e ação foram importantíssimas para a salvaguarda do Património edificado em Portugal, especialmente porque influenciou os estudos e ações posteriores, que tentaram seguir os seus ensinamentos, aprofundando-os ou refutando-os. Fosse como fosse, a sua importância é quase sempre o ponto de partida, ou o marco inevitável nessa área de estudos. Por exemplo, anos depois, foi na I República que muito do seu trabalho seria aproveitado (Custódio, 2013), tal como por outras iniciativas posteriores, independentemente das motivações e momentos políticos.
 
Bibliografia
  • Alves, Alice Nogueira, “Ramalho Ortigão e o culto dos monumentos nacionais no século XIX”, tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa, 2009
  • Choay, Françoise, “A Alegoria do Património”, Lisboa, Edições 70, 2010
  • Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; “História da Economia Portuguesa – 1143-2011”, Lisboa, Esfera dos Livros, 2011.
  • Custódio, Jorge, “Renascença Artística e Práticas de Conservação e Restauro Arquitectónico em Portugal Durante a I República – Volume I”, Lisboa: Caleidoscópio, 2013.
  • França, José-Augusto, “História da Arte em Portugal – O Pombalismo e o Romantismo”, Lisboa, Editorial Presença, 2004.
  • Infopédia, “O Culto da Arte em Portugal”, disponível em: http://www.infopedia.pt/$o-culto-da-arte-em-portugal, acedido em 7 de Maio de 2014.
  • Oliveira, Leonel (coord.), “Quem é quem – Portugueses Célebres”, Lisboa, Circulo de Leitores, 2008.
  • Ortigão, Ramalho, “O Culto da Arte em Portugal”, Lisboa, Esfera do Caos, 2007
  • Rémond, René, “Introdução à história do nosso tempo – do antigo regime aos nossos dias”, Lisboa, Gradiva, 2011.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As Capelas Imperfeitas da Batalha eram Realizáveis

Mosteiro da Batalha - José Cardoso
Fonte: http://davincigallery.net/art/t-13963

Corre um história antiga, provavelmente mais mito que realidade, que as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória - ou popularmente mais conhecido como Mosteiro da Batalha - não teriam sido concluídos por se ter achado impossíveis de construir. Ou seja, que o vão - a área livre sem apoios - seria impossível de fazer em pedra pela tecnologia disponível na época. No entanto, tal como refere Paulo Ferreira*, se analisarmos com algum cuidado a planta do mosteiro, notamos que a sala do capítulo tem uma cobertura em pedra e que o vão não é muito diferente, em dimensão livre - sem contar com as capelas radiais, do que existe por concluir nas capelas imperfeitas.


Assim sendo, dificilmente terá sido a limitação técnica a impedir a conclusão das capelas. Se foi possível realizar a sala do capítulo também seria concretizável a cobertura das capelas imperfeitas.
 Talvez, contribuindo para a especulação, os fundos e outros meios necessários tenham sido desviados da Batalha para outros projetos, entre eles arrisco a sugerir o Mosteiro dos Jerónimos e os investimentos necessários no Império além mar que se alargava.
 
Referências bibliográficas
Ferreira, Paulo; 2011. "Arte Portuguesa - História Essencial", Lisboa, Temas e Debates.
 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Da Igreja Militante à Igreja Triunfante – Acaso ou Premeditação?

Exorcismo dos Demónios em Arezzo - Giotto
De um ponto de vista arquitetónico pode ser muito interessante estudar o modo como evoluíram, e se foram transformando, os edifícios construídos pela Igreja Católica. Para além das transformações resultantes da evolução técnica e tecnológica das construções, da arquitetura e engenharia, existe uma mudança ideológica que acompanhou a materialização dos edifícios. Isto para o período Medieval.
Uma igreja românica, com o seu aspeto pesado, maciço e denso, onde algumas das construções se assemelham muito a castelos e fortalezas, transmite – segundo Gombrich* – a ideia de uma instituição militante. A Igreja, nesses tempos medievais, impunha-se entre terras de camponeses e guerreiros, muitos deles recentemente convertidos. Logo simbolizavam a luta de Deus contras os males do mundo, e também um porto de abrigo em zonas de elevada insegurança. Eram a manifestação de uma Igreja pronta a lutar ao serviço de Deus. Curiosamente, as limitações construtivas, ainda com recurso a espessas paredes, com janelas que mais se assemelhavam a seteiras, todo o suporte em massivos arcos de volta perfeita, e as ameias nas coberturas e torres sineiras pareciam acompanhar a posição ideológica da “guerra religiosa” simbólica.
Com o desenvolvimento do estilo gótico, assente em estruturas muito mais leves, capazes de grandes vãos, e seus arcos quebrados, e com magníficos vitrais que iluminavam os interiores de um modo nunca visto, transmitem a ideia – novamente segundo Gombrich* – de uma instituição triunfante. Estilo que fica ainda mais exuberante com os rendilhados e trabalhados em pedra do gótico flamejante. Ou seja, na população o cristianismo estava já amplamente implementado, sendo que a afirmação da glória da igreja podia ser manifestada com segurança, contribuindo para um aprofundamento da espiritualidade que se podia obter através dos novos espaços imponentemente iluminados. Aqui também o desenvolvimento da arquitetura e engenharia de construção seguiram lado-a-lado a ideologia da instituição em causa, uma vez que até então tinha sido impossível construir edifícios tão grandiosos, com tanta leveza e verticalidade.
Resta saber o que terá dependendo do quê: se a técnica construtiva surgiu como concretização da ideologia religiosa ou se foi a descoberta da técnica a levar à mudança ideológica. Ou então ainda há a opção de não ter sido nada disso, não havendo qualquer relação. A distância que nos separa desses acontecimentos pode simplesmente contribuir para uma visão de ordenação casuística difícil de evitar. Afinal de contas é algo natural em nós pois procuramos sempre construir relações de causa-efeito e ignorando a casualidade extrema. Gostamos de ordenar o mundo, talvez para nos sentirmos mais seguros, mesmo que seja necessário construir edifícios conceptuais vários desprovidos de relação com o real.

* GOMBRICH, E. H., A História da Arte, Lisboa, Ed. Público, 2005

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Os edifícios e estátuas da antiguidade clássica eram surpreendentemente coloridos

Cores da Venus de Milo
Os edifícios, estátuas e outras criações artísticas volumétricas da antiguidade eram coloridas. Aquelas belas estátuas de mármore, muitas delas em muito mau estado de conservação (muitas sem membros), da época clássica (grega e romana), eram completamente pintadas, e com cores bem fortes quando foram criadas. Por desconhecimento, os artistas da renascença - destacando-se a grande escultor Miguel Ângelo - tentaram recriar a perfeição das estátuas antigas, tal como os arquitetos tentaram recriar a arquitetura desses tempos imemoriais de glória artística, tentando seguir os modelos originais. No entanto o que lhes chegou foram apenas fragmentos e partes corrompidas e adulteradas pelo tempo e ação humana. Por exemplo, desconheciam, pois não havia meio de comprovarem, que todas essas criações eram pintadas.
Este conhecimento da policromia da arquitetura e estatuária clássica não é novidade, pois há já mais de dois séculos que arquitetos e cientistas como Souffort, Le Roy, Hittorf e Garnier começaram a descobrir essa surpreendente decoração [1].
A novidade passa pelas reconstituições que têm sido ensaiadas. Atualmente muitos investigadores (recorrendo a ultra-violetas e outros ensaios/técnicas) e artistas começam a tentar recriar a aparência dessas antigas [2][3]. O aspeto final pode ser de facto surpreendente, pois está ainda bem vincado no nosso imaginário coletivo as imagens de uma antiguidade decorada e construída em tons brancos, de serenidade e sobriedade. Afinal a realidade não era assim. O mundo antigo era colorido e vivo, às vezes até “berrante” [3][4]. Os artistas da renascença acabaram, através do engano da perceção a que foram induzidos, por criar um modelos estéticos diferentes daquilo que queriam imitar e recriar. A história está cheia destes acasos
Com base neste exemplo facilmente concluímos que muitas das ideias formadas que temos do passado são imprecisas pela informação alterada e deturpada que nos chegou. Também corremos o risco de sermos mal retratados no futuro, embora não talvez isso pouco nos deva preocupar. Quanto ao passado, o melhor será manter uma mente aberta e capaz de assumir as cores do conhecimento mais atualizado, pois não saberemos quais os erros e influências erróneas que podemos continuar a assumir como verdades vindas do passado.
Reconstituição da estatuária do Partenon - Atenas

Referências:
[1]  Choay, Françoise; 2010; "Alegoria do Património". Edições 70
[2] “Tracing the Colors od Ancient Sculpture”, video disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=7UsYHo5iarM
[3] “True Colors”, disponível em: http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/true-colors.html#
[4] ”El auténtico y colorido aspecto de las estatuas clásicas”, disponível em: http://es.noticias.yahoo.com/blogs/arte-secreto/el-aut%c3%a9ntico-y-colorido-aspecto-las-estatuas-cl%c3%a1sicas-121014767.html

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pirâmides pelo Mundo – Uma Razão Técnica


Muito se tem especulado sobre a razão (ou razões) pela qual as culturas antigas construíram pirâmides. Numa análise global pela história da arquitetura monumental da humanidade, comprova-se que várias civilizações e culturas, em épocas históricas e em geografias diferentes, por vezes em qualquer relação entre si, construíram pirâmides monumentais. 
A Pirâmide de Caio Céstio em Roma - Jean-Baptiste Lallemand
Independentemente das funções e significados políticos, sociais e religiosos, tendo em conta a tecnologia que essas sociedades detinham, dificilmente poderiam ter feito outro tipo de construções. A construção de grandes estruturas estava limitada à tecnologia e materiais existentes. Em pedra, dificilmente se poderia construir algo monumental e de altura considerável que não fossem pirâmides ou formas piramidais. Pois, como se sabe, por mais resistente que seja um tipo de pedra, apesar da boa resistência à compressão, dificilmente aguenta grandes esforços de tração e flexão. Logo, dificilmente se conseguiria fazer algo de imponente em altura que não fosse respeitando as propriedades naturais das pedras - enquanto elementos singulares que são empilhados e ligados para gerar um todo sólido, de base mais larga que o topo
Do ponto de vista da mecânica de solos o fenómeno físico que demonstra o porquê das formas das pirâmides é bem conhecido: depende e relaciona-se com a propriedade ou parâmetro de “ângulo de atrito interno”. Esse tal ângulo é aquilo que define a inclinação que se forma quando se despeja areia num monte, as inclinações dos planos imaginários tangentes às superfícies. Dependendo do tipo de areia ou solo (e extrapolando para a pedra), o monte que se forma, com um hipotético despejo, apresenta um determinado ângulo, definido entre as superfícies tangenciais do próprio monte. De um modo simplista, representa o ângulo que garante a estabilidade estabilidade que um monte de uma determinada areia (solo ou inerte), ou seja, pode-se considerar como o valor quantificável da quantidade de atrito entre as partículas que impede que o hipotético monte se desmorone por ação da gravidade
Assim, mesmo que os antigos construtores das antigas pirâmides, um pouco por todo o mundo, não compreendessem a característica do ângulo de atrito interno, percebiam perfeitamente qual o ângulo que garantiria estabilidade a uma determinada pirâmide, muito provavelmente em relação aos montes que se poderiam construir, em estabilidade, de um determinado tipo de pedras.
No antigo Egipto há provas destes testes falhados e de sucesso de protopirâmides. Algumas ruíram, noutras o design foi sendo aperfeiçoando até se chegar àquilo que conhecemos como as pirâmides clássicas, e que se correlacionam com a teoria de solos do ângulo de atrito interno.
Na antiguidade tentou-se construir muitos outros tipos de estruturas (de relembrar que entre os primeiros monumentos estão os montes de terra e pedras - as mamoas ou tumuli), mas aos nossos dias chegaram apenas as mais sólidas, e essas são, sem dúvida, as pirâmides. Por isso, do ponto de vista estrutural e construtivo, a opção da monumentalidade estava muito condicionada, daí certas formas serem incontornáveis, tal como as leis da física o ditam. Se assim não fosse, os elementos mais altos do mundo não teriam a forma que têm: as montanhas seriam mais parecidas com torres do que com pirâmides.

Referências de documentários:
  • Out of Egipt - http://dsc.discovery.com/tv/out-of-egypt/

Bibliografia:
  • Cardoso, J. L. “Pré-História de Portugal”. Verbo, 2002.
  • Fernandes, M. M. “Mecânica dos Solos – Conceitos e Princípios Fundamentais”. FEUP Edições, 2011.
  •  Llera, R. R. “Breve História da Arquitectura”. Editorial Estampa, 2006.


sábado, 7 de abril de 2012

Começar a construir de cima para baixo - Uma Técnica de Engenharia


As paredes devem-se começar a executar de cima para baixo”.  Qual seria a resposta de um imaginário interveniente a esta minha afirmação? Provavelmente diria: que disparate, todos sabem que as casas não se começam pelo telhado! Apesar da reação, não teria qualquer receio em fazer tal afirmação, até porque já a fiz várias vezes e continuarei a fazer. Mas, para evitar que a afirmação se torne um anacronismo, há que aprofundar e explanar mais o assunto.

Construcão 1923 - Thomas Hart Benton

Primeiro, quando digo que as paredes se devam começar a executadas por cima, refiro-me apenas a que devem ser construídas primeiro nos pisos superiores, isto depois da estrutura que as irá suportar estar já finalizada. Por exemplo, as paredes em alvenaria, para edifícios com estruturas de betão armado ou metálicas, devem começar a ser executadas, fiada a fiada da base do piso até ao tecto, dos pisos superiores até aos inferiores. Habitualmente afirma-se, como corrente metáfora em contextos que até nada têm que ver com construção e por não especialistas,  que se começa sempre a construir a partir de baixo. Isso é verdade para os elementos estruturais que garantem a estabilidade da construção, mas nem sempre é uma generalização construtiva válida, tal como demonstrarei. As paredes de alvenaria, que revestem e dividem interiormente atualmente os edifícios, tendo em conta a construção tradicional corrente, não são elementos resistentes. Paredes em alvenaria, nas construções recentes, são até “negativas” do ponto de vista estrutural, ou seja, apenas fazem peso sobre o edifício em causa e sua estrutura resistente. Como fazem peso sobre a estrutura também a deformam – pois é, todas as estruturas se deformam, e essa deformação é controlada em fase de projeto através do conceito de  Estados Limites de Utilização. Logo, se começarmos a construir as paredes a partir dos pisos inferiores, essas paredes, quando todo o edifício tiver construído, serão sujeitas a esforços causados pelas deformações posteriores, provenientes da própria estrutura sujeita aos acréscimos de pesos incrementais das paredes que se vão construindo. Como as paredes não são construídas para serem elementos resistentes o mais comum é surgirem fendas. O ideal é ir construindo as paredes de cima para baixo, construindo-as, piso a piso, do de cota superior até ao de cota inferior, e assim sucessivamente até tudo ficar finalizado. Com esta opção a estrutura vai deformando progressivamente e as paredes inferiores serão executadas já com a deformação espectável total da estrutura resistente. Assim evitam-se fendas nas paredes e restantes elementos construtivos de revestimento (rebocos, pinturas, e outros). Esta é por vezes uma das razões para predes de construções recentes apresentarem fendas e fissuras (há muitas outras também, mas isso seriam outras discussões e razões). Uma outra solução, que pode evitar estas fendas por deformação vertical dos elementos, passa por optar por não “ligar” o topo das paredes à laje, aplicando um tipo de material elástico que absorva possíveis deformações e não transmita esforços. Esta última opção pode ser devidamente disfarçada e não se notar o artifício nas paredes finalizadas.
Mais uma vez se comprova que o sendo comum nem sempre é o melhor juiz, a solução que parecia evidente nem sempre é a melhor. Por vezes - usando uma metáfora relacionada com construção - “é preciso partir pedra” e fazer algumas desconstruções (de ideias). Neste caso - continuando com as metáforas - o excesso de adereços, indevidamente colocados, podem levar mesmo à ruína do todo, ou a que esse todo sofra danos evitáveis. Há que respeitar e atender ao essencial, o resto poderá ser apenas acessório - uma trivialidade que pode dizer muito e pouco ao mesmo tempo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Guerra dos sexos na pré-história e megalitismo


  Numa altura em que sociedades pré-históricas – aquelas que desconheciam a escrita – entravam em processo de sedentarização, passavam do período do mesolítico para o neolítico, numa altura em que as atividades recolectoras, como forma de subsistência, começavam a ser substituídas pelas agro-pastoris é momento em que surgem as primeiras construções megalíticas – construções de grandes pedaços líticos, ou seja, grandes rochas e pedras.
  Das mais importantes estruuras megalíticas destacam-se os dólmens (ou antas) - para fins funerários (com a devida importância social e demarcação no território envolvente) - e os menires - para fins que relacionados com atividades ligadas à cultura dos vivos (possivelmente o assinalar de algo importante para as comunidades que os ergueram: símbolos de pertença, domínio territorial, culto ou outros culturais/utilitários). Segundo alguns especialistas, estes primeiros monumentos, que até podem ser considerados os primeiros “edifícios públicos”, serviam, para além dos propósitos religiosos, de âncora a comunidades errantes em processo de sedentarização, que dependiam cada vez mais do território que escolhiam e da dinâmica e funcionamento e coesão do próprio grupo.
Menir de Croisac - autor desconhecido datado de 1893
  Feita esta primeira introdução ao megalitismo há que justificar então o título do presente texto. As relações das estruturas megalíticas com a religiosidade e cultos pré-históricos são evidentes, e aos cultos estava sempre associada, ou era mermo o centro do próprio culto, a fertilidade. Curiosamente parece que os dois grandes tipos de construções [menires e antas] se associavam a cultos de fertilidade por género/sexo. Ou seja, pelas suas formas de acentuada verticalidade, os menires associavam-se ao sexo masculino e as antas ao feminino. Em Portugal, no menir de Outeiro, em Reguengos de Monsaraz, foi mesmo detetado a abertura na rocha do meato uretral. Outros menires do barlavento Algarvio estão decorados com linhas onduladas – provavelmente associadas às veias e artérias –, igualmente associadas à fertilidade masculina. Por outro lado, pela sua configuração em planta, e por originalmente serem câmaras interiores onde se acedia por uma estreita entrada (podendo incluir corredor), as antas ou dólmens facilmente se podem também associar ao sistema reprodutivo feminino, e assim ao culto da fertilidade feminina.
Dolmen - John Costello
  Os dados arqueológicos indiciam que o erguer dos primeiros menires possa ter ocorrido antes da construção das antas, e que as antas de construção mais recente e evoluída são aquelas onde a câmara interior é mais definida e existe corredor de acesso ao exterior. Estes indícios podem levar a crer que na pré-história os cultos de fertilidade estavam diretamente relacionados diretamente com os aparelhos reprodutivos masculinos e femininos. Podemos, para além disso, especular que até pode ter ocorrido uma “guerra dos sexos”, pois em alguns menires existem algumas gravações póstumas de símbolos que sugerem vulvas. Tal acontecimento, considerando também as ocorrências de transformações de antigos menires em antas, pode significar que o culto da fertilidade masculina poderá ter sido suplantado, posteriormente, pelo do sexo oposto, ou então terem coexistido em parceria. 
  Apesar de todas as especulações, ainda que com bases em dados e provas arqueológicas, essa aparente suposição de “guerra dos sexos” pré-história poderá ter sido apenas uma aparência, tal como aquele que supostamente se vive hoje. Afinal, para uma grande percentagem da população, de um ponto de vista sexual, um sexo não vive sem o outro, independente dessa relação ser tensa e de aparente conflito.

Referências Bibliográficas:
"História da Humanidade - Pré História". David Solar e Javier Villalba. Circulo de Leitores, Lisboa 2007.
"Pré-História de Portugal". José Luís Cardoso. Universidade Aberta, Lisboa 2007.

domingo, 20 de novembro de 2011

Porque "fumam mal" hoje as chaminés?

Sempre que começa o Inverno, ou por vezes até o Outono, começam-se a acender em muitos dos lares portugueses lareiras. Por essa altura é comum também surgirem conversas, mais ou menos informais sobre essas mesmas lareiras, sedo já uma constatação habitual a noção generalizada de que: as lareiras de antigamente fumavam melhor, hoje constrói-se cada vez pior!”. Nada poderia ser mais falso!
Tempestade de Neve - William Turner

O senso comum leva, obviamente, a associar o problema de escoamento do fumo das atuais lareiras para o exterior dos edifícios à sua própria construção – da lareiras é claro. A associação é normal, no entanto o problema não é das lareiras em si, o problema é do edifício. Mais concretamente, o problema relaciona-se com a falta de ventilação natural dos edifícios de construção contemporânea, que advém da maior estanquidade e isolamentos dos materiais e técnicas construtivas que hoje se utilizam. Ou seja, o problema do fumo surgiu depois de se resolver o problema do mau isolamento dos edifícios mais antigos. Nos edifícios de construção mais antiga, porque tinham tantas frinchas e espaços vazios por onde entrava ar vindo de fora e devido à convecção, o ar-circulava naturalmente de dentro para fora e vice-versa. O ar ao longo dos edifícios, por razões de convexão, circula: entrando ar frio do exterior e saia o mesmo ar depois de aquecido pela chaminé. Ou seja, antigamente: criava-se ventilação natural direccionada que forçava o fumo a sair pela chaminé. Este fenómeno era tanto mais acentuado quando maior fosse o vento. Esses fenómenos podem ser chamados de "efeito de chaminé".
Apesar do isolamento dos edifícios ser benéfico do ponto de vista energético, mesmo que fumem mal as chaminés, isso fará com que tenhamos menos ventilação natural e que as renovações de ar possam não ser as suficientes para dispersar alguns maus odores e até gases nocivos e perigosos para a nossa saúde que se formam dentro dos edifícios.
Curiosamente, se pretendermos que as nossas chaminés de construção recente “fumem” melhor há que instalar sistemas de ventilação mecânica ou então deixar de isolar tantos as casas. Qualquer uma das soluções traz acrescimentos de consumo energético para manter uma determinada temperatura. Resta saber se a degradação do Ambiente – associada aos crescentes consumos energéticos e emissões poluentes correspondentes - vale mais que um ambiente interior com alguns gases perigosos e o desagradável e visível fumo?

Ficam as seguintes opções:
•    Acender a lareira, passar algum frio, não isolar a casa e deixar a chaminé "fumar bem";
•   Acender a lareira, evitar o frio, isolar a casa e ficar com fumo no interior e outros gases nocivos;
•    Acender a lareira, evitar o frio, insolar a casa e gastar energia a ventilar o fumo e outros gases perigosos para fora;

•    Acender a lareira com um recuperador de calor (que custará mais dinheiro e nos "afastará mais da chama"), evitar o frio e insolar a casa, sem esquecer outros gases perigosos;
•    Não acender lareira, isolar a casa, usar outras técnicas e fontes de calor (que tendencialmente gastam mais energia) e evitar o fumo, mas alguns gases perigosos ficam sempre lá.

Bem, confuso e complexo, até porque a solução ótima obriga a uns quantos cálculos e escolhas pessoais ou dependentes dos contextos… não obstante de habitualmente ser a última opção a melhor. No fundo, interessa é mesmo isolar a casa quanto baste (por exemplo, reguladores em fachadas e caixilharias que permitem controlar a entrada de ar) para garantir alguma ventilação natura para dispersar gases nocivos.  Já a fonte de aquecimento depende, por outro lado, de quanto estamos dispostos gastar com isso. Mas uma lareira é sempre uma lareira, afetivamente e emocionalmente as sensações que liberta são outras.

Será que, pensando em todo o trabalho e questões que levanta, vale sequer iniciar uma conversa sobre como fuma uma chaminé?

Nota: para mais informações sobre ventilação natural de edifícios fica a seguinte sugestão: "Ventilação Natural de Edifícios de Habitação" da autoria de João Carlos Viegas, numa edição do LNEC de 2002.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A manutenção da Restauração da Independência de 1640 - a importância do planeamento

Hoje é dia 1 de Dezembro e comemoram-se 370 anos desde a Restauração da Independência nacional face a Espanha (ao império dos Habsburgos ou Filipes como por cá os conhecemos). Em 1640, neste mesmo dia, uns quantos nobres dirigiram-se a Lisboa e fizeram um golpe de estado, atirando o governador em funções pela janela, e declararam Portugal independente de Espanha, após 80 anos de união ibérica. Pouco depois seria coroado o novo rei de Portugal D. João IV e uma nova dinastia governaria um Portugal Independente. No entanto, só foi possível manter Portugal enquanto reino independente depois de rechaçar os Espanhóis na guerra que se seguiria – a Guerra da Restauração
Pintura alusiva ao golpe de 1640 - autor desconhecido
Apesar de Espanha não ter respondido imediatamente a esta revolta com força militar, pois na altura o Império dos Habsburgos estava a braços com outras revoltas (a revolta da Catalunha) e conflitos militares (a Guerra dos 30 anos), mas todos por cá saberiam que, apesar do altura  para concretizar o golpe ter sido a ideal, mais tarde ou mais cedo Portugal seria invadido. Assim que a revolta da Catalunha – que ainda hoje é parte integrante de Espanha – foi esmagada em 1648, e o domínio de Madrid restabelecido, as atenções de Espanha voltaram-se para a reconquista de Portugal.

Mas D. João IV tinha-se precavido. Neste espaço de tempo, que o oportunismo do golpe permitira, consegui levar a cabo uma monumental empreitada nacional – literalmente pôr o país em obras. Conseguiu reconstruir e modernizar muitas das cidades, vilas e fortalezas estratégicas segundo as novas e mais actuais preceitos da arquitectura militar. Num pequeno espaço de tempo transformou muitas muralhas e castelos medievais em verdadeiras praças-fortes, preparadas para resistir contra as mais modernas armas de fogo da época, especialmente contra a artilharia que tinha tornado as antigas defesas medievais obsoletas. Os antigos muros e torres foram convertidos em balcões com guaritas, bastiões e revelins. Foram criados complexos fossos em volta das fortificações. O poder da artilharia que fazia cair e desmoronar em horas as muralhas medievais que aguentaram séculos de conflitos bélicos tinha de ser parado - e foi-o na prática. 
 
 A nova arquitectura militar era revolucionária em muitos aspectos. Os muros eram mais baixos e muito mais espessos, em taludes de terra compactada com revestimentos de alvenaria de pedra ou tijolo. O traçado gerai, visto em planta, dava origem a irreverentes e intrincadas figuras geométricas, simétricas e regulares com muitas saliências e ângulos  proeminentes. Os muros em escarpa inclinada, ao contrário dos ângulos rectos verticais das muralhas medievais, e os bastiões, que em profundidade quebravam a monotonia das muralhas com os seus ângulos agressivos, permitiam que as balas dos canhões atacantes fizessem ricochete. Estas características das construções, conjugadas com fossos, que dificultavam o avanço de quem pretendia atacar estas novas defesas, e com a  correcta disposição da artilharia defensiva, criavam um mortal fogo cruzado que esmagava todos aqueles que tentassem um ataque frontal. Isto era possível mesmo recorrendo a poucas baterias e soldados.
Planta de nova brisach - Le prestre de Vauban
Foi, em parte, devido à capacidade de planear e executar estas magnificas obras de engenharia militar - que hoje ainda podemos contemplar em locais como Almeida, Valença, Elvas, entre outras cidades e vilas - por parte da nova administração de Portugal, tendo em vista e antecipando os problemas do futuro, contribuíram muito para manter a independência de Portugal perante um avassalador poder militar de um dos mais poderosos Impérios da época.

Fontes:
A Grande História da Cidade - Charles Delfante
História da Guerra, mapas da história - Ian Drury
Os mais belos castelos de Portugal - Júlio Gil
The Art of War, war and military thought - Martin Van Creveld 

domingo, 14 de novembro de 2010

Estruturas de Madeira ou Aço - qual o material mais resistente ao fogo?

Quando pensamos em construir edifícios de madeira em Portugal é comum levantarem-se logo uma série de preocupações - algumas que noutros países parecem não existir. Pensa-se logo na sua durabilidade da madeira enquanto material de construção, mas pensa-se também no perigo de incêndio. Como associamos uma estrutura construída em madeira à lenha que queimamos nas nossas lareiras, o senso comum leva-nos a concluir que um edifício com estrutura em madeira resiste menos a um incêndio que as estruturas em elementos metálicos e de betão armado. Estas ideias podem estar muito longe da realidade, sendo que a física/química podem ajudar-nos a perceber os fenómenos associados aos incêndios em edifícios! Ora tomemos a as seguintes palavras em consideração.
Grande Incêndio de Londres - Autor desconhecido
Tal como em outros combustíveis sólidos, quando a combustão se inicia nos elementos de madeira esta decompõe-se em gases que alimentam as chamas. São as chamas que vão aquecer a madeira ainda não atingida e promover a libertação de mais gases inflamáveis. Isto continuamente até desaparecer o combustível que é a própria madeira. No entanto, ao contrário de outros materiais como o aço, a madeira tem baixa condutibilidade térmica. Esta propriedade dificulta a elevação da temperatura em zonas contíguas às que se encontram em combustão. Mas é devido à camada carbonizada (que tem cerca de 1/6 da já diminuta condutibilidade térmica da madeira maciça), que se produz quando um elemento de madeira arde, que se obtém uma extraordinária e improvável resistência destas estruturas ao fogo. A camada carbonizada impede a transmissão de calor para o interior dos elementos de madeira,  atenuando a propagação do fogo. Assim garante-se durante muito mais tempo a estabilidade estrutural dos elementos em madeira durante a deflagração de um incêndio. Seguramente que todos já vimos florestas que arderam e onde as árvores se mantiveram de , tendo sido apenas chamuscadas e ardido exteriormente. 

Então, veja-se como são afectadas e qual o comportamento dos matérias mais tradicionais  considerando a sua resistência ao fogo. Durante um incêndio, as temperaturas atingem mais do que 1000°C. Entretanto, o aço, a 500°C, já perdeu 80% de sua resistência, enquanto o betão começa já a perder resistência a partir dos 800°C. A madeira, mesmo a altas temperaturas, conserva durante algum tempo uma secção residual bem significativa que se mantêm a temperaturas baixas, mesmo a pequena distância da zona em combustão, e que conserva as propriedades físicas inalteradas. No entanto, quer o betão quer o aço podem receber tratamentos que lhe confiram propriedades de resistência ao fogo tão ou melhores que as da madeira. 
Agora que o Inverno se avizinha e que as lareira começam a queimar as primeiras madeiras, será caso para podermos constatar como algumas peças de madeira demoram horas e até mesmo dias a serem consumidas pelo fogo. Se pensarmos que esse tempo todo, caso façamos a extrapolação para um edifício, pode ser fundamental para evacuarmos os utilizadores de um determinado edifício aquando dum incêndio, podemos dizer que as estruturas de madeira podem ter, mais até que as de betão armado e metálicas correntes, grande resistência ao fogo – sendo que a resistência ao fogo se afere tendo em conta o tempo que a estrutura se mantêm estável.


Fontes: Projecto de Estruturas de Madeira - Amorim Faria e João Negrão; Apontamentos teóricos da disciplina de “Estruturas de Alvenaria e madeiras” de 2008 do curso de Engenharia Civil ministrado na ESTG - IPL

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