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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Origens da cooperação: os indíviduos ou as normas sociais

Um artigo científico recente, com destaque online da revista Science News,  propõe algo de novo sobre o desenvolvimento dos processos de colaboração sociais, tendo em conta aquilo que se pensava serem as origens dos processos de colaboração sociais que levaram à atual complexidade das sociedades humanas. 

A marcha da humanidade - David Alfaro Siqueiros
O artigo, de Kristopher M. Smith, Tomás Larroucau, Ibrahim A. Mabulla e Coren L. Apicellada  refere a experiência realizada com o povo Hazda, cuja organização social e modo de vida se aproxima das primeiras sociedades de caçadores-recolectores, associadas aos primeiros estágios de desenvolvimento que terão estado na origem das atuais sociedades humanas. Os autores concluíram que não são os indivíduos que definem o modelo de cooperação, ao contrário do que é o pensamento generalista vigente sobre o desenvolvimento dos processos de partilha e interajuda social. Segundo os autores, são as normas sociais que definem os níveis de cooperação e não os indivíduos isoladamente. Na experiência realizada e sistematizada no artigo, indica-se que os indivíduos do povo Hazda apresentavam comportamentos que sustentam esta ideia. 

Sendo caçadores-recolectores, os Hazda circulam livremente em territórios extensos, de onde recolhem os recursos necessários à sua sobrevivência. Assim, movimentam-se ciclicamente e regularmente entre diversos locais que assumem formas de estabelecimentos permanentes no território, acessíveis a toda a comunidade. Registou, através de uma experiência semelhante a um jogo de partilha, que os indivíduos que circulavam de campo em campo adaptavam o seu comportamento às normas de cooperação sociais desse campo. O mesmo individuo era muito mais cooperante e partilhava  o resultado das recolhas de alimentos e caçadas nuns campos e comunidades que noutros. Nesses campos onde o sistema de partilha e cooperação era mais intenso, existiam mais normas de regulamentação sociais que fomentavam a cooperação, e que se precaviam de eventuais oportunistas.

Estas descobertas e conclusões parecem simples, mas as implicações são imensas. Significa que a personalidade de partilha ou não partilha individual pode não ser a dimensão mais relevante para o sucesso do desenvolvimento da cooperação social. As sociedades mais cooperantes tendem a estabelecer normas de regulação desse funcionamento coletivo, incluindo sistemas para se precaverem dos indivíduos que queiram aproveitar, sem contribuir, desses sistemas de cooperação. Ou seja, mesmo que os indivíduos que não sejam naturalmente, pelo seu perfil individual, cooperantes, eles tendem a ser igualmente cooperantes nas sociedades onde as normas de cooperação são implementadas por todos. Se fizermos uma análise inversa, podemos também concluir que a ausência de normas sociais de cooperação pode impelir indivíduos naturalmente propensos à cooperação a assumir comportamentos mais individualistas.

No que toca a políticas de desenvolvimento da cooperação estes conhecimentos são muito importantes para implementar e continuar a aprofundar aquilo que são os métodos colaborativos, sendo uma importante tendência para renovação dos sistemas democráticos. Embora o modo como se construíram e continuam a construir as normas sociais seja ainda pouco conhecido, sabemos assim que a via para fomentar mais cooperação passa pela assimilação e generalização das mesmas normas sociais que fomentam a cooperação social.

Referências:
Smith, Kristopher M. ; Larroucau, Tomás ; Mabulla, Ibrahim A. ; Apicella, Coren L. (2018). Hunter-Gatherers Maintain Assortativity in Cooperation despite High Levels of Residential Change and Mixing, Current Biology 28, 1–6 October 8,  Elsevier Ltd. https://doi.org/10.1016/j.cub.2018.07.064

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ser ignorante da sua própria ignorância: o efeito Dunning-Kruger

Quase por acaso, numa daqueles exemplos positivo da utilização das redes sociais, deparei-me com um vídeo que explicava o efeito Dunning-Kruger. Trata-se de um efeito tão surpreendente como natural. Quase todos já experimentamos na primeira pessoa os casos associados a este fenómeno. 

Retrato de Antonietta Gonzalez - Lavinia Fontana

Atualmente tendemos a especializações técnicas e de conhecimento, pelo que será provável que cada um de nós seja mais especialista numas coisas que noutras, quer seja pela via da experiência do saber-fazer quer pelo estudo académico e teórico, sem com isto querer tornar as duas vertentes antagónicas, pois são obviamente complementares. Com as normais interações sociais, ainda mais intensas na dira “era da informação” em que vivemos, deparamo-nos com conversas cruzadas entre especialistas e não especialistas sobre quase tudo. Nem sempre os não especialistas, mesmo os totalmente leigos, se coíbem de afirmar, com toda a certeza, verdades absolutas. Gera-se um efeito de superioridade ilusória, que costuma ser alimentada pelas relações de poder sociais, que habitualmente nada têm que ver com o poder emanado do saber e conhecimento em causa. É um fenómeno atualmente estudado pela psicologia e sociologia comportamental.

O efeito Dunning-Kruger refere-se aos casos em que a ignorância e incompetência num determinado saber ou assunto impede que se percecione o próprio nível de desconhecimento nessa área. Lembram-se da famosa expressão atribuída a Sócrates “Só sei que nada sei” ? É mais ou menos isso. Quem sofre do efeito Dunning-Kruger pode estar convencido que sabe exatamente o que afirma e defende, não por ter argumentos e conhecimento sólidos, mas por não os ter no nível mínimo que o faria duvidar do pouco que sabe. No fundo, não ter determinadas competências num assunto implica não ter também as competências para se saber que não se sabe desse assunto.  Por outro lado, o efeito Dunning-Kruger pode gerar também insegurança nos reais detentores de conhecimento, pois, perante a imensidão do saber, pode dar-se a sensação de nunca se saber de facto nada, tal é a imensidão e perceção do que há por saber. Complicado? Nem por isso. Até é bastante simples, talvez seja uma questão de horizontes e experiência pessoal, mas que pode ser amplificado quando quem sofre estes efeitos ocupa ou exerce posições de poder. Pode ser a justificação para uma imensidão de más decisões, más lideranças, más estratégias, maus projetos e falhas de desenvolvimento de organizações, instituições, empresas e governos. O fenómeno pode acontecer e ter efeitos nefastos na nossa vida pessoal, relações sociais, nas famílias, associações, partido políticos, movimentos cívicos e sociais, na gestão da causa pública. Pode ser simplesmente um fenómeno muito irritante numa conversa informal, que nos irrita, mas onde pouco se poderá fazer porque simplesmente não vale a pena a chatice de discutir com a teimosia de quem acha que sabe tudo e nada mais tem a aprender.

Estamos perante um tema atual de investigação cientifica e académica que tem tentado explicar estas situações que muitos de nós podem já ter presenciado na primeira pessoa. Este fenómeno foi inicialmente estudado por Justin Kruger e David Dunning, que na altura desenvolveram as primeiras investigações na Universidade de Cornell, tendo dado origem a uma publicação em 1999 que marcou as investigações posteriores, feitas pelos próprios autores como por novos investigadores.

Pode ser que um dia se encontre uma solução para isto. Mas esperem lá, já existe a escola e as múltiplas formas de formação em todos os níveis, tal como os fenómenos de aprendizagem cultural em sociedade…


Vídeo resumo de Francisco Baptista no Facebook




Referências bibliográficas:

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Vantagens e Limitações do uso da análise SWOT: caso do projeto UrbanWins

A utilização da matriz SWOT (FOFA em português) está muito generalizada em vários processos de análise, avaliação e planeamento de projetos. Mas nem sempre, apesar da utilização massiva, se tem consciência das limitações desta metodologia. Há que evitar a sua aplicação cega, sem consciência das implicações e sem espírito crítico.

A matriz SWOT identifica para um determinado objeto - em sentido lato, podendo ser uma empresa, projeto, ideias, etc. -, numa grelha, as Forças, Fraquezas, Ameaças e Oportunidades. Consideram-se as relações do contexto interno com as Forças e Fraquezas e do ambiente externo com as Ameaças e Oportunidades. Isto gera uma ou mais matrizes que, habitualmente, são preenchidas de forma resumida, sistemática e simplificada, tendendo-se para a criação de tópicos ou entradas diretas nos campos da matriz (habitualmente linhas). Atribui-se o desenvolvimento desta metodologia a Albert Humphrey, académico da Universidade de Stanford, durante as décadas de 1960 e 1970 [1]. 

Fonte da Imagem: http://jorgenca.blogspot.pt/2015/12/analise-swot-aplicada-conceito-e-um.html

Apesar desta metodologia, tal como foi referido, identificar os pontos fortes, fracos, ameaças e oportunidades, conseguir fazer alguma relação com o ambiente interno e externo, os resultados e aplicabilidade tem várias limitações. O resultado e produto do preenchimento de uma análise SWOT tende a ser pouco aprofundado, não sendo suficiente para analisar devidamente um projeto, ideia ou outro objeto em causa. Por exemplo, a metodologia SWOT: não define prioridades diretamente, raramente identifica alternativas e um sistema de avaliação comparativo que leve à tomada de decisão [2]. No entanto não deixa de ser muito importante usar esta metodologia em conjunto com outras metodologias. 

Fonte da imagem: https://blog.luz.vc/como-fazer/como-usar-analise-swot-para-lancar-um-produto-ou-servico/

No projeto UrbanWINS, durante a 3.ª Ágora presencial em Leiria utilizou-se a metodologia SWOT para dar continuidade ao processo colaborativo. Fruto das duas anteriores sessões presenciais surgiram várias ações que haveriam de ser aprofundadas na terceira sessão. Para tal afixaram-se as fichas das ações, uma por cada ação, e sobre elas uma matriz SWOT para que os participantes pudessem avaliar de forma expedita as ações, colocando "post-its" com as várias entradas nos quatro campos da matriz. Tendo em conta a natureza deste projeto, sendo que os métodos teriam de ser de aplicação imediata, dificilmente se poderiam usar metodologias mais aprofundadas para avaliar as ações. Apesar da análise SWOT não permitir um grande grau de detalhe, quando estão vários objetos de avaliação lado a lado, cada um com a sua SWOT, consegue-se melhorar todo o processo de análise comparativa. Há que não esquecer de que este processo colaborativo é direcionado para pessoas que apenas trabalham pontualmente nos assuntos e nos conteúdos em causa. Posteriormente, foram também votadas as ações a serem trabalhadas mais profundamente em grupos, que deram inicio ao trabalho nas várias mesas disponíveis, concretizando a vertente mais colaborativa do processo.

Imagem panorâmica da 3.ª ágora local do projeto UrbanWins em Leiria

A análise SWOT já não é novidade e, talvez por isso, está para ficar. Dificilmente se desenvolve um projeto sem a sua implementação. As limitações são evidentes, mas quando se está perante um processo colaborativo, em que se pretende facilidade de interação e fomento imediato da participação, faz todo o sentido utilizar uma metodologia que os participantes já conhecem de outros contextos.

Referências citadas:
[1] "History of the SWOT analysis" (2010). The Bright Hub Project Management. Disponível em:  http://www.brighthubpm.com/methods-strategies/99629-history-of-the-swot-analysis/
[2] "Benefits and limitations of SWOT analysis" (2016). Queensland Government . Disponível em: https://www.business.qld.gov.au/starting-business/planning/market-customer-research/swot-analysis/benefits-limitations

Complementos bibliográficos:
Lindon, D.; Lendrevie J.; Lévy J.; Dionísio P.; Rodrigues J. (2015). Mercator XXI Teoria e prática do Marketing, 16.ª edição. Lisboa: Dom Quixote.


#UrbanWins #abuscapelasabedoria

quinta-feira, 31 de março de 2016

Felicidade no Trabalho – Um documentário de Martin Meissonnier

O trabalho é um dos pilares da vida contemporânea. Desde que o capitalismo traduziu o trabalho em valor, indiretamente, transacionável colocou-o sob pressão. Ou seja, modificou as relações de trabalho e submeteu os trabalhadores a novos desafios.

Os trabalhadores de hoje estão cada vez mais submetidos ao “turbocapitalismo” e ao desenvolvimento económico mundializado onde se diluem restrições, direitos e as velhas estruturas laborais. São imensos os casos de trabalhadores em situações insustentáveis, tanto na dimensão salarial mas especialmente pela pressão do stress.
 

O presente texto não é um manifesto político ou sindical. Nada disso. Serve de introdução ao documentário “Felicidade no Trabalho”, realizado por Martin Meissonnier, em 2015. O que torna esse filme especialmente interessante é a inversão do problema. Foca-se na solução para os problemas laborais através do recurso à felicidade. Fá-lo recorrendo a vários exemplos de empresas e instituições que se modernizaram e melhoraram a sua produtividade e desempenho através dessa estratégia. Centrar o funcionamento da empresa na garantia da felicidade dos trabalhadores demonstrou ser capaz de recuperar empresas/instituições em situação difícil e torna-las casos de sucesso com o devido retorno económico para trabalhadores, proprietários e investidores.

Passemos a alguns dos exemplos que levaram ao sucesso:
• Envolvimento dos trabalhadores em todas as atividades da instituição, especialmente na decisão de funcionamento e estratégia geral;
• Organização horizontal, evitando uma fria e distante hierarquia vertical;
• Valorização do potencial e capacidades individuais dos trabalhadores, incluindo recompensas financeiras e outras vantagens quando contribuem para o melhor desempenho da instituição;
• Responsabilização e autonomia nas tarefas e funções de cada trabalhador;
• Participação na escolha das chefias, predispostas para modelos colaborativos contínuos e em melhoria constante;
• Flexibilidade nos horários, possibilidade de trabalho à distância, respeito pelo ritmo individual de cada trabalhador e trabalho orientado para objetivos;
• Sentimento de que as funções que os trabalhadores desempenham são socialmente benéficas e importantes.

Estes são apenas alguns exemplos generalistas que se podem resumir os casos concretos de empresas descritas no documentário. De notar que algumas empresas já fazem isto em Portugal, mas são exceções, pelo que seguramente haveria muito a ganhar em produtividade tal como se demonstra nos casos de sucesso identificados.

Em jeito de conclusão importa lembrar mais alguns dados que o documentário enuncia. Lembra que passamos maior parte do nosso tempo ativo a trabalhar, mais que em lazer, família e outras atividades. Que as sociedades ocidentais têm assentado numa cultura democrática e de respeito pela liberdade e individualismo, mas que nas empresas e instituições essa mudança não ocorreu. Que o choque de gerações é evidente, no caso concreto da geração Y isso é notório, em que os modelos rígidos de organização do trabalho não têm em conta as mudanças sociais e de mentalidades das novas gerações. Esses novos trabalhadores valorizam mais a flexibilidade, criatividade, independência e o propósito das funções laborais assumidas que a estabilidade e a remuneração como o principal valor para garantir a felicidade e realização no trabalho.

Tendo em conta uma realidade europeia, o documentário refere que somente cerca de 10% dos trabalhadores são felizes no trabalho. Que para 60% deles o trabalho é-lhes indiferente e que os restantes 30% simplesmente detestam o que fazem. Se os trabalhadores só atribuem ao salário cerca de um terço das razões para serem felizes, tudo o resto dependerá daquilo que já se enunciou como medidas a implementar para melhorar a felicidade no trabalho e produtividade das empresas e instituições. Trabalhadores desmotivados, stressados e contrariados não contribuem para a produtividade das empresas/instituições. No fundo é bastante simples.

Assim, o documentário comprova que compensa, tanto pela saúde psíquica dos trabalhadores como pelos ganhos económicos, apostar na felicidade dos trabalhadores, seja em que ramo de atividade for, quer seja nos sectores públicos ou privados.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Troikocracia, Weber e o Marquês de Pombal - segundo Miguel Pereira Lopes

Tendo eu ido a assistir a uma conferência sobre Poder Autárquico fiquei surpreendido com uma das intervenções dos palestrantes, pois surgiram várias referências a Max Weber e ao Marquês de Pombal com o intuito propositado de controvérsia e reflexão crítica. Por isso, pareceu-me interessante referir aqui algumas das palavras de Miguel Pereira Lopes, professor no ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, proferidas nessa conferência.

1.º Marquês de Pombal - Louis Michel Van Loo
 
Então o nosso palestrante defendeu que a boa governação se dava através da Troikocracia, que, segundo Max Weber, deveria resultar do equilíbrio de três poderes:
  • Poder Carismático – associado ao poder político, dos líderes políticos, suas capacidades mobilizadoras e seu espírito visionário e inovador (“que faz sonhar”), resultantes na nossa época contemporânea do sistema democrático.
  • Poder Tradicional – associado à tradição e hábitos sociais, convenções e outros.
  • Poder Legal/Técnico/Racional – termo que Miguel Pereira Lopes considera estar ligado à concepção de burocracia que Weber terá inventado, na altura sem qualquer conotação negativa.
Assim, supostamente, a boa governança resultaria de um equilíbrio destes três anteriores poderes, sendo isso a suposta Troikocracia. Foi sugerido que na nossa história tivemos um claro exemplo de sucesso em que essas três vertentes da troikocracia foram conjugadas com sucesso. Esse exemplo terá sido a governação do Marquês de Pombal, especialmente depois do evento do terramoto de 1755, quando a cidade necessitou de ser reconstruida, mas depois também ao longo de toda a sua governação. Parece então que o Marquês decidia em plena consciência e informação. Consta que permitia aos técnicos a sugestão de todo o tipo de soluções sem os condicionar. Só depois então decidia, com autoridade e força, dentre aquelas que lhes pareciam as melhores soluções o projeto a implementar, respeitando a sua visão política de desenvolvimento. Ou seja, o Marquês era o carismático e visionário inovador, que se legitimava e ligava ao poder tradicional pelo mandato e apoio real, e que decidia com base no poder racional e técnico burocrático.
Depois de apresentado deste modo o conceito de Troikocracia de Weber e de Miguel Pereira Lopes aprece menos polémico, e a ação do Marquês de Pombal incrivelmente simples e óbvia. Mas será que o conceito de Toikocracia não é, ainda assim, discutível? E será que esta metodologia do Marquês de Pombal é realmente aplicada na prática deste modo tão simplista?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Especulação Imobiliária - um mau investimento

  Num artigo (1) do jornal Le Monde Diplomatique, Pedro Bingre do Amaral, trata o assunto do descontrolo do sector imobiliário e dos efeitos da bolha especulativa imobiliária nacional. Muitos foram já os escritos sobre a especulação imobiliária, mas este artigo vai mais longe, nele o autor acaba por retratar também os hábitos e tendências económicas de investimento nacionais, apontando algumas razões para a debilidade da economia portuguesa e sua relação – causa efeito - com o sector imobiliário nacional, e também com a política de gestão de solos e ordenamento do território.

Corvos voando sobre Seara de trigo - Van Gogh
  Apesar dos axiomas do liberalismo económico apontarem para a defesa do mercado livre, sem regulamentação estatal, alguns dos ideólogos - e verdadeiros paladinos - dessas mesmas teorias (Stuart Mill e David Ricardo), tal como cita Pedro Bingre Amaral, advertiam que: “numa economia demasiado leve na tributação do património e mal regulada em termos de mercados de solo (agrícola ou urbanizável) existe uma tendência irreversível para a maioria dos ganhos de produtividade – de crescimento da riqueza – ser apropriada por rentistas e especuladores imobiliários, espoliando-se toda a sociedade para pagar o oportunismo de um ínfimo número acaparadores de imóveis”. Ou seja, sem regulação e controlo alguns indivíduos beneficiam de ganhos sem que, pelo valor direto ou indireto da transação (ou até valor acrescentado), tragam valor à sociedade em que se inserem e que se relaciona com os solos em causa. Ainda mais pernicioso que isso, tal como refere o autor, é o crescimento económico com base na especulação imobiliária que prejudica tanto a economia nacional como a vida do cidadão comum, os efeitos são micro e macro económicos. Aprofundando mais essa questão, as pessoas que contraem dívida para adquirir os bens inflacionados acabam por perder os ilusórios ganhos de poder de compra associados ao natural e espectável crescimento dos salários, pois estão a comprar algo inflacionado e longe do valor real do bem não inflacionado. Em suma, em vez das famílias prosperarem economicamente a tendência pode ser efetivamente o contrário devido à especulação imobiliária, podendo-se atingir a catástrofe se a bolha especulativa efetivamente rebentar e ficar evidente que se pagou e continuará a pagar algo que não vale o que se supunha. Em parte foi isto que aconteceu nos EUA – a crise do subprime - e a razão do início da crise de 2008 que alastrou por contaminação ao mundo. Mas por cá a nossa economia sofre também, ainda que doutro modo, de uma muito própria especulação e descontrolo imobiliário.
  O caso do imobiliário nacional é paradigmático. Com 12% dos imóveis vazios, valor que pode atingir os 25% se se considerarem as habitações de segunda residência, como explicar o contínuo contrair de crédito para continuar a investir no imobiliário? Como explicar que, em Portugal, uma das primeiras opções, apesar da quantidade de casa vazias, seja optar pelo endividamento para construir ou comprar novo, vendo essa opção como um bom investimento, proveitoso e de rentabilidade garantida para o futuro? Provavelmente, de um modo simplista, a resposta para isso é: a instalada ilusão especulativa imobiliária. Tal como refere o autor do artigo que sustenta este texto, como explicar que o preço do m2 de uma construção de habitação em zona rural de Portugal seja cerca de 1200€ enquanto que no perímetro urbano de Berlim, com salários que facilmente triplicam os nossos, os valores rondem os 1400€? As respostas são várias, entre elas ficam algumas bem evidentes: as falhas de planeamento, controlo e ordenamento do território que deixaram terreno livre para a criação de uma bolha especulatória imobiliária e desordenamento do território (e da utilização dos próprios solos) alargados a todo o território nacional.
  Outro aspeto caricato da nossa nacionalidade, já também referido, é a tendência de investimento. É usual, quando um cidadão português pensa em investimento, considerar logo, como umas das primeiras opções, em adquirir imobiliário para legar à família ou para esperar a sua valorização para posterior venda. Mas de onde vem então essa suposta valorização? A resposta é, salvo algumas exceções – valor artístico, de autor, ou outros do imóvel -, a especulação. Pois, se pensarmos, um imóvel por si só nada, pior ainda quando muito deles estão vazios (25% na pior das hipóteses), nada acrescenta ou produz de valor. Esta afirmação pode ser contestada, dizendo por exemplo que uma habitação traz valor acrescentado por criar mais habitabilidade. Certo, mas se ninguém necessitar dessa suposta mais-valia o imóvel de pouco serve, logo pouco vale.
  Os investimentos dos portugueses tendem muito para o sector imobiliário, dai talvez a razão para a qual o investimento em Portugal, estatisticamente, ser pouco rentável (2) comparado com outros países. Isto pode ser apenas mais uma especulação, mas que será de Portugal quando e se a bolha da especulação imobiliária, ainda que de dimensões não comparáveis à dos EUA, verdadeiramente rebentar e muito do valor investido revelar ser uma mera ilusão? Pior será quando se demonstrar que esse investimento foi, ainda por cima, urbanisticamente desordenado causando insustentabilidade urbana (3)(4). Preocupante será também o excesso de peso do sector da construção civil na economia portuguesa, sector que com a contração na construção contrai diretamente a própria economia.
  Esperemos que o choque possa ser evitado: que todas as habitações vazias possam ser habitadas, que seja evitado o recurso excessivo ao crédito e se recorra mais ao arrendamento (com regras adequadas), e claro, que se regule o sector imobiliário (e se faça efetivo ordenamento dos solos e do território) de modo a que a especulação seja uma área de investimento insustentável.

Referências Bibliográficas:
1 – "Neoliberalismo, um álibi da especulação imobiliária". Pedro Bingre do Amaral. Nº43 da edição portuguesa do jornal Le Monde Diplomatique de Maio de 2010.
2 – “Economia Portuguesa – as últimas décadas”. Luciano Amaral. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010
3 – “Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos”. Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/05/transportes-urbanos-e-habitacao-uma.html
4 – “As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias". Texto do blogue “A Busca pela Sabedoria”, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.com/2011/01/as-disfuncionalidades-urbanas-das.html

domingo, 8 de maio de 2011

A melhor defesa militar da História fica em Portugal

Sim, podemos dizer que a melhor defesa (ou complexo de defesas) militar da História, ou pelo menos aquela que foi mais eficaz por ter sido intransponível, fica em Portugal. Provavelmente, quando se fala em grandes e eficazes defesas pensa-se em grandes e altos castelos medievais ou em arrojados e recortados fortes pós renascentistas (ver texto relacionado). 
Batalha da Roliça - Thomas Sutherland
Mas, a aquela defesa a que me refiro não se assemelha a nada disso. Falo das Linhas de Torres Vedras, o complexo de fortificações construído para defender Lisboa durante as Invasões Francesas. Este sistema era constituído por redutos, baterias, paliçadas, taludes e por um magistral aproveitamento do terreno, potenciando ainda mais os obstáculos naturais - os grandes declives e as linhas de água - na sua capacidade defensiva. No fundo, mais do que um majestoso e resplandecente conjunto de muralhas, morro, torres, baluartes e afins, a Linha de Torres Vedras era composta por elementos simples, improvisados - sem grande estética ou beleza -, pouco duráveis - dai pouco hoje sobrar -, mas que permitiam e davam uma confortável vantagem defensiva a quem as ocupasse. Vantagem tão grande que nunca foi ultrapassada pelo exércitos agressores contra os quais foi construída - os exércitos de Napoleão. Para as Linhas de Torres Vedras foram construídas 152 fortificações, contendo 523 peças de artilharia, munições e outros mantimentos, muitas vias de ligação e sistemas próprios de comunicação - sistema de balões e bandeiras -, tal como sistemas de drenagem de águas e esgotos.

O projecto foi liderado e conduzidos pelos Ingleses - os velhos aliados da nação Lusa (ver texto  relacionado) -, que vieram, propositadamente, no inicio do século XIX para ajudar no combate aos Franceses, mas executado por mão-de-obra nacional. Parece que foi também incrivelmente barato, tendo em conta o volume, complexidade e celeridade dos trabalhos. Estima-se que tenha custado, à moeda actual, 300.000 euros.

Passados hoje já quase 2 séculos sobre estas construções, que podemos nós aprender dela e por ela para a nossa actualidade? Será que somente com lideranças estrangeiras e força de trabalho nacional conseguimos construir algo barato, funcional e cumprindo os prazos? Bem, penso que não, pois isso seria demasiado pessimista! Mas parece-me que podemos concluir que, trabalhando em equipa, aproveitando os pontos mais fortes de todos os envolvidos e dos recursos disponíveis, tanto ontem como hoje, seremos capazes de feitos consideráveis.

Nota: A grande maioria destas informações foram retiradas do artigo "Adeus, Napoleão!  - a defesa mais eficaz da história é Portuguesa" da edição de Novembro de 2010 da revista Super Interessante. O texto do artigo original pode ser consultado, quase na integra, no blogue "Clube de história de Valpaços" em: http://clubehistoriaesvalp.blogspot.com/2011/02/adeus-napoleao.html.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gestão dos bens comuns - sustentabilidade e participação colectiva

Num anterior texto intitulado de "O sector privado é o melhor gestor?" apresentou-se aqui no blogue, muito superficialmente, algumas das teorias de Elinor Ostrom - a única economista laureada com o prémio Nobel da Economia até ao momento. Uma vez que essas teorias foram levemente referidas e têm muito interesse - pelo menos na minha opinião -, não posso deixar de reaproveitar um outro texto produzido para um outro blogue e cita-lo aqui. 
A vinha vermelha - Van Gogh
 De seguida então algumas conclusões sobre as principais teorias de Elinor Ostrom, aquelas que lhe valeram o Nobel e que versam sobre a Gestão dos Bens Comuns - recursos naturais tais como: bancos de pesca; pastagens; florestas; recursos hídricos; entre outros. Veja-se o excerto:
"Ostrom evidenciou que para se ter uma saudável economia (e seus mercados - mais ou menos complexos) os recursos naturais – vistos como bens colectivos – têm de ser geridos e monitorizados de uma forma sustentável, isto, também, numa clara relação com a sustentabilidade ambiental.
O passado está repleto de exemplos de usos excessivos e insustentáveis pelas sociedades humanas dos recursos naturais existentes, mas também há bons exemplos a seguir, caso contrário já nos teríamos extinguido como espécie ou não tínhamos evoluído para sociedades mais complexas - trivial. Deste modo e assim, é evidente para todos que teremos, enquanto grupo, de trilhar rumo a um uso e gestão sustentável dos recursos à nossa disposição – mais uma trivialidade.
É usual sugerir-se que explorar recursos que são comuns a uma determinada sociedade leva ao uso excessivo das mais-valias por ai provenientes, e que é aconselhável reduzir essa utilização através de regulamentações governamentais, tais como: taxas; quotas; ou privatizando o recurso. Tal postulado leva à construção do seguinte argumento: cada utilizador ganha proveitos privados em oposição a custos privados (por se prover dos recursos colectivos para os seus lucros privados), o que leva a negligenciar o impacto negativo nos outros utilizadores (que dependem desse mesmo recurso colectivo para tirar os seus próprios proveitos).
No seu trabalho Ostrom, através de estudos empíricos com referências a exemplos espalhados um pouco por todo o mundo, demonstra que na maioria dos casos os bens comuns são surpreendentemente bem geridos por muitas comunidade. Refere que os argumentos contra os sistemas de utilização de bens comuns são excessivamente simplistas, ao desconsiderarem que os utilizadores desses sistemas colectivos podem criar e reforçar regras para mitigar a sobre-exploração. A economista refere também que se descuram, usualmente, as dificuldades práticas em privatizar e implementar regulação governamental adequada a cada caso.
Realmente marcante no trabalho de Ostrom são os, anteriormente referidos, relatos exemplificativos e elucidativos que apresenta: os bons e maus exemplos de casos onde os sistemas de utilização dos bens colectivos tiveram sucesso ou falharam.
Uma das conclusões do seu estudo, e aquela que saliento principalmente, é a necessidade de uma certa dose de regulamentação e monitorização para garantir a sustentabilidade desses bens comuns, mas que tal controlo nunca pode vir do exterior. Essas regras têm de ser obrigatoriamente participadas e criadas em parceria com os utilizadores dos bens em causa."

Depois desta tão grande citação, que penso servir para acrescentar algo ao que já foi anteriormente iniciado no anterior texto, seguramente muito haverá por concluir. Destaco aqui a originalidade do estudo, pois, enquanto muitos estudam as características e dinâmicas intangíveis - pelo menos para o leigo - dos mercados financeiros e afins, Ostrom demonstra-nos que a economia procede e pode ser a gestão dos recursos naturais mais simples. Dessa gestão, que forçosamente terá de ser sustentável, ambientalmente e economicamente, podemos tirar pequenas e grandes ilações. Podemos ver um rumo e futuro para estas sociedades - a nossa por exemplo - que vivem em crise, muito devido à sua insustentabilidade. Há que partir e tentar perceber o simples para chegar ao complicado.

Já dizia Sun Tzu dizia algo do género quando falava de exércitos: "a gestão do pouco é igual à gestão do muito, é só uma questão de organização". Ostrom demonstra-nos que para bem se gerirem as coisas comuns, pelo menos pelo melhor possível, há que nos envolvermos, enquanto proprietários e utilizadores comuns rumo a essa gestão sustentada e participada. Se assim é para a gestão de coisas mais simples, tal como diz Sun Tzu, assim o deverá ser para as gestões mais complexas também. Ou não será assim?
Fontes: 
http://elinorostrom.indiana.edu/ 
A arte da Guerra - Sun Tzu

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Maquiavel – o irónico e sarcástico?

Volto o referir aqui, mais uma vez, a obra “Platão e um Ornitorrinco entram num bar”, mas desta vez a referência a esse peculiar livro não serve para apresentar anedotas, chalaças, ou histórias engraçadas, serve para introduzir uma teoria alternativa sobre um autor histórico da ciência política e a sua obra mais conhecida. Falo de Maquiavel [1] e do seu conhecidíssimo manual de governação “O Príncipe”.
Nicolau Maquiavel - Santi-di-Tito
A páginas tantas do livro “Paltão e um ornitorrinco…” , na parte de filosofia política, surge um pequeno texto com letras a vermelho que diz mais ou menos isto:Alguns historiadores acreditam agora que Maquiavel estava a gozar connosco com uma espécie de maquiavelismo invertido – parecendo mau quando, estaria a satirizar o despotismo? No seu ensaio “the prince: political science os satire?”[2] o historiador Garrett Mattingly, vencedor do prémio Pulitzer, afirma que Maquiavel foi interpretado de uma forma errónea: “a noção de que este pequeno livro pretendia ser um tratado serio e cientifico sobre governo contradiz tudo o que conhecemos acerca da vida de Maquiavel, acerca dos seus escritos e acerca da história do seu tempo.
Será que Maquivel estava na sua suposta obra sobre governação política - “O Príncipe” - a ser irónico ou sarcástico? Terão os governantes e políticos do Ocidente andado enganados estes séculos todos? Será o próprio adjectivo de “maquiavélico” - que em sentido figurado significa astuto, manhoso, irónico, imoral [3] – despropositado e desadequado da figura histórica que lhe deu origem?

Mattingly [2] afirma que, estudando as muitas outras obras escritas pelo florentino, se denota que Maquiavel considerava as repúblicas e o governo pelo povo o melhor sistema politico-governativo – uma clara oposição à defesa de um governo por um príncipe despótico (ainda que o termo “príncipe” possa simbolizar apenas “governante”, sem que nada tenha que ver com sistemas hereditários monárquicos). Nas várias peças de teatro, poemas e outras obras literárias de maior sensibilidade escritas por Maquiavel, Mattingly[2]  considera  transparecer o superior desenvolvimento moral e ético do autor - valores antagónicos à valta de escrúpulos com vemos hoje é traçada a personalidade de Maquiavel.

Mas ainda hoje, a grande maioria, considera “O Principe” de Maquiavel como um dos cânones da arte governativa (onde se defende a máxima, de um modo simplista, de que: "os fins justificam os meios" [4]) e que foi escrito como tributo a César Bórgia [5] – um dos principais príncipes do renascimento Italiano, conhecido pela sua crueldade, calculismo e despotismo.

Podemos só concluir que fica a dúvida, que não podemos se calhar jamais concluir quais os verdadeiros intentos de Maquiavel. Não saberemos se a história lhe fez justiça. Independentemente disso, ler “O Príncipe” é algo que recomendo a todos. A consequente interpretação  fica depois ao critério de cada um.
Fontes:

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias"

A propósito de uma investigação sobre mobilidade e transportes urbanos, peguei num livro que tinha comprado há algum tempo mas que nunca tinha chegado a abrir - ainda cheirava a novo. Comprei-o na altura por me parecer importante pelos conteúdos e pelos próprios autores - nunca se sabe quando se irá precisar de um livro sobre urbanismo.
Refiro-me à obra "Politicas Urbanas - tendências, estratégias e oportunidades", editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e da autoria de Nuno Portas, Álvaro Domingues e João Cabral, entre outros colaboradores.
A partida de cartas - Fernand Léger
Estava eu simplesmente à procura de dados ou informações sobre mobilidade em cidades de morfologia urbana e social semelhantes a Leiria e acabei por me deparar com um resumo, por tópicos, das principais razões para a degradação, desorganização e disfuncionalidade que se pode assistir nas Cidades Médias (cidades como Évora, Faro, Guarda, Leiria, Castelo Branco, Viseu, Guimarães, entre muitas outras). Problemas esses que se traduzem em: descontinuidade urbana; desarticulação entre os vários espaços; problemas de mobilidade e congestionamento; descaracterização patrimonial, ambiental e social; falta de espaços públicos e privados de qualidade e de toda uma série de infra-estruturas urbanas dispostas em quantidades desadequadas e de forma pouco harmoniosa e equitativa; entre muitos outros fenómenos isolados ou combinados. É, no mínimo, auspicioso querer encontrar e resumir as causas para tudo isto, mas tendo em causa a reputação académica e profissional dos autores, poucos estariam em melhor posição para poder arriscar algumas explicações. Então decidi eu próprio arriscar e trazer aqui a tentativa do resumo e interpretação dessas mesmas palavras. Faço-o porque entendo  serem pertinentes as palavras dos autores e, mesmo que estas não sejam as derradeiras explicações, porque nos permitem reflectir sobre as possíveis causas do disfuncionalismo urbano que ainda hoje vivemos me Portugal.
Principais causas e razões que nas últimas décadas condicionaram negativamente a realidade urbana das cidades médias:
•    Aumento dos rendimentos e nível de vida que fez crescer o consumo e o aumento da aquisição e uso de veículos automóveis - aumento da motorização. Este aumento de tráfego originou e continua a contribuir para os congestionamentos rodoviários, especialmente em zonas onde as vias de comunicação e demais infra-estruturas urbanas não estão preparadas para o uso intensivo do automóvel - centros históricos por exemplo.
•    O aumento do investimento do Estado em infra-estruturas de serviços públicos (Saúde, Educação, Desporto, Cultura, etc.) que, aliado a baixas de taxa de juro, provocaram um crescimentos vertiginoso do sector imobiliário privado. Os serviços municipais não conseguiram responder a este crescimento súbito e explosivo, a desordem generalizou-se e as zonas de expansão urbana avançaram mais depressa que o ordenamento dos planos e do que a existência das infra-estruturas públicas e serviços públicos que as deveriam servir
•    Falta de articulação entre as Autarquias e o Estado na regulação das pressões expansivas do sector imobiliário que procurava ocupar cada vez maiores áreas, mesmo que sem infra-estruturas e sem atender aos impactos nos meios ambientais e urbanos.
•    Inicio tardio da aplicações das ferramentas de planeamento - por exemplo os PDMs - a um território já muito condicionado, desordenado e destruturado - quase caótico em alguns casos. Mesmo ao nível do traçado das novas vias de comunicação, devido às existências, criaram-se enormes dificuldades em dotar as zonas urbanas de mobilidade adequada e a custos sustentáveis.
•    A própria acção do Estado em construir as suas grandes infra-estruturas em solos baratos e periféricos, contribuindo ainda mais para a descontinuidade urbana e degradação das zonas já consolidadas.
As causas apontadas não surpreendem os mais despertos para os fenómenos associados às expansões urbanas das cidades portuguesas nas últimas décadas do século XX, mas mesmo sendo óbvias ainda hoje há quem as desconsidere a importância da regulação urbana e planeamento dos usos dos solos. As nossas ferramentas - se é que assim se podem chamar - de ordenamento do território e de planeamento urbano não estiveram à altura do crescimento económico e melhoria significativa da qualidade de vida que surgiram com o advento 3ª república - pós 25 de Abril -, foram incapazes de regular e controlar a pressão de crescimento e expansão urbana. No fundo crescemos quase sempre mal, crescemos de um modo insustentável e irreflectido sem ter em conta os efeitos e custos que isso teria no futuro. Hoje a factura chega-nos através da disfuncionalidade da grande parte das nossas cidades. Os custos para liquidar essa factura são agora incomparavelmente superiores ao que seriam se de inicio o planeamento tivesse sido uma realidade - pois é muito mais difícil desenhar algo quando a folha de base já está tão riscada e borratada. Penso não ser errado concluir que para crescer com sustentabilidade não basta liberdade e capital, é preciso também educação e responsabilidade - especialmente respeito e consideração pelo interesse público e pelo bem comum, seja lá o que isso for.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Perder biodiversidade é muito mais do que perder fauna e flora

“A biodiversidade é a natureza em todas as suas formas”
Esta frase com que inicio este novo texto do blogue consta do artigo “Biodiversidade – o nosso “ecossistema” de suporte vital “, da autoria da AEA – Agência Europeia Ambiental. Este artigo chegou-me através de uma colega das andanças académicas - desta última aventura que foi a “energia e ambiente” - por isso agradeço-lhe já, pois a sua sugestão enquadra-se perfeitamente nos temas e assuntos que normalmente trato no blogue. 
Curva do rio Epte perto de Giverny - Monet
Então, nada como começar por perceber o porquê da defesa da biodiversidade ser tão importante para todos nós, e não algo de importância menor e que interesse apenas a estudiosos e apaixonados pelas questões ambientais.

“A palavra biodiversidade resulta da combinação de duas outras palavras: “diversidade” e “biológica”. Este termo representa a variedade de todos os organismos vivos de todas as espécies. No fundo, a biodiversidade é a natureza em todas as suas formas”
Nós, espécie humana – pouco ou muito evoluídos -, somos parte da natureza e fazemos parte da sua biodiversidade, mas sobrevivemos e desenvolvemo-nos ao nos aproveitarmos de todos os demais organismos que a constituem. A partir do momento em que existe actividade humana existem impactes ambientais e podemos, directa ou indirectamente, afectar toda a restante biodiversidade – quase sempre negativamente. Agora aquilo que muitos de nós desconhecem é que o que nos rodeia, a natureza – virgem ou modificada por nós –, pode-se definir como a própria biodiversidade e o nosso próprio bem-estar disso depender: a nossa saúde, a nossa cultura e até a nossa economia. Somos completamente dependentes dos ecossistemas associados à biodiversidade.
“Um ecossistema é uma comunidade de plantas, animais e microrganismos, bem como a sua interacção com o meio ambiente”
Os vários ecossistemas prestam-nos muitos e variados serviços dos quais, muitas vezes, nem damos conta.  A esses serviços chamam-se: serviço ecossistémico. Aqui ficam alguns exemplos desses “serviços” – como se alguma vez a natureza tivesse a missão ou objectivo de nos servir! - indispensáveis para a nossa sobrevivência: “Pensem nos insectos que polinizam as nossas culturas, nos solos, nos sistemas de raízes das árvores e nas formações rochosas que limpam a nossa água, nos organismos que decompõem os nossos resíduos e nas árvores que purificam o nosso ar. Pensem no valor da natureza, na sua beleza e na forma como a utilizamos para fins de lazer.” Outros serviços ecossistémicos – especialmente os metabolismos vegetais -, na sua biodiversidade, contribuem também para o famoso sequestro de CO2, evitando que os excessos que libertamos se acumulem na atmosfera e isso provoque o efeito de estufa e as subsequentes alterações climáticas.
Ponte Japonesa e lago de lírios aquáticos - Monet

Embora os vários ecossistemas sejam bastante resilientes, a verdade é que muitos deles estão ameaçados devido à acção humana - mas também temos de ter consciência que seria muito difícil existirmos, enquanto espécie, sem que qualquer impacte ambiental daí resultasse.
Apesar da crise económica estar na ordem do dia e a sustentabilidade ser mais vista do ponto de vista financeiro, nunca nos devemos esquecer que o mundo que nos permite viver, quer seja em crise ou não, tem de ser preservado e os seus recursos bem geridos, caso contrário entraremos num "défice" e “bancarrota ambiental” irreversível. Pois, perdendo biodiversidade perdemos muito mais do que fauna e flora, perdemos o actual mundo que nos tem sustentado!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A manutenção da Restauração da Independência de 1640 - a importância do planeamento

Hoje é dia 1 de Dezembro e comemoram-se 370 anos desde a Restauração da Independência nacional face a Espanha (ao império dos Habsburgos ou Filipes como por cá os conhecemos). Em 1640, neste mesmo dia, uns quantos nobres dirigiram-se a Lisboa e fizeram um golpe de estado, atirando o governador em funções pela janela, e declararam Portugal independente de Espanha, após 80 anos de união ibérica. Pouco depois seria coroado o novo rei de Portugal D. João IV e uma nova dinastia governaria um Portugal Independente. No entanto, só foi possível manter Portugal enquanto reino independente depois de rechaçar os Espanhóis na guerra que se seguiria – a Guerra da Restauração
Pintura alusiva ao golpe de 1640 - autor desconhecido
Apesar de Espanha não ter respondido imediatamente a esta revolta com força militar, pois na altura o Império dos Habsburgos estava a braços com outras revoltas (a revolta da Catalunha) e conflitos militares (a Guerra dos 30 anos), mas todos por cá saberiam que, apesar do altura  para concretizar o golpe ter sido a ideal, mais tarde ou mais cedo Portugal seria invadido. Assim que a revolta da Catalunha – que ainda hoje é parte integrante de Espanha – foi esmagada em 1648, e o domínio de Madrid restabelecido, as atenções de Espanha voltaram-se para a reconquista de Portugal.

Mas D. João IV tinha-se precavido. Neste espaço de tempo, que o oportunismo do golpe permitira, consegui levar a cabo uma monumental empreitada nacional – literalmente pôr o país em obras. Conseguiu reconstruir e modernizar muitas das cidades, vilas e fortalezas estratégicas segundo as novas e mais actuais preceitos da arquitectura militar. Num pequeno espaço de tempo transformou muitas muralhas e castelos medievais em verdadeiras praças-fortes, preparadas para resistir contra as mais modernas armas de fogo da época, especialmente contra a artilharia que tinha tornado as antigas defesas medievais obsoletas. Os antigos muros e torres foram convertidos em balcões com guaritas, bastiões e revelins. Foram criados complexos fossos em volta das fortificações. O poder da artilharia que fazia cair e desmoronar em horas as muralhas medievais que aguentaram séculos de conflitos bélicos tinha de ser parado - e foi-o na prática. 
 
 A nova arquitectura militar era revolucionária em muitos aspectos. Os muros eram mais baixos e muito mais espessos, em taludes de terra compactada com revestimentos de alvenaria de pedra ou tijolo. O traçado gerai, visto em planta, dava origem a irreverentes e intrincadas figuras geométricas, simétricas e regulares com muitas saliências e ângulos  proeminentes. Os muros em escarpa inclinada, ao contrário dos ângulos rectos verticais das muralhas medievais, e os bastiões, que em profundidade quebravam a monotonia das muralhas com os seus ângulos agressivos, permitiam que as balas dos canhões atacantes fizessem ricochete. Estas características das construções, conjugadas com fossos, que dificultavam o avanço de quem pretendia atacar estas novas defesas, e com a  correcta disposição da artilharia defensiva, criavam um mortal fogo cruzado que esmagava todos aqueles que tentassem um ataque frontal. Isto era possível mesmo recorrendo a poucas baterias e soldados.
Planta de nova brisach - Le prestre de Vauban
Foi, em parte, devido à capacidade de planear e executar estas magnificas obras de engenharia militar - que hoje ainda podemos contemplar em locais como Almeida, Valença, Elvas, entre outras cidades e vilas - por parte da nova administração de Portugal, tendo em vista e antecipando os problemas do futuro, contribuíram muito para manter a independência de Portugal perante um avassalador poder militar de um dos mais poderosos Impérios da época.

Fontes:
A Grande História da Cidade - Charles Delfante
História da Guerra, mapas da história - Ian Drury
Os mais belos castelos de Portugal - Júlio Gil
The Art of War, war and military thought - Martin Van Creveld 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Moisés – um dos grandes generais da história?

No documentário «Batalhas Lendárias: Moisés perseguição mortal» (ou no original «Batles BC: Moses death chase») é feita, segundo uma perspectiva militar, toda uma nova abordagem ao episódio bíblico do êxodo (saída e fuga do Egipto dos Israelitas por volta do século XIII a.C., depois de uma permanência nas terras dos Faraós de cerca de 400 anos – pelo menos pelo que conta bíblia). Nesse documentário Moisés é apresentado mais como um chefe político e militar do que propriamente religioso, mesmo sem o excluir de tal papel - até porque nesses tempos antigos não se faziam o tipo de distinções de papéis que hoje se tenta fazer.
Viagem de Moisés para o Egipto -  Pietro Vannucci Perugino
Na Bíblia, mais concretamente no livro do Êxodo, é descrita a fuga dos israelitas e a consequente deambulação pelos desertos entre Egipto e Canaã, sempre escapando e evitando a adversidade rumo à terra prometida e aos combates que lá teriam de travar para a conquistar. Até aqui nada de novo mas tudo muda quando se começam a analisar alguns desses eventos, que normalmente são atribuídos a intervenções do Deus dos Israelitas, como meras estratégias e tácticas militares provenientes do génio e chefia de Moisés.
Primeiro, no documentário os Israelitas são tidos como guerreiros ao serviço dos Faraós, dai a sua permanência em terras do Egipto, mais concretamente no Nordeste do delta. Aí formavam um exército irregular controlável - pelo Faraó - que constituía uma barreira entre as riquezas do império do Nilo e potenciais povos invasores.
Foi a alteração de estatuto e das condições de serviço ao Faraó que levou os Israelitas à revolta e à saída do Egipto. Supostamente, perderam o estatuto de defensores e guerreiros para o de agricultores e artesãos. Isto aconteceu porque os Egípcios pois começaram a temer que os Israelitas – que eram um importante força militar - e a considera-los como potenciais invasores e conquistadores.
A perda de estatuto obviamente desagradou aos Israelitas, de tal modo que decidiram levar todos os bens que acharam necessários e, sob chefia de Moisés, partiram rumo à terra prometida. De notar que no texto hebraico a palavra usada para descrever a acção dos israelitas é “saquear” e não “pedir” viveres, provavelmente a razão que levou o Faraó a persegui-los posteriormente.
Milagre da Água que sai da rocha de Moisés - Jocopo Tintoretto
Já fora do Egipto, é deserto que a astúcia e genial liderança militar de Moisés se manifesta, pelo menos segundo o documentário em causa. Moisés viveu anteriormente muitos anos nesses desertos, o que fazia dele um conhecedor do terreno – um pressuposto fundamental para boas decisões estratégicas e tácticas no que toca ao comando de exércitos. Moisés conhecia também a organização dos exércitos Egípcios e usou essa informação para os derrotar – principio militar de recolha de informações sobre o inimigo.
No documentário analisa-se o episódio da coluna de fogo e nuvem de fumo que acompanhavam a frente, respectivamente de noite e de dia, da marcha israelita, fenómeno que na bíblia é tido como a manifestação de Deus guiando o seu povo escolhido. No entanto esta manifestação pode ter sido apenas uma imitação dos modos de conduzir e organizar exércitos em marcha segundo os preceitos egípcios, pois era comum que usassem recipientes elevados com brasas incandescentes na frente das colunas de marcha dos seus exércitos. Durante o dia tapavam essas brasas provocando fumo que se via à distância servia para guiar os exércitos, durante a noite atiçavam as brasas de modo a formarem um sinal luminoso igualmente visível à distância. Moisés, aplicando o seu génio militar, inverteu este sistema de comando confundindo os Egípcios que o perseguiam. Colocou o recipiente das brasas à cauda da coluna de marcha e não à cabeça, o que fazia crer aos egípcios que os israelitas andavam perdidos e se aproximavam.
Num outro episódio Moisés usou as chamas para novamente enganar os egípcios. Numa determinada noite, quando os egípcios acampavam perto de si, colocou fogueiras entre o seu povo e os Egípcios, permitindo-lhe esgueirar-se durante a noite mesmo em frente aos olhos egípcios sem ser por eles notado. Já na altura se sabia uma luz numa noite escura oculta o que se passa para além dela. Foi nessa derradeira fuga que Moisés utilizou novamente os seus conhecimentos do terreno, atravessando o Mar de Juncos - e não o Mar Vermelho como se costuma afirmar. Esse Mar era uma espécie de pântano, muito afectado pelas marés e pelos ventos, sendo que em marés baixas e com ventos favoráveis podia de ser atravessado a pé. De manhã, quando os Egípcios tomaram consciência que tinham sido ludibriados decidiram atravessar o Mar de Juncos de Imediato. No entanto, nessa altura, a maré começava de novo a subir e inutilizou os carros de combate egípcios – a principal forma de combate dos faraós – que ao tentar atravessar se atascavam no pântano alagado.
 
Por estes e outros episódios, tendo em conta uma análise militar, bem que Moisés, a ter existindo enquanto figura histórica, pode ter sido um dos melhores generais e estrategas da história militar.

domingo, 13 de junho de 2010

Algumas curiosidades sobre a História dos automóveis

Terminada a investigação sobre “A poluição atmosférica associada aos veículos automóveis”, no âmbito do projecto T.a.T. Project - "Students today, citizens tomorrow "(projecto da União Europeia), posso dedicar um pouco mais de tempo aqui ao blogue. Nesse trabalho tive acesso e descobri, enquanto investigava sobre a História do automóvel, umas quantas curiosidades sobres esses primeiros veículos e o seu impacto na sociedade de então. Como a secção de introdução Histórica do automóvel era demasiado longo deixo aqui apenas aqueles eventos que me parecem mais singulares e caricatos, entre eles:
1769 – Em Paris, Nicolas Joseph Cugnot, um engenheiro militar, constrói um veículo de propulsão a vapor – o primeiro de que há registo. O Governo Francês pede a Cugnot que construa um veículo maior, capaz de mover grandes quantidades de artilharia. Diz-se que o primeiro acidente rodoviário do mundo aconteceu quando Cougnot chocou contra o muro do quartel.
1803 – Trevithick constrói outro veículo a motor que faz várias viagens com sucesso pelas ruas de Londres. O veículo barulhento, fumacento e desastrado assusta os cavalos e causa alguma hostilidade ao público. O motor era a vapor com 3 cv de Potência e com11,700 cm3. Atingia velocidades de 13 Km/h.
Carruagem a vapor em Londres 1803 - Terence Cuneo
 1865 – O governo britânico introduz o “Locomotives on Highways Act” mais conhecido como “Red Flag Act”. Esta regulamentação exigia que todos os veículos rodoviários tivessem três condutores, fossem limitados a 4 milhas por hora em estrada aberta e a 2 milhas por hora em cidades.
1899 - Camille Jenátzy bate o recorde de velocidade com o seu automóvel eléctrico, o primeiro capaz de se deslocar a mais de 100 km/h.
1908 – Henry Ford constrói i primeiro modelo T, com uma produção anual de 8000 veículos. O modelo Ford T e a consequente inovação que iria mudar a história da produção automóvel, através da adopção da linha de montagens e da organização do trabalho segundo o Taylorismo proveniente do Engenheiro Friederick Taylor.
1914 – O avanço alemão para Paris, no inicio da Primeira Guerra Mundial é detido pela utilização de táxis automóveis que fazem os transporte das tropas Francesas para a linha de combate. Henry Ford fabricava um carro a cada 98 minutos e oferecia salários muito acima da média para a época aos seus funcionários da linha de montagem, uns incríveis 5 dólares.
1934 – Na Grã-Bretanha o limite de velocidade de 30 milhas por hora é instituído em zonas de aglomerados urbanos. São introduzidas as passadeiras pintadas do tipo “zebra”, iluminadas por semáforo intermitente de luz laranja. É proposta ao governo Alemão o desenvolvimento e construção de um carro para as massas, o Volkswagen. A construção de um sistema nacional de rodovias é considerada por Adolf Hitler como uma boa solução para diminuir o número de desempregados.
1948 – A Citroen introduz o modelo 2CV, desenhado e construído para acomodar duas pessoas utilizando chapéus e para conduzir através de um campo lavrado sem partir cargas de ovos.
1956 – A Crise petrolífera na Europa devido a problemas políticos no canal do Suez leva à aposta em carros mais económicos e de menores dimensões na Europa. A Ford introduz o cinto de segurança mas os consumidores não se mostram interessados.
1957 – A Chrysler introduz o primeiro gravador e leitor áudio num veículo. A Cadillac, inspirada pela conquista espacial e corrida ao espaço, desenvolve e constrói veículo com “linhas espaciais” do tipo foguete.
Muitos mais eventos e ocorrências dignas de registo haveria por citar, mas através destas é possível compreender como inicialmente os veículos automóveis se estranharam e se foram entranhando até fazerem parte do nosso mundo contemporâneo. De inicio os seus impactes causaram repulsa mas devido às grandes vantagens que proporcionaram, quer para o cidadão comum, quer para industriais e políticos, esses mesmos impactes foram sendo relegados para segundo plano e até esquecidos. Hoje que sentimos na pele, aliás, nos pulmões, e na falta de espaço urbano, os impactes causados pelo uso massivo de “carros” começamos a questionar a sustentabilidade dos nossos actuais modelos de transportes, especialmente os privados que advém do uso insustentável do automóvel. Pode ser paradoxal, mas a liberdade que o automóvel ofereceu no passado às Humanidade no inicio do século XX contrasta com o cárcere que vivem aqueles que passam horas intermináveis em filas de trânsito e todos nós com a poluição automóvel a que somos sujeitos nas nossas cidades

Fonte (principal): www.motoring-history.com

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