terça-feira, 3 de novembro de 2015

A importância histórica dos documentos e arquivos comuns

Livros e papeis numa mesa - Catherine M. Wood
Tal como refere Françoise Choay, existe uma crescente pressão para a patrimonialização de objetos e tradições. Já Michel Lacroix vai mas longe, diz mesmo que tudo pode ser património.

De facto, segundo as correntes da Nova História, especialmente da escola francesa dos Analles, aprofunda-se o interesse pela história da vida quotidiana, ou até mesmo “coisas banais” como ensaiou Daniel Roche. Assim, se a historiografia pode se dedicar a todos os temas históricos, sendo para isso necessário considerar todos os documentos e fontes, por mais comuns e não patrimoniais que possam parecer, ou seja, por não constituírem um objeto artístico, raro ou antigo. O conceito de património é assim também colocado em causa, uma vez que se liga àquilo que será capaz de invocar da memória e conhecimento do passado, isto para além do monumento comemorativo clássico.

Deste modo qualquer documento pode ser um valioso património de importância histórica, mesmo que contenha imprecisões ou erros de descrição histórica. Através da sua análise, veracidades à parte, tanto intencionais como involuntárias, poderá sempre ajudar-se a recriar informações historicamente relevantes, nem que seja o facto de reforçar teses de falseamento de determinadas realidades. Isso obriga a que as bibliotecas e arquivos sejam enquadrados na mesma escala valorativo historiográfico, sendo que pela sua dimensão ganham ainda mais importância e potencial patrimonial.

Referências Bibliográficas:

  • Choay, Françoise - A Alegoria do Património. Lisboa: Edições 70, 2010.
  • Lacroix, Michel - O Princípio de Noé ou a ética da salvaguarda. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
  • Roche, Daniel – História das coisas Banais. Lisboa: Teorema, 1998.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Frente Popular - Quando toda a Esquerda se uniu numa coligação de governo

Diz-se que a história pode ser memória, mas na prespetiva coletiva que resulta da coincidência e partilha das memórias individuais subjetivas. A história tentará escapar a essas fragilidades da memória, mas as ligações existem sempre, nem que seja pela nossa consciência atual e memória ir beber também alguns dos seus conteúdos à história.
 
Bem, isto tudo para relembrar um episódio de história que se liga à realidade política contemporânea portuguesa.  

Cartaz alusivo à Frente Popular Francesa

 
Em 1936 formou-se em França o governo da Frente Popular. Os efeitos da  Grande Depressão massacravam mais uns países que outros, mas muito poucos lhe escapavam, especialmente as democracias liberais como a francesa. Entre 1930 e 1935 o número do desemprego em França subiu de 12.000 para 500.000. A crise eternizava-se sem que as políticas deflacionistas dos governos liberais conseguissem reverter a situação.
 
Tanto a esquerda como a direta mais radical contestavam os governos liberais de então. A esquerda mais moderada pedia soluções inspiradas em Keynes, no New Deal, e no intervencionismo e regulação da economia. A direira tendia para as soluções fascistas, enquanto que a extrema esquerda pendia para os movimentos revolucionários, comunistas ou outros.
 
Desse caos e instabilidade política surgiu então uma novidade política improvável. Surgiu a Frente Popular: uma ampla coligação de esquerda. Estavam incluídos partidários comunistas, socialistas e radicais sob o lema: "Pelo pão, pela paz e pela liberdade". Apesar das clivagens históricas entre as várias fações de esquerda, a coligação formou governo e governou de facto mudando a história. Propôs-se como objetivo principal deter o avanço fascista em França, de modo a evitar o que acontecera na Alemanha e Itália.
 
Apesar desta união de esquerda, os comunistas estiveram ausentes dos governos, o que não impediu a coesão do projeto político de ampla coligação.
 
A Frente Popular foi responsável por notáveis impulsos na legislação social, reforçada e apoiada pelas grandes mobilizações grevistas que envolveram civicamente a classe trabalhadora. Foi um momento simbólico de libertação social. Isso forçou o patronato a pedir ao Governo uma mediação para o conflito que resultou nos "Acordos de Matignon".
 
Os novos acordos permitiram assinar contratos coletivos de trabalho entre empregadores e assalariados, em que se aceitava a liberdade sindical e se previam aumentos salariais. Pouco depois surgiram novos diplomas que implementaram as 40 horas de trabalho semanal e 15 dias de férias pagas por ano a todos os trabalhadores. Estas medidas permitiram criar um clima de paz social e combater a crise económica. Aumentou o poder de compra e criou-se mais emprego devido à diminuição dos horários de trabalho.
 
Tudo o que aqui foi referido resulta de uma decalcação quase integral do manual de História 12ºA - O Tempo da História, da Porto Editora,  adotado para o  ensino formal em Portugal. Não se trata de uma peça de propaganda ideológica. Longe disso, é apenas  história factual e conhecimento geral definido como importante para o percurso escolar nacional. Este conhecimento, mais que a dimensão escolar, é também útil por questões cívicas e políticas para a população em geral. Mas para isso é necessário que faça parte da memória coletiva e não apenas uma matéria a decorar pelos estudantes do ensino secundário.
 
 
 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pais Desesperados – Uma série de proximidade cultural

“Fais Pas Ci, Fais Pas Ça” é uma série de sucesso em França que está neste momento a ser exibida em Portugal na RTP2. Trata-se de humor, do tipo sitcom, sobre famílias.

Até aqui tudo normal. Mas é dessa normalidade que a sua exibição em Portugal se torna original. São imensas as séries de humor e muitas as que tratam temas da família, sendo a esmagadora maioria delas de origem americana. Embora essas séries tenham qualidade, ou mesmo muita qualidade, os enquadramentos, os valores, cultura e identidades que transmitem não têm a devida correspondência com a sociedade Portuguesa. Mesmo com os processos de mundialização mais que enraizados há coisas que continuam a ser estranhas, que nada têm que ver que a cultura portuguesa ou sequer europeia. Por exemplo, a dicotomia Este/Oeste, Democratas/Republicanos, os desportos, o Dia de Ação de Graças e o peru no natal, os subúrbios de casas em madeira, as armas livres e a proibição do álcool até aos 21 anos não encaixam.
 
Esta série francesa, por outro lado, aproxima-se muito mais da nossa realidade. Quer queiramos quer não, a cultura francesa é muito mais próxima da portuguesa. Tratando a série de assuntos da lide social e familiar estas proximidades tornam a série muito mais interessante. Notamos as referências ao catolicismo cultural, ao futebol, às cidades de organização europeia, ao sistema de ensino e saúde públicos, à política da União Europeia, à dicotomia Esquerda / Direita, o multiculturalismo e conflitos religiosos, as relações familiares e etc. Todas essas coisas, e muitas outras que obviamente não posso aqui citar, enquadram a serie na cultura europeia e assim aproxima-a da nossa, a portuguesa.
 
A série tem imensas referências hilariantes À vida privada familiar, especialmente nos diálogos e suas subtilezas, coisas que podiam e acontecem nessas famílias por ai fora. Recorre a um humor inteligente, bem enquadrado socialmente sem temer entrar em temas da religião, política, desigualdades sociais, racismo e outros que, por vezes, são deixados de fora para garantir alguma neutralidade não ofensiva.
 
Por isso, se quiserem ver uma série onde se podem identificar aqui têm a sugestão: Fais Pas Ci, Fais Pas Ça (Pais Desesperados).

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Hipermodernismo hiper resumido

Na cama - Ron Mueck
Lipovertsky, como poucos filósofos contemporâneos, fala em linguagem do nosso tempo para o nosso tempo. Claro que não resiste à caracterização e utilização de termos sociológicos e filosóficos. Usa o termo "Hipermodernismo" para distinguir estes nossos tempos do "Pós-Modernismo". Os tempos "hipermodernos" não são um "pós-pós-modernismo", mas sim um "Pós-modernismo" exacerbado, exagerado e potenciado.
 
Então, de um modo muito simples, o hipermodernismo é próprio das sociedades democráticas e liberalizadas da mundialização. São as sociedades em rede, de complexas relações e interrelações mas onde o individualismo se reforça. É a era do "híper" tudo. Da velocidade, do imediato e do fugazmente intenso. Dá-se o primado do individualismo e do consumismo.
 
No entanto, nem tudo é, supostamente, negativo. Os indivíduos híper reforçados pela sua hiperliberdade são guiados por um novo modelo hedonista. Procuram os prazeres e a felicidade. Nada disso significa o fim dos projetos coletivos, mas a adesão a esses projetos só ocorre em liberdade, sem os ditos indivíduos os valorizarem e considerarem benéficos. O hedonismo liga-se à solidariedade e ao prazer do envolvimento nas causas nobres, geradoras de felicidade.
 
Mas estas liberdade e individualismo também geram frustração e deceção, tal como Lipovetsky refere na sua obras "Sociedade da Deceção". A liberdade tem estes paradoxos e os tempos "Hipermodernos" são complexos e vertiginosos.


Referências bibliográficas:
  • Lipovetsky, Gilles. "Os tempos hipermodernos". Lisboa: Edições 70, 2011.
  • Lipovestky, Gilles. "A sociedade da deceção". Lisboa: Edições 70, 2012.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A busca da identidade diferenciadora através do património literário

A memória humana pode ser precária. As memórias podem assim estar em constante mutação e adaptação. Elas são, no entanto, património de uma dimensão imaterial, passíveis de fundamentarem processos identitários dos indivíduos, que ganham força de necessidade estruturante nas sociedades pós-modernistas estritamente imbuídas nos processos de mundialização e globalização.
O Rabi - Andre Martins de Barros
Partindo da originalidade de Petrarca, que definiu um novo método de leitura e abordagem ao livro enquanto fonte de conhecimento, longe das tradições rígidas que colocavam a importância na preservação em forma de decorar, surgem os processos criativos de interpretação do conhecimento e memórias registados. Desde então os processos de reinterpretação dos documentos escritos não sessaram. Um exemplo contemporâneo disto são as contantes reanálises e reinterpretações dos grandes escritos clássicos (incluindo os textos sagrados), renovados nas suas leituras e que muitas vezes são redescobertos e reinventados como peças essenciais de um património cultural e imaterial coletivo de determinada sociedade. É essa mutação da memória e sua capacidade de adaptação aos tempos que podem tornar um documento escrito, apesar de antigo, num património imaterial constantemente útil e renovado nas suas interpretações para o sustentáculo das entidades que se querem preservar nas sociedades mundializadas.
Algumas Referências bibliográficas:
  • AAVV. Enciclopédia Einaudi- Memória e História. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa Da Moeda, 1987.
  • Lacroix, Michel. O Princípio de Noé ou a ética da salvaguarda. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.
  • Lipovetsky, Gilles. Os tempos Hipermodernos. Lisboa, Edições 70, 2013.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Monotonia Urbanistica de Nova York - A especulação Imobiliária

O mundo está repleto de cidades. Apesar de muitas seguirem planos urbanísticos semelhantes todas são diferentes. Não poderia ser de outra forma, pois a sua história, os seus habitantes, as atividades que nelas acontecem, o clima e ambiente, entre outros moldam-nas.

Nova York é única, por todas as razões anteriormente referidas, mas o seu desenho urbano pouca originalidade tem. O crescimento desta cidade, fundada por holandeses que na altura lhe atribuíram o nome de Nova Amsterdão, explodiu no século XIX, especialmente no que toca à ilha de Manhattan. Vivia-se a revolução industrial nos E.U.A. e Nova York era um desses polos industriais e comerciais mais importantes. A pressão e especulação urbana eram enormes. O crescimento contínuo e galopante.
 

Mapa de Nova York de 1897
O urbanismo da cidade é fruto do planeamento aplicado ao capitalismo especulativo. De notar que o crescimento que se dá nessa altura ocorre de modo a manter altos os preços dos terrenos. Isto era possível através da indiferenciação urbana. Ou seja, as ruas eram todas iguais nas suas características, tal como os quarteirões. Até os nomes foram evitados, ficando cada avenida apenas associada a um número, coisa que ainda hoje ocorre.

Esta opção urbana permitiu que todas as novas zonas tivessem o mesmo valor, pois, eram, ao nível do planeamento urbano, iguais. No entanto criou uma malha ortogonal monótona, ao contrário do que acontece nas outras grandes metrópoles.  Só o Central Park, Broadway, Rockefeller Center e algumas zonas ribeirinhas têm algumas daquelas características urbanas distintivas que as fazem sobressair da envolvente e favorecem as múltiplas atividades urbanas, especialmente a fruição de um espaço público de usos múltiplos – A herança do mundo greco-latino e sua valorização do espaço público da ágora, fórum e praça. Esta monotonia é especialmente visível na zona mais interior, na envolvente do Central Park.

Apesar de ser interessante por muitos motivos, incluído as atividades sociais, económicas e culturais, e até o edificado e o próprio local de implantação da cidade, o urbanismo de Nova York foi aborrecidamente manipulado para assegurar a especulação imobiliária.
 
Referências bibliográficas
  • Goitia, Fernando Chueca. "Breve História do urbanismo”. Lisboa: Editorial Presença, 1989.
  • Mumford, Lewis. "A Cidade na História". São Paulo: Martins Fontes, 1998
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Ciprestes - Árvores Corta-fogo

Área ardida e árvores que resistiram a Incêndio em Valência em 2012
Constatações e estudos recentes de cientistas espanhóis concluem que o Cupressus sempervirens, que é um tipo de cipreste natural do mediterrâneo, tem uma muito elevada resistência à ignição e combustão inicial por incêndio florestal. Isto deve-se à estrutura morfológica da árvore em si e à sua capacidade em absorver grandes quantidades de água que mantém mesmo nas condições de seca adversas.
Prevê-se a possibilidade destas árvores poderem ser utilizadas em faixas corta-fogo florestarias, contribuindo para a redução do potencial de alastramento de fogos florestais.
Tendo em conta que o clima mediterrâneo é propenso aos incêndios florestais nas épocas estivais e sendo esta espécie autótone poderá ser de facto uma boa medida de engenharia florestal para mitigar o efeito dos incêndios florestais. Por outro lado, as alterações climáticas aindam vão sujeitar ainda mais o nosso território ao risco de incêndios.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Sideways - Um fIlme que Sabe a Vinho

Aqui está um filme interessante. Há coisas muito originais neste filme, apesar do traçado geral do enredo ser algo visto noutras histórias. No fundo relata-se a viagem de dois amigos em jeito de despedido da solteiro para um deles. Até aqui nada de especial, mas é o local e o tipo de actividades que planeiam fazer para diversão que se torna interessante. Vão percorrer, de automóvel, a zona vinícola da Califórnia. Estes amigos não são os típicos vintões ou trintões que aparecem normalmente neste tipo de filmes de despedidas de solteiro. São quarentões e o ritmo da viagem é bem diferente, feita, ou pelo menos idealizada, para saborear bons vinhos.

Quase parece que o filme foi patrocinado pela indústria do vinho. A sensibilidade das personagens manifesta-se pela forma como degustam, debatam e analisam os vinhos. Bebem-se quantidades imensas desse néctar neste filme, mais do que parece ser aconselhável.  Mas bebe-se por prazer e em honra da arte de o produzir. Por momentos parece quase um documentário ou uma formação inicial de introdução ao vinho.

Paul Giamatti encarna a personagem principal, de um professor apaixonado por vinho. Destaca-se a anos-luz das restantes pela sua interpretação. Consegue transmitir a profundidade da sua personagem culta, deprimida, falhada mas ainda com força para saborear um copo de vinha na companhia certa. As restantes personagens não parecem ser também conseguidas, mas talvez porque sejam apenas interpretações realistas de pessoas normais. Acima de tudo isto é um filme que simula uma história que poderia muito bem ser real, com pessoais reais.

A fotografia e banda sonora contribuem para a construção do ambiente vinícola e de viagem.

Apesar de ser considerada uma comédia, Sideways conta uma história de pessoas maduras, com alguns toques de humor e bastante drama. Centra-se muito na personagem principal, complexa como o ser “vivo” que é o vinho que corre amadurecido neste filme.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Afastamento entre ciências naturais/exatas e ciências sociais - O fator histórico

Pegando num livro, quase por acaso, dedicado a cosmologia, centrado no tempo e em explicações com base num universo entrópico e ligado aos sistemas irreversíveis, próprios da termodinâmica, encontro algo que ensaia uma explicação simples para a diferença entre ciências sociais e naturais. Aliás, essa referência vai mais longe, e serve para explicar o afastamento entre disciplinas e até as apetências e gostos que podemos (ou nos fazem) ter por determinados assuntos.

Os Amantes - Magritte

O livro em causa é o “Nascimento do Tempo” de Llya Prigogine. No início desse ensaio o autor usa a dimensão histórica para distinguir as ciências sociais das ciências naturais (ou ditas exatas). Ou seja, as ciências sociais são completamente dependentes e imersas em realidades históricas: estudam objectos que têm sempre uma dimensão histórica. Imaginemos, por exemplo, a sociologia, que ao estudar uma sociedade não pode descurar que essa sociedade existe num momento histórico próprio que a define, ou então a psicologia, em que um perfil psicológico corresponde a um indivíduo historicamente existente, que é sempre produto do seu tempo. Por outro lado, as ciências exatas e as mais abstractas, como a Matemática, podem viver (supostamente) fora da dimensão histórica no que toca aos seus objectos de estudo. Podem ser tão abstractas que dispensam esse enquadramento ou envolvente. Embora isto não seja de facto assim na acumulação de saber, pois desenvolver estudos, seja qual for a disciplina, faz-se sempre uma recolha histórica de saber (ver "Um investigador é sempre um Historiador"). O conhecimento disciplinar pode ser visto como um acumular histórico desse conhecimento de especialidade, logo é quase impossível escapar à história de um ponto de vista epistemológico. No entanto, o objeto pode estar mais ou menos afastado das dimensões históricas, ainda que seja difícil o completo afastamento, mesmo para a matemática, tendo em conta que, tal como se disse anteriormente, existe sempre inerente a história da própria matemática quando a praticamos.

Mesmo que possa ser uma realidade relativa, esta simples dimensão que separa as duas grandes áreas científicas pode contribuir para explicar o afastamento disciplinar entre as duas áreas. No fundo, apesar de todas as diferenças, o que as separa é a história. Talvez seja por isso que os estudantes das áreas científicas naturais e exatas tenham alguma tendência para o distanciamento face à história, e vice-versa para as ciências sociais.

Provavelmente a verdadeira multidisciplinariedade e cruzamento de saberes, cada vez mais valorizados em simultâneo com a especialização, só acontecerá quando se conseguir ligar a ciência no seu todo através da história, e não usar a história como meio de separação.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Afastamento entre movimentos de esquerda e igrejas – uma razão urbanística

Os movimentos de esquerda, operários de socialistas e anarquistas raramente tiveram ligação com as igrejas católicas ou protestantes instituídas. Foi assim logo desde o nascimento e ganhar de força destes movimentos, logo nos inícios de século XIX. Essa luta e reivindicações nascem e crescem à medida que a sociedade e era industrial transformam os Estados. O impacto nas populações da industrialização foi imenso, daí o recurso ao termo “revolução”, embora esse efeito não seja apenas social.
Demónios de Krupp - Heinrich Kley
O afastamento entre as igrejas e os movimentos de esquerda pode ser explicado pelo tradicionalismo e modelos sociais doutrinados. As igrejas ligavam-se ao poder político instituído e sustentavam, à sua maneira, as hierarquias e valores antigos. As igrejas tendiam ao conservadorismo social e não à mudança e inovação que propunham e estavam na génese dos movimentos socialistas, esquerdistas e anarquistas. Apesar disso, posteriormente, essa tendência foi rompida com os movimentos de democratas e trabalhadores cristãos, que no século XX muito se aproximaram da social-democracia, dos ditos socialistas mais moderados.

Mas voltemos às origens do século XIX. Para além das razões ideológicas referidas anteriormente, há razões materiais e urbanísticas que podem justificar o afastamento entre movimentos operários e igrejas. Com o crescimento exponencial das cidades na era industrial, devido ao crescimento demográfico e esvaziamento dos campos, as estruturas urbanas destruturaram-se. Os bairros cresceram em torno das fábricas que atraiam massas de trabalhadores às cidades. O planeamento urbano inicial dessa primeira explosão industrial foi incipiente ou mesmo inexistente. As cidades cresciam por si, sem regra nem critério para além do economicismo puro. Nessas novas zonas habitacionais, sem condições de higiene e salubridade do edificado e onde o espaço público era uma miragem, não existiam as estruturas públicas básicas. Nem as igrejas tiveram capacidade de se adaptar a esta realidade. Grande parte dessas comunidades operárias viviam num vazio eclesiástico, sem igrejas e seus sacerdotes, tal como era habitual nas aldeias e vilas de origem e onde essa organização se foi instituído e implementando ao longo dos séculos anteriores.

Agora podermos fazer as seguintes perguntas. Como seria se as comunidades operárias urbanas tivessem sido enquadradas pelas igrejas instituídas? Ou será que, mesmo se tivesse existido esse cuidado de planeamento urbano e de serviço religioso, nada mudaria?
 
 
Algumas referências bibliográficas
Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.
Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.

 

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