segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O que fica para lá da Pós-Democracia

Enquanto estava de volta das leituras de suporte para a minha tese de doutoramento, que versa sobre serious games como ferramentas para apoio ao planeamento do território. Pode parecer estranho mas, de um modo simplificado, pretende ser uma forma de proporcionar modos alternativos para que os cidadãos e outros representantes – chamados de stakeholders – possam interagir de forma informada nos processos de decisão. A dimensão lúdica, cativante e imersiva dos jogos, especialmente apostando nos jogos de tabuleiro, pois estimulam a cooperação e a empatia, são a estratégia base para tornar os processos de planeamento mais participados - ativamente participados. 

Decalcomania - Magritte

Ou seja, das leituras base e de suporte para a necessidade de reforçar o exercício democrático através de novas abordagens, deparei-me com o livro “Post-Democracy” de Colin Couch. Encontrei-o citado por outros autores em diversos artigos científicos. Por isso tratei de o arranjar e ler. Trata-se de um pequeno livro que, sendo técnico, acaba por ser de reflexão ideológica, sem ser partidário. Para o autor o conceito de pós-democracia explica-se pelo esvaziamento da prática democrática generalizada pela população de um determinado país. Na pós-democracia continuam a existir todos os formalismos democráticos: liberdade de expressão, liberdade de associação, múltiplos partidos políticos, eleições regulares para os mais diversos órgãos de poder, referendos e outras formas alternativas de participação cívica e política. No entanto tendem a ser formalismos numa era em que cada vez menos pessoas participam no sistema como cidadãos ativos e interessados em dar o seu contributo para a gestão e desenvolvimento da sua sociedade. O sistema democrático é controlado por elites, quase sempre invisíveis, que defendem os seus interesses particulares. Implementa-se um sistema burocrático complexo que cria profundas desigualdades e onde a geração de riqueza nacional se transfere da prosperidade das classes trabalhadoras para as percentagens mais reduzidas daqueles que acumulam as principais fortunas. Esta visão de Colins tende a ser marcada por uma certa tendência de esquerda. Percebe-se isso nas suas afirmações diretas e indiretas. Para o autor o liberalismo tomou conta dos Estados e os processos de desmantelamento dos Estados Providência que nivelavam e garantiam mínimos de qualidade de vida. Esta nova realidade associa-se também às transformações da economia, em que o poder de classe e de grupo se diluiu na medida em que as atividades laborais cada vez mais destruturadas e sem geração de sentimento de grupo ou estabilidade que permita gerar coerência e mobilização política. Tudo isto, aleado a uma sensação bem real de perda de poder de decisão, e por vezes de poder de compra, pois dos modelos Kenesianos que proporcionaram poder de consumo e poder político em simultâneo, cresce o sentimento de desilusão. Nos antigos países economicamente mais poderosos, onde os Estados Providência prosperaram em simultâneo com a democracia, passou-se também de um modelo económico industrial para novas formas. Entrou-se na pós-industrialização também.  Estas mudanças estruturais e desagrados, diretos e indiretos, transferem-se para o exercício dos cargos políticos, especialmente para os partidos de esquerda que deveriam conseguir contrariar as desigualdades e as garantias de mínimos de qualidade de vida. A destruturação das redes de poder e das elites que surgem após revoluções e mudanças de regime cristalizaram novamente na maioria das democracias, tendendo para o exercício do poder que acentua desigualdades e gera revoltas silenciosas, mas que se começam a manifestar pelos populismos. Apregoa-se a igualdade de oportunidades e a meritocracia, mas depois na realidade a mobilidade social é bastante reduzida, tendendo a ser ainda mais diminuta quando os Estados se liberalizam gradualmente, favorecendo uns interesses em detrimento de outros. Como dizia Lipovetsky, com este sistema tendemos a perder os bodes expiatórios, pois, em teoria, deveríamos poder aspirar a tudo o que desejamos. Estas referências de Lipovetsky inserem-se na corrente do hipermodernismo

Assim, a pós-democracia não é totalmente antidemocrática, mas que já não oferece o fascínio e esperança da governação pela população e por aqueles que espelha ou que defendam os seus interesses. Apesar de isso ter sido parte da utopia democrática, servia de bitola. Na Pós-democracia perderam-se as referências. Trata-se de uma época onde caem mitos e os políticos perderam a aura de outrora, de respeitabilidade e de paladinos pela defesa do interesse público. As manipulações tornaram-se mais transparentes e todos os atos deliberadamente políticos são vistos com desconfiança, pois esquerda e direita tendem a ser vistas como meras classificações cosméticas. Elevam-se as cousas de nicho e múltiplas polarizações sem enquadramento ideológico. Entra-se numa crise das instituições, onde a independência parece uma miragem perante a facilidade com que poderes ocultos as tomam. É uma era em que se sentem os perigos, mas que não se consegue identificar propriamente quem os cria e como se combatem. Assumem-se ideais e objetivos de esquerda que se tentam atingir através de políticas de direita, misturando e configurando novas soluções políticas indiscerníveis e que geram ainda mais confusão e deceção no eleitorado. A própria esquerda parece contaminada de tiques de direita, que não ajuda ao esclarecimento, o que leva muitos cidadãos que ainda querem ser politicamente ativos a refugiarem-se em lobies muito segmentados. Aparentemente isto tem afetado mais a credibilidade da esquerda que da direita, que se tem conseguido reinventar através de alguns populismos. 

Tudo isto parece demasiado negativo porque se um sistema está para além da democracia então para onde tende? Para a ditadura ou outra coisa nova melhor? Provavelmente ninguém sabe. 

Referências:
Crouch, C. (2004). Post-democracy (p. 70). Cambridge: Polity.
Lipovetsky, G. (2006). The Paradoxical Happiness. Considerations on hyper-consumption society.

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