terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A transformação dos partidos em oligarquias sujeitas a corrupção

São poucos os livros de âmbito geral sobre ciências políticas em Portugal. Um deles é o livro “Curso de Ciência Política” de Gianfranco Pasquino. Nele, o autor italiano invoca o modelo oligárquico de Roberto Michels para introduzir alguns do problemas e críticas democráticas e cívicas ao funcionamento dos partidos políticos (2):
 
Juramento dos Horácios - Jacques Louis David
 
Para Roberto Michels os partidos transforma-se em oligarquias através dos seguintes processos:
  • Formação de uma liderança;
  • Formação de uma liderança profissional e sua estabilização;
  • Formação de uma burocracia, de um conjunto de empregados com tarefas específicas a quem são feitos pagamentos regulares;
  • Centralização da autoridade;
  • Substituição dos fins últimos por fins instrumentais (nos partidos o objectivo passa a ser apenas a luta pelo poder, sendo criadas propostas políticas para aceder ao poder em vez de aceder ao poder para implementar propostas políticas);
  • Rigidez ideológica, ainda que possa ser aparente em alguns casos;
  • Crescente diferença e prevalência entre os interesses e/ou pontos de cista das lideranças e dos restantes membros do partido;
  • Escolha de novos líderes por meio de cooptação por parte dos que estão em funções (evitando processos verdadeiramente livres e democráticos, sem interferências das anteriores lideranças);
  • Redução das possibilidades dos membros das bases exercerem influência sobre os processos de decisão;
  • Deslocação da base formal de membros do partido para um eleitorado de apoio mais amplo.
 
Se a este modelo de Michels adicionarmos a cada vez mais dependência dos partidos de grandes fundos financeiros para realizar campanhas e de serviços externos, podemos perceber o porquê do esvaziamento dos partidos. Pois, com cada vez menos militantes por questões da construção de oligarquias internas, menos os partidos podem fazer depender as suas campanhas da mobilização voluntária militante (3). Esta dependência de serviços externos contribui para uma perda de identidade ideológica que, conjugada com a despolitização e desideologização da sociedade, obriga os partidos a competir por eleitores cada vez mais indefinidos (1). Assim os partidos ao descaracterizarem-se perdem o seu eleitorado base e menos cidadãos estão disponíveis para se identificarem com os vários partidos. A oligarquia interna e a falta de definição ideológica torna a participação inconsequente, tal como o próprio voto, sendo que a consequência e as experiências positivas são razões para a participação política e a disponibilidade para votar.

Tudo isto contribui para alimentar um ciclo ininterrupto de redução da força e da organização tradicional das partidárias. Submetem-se assim os partidos a mais riscos de corrupção, por dependerem cada vez mais de fundos externos para as suas atividades principais: a luta pelo poder (1). Perde-se também a capacidade de crítica interna nas cadeias organizativas partidárias, facilmente controláveis pelo reduzido número de militantes ativos, tal como a impossibilidade, pela falta de diversidade humana, para garantir a representatividade da população e da sociedade civil no interior dos partidos.
 
Obviamente que isto é um modelo de possibilidades, que não acontecerá em todos os partidos e que, mesmo que possa acontecer num determinado partido, não significa que todas as estruturas desse partido esteja a funcionar nesse modelo. Seja como for é algo a que os membros dos vários partidos devem estar atentos, especialmente se querem ter um futuro político mais ligado e conectado á sociedade civil e aos novos modelos de democracia mais inclusiva e participativa.

Referências bibliográficas
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora
Pasquino, Gianfranco (2010) – Curso de ciência política. Princípia.
Sousa, Luís & Triães, João – A Corrupção e os Portugueses – Atitudes, práticas e valores. RCP Edições.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Como identificar o fascismo?

Tal como dizia Zygmunt Bauman, estamos numa época de transição, num impasse sem conseguirmos perceber qual o futuro. Esta impressão pode ser comum a todos os tempos, tendo a em conta a incerteza do futuro aos olhos de quem vive esse determinado tempo como contemporâneo. Há registos disso em textos de todos os tempos e de todas as sociedades, especialmente em épocas de crise ou de final de ciclo. Será o nosso caso? Talvez.
 
Síntese Fascista - Alessandro Bruschetti
Neste momento parecem estar a ressurgir alguns movimentos que se reinventam numa adaptação aos tempos contemporâneos, aliás, como também é comum acontecer ao longo da história, dos múltiplos processos de reciclagem e reinvenção de ideias e valores mais antigos. Não faltam exemplos de casos da ascensão de movimento sociais e políticos que muitos caracterizam como sendo “fascistas” ou “neofascistas”. Algumas dessas tendências, mais intensamente nuns casos que noutros, podem ser sentidas em alguns governos e líderes nacionais. Mas como aferi e distinguir o fascismo?
 
Proponho recorrer a William Ebenstein, professor de ciências políticas, que definiu, nos anos 40 do século XX, em alguns tópicos, as características do fascismo. São elas, nas palavras de António José Fernandes:
  • Falta de confiança na razão;
  • Negação da igualdade humana fundamental;
  • Código de conduta baseado em mentiras e violência;
  • Governo da Elite;
  • Totalitarismo;
  • Racismo e Imperialismo;
  • Oposição às leis e regras internacionais.

Estes tópicos podem ser excelentes pontos de partida, mas são fruto de uma metodologia que se baseia em casos historicamente situados. Dificilmente haverá outro modo de analisar uma realidade social como os contextos políticos, pois são sempre e forçosamente historicamente situado. Para podermos fazer alguma análise comparativa com os políticos e as políticas da actualidade temos de fazer inúmeras adaptações. O facto das sociedades se terem aberto, criando redes sobrepostas e concorrentes, e das novas tecnologias de informação e comunicação massificarem o poder da comunicação interativa mudou muito o nosso mundo. Estamos numa fase em que vemos os princípios orientadores dos fascismos a procurarem uma adaptação a estas novas realidades. Vamos ver novidades com certeza num futuro próximo. E isto é apenas uma actualização no nesta pequena dimensão. Muitas outras mudaram. Fiquemos com este ponto de partida.

Referências
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Desenvolvimento Sustentável - Uma ideologia dos nossos tempos?

No livro "O Urbanismo depois da Crise" Alain Bourdin defende que o desenvolvimento sustentável se transformou numa ideologia. Só por si esta afirmação merece ser analisada, tanto do ponto de vista político como do desenvolvimento sustentável em si.

Esta suposta ideologia pode ser tão frágil como as demais à beira de extinção, próprias de um modernismo que já passou. Vejamos então como se cria uma ideologia: primeiro surge uma ideia, dá-se depois um processo de doutrinação e por fim constitui-se uma ideologia. Sendo que a ideologia pode ser considerado como um conjunto estruturado de ideias que podemos aplicar sem questionar. Serão então essas mesmas características que podem fazer do desenvolvimento sustentável uma ideologia mas ao mesmo tempo impedir que tal possa de facto assumir-se pelo conflito com o contexto socioeconómico em que vivemos.
 
Ferragosto - Cy Twombly

Encontraremos imensas  definições de desenvolvimento sustentável, numa tendência cada vez mais abrangente e holística. Se o conceito nasceu da conjugação da dimensão ambiental, social e económica, cada vez mais dimensões são acrescentadas. Componentes como a cultura, a governança e outras são comummente incluídas nas definições mais recentes. Se a isto juntarmos as teorias do decrescimento, a tendência de um desenvolvimento acumulado que tende a aumentar, compensando a necessidade de maiores consumos com o desenvolvimento tecnológico ou outros, podemos chegar a becos sem saída. Dificilmente alguém se opõe ao desenvolvimento sustentável enquanto conceito vago ou aplicado em exemplos práticos isentos de conflitos, ainda que tal possa depois ser problemático quando choca com hábitos e direitos adquiridos dos indivíduos. Por exemplo: quando se recomenda a redução do uso de água, do excesso de aquecimento dos edifícios, do uso massivo do transporte individual, entre outros.

O Desenvolvimento Sustentável parece ser capaz de intervir em todas as dimensões da nossa vida, contribuindo para uma mudança social profunda. Tem uma teoria fundamentada que o suporta, permite construir projectos de pequena e grande escala. Não é de espantar que se abandone a dicotomia esquerda-direita e se opte por este novo tipo de ideologia, aparentemente mais isenta dos chavões partidários que tantas pessoas têm afastado do exercício da cidadania política. Mas área de intervenção pode ser tão vasta que o torna difícil de assimilar de forma simples e imediata, o que pode dificultar a doutrinação, especialmente numa sociedade “hipermoderna”, onde tudo é rápido, superficial e efémero, tanto como o consumismo em que assenta. Tudo isto pode ser paradoxal.

A definição de desenvolvimento sustentável “ter um desenvolvimento atual de modo a que não condicione o desenvolvimento futuro” parecer ter ganho uma complexidade que o pode tornar vazio de sentido. Para Bourdin o conceito de desenvolvimento sustentável peca por se ficar pelas recomendações e não pela definição exata de medidas e projetos. Para outros autores, como Rogério Roque Amaro, a dificuldade prende-se mais pelo uso excessivo das palavras, de um conceito que parece gasto por uso excessivo sem a devida aplicação. As palavras desenvolvimento sustentável parecem estar a ficar agstas antes de tempo, arriscando-se à insustentabilidade como as ideologias mais tradicionais. No entanto, existem cada vez mais projetos que vão materializando os princípios do desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável, a ser uma ideologia é-o no contexto do pós-modernismo, ou hipermodernismo como diz Lipovetsky, no ocidente, pois é flexível, indefinido e altamente adaptável a cada caso e realidade. Pode ter dificuldades de afirmação e aplicação por se ter diluído numa sociedade que usa informação em massa sem a aprofundar, tornando-se o conceito potencialmente gasto pela sua complexidade e necessidade de compreender caso a caso de um modo multidisciplinar. Por outro lado pode condicionar os indivíduos, o que choca com o princípio basilar do individualismo consumista próprio das sociedades pós-modernas. Será assim uma ideologia de choque e mudança perante os hábitos e estios de vida atuais?

Digamos então que é uma ideologia líquida, como dizia Bauman, e algo indefinida. Ou seja, na era do pós-modernismo, em que as ideologias despareceram com a afirmação do individuo perante os valores ideológicos colectivos de construção das sociedades do futuro, quase sempre utópicas, a causa do desenvolvimento sustentável parece ser a única capaz de sobreviver, apesar da sua indefinição e aplicabilidade prática poder estar em conflito com os valores que estruturam as sociedades contemporâneas. Pode no entanto persistir como ideologia em grupos restritos, isto porque hoje as sociedades são cada vez menos homogéneas, compostas por grupos de pertença mais ou menos instáveis.

Só no futuro saberemos se a sustentabilidade será atingível e se os consumismos, e outros impulsos individualistas, podem ser refreados, se a tecnologia consegue acompanhar as necessidades de crescimento num mundo material e físico finito. Poderá surgir um momento de conflito entre ideologias líquidas, a do individualismo consumista e a do desenvolvimento sustentável, quem sabe mesmo a do decrescimento. Misturando-se as águas turva-se a capacidade de ver através destes fluídos dinâmicos.

Será essa eminência dialética a encerrar o pós-modernismo das sociedades hedonistas individualistas de consumo, inaugurando uma nova época? Não sabemos, pois as sociedades contemporâneas parecem cada vez menos dispostas a uma dialética aprofundada em que as ideias confrontam ideias.
 
Algumas referências:
* Intervenção no” II Congresso Internacional, Educação, Ambiente e Desenvolvimento”, organizado pela OIKOS, de 9 a 12 de Novembro de 2016, em Leiria

Bauman, Zygmunt – Amor Líquido. Lisboa: Relógio D’Água, 2008.
Bourdin, Alain – O Urbanismo depois da Crise. Lisboa: Livros do Horizonte, 2011.
Fernandes, António José – Introdução à ciência política. Lisboa: Porto Editora, 2015.
Latouche, Serge –  Pequeno tratado do decrescimento sereno.  Lisboa: Edições 70, 2011.
Lipovestsky, Gilles – Tempos hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2011.
 
 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Modigliani – O pintor de esculturas

Amedeo Clemente Modigliani foi um pintor italiano que se inseriu no movimento modernista da arte europeia no início do século XX. Trabalhou em Paris e pertenceu à comunidade de artistas que fez nascer a multiplicidade de vertentes das artes plásticas que tornaram a cidade das luzes a verdadeira capital da arte moderna. Foram tantos os artistas a coexistirem e a produzirem trabalhos arrojados em Paris nessa altura que dificilmente se poderá repetir tal singularidade geográfica na história da criatividade artística como nas primeiras décadas do seculo XX em Paris. A cidade atraia artistas de todos os países e nacionalidades, ainda que as condições de vida e oportunidades fossem desiguais.
 
A mulher com fita de veludo - Amedeo Modigliani

Modigliani foi um desses artistas emigrantes, proveniente de Itália, que contribui para a glória das criações artísticas na cidade, ainda que disso pouco se tenha gozado. Morreu jovem, na miséria e vítima dos excessos da vida boémia e de uma meningite tuberculosa. Apesar de o podermos considerar como modernista, o seu estilo de pintura apresenta características muito próprias. Talvez a paixão pela escultura, talvez mais que pela pintura, o tenha feito destacar entre os restantes pintores.

 A sua saúde frágil e escassez de recursos materiais impediram que se dedicasse totalmente à escultura. Assim, o pintor, que havia abandonado os pinceis depois do escultor Constantin Brancusi lhe ter revelado o interesse pelo trabalhar da pedra, viu-se forçado a desistir da escultura para voltar à pintura. As partículas libertadas nos trabalhos escultórios e a exigência de esforço físico devastavam Modigliani, que também não dispunha dos recursos materiais necessários para o desenvolvimento dessa arte, mesmo tendo ensaiado trabalhos em madeira. Assim, Modigliani abandonou definitivamente a escultura e dedicou-se novamente à pintura em 1914, seis anos antes da sua morte aos 35 anos.

Modigliani terá transportado para a tela a arte escultória. Tal como Picasso, era fascinado pela arte africana, especialmente pelas máscaras, das quais retirou influências. Criou assim uma nova forma de fazer retratos. Poderíamos dizer que era capaz de transformar os seus modelos em estátuas virtuais que depois pintava na tela. A sua obra gráfica fala por si.

O fatalismo que marcou a vida e morte de Modigliani, tal como a intensa paixão pela sua amante, terá influenciado seguramente as suas singulares pinturas.

Algumas referências:

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Nova vaga de jogos de tabuleiro Modernos – Sinais do pós-modernismo?

Em setembro de 2016 o jornal “The Guardian” [1] anunciou que iria dedicar uma coluna mensal a jogos de tabuleiro. Isto poderá parecer surpreendente e inexplicável ou apenas mais uma tendência/moda passageira.

Bem, não saberemos se será algo efémero, mas tudo aponta no sentido contrário. Então vejamos alguns dados. No EUA as vendas subiram entre 25 a 40% desde 2010.  Se em 1991 se estimava que a indústria representava 1.2 biliões de dólares, em 2013 somente o mercado alemão rondava os 375 milhões de euros. Em 2015, só nos EUA, representava 900 milhões de dólares [2;3]. Estamos a falar de números muito consideráveis, especialmente porque apresentem taxas de crescimento impossíveis de ignorar.
Batoteiro com o Ás de Ouros - Georges de La Tour

 Atualmente a Alemanha é o mercado com maior taxa de vendas por pessoa, tal como o berço do “Eurogame”. Este tipo de jogo, cujo exemplar mais conhecido internacionalmente é o “Setlers of Catan” [4], distingue-se pela redução do conflito entre jogadores, pela valorização da estratégia e da eficiência. Este estilo opõe-se aos jogos de inspiração americana, denominados de “Ameritrash”, mais conflituosos, aleatórios e alicerçados numa narrativa, do tipo “role play” altamente interativa [5]. Entre os dois estilos principais, se é que é correcto usarmos estas definições de modo absoluto, existem muitos híbridos e outros que dificilmente conseguimos caracterizar, pois os jogos de tabuleiro modernos podem assumir muitas formas e recorrer a muitas mecânicas, materiais e conceptuais. Para além da gestão estratégica competitiva, existem jogos cooperativos, de destreza, memória, teste de sorte, narração, simulação de aventuras, dedução e até os mais físicos. Depois existem outros que misturam tudo. Ao nível do formato podem ser de cartas, dados, peças móveis, em plástico, madeira, papel ou misturando tudo com adereços originais. Podem ser enormes ou caber no bolso, necessitar de escrever bastante ou até recorrer a uma aplicação de telemóvel. Podem demorar 5 minutos ou horas a fio a jogar. Também há jogos para todas as idades, jogados preferencialmente por determinadas faixas etárias ou misturando todas as pessoas.

Os temas dos jogos são inesgotáveis: economia, agricultura, política, história, geografia, aventura, fantasia, exploração, natureza, situações absurdas e divertidas, recriação de livros, filmes ou séries famosos, ou então sem tema, completamente abstratos. Talvez o melhor local para perceber a escala do que refiro é o sítio da internet https://boardgamegeek.com/ que desde 2000 acumula preciosa informação sobre o mundo dos jogos de tabuleiro.

Então e por que raio centenas de milhares de pessoas se deslocam a convenções de jogos de tabuleiro,um pouco por todo o mundo, mas especialmente na Alemanha e nos EUA? Porque se gastam milhões de dólares e euros na compra dos milhares de títulos de jogos lançados anualmente? Porque existem tantos blogues, sítios da internet e youtubers a tratar o tema? Porque abrem “boardgame cafés”, experiências de férias, pousadas e eventos de turismo, grupos e clubes de jogadores de jogos de tabuleiro por todo o lado, incluindo Portugal?

Não deveria a era digital ter destruído os jogos de tabuleiro?

De forma imprevisível aconteceu exactamente o contrário. A Internet permitiu aproximar e divulgar a comunidade de jogadores de jogos de tabuleiro, fomentando a troca de informação, em todos os formatos, à distância. Veio facilitar a organização dos eventos presenciais e a divulgação dos jogos. As novas tecnologias são também potentes ferramentas de apoio ao desenvolvimento dos jogos, que se tornam cada vez mais apelativos e diversificados. O networking tem valido a jogadores e designers, mas também se tornou mais fácil produzir e comprar à distância, para depois jogar presencialmente.

É na dimensão presencial que os jogos de tabuleiro vão ganhando pontos à concorrência. O consumo massificado de dispositivos digitais, tanto em contexto profissional como em lazer, tem levado grupos crescentes de pessoas a procurar alternativas, desligando a ficha e os ecrãs. A conjugação da procura pelo convívio presencial, longe desses dispositivos digitais, com a melhoria da qualidade e oferta dos jogos de tabuleiro criaram as condições perfeitas para estarem cada vez mais pessoas nestas reinventadas mesas de convívio.

A tudo isto se soma o potencial de desenvolvimento cognitivo e de sustentabilidade ambiental. Estes jogos são excelentes para aprender e desenvolver competências de forma indirecta, através de momentos de convívio e lazer. A aplicabilidade em contexto educativo e formativo é imensurável, tal como em ferramentas de intervenção social e fortalecimento da sociabilidade entre famílias, grupos e comunidades.
Nem se falou da riqueza da interação social que permitem este tipo de jogos. Imensas experiências sociaias e psicológicas podem ser feitas através destes jogos. Mesmo para um leigo, uma experiência de jogo é sempre uma oportunidade para conhecer e explorar o comportamento humano, mesmo que de forma indireta e não sistematizada. São muitas as referências pela Internet de que Platão tenha dito: "Podemos descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de jogo do que num ano inteiro de conversação". Não existe qualquer referência para afirmarmos que o famoso filósofo tenha dito tal coisa, até porque é contraditória à dialética que defendia, no entanto a frase dá que pensar e quem já experimentou vários jogos sabe que existe alguma verdade nisto [6].
Se invocarmos a "Teoria dos Jogos" [7] então os jogos de tabuleiro passam para um outro nível de compelxidade e utilidade, mas o artigo já vai longo.

Por tudo isto, parece-me que os jogos de tabuleiro modernos estão para ficar, pois têm-se adaptado e fomentado experiencias valiosas na era do domínio digital à distância. Aqui está um fruto dos nossos tempos, quem sabe um ato materializado colectivo do nosso pós-modernismo intrínseco, por vezes inconsciente.

Nota: No blogue www.jogosnotabuleiro.blogspot.com podem encontrar textos de opinião, curiosidades e reviews sobre jogos de tabuleiro, sendo o autor aqui de "A Busca pela Sabedoria" coautor também desse espaço.

Algumas referências e fontes
[1] - https://www.theguardian.com/lifeandstyle/board-games
[2] - https://en.wikipedia.org/wiki/Board_game#cite_note-32
[3] - https://infogr.am/board_game_statistics
[4] - http://archive.wired.com/gaming/gamingreviews/magazine/17-04/mf_settlers?currentPage=all
[5] - https://boardgamegeek.com/thread/780739/best-definitions-ever-eurogame-ameritrash-and-warg
[6] - http://www.mesacc.edu/~davpy35701/text/plato-things-not-said.html
[7] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_dos_jogos

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O fim da Moralidade e o início da Idade Moderna

Determinados marcos históricos, mais ou menos dilatados no tempo, são recorrentemente utilizados para definir as grandes eras ou idades históricas. Assumem-se eventos, movimentos e mudanças várias para fazer essas divisões. Algumas são imensamente difíceis de fazer, se não todas mesmo, pois acabam por ser delimitações artificiais do tempo, que é composto por acontecimento interrelacionados não lineares. Como ler continuidades, parcelarmente, é muito mais fácil, dificilmente podemos escapar a estas metodologias.
Soutine - Carcaça de Carne

O início da Idade Moderna pode definir-se de forma diferente consoante a temática histórica que se esteja a analisar. O mais comum é ditar o fim da Idade Média com a queda de Constantinopla, em 1453. Mas, por exemplo, para a filosofia a divisão pode ser diferente. Roger Scruton refere-se a Descartes como o paladino do pensamento racionalista, abrindo assim o pensamento filosófico à modernidade, já em pleno século XVII.

Mas do ponto de vista político podemos dizer que a visão moderna terá surgido com Maquiavel e Hobbes. Apesar da diferença de décadas entre ambos, referem-se à natureza humana, modo de governo e organização política segundo novos princípios. No início do século XVI Maquiavel justifica no seu tratado “Príncipe” que todos os meios são legítimos para atingir determinados fins políticos, ignorando entraves morais, desde que não se ultrapasse o ódio à governação. A eficiência e sucesso governativo destes princípios deitavam fora toda a herança moral religiosa e filosófica. Curiosamente há quem considere que Maquiavel estava apenas a ser irónico.
 
Já Hobbes, no século XVII na sua obra “O Leviatã”, refere-se à natureza humana como egoísta e autodestrutiva, pelo que se justificava a imposição de um poder supremo. Ou seja, a humanidade é despida de visões idílicas e deve ser submetida para que se consiga alguma forma de estabilidade e convivência, mesmo que usando de força e violência quando necessário. De notar que Hobbes viveu num dos períodos mais conturbado da história de Inglaterra, de guerra civil, violência e intolerância.

Mais tarde Rousseau, ainda que divergindo no método e premissas, segue quase pelo mesmo caminho de Hobbes, reforçando a necessidade do contrato social. Contrato esse que surgia da necessidade de contrariar a degradação e corrupção natural das sociedades mais desenvolvidas. Para Rousseau o homem era puro e bom no seu estado natural – a teoria do bom selvagem. A única alternativa para o bom governo das sociedades modernas seria instituir um “contrato social” entre membros da comunidade e sistema de governo, pois a moral não era suficiente para garantir a coexistência. Rousseau foi já um dos percursores do iluminismo, onde as luzes da razão se espalhavam pelos círculos das elites.

Pode não parecer, mas estas mudanças foram revolucionárias. Desaparecem as noções de moralidade e ética inatas à humanidade, capazes de construir um éden na terra. O conceito de influência ou influências divinas é também descartado. Revoluciona-se e aplicação um novo racionalismo social e político. Hoje chamamos-lhe pensamento (ou filosofia) político e social da Idade Moderna. Mas terá sido mesmo o principio do fim da moralidade e ética política?

Referências bibliográficas:
ROBINSON, Dave & GROVES, Judy – Introducing Philhosophy – A Graphic Guide. Londom: Icon Books, 2007.
SCRUTON, Roger – Breve história da filosofia moderna. Lisboa: Guerra & Paz, 2010.
SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir.) – História Universal. 10 Volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Como a erva mudou a humanidade

Tendemos a minimizar a importância da erva, parece uma coisa comum, sendo por vezes até incómodo quando se trata de ervas daninhas. Mas as ervas, ou mais correctamente as gramíneas, foram muito importante para a evolução e história da humanidade. Podemos mesmo dizer que sem ervas não haveria humanidade como a conhecemos hoje.
 
Campo de Trigo - Silva Porto
Há cerca de 2.5 milhões as grandes planícies dominadas por espécies de gramíneas, ou seja, de ervas, começaram a ocupar áreas consideráveis do globo. Terá sido por essa altura que surgiu a espécie “Homo” e daí em diante todas as suas ramificações. As novas paisagem, dominadas pelas novas espécies vegetais, obrigaram a adaptações das restantes espécies animais. Para os “homos”, nossos antepassados, surgiu a necessidade de deslocação sobre duas pernas, garantindo segurança e visão acima das “ervas”.

Curiosamente, milhões de anos mais tarde, os atuais humanos, homo sapiens sapiens, por volta de 10.000 A.P., desenvolveram a agricultura. Cultivaram novamente gramíneas: trigo, centeio, aveia, etc. Foi a agricultura que permitiu desenvolver civilizações, as grandes cidades, a escrita, a organização política e a complexidade da organização social, dos cultos e do conhecimento.

Será também das estepes, das grandes pradarias euroasiáticas, que surgiram hordas de povos nómadas que destruíram, conquistaram e se fundiram com as civilizações, criando ciclos de ascensão e declínio ao longo da história, especialmente no Norte de África, Médio Oriente, Oriente e Europa. Estes povos são repetidamente registados, ao longo da história, pelas civilizações que com eles lidaram com vários nomes. Os registos arqueológicos comprovam estas mudanças, invasões, assimilações e adaptações. Talvez os mais conhecidos sejam os Hunos e os Mongóis, mas centenas de anos antes, e não milénios, há registos de grandes distúrbios também causados por povos invasores sobre as civilizações estabelecidas, especialmente a partir do advento da domesticação do cavalo.

Mais tarde, já depois da Idade Média, aquando da colonização dos continentes americanos, as “ervas” entram novamente em cena, contribuindo para o comércio triangular atlântico que iria moldar a história das américas e o comércio mundial. Os europeus criaram o comércio triangular entre Africa, Améria e Europa, sendo que a produção de cana-de-açúcar levada para as américas e produzida com mão-de-obra escrava africana foi essencial nesse processo. Hoje o açucar tem uma importância incontornável na nossa civilização, isto para não dizer que somos viciados em açúcar.

Assim, tendo aqui ignorado imensos casos e influências, pois daria um texto imensamente logo e moroso, fica um breve registo de como as “ervas” nos influenciaram e continuam a influenciar.

Algumas referências bibliográficas:
  • AMARAL, Ferreira do – Os filhos de Caim e Portugal: povos e migrações no II milénio a. C. Lisboa: Quetzal, 2003.
  • KEEGAN, John – Uma história da Guerra. Lisboa: Tinta da China: 2006.
  • SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir) – História Universal. 10 volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.
 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Marketing Territorial é diferente do Marketing Empresarial ou Institucional

O Marketing territorial tem vindo a crescer enquanto subdomínio do marketing, sendo utilizado na gestão de territórios. Mas este tipo de marketing difere do marketing empresarial ou institucional. Os territórios, pelas suas características, são muito diferentes das empresas e instituições,  exigindo abordagens diferentes.
 
As grandes banhistas - Cezanne

Se numa empresa pode facilmente existir uma estratégia bem definida, assumida por uma liderança forte, com capacidade de decisão e operacionalização em todos os domínios da empresa, nos territórios tal é praticamente impossível de acontecer. Os territórios são sistemas iterativos complexos, de múltiplos atores e recursos, onde uma determinada liderança tem cariz político democrático. Aas próprias empresas e isntituições são atores importantes dos territórios.

 A gestão dos territórios está muito mais condicionada do que a gestão de uma empresa, pois, no segundo caso, não existe obrigação do estabelecimento de modelos democráticos. Apesar de tudo, nas sociedades que vivem em regimes democráticos, empresas, famílias e órgãos colegiais de especialistas técnicos, a título de exemplo, tendem a ser pouco democráticos nas suas práticas e organização perante o peso da propriedade, da tradição e do conhecimento.

Para as empresas será possível criar missões e culturas comuns. Mas nos territórios existem vários atores com diferentes interesses, por vezes contraditórios. Sobre os territórios podem coexistir várias culturas e subculturas, com os seus múltiplos interesses e valores, mesmo nas zonas menos cosmopolitas. É necessário um esforço adicional, respeitador da cidadania e igualdade de diretos, para além dos requisitos legais exigidos às empresas quando se gere um território.

Os territórios podem ser muito variados e heterogéneos, dificultando a identificação dos recursos e produtos a potenciar. Sempre que se pretende seguir uma determinada estratégia é necessário o envolvimento e aceitação da população para determinado objectivo de desenvolvimento territorial. Para além dos indivíduos, existem sobre os territórios outras entidades colectivas, capazes de mobilização e influência. Estas entidades podem ser também muito diversas: políticas; cívicas; técnicas; etc.

O facto dos territórios serem geridos pelo poder político, tendo em conta que este assenta num modelo democrático, surgem fortes probabilidades de mudanças imprevissíveis nas lideranças territoriais, inviabilizando a implementação de estratégias e planeamento a longo prazo.

Assim, os processos de marketing territorial, com o objectivo de potenciar o desenvolvimento de determinados territórios, independentemente da área de actividade ou objectivo final definido, têm sempre de nascer de processos inclusivos de cidadania, assentes em sólidas práticas democráticas. Caso contrário será impossível definir uma estratégia de atuação sólida e muito menos aplica-la a médio e longo prazo.

 
Referências bibliográficas:
 
FIGUEIRA, Ana Paula - Marketing territorial - uma nova dimensão do marketing. Estarreja, Mel Editores, 2011.
 
GINSBORG, Paul - A democracia que não há - que fazer para proteger o bem político mais precioso de todos os tempos. Lisboa: Editorial Teorema, 2008.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Depois de Hitler (After Hitler) - um documentário sobre o lado negro do pós-guerra

No documentário "After Hitler" de David Korn-Brzoza e Olivier Wieviorka, de 2016, recuperam-se imagens e registos pouco conhecidos do pós 2.ª Guerra Mundial. É muito comum, quando se estuda a história do século XX ignorar o modo como se reorganizou a europa e se deu a "desnazificação". Habitualmente, até nos livros de história do ensino secundário para os alunos de humanaidades, a sequência é direta. Depois da Guerra Mundial, numa descrição genralista e pouco pormenorizada das desnazificação, surgem as tensões entre aliados e soviéticos, manifestadas por discursos de Churchill, Estaline e Truman que, depois levariam à Guerra Fria.
 
Fonte da imagem: https://www.zed.fr/en/tv/distribution/catalogue/programme/after-hitler
Mas existe um período negro que parece querer ser escondido, talvez por ser incómodo para os vencedores aliados. Com a derrota alemã a europa ficou profundamente desorganizada. Respondeu-se com violência às violências da guerra. Judeus continuaram a morrer nos campos de concentração, enquanto outros continuavam a ser chassinados por populações claramente instrumentadas por ódios antigos e antisemitismo, mesmo do lado "aliado". Deu-se uma caça às bruxas com execuções sumárias e populares dos antigos colaboracionistas nazis. Comunidades germânicas em paises do centro da europa, que residiam nesses territórios há séculos, foram expulsas e massacradas. Muitos alemães comuns e seus descendentes foram executados em grupo, à semelhança do que faziam os nazis na suas limpezas etnicas. Foi permitida a escravatura da população alemã por parte dos aliados como modo de castigo e recuperação dos destroços de guerra causados. Deu-se um exodo massivo na europa com milhões depessoas em movimento em todos os sentidos, pois as delimitações feiteiriças nunca tinha sido capazes de delimitar e definir no território a diversidade das comunidades etnicas e nacionais Mesmo entre os aliados deram-se violências e exenofobias várias.
 
A guerra fria haveria de transformar os inimigos em aliados e os aliados em inimigos. Tudo mudou rapidamente e a memória do passado parecia ser apagada ou relembrada sempre com violência.
 
"After Hitler" é um daqueles documentários importantes para conhecer a história recente da Europa e refletir sobre o seu futuro.
 
 


 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Morte Negra - Um filme de ação credível sobre a Idade Média

Morte Negra pode parecer, à primeira vista, um filme de terror. É assustador, não por ser feito para esse fim, mas porque retrata uma época da história da europa hoje inimaginável.  Este filme de Christopher Smith conta com um elenco de atores bastante conhecidos e reconhecidos pela qualidade das suas performances em filmes de época. Sean Bean, Eddie Redmayne, Tim McInnemy, Carice Van Houten entre outros. As interpretações não dececionam, contribuindo para a credibilidade e realismo próprio do filme.
 

É essa credibilidade que eleva este filme acima de tantos outros filmes de acção de cariz histórico. Trata-se de uma história inserida no contexto das grandes pestes que assolaram a europa durante o século XIV, época conhecida como o período da Peste Negra. Não se pense que é um documentário. Obviamente tem as suas falhas, mas comparado com outros filmes este tem mais interesse do ponto de vista histórico.

O mais difícil de recriar nos filmes ditos históricos são as mentalidades, pois tendemos a representar épocas passadas segundo os nossos valores e princípios contemporâneos. Nota-se uma preocupação neste filme, apesar de ser direcionado a um público generalista, para com a profundidade das personagens e para o enquadramento histórico geral. As personagens são complexas, atormentadas, fruto da época em que vivem. A obra não escapa a alguns clichés, mas enriquece os espectadores com pormenores que não dececionam um publico mais exigente quanto aos conteúdos.

Sem desvendar o enredo seguem-se alguns exemplos. O guarda-roupa está bem conseguido, com distinção nas roupas e armamento entre as ordens sociais e hierarquias. O cavaleiro representante do bispo tem espada e uma armadura coerente, enquanto os restantes mercenários recorrem a armamento variado, usado e de menor qualidade.  Há alguma coerência na organização da aldeia descrita. O facto de existirem territórios pouco desconhecidos, quase bravios, que escapam ao poder feudal e eclesiástico é também verossímil. Na idade média o poder laico e eclesiástico tinha deveras dificuldades em controlar determinados territórios, tanto pela falta de meios e limitações técnicas, como pela própria organização em que se fundava.

A razão pela qual o filme tem passado quase despercebido e ter recebido algumas avaliações pouco positivas pode estar relacionado com o seu realismo. Morte Negra mostra o lado negro do cristianismo, da igreja e do radicalismo religioso medieval. Aborda a credulidade humana e regista episódios assustadores, próprios de uma época violenta onde a religião e a superstição amplificaram a crise de saúde pública provocada pelas pestes.
Provavelmente o título poderá ter contribuído para alguma confusão nos públicos para os quais o filme foi pensado. Não se trata de um filme de terror. Sendo um filme de ação não tem a sequência de ação por vezes apreciada. O fim pode ser surpreendente. Tal como o público que goste de uma recriação mais soída seja também afastado pelo título e pelo modo "hollywoodesco" com que o filme é apresentado.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa