segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Veículos Autónomos: uma realidade que vem na nossa direção

O que acham de poderem ter um veículo que vos transporta para onde querem sem ter de conduzir, podendo fazer outras coisas durante o percurso, até dormir se vos apetecer? E se depois o veículo vos deixar exatamente onde querem e, depois de saírem comodamente, o carro se for estacionar sozinho? Ou então nem sequer terem carro, e com um toque de pedido num qualquer dispositivo aparecer um veículo que vos transporta e depois vai à sua vida, dispensando-vos de todos os custos e preocupações associadas à pose dos veículos?

In The Car - Roy Lichtenstein

Isto parece ficção científica, mas já existe esta tecnologia. Tudo indica que nas próximas décadas teremos veículos destes à nossa disposição, totalmente autónomos, a preços competitivos. Aliás, neste momento já existem no mercado automóveis com algumas funcionalidades de automação, tais como o Cruise Control Adaptativo, autoestacionamento, entre outros. Neste momento a automação dos veículos classifica-se em níveis, indo desde o zero (sem automação) ao nível 5 (totalmente autónomo). Tudo indica que a aplicação seja gradual, no entanto, o recurso a este tipo de veículos promete ser tão revolucionário como a própria revolução urbana que se produziu desde os últimos 70 anos com a massificação dos automóveis.

As vantagens são inegáveis. Os acidentes atribuídos a causas humanas, que podem chegar aos 90% dos casos, podem ser evitados ou mitigados. Os padrões de condução, trajetos e circulação de veículos podem ser otimizados do ponto de vista da utilização do espaço, do aumento das velocidades e da redução das emissões. Usar um destes automóveis pode ser muitíssimos mais sustentável, também porque potencia a partilha de veículos de forma cómoda e rápida através de toda a tecnologia associada a esta nova forma de mobilidade. Se isto for conjugado com a mobilidade elétrica os ganhos são ainda maiores, apesar de não serem inócuos. Há também uma vertente social importante, pois os custos de transporte podem ser reduzidos, os trajetos mais personalizados e surgir a possibilidade de utilização de veículos por pessoas a quem até agora estavam vedados (jovens, pessoas sem carta, deficientes, idosos sem capacidade de condução, etc.). Nas cidades o espaço destinado ao estacionamento e circulação pode ser reduzido e reconvertido noutros usos mais aprazíveis para os habitantes. 

Mas nem tudo são vantagens. Prevê-se uma destruição grande de emprego, embora se criem novos. As cidades podem ficar ainda mais destruturadas e aumentar as distâncias de circulação, pois esse tempo pode ser aproveitado para outras atividades. Esse aumento de viagens e sua duração pode ter consideráveis impactes ambientais, porque haverá sempre efeitos negativos ao uso dos automóveis, e de modificação da estrutura social e familiar, pois podem mudar os padrões de localização e de vida. Surgem também questões jurídicas de responsabilidade sobre eventuais falhas do sistema, tal como o acesso a dados pessoais dos utilizadores, e até mesmo do potencial acesso por hackers e terroristas a todo o sistema de transportes. O próprio transporte público pode desaparecer com estes novos veículos. A sdúvidas são muitas.

Todas estas questões ficam em aberto, tanto as vantagens como os perigos. Podemos ter apenas uma certeza: será muito pouco provável no futuro que nos continuemos a deslocar em veículos automóveis da mesma forma que temos feito nas últimas décadas.

Referências bibliográficas:
  • Andreson, J M; Nidhi, K; Stanley, K D; Sorensen, P; Samaras, C; Oluwatola, O A (2016). Autonomous vehicle technology: A guide for policymakers. Santa Monica: RAND Corporation.
  • Campbell, M; Egerstedt, M; How, J P; Murray, R M (2010) Autonomous driving in urban environments: approaches, lessons and challenges, Phil. Trans. R. Soc. A (2010) 368, 4649–4672
  • Docherty, I., Marsden, G., & Anable, J. (2017). The governance of smart mobility. Transportation Research Part A, Online First.
  • Duranton, G. (2016). Transitioning to driverless cars. Cityscape: A Journal of Policy Development and Research, 18(3), 193–196.
  • Fagnanta, D J; Kockelman, K (2015). Preparing a nation for autonomous vehicles: opportunities, barriers and policy recommendations. Transportation Research Part A: Policy and Practice, 77, 167-181. DOI: dx.doi.org/10.1016/j.tra.2015.04.003.
  • Greenblatt, J. B., & Shaheen, S. (2015). Automated vehicles, on-demand mobility, and environmental impacts. Current Sustainable/Renewable Energy Reports, 2(3), 74–81.
  • Koopman, P; Wagner, M (2017). Autonomous Vehicle Safety: An Interdisciplinary Challenge. IEEE Intelligent Transportation Systems Magazine, Volume: 9, Issue: 1, Spring 2017.
  • Legacy, Crystal; Ashmore, David; Scheurer, Jan ; Stone, John; Curtis, Carey (2018). Planning the driverless city, Transport Reviews DOI: 10.100/01441647.2018.1466835
  • Thakur, P., Kinghorn, R., & Grace, R. (2016). Urban form and function in the autonomous era. 38h Australasian Transport Research Forum .ATRF), Melbourne, Victoria.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Ser ignorante da sua própria ignorância: o efeito Dunning-Kruger

Quase por acaso, numa daqueles exemplos positivo da utilização das redes sociais, deparei-me com um vídeo que explicava o efeito Dunning-Kruger. Trata-se de um efeito tão surpreendente como natural. Quase todos já experimentamos na primeira pessoa os casos associados a este fenómeno. 

Retrato de Antonietta Gonzalez - Lavinia Fontana

Atualmente tendemos a especializações técnicas e de conhecimento, pelo que será provável que cada um de nós seja mais especialista numas coisas que noutras, quer seja pela via da experiência do saber-fazer quer pelo estudo académico e teórico, sem com isto querer tornar as duas vertentes antagónicas, pois são obviamente complementares. Com as normais interações sociais, ainda mais intensas na dira “era da informação” em que vivemos, deparamo-nos com conversas cruzadas entre especialistas e não especialistas sobre quase tudo. Nem sempre os não especialistas, mesmo os totalmente leigos, se coíbem de afirmar, com toda a certeza, verdades absolutas. Gera-se um efeito de superioridade ilusória, que costuma ser alimentada pelas relações de poder sociais, que habitualmente nada têm que ver com o poder emanado do saber e conhecimento em causa. É um fenómeno atualmente estudado pela psicologia e sociologia comportamental.

O efeito Dunning-Kruger refere-se aos casos em que a ignorância e incompetência num determinado saber ou assunto impede que se percecione o próprio nível de desconhecimento nessa área. Lembram-se da famosa expressão atribuída a Sócrates “Só sei que nada sei” ? É mais ou menos isso. Quem sofre do efeito Dunning-Kruger pode estar convencido que sabe exatamente o que afirma e defende, não por ter argumentos e conhecimento sólidos, mas por não os ter no nível mínimo que o faria duvidar do pouco que sabe. No fundo, não ter determinadas competências num assunto implica não ter também as competências para se saber que não se sabe desse assunto.  Por outro lado, o efeito Dunning-Kruger pode gerar também insegurança nos reais detentores de conhecimento, pois, perante a imensidão do saber, pode dar-se a sensação de nunca se saber de facto nada, tal é a imensidão e perceção do que há por saber. Complicado? Nem por isso. Até é bastante simples, talvez seja uma questão de horizontes e experiência pessoal, mas que pode ser amplificado quando quem sofre estes efeitos ocupa ou exerce posições de poder. Pode ser a justificação para uma imensidão de más decisões, más lideranças, más estratégias, maus projetos e falhas de desenvolvimento de organizações, instituições, empresas e governos. O fenómeno pode acontecer e ter efeitos nefastos na nossa vida pessoal, relações sociais, nas famílias, associações, partido políticos, movimentos cívicos e sociais, na gestão da causa pública. Pode ser simplesmente um fenómeno muito irritante numa conversa informal, que nos irrita, mas onde pouco se poderá fazer porque simplesmente não vale a pena a chatice de discutir com a teimosia de quem acha que sabe tudo e nada mais tem a aprender.

Estamos perante um tema atual de investigação cientifica e académica que tem tentado explicar estas situações que muitos de nós podem já ter presenciado na primeira pessoa. Este fenómeno foi inicialmente estudado por Justin Kruger e David Dunning, que na altura desenvolveram as primeiras investigações na Universidade de Cornell, tendo dado origem a uma publicação em 1999 que marcou as investigações posteriores, feitas pelos próprios autores como por novos investigadores.

Pode ser que um dia se encontre uma solução para isto. Mas esperem lá, já existe a escola e as múltiplas formas de formação em todos os níveis, tal como os fenómenos de aprendizagem cultural em sociedade…


Vídeo resumo de Francisco Baptista no Facebook




Referências bibliográficas:

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Reciclar para manter o valor versus o "downcycling" e o "upcycling"

O conceito de reciclagem está bastante generalizado e é facilmente compreendido por não especialistas em gestão de resíduos. No fundo é uma coisa do nosso dia-a-dia. Ainda bem que o é, caso contrário estaríamos muito mal. Mas poderá tudo ser reciclado? E será que chega apenas reciclar. O conceito está generalizado, mas quando a esmagadora maioria da população diz que recicla em sua casa será que devemos ficar preocupados? Isto porque dificilmente alguém poderá reciclar em casa.  O que será suposto fazermos consiste na separação de resíduos, pois reciclar é algo muito mais complexo e exigente. A Reciclagem é uma das várias possibilidades a realizar posteriormente, de forma massificada e tecnicamente controlada nos sistemas de gestão de resíduos.

Reciclar podem ser entendido como “voltar a utilizar” depois de um processo de processamento e reconversão do resíduo em causa. O ideal seria a reutilização dos produtos sem que se chegasse ao ponto de serem considerados resíduos. Não sendo possível continuar a utilizar, ou recorrendo a reparação e outro tipo de intervenções que mantenham o produto ou bem em funcionamento, a reciclagem será então a próxima opção. 



Reciclar pressupõe a reutilização de reconversão para o mesmo grau de valor. No entanto, na realidade pode acontecer uma reconversão do resíduo num novo produto de valor inferior. Para melhorar o desempenho na gestão de resíduos o ideal seria aumentar, ou pelo menos manter, o valor na reutilização. Em vez de reciclar (recycling) deveríamos tentar um “melhorciclar” (up-cycling), que no fundo seria aumentar o valor tendo em conta a origem dos resíduos que contribuíram para constituir o novo produto. Acabei de inventar o termo, porque em português não parece haver uma designação tão boa como a terminologia inglesa. Por outro lado, há que tentar evitar o “piorciclar” (down-cycling), que consiste em gerar produtos de valor inferior. Tudo isto são conjeturas ideais, porque nada garante que aumentar o valor de um produto que resulta da reconversão de um determinado resíduo não obrigue a um processo tão dispendioso e intensivo em recurso que seja insustentável. Se pensarmos na utilização ainda antes do bem se tornar resíduos podemos estar então a falar de "preciclar". Tal como referido, esta seria sempre a opção mais sustentável, tanto quanto menos intervenção, adaptação e reparação tivesse de ser realizada.

Seja como for são estas aferições de valor dos produtos reciclados levanta questões relevantes e que devem ser tidas em conta, especialmente porque nos alertam para a sustentabilidade da própria reconversão dos resíduos. Não basta reciclar a qualquer custo e de qualquer maneira, mas saber planear e gerir como reciclar. 

Estes conceitos do downcycling e upcycling foram explanados pelo professor Roland Clift numa palestra realizada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, no âmbito do projeto Urbanwins, que visa o metabolismo urbano e neste evento particular abordava o tema da economia circular.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Qual a diferença entre gamificação e Serious Gaming?

Um dos primeiros trabalhos, se não mesmo o primeiro trabalho sistemático, sobre jogos foi produzido por Huzinga (1938). Para esse autor os jogos definiam-se como atividades não sérias e irreais, capazes de cativar os participantes. Posteriormente, para Caillois (1958) jogar e brincar passaram a ser assumidos como conceitos diferentes. No entanto, ainda assim existem imensos jogos que implicavam um nível de seriedade e capacidade de produzir resultados para além da atividade lúdica (Pearce, 2006). Atualmente tem existindo uma tendência atual de salientar o potencial sério e construtivo dos jogos (Steinkbuehler, 2006; Mayra, 2008; Shaw, 2010).

Sofonisba Anguissola - Retrato das irmãs da artista a jogar xadrez

Uma desses conceitos de aplicação de jogos é a gamificação ou aplicação de técnicas de gamificação, o que consiste, de forma simplificada e resumida, na introdução de mecânicas de jogos, tais como etapas de mérito e dificuldade, pontuações e recompensas em atividades da vida real que não têm relação direta com os jogos. Aplica-se habitualmente a contextos de trabalho, incentivando a competitividade e produtividade. A gamificação usa elementos específicos dos jogos de modo a invocar a experiência de jogo, sendo considerada por alguns investigadores uma mera redução das atividades a formas de recolha de pontos, de exploração e um modo de evitar envolvimentos mais profundos (Ampatzidou et al., 2018). Com base nestas e noutras críticas o conceito de gamificação estão em modificação e adaptação, dando-lhe mais profundidade, o que nos vai aproximar do conceito e aplicação de jogos explanado no próximo parágrafo.

Uma outra alternativa de aplicação de jogos consiste no serious gaming, ou em português algo que se poderia traduzir por “Jogo Sério”. Para Wouter et al., (2017) o jogo sério é um método que permite aumentar a capacidade de compreensão de ambientes complexos de tomada de decisão, podendo ter imensas aplicações. O termo “sério” refere-se ao potencial de desenvolver e trabalhar questões que vão para além dos aspetos lúdicos (De Caluwé, Geurts, & Kleinlugtenbelt, 2012; Mayer & Veeneman, 2002). Deterding et al., (2011) refere que os jogos sérios são considerados ignições das qualidades cognitivas e comportamentais através das experiências de jogo. Ou seja, diverge da gamificação, por ser mais transparente e menos intrusivo, mais estruturado nos objetivos a trabalhar sem deixar de se assumir como jogo. No jogo sério podemos assumir, à partida, que vamos jogar, tendo um efeito de maior informalidade e alívio do fator competitivo, mas em diminuir em nada os efeitos potenciais do ato de jogar. Os jogos que se utilizam nesta modalidade são, quase sempre, construídos para cumprir efeitos e requisitos previamente definido (e.g. promover processos colaborativos, estimular a criatividade, apoiar um processo de decisão, etc.).

Esta é uma pequena introdução à gamificação e ao serious gaming (jogo sério), sendo um assunto a desenvolver mais profundamente noutros textos. No caso do autor – Micael Sousa- existe uma experiência continuada na utilização destas ferramentas de serious gaming através da aplicação parcial e total de jogos de tabuleiro modernos. Para mais textos sobre jogos de tabuleiro modernos poderão consultar o blogue: http://jogosnotabuleiro.blogspot.com/

Referências bibliográficas:

  • Ampatzidou, C.; Bouw, M.; Van de Klundert, F.; De Lange, M.; De Waal, M. (2015), The hackable city: a research manifesto and design toolkit. Amsterdam: Amsterdam Creative Industries Publishing.
  • Caillois, R. (1958). Les jeux et les homines. Paris: Gallimard (English edition: Man, play and games. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 2001).
  • De Caluwé, L.; Geurts, J.; Kleinlugtenbelt, W. J. (2012), Gaming research in policy and organization: An assessment from the Netherlands, Simulation & Gaming, 43, 600–626. DOI:10.177/1046878112439445
  • Deterding, S.; Dixon, D.; Khalad, R.; Nacke, L. (2011), From game design elements to gamefulness: Defining ‘gamification’. In 11th proceedings of the 15th international academic mindtrek conference, [em linha], accesso em Jul. 2017, disponível em: http://gamification-research.org/2012/04/defininggamification
  • Mayer, I. S.; van Bueren, E. M.; Bots, P. W. G.; Van der Voort, H.; Seijdel, R. (2005), Collaborative decisionmaking for sustainable urban renewal projects: A simulation-gaming approach, Environment and Planning B: Planning and Design, 32, 403–423. DOI:10.1068/b31149
  • Pearce, C. (2006). Productive play: Game culture from the bottom up. Games and Culture, 1:1, 17–24.
  • Shaw, A. (2010), What is video game culture? Cultural studies and game studies. Games and Culture, 5:4, 403–424. 
  • Steinkuehler, C. A. (2006), Why game (culture) studies now? Games and Culture, 1:1, 97–102.
  • Wouter van R.; Post, J., Langeveld, J.; Herder, P.; Clemens, F. (2017), A gaming approach to networked infrastructure management, Structure and Infrastructure Engineering, 13:7, 855-868. DOI: 10.1080/15732479.2016.1212902

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Qual foi o primeiro Museu de Portugal?

Hoje celebra-se o dia internacional dos museus. Mas o que é um museu? Seria a casa das musas, aquele local onde todas as artes se juntavam e inspiravam a humanidade. Hoje existe museus para todos os gostos, de todos os tipos, recorrendo a inúmeras técnicas de museologia, exibindo as suas museografias direta e indiretamente. Alguns nem edifícios têm, nem peças dignas de serem apreciadas como tesouros.

Paço Real da Ajuda (em madeira)

Mas quais são os museus mais antigos de Portugal? Onde começaram as práticas museológicas?

Podemos começar pelos museus, ou proto museus, de influência iluminista e enciclopédica típicos do século XVIII. Mas podemos ir um pouco mais atrás, aos gabinetes de curiosidades e tesouros. Paulo Oliveira Ramos (1993) sugere a importância da coleção de antiguidades de: D. Afonso, 1.º Duque de Bragança (1377-1461); do 1.º Marquês de Valença (?-1460), filho do 1.º Duque de Bragança, composta por peças de arte e arqueologia; André de Resende (1500-1573), que recolheu cipos e lápides com inscrições romanas, árabes e hebraicas; padre Manuel Severim de Faria (1582?-1655), que continha um grande conjunto de vasos e outros artefactos romanos.

Podemos considerar que o primeiro museu português foi o Real Museu da Ajuda, criação do Marquês e Pombal para D. José I (1761-1788). Nesta altura esse museu ainda se revestia de um cariz privado, que servia tanto como prestígio para o rei detentor da coleção como tinha intenções formativas e educativas para o rei e a corte. Não esquecer que se vivia a era do iluminismo, e que a influência do Marquês de Pombal era forte em todos os domínios da vida política portuguesa. Este museu é também simbólico dessa intenção modernizadora de Portugal e do acompanhamento dos ideais filosóficos do iluminismo.

Referências bibliográficas:
Ramos, Paulo Oliveira (1993). Breve História do Museu em Portugal. In Trindade-Rocha (coord.) (1993), Iniciação à Museologia. Lisboa: Universidade Aberta.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pagamos com mérito as desigualdades: um documentário de Alex Gabby

O preço do que é justo, no original “The Price of Fairness”, é um documentário de Alex Gabby que nos faz pensar sobre a justiça e igualdade. O documentário começa por relatar diversas experiências da sociologia e psicologia comportamental sobre situações de tomada de decisão, que implicam questões de distribuição e justiça. Uma dessas experiências consistia em formar pares com pessoas de desempenho diferente num jogo em que individualmente cada participante tenha recebido dinheiro virtual em função da sua capacidade para resolver desafios e problemas matemáticos.  Depois propunham ao par que distribuísse os rendimentos somados de ambos, associados à soma da prestação individual de cada um deles. Constatou-se que os indivíduos que tinham melhores resultados eram menos propensos à partilha desses rendimentos de forma igualitária, enquanto os detentores de resultados próximos da média, mesmo que acima dela, mais facilmente abdicavam da sua parte correspondente de forma a permitirem que se fizesse uma distribuição igualitária dos ganhos, mesmo abdicando de uma parte do seu contributo. Comprova-se que há uma noção de competitividade, associada à meritocracia, que legitima a desigualdade. Curiosamente, uma vez que o público da experiência eram alunos do ensino superior norueguês, os alunos de gestão e economia revelaram ser os mais egoístas.


No documentário somos levados a concluir que a meritocracia é uma farsa, uma impossibilidade pois a bagagem e contexto em que crescemos são claramente promotores da desigualdade. O sucesso depende fortemente das “heranças”, em todas as suas dimensões (patrimonial, genética e de contexto), mas também muito da sorte. Mesmo que as crianças tenham uma noção de justiça quase desde a nascença os contextos sociais e familiares impedem a meritocracia. Essas constatações são apresentadas com base noutra experiência realizada nos EUA por investigadoras de psicologia de desenvolvimento apresentada no documentário.

Surgem então imensas questões que nos fazem colocar em causa grande parte das estruturas sociais, da forma como se constroem (ou como as construímos). Podem os pobres faze escolhas diferentes das que assumiram? Existem regras diferentes para os ricos e poderosos, mesmo nas democracias? Apesar de tudo quem produz e legitima leis e as regras que regem as sociedades não estará a reforçar as mesmas estruturas e hierarquias desde sempre? Poderemos mudar o sistema mesmo que seja controlado por poderes antigos?

O documentário levanta imensas questões, fala de muitos casos. Começa com abordagens académicas, da sociologia e psicologia comportamental. Passa pela referência à psicologia do desenvolvimento moral e avança para as teorias de desenvolvimento económico e social. Refere-se a muitos exemplos de muitas regiões e países contrastantes. Revela casos de tentativas de inovação, de escândalos que abalaram o mundo. Fala do caso surpreendente da Costa Rica, onde o PIB não é digno de destaque internacional mas o índice de desenvolvimento humano é bastante grande, significando que qualidade de vida não tem de significar riqueza no sentido da acumulação massiva de capital. Apresenta-se o Partido Pirata na Islândia como alternativa ao sistema político que pretende implementar um novo modelo de justiça e de democracia participativa, num país que expulsou do poder a classe política dominante e decidiu coletivamente não assumir na sua dívida público produtos de especulação financeira.
Fica a introdução.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Usar um livro era uma forma prática de afirmação religiosa?

Bíblia pode ser traduzido como “livros”, do plural grego de biblion que significava, comumente, rolo de papiro. Assim o termo Bíblia aponta para um conjunto de livros num sentido largo do termo, de tal forma que o livro sagrado do cristianismo foi considerado como: O Livro. Mas este domínio dos termos, em que um objete recebe o nome de todo um conjunto pode ter razão de ser histórica e religiosa. Gregos e Egípcios usavam rolos de papiros, e em certos casos pergaminhos em quantidades massivas, sendo o caso da biblioteca de Alexandria um caso paradigmático, onde, supostamente, existiam milhões de rolos de papiros em que se reunia todo o conhecimento de então. Ainda hoje os Judeus usam nos seus cerimoniais rolos de pergaminho onde se inscreve o Talmude e a Tora, sendo elementos sagrados e simbólicos dos réus rituais.

Natureza Morta com Bíblia - Van Gogh

Sabe-se hoje ser pouco provável que tenham sido os cristãos a inventar os códices, aquilo a que hoje chamamos livros, que são, no fundo, aglomerados de folhas com uma sequência que se pode folhear e ler sem desagregação, com capa e contracapa, ilustrados ou não.  Consta que já os romanos utilizavam aglomerados de folhas, em simultâneos com os cadernos de tabuinhas de cera onde escreviam com um objeto pontiagudo e apagavam raspando a cera. Provavelmente foram os egípcios de influência greco-latina, descendentes dos construtores da biblioteca de Alexandria, que começaram a utilizar aglomerados de folhas, formando os primeiros porto-códices. Podem também ter sido os romanos como já se disse, pois há alguns vestígios escritos disso. Não sabemos ao certo se era algo comum por todo o mundo mediterrânico. O que pode ter acontecido foi uma adoção dos códices pelos cristãos como forma prática e diferenciadora de reunirem os seus textos de forma organizada, portátil e fácil leitura. Seria um elemento que os diferenciava simbolicamente e formalmente. Há que lembrar que o cristianismo, quando nasceu, era uma inovação religiosa, social e cultural pelo que não será absurdo que tenham adotado essa inovação em oposição aos usos e práticas literárias das outras religiões e influências culturais.

Posteriormente os livros (codices) tiveram uma grande aceitação sob a influência da cultura islâmica e do ressurgimento cultural do império carolíngio, com as atividades literárias a serem fortemente incentivadas nos mosteiros. Nessa altura os livros já se assemelhavam muito ao que hoje conhecemos. Ainda hoje, apesar dos das alternativas digitais, os livros continuam a ser dominantes. Curiosamente, ou não, algumas formas de cristianismo continuam a assumir muito a sua relação com os livros, especialmente com a bíblia. Algumas fazem disso ainda uma imagem de marca, ao contraria da igreja católica que foi abandonando essa relação privilegiada com o livro.

Referências bibliográficas:

Diringer, David (2011). The Book Before Printing: Ancient, Medieval and Oriental (Lettering, Calligraphy, Typography). Dover Publications.

Roberts, Colin H. & Skeat, T. C. (1987). The Birth of the Codex. Oxford University Press.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Em que falharam as democracias segundo Bobbio?

Gianfranco Pasquino, no seu livro Curso de Ciência Política, cita Bobbio. Mas porquê abrir assim um texto? A resposta reside na importância e interesse do livro em causa e do autor citado. O livro de Pasquino é um dos poucos livros traduzidos para português de Portugal que permite servir de manual introdutório à ciência política, especialmente importante porque nas sociedades democráticas é suposto que todos os cidadãos participem nos processos políticos. Bobbio é um dos autores de referência sobre a teoria da democracia, apesar de ter falecido em 2004. Parece coisa comum e banal exercer e viver numa democracia, mas afinal quantos pensaram profundamente sobre a essência desta forma de governo? Bem, Norberto Bobbio pensou e escreveu. Pasquino tem o mérito de o citar e dar, através da tradução, aos leitores portugueses alguns dos seus ensinamentos. Pasquino é um os discípulos de Bobbio e é atualmente um dos principais autores da ciência política. Se fizerem uma pesquisa no Wook por Bobbio verificarão que nada existe disponível em português de Portugal. Não que tenha algum mal ler em português do Brasil, mas justificava-se haver mais acesso generalizado a este ator.

Visão depois do sermão - Gauguin

Feitas as apresentações podemos seguir para os conteúdos que queria aqui abordar. Pasquino refere que Bobbio defendia que a democracia não tinha conseguido cumprir as suas promessas. Aqui o termo promessas é curioso, porque ainda hoje há uma grande esperança que a democracia se possa reinventar e evoluir em benefício das sociedades humanas, especialmente porque não parecem haver alternativas radicalmente diferentes que possam ser benéficas. Assim, Bobbio dizia que a democracia foi incapaz de:
- Gerar uma sociedade de iguais sem corpos intermédios;
- Eliminar os interesses organizados e particulares que se opõem ao interesse comum e coletivo através do sistema representativo;
- Estender-se às empresas e aos aparelhos burocráticos, administrativos e militares dos Estados;
- Destruir os poderes invisíveis;
- Elevar o nível da educação política dos cidadãos.

Bobbio considerava que a democracia, como sistema político, tinha sido idealizada para sociedades muito menos complexas que aquelas onde hoje vivemos. Poderão os cidadãos estar plenamente informados sobre o sistema de governo das sociedades em que vivem? Será que querem e procuram esse conhecimento? Em liberdade podem simplesmente dedicar o seu tempo a outra coisa qualquer. Ainda assim Bobbio era otimista e considerava que as sociedades tenderiam para um aprofundamento da democracia.

As esperanças de Bobbio têm o efeito de nos deixar menos receosos perante o futuro. Mas estarão as sociedades informadas para o processo avançar? Será o ato de votar mais racional e os governantes mais capazes, tendendo todo o sistema representativo para mais qualidade? Havendo liberdade de escolha, será que os cidadãos irão canalizar o seu tempo e esforço para o seu aprofundamento como participantes dos processos democrático que Bobbio tanto desejava? Na atualidade, com tantas solicitações ao hedonismo e ao apolitismo, estará realmente a sociedade a pender para um maior aprofundamento democrático?

Podem muito bem-estar a ocorrer as previsões de Bobbio, trazidas por Pasquino. Nunca foi possível prever o futuro, há sempre algo que nos escapa e perante um assunto tão complexo não se esperam facilidade de compreensão e previsão. Podemos dizer que o fator liberdade e as novas formas de comunicação e deslocação, de tudo e de todos, estão a transformar muitas das estruturas sociais e assim os sistemas políticos. A liberdade de não querem participar nos modelos de representação democrática pode não ser o fim a democracia em si, mas apenas a degradação do atual sistema que caminha para outro. Democracias há muitas

Referências bibliográficas:

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sabia que é naturalmente racista mas depende de si não ser?

No documentário “É Racista?” de 2015 exibido pela RTP3, com o título original de “The Truth About Racism”, da autoria de Paul Scott, descreve-se uma experiência social com 5 voluntários. São 5 pessoas residentes na Austrália, todos de origens éticas e raciais diferentes. De notar que irei usar aqui o termo racial não por haver mais do que uma raça humana, mas para ajudar a reforçar as diferenças físicas que aqui são importantes para compreender os conteúdos. O documentário, tem uma clara mensagem política que tenta desmontar e explicar o racismo, é inegável que tem essa intenção pelo que se deve referi de antemão. Mas não o faz através de uma análise histórica da humanidade, dos episódios mais polémicos. Foca-se, em alternativa, na neurociência, na psicologia comportamental e efeitos sociológicos das dinâmicas de grupos.


O documentário relata a forma como os voluntários são submetidos a várias experiências que, gradualmente, vão demonstrando que, mesmo os que não se consideram racistas – pois no grupo está um militante de um movimento político que defende a supremacia racial branca – tendem a adotar comportamentos claramente racistas de forma inconsciente. Numa das experiências, os vários participantes foram submetidos a uma dinâmica que consistia em reconhecer caras que iam sendo mudadas em painéis numerados. Percebeu-se que conseguiam identificar mais facilmente as mudanças dentro do seu intra-grupo étnico e racial, que nos restantes. Por exemplo: quando um asiático era substituído por outro asiático, os não asiáticos tinham dificuldade em reconhecer a substituição.

Afinal todos reconhecemos mais facilmente as diferenças de rostos dentro da nossa etnia? Parece que sim. Sendo válido para todos os grupos. Consoante estamos a analisar uma face, se for do nosso grupo étnico e racial, a maioria de nós fixa mais os olhos e outras partes mais distintivas e expressivas da face. Isto leva a uma incapacidade de perceber e ler as emoções e estados de espírito que transparecem através das expressões faciais. Noutro exercício também se demonstrou que, dentro do nosso intra-grupo étnico e racial, sabemos ler mais facilmente a rapidamente a passagem de um estado alegre para triste e irado pelas expressões faciais.

Numa outra experiência, apenas olhando para fotografias de faces que representavam a zona dos olhos e envolvente, e às quais se associavam palavras que representavam emoções positivas e negativas, os participantes tendiam a atribuir as emoções mais negativas às etnias e raças que não a sua. Há que relembrar que apenas um dos voluntários se assumia como racista.

Foram feitas experiências com crianças que demonstraram comportamentos semelhantes, numa quase sempre preferência por leituras positivas de situações dúbias quando o interveniente era caucasiano do que quando se tratava de um africano. Isto ocorria mesmo quando as situações se invertiam, favorecendo sempre os caucasianos. Seguiu-se uma escolha de bonecas com traços étnicos distintos. As crianças escolhiam as que se pareciam consigo, mas quando foi na altura de adjetivar as bonecas de “boa” e “bonita” escolhiam maioritariamente a caucasiana, mesmo que não fosse o seu grupo étnico e racial. Aqui denota-se, provavelmente, um peso dos valores sociais incutidos pela própria sociedade.

No documentário são reveladas mais experiências que seguem a mesma tendência. Conclui-se que tendemos a não conseguir ler faces diferentes das nossas, e assim a sermos puco competentes na comunicação corporal com indivíduos diferentes de nós. Tendemos a desconfiar e temer o que é diferente e á não compreensão, sendo difícil estabelecer empatia. A melhor maneira para remover estas tendências que geram intolerância e falta de empatia passa pelo fortalecimento do convívio, da interação com base em sentimentos positivos. Quantas mais pessoas um determinado individuo conhecer de outra etnia e origem racial, associadas a boas experiências, diferente melhor poderá com eles lidar e tratar com igualdade, sem preconceitos. Por vezes não é preciso forçar experiências agradáveis, basta a abertura para conhecer os outros, as suas histórias. É um ensinamento e uma cultura humana relevante para o seculo XXI. Nas sociedades multiculturais, onde as pessoas de várias etnias e que apresentem traços corporais diferentes convivam em clima de paz social, dificilmente se irá instalar um comportamento racista, pois só assim conseguimos contrariar o modo como processamos informação sobre os outros. Se não tivermos consciência destas tendências e não promovermos a integração racial como forma de cultural irão sempre pairar estes preconceitos, que são tanto biológicos como fruto das construções sociais. Temos opção. A nossa realidade não precisa de ser racista. Em súmula é isso que este documentário transmite.

Para saber mais sobre este documentário: 
https://www.sbs.com.au/guide/article/2017/01/31/truth-about-racism-there-scientific-cure


terça-feira, 20 de março de 2018

Como os câmbios serviam para esconder o pecado de cobrar juros

O sistema bancário, como hoje o conhecemos, terá nascido da ação dos banqueiros das cidades-estado independentes italianas, dessa complexa rede de bancos, famílias e sucursais. Este sistema lidava com muitas moedas, dentro e fora do espaço da península itálica. A conversão do cambio, com as suas múltiplas taxas entre moedas, diferindo de local para local, era transposta para as letras de crédito. Já se recorria a papeis devidamente reconhecidos para transferi dinheiro entre instituições, credores e devedores – algo que os cavaleiros templários se tinham especializado antes de serem perseguidos.

A Calúnia de Apelles - Sandro_Botticelli

Mais que uma mera conversão de moedas, o câmbio era um modo evitar a sansão canónicas da Igreja católica – algo que não se podia ignorar. Para a igreja católica a usura era um pecado grave, atividade típica dos judeus e outros que se tornavam impuros por venderem dinheiro aos olhos da doutrina dominante. O câmbio e o recâmbio camuflavam no os empréstimos e respetivas taxas de juro cobradas. Os fluxos complexos que os capitais assumiam, com contínuos câmbios e recâmbios entre várias sucursais, com alguns testa-de-ferro no meio do processo faziam perder o rasto para uma análise quanto ao pecado da usura [1].

No entanto este método implicava imensos riscos, pois dependia do valor espectável de cada moeda no futuro, sendo altamente arriscado efetuar estes câmbios e recâmbios com moedas instáveis para ocultar juros de empréstimo a longo prazo. Os principais bancos tentavam colocar representantes e abrir sucursais nas principais praças para estarem perto dos mercados e dos decisores políticos, de modo a poderem influenciar decisões e atividades que fizessem variar a economia e tesouros que se relacionava com cada moeda. A circulação de informação era constante, para que se pudesse mitigar riscos e tomar medidas e ações políticas e económicas em tempo útil. Não é por isso de estranhar que os Medicis, principais banqueiros de Florença, depois de toda a Itália e da Europa tenham conjugado o poder económico com o poder político, especialmente depois de se transformarem na agência bancária do Papa. Acediam assim também facilmente a toda a europa, no sistema paralelo de propriedades e tesouro da Igreja. Um sistema que se sobrepunha e cruzava com a rede de cidades-estado, bancos, instituições, redes de comércio, reinos impérios do mercado europeu medieval, quase sempre bastante atomizado até ao início da Idade Moderna.

Posteriormente, com o movimento protestante fortemente influenciador no centro e norte da europa, a prosperidade financeira deixou de carregar uma conotação negativa. Prosperar economicamente para os protestantes passou a ser um ato digno de um bom cristão, mesmo que fosse a operar nos mercados financeiros, desde que de forma legitima. Terá sido esta mudança a inspirar Max Weber e a sua obra, em que desenvolveu a teoria da relação do protestantismo com o espírito do capitalismo [2]. O que não impede que o capitalismo, pelo menos numa forma precoce, tenha começado em Itália ainda na Idade Média e sob domínio religioso católico.

Assim, a complexidade do sistema bancário e financeiro vem de há muito tempo. A relação entre economia, política e religião também.

Referências bibliográficas:

[1] Delumeau, Jean (2007). A Civilização do Renascimento. Edições 70.

[2] Weber, Max (2015). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Editorial Presença.

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