sexta-feira, 18 de maio de 2018

Qual foi o primeiro Museu de Portugal?

Hoje celebra-se o dia internacional dos museus. Mas o que é um museu? Seria a casa das musas, aquele local onde todas as artes se juntavam e inspiravam a humanidade. Hoje existe museus para todos os gostos, de todos os tipos, recorrendo a inúmeras técnicas de museologia, exibindo as suas museografias direta e indiretamente. Alguns nem edifícios têm, nem peças dignas de serem apreciadas como tesouros.

Paço Real da Ajuda (em madeira)

Mas quais são os museus mais antigos de Portugal? Onde começaram as práticas museológicas?

Podemos começar pelos museus, ou proto museus, de influência iluminista e enciclopédica típicos do século XVIII. Mas podemos ir um pouco mais atrás, aos gabinetes de curiosidades e tesouros. Paulo Oliveira Ramos (1993) sugere a importância da coleção de antiguidades de: D. Afonso, 1.º Duque de Bragança (1377-1461); do 1.º Marquês de Valença (?-1460), filho do 1.º Duque de Bragança, composta por peças de arte e arqueologia; André de Resende (1500-1573), que recolheu cipos e lápides com inscrições romanas, árabes e hebraicas; padre Manuel Severim de Faria (1582?-1655), que continha um grande conjunto de vasos e outros artefactos romanos.

Podemos considerar que o primeiro museu português foi o Real Museu da Ajuda, criação do Marquês e Pombal para D. José I (1761-1788). Nesta altura esse museu ainda se revestia de um cariz privado, que servia tanto como prestígio para o rei detentor da coleção como tinha intenções formativas e educativas para o rei e a corte. Não esquecer que se vivia a era do iluminismo, e que a influência do Marquês de Pombal era forte em todos os domínios da vida política portuguesa. Este museu é também simbólico dessa intenção modernizadora de Portugal e do acompanhamento dos ideais filosóficos do iluminismo.

Referências bibliográficas:
Ramos, Paulo Oliveira (1993). Breve História do Museu em Portugal. In Trindade-Rocha (coord.) (1993), Iniciação à Museologia. Lisboa: Universidade Aberta.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Pagamos com mérito as desigualdades: um documentário de Alex Gabby

O preço do que é justo, no original “The Price of Fairness”, é um documentário de Alex Gabby que nos faz pensar sobre a justiça e igualdade. O documentário começa por relatar diversas experiências da sociologia e psicologia comportamental sobre situações de tomada de decisão, que implicam questões de distribuição e justiça. Uma dessas experiências consistia em formar pares com pessoas de desempenho diferente num jogo em que individualmente cada participante tenha recebido dinheiro virtual em função da sua capacidade para resolver desafios e problemas matemáticos.  Depois propunham ao par que distribuísse os rendimentos somados de ambos, associados à soma da prestação individual de cada um deles. Constatou-se que os indivíduos que tinham melhores resultados eram menos propensos à partilha desses rendimentos de forma igualitária, enquanto os detentores de resultados próximos da média, mesmo que acima dela, mais facilmente abdicavam da sua parte correspondente de forma a permitirem que se fizesse uma distribuição igualitária dos ganhos, mesmo abdicando de uma parte do seu contributo. Comprova-se que há uma noção de competitividade, associada à meritocracia, que legitima a desigualdade. Curiosamente, uma vez que o público da experiência eram alunos do ensino superior norueguês, os alunos de gestão e economia revelaram ser os mais egoístas.


No documentário somos levados a concluir que a meritocracia é uma farsa, uma impossibilidade pois a bagagem e contexto em que crescemos são claramente promotores da desigualdade. O sucesso depende fortemente das “heranças”, em todas as suas dimensões (patrimonial, genética e de contexto), mas também muito da sorte. Mesmo que as crianças tenham uma noção de justiça quase desde a nascença os contextos sociais e familiares impedem a meritocracia. Essas constatações são apresentadas com base noutra experiência realizada nos EUA por investigadoras de psicologia de desenvolvimento apresentada no documentário.

Surgem então imensas questões que nos fazem colocar em causa grande parte das estruturas sociais, da forma como se constroem (ou como as construímos). Podem os pobres faze escolhas diferentes das que assumiram? Existem regras diferentes para os ricos e poderosos, mesmo nas democracias? Apesar de tudo quem produz e legitima leis e as regras que regem as sociedades não estará a reforçar as mesmas estruturas e hierarquias desde sempre? Poderemos mudar o sistema mesmo que seja controlado por poderes antigos?

O documentário levanta imensas questões, fala de muitos casos. Começa com abordagens académicas, da sociologia e psicologia comportamental. Passa pela referência à psicologia do desenvolvimento moral e avança para as teorias de desenvolvimento económico e social. Refere-se a muitos exemplos de muitas regiões e países contrastantes. Revela casos de tentativas de inovação, de escândalos que abalaram o mundo. Fala do caso surpreendente da Costa Rica, onde o PIB não é digno de destaque internacional mas o índice de desenvolvimento humano é bastante grande, significando que qualidade de vida não tem de significar riqueza no sentido da acumulação massiva de capital. Apresenta-se o Partido Pirata na Islândia como alternativa ao sistema político que pretende implementar um novo modelo de justiça e de democracia participativa, num país que expulsou do poder a classe política dominante e decidiu coletivamente não assumir na sua dívida público produtos de especulação financeira.
Fica a introdução.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Usar um livro era uma forma prática de afirmação religiosa?

Bíblia pode ser traduzido como “livros”, do plural grego de biblion que significava, comumente, rolo de papiro. Assim o termo Bíblia aponta para um conjunto de livros num sentido largo do termo, de tal forma que o livro sagrado do cristianismo foi considerado como: O Livro. Mas este domínio dos termos, em que um objete recebe o nome de todo um conjunto pode ter razão de ser histórica e religiosa. Gregos e Egípcios usavam rolos de papiros, e em certos casos pergaminhos em quantidades massivas, sendo o caso da biblioteca de Alexandria um caso paradigmático, onde, supostamente, existiam milhões de rolos de papiros em que se reunia todo o conhecimento de então. Ainda hoje os Judeus usam nos seus cerimoniais rolos de pergaminho onde se inscreve o Talmude e a Tora, sendo elementos sagrados e simbólicos dos réus rituais.

Natureza Morta com Bíblia - Van Gogh

Sabe-se hoje ser pouco provável que tenham sido os cristãos a inventar os códices, aquilo a que hoje chamamos livros, que são, no fundo, aglomerados de folhas com uma sequência que se pode folhear e ler sem desagregação, com capa e contracapa, ilustrados ou não.  Consta que já os romanos utilizavam aglomerados de folhas, em simultâneos com os cadernos de tabuinhas de cera onde escreviam com um objeto pontiagudo e apagavam raspando a cera. Provavelmente foram os egípcios de influência greco-latina, descendentes dos construtores da biblioteca de Alexandria, que começaram a utilizar aglomerados de folhas, formando os primeiros porto-códices. Podem também ter sido os romanos como já se disse, pois há alguns vestígios escritos disso. Não sabemos ao certo se era algo comum por todo o mundo mediterrânico. O que pode ter acontecido foi uma adoção dos códices pelos cristãos como forma prática e diferenciadora de reunirem os seus textos de forma organizada, portátil e fácil leitura. Seria um elemento que os diferenciava simbolicamente e formalmente. Há que lembrar que o cristianismo, quando nasceu, era uma inovação religiosa, social e cultural pelo que não será absurdo que tenham adotado essa inovação em oposição aos usos e práticas literárias das outras religiões e influências culturais.

Posteriormente os livros (codices) tiveram uma grande aceitação sob a influência da cultura islâmica e do ressurgimento cultural do império carolíngio, com as atividades literárias a serem fortemente incentivadas nos mosteiros. Nessa altura os livros já se assemelhavam muito ao que hoje conhecemos. Ainda hoje, apesar dos das alternativas digitais, os livros continuam a ser dominantes. Curiosamente, ou não, algumas formas de cristianismo continuam a assumir muito a sua relação com os livros, especialmente com a bíblia. Algumas fazem disso ainda uma imagem de marca, ao contraria da igreja católica que foi abandonando essa relação privilegiada com o livro.

Referências bibliográficas:

Diringer, David (2011). The Book Before Printing: Ancient, Medieval and Oriental (Lettering, Calligraphy, Typography). Dover Publications.

Roberts, Colin H. & Skeat, T. C. (1987). The Birth of the Codex. Oxford University Press.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Em que falharam as democracias segundo Bobbio?

Gianfranco Pasquino, no seu livro Curso de Ciência Política, cita Bobbio. Mas porquê abrir assim um texto? A resposta reside na importância e interesse do livro em causa e do autor citado. O livro de Pasquino é um dos poucos livros traduzidos para português de Portugal que permite servir de manual introdutório à ciência política, especialmente importante porque nas sociedades democráticas é suposto que todos os cidadãos participem nos processos políticos. Bobbio é um dos autores de referência sobre a teoria da democracia, apesar de ter falecido em 2004. Parece coisa comum e banal exercer e viver numa democracia, mas afinal quantos pensaram profundamente sobre a essência desta forma de governo? Bem, Norberto Bobbio pensou e escreveu. Pasquino tem o mérito de o citar e dar, através da tradução, aos leitores portugueses alguns dos seus ensinamentos. Pasquino é um os discípulos de Bobbio e é atualmente um dos principais autores da ciência política. Se fizerem uma pesquisa no Wook por Bobbio verificarão que nada existe disponível em português de Portugal. Não que tenha algum mal ler em português do Brasil, mas justificava-se haver mais acesso generalizado a este ator.

Visão depois do sermão - Gauguin

Feitas as apresentações podemos seguir para os conteúdos que queria aqui abordar. Pasquino refere que Bobbio defendia que a democracia não tinha conseguido cumprir as suas promessas. Aqui o termo promessas é curioso, porque ainda hoje há uma grande esperança que a democracia se possa reinventar e evoluir em benefício das sociedades humanas, especialmente porque não parecem haver alternativas radicalmente diferentes que possam ser benéficas. Assim, Bobbio dizia que a democracia foi incapaz de:
- Gerar uma sociedade de iguais sem corpos intermédios;
- Eliminar os interesses organizados e particulares que se opõem ao interesse comum e coletivo através do sistema representativo;
- Estender-se às empresas e aos aparelhos burocráticos, administrativos e militares dos Estados;
- Destruir os poderes invisíveis;
- Elevar o nível da educação política dos cidadãos.

Bobbio considerava que a democracia, como sistema político, tinha sido idealizada para sociedades muito menos complexas que aquelas onde hoje vivemos. Poderão os cidadãos estar plenamente informados sobre o sistema de governo das sociedades em que vivem? Será que querem e procuram esse conhecimento? Em liberdade podem simplesmente dedicar o seu tempo a outra coisa qualquer. Ainda assim Bobbio era otimista e considerava que as sociedades tenderiam para um aprofundamento da democracia.

As esperanças de Bobbio têm o efeito de nos deixar menos receosos perante o futuro. Mas estarão as sociedades informadas para o processo avançar? Será o ato de votar mais racional e os governantes mais capazes, tendendo todo o sistema representativo para mais qualidade? Havendo liberdade de escolha, será que os cidadãos irão canalizar o seu tempo e esforço para o seu aprofundamento como participantes dos processos democrático que Bobbio tanto desejava? Na atualidade, com tantas solicitações ao hedonismo e ao apolitismo, estará realmente a sociedade a pender para um maior aprofundamento democrático?

Podem muito bem-estar a ocorrer as previsões de Bobbio, trazidas por Pasquino. Nunca foi possível prever o futuro, há sempre algo que nos escapa e perante um assunto tão complexo não se esperam facilidade de compreensão e previsão. Podemos dizer que o fator liberdade e as novas formas de comunicação e deslocação, de tudo e de todos, estão a transformar muitas das estruturas sociais e assim os sistemas políticos. A liberdade de não querem participar nos modelos de representação democrática pode não ser o fim a democracia em si, mas apenas a degradação do atual sistema que caminha para outro. Democracias há muitas

Referências bibliográficas:

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sabia que é naturalmente racista mas depende de si não ser?

No documentário “É Racista?” de 2015 exibido pela RTP3, com o título original de “The Truth About Racism”, da autoria de Paul Scott, descreve-se uma experiência social com 5 voluntários. São 5 pessoas residentes na Austrália, todos de origens éticas e raciais diferentes. De notar que irei usar aqui o termo racial não por haver mais do que uma raça humana, mas para ajudar a reforçar as diferenças físicas que aqui são importantes para compreender os conteúdos. O documentário, tem uma clara mensagem política que tenta desmontar e explicar o racismo, é inegável que tem essa intenção pelo que se deve referi de antemão. Mas não o faz através de uma análise histórica da humanidade, dos episódios mais polémicos. Foca-se, em alternativa, na neurociência, na psicologia comportamental e efeitos sociológicos das dinâmicas de grupos.


O documentário relata a forma como os voluntários são submetidos a várias experiências que, gradualmente, vão demonstrando que, mesmo os que não se consideram racistas – pois no grupo está um militante de um movimento político que defende a supremacia racial branca – tendem a adotar comportamentos claramente racistas de forma inconsciente. Numa das experiências, os vários participantes foram submetidos a uma dinâmica que consistia em reconhecer caras que iam sendo mudadas em painéis numerados. Percebeu-se que conseguiam identificar mais facilmente as mudanças dentro do seu intra-grupo étnico e racial, que nos restantes. Por exemplo: quando um asiático era substituído por outro asiático, os não asiáticos tinham dificuldade em reconhecer a substituição.

Afinal todos reconhecemos mais facilmente as diferenças de rostos dentro da nossa etnia? Parece que sim. Sendo válido para todos os grupos. Consoante estamos a analisar uma face, se for do nosso grupo étnico e racial, a maioria de nós fixa mais os olhos e outras partes mais distintivas e expressivas da face. Isto leva a uma incapacidade de perceber e ler as emoções e estados de espírito que transparecem através das expressões faciais. Noutro exercício também se demonstrou que, dentro do nosso intra-grupo étnico e racial, sabemos ler mais facilmente a rapidamente a passagem de um estado alegre para triste e irado pelas expressões faciais.

Numa outra experiência, apenas olhando para fotografias de faces que representavam a zona dos olhos e envolvente, e às quais se associavam palavras que representavam emoções positivas e negativas, os participantes tendiam a atribuir as emoções mais negativas às etnias e raças que não a sua. Há que relembrar que apenas um dos voluntários se assumia como racista.

Foram feitas experiências com crianças que demonstraram comportamentos semelhantes, numa quase sempre preferência por leituras positivas de situações dúbias quando o interveniente era caucasiano do que quando se tratava de um africano. Isto ocorria mesmo quando as situações se invertiam, favorecendo sempre os caucasianos. Seguiu-se uma escolha de bonecas com traços étnicos distintos. As crianças escolhiam as que se pareciam consigo, mas quando foi na altura de adjetivar as bonecas de “boa” e “bonita” escolhiam maioritariamente a caucasiana, mesmo que não fosse o seu grupo étnico e racial. Aqui denota-se, provavelmente, um peso dos valores sociais incutidos pela própria sociedade.

No documentário são reveladas mais experiências que seguem a mesma tendência. Conclui-se que tendemos a não conseguir ler faces diferentes das nossas, e assim a sermos puco competentes na comunicação corporal com indivíduos diferentes de nós. Tendemos a desconfiar e temer o que é diferente e á não compreensão, sendo difícil estabelecer empatia. A melhor maneira para remover estas tendências que geram intolerância e falta de empatia passa pelo fortalecimento do convívio, da interação com base em sentimentos positivos. Quantas mais pessoas um determinado individuo conhecer de outra etnia e origem racial, associadas a boas experiências, diferente melhor poderá com eles lidar e tratar com igualdade, sem preconceitos. Por vezes não é preciso forçar experiências agradáveis, basta a abertura para conhecer os outros, as suas histórias. É um ensinamento e uma cultura humana relevante para o seculo XXI. Nas sociedades multiculturais, onde as pessoas de várias etnias e que apresentem traços corporais diferentes convivam em clima de paz social, dificilmente se irá instalar um comportamento racista, pois só assim conseguimos contrariar o modo como processamos informação sobre os outros. Se não tivermos consciência destas tendências e não promovermos a integração racial como forma de cultural irão sempre pairar estes preconceitos, que são tanto biológicos como fruto das construções sociais. Temos opção. A nossa realidade não precisa de ser racista. Em súmula é isso que este documentário transmite.

Para saber mais sobre este documentário: 
https://www.sbs.com.au/guide/article/2017/01/31/truth-about-racism-there-scientific-cure


terça-feira, 20 de março de 2018

Como os câmbios serviam para esconder o pecado de cobrar juros

O sistema bancário, como hoje o conhecemos, terá nascido da ação dos banqueiros das cidades-estado independentes italianas, dessa complexa rede de bancos, famílias e sucursais. Este sistema lidava com muitas moedas, dentro e fora do espaço da península itálica. A conversão do cambio, com as suas múltiplas taxas entre moedas, diferindo de local para local, era transposta para as letras de crédito. Já se recorria a papeis devidamente reconhecidos para transferi dinheiro entre instituições, credores e devedores – algo que os cavaleiros templários se tinham especializado antes de serem perseguidos.

A Calúnia de Apelles - Sandro_Botticelli

Mais que uma mera conversão de moedas, o câmbio era um modo evitar a sansão canónicas da Igreja católica – algo que não se podia ignorar. Para a igreja católica a usura era um pecado grave, atividade típica dos judeus e outros que se tornavam impuros por venderem dinheiro aos olhos da doutrina dominante. O câmbio e o recâmbio camuflavam no os empréstimos e respetivas taxas de juro cobradas. Os fluxos complexos que os capitais assumiam, com contínuos câmbios e recâmbios entre várias sucursais, com alguns testa-de-ferro no meio do processo faziam perder o rasto para uma análise quanto ao pecado da usura [1].

No entanto este método implicava imensos riscos, pois dependia do valor espectável de cada moeda no futuro, sendo altamente arriscado efetuar estes câmbios e recâmbios com moedas instáveis para ocultar juros de empréstimo a longo prazo. Os principais bancos tentavam colocar representantes e abrir sucursais nas principais praças para estarem perto dos mercados e dos decisores políticos, de modo a poderem influenciar decisões e atividades que fizessem variar a economia e tesouros que se relacionava com cada moeda. A circulação de informação era constante, para que se pudesse mitigar riscos e tomar medidas e ações políticas e económicas em tempo útil. Não é por isso de estranhar que os Medicis, principais banqueiros de Florença, depois de toda a Itália e da Europa tenham conjugado o poder económico com o poder político, especialmente depois de se transformarem na agência bancária do Papa. Acediam assim também facilmente a toda a europa, no sistema paralelo de propriedades e tesouro da Igreja. Um sistema que se sobrepunha e cruzava com a rede de cidades-estado, bancos, instituições, redes de comércio, reinos impérios do mercado europeu medieval, quase sempre bastante atomizado até ao início da Idade Moderna.

Posteriormente, com o movimento protestante fortemente influenciador no centro e norte da europa, a prosperidade financeira deixou de carregar uma conotação negativa. Prosperar economicamente para os protestantes passou a ser um ato digno de um bom cristão, mesmo que fosse a operar nos mercados financeiros, desde que de forma legitima. Terá sido esta mudança a inspirar Max Weber e a sua obra, em que desenvolveu a teoria da relação do protestantismo com o espírito do capitalismo [2]. O que não impede que o capitalismo, pelo menos numa forma precoce, tenha começado em Itália ainda na Idade Média e sob domínio religioso católico.

Assim, a complexidade do sistema bancário e financeiro vem de há muito tempo. A relação entre economia, política e religião também.

Referências bibliográficas:

[1] Delumeau, Jean (2007). A Civilização do Renascimento. Edições 70.

[2] Weber, Max (2015). A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Editorial Presença.

terça-feira, 13 de março de 2018

Ser de Direita ou de Esquerda dependeu da forma de sentar

Pensando nos textos aqui no blogue sobre política, foram sendo abordadas as diferenças entre esquerda e direita por diversas vezes, mas nunca de uma forma em que isso constituísse o tema principal de um texto. Chegou então a hora de fazer esse texto, muito por causa de um livro da autora de Diogo Freitas do Amaral que recentemente li. No seu livro, “Uma Introdução à Política”, o conhecido político e professor universitário, resume, de forma simples a génese dessa distinção [1].
A diferença entre esquerda e direita surgiu da Revolução Francesa, mais concretamente dos Estados Gerais, que foram as assembleias representativas da população francesa que quebraram com décadas de absolutismos, justificadas pelas crises financeiras do Estado francês e domínio filosófico do iluminismo entre as elites intelectuais. Os Estados Gerais desempenharam um importante papel na fase inicial do processo revolucionário. Os Estados Gerais iriam transforma-se em Assembleia Nacional [2].

Abertura dos Estados Gerais em Versalhes - Auguste Couder

Os termos distintivos surgiram por razões de posicionamento na assembleia. Observando pelos olhos do presidente da assembleia, os que se sentavam à sua direita ficaram apelidados de partidários de direita e os restantes de esquerda. Mas esta forma de sentar, segundo Diogo Freitas do Amaral, não surgiu do acaso. Essa disposição foi influenciada pela tradição greco-romana e cristã de que “os melhores ou mais qualificados se sentavam à direita do magistrado ou de Deus, ao passo que os piores ou menos qualificados estavam do lado esquerdo”. O autor refere também a origem latina da palavra esquerda, que, ainda hoje em italiano, se diz “sinistra”.  Também em português antigo “filho da mão esquerda” significava filho ilegítimo [1].

Resumidamente, as classes privilegiadas que pretendiam conservar os seus privilégios, passaram a ser apelidados de partidários de Direita, ou conservadores. Os que queriam conquistar mais direitos e melhorar a sua condição económica e social, passaram a constituir os partidários de esquerda. De notar que o autor deixa transparecer aqui a sua opinião, referindo que no primeiro caso a designação foi pejorativa enquanto que na segunda foi elogiosa [1].

Para Diogo Freitas do Amaral, foi somente no século XX, com a modernidade das ideologias extremistas, do comunismo e do fascismo, que se separaram as esquerdas e as direitas entre moderados e extremistas. No entanto, os extremismos políticos são mais antigos, sugiram na própria revolução francesa, sendo famoso o caso dos jacobinos. Posteriormente FORAM VÁRIOS os episódios políticos desencadeados pelos defensores do retorno do absolutismo monárquico, tal como dos anarquistas entre os vários movimentos socialistas e libertários [3]. Seja como for, o objetivo do livro é uma introdução, pelo que se trata de uma simplificação perfeitamente adequada.

Assim, da próxima vez em que se sentarem numa assembleia pensem bem em que ala querem ser vistos.

Referências bibliográficas:
[1] Amaral, Diogo Freitas do (2014). Uma Introdução à Política. Lisboa: Bertrand.
[2] Vovelle, Michel (2007). A revolução Francesa 1789-1799. Lisboa: Edições 70.
[3] Fernandes, António José (2008). Introdução à Ciência Política: teorias, métodos e temáticas. Porto: Porto Editora.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Estamos prontos para implementar o planeamento colaborativo?

Se o planeamento assistido se relacionada com o contexto da pós-modernidade o planeamento colaborativo parece ter uma relação ainda maior com as mudanças sociais das últimas décadas, resultando da necessidade emergente de poder planear para o futuro num ambiente de crescente incerteza e complexidade, enquanto se tenta aprofundar os valores da liberdade e da democracia participativa. A incerteza dificulta fortemente o ato de planear, especialmente quando as mudanças são súbitas e cada indivíduo tende a atuar isoladamente e num contexto de liberdade que incentiva ao individualismo, em paralelo com o consumismo, num mundo globalizado. Essa é a realidade que os planeadores têm de enfrentar na atualidade.

Discutindo a divida comédia com Dante - Dai Dudu, Li Tiezi & Zhang Na

Segundo as visões filosóficas do pós-modernismo não existe conhecimento objetivo em forma alguma. Todo o conhecimento é assim relativo. A tendência será crescente na medida em que as sociedades se tornam cada vez mais plurais e fragmentadas. Jurgen Habermas, através da teoria da ação comunicativa, herdeira do pensamento da nova teoria crítica da escola de Frankfurt, refere que é possível, apesar de todas as diversidades e fragmentação, encontrar pontos comuns de cooperação entre diferentes grupos sociais. A crescente diversidade das sociedades contemporâneas obriga a que se procurem esses pontos de contacto passíveis de gerarem cooperação.

A cooperação, segundo Habermas, só pode ocorrer através da capacidade comunicativa racional, ou racionalidade comunicativa, garantindo-se: a verdade das proposições externas; direito e legitimidade de estabelecer relações entre indivíduos; compreensão da linguagem utilizada; interação livre de dominação e manipulação; interação livre de intenções estratégicas próprias dos atores envolvidos; garantia da igualdade argumentativa dos atores participantes nos processos; ausência de restrições à participação, e; que a única autoridade seja um bom argumento. A implementação destes princípios é de dificil concretização e não existem casos em que tenha sido tentada em larga escala, sendo um paradigma em competição com tantos outros, onde se destaca a democracia legalista e representativa que domina o espetro político. Na comunicação racional aplicada ao planeamento colaborativo, segundo a visão de Habermas, será necessário que os cidadãos participem em nome individual, sem que sejam representantes de outros ou de instituições, sendo a pertença e participação aberta a todos em igualdade de importância. Apesar dessa abertura importa garantir foco, assegurar que as dinâmicas colaborativas devem ser orientadas para a resolução de problemas concretos.

Estes princípios de abertura dos processos de planeamento conflituam com a noção de que os planeadores detêm uma formação em disciplinas que lhes dão acesso ao conhecimento científico e técnico privilegiado, superior a outras formas de conhecimento, de isso os preparar para a realização dos planos e de que mais ninguém poderá participar neles. Mas o conhecimento racional baseia-se em eventos passados, enquanto que os planeadores têm de projetar o futuro. Os modelos científicos são apenas simplificações da realidade. Existe um efeito inevitável da crença e da ideologia na escolha das diferentes teorias e metodologias de planeamento a aplicar aos casos concretos da realidade. Na prática, os planeadores enfrentam problemas ambíguos e mal definidos, onde a informação é incompleta sobre os contextos dos problemas e da panóplia de alternativas passíveis de aplicar para os resolver. Estão também condicionados pela dificuldade em reconhecerem os seus próprios valores, influências, interesses e alcance, mas também dos demais atores envolvidos nos processos de planeamento. Por fim, são restringidos pela escassez de recursos e conhecimentos.

Nas sociedades contemporâneas o poder não está igualmente distribuído. Os poderes instituídos, as organizações e estruturas sociais vão determinar quem fala mais, mais alto quem é escutado e com mais atenção. Devido a distorções de comunicação, os cidadãos podem ser facilmente enganados e excluídos dos seus direitos cívicos democráticos. Pode ocorrer a tendência para a despolitização e exclusão dos processos cívicos participativos por parte dos cidadãos. Os planeadores podem contribuir para estes efeitos de exclusão cívica, favorecendo e legitimando outros poderes.

Para que se possa implementar o planeamento colaborativo será necessário: cultivar uma rede de contactos e ligações comunitárias; ouvir atentamente; integrar nos processos de planeamento interesses menos organizados; educar os cidadãos, planeadores e as organizações comunitárias para a participação e trabalho em grupo; prestar e disponibilizar informações técnicas e políticas; encorajar a formação de grupos de pressão baseados na comunidade; encorajar revisões de projetos independentes e com base nas necessidades da comunidade local, e; antecipar a pressão política e social. Para além disto é necessário planear os próprios processos e dinâmicas de planeamento colaborativo. Será necessário identificar onde vão decorrer as discussões e quais os locais mais adequados para desenvolver os processos de produção colaborativa, tal como definir o estilo de comunicação, os assuntos a abordar e de como podem surgir as interações. Por fim, importa perceber como pode a comunidade chegar a acordo sobre o seu plano.

Estes novos processo de planeamento colaborativo podem recorrer a múltiplas formas de apresentação e técnicas de análise, adaptadas a cada contexto, realidade e comunidade, tentando almejar outros níveis mais eficazes e adaptados de comunicação e compreensão mutua, que envolvam todos. Pretende-se facilitar a discussão proveitosa, racional onde se formulam claramente os problemas e identificam os conflitos. Os interesses não devem ser fixos pois faz parte do processo interativo de aprendizagem mútua a possibilidade de mudar e alterar prioridades. Deste modo é possível desafiar ou apoiar o poder instituído de forma fundamentada. O objetivo é chegar a novos consensos que se espera serem suficientes para que os planos possam posteriormente ser implementados sem repulsas gerais. Mas, tal como ocorre no conceito de democracia participativa, há que ter a noção de que os cidadãos dificilmente estarão sempre disponíveis e interessados em participar em todos os assuntos da comunidade, o que tem gerado a noção de que os processos representativos são os modos mais realistas de planear.

Referências bibliográficas:

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Como os Webinars podem poupar recursos às organizações

Um Webinar é um conceito muito em voga atualmente. A palavra resulta da contração dos termos "Web-based-seminar", que é como quem diz em português: seminário baseado na rede (internet). A designação do termo não podia ser mais explicita. Trata-se de uma ferramenta informática que usa equipamentos multimédia, vídeo, áudio e outros de transmissão de conteúdos digitais para fazer reuniões e seminários. Os participantes ligam-se ao evento, ao webinar em causa, através do seu computador e de um software próprio que pode ser feito também através de páginas online. Nos webinars tende a haver uma moderação, tal como num evento presencial, que vai marcando a ordem de trabalhos, dando a palavra – que neste caso é o ecrã e todos os outputs multimédia que chegam aos recetores. Os oradores têm possibilidade de comunicar por voz, por vídeo e partilhar as apresentações tal como se fosse uma exibição normal de um powerpoint. Os recetores podem conversar entre si, incluindo os oradores e moderadores, através de chat, sem interromper a comunicação principal, tal como solicitar a possibilidade de intervir por áudio ou vídeo.

Reunião das expressões das 35 cabeças - Honore Daumier
Este sistema está vulgarizado em diversos setores de atividade, havendo múltiplos softwares, aplicações e paginas online que permitem, gratuitamente ou pagando por um serviço mais personalizado, fazer este tipo de reuniões e seminários. Trata-se de um meio eficaz de poupar recursos de deslocações e de comunicar rapidamente, em tempo real, bastando um equipamento digital, computador, tablet ou smartphone com ligação à internet para poder utilizar esta ferramenta poderosa. O formato webinar, dependendo do software utilizado, permite guardar registos de uma forma natural, sempre uteis para posterior trabalho e desenvolvimento dos projetos, sem que sejam necessárias elaborar atas profundamente descritivas. Até o papel se pode dispensar.

Podemos sempre dizer que se perde o contacto humano com os Webinars e outros sistemas de interação à distância. É um facto. Mas quando se trata de produzir de modo eficaz e com poucos custos esta é uma opção a ter em conta, cada vez mais. Em muitas organizações e projetos opta-se pelo mix, de comunicação presencial e à distância para aproveitar o melhor dos dois mundos.

Este sistema (ou sistemas) de webinars tem sido muito utilizado no projeto Urbanwins, uma vez que que são múltiplas as reuniões entre participantes que se encontram geograficamente muito distantes. Sendo um projeto que visa a sustentabilidade ambiental, através do estudo do metabolismo urbano associado principalmente aos resíduos urbanos, é notória a intenção de reduzir impactes ambientais, ao mesmo tempo que se garante um meio eficaz de comunicação, que atende às tendências contemporâneas de funcionamento em rede.

Nota: aqui ficam algumas referências de softwares de webinars que podem experimentar:
https://www.capterra.com/webinar-software/
https://zapier.com/blog/best-webinar-software/
https://www.growthmarketingpro.com/best-webinar-software/
https://www.earningguys.com/hosting/best-webinar-software/
https://www.softwarefindr.com/best/webinar-software/
https://www.eztalks.com/webinars/best-webinar-software-comparison.html

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Namoro em Portugal durante a Ditadura do Estado Novo

Nos anos 50 Portugal vivia em ditadura de cariz conservador, em que os padrões morais eram assumidos diretamente pelas forças sociais dominantes e pelo próprio Estado, de mão dada com a Igreja Católica.

Para o estudo da melancolia em Portugal - Nikias Skapinakis

Sobre os relacionamentos amorosos caia um profundo peso moralista, que tentava asfixiar demonstrações públicas de carinho, mesmo entre os casais casados e moralmente enquadrados na doutrina católica vigente. Os namoros eram encenações que tendiam à encenação social e a uma certa dose de hipocrisia, própria das normas sociais vigentes. A homossexualidade nem sequer era considerada por ser um tabu.

As raparigas eram vistas como as principais culpadas dos atrevimentos dos rapazes, tal como demonstra do texto de 1958 de Maria Franco na revista Menina & Moça (M&M), uma publicação da Mocidade Portuguesa Feminina. Defendia-se que as raparigas deveriam ser as guardiãs da moral e dos bons costumes. Se demonstrassem esse tipo de comportamento e conduta, segundo os valores da época, poderiam então aceder ao topo do seu papel social: serem as donas de casa, defensoras da harmonia do lar. Alertavam-se as raparigas de que os rapazes gostavam de diversão, mas que só casavam com raparigas moralmente intactas. Ou seja, virgens e sem experiências relacionais. Isto colocava um peso enorme sobre os impulsos amorosos e criava uma poderosa da repressão da sexualidade, uma vez que era o próprio ditador, Oliveira Salazar, quem reservava e defendia publicamente para as mulheres o papel doméstico. Se as jovens mulheres não conseguissem casar seriam párias da sociedade ditatorial do Estado Novo.

Curioso é também o editorial do padre Gustava de Almeida, de 1964, escrito na mesma revista M&M, em que culpa as influências estrangeiras pela degradação da moral das jovens e das mulheres. Criticava o uso de calças e do ato de fumar. Argumentava contra os perigos da época: dos efeitos nefastos da influência de “camaradagens suspeitas”, “influência da maldita literatura francesa”, do “figurino francês” e do “ensino universitário”.

Assim, os encontros entre os jovens português da época eram sujeitos a uma apertada vigilância. O namoro era uma instituição rígida que servia para elevar as virtudes femininas definidas pelo conservadorismo da época. O namoro servia para casar. Acontecia à soleira da porta ou no interior da casa se a relação tivesse notória aprovação. A maior liberdade social dava-se nas classes sociais mais pobres, nos meios rurais e operários. Era nos grupos mais abastados em que o controlo se dava de forma mais apertada, pois estavam em causa questões económicas e de estatuto social. A aprovação parental para o casamento era muito forte nas classes médias e altas, enquanto que nas classes mais pobres podiam assistir-se a taxas de reprovação de 66% para as raparigas e de 73% nos rapazes.

Estas informações devem ser contextualizadas na época. Não esquecer da periferia de Portugal, longe das ideias progressistas do centro e norte da Europa. Os métodos contracetivos não estavam generalizados em Portugal e o peso de uma classe clerical moralmente dominante tinha enorme influência num país que se fechava ao mundo mais desenvolvido. A esmagadora maioria da população portuguesa vivia com escassos recursos e numa situação de quase analfabetismo e infoexclusão. Isto viria a mudar na década de 70, fortemente depois do 25 de abril de 1974, mas, ainda assim, muitas destas heranças ainda haveriam de persistir muitos anos na sociedade portuguesa, abertamente ou sob diversos disfarces.

Referências bibliográficas:
Almeida, Ana Nunes de (coord.) (2011), Os Nossos Dias.  In Mattoso, José (Dir.) História da Vida Privada em Portugal. Lisboa: Temas e Debates.

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