Quinta-feira, 15 de Março de 2012

O estranho caso do Imperador Constantino - um cristão por convicção ou interesse?


Parece que foi séneca que disse “a religião é verdadeira para as gentes comuns, falsa para os sábios e útil para os políticos [ou governantes]”. Estas palavras são muitas vezes utilizadas de um modo avulso em debates mais ou menos teológicos/políticos (ou ateológicos/ateológicos), no entanto gostaria de dedicar aqui alguma atenção à terceira parte da afirmação desse filósofo romano para tratar um evento histórico importantíssimo para o Ocidente, desencadeado por outro famoso romano. Refiro-me a Constantino que colocou fim às perseguições do império romano aos cristãos e a sua conversão ao cristianismo no fim da sua vida.

Batalha da Ponte de Mílvio - Giulio Romano

 O episódio da Batalha da Ponte de Mílvio, com a impressionante vitória de Constantino sobre Maxnésio (ou Magnésio), é considerado um dos pontos de viragem da história do Ocidente. Consta, pelo menos em algumas das fontes - especialmente segundo Eusébio de Cesaréia -, que Constantino, em situação de desvantagem, tomou uma decisão estranha para a época: decidiu, depois de um sonho com uma cruz na véspera da batalha, pintar nos escudos dos seus soldados cruzes, de modo a supostamente pedir auxílio ao deus dos cristãos. Curioso é que o próprio Constantino não era cristão, quando jovem terá sido iniciado no culto do Sol  (ver texto sobre Invictus Dominus Imperii Romani) muito popular na época, logo era um Pagão. Curiosamente nem sequer a comunidade cristã da época era muito numerosa, muito menos na parte ocidental do Império, onde se estima, por exemplo, que os cristãos perfizessem apenas 10% da população da cidade de Roma. Ferninad Lot aponta como razões para essa estranha opção de Constantino como uma espécie acto de desespero supersticioso, uma vez que o seu opositor tinha o apoio da grande maioria dos poderes pagãos, e também porque tentava aproveitar o mito de que quem perseguisse os cristão acabava tendo um fim trágico. Dificilmente poderemos concluir, em absoluto, deste episódio quais as reais intenções de Constantino, se a sua opção terá sido movida pela , pela estratégia visionária, calculismo ou pelo desespero. Provavelmente foi um misto das três em doses muito próprias.
 O próprio continuar da história do reinado de Constantino revela alguns aspetos igualmente estranhos. Depois de um período de tolerância religiosa, à medida que o seu imperium (reinado) vai durando, começa a favorecer os cristãos, e mais para o final da sua vida a desmantelar na prática os cultos pagãos. Curiosamente só foi batizado mesmo antes da morte. Apesar disto ser habitual na época, não podemos deixar de questionar, dado que o cristianismo foi essencial para a legitimação do poder de Constantino, o porquê de um batismo tão tardio. Seria mesmo cristão? Dificilmente saberemos.
Certo era a importância que o imperador dava à unidade do Império (culturalmente e politicamente), e para o final da sua vida também à unidade do próprio cristianismo, pois nessa altura existia uma infindável quantidade de tendências e grupos cristãos distintos. Independentemente disso, Constantino fundou uma nova capital, com o seu próprio nome, que seria a Nova Roma – Constantinopla. A existência dessa nova capital contribui de facto para a separação e divisão do Império Romano em: Ocidente e Oriente. A nova capital, com o passar dos séculos tornou-se culturalmente Grega, aumentando ainda mais a separação, que transitou também para a religião e a própria Igreja. Depois do Cisma passaram a existir duas grandes Igrejas, A Romana e a Grega, aquelas hoje conhecidas, respectivamente, por Católica e Ortodoxa.
 Se Constantino tomou causas religiosas pela utilidade política só podemos especular. No entanto, parece que as suas estratégicas políticas e religiosas, independentemente das suas influências relacionais entre si, provavelmente não correram como planeado, pelo menos em parte.
 Pouco podemos concluir sobre o caso concreto de Constantino lembrando a frase de Séneca, mas este tema tem mais que matérias para longas reflexões. Pelo menos fica evidente que o assunto, relações e razões destes casos são tudo menos simples, que dificilmente se pode resumir a uma ou duas frases feitas, especialmente se forem descontextualizadas.

Referências Bibliográficas: 
A Fim do Mundo Antigo e o Princípio da Idade Média. Ferdinad Lot. Edições 70.

Sábado, 10 de Março de 2012

A Melhor Juventude - Um filme sobre famílias, pessoas e história recente de Itália

Por diversas vezes resisti a pegar neste filme e começar a vê-lo. Assustavam os 366 minutos, divididos em duas partes. Mas como as cotações e avaliações ao filme eram tão positivas, ainda para mais por ser um filme italiano, com verdadeiros atores italianos e a passar-se, quase na íntegra, em Itália, não podia deixar de dar uma oportunidade ao filme.
Diria, em jeito de resumo, que se trata de uma saga familiar, onde se acompanha a vida (e morte) de personagens com ligações familiares e afectuosas, entre si, ao longo de quase 40 anos. Nesse longo desenrolar, dessas vidas pessoais, que se contam no filme, conta-se também a história da Itália, e da própria sociedade Italiana, desde os finais dos anos 60 do século XX até ao início do século XXI.
Ou seja, o filme A melhor Juventude (no original "La meglio gioventù" ou em inglês "The Best of Youth") é uma experiência a não perder para quem se interessar por um filme de forte pendor descritivo das relações sociais, familiares e afectivas. Marco Tullio Giordana dirigiu este bom filme quase ao jeito de uma (boa) novela, bem escrito também por Sandro Petraglia e Stefano Rulli e muitíssimo bem representado por muitos atores italianos, tais como Luigi Lo Cascio, Alessio Boni e Jasmine Trinca. O enredo, desempenho das personagens e ambientes estão bem conseguidos - as personagens estão mesmo muito convincentes. Somente parece que não houve muito cuidado (ou orçamento) para a caracterização das personagens, especialmente porque a maioria delas são desempenhadas pelos mesmos atores ao longo dos quase 40 anos da narrativa da história - algumas perucas parece que não "assentam" bem.
Depois de ter visto o filme fiquei logo de seguida com saudades das personagens, dos ambientes sociais e históricos - ambientes que se passavam em bairros populares, nas universidades, nos movimentos políticos e sociais, nas instituições de saúde e justiça, etc.) e dos espaços (Roma, Turím, Sicília, Florença, etc.). Este filme é uma viagem à sociedade italiana e seus espaços físicos, sociais e culturais. É uma viagem cinematográfica a fazer!

Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Alguns atlas para viajar até locais prováveis e improváveis



Um dia quando passava por uma livraria perto de casa dois livros da montra despertaram o meu interesse pelas suas exuberantes capas. Era evidente que se tratavam de atlas, e à primeira vista pareciam relacionar-se com geografia. Depois de entrar na livraria, e de os pegar para ver mais de perto, reparei que eram livros de viagens. Mais do que terem vistosas capas, os conteúdos eram igualmente cativantes. Um deles, intitulado de “Viagens – Onde ir e quando” pretendia traçar destinos do mundo recomendáveis a cada mês do ano. Algo extremamente útil pois quando pretendemos ir um pouco mais longe em viagem nem sempre temos a perceção sobre quais as melhores épocas para alguns sítios mais exóticos. Por exemplo poderá ser catastrófico visitar a Índia em plena época das Monções!
Cito então algumas sugestões do primeiro livro, a título de exemplo, sobre os melhores locais para visitar em cada mês com pelo menos um sítio por mês referido no livro:
  • Janeiro: Banguecoque (Tailândia)
  • Fevereiro:Egipto
  • Março: Riviera Maia (México)
  • Abril: Petra (Jordânia)
  • Maio: Creta
  • Junho: Peru
  • Julho: Copenhaga (Dinamarca)
  • Agosto: Sri Lanka
  • Setembro: Munique (Alemanha)
  • Outubro: Lassa (Tibete)
  • Novembro: Tokyo (Japão)
  • Dezembro: Helsínquia (Finlândia)

O segundo livro, por sinal da mesma editora que o primeiro - a DK ou Civilização -, de seu nome “Viagens – Os lugares menos visitados, 1000 locais fascinantes fora das rotas turísticas”, é o mais peculiar e até algo discutível para o género literário. Nesse livro os autores tentam defender a tese de que podemos escapar aos roteiros turísticos conhecidos (cheios de multidões de turistas) e visitar igualmente locais ímpares e de valor semelhante aos mais conhecidos. Esta abordagem é muito interessante e pode ser muito útil, pois revela de facto lugares que são pouco conhecidos e que são de uma originalidade e beleza merecedoras de visita. No entanto, por mais opções que possam haver, simplesmente não podemos substituir certos lugares, edifícios, eventos ou festividades por equivalentes. Podemos tentar, mas não conseguiremos e estaremos a tentar mentir a nós próprios. Pois, se a história não se repete, a singularidade de um determinado local ou acontecimento também não pode ser substituído por outro. Por exemplo, por mais interessantes que sejam, as Pirâmides de Meroé (no Sudão) elas não podem substituir a importância e incontornável obrigatoriedade de visitar as Pirâmides de Gizé – a única das 7 maravilhas do mundo antigo ainda intacta. Este é mesmo só um exemplo entre tantos, entre outros que cito de seguida:
  • Stonehege vs. Avebury
  • Acrópole de Atenas vs. Agreigento e Slinunte
  • Coliseu de Roma vs. Arena de Pula
  • Pompeia  vs.  Herculaneum
  • Chichén Itzá vs. Tikal

Críticas à parte, ambos os livros da DK podem ser deliciosas experiências visuais e informativas. São muitas também as dicas práticas a seguir nos roteiros e locais propostos a visitar. 
Pensando na contemporaneidade, e no que se passa em Portugal em especial, é nestas épocas de crise que precisamos de decidir bem os nossos investimentos, de um modo o mais informado e consciente possível, sendo que as escolhas turísticas não são exceção. Por isso, para quem pretenda viajar para o estrangeiro e goste de atlas, estes são dois livros a não deixar escapar!

Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

100.000 visitas no blogue!

Hoje o blogue A Busca pela Sabedoria, projeto que iniciei há quase 3 anos, que conta com mais de 200 textos com mais de 600 comentários, registou 100.000 visitas! Acima de tudo, apesar de poder parecer trabalhosa - que de facto é -, esta história do blogue é sem dúvida um repositório de prazer intelectual pessoal. Visitar os textos que fui acumulando é como que visitar um museu onde se catalogam e arrumam, para exposição, artefactos vários e variados, sendo que aqui o valor é muito relativo e discutível - se é que tem algum para mais alguém do mim próprio.
Uma visita ao Museu - Edgar Degas
Gastando mais uma palavras sobre o blogue. Tentei diversificar - o mais possível - os temas e assuntos, tentando registar as curiosidades com que me vou deparando no dia-a-dia. Nos vários textos, como neste mesmo, tentei também utilizar pinturas e obras de arte como ilustrações, de modo a poder divulga-las e aos autores.
Não me vou alongar mais. Só posso agradecer a todas e todos os que deram a oportunidade de leitura aos textos aqui expostos. Muito obrigado por todas as visitas! Espero poder celebrar o próximo acrescento de digito no futuro! 

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Influências para as unidades e divisões dos países e nações da América Latina

Ao fazer alguns estudos sobre o livro do registo do II Congresso do Distrito de Leiria e Alta Estremadura deparei-me com um precioso texto de Joaquim Romero de Magalhães, intitulado de "Os espaços da administração portuguesa do século XVI". O autor, nesse texto, defende a tese de que em portugal sempre se organizou o seu território de modo a que fosse sempre fortalecida a unidade nacional, mesmo ainda em tempos anteriores  à invenção do próprio nacionalismo - aquele que hoje conhecemos e se associa à ascensão dos Estados-Nação do século XIX. Em Portugal, por várias razões, entre elas a necessidade de unidade para fins militares relacionadas com o receio permanente de invasões do vizinha Espanha, nunca se pretendeu reforçar o poder regional, nem pela criação de novas fronteiras regionais com poder efectivo, nem pela união dos concelhos em regiões, isto já em pleno século XVI. Não é então de estranhar, ainda que as muitas razões de antigamente pouco sentido talvez ainda façam, que ainda hoje seja difícil discutir o tema da regionalização, quanto mais proceder à discussão dos modelos de aplicação a Portugal.
Paineis "Guerra e Paz" - Candido Portinari
Para Joaquim Romero Magalhães foram a característica unidade portuguesa e o separatismo de Espanha (com as suas regiões com fortes tendências nacionalistas que acentuam a distinção e separação, por exemplo são notórios os casos do País Basco e da Catalunha) que condicionaram a história e geopolítica dos países da América Latina. Teriam sido então as características de unidade interna e nacional dos países colonizadores a influenciar os países que nasceram das antigas colónias. Daí termos apenas um país falante do Português nas Américas e uma imensidão de outros falantes de Castelhano.  Claro que as influências das metrópoles europeias não foram as únicas razões para as fronteiras e existências dos vários países, até porque as culturas e sociedades pré-colombianas existentes contribuíram também indiscutivelmente para isso (a civilização Azteca influenciou muito o México, tal como a Inca o Peru).
Os países da América Latina, ainda que muitos habitantes desses países não hesitem em dizer que prefeririam ter sido originalmente colónias de países anglo-saxónicos, herdaram muita da genética a cultura dos países Ibéricos - para o bem e para o mal. Fica a questão: qual terá sido o melhor modelo herdado afinal afinal?

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Orgasmo masculino sem ejaculação - uma lição de Quintino Aires

Mais uma vez lembro um excerto do programa “A Hora do Sexo”, da Antena 3, onde Quintino Aires – Psicólogo, professor e especialista em sexologia – partilha mais algumas dicas para uma sexualidade mais realizada.
O golpe - Fragonard
Desta vez o assunto é o orgasmo masculino, e mais concretamente a ejaculação. Segundo Quintino Aires, os homens podem experimentar o orgasmo sem ejaculação, o caso não será o mesmo dos orgasmos múltiplos das mulheres, mas poderá ser algo semelhante e que poderá levar a que em cada ato sexual os homens possam experimentar também vários orgasmos. Para isso a técnica em causa, que nada tem que ver com sexo tântrico – onde a experiência dos orgasmos contínuos e múltiplos para os homens parece ser possível por outros meios -, tem um pendor verdadeiramente físico. Segundo o sexólogo, o homem pode atingir o orgasmo e evitar e ejaculação se, no momento oportuno – algo que cada um terá de treinar por si – pressionar com a devida força – algo a saber também com a experiencia – a zona entre os testículos e o ânus. Deste modo, recorrendo a esta técnica, num mesmo ato, o homem poderá então experimentar vários orgasmos e controlar a ejaculação para quando pretender. Sem ejaculação é possível prolongar o ato sexual pois é com a ejaculação que as energias masculinas se esgotam e não tanto com o exercício sexual anterior.
Temos de admitir que a técnica em causa exige bastante autocontrolo e conhecimento do próprio corpo e seu “funcionamento”. No entanto, qualquer que seja a atividade física que se pratique, ela só se aproxima da perfeição e performance superior se de fato o individuo treinar/conhecer o seu organismo, sendo aqui o mesmo válido para o sexo.
Fica mais uma dica deste serviço público da Antena 3 que tem tratado e cuidado da saúde e felicidade sexual dos portugueses.

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Guerra dos sexos na pré-história e megalitismo


  Numa altura em que sociedades pré-históricas – aquelas que desconheciam a escrita – entravam em processo de sedentarização, passavam do período do mesolítico para o neolítico, numa altura em que as atividades recolectoras, como forma de subsistência, começavam a ser substituídas pelas agro-pastoris é momento em que surgem as primeiras construções megalíticas – construções de grandes pedaços líticos, ou seja, grandes rochas e pedras.
  Das mais importantes estruuras megalíticas destacam-se os dólmens (ou antas) - para fins funerários (com a devida importância social e demarcação no território envolvente) - e os menires - para fins que relacionados com atividades ligadas à cultura dos vivos (possivelmente o assinalar de algo importante para as comunidades que os ergueram: símbolos de pertença, domínio territorial, culto ou outros culturais/utilitários). Segundo alguns especialistas, estes primeiros monumentos, que até podem ser considerados os primeiros “edifícios públicos”, serviam, para além dos propósitos religiosos, de âncora a comunidades errantes em processo de sedentarização, que dependiam cada vez mais do território que escolhiam e da dinâmica e funcionamento e coesão do próprio grupo.
Menir de Croisac - autor desconhecido datado de 1893
  Feita esta primeira introdução ao megalitismo há que justificar então o título do presente texto. As relações das estruturas megalíticas com a religiosidade e cultos pré-históricos são evidentes, e aos cultos estava sempre associada, ou era mermo o centro do próprio culto, a fertilidade. Curiosamente parece que os dois grandes tipos de construções [menires e antas] se associavam a cultos de fertilidade por género/sexo. Ou seja, pelas suas formas de acentuada verticalidade, os menires associavam-se ao sexo masculino e as antas ao feminino. Em Portugal, no menir de Outeiro, em Reguengos de Monsaraz, foi mesmo detetado a abertura na rocha do meato uretral. Outros menires do barlavento Algarvio estão decorados com linhas onduladas – provavelmente associadas às veias e artérias –, igualmente associadas à fertilidade masculina. Por outro lado, pela sua configuração em planta, e por originalmente serem câmaras interiores onde se acedia por uma estreita entrada (podendo incluir corredor), as antas ou dólmens facilmente se podem também associar ao sistema reprodutivo feminino, e assim ao culto da fertilidade feminina.
Dolmen - John Costello
  Os dados arqueológicos indiciam que o erguer dos primeiros menires possa ter ocorrido antes da construção das antas, e que as antas de construção mais recente e evoluída são aquelas onde a câmara interior é mais definida e existe corredor de acesso ao exterior. Estes indícios podem levar a crer que na pré-história os cultos de fertilidade estavam diretamente relacionados diretamente com os aparelhos reprodutivos masculinos e femininos. Podemos, para além disso, especular que até pode ter ocorrido uma “guerra dos sexos”, pois em alguns menires existem algumas gravações póstumas de símbolos que sugerem vulvas. Tal acontecimento, considerando também as ocorrências de transformações de antigos menires em antas, pode significar que o culto da fertilidade masculina poderá ter sido suplantado, posteriormente, pelo do sexo oposto, ou então terem coexistido em parceria. 
  Apesar de todas as especulações, ainda que com bases em dados e provas arqueológicas, essa aparente suposição de “guerra dos sexos” pré-história poderá ter sido apenas uma aparência, tal como aquele que supostamente se vive hoje. Afinal, para uma grande percentagem da população, de um ponto de vista sexual, um sexo não vive sem o outro, independente dessa relação ser tensa e de aparente conflito.

Referências Bibliográficas:
"História da Humanidade - Pré História". David Solar e Javier Villalba. Circulo de Leitores, Lisboa 2007.
"Pré-História de Portugal". José Luís Cardoso. Universidade Aberta, Lisboa 2007.

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

A Maçonaria (portuguesa) segundo o Diário de Notícias

 Parece que Portugal acordou para a Maçonaria, apesar de estar por terras lusas há pelo menos dois séculos. Curioso, mas coisa simples de explicar quando são os próprios Media que definem os interesses pela notícia, enquanto coisa valorativa. Como o tema está na berra, não podia deixar de recuperar um recorte de jornal de há uns tempos que guardei, de uma edição do Diário de Notícias (DN) que fazia uma grande reportagem sobre a maçonaria nacional. O artigo em si, demorando-se em pelo menos 12 páginas, aborda e faz uma leitura abrangente dessas sociedades secretas, expondo alguns casos e características da maçonaria em Portugal (referindo mesmo alguns dos destacados membros de hoje e de ontem – aquilo que parece cativar a imaginação das pessoas nos dias que correm). De tudo o que trata e apresenta a dita reportagem, trago aqui ao blogue principalmente os conteúdos explicativos e de razão de ser – segundo o DN – da própria maçonaria, especialmente da portuguesa.
O mito de Orfeu - Marc Chagall
  Se a origem medieval da maçonaria é real ou fictícia – uma espécie de mito histórico da criação da própria maçonaria – quase ninguém saberá. Provavelmente só os membros dessas sociedades maçónicas mais tradicionais, caso guardem documentos e outros testemunhos ou provas, o podem atestar. De qualquer dos modos, mesmo podendo a maçonaria não ser tão antiga como a existência das guildas ou grupos de mestres-pedreiros que construíram as catedrais e edifícios mais complexos medievais, os símbolos e associações, tal como o próprio nome, bebem muito desses tempos. Não é por acaso que maçon em francês quer dizer pedreiro - aquele que trabalha a pedra. É que na Europa Medieval cristã os mestres-pedreiros medievais eram dos poucos a ter conhecimentos de matemática, geometria, gestão e capazes de projetar. Há que lembrar que as poucas universidades que existiam eram de criação muito recente e se dedicavam quase exclusivamente aos estudos da teologia e do direito (quanto muito medicina também em alguns casos com a denominação de física); o estudo das bases que seriam a ciência de hoje nas universidades ainda teria que esperar uns séculos. Ainda na língua francesa, “franc-maçon” significa “pedreiro livre”, numa relação com o livre construtor, aquele que pela sua liberdade, capacidade e conhecimentos podia construir algo de novo ( e no caso da pedra, transformar uma pedra bruta num elemento perfeitamente geométrico e/ou ornamentado). Os conhecimentos que estes mestres construtores tinham deram-lhe, em tempos feudais medievais e de liberdades condicionadas, um estatuto social distinto. Não eram nobres, mas tinham algumas regalias e liberdades especiais (incluindo a de deslocação e trabalho por conta de quem escolhessem), pois o poder secular e religioso precisava dos seus saberes e conhecimentos para a construção das grandes obras – aquelas que aspiravam a tocar os céus e ficar, metaforicamente, mais perto de Deus.
  Mais tarde, depois do renascimento, quando o conhecimento dos antigos clássicos começou a ser redescoberto. Também com um maior acesso à informação e sua disseminação mediante a invenção e generalização da imprensa, o conhecimento acumulado do passado e restrito a alguns grupos – guildas de ofícios, onde se incluíam os mestres-pedreiros, o saber das universidades e do mundo sacro – passa a ser de acesso mais facilitado. Mas foi durante o Iluminismo do século XVIII – sem se saber o que deu origem a quê, se o iluminismo à maçonaria ou a maçonaria ao iluminismo, ou se mera coincidência entre ambos - que a maçonaria ganhou o cunho, simbolismo e razão de ser que a caracteriza ainda hoje. A Maçonaria nessa altura ganhou o cunho, mais que tudo, filosófico e cultural - os pedreiros talhariam da ignorância o saber, e do homem rude o homem aperfeiçoado. O objetivo não seriam as construções de pedra mas as do saber. Diz-se que foi da maçonaria que nasceu o triplo ideal de: igualdade, liberdade e fraternidade. Diz-se também que a maçonaria esteve envolvida em muitas das revoluções e lutas pela liberdade, exemplo da Revolução francesa, Independência Americana, da Independência do Brasil e da Revolta Liberal em Portugal (1820). Já a relação com a Implantação da República em Portugal em 1910 é também inegável.
  Hoje existem pelo menos dois tipos diferentes de maçonaria: a regular e a irregular. Na regular é obrigatório que cada maçon confesse uma religião, pois, independentemente de qual for, terá de crer no “Grande Arquitecto” ou GADU – a entidade, força ou divindade da qual o universo tem origem e razão de ser, seja qual for o nome que lhe atribua (Javé, Jeová, Alá, Deus, Buda, etc.). Ou seja, na maçonaria regular é possível estarem reunidos na mesma loja (a maçonaria organiza-se em lojas, o que pode não ser um espaço físico mais apenas a designação do grupo em causa) maçons de várias religiões, sendo vedada a presença apenas a ateus. Por outro lado, na maçonaria irregular podem ser admitidos ateus. Também apenas na maçonaria irregular se permite a iniciação de mulheres, em lojas femininas ou mistas.
  Segundo o artigo onde se baseia a maior parte da informação, que a primeira loja maçónica nasceu em Inglaterra em 1717, mas as origens, tal como já foi referido, parecem ser muito anteriores. Em Portugal a maçonaria organiza parece ter surgido no dealbar do século XIX, embora se haja indícios de alguns destacados portugueses que já anteriormente tinham ligações maçónicas a lojas fora do país. Atualmente existem em território nacional duas grandes obediências: uma regular com a designação de “Grande Loja Legal de Portugal” ou “Grande Loja Regular de Portugal” (GLLP/GLRP); e outra irregular com a designação “Grande Oriente Lusitano” (GOL). Consta que ambas terão cerca de 2000 maçons entre os seus membros, perfazendo então mais de 4000 maçons a nível nacional inseridos em ambas as duas grandes obediências, mas existem seguramente mais maçons com outras obediências não tão numerosas e conhecidas.
Os graus da maçonaria, ou hierarquias, podem obedecer a dois sistemas distintos. Ou se segue o rito escocês ou o rito de York. No primeiro existem 33 graus (ou níveis) enquanto no segundo apenas 10. Em Portugal o mais praticado parece ser o escocês.
  Os símbolos maçónicos são muitos, podendo ser consideramos os seguintes como mais importantes: o compasso (símbolo da retidão, ação do homem sobre a matéria e sobre si mesmo, e moralidade); o esquadro (símbolo da justiça, exatidão, do espírito, pensamento, e do absoluto pela relação com o círculo); a letra “G” (significa: gravitação, geometria, geração, génio, gnose, glória, e grandeza); o avental (símbolo de trabalho, com diferentes cores e inscrições para distinguir os vários níveis dentro da hierarquia maçónica); os 3 pontos (significam: luz, trevas e tempo; nascimento, vida e morte; sabedoria, força e beleza; liberdade, igualdade e fraternidade); a pedra por talhar e a pedra talhada (relação com a busca pela perfeição através da dedicação e trabalho), e; as colunas (símbolos dos limites do mundo, da vida e da morte, do ativo e do passivo, do elemento masculino e feminino).
  Hoje, atendendo novamente à reportagem, o acesso à maçonaria é mais liberalizado que em épocas do passado. Hoje pode-se ser iniciado na maçonaria por convite ou por autoproposta. No entanto, os maçons, segundo eles mesmos, tendem a ser cuidadosos e exigentes na admissão de novos membros. Explica o DN que são város os paços para se tornar maçon: Convite (ou autoproposta); investigação sobre o candidato; rito de iniciação, com chegada de olhos vendados ao local para o efeito (templo ou local de reunião da loja ou obediência), seguido de interrogatório e “testamento maçónico” – um documento de teor filosófico -, de 3 voltas ao templo - na presença dos “irmãos” maçónicos de loja - e por fim, dada a última volta, o candidato é considerado maçon, recebendo o grau mais baixo – grau de “aprendiz” -, sendo de seguida queimado o seu testamento maçónico.
  Nos dias que correm, em sociedades democráticas e onde se aspira a cada vez mais transparência pode ser difícil de perceber e compreender a razão de ser deste tipo de sociedades secretas. Tais receios e incompreensões ganham outra dimensão, no caso da maçonaria, por serem constituídas, habitualmente, por elites. Ou seja, é normal, especialmente por desconhecimento, que se se desconfie sobre quais os assuntos e propósitos maçónicos. Os receios, tendo em conta alguns casos divulgados nos Media, poderão ter real fundamento. No entanto, atendendo a história (perseguições, punições, violências e intolerâncias), é igualmente compreensível que alguns maçons tenham receio em revelar a sua filiação iniciática.
  Para melhor compreensão da maçonaria e seus objetivos, é útil citar aqui José Manuel Anes e a definição que ele próprio dá de maçonaria: “Organizações fraternais, com uma determinada regra de funcionamento e de vida, sujeita a uma hierarquia cujo o objetivo é o aperfeiçoamento espiritual dos seus membros”. Com esta definição e objetivos não será difícil ter simpatia perante estas organizações. No entanto, podem existir linhas muito ténues entre desenvolvimento (e aperfeiçoamento) dos membros destes grupos e favorecimento dos mesmos à custa de toda a sociedade. Claramente isso, a acontecer, seria uma óbvia subversão dos ideais maçónicos tal como são apresentados pelos próprios membros; provavelmente é mesmo ai que reside toda a polémica em tordo da maçonaria nos dias que correm. Numa sociedade democrática até faz todo o sentido que os indivíduos se queiram aperfeiçoar pelo seu próprio mérito e valor, pois até será toda a sociedade que ganhará com isso. O que falha depois será a relação do ideal com o real
  De qualquer dos modos, tal como em muitas outros assuntos, há que evitar o obscurantismo e preconceito. Uma opinião sobre este assunto será tanto mais válida quanto mais informada for. Aqui entramos no paradoxo, pois, como estas sociedades são supostamente secretas, dificilmente as opiniões sobre o que são e o que fazer poderão ser verdadeiramente informadas.
Related Posts with Thumbnails

Parceria pelo programa afiliados com a:

WOOK - www.wook.pt


A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa