quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quem inventou os camuflados de guerra?

Supostamente foram os pintores cubistas que inventaram as pinturas de camuflados modernas, isto segundo o documentário "As Aventuras da Arte Moderna", no original "Les aventuriers de l'art moderne", da autoria de Amélie Harrault, Pauline Gaillard, Valérie Loiseleux  .  
 
Parque de Carrières-Saint-Denis - Georges Braque
 
Segundo a anterior fonte, durante uma das muitas batalhas da Primeira Guerra Mundial um telefonista francês recebeu instruções para transmitir a ordem de fogo à artilharia. Mal o canhão disparou foi atingido pelo inimigo e explodiu. O telefonista questiona-se: "Porque não proteger os homens com uma camuflagem que imitasse as formas e cores da natureza?"
 
O telefonista era o pintor  Lucien-Victor Guirand de Scévola , que de imediato transmitiu a ideia ao Estado-Maior francês. Em fevereiro de 1915 o Ministério da Guerra francês aceitou criar uma equipa sob sua direção. Scévola recorreu aos cubistas por serem capazes, com se tinha provado nas suas criações revolucionárias, de representar um ou mais objetos na sua íntegra, em todas as suas perspetivas, e não apenas sobre o ponto de vista do observador. Assim, supostamente, os cubistas inventaram as primeiras pinturas de camuflagens tais como as conhecemos hoje.
 
Pintores e escultores desenharam a aguarela também cenários falsos atrás das linhas. Pintam folhagens em tons naturais nos capacetes. Pintaram, esculpiram e construíram cadáveres, cavalos, fardos de palha, veículos, homens, ruinas e tudo o mais que pudesse contribuir para iludir o inimigo e ocultar os verdadeiros planos e estratégias de guerra. O famoso pinto Georges Braque, coinventor do cubismo juntamente com Picasso, terá participado ativamente nesses projetos.
 
Curiosamente os cubistas terão sido criticados por pelos academistas pela suas bizarras criações, mas acabaram por criar, indiretamente, ainda que pudesse ser pouco evidente para o não especialista, uma solução prática que ainda hoje as forças armadas não dispensam.
 
 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Avaliar economicamente, culturalmente e socialmente o património cultural edifícado

Avaliar o património cultural construído, que é como quem diz edifícios antigos, é extremamente difícil, especialmente porque o seus valor cultural e social é muito difícil de contabilizar e porque existem  muitos diferentes tipos e variedades de edifícios. Será muito difícil converter em valor monetário o valor de todas as suas possíveis dimensões. Podemos fazer escalas, sistemas de comparação, avaliação qualitativa que depois convertemos em dinheiro. Existem várias possibilidades.
 
O Coliseu de Roma - Hubert Robert
 
Nathaniel Lichfield propõe alguns modelos. Num deles avalia, isoladamente, do ponto de vista económico, social e cultural quatro opções de intervenção concretas para um imóvel hipotético.  Considera como opções: Fazer o Mínimo (FM); Reabilitar (RH); Restaurar (RT) e Demolir/Reconstruir (DR).
 
Fazer o mínimo consiste apenas na manutenção mínima para que o imóvel continue a ser utilizado até chegar ao limite da sua obsolescência sem intervenções de fundo.
Reabilitar consiste em manter partes significativas do imóvel, reparando, adaptando e remodelando para novos usos e fins, reduzindo a obsolescência para zero.
Restaurar implica recuperar e manter o imóvel nas suas condições originais, com nível de obsolescência igual ou perto de zero.
Demolir e reconstruir passa por remover todas as existências e aproveitar o terreno para fazer novas edificações no seu máximo de aproveitamento construtivo.
 
  • Do ponto de vista patrimonial cultural tem mais valor, por ordem decrescente: RT; RH; FM e DR.
  • Do ponto de vista económico tem mais valor, por ordem decrescente: DR; RH; FM e RT.
  • Do ponto de vista social tem mais valor, por ordem decrescente: RH, RT, DR e FM.
 
Isto será uma análise para um caso hipotético apenas para servir de guia de orientação, pois em determinados casos o património arquitetónico pode fazer disparar o valor económico quando bem reabilitado ou restaurado, tal como um edifício em que se intervém o mínimo poder ter mais vantagens sociais, dependendo de quem o utiliza ou com quem se relaciona. Outro aspeto que pode gerar alguma surpresa é a maior importância social que tem a reabilitação do que o restauro. Tal deve-se à possibilidade dos novos usos que o imóvel pode comportar depois de uma reabilitação, ainda que aqui parece ser ignorado o valor social de reforço das identidades no caso do restauro de um edifício marcante sem o alterar de alguma forma.
 
No fundo ajuda a justificar porque se deve optar pela reabilitação urbana, pois é a opção que mais alto se situa nas várias avaliações de valores setoriais. Mas a reabilitação, como sabemos, pode ter custos que a tornam incomportável e ou menos vantajosa economicamente, sendo que apesar destas avaliações a torarem a melhor opção é quase sempre necessário algum tipo de apoio financeiro para que possa ser mais competitiva no mercado imobiliário.
 
Lichfiel escreveu  "Economics in urban conservation" uma obra incontornável para quem pretende estudar reabilitação urbana e não ignorar a dimensão económica, pois é uma das raras obras que se foca na economia da reabilitação urbana - um tema que urbanistas, arquitetos, estudiosos do património e outros interessados no património edificado e cultural tendem a evitar.
 
Referências bibliográficas:
Lichfield, Nathaniel. Economics in urban conservation. Cambridge/new York: Cambridge University Press, 1988.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Uma paródia à história da Arte Ocidental - Video Clip "70 Milion" dos "Hold Your Horses!"

Em 2010 os "Hold you Hourses!" criaram, durantes dois fins de semana, muna garagem em Paris, uma obra-prima sobre obras primas da pintura mundial. No vídeo clip "70 Milion" a banda franco-americana produziu uma sequência de imagens que comprovam a imaginação e o gosto pela arte. Fica a partilha desta musica e vídeo que é uma divertida paródia, feita com pouquíssimos recursos, sobre a história da arte ocidental. Para os amantes de arte é impossível não rir, para os outros, bem... é impossível não ficarem curiosos.





segunda-feira, 6 de junho de 2016

Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária

Vamos falar em decrescimento, esse assunto polémico. Não se trata de dietas mas de economia, modelos de sociedade, valores e estilos de vida. Serge Latouche no seu “Um pequeno tratado do decrescimento sereno” parece querer abalar toda a nossa existência.
 
Ambiente Espacial - Lúcio Fontana

Quando a economia de um país não está a crescer o dito país entra em crise. Mesmo se crescer abaixo de um determinado nível a crise pode ser inevitável. Mas como podemos continuar infinitamente a crescer, sendo que estes crescimentos acumulados geram evoluções exponenciais pois crescemos sempre relativamente ao acumulado anterior? Os recursos do planeta não são limitados. Se o planeta é finito como pode ser infinito o crescimento? Ainda que a tecnologia consiga tirar melhor partido dos recursos naturais, até aproveitando o que outrora era desperdício ou resíduo, haverá sempre limites materiais.

Latouche, no seu ensaio, quer preparar-nos para aquilo que considera inevitável. Vamos ter de decrescer, inverter todo este sistema de valores e organização social e económica. Se neste momento já se consome em média o equivalente a mais de uma terra, isto considerando uma pegada ecológica média, como poderemos manter este nível no futuro? O autor recusa o desenvolvimento sustentável, pelo simples facto de que manter os níveis de desenvolvimento não será sustentável de todo ao ser inviável continuar a consumir mais do que o planeta pode produzir sem perdas irreversíveis.

Imagine-se então como seria uma sociedade do decrescimento. Teríamos de consumir menos, evitar os atuais os reduzidos ciclos de obsolescência. Teríamos de produzir localmente para consumir localmente, tendo em conta as colheitas de época. Teríamos de impor restrições aos mercados impedindo que fossem apenas regulados pela lei da oferta e procura com base num sistema de livre circulação de capitais. Reduzir o número de horas trabalhadas, a intensidade e velocidade do que fazemos, pensando mais na prevenção e nos estilos de vida mais naturais e saudáveis. Teríamos de evitar o turismo como grande consumidor de recursos e desestabilizador dos ambientes naturais e humanos. Direcionar os ímpetos consumistas para o consumo de conhecimento e cultura que podem ser inesgotáveis. Isto e muitas outras coisas verdadeiramente radicais aos olhos contemporâneos. O mundo seria muito diferente.

Latouche alerta para esta necessidade, que será tanto mais forte quando os níveis de vida começarem a aumentar nos países onde os níveis de consumo e exploração estão abaixo da média. Se pensarmos que um Norte-americano consome em média o equivalente a 6 terras per capita, podemos ver o nível de desigualdade existente no planeta.

Tudo isto será uma utopia, mas, seguindo as alternativas propostas pelos defensores do decrescimento, a humanidade terá de repensar os seus modelos de desenvolvimento, pois será impossível manter determinados estilos e níveis de vida sem com isso arriscarmos o equilíbrio planetário.

Referência bibliográfica:
Latouche, Serge. Um pequeno tratado do decrescimento sereno. Lisboa: Edições 70, 2011.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Fascismo deriva do Marxismo?

As origens do fascismo parecem estar em causa? Nem por isso, mesmo que exista quem queira deixar essa dúvida a pairar.
Pegando num qualquer manual escolar de história do 12.º ano é possível chegar a algumas conclusões, por isso apenas recorro propositadamente a uma dessas fontes para este texto, tendo por base o que se encontra atualmente em uso no ensino secundário em Portugal. Então vejamos.
O triunfo do surrealismo - Max Ernst
O marxismo surge em meados do século XIX associado aos movimentos socialistas e operários, mas mais como uma corrente filosófica e económica, isto porque Marx escreveu principalmente sobre economia - de notar que a sua grande obra é “O Capital”. Marx criticava aquilo a que chamava de socialismo utópico, que era aquele socialismo reformista que pretendia conviver com o capitalismo numa gradual melhoria das condições de vida para o proletariado e os pobres no geral. Marx dizia que isso seria impossível, que tal objetivo era inconciliável. Para ele somente através duma revolução violenta capaz de derrubar o capitalismo se instauraria um modelo mais justo para o proletariado. Chamou a esse modelo, no estágio último de desenvolvimento, "comunismo", pois seria uma opção coletivista de garantir a justiça na distribuição de riqueza. Chega a esta conclusão depois de fazer uma análise história, concluindo que as tomadas de poder sempre ocorreram de forma violenta, passando os dominados a dominantes, depois de assegurarem o poder político e o controlo dos meios de produção. Para Marx são especialmente os meios de produção – a capacidade de gerar riqueza – que determinam e definem o poder político: quem os detiver controla todo o poder. Chamou a esta teoria "materialismo histórico" ou o "socialismo científico". Apesar de ser mais complexo que isto e de as suas aplicações práticas terem gerado verdadeiras calamidades humanas, podemos dizer que o marxismo enquanto teoria aspirava à igualdade.

Por outro lado, o Fascismo desenvolve-se rapidamente no pós primeira guerra-mundial, aproveitando o caos político, a crise financeira e a ameaça comunista aos países capitalistas da europa central e ocidental. O fascismo defendia a desigualdade: determinados grupos deveriam governar sobre os demais porque eram superiores. Essa superioridade poderia ser mais ou menos racial, económica ou outra, mas resume-se ao desígnio do domínio violento pelos mais fortes. O fascismo cresceu apoiado nas classes mais elevadas, mas também pela classe média, pois seriam esses grupos que perderiam poder e riqueza se o comunismo triunfasse com os seus projetos revolucionários de mudança social e económica. Só assim se justificou essa rápida ascensão e adesão: era o medo da mudança e da perda dos bens e diretos adquiridos, mesmo que fossem desiguais e fundamentados em princípios desumanos. Sem essa “ameaça” comunista nunca o fascismo teria ganho a força necessária para se constituir como governo em Itália, Alemanha e outros países, ainda que existam algumas exceções como o caso de Portugal. Mas a única relação é essa. Ao nível dos valores, princípios e objetivos nada os poderia tornar mais antagónicos, ainda que ambos os regimes tenham constituido ditaduras totalitárias por não permitirem visões e opções dissidentes dos modelos sociais e económicos que queriam implementar.

Referências bibliográficas:
Um novo Tempo da História - História A - 12.º Ano.  Autoria de Célia Pinto do Couto , Maria Antónia Monterroso Rosas ; Revisão: Elvira Cunha de Azevedo Mea. Porto Editora, 2016.

Outras referências que podem interessar para aprofundar conhecimentos e saber mais:

Arendt, Hannah. As origens do totalitarismo. Lisboa: Dom Quixote, 2006.
Judt, Tony. Pensar o século XX. Lisboa: Edições 70, 2012.
Rémond, René. Introdução à história do nosso tempo - do antigo regime aos nossos dias. Lisboa: Gradiva, 1994.
 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A filosofia na Cultura Pop: cinema de ficção científica e super-heróis

Lembro-me de uma determinada professora de filosofia do ensino secundário pela abordagem diferente que fazia nas suas aulas. Conseguia-nos cativar com alguns temas e referências muito especiais. Infelizmente esqueci-me do nome dela, mas ficou uma imagem idealizada dessa professora que tem servido de inspiração.


Sweet Dreams Baby - Roy Lichtenstein

Um desses assuntos foi a temáticas dos filmes de ficção científica, quando deles tirava conclusões sobre a condição humana e as relações sociais de cada tempo em que eram realizados. Lembro a referência a mensagens que se poderiam retirar de filmes tão populares como “Blade Runner”, “Exterminador Implacável” e “Alien: o oitavo passageiro”. Cada um deles falava da problemática das máquinas com inteligência artificial. Em todos estes filmes, de um modo ou de outro, as máquinas eram os vilões. Ou seja, havia um medo claro dos limites da descoberta científica. Depois, curiosamente, nos anos 90, surgem sequelas, surgem novos filmes em que as máquinas já parecem querer também ajudar contra outras máquinas ou dificuldades. Mudaram-se então as mentalidades? Talvez, ou simplesmente era a novidade que permitia alimentar esta industria tão carente de coisas novas para consumo rápido.

Um outro fenómeno curioso, com o qual também se podem fazer extrapolações, é o crescimento do interesse pelos super-heróis. Se antigamente, a partir dos anos 90 e por ai fora, reinaram filmes de acção populares para os mais jovens em que os heróis eram “mauzões” que dominavam, com meios muito pouco ortodoxos, do tipo anti-heróis e ao estilo “gangster”, desde há uns anos para cá as coisas parecem ter mudado.

 São cada vez mais os filmes de super-heróis clássicos (com capas, fatos e nomes originais) e suas adaptações, no seu individualismo e idealismo do "bem", ainda que existam excreções como é normal. Será também uma mudança social e de valores? Ou seja, mantém-se o individualismo típico das sociedades pós-industriais e ultraliberais, mas parece querer renascer o sentimento de altruísmo, do praticar o “bem” e de encontrar um sentido para existência individual? Será o reflexo de sociedades que, vivendo na abundância, pretendem agora a felicidade individual que nem sempre passa por mais bens materiais?

Não se poderá concluir disto grandes certezas. Mas podemos dizer que é possível retirar dos filmes e produções da cultura pop significados e referências mais profundas do que seria expectável em produtos de consumo rápido. Podemos filosofar sobre isso. Podemos usar do intelecto para colocar questões e problemáticas.

 Poderá ser a prova de que a filosofia se pode massificar e ao mesmo tempo diferenciar no individualismo ultraliberal, com cada um a poder abordar, sejam quais forem os temas e perspetivas, do modo e no formato que mais lhe convier?

Isto é uma extrapolação arriscada, mas sem arriscarmos o erro e fazer as perguntas não poderemos avançar com mais conhecimento e compreensão. Afinal, até podemos fazer um bocadinho de filosofia assim.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Efeito parasitário do turismo no património e urbanismo

Pode ser polémico, mas o turismo pode ter um efeito parasitário geral, beneficiando de investimentos e das existências de outras atividades contribuindo diretamente pouco ou nada para os custos que recaem sobre elas. Um desses casos poderá ser o património histórico, mas também o urbanismo na sua dimensão integrada de conjuntos edificados e atividades que se desenvolvem nos espaços urbanos.

Grupo de artistas dinamarqueses em Roma -  Constantin Hansen
O turismo é claramente um sector económico de extrema importância. Do ponto de vista psicossocial, trata-se de uma atividade de lazer que pretende proporcionar experiências agradáveis, que seja pelo lado lúdico, instrutivo ou outro. É imensamente importante do ponto de vista económico, até porque é tratado como uma exportação. Mas o turismo só acontece onde existam atrações que o justifiquem. No caso do património histórico e urbanismo essas atrações surgem de heranças ou desenvolvimentos que não foram pensadas para esse fim, ou seja, a sua utilidade é quase sempre transformada e adaptada. Alguns desses usos originais pretenderiam dar resposta às necessidades contemporâneas das épocas em que as construções terão sido edificadas. Mas quem fala de construções fala de outro tipo de criações humanas que possam ter nos dias que correm utilização turística. O turismo, nestes casos, usa os recursos já existentes. Será que os usa na mesma medida em que contribui para os manter?

Em muitos destes casos existe uma pressão turística crescente sobre determinados patrimónios. Ou as entidades públicas encontram modo de converter essa procura em receitas para compensar os custos sobre a degradação que se acelera do património ou então entra-se em casos de insustentabilidade. Isto tanto é valido para o sector público como privado, sendo que na dimensão pública os preços cobrados pelo usufruto tendem a refletir diretamente os encargos. Mas nos casos em que esses patrimónios têm usos religiosos, cívicos e identitários locais e nacionais, a cobrança de entradas ou impostos indiretos para suportar esses custos, especialmente aos autóctones ou cidadãos a quem esse património é próximo, pode gerar injustiças, ainda que não reflita a totalidade dos gastos.

Assim não será de estranhar que se considere o sector do turismo parasitário em determinados casos, especialmente quando contribui para a degradação do património, impede que os cidadãos do país em causa o usufruam ou pelo simples facto de causar tais impactos que descaracteriza ou transforma a vida das populações locais. Será certo que tem efeitos económicos positivos e que pode contribuir indiretamente através dos impostos de consumo que gera para a economia e finanças públicas. Mas será que esses fundos depois chegam aos organismos que gerem o património e às autoridades urbanas e territoriais que têm de lidar com os impactos da pressão sobre as infraestruturas, sistemas de transportes e outros?  Existem entidades e autoridades públicas que encontraram várias alternativas de tentar transferir estes custos para a indústria do turismo mas é uma questão que continua a ser pertinente.

Fica a questão e alguma bibliografia que trata esta problemática.


Referências bibliográficas:
Benhamou, Françoise. (2011). L´économie de la culture (7ª edicion). Paris: La découverte.

Graham, Brian; Ashworth, G. J.; Tunbridge, J. E. (2000).
A geography of heritage - Power, Culture & Economy. London: Arnold.

Patin, Valéry. (2012).
Tourisme et patrimoine. Paris: La documentation française.
Peackock, Alan; Rizzo, Ilde. (2008).
The heritage game - economics, policy and practice. Oxford: Oxford University Press.

Rizzo, Ilde & Mignosa, Anna (ed.) (2013).
Handbook on the economics of cultural heritage. Cheltenham/Northampton: Edward Elgar.
 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

400.000 visitas no blogue

Nesta semana o blogue passou da marca das 400.00 visitas. Também a página de facebook atingiu os 1900 gostos. Apesar de poder ser uma coisa de pouca relevância trata-se de um registo histórico que não se poderia deixar de fazer aqui neste espaço.
Tendo em conta que o tempo para escrever é cada vez menos queria aproveitar para agradecer a todas e todos quantos ainda vão acompanhando os textos que aqui vou publicando, cada vez mais espaçados no tempo.
Mas a intenção será continuar, mesmo que com menos intensidade, continuando a partilhar pedaços desta busca pela sabedoria.
 
Novamente obrigado!
 
Micael Sousa

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Somos obrigados a brincar com coisas sérias

"Não se brinca com coisas sérias". Com certeza já ouviram e leram muitas vezes está expressão.
 
Façamos então aqui um pequeno ensaio indutivo tentando retroceder ao axioma para testar a validade desta expressão. Então aqui vai de forma simplista.

A mulher do agricultor - Miró

Se uma coisa é não séria é porque de facto se brinca com ela.
 
Se uma coisa é séria então não se brinca com ela pelo facto de ser séria, caso contrário entraríamos numa contradição.
 
Se as coisas existem antes dos seres humanos, ou então se existem a partir do exato momento que também existem seres humanos que lhes atribuem sentido e significado, então temos de partir do princípio que existe um momento primordial em que nada é sério ou divertido.
 
Assim, para que uma coisa seja divertida ou séria teve primeiro de se testar a comicidade da dita coisa. E se uma coisa é não engraçada, logo pode ser muitas outras coisas, entre elas ser séria. Então o estado natural, seguramente não será o ser engraçado. Se estivéssemos vedados a apenas brincar sobre coisas engraçadas então primordialmente não poderíamos brincar com nada.
 
Assim, sem se brincar com determinada coisa não seria possível saber se seria séria ou não. Logo, se não pudéssemos brincar com uma dita qualquer coisa então nunca teríamos desenvolvido o ato de comédia ou diversão sobre as coisas.
 
Logo, em potencia, podemos brincar com tudo para testar se a dita coisa pode vir a ser séria ou não.
 
Poderão dizer que atualmente, tendo em conta que existe uma história longa, o sério e o engraçado já está definido. Mas se assim fosse isso teria de ser anterior à própria humanidade e ou não haver um processo de mudança histórica nas sociedades humanas. Sabemos que as mentalidades e as manifestações emocionais coletivas e  individuais mudaram muito ao longa da história e de grupos humanos para grupos humanos.  Devido a isso uma coisa pode ser engraçada e/ou séria num determinado momento histórico e numa determinada sociedade ou grupo humano mas não o ser noutros.
 
Assim, conclui-se que se pode brincar com coisas sérias, pois as sociedades depois dirão se acham ou não piada.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Felicidade no Trabalho – Um documentário de Martin Meissonnier

O trabalho é um dos pilares da vida contemporânea. Desde que o capitalismo traduziu o trabalho em valor, indiretamente, transacionável colocou-o sob pressão. Ou seja, modificou as relações de trabalho e submeteu os trabalhadores a novos desafios.

Os trabalhadores de hoje estão cada vez mais submetidos ao “turbocapitalismo” e ao desenvolvimento económico mundializado onde se diluem restrições, direitos e as velhas estruturas laborais. São imensos os casos de trabalhadores em situações insustentáveis, tanto na dimensão salarial mas especialmente pela pressão do stress.
 

O presente texto não é um manifesto político ou sindical. Nada disso. Serve de introdução ao documentário “Felicidade no Trabalho”, realizado por Martin Meissonnier, em 2015. O que torna esse filme especialmente interessante é a inversão do problema. Foca-se na solução para os problemas laborais através do recurso à felicidade. Fá-lo recorrendo a vários exemplos de empresas e instituições que se modernizaram e melhoraram a sua produtividade e desempenho através dessa estratégia. Centrar o funcionamento da empresa na garantia da felicidade dos trabalhadores demonstrou ser capaz de recuperar empresas/instituições em situação difícil e torna-las casos de sucesso com o devido retorno económico para trabalhadores, proprietários e investidores.

Passemos a alguns dos exemplos que levaram ao sucesso:
• Envolvimento dos trabalhadores em todas as atividades da instituição, especialmente na decisão de funcionamento e estratégia geral;
• Organização horizontal, evitando uma fria e distante hierarquia vertical;
• Valorização do potencial e capacidades individuais dos trabalhadores, incluindo recompensas financeiras e outras vantagens quando contribuem para o melhor desempenho da instituição;
• Responsabilização e autonomia nas tarefas e funções de cada trabalhador;
• Participação na escolha das chefias, predispostas para modelos colaborativos contínuos e em melhoria constante;
• Flexibilidade nos horários, possibilidade de trabalho à distância, respeito pelo ritmo individual de cada trabalhador e trabalho orientado para objetivos;
• Sentimento de que as funções que os trabalhadores desempenham são socialmente benéficas e importantes.

Estes são apenas alguns exemplos generalistas que se podem resumir os casos concretos de empresas descritas no documentário. De notar que algumas empresas já fazem isto em Portugal, mas são exceções, pelo que seguramente haveria muito a ganhar em produtividade tal como se demonstra nos casos de sucesso identificados.

Em jeito de conclusão importa lembrar mais alguns dados que o documentário enuncia. Lembra que passamos maior parte do nosso tempo ativo a trabalhar, mais que em lazer, família e outras atividades. Que as sociedades ocidentais têm assentado numa cultura democrática e de respeito pela liberdade e individualismo, mas que nas empresas e instituições essa mudança não ocorreu. Que o choque de gerações é evidente, no caso concreto da geração Y isso é notório, em que os modelos rígidos de organização do trabalho não têm em conta as mudanças sociais e de mentalidades das novas gerações. Esses novos trabalhadores valorizam mais a flexibilidade, criatividade, independência e o propósito das funções laborais assumidas que a estabilidade e a remuneração como o principal valor para garantir a felicidade e realização no trabalho.

Tendo em conta uma realidade europeia, o documentário refere que somente cerca de 10% dos trabalhadores são felizes no trabalho. Que para 60% deles o trabalho é-lhes indiferente e que os restantes 30% simplesmente detestam o que fazem. Se os trabalhadores só atribuem ao salário cerca de um terço das razões para serem felizes, tudo o resto dependerá daquilo que já se enunciou como medidas a implementar para melhorar a felicidade no trabalho e produtividade das empresas e instituições. Trabalhadores desmotivados, stressados e contrariados não contribuem para a produtividade das empresas/instituições. No fundo é bastante simples.

Assim, o documentário comprova que compensa, tanto pela saúde psíquica dos trabalhadores como pelos ganhos económicos, apostar na felicidade dos trabalhadores, seja em que ramo de atividade for, quer seja nos sectores públicos ou privados.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa