segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Desde quando existe Espanha e desde quando deixámos de ser espanhóis?

Se quisermos ser precisos podemos dizer que Espanha existe apenas desde os finais do século XVI, somente quando Portugal foi incorporado na união política dos vários reinos da península Ibérica. Antes disso existiam os reinos de Castela, Leão, Aragão e Portugal. A história pode ser muito mais complexa que isso se recuarmos mais no tempo. Fiquemos por esta simplificação e vamos apenas recuar no tempo para encontrar a origem do termo Hispânia, que provém da herança latina, da ocupação romana da península a quem os romanos haviam chamado Hispânia. Mas antes deles os gregos já a conheciam como sendo Ibéria. Ou seja, foi somente quando todos os reinos estiveram sob a mesma suserania é que se passou a chamar a esta unidade política reino de Espanha. D. Filipe II, conhecido como Filipe I de Portugal, foi então o primeiro rei de Espanha.
 
Entrada de D. Filipe II em Lisboa
 
Aquando da Guerra da Restauração da independência portuguesa, o Conde Castelo Melhor, que foi quem dirigiu as negociações de tréguas em 1665, estando no trono o rei Afonso VI, conhecido pela sua incapacidade para governar, sempre recusou a possibilidade do Rei Filipe IV, conhecido como Filipe III em Portugal, pudesse continuar a utilizar o título de rei de Espanha. Isto porque denotava um domínio, ainda que simbólico, sobre Portugal. Mas com o tratado de Lisboa de 1668, já com Castelo Melhor afastado da liderança política portuguesa e com a morte de Filipe IV, Portugal aceitou que o rei vizinho continuasse a utilizar o título oficial de Rei de Espanha.

Este texto baseia-se num artigo [1] de João Casaca, membro concelheiro da Ordem dos Engenheiros, ele próprio engenheiro Geógrafo. O autor considera que até essa altura os portugueses, que sempre se tinham considerado como espanhóis, por habitarem na Hispânia, na mesma medida em que somos europeus por habitarmos na europa, deixaram de ser assumir e considerar como tal. Parece uma assunção discutível, mas deixa-nos a pensar seja como for.

Ainda antes da formação de Portugal há que lembrar o feito de Afonso VII de Castela que se tornou rei da Galiza, rei de leão, rei de Castela e de Toledo, e senhor por vassalagem de Aragão e do candado/marca da Catalunha, tendo sido considerado imperador da Hispânia a partir de 1135, depois de ter sido coroado imperador na catedral de Leon pelo Antipapa Anacleto II [2]. Nesta coroação não participou Afonso Henriques de Portugal. O título de imperador, que tudo indica ter sido meramente honorifico, deixaria de fazer qualquer sentido com o reconhecimento da independência do reino de Portugal pelo tratado de Zamora em 1143 e da União do reino de Aragão com os condados da Catalunha, nascendo por essa via a coroa de Aragão, totalmente formalizada em 1164 com elevação ao trono de Afonso II de Aragão [3].

Referências:
[1] – Casaca, João (2016). “A geopolítica e o corónimo Espanha”. Apontamento Histórico. In A Internet das Coisas. Revista Ingenium. II Série, n.º 154. Julho/Agosto 2016. Disponível em:
http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/publicacoes/revista-ingenium/revista-ingenium-n-o-154-julho-agosto/
[2] – “Afonso VII de Leão e Castela”. In Wikipédia. Disponível em:
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_VII_de_Le%C3%A3o_e_Castela
[3] – “Coroa de Aragão”. In Wikipédia. Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Coroa_de_Arag%C3%A3o

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Armas pré-históricas que forçaram a comunicação - Documentário: O Grande Romance do Homem

O documentário "The Book of Man", da autoria de Daniel Leconte, exibido recentemente na RTP2 com a tradução de "O Grande Romance do Homem", ensaia-se uma história da pré-história da humanidade, desde os primeiros hominídeos até ao desenvolvimento da escrita, aquele momento em que, supostamente, nasce a história: fruto dos primeiros documentos escritos.
 
Homo Erectus - Zdenek Burian
 
O documentário centra-se na linguagem humana que permite a diferenciação da espécie pela complexa capacidade de comunicar. Refere-se que a linguagem será tão antiga como o Homo Erectus, isto com base na teoria de que para produzir os primeiros bifaces seria necessário um desenvolvimento cerebral e de ordenamento do pensamento para executar esse tipo de tarefa precisa, meticulosa e fruto de planeamento, que só era viável se existissem as capacidades inerentes à linguagem. Esta visão é revolucionária, uma vez que se pensava que a linguagem tivesse surgido muito mais tarde.

Leconte refere também outra curiosidade. Partindo dos casos conhecidos de outros primatas em que a predisposição para o homicídio é real, a facilidade com que os primeiros hominídeos poderiam matar os seus semelhantes, com paus, pedras ou outros utensílios toscos mas letais, criou a necessidade de comunicar e estabelecer empatia de modo a garantir segurança, isto em espécies já habituadas a viver em sociedade. Ou seja, o comunicar poderia ser mais valioso para criar empatia e garantir segurança do que propriamente para transmitir informação.

Todas estas teorias, tal como outras que são explanadas neste documentário, salientam o  grande desconhecimento sobre a nossa pré-história. Muitas conclusões resultam de explicações possíveis carregadas de grandes doses de incerteza, mas particularmente educativas, uma vez que muito falam e tentam explicar o porquê da nossa diferenciação enquanto espécie e a origem de comportamentos que ainda hoje apresentamos e manifestamos.
 
Ver documentário:
 
 
 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tornar o tema dos resíduos urbanos um tema atrativo para os cidadãos – UrbanWINS

The meeting in Bucharest of the UrbanWINS project demonstrated how difficult is to make awareness about the challenges of the waste production. Citizens and stakeholders, in more mature democracies, didn’t participate as often was it was desirable to the Urbanwins project. There is a real challenge to make the connection with the technical issues of the model that simulates the sustainable urban metabolism used in the project and the civic engagement of common citizens. Pilot cities and all partners will have to solve this challenge, especially in more mature democracies because de waste problem may be assumed by the comunity as a non-preoccupation in those cities. Because citizens don’t suffer the problems of waste production they may be little concern about the issue, and in Portugal because de waste tax is payed indirectly in the water bill the citizens may not be warned about de production of waste in their cities.


O projeto UrbanWIns, tal como aqui já se referiu, pretende criar um modelo matemático que simule os metabolismos urbanos de modo a poder ser uma ferramenta de apoio à decisão, onde se prevê o desenvolvimento de uma metodologia participativa dos stakeholders, ou seja, da comunidade local de cada cidade e dos técnicos, entidades, organizações e todos os interessados e agentes relacionados com a questão dos resíduos, incluindo os próprios cidadãos.

O projeto está a decorrer atualmente em várias cidades piloto, sendo Leiria a representante nacional. Entre 12 e 14 de setembro decorreu uma reunião de trabalho em Bucareste, na Roménia, desenvolvida num espírito colaborativo, entre os vários parceiros do projeto. Para além dos desafios que o modelo matemático enfrenta na tentativa de simular os vários metabolismos urbanos, ficaram evidentes também as problemáticas da participação cívica da comunidade neste tipo de projetos.


Se em alguns assuntos os temas públicos geram naturalmente interesse cívico, os resíduos urbanos não parecem ser um desses casos. Podem ser várias as explicações. Talvez por a recolha funcionar relativamente bem e por terem desaparecido as lixeiras em Portugal já há muito tempo. Apesar de tudo, parece que o problema não existe e que tudo funciona na perfeição. No entanto o problema é real e estamos longe de ter encontrado uma solução para resolver todos os resíduos que produzimos. Exige-se encontrar novas soluções, pois o nosso modo de vida assume vertentes de considerável insustentabilidade. Se analisamos a pegada ecológica média portuguesa a urgência do tema não pode ser ignorada, pois consumimos atualmente 2,3 terras – ou seja se todas as pessoas do planeta tivessem o nosso nível de consumo precisamos de 2,3 planetas terra para que os recursos que consumimos em Portugal se pudessem renovar naturalmente. De facto estamos a lidar com os resíduos, mas estaremos a fazer tudo o que podemos para minimizar todos os impactes diretos e indiretos a eles associados? Será que por pagarmos a taxa de resíduos indexada à fatura da água isso contribui para não considerar o sistema de tratamento de resíduos como um custo para o cidadão e consumidor? Então e as medidas de prevenção? Falamos muito em resolver o problema dos resíduos e menos na prevenção da sua produção. Como em muitos outros exemplos: prevenir é o melhor remédio.


Outra curiosidade que se verificou do intercâmbio entre as várias cidades piloto foi a experiência de participação nos processos cívicos participativos. Concluiu-se que nos países com democracias já estabilizadas a participação dos cidadãos e dos stakeholders foi mais fraca que em países como a Roménia, com democracias mais recentes. Uma representante romena frisou que a primeira sessão de participação pública foi muito difícil de gerir por excesso de participantes, pois todos queriam poder participar e dar opinião uma vez que nunca ninguém tinha sido envolvido em processos desta natureza em Bucareste. Ficou também notória a necessidade de ajustar o processo à escala das várias cidades, uma vez que Bucareste é a única capital entre as cidades piloto.

Em breve serão realizadas mais ágoras presenciais que pretendem aprofundar o processo deliberativo e participativo do UrbanWINS. O projeto também poderá ser acompanhado nas Ágoras virtuais em: https://www.urbanwins.eu/online-agora/

Referências:
“Portugal Aumentou a sua pegada ecológica”,  Público. Disponível em: https://www.publico.pt/2017/06/04/ecosfera/noticia/portugal-aumentou-a-sua-pegada-ecologica-1774537

#UrbanWINS

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

500.000 visualizações no blogue "A Busca pela Sabedoria"

Parece incrível mas é mesmo verdade. Aqui este blogue, onde tenho vindo a depositar textos de curiosidades sobre cultural geral desde 2009 ultrapassou o expressivo patamar de 500.000 visualizações.


Muito obrigado a todos estes leitores e leitoras. Ainda que nem sempre a um ritmo tão regular como seria desejável as publicações são para continuar.
 
Fica então uma breve lista de quais os texto mas vistos ao longo destes 8 anos e mais de 500.000 visualizações em ordem decrescente:

10 - Filme: "Planeta dos Macacos: a origem"
09 - País ou Estado mais pequeno do mundo?
08 - Ciprestes - Árvores Corta-fogo
07 - O Significado da palavra Matemática
06 - Significado e origem da palavra F.U.C.K.
05 - Porque se chama Invicta à cidade do Porto?
04 - Orgasmo masculino sem ejaculação - uma lição de Quintino Aires
03 - Filme “Sem tempo” – onde literalmente o tempo é dinheiro
02 - O que é um Loby, ou em Português Lóbi?
01 - Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Transformar os jogos lúdicos em ferramentas educativas e de treino

Se consultarmos um dicionário, por exemplo a Infopédia da Porto Editora, obtemos algumas definições e referências a palavra Jogo, tais como:
atividade lúdica executada por prazer ou recreio, divertimento, distração; atividade lúdica ou competitiva em que há regras estabelecidas e em que os praticantes se opõem, pretendendo cada um ganhar ou conseguir melhor resultado que o outro; partida série de regras a cumprir numa atividade lúdica ou competitiva; conjunto de peças que permitem a realização de uma atividade lúdica […].”
Desta definição e múltiplos significados ressalta o conceito de “Lúdico”, mas também de “competitivo”. Lúdico refere-se a algo divertido que fazemos para nos alegrar e recrear, algo agradável para o ocupar o tempo. Já a parte competitiva relaciona-se com um atividade em que se tenta ganhar, individualmente ou coletivamente perante adversários que jogam o mesmo jogo, ou simplesmente melhorar determinada performance.
 
Crianças brincando - Pieter Bruegel, o velho

Em todas estas definições, neste mas também noutros dicionários, não se fazem referências direta a atributos dos jogos na vertente pedagógica e educativa, ou sequer formativos, ainda que a dimensão competitiva a que se lhe atribui considera a “melhoria de performance” em determinadas atividades. Mas todos sabemos que existem e que são utilizados jogos de vários tipos para apoio a atividades educativas. Esses jogos nem sempre são os jogos que conhecemos pela sua relevância lúdica, alguns são, enquanto jogos pouco interessantes, destacando-se apenas pelos conteúdos direcionados a que recorrem. Mas será que os jogos originalmente pensados para divertir podem ser usados também com o intuito pedagógico, conjugando o útil com o agradável?

Existe com certeza essa possibilidade. Existe um neologismo para descrever a atividade de “uso de técnicas características de jogos em situações do mundo real, aplicadas em variados campos de atividade, tais como a educação, saúde, política e desporto, com o objetivo de resolver problemas práticos ou consciencializar ou motivar um público específico para um determinado assunto”, termo conhecido em português como “ludificação” mas adotando-se habitualmente uma palavra hibrida que deriva diretamente do inglês: “gamificação” que provém do “gamification”.

Na verdade estes conceitos ainda são algo recentes e não apresentados ao grande público de forma estruturada. Existem experiências deste género e que têm vindo a ser utilizadas em formações, especialmente motivacionais e de fomento de espírito de equipa e de grupo, o “teambuilding”. Há quem leve este conceito muito mais a fundo, transformando e adaptando atividades profissionais e laborais aos conceitos habituais de design de jogos, criando recompensas, obtenção de distintivos e criar níveis a atingir que incentivam o desempenho na atividade profissional.

Mas o objetivo deste texto era centrar-se mais naquilo que o uso de jogos concebidos para fins lúdicos pode ter no desenvolvimento de competências, especialmente no nicho dos jogos de tabuleiro modernos, considerados como aqueles que são produzidos atualmente depois da revolução de design que se deu a partir dos anos 90 do século XX.

É muito comum lermos e ouvirmos referências de como os jogos de tabuleiro são excelentes ferramentas pedagógicas. Certo é que alguns educadores, professores e formadores os usam em contextos múltiplos, formais e informais. Sabemos que alguns jogos, através da experiência lúdica que proporcionam podem desenvolver nos jogadores competências tais como: concentração, observação, negociação, raciocínio lógico/matemático, dedução, gestão estratégica, velocidade de análise, reflexos e por ai fora. Mas faltam algumas ferramentas de sistematização e avaliação de jogos disponíveis no mercado, acessíveis ao comum dos utilizadores, que permitam rapidamente escolher um jogo e de imediato o começar a utilizar direcionando-o para o trabalho de determinadas competências. Tendo reconhecido essa competência decidi criar, no âmbito de outro blogue, um primeiro draft de tabela de avaliação de jogos de tabuleiro para desenvolvimento de competências pedagógicas em ambiente escolar para crianças a partir dos 5 anos.

Surgiu então esta tabela que aqui se partilha também para conhecimento público e para o caso de mais alguém quiser debater este tema. Tal como os jogos de tabuleiro podem ser utilizados para desenvolver competências que se relacionam com questões pedagógicas também podem ser utilizados noutros contextos e para outros públicos em que importa melhorar e trabalhar outras questões. Aceder à tabela aqui.

Referências bibliográficas:
“Education games”, Wikipedia, disponíl em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Educational_game
“Gamification”, Wikipedia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Gamification
“Jogo”, Infopédia, disponível em: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/jogo
What is GBL (Game-based Learning)?”, Edtechreview, disponível em: http://edtechreview.in/dictionary/298-what-is-game-based-learning

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Alemanha, alemães e os exónimos: chamar nomes estranhos aos outros

São inúmeros os povos que ficaram conhecidos por nomes pelos quais não se reconheceriam normalmente, mas que acabam por os tolerar e até adotar, ainda que as origens possam não ser as mais simpáticas. Como alguns destes processos ocorreram há séculos, depois de múltiplas aculturações, mudanças mais ou menos violentas, já ninguém os toma como insultuosos ou desadequados. No fundo, os exónimos podem ser isso mesmo, dar nomes estranhos a termos estrangeiros para os adaptar à língua própria, mesmo que nada tenha que ver com o original.
 
Idun and the Apples - James Doyle Penrose

Um desses casos prende-se com a etimologia da Germania que para nós portugueses, é conhecida como Alemanha. Pegando apenas em algumas entradas da Wikipédia, devidamente referenciados, e outros textos de especialistas, podemos fazer um pequeno exercício de curiosidade sobre a origem do nome desse povo e dessa terra que conhecemos por alemães (ou germânicos) e Alemanha (ou Germânia).

Existem várias alternativas, umas mais rebuscadas que outras, mas todas elas igualmente interessantes. O objetivo aqui não é encontrar a mais correta, até porque pelas fontes não existem certezas absolutas, mas fazer um apanhado das várias possibilidades e refletir sobre as várias possibilidades.

A primeira hipótese é de que “Germanus”  e o plural “Germani” em latim surgiram a partir de “gérmen”, que significa semear ou disseminar, sendo utilizada também com o sentido de “parente” ou “aparentado”. Esse termo terá sido primeiro utilizado em 223 a.C. na inscrição Fasti Capotolini “Galleis Insvbribbus et Germ”, que pode ser traduzida por “povos próximos ou relacionados com os gauleses”. Também por influência de exônimo (que consiste numa tradução de um nome próprio para um língua estrangeira) celta o termo parece ter significado simplesmente “vizinho”. Em Irlandês antigo “vizinho” dizia-se “gair” e em galês “ger”, que apontava para a noção de “próximo”. Por outro lado, em Inglês “gash” significava “corte ou arranhão”, derivando dos proto-indo-europeu: “Khar”, “Kher”, “Ghar”, “Gher”. Esta última hipótese já aponta para uma relação com termos militares e bélicos.

Tácito parece ser o único autor antigo a sugerir que a origem do nome “germânico” remontasse ao nome de uma antiga tribo que durante o domínio romano havia mudado de nome, embora não existam mais provas do que a mera referência do autor. Já Estrabão associou os povos bárbaros do norte da Europa que não eram Celtas a descrição de “germânico”. Mas foi Posidónio o primeiro a utilizar o nome, por volta de 80 a.C. no seu livro n.º 30. Sabe-se desta referência pela citação do 4.º livro de Ateneu, que em cerca de 190d.C. citou Posidónio: “Os Germani à tarde servem à mesa carne assada com leite, e bebem seu vinho não diluído”. [1].

Sem dúvida que “Germano”, ou “German”, era o apelido usado por gauleses e romanos para designar os povos do outro lado do Reno. Mas existe outras possibilidades para a origem dessa palavra. Da composição de “ger”, que significaria lança,  surgem os “homens da lança [4]”. Outra possibilidade, embora aparentemente menos direta, é a da palavra “Wermann”, relacionada “War” em inglês e que provém do velho “ger” de origem indo-europeia. De índole militar surge “Germanus” em latim e “Guerra” como palavra de adaptação para os galo-romanos, que já teriam utilizado o termo antes dos romanos para os seus “vizinhos” [2]. O termo “alemães” deriva do baixo latim, “alamanus”, tomado do "Alemannen" em germânico que era uma das etnias dos povos germânicos que vivia no sudoeste do atual território Alemão, podendo significar “homens estrangeiros” também [3].

Segundo Johann Zeuss, em irlandês antigo, “gair” significava “vizinho”. Por seu lado, Eric Patridge sugere que “gar” ou “govin” significava “gritar”, defendendo que a teoria de relacionamento com “ger”, a lança, estava obsoleta [4], e que a origem da palavra estava então no termo “homens barulhentos” [5]. Outra possibilidade é a da relação com ganância “greed” [5].

São então várias as possibilidades. Para os restantes povos, os germânicos poderiam bem ser aqueles vizinhos barulhentos que andam armados com lanças, sempre preparados para a guerra. Talvez por isso os alemães não usarem nem os termos de origem alemã nem germânica e optarem por Deutsch que em germânico antigo significará qualquer coisa como “do povo“ ou “popular“. Ou seja, o mais correto será mesmo utilizar o termo Deutsch e Deutschland pois estes termos parecem ser menos exónimos, ou seja, traduções de outras línguas que nem sempre são muito simpáticas e adequadas a descrever e identificar quem descrevem. Colocando-nos atualmente no papel dos alemães, parece credível que gostem mais de ser conhecidos como „vizinhos“ do que como „homens das lanças“, sendo que „povo“ sempre parece muito mais neutro.

Referências bibliográficas:
[1] “Germanos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Germanos
[2] BOSWORTH, Joseph. (1836). The Origin of the English, Germanic, and Scandinavian
Languages and Nations: With a Sketch of Their Early Literature and Short Chronological Specimens ... from the Moeso-Goths to the Present Time,

[3] “Germanicos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alem%C3%A3es
[4] “Names of Germany”, Wikipédia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Names_of_Germany
[5] PARTRIDGE, Eric (1958). Origins: A short etymological dictionary of modern engkish. Routledge.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Como os bancos criam moeda virtual e a alternativa do Bitcoin

No documentário ”Bitcoin: O fim do dinheiro como nós o conhecemos”, da autoria de Torsten Hoffmann, faz-se uma breve introdução à história do dinheiro, mas o objetivo é projetar no futuro como será o sistema monetário e financeiro. No documentário é abordado conceito de moeda virtual conhecido como Bitcoin, que permite criar um modelo monetário internacional sem intervenção estatal nacional e bancário, em teoria imune a criação descontrolada de moeda fiduciária (que depende apenas da confiança que nela se deposita). Ou seja, apesar do Bitcoin ser uma moeda virtual permitiria controlar a multiplicação de dinheiro virtual no sistema financeiro internacional, basicamente porque evita replicação de crédito para além da quantidade de moeda preestabelecida. Ou seja, ao contrário de um banco, que pode emprestar dinheiro que não tem de facto, criando artificialmente nova moeda na economia, com o Bitcoin implementado de forma generalizada tal não seria possível, pois o dinheiro só é transferido se existir ainda que seja um número virtual. Isto pode parecer estranho, mas vamos aprofundar um pouco mais esta temática, com base nas informações presentes no documentário já referido.
 
Mercadores a contar dinheiro - Salomon Koninck

Os Estados, desde o momento em que abandonaram a relação com o padrão ouro das suas moedas, podem emitir a quantidade de moeda que entenderem, sendo que os limites são apenas definidos pela reação do sistema financeiro a essa emissão de moeda. Ou seja, não necessitam de ter essa quantidade de dinheiro a circular na economia equivalente ao ouro nas suas reservas nacionais, basta haver confiança de que aquele papel ou metal vale o que nele se inscreve, daí o termo fiduciário que é um sinónimo de “confiança”. Habitualmente são os indicadores de inflação e deflação que levam à produção de moeda, tal como da confiança dos seus utilizadores. Se existe inflação e aumento dos preços evita-se produzir mais moeda pois é uma forma de impedir que o dinheiro circulante desvalorize e os preços aumentem ainda mais. Por outro lado, com a deflação produz-se mais moeda, de modo a desvaloriza-la, encorajar o consumo e evitar que se acumule dinheiro com a espectativa de ganhos futuros, uma vez que o dinheiro acumulado tende a valer menos com cada nova emissão de moeda. Simplesmente deixa de compensar ter o dinheiro “parado” e os detentores de capital são impelidos ao investimento. A tudo isto, tanto pela via da inflação e deflação, tem uma relação com a especulação financeira, uma vez que existe grande imprevisibilidade pela complexidade destes sistemas que são altamente reativos.

Neste documentário de Torsten Hoffmann refere-se também o efeito dos bancos que, ao acumularem e emprestarem dinheiro, através dos saldos negativos, criam moeda artificial na economia. De modo simplificado: se um banco tem mais dinheiro em crédito do que tem na realidade em depósitos e ativos acaba por colocar mais moeda em circulação na economia do que realmente deveria existir. E este fator multiplicativo pode ser grande se o pensarmos enquanto sistema de depósitos, investimento e empréstimos em que o mesmo dinheiro é continuamente investido e emprestado na forma de dívida que pode não corresponder aos ativos e onde existem múltiplos lucros potenciais relacionados com algo que na prática não existe.

Em teoria, segundo os defensores do Bitcoin, um sistema económico com base nesta moeda poderia ser menos propenso a crises e a bolhas especulativas. Seria supostamente mais estável, ainda que os Estados perdessem parte dos seus meios de intervenção na economia através da manipulação da moeda. Paradoxalmente, seria um sistema altamente restritivo mas incrivelmente liberal pois impedia a intervenção estatal. Ou seja, seria liberal e restritivo em simultâneo, virtual mas real por não crescer descontroladamente.

Não sou economista e muito menos especialista em sistemas financeiros e bancários, mas o documentário é interessante para explorar estas questões e para tentarmos perceber a complexidade do sistema financeiro e monetário que utilizamos todos os dias, tal como perceber que existem alternativas ao dinheiro, tal como o conhecemos.
 
 
 

 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Venezuela: a pequena Veneza?

A versão mais comum para a etimologia do nome Venezuela remete para uma associação que os primeiros exploradores terão feito com a cidade de Veneza. Quando os primeiros exploradores entraram no lago Maracaíbo em 1499 Américo Vespúcio associou as casas construídas sobre estacas de madeira de Palafintos do povo Añu, elevando-as acima do lago, às construções da cidade de Veneza. Assim a zona ficou conhecido como “Pequena Veneza” que em italiano se forma pela adição do sufixo de diminutivo dando origem à palavra “Venezuela”.
 
Arturo Michelena - Ataque aos Barcos
Fonte: http://www.theequinest.com/arturo-michelena-2/

Mas existe uma outra versão, segundo Martin Fernández de Enciso que afirma na obra Summa de Geografia de 1519 que junto ao logo existia uma rocha plana sobre a qual estava edificada um povoado indígena conhecido como Veneciuela.

Assim, o nome Venezuela pode ser nativo ou não, pois não se sabe se o nome atribuído ao povoado situado na tal rocha se relaciona ou não com a associação de Américo Vespúcio a Veneza do primeiro povoado que terão encontrado anos antes.

Estas origens etimológicas levantam questões interessantes sobre a história e afirmação dos povos. Será que os descendentes dos indígenas aceitam este nome? Será que não deixa ainda amarras perante um colonialismo? Mas, ao mesmo tempo, os atuais venezuelanos também são, na esmagadora maioria, descendentes de não-nativos, se é que isso hoje ainda tem algum significado.

Na construção dos nacionalismos e identidades coletivas existem processos de criação e invenção de símbolos, narrativas e cultura que podem ser modificados. Outros países mudaram os nomes que se alicerçaram com o colonialismo, outros parecem querer manter essa herança histórica.
 
Referências:
Venezuela, New World Encicplopédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível:
http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Venezuela
Venezuela, Wikipédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Venezuela

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária

Há pouco mais de um ano publiquei aqui no blogue um texto sobre teoria do decrescimento económico, a propósito de um livro de Serge Latouche: Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária.
 
Há cerca de um mês a RTP1 exibiu um documentário que aborda o mesmo tema e onde Serge Latouche participa como um dos especialistas entrevistados no documentário. O documentário "Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária", da autoria de Luís Picazo Casariego e Manu Picazo Casariego, está disponível no youtube e pode ser visto devidamente legendado e com narração em português.
 
Numa altura em que os EUA põem em causa os acordos ambientais de Paris as teorias do decrescimento parecem ser ainda mais revolucionárias, mas será que temos alternativa? Como poderemos resolver o problema do excesso do consumo de recursos naturais, que exaurem o planeta a um ritmo superior à sua capacidade de renovação? Como poderemos fazer para manter o nosso nível de vida, especialmente se os países mais pobres atingirem o nível de consumo dos países mais ricos?
 

 
 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quando um jogo de tabuleiro contribui para um projeto colaborativo sobre metabolismo urbano: Urbanwins e Dixit


Penso que já todos ouvimos e lemos muitas referências ao uso de jogos de tabuleiro modernos em contextos não lúdicos, até em empresas, aplicados a dinâmicas orientadas para as suas necessidades e atividades. Este texto não aborda essas imensas possibilidades, mas apenas um caso muito concreto de aplicação real em Leiria.


A propósito de um projeto da União Europeia, que está a decorrer em Leiria, chamado UrbanWins, surgiu a necessidade de animar as sessões colaborativas públicas locais. Do guião e indicações de orientação constava a necessidade de criar algum tipo de atividade para fazer “desbloquear” os participantes.

As sessões de trabalho públicas cooperativas do projeto UrbanWins pretendiam envolver vários cidadãos locais, técnicos e não técnicos. Os participantes que se inscrevessem nas sessões de trabalho destinadas a abordar o tema do metabolismo urbano, dos resíduos e demais assuntos relacionados, seriam alocados a várias mesas de trabalho. Nelas iriam encontrar, seguramente, muitos desconhecidos. Havia necessidade de desbloquear e incentivar as pessoas a falarem um pouco de si e do tema em causa, antes de partir para a metodologia colaborativa propriamente dita do projeto.

Foi para este momento de preparação e desbloqueamento que surgiu a ideia de utilizar cartas do jogo Dixit. À entrada do espaço em se realizou o evento, depois de cada participante receber, de forma alectória, indicação da mesa em que se iria sentar, havia um painel disposto com várias cartas do Dixit Odissey. Cada participante foi convidado a escolher uma carta do seu agrado, sem qualquer sugestão ou outra orientação.

Depois de todos os participantes estarem devidamente sentados o condutor da sessão pediu para que cada pessoa se apresentasse e explicasse se havia alguma relação entre o tema a tratar e a carta que cada um havia escolhido. De notar que os participantes não sabiam o intuito da escolha da carta.

De um modo geral, quase todos os participantes disseram que escolheram a carta de forma aleatória, mas de imediato conseguiram fazer uma leitura e análise da sua escolha, encontrando uma justificação de cariz ambiental para a sua opção subjetiva e supostamente aleatória. Afinal as escolhas não tinham sido assim tanto ao acaso. Afinal havia sempre uma relação, mesmo que inconsciente, com o tema a tratar. As cartas, com os seus desenhos surrealistas, permitiram explorar a subjetividade de cada participante e iniciar o processo criativo que se queria depois potenciar posteriormente na sessão propriamente dita do Urbanwins, direcionada para os temas do metabolismo urbano e ambiente urbano.
Nota: para conhecer as atividades que se realizam em Leiria envolvendo jogos de tabuleiro modernos basta seguir a página do Clube de Boardgamers de Leiria.
#urbanwins #dixit #boardgamersleiria

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa