quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Nova vaga de jogos de tabuleiro Modernos – Sinais do pós-modernismo?

Em setembro de 2016 o jornal “The Guardian” [1] anunciou que iria dedicar uma coluna mensal a jogos de tabuleiro. Isto poderá parecer surpreendente e inexplicável ou apenas mais uma tendência/moda passageira.

Bem, não saberemos se será algo efémero, mas tudo aponta no sentido contrário. Então vejamos alguns dados. No EUA as vendas subiram entre 25 a 40% desde 2010.  Se em 1991 se estimava que a indústria representava 1.2 biliões de dólares, em 2013 somente o mercado alemão rondava os 375 milhões de euros. Em 2015, só nos EUA, representava 900 milhões de dólares [2;3]. Estamos a falar de números muito consideráveis, especialmente porque apresentem taxas de crescimento impossíveis de ignorar.
Batoteiro com o Ás de Ouros - Georges de La Tour

 Atualmente a Alemanha é o mercado com maior taxa de vendas por pessoa, tal como o berço do “Eurogame”. Este tipo de jogo, cujo exemplar mais conhecido internacionalmente é o “Setlers of Catan” [4], distingue-se pela redução do conflito entre jogadores, pela valorização da estratégia e da eficiência. Este estilo opõe-se aos jogos de inspiração americana, denominados de “Ameritrash”, mais conflituosos, aleatórios e alicerçados numa narrativa, do tipo “role play” altamente interativa [5]. Entre os dois estilos principais, se é que é correcto usarmos estas definições de modo absoluto, existem muitos híbridos e outros que dificilmente conseguimos caracterizar, pois os jogos de tabuleiro modernos podem assumir muitas formas e recorrer a muitas mecânicas, materiais e conceptuais. Para além da gestão estratégica competitiva, existem jogos cooperativos, de destreza, memória, teste de sorte, narração, simulação de aventuras, dedução e até os mais físicos. Depois existem outros que misturam tudo. Ao nível do formato podem ser de cartas, dados, peças móveis, em plástico, madeira, papel ou misturando tudo com adereços originais. Podem ser enormes ou caber no bolso, necessitar de escrever bastante ou até recorrer a uma aplicação de telemóvel. Podem demorar 5 minutos ou horas a fio a jogar. Também há jogos para todas as idades, jogados preferencialmente por determinadas faixas etárias ou misturando todas as pessoas.

Os temas dos jogos são inesgotáveis: economia, agricultura, política, história, geografia, aventura, fantasia, exploração, natureza, situações absurdas e divertidas, recriação de livros, filmes ou séries famosos, ou então sem tema, completamente abstratos. Talvez o melhor local para perceber a escala do que refiro é o sítio da internet https://boardgamegeek.com/ que desde 2000 acumula preciosa informação sobre o mundo dos jogos de tabuleiro.

Então e por que raio centenas de milhares de pessoas se deslocam a convenções de jogos de tabuleiro,um pouco por todo o mundo, mas especialmente na Alemanha e nos EUA? Porque se gastam milhões de dólares e euros na compra dos milhares de títulos de jogos lançados anualmente? Porque existem tantos blogues, sítios da internet e youtubers a tratar o tema? Porque abrem “boardgame cafés”, experiências de férias, pousadas e eventos de turismo, grupos e clubes de jogadores de jogos de tabuleiro por todo o lado, incluindo Portugal?

Não deveria a era digital ter destruído os jogos de tabuleiro?

De forma imprevisível aconteceu exactamente o contrário. A Internet permitiu aproximar e divulgar a comunidade de jogadores de jogos de tabuleiro, fomentando a troca de informação, em todos os formatos, à distância. Veio facilitar a organização dos eventos presenciais e a divulgação dos jogos. As novas tecnologias são também potentes ferramentas de apoio ao desenvolvimento dos jogos, que se tornam cada vez mais apelativos e diversificados. O networking tem valido a jogadores e designers, mas também se tornou mais fácil produzir e comprar à distância, para depois jogar presencialmente.

É na dimensão presencial que os jogos de tabuleiro vão ganhando pontos à concorrência. O consumo massificado de dispositivos digitais, tanto em contexto profissional como em lazer, tem levado grupos crescentes de pessoas a procurar alternativas, desligando a ficha e os ecrãs. A conjugação da procura pelo convívio presencial, longe desses dispositivos digitais, com a melhoria da qualidade e oferta dos jogos de tabuleiro criaram as condições perfeitas para estarem cada vez mais pessoas nestas reinventadas mesas de convívio.

A tudo isto se soma o potencial de desenvolvimento cognitivo e de sustentabilidade ambiental. Estes jogos são excelentes para aprender e desenvolver competências de forma indirecta, através de momentos de convívio e lazer. A aplicabilidade em contexto educativo e formativo é imensurável, tal como em ferramentas de intervenção social e fortalecimento da sociabilidade entre famílias, grupos e comunidades.
Nem se falou da riqueza da interação social que permitem este tipo de jogos. Imensas experiências sociaias e psicológicas podem ser feitas através destes jogos. Mesmo para um leigo, uma experiência de jogo é sempre uma oportunidade para conhecer e explorar o comportamento humano, mesmo que de forma indireta e não sistematizada. São muitas as referências pela Internet de que Platão tenha dito: "Podemos descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de jogo do que num ano inteiro de conversação". Não existe qualquer referência para afirmarmos que o famoso filósofo tenha dito tal coisa, até porque é contraditória à dialética que defendia, no entanto a frase dá que pensar e quem já experimentou vários jogos sabe que existe alguma verdade nisto [6].
Se invocarmos a "Teoria dos Jogos" [7] então os jogos de tabuleiro passam para um outro nível de compelxidade e utilidade, mas o artigo já vai longo.

Por tudo isto, parece-me que os jogos de tabuleiro modernos estão para ficar, pois têm-se adaptado e fomentado experiencias valiosas na era do domínio digital à distância. Aqui está um fruto dos nossos tempos, quem sabe um ato materializado colectivo do nosso pós-modernismo intrínseco, por vezes inconsciente.

Nota: No blogue www.jogosnotabuleiro.blogspot.com podem encontrar textos de opinião, curiosidades e reviews sobre jogos de tabuleiro, sendo o autor aqui de "A Busca pela Sabedoria" coautor também desse espaço.

Algumas referências e fontes
[1] - https://www.theguardian.com/lifeandstyle/board-games
[2] - https://en.wikipedia.org/wiki/Board_game#cite_note-32
[3] - https://infogr.am/board_game_statistics
[4] - http://archive.wired.com/gaming/gamingreviews/magazine/17-04/mf_settlers?currentPage=all
[5] - https://boardgamegeek.com/thread/780739/best-definitions-ever-eurogame-ameritrash-and-warg
[6] - http://www.mesacc.edu/~davpy35701/text/plato-things-not-said.html
[7] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_dos_jogos

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

O fim da Moralidade e o início da Idade Moderna

Determinados marcos históricos, mais ou menos dilatados no tempo, são recorrentemente utilizados para definir as grandes eras ou idades históricas. Assumem-se eventos, movimentos e mudanças várias para fazer essas divisões. Algumas são imensamente difíceis de fazer, se não todas mesmo, pois acabam por ser delimitações artificiais do tempo, que é composto por acontecimento interrelacionados não lineares. Como ler continuidades, parcelarmente, é muito mais fácil, dificilmente podemos escapar a estas metodologias.
Soutine - Carcaça de Carne

O início da Idade Moderna pode definir-se de forma diferente consoante a temática histórica que se esteja a analisar. O mais comum é ditar o fim da Idade Média com a queda de Constantinopla, em 1453. Mas, por exemplo, para a filosofia a divisão pode ser diferente. Roger Scruton refere-se a Descartes como o paladino do pensamento racionalista, abrindo assim o pensamento filosófico à modernidade, já em pleno século XVII.

Mas do ponto de vista político podemos dizer que a visão moderna terá surgido com Maquiavel e Hobbes. Apesar da diferença de décadas entre ambos, referem-se à natureza humana, modo de governo e organização política segundo novos princípios. No início do século XVI Maquiavel justifica no seu tratado “Príncipe” que todos os meios são legítimos para atingir determinados fins políticos, ignorando entraves morais, desde que não se ultrapasse o ódio à governação. A eficiência e sucesso governativo destes princípios deitavam fora toda a herança moral religiosa e filosófica. Curiosamente há quem considere que Maquiavel estava apenas a ser irónico.
 
Já Hobbes, no século XVII na sua obra “O Leviatã”, refere-se à natureza humana como egoísta e autodestrutiva, pelo que se justificava a imposição de um poder supremo. Ou seja, a humanidade é despida de visões idílicas e deve ser submetida para que se consiga alguma forma de estabilidade e convivência, mesmo que usando de força e violência quando necessário. De notar que Hobbes viveu num dos períodos mais conturbado da história de Inglaterra, de guerra civil, violência e intolerância.

Mais tarde Rousseau, ainda que divergindo no método e premissas, segue quase pelo mesmo caminho de Hobbes, reforçando a necessidade do contrato social. Contrato esse que surgia da necessidade de contrariar a degradação e corrupção natural das sociedades mais desenvolvidas. Para Rousseau o homem era puro e bom no seu estado natural – a teoria do bom selvagem. A única alternativa para o bom governo das sociedades modernas seria instituir um “contrato social” entre membros da comunidade e sistema de governo, pois a moral não era suficiente para garantir a coexistência. Rousseau foi já um dos percursores do iluminismo, onde as luzes da razão se espalhavam pelos círculos das elites.

Pode não parecer, mas estas mudanças foram revolucionárias. Desaparecem as noções de moralidade e ética inatas à humanidade, capazes de construir um éden na terra. O conceito de influência ou influências divinas é também descartado. Revoluciona-se e aplicação um novo racionalismo social e político. Hoje chamamos-lhe pensamento (ou filosofia) político e social da Idade Moderna. Mas terá sido mesmo o principio do fim da moralidade e ética política?

Referências bibliográficas:
ROBINSON, Dave & GROVES, Judy – Introducing Philhosophy – A Graphic Guide. Londom: Icon Books, 2007.
SCRUTON, Roger – Breve história da filosofia moderna. Lisboa: Guerra & Paz, 2010.
SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir.) – História Universal. 10 Volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Como a erva mudou a humanidade

Tendemos a minimizar a importância da erva, parece uma coisa comum, sendo por vezes até incómodo quando se trata de ervas daninhas. Mas as ervas, ou mais correctamente as gramíneas, foram muito importante para a evolução e história da humanidade. Podemos mesmo dizer que sem ervas não haveria humanidade como a conhecemos hoje.
 
Campo de Trigo - Silva Porto
Há cerca de 2.5 milhões as grandes planícies dominadas por espécies de gramíneas, ou seja, de ervas, começaram a ocupar áreas consideráveis do globo. Terá sido por essa altura que surgiu a espécie “Homo” e daí em diante todas as suas ramificações. As novas paisagem, dominadas pelas novas espécies vegetais, obrigaram a adaptações das restantes espécies animais. Para os “homos”, nossos antepassados, surgiu a necessidade de deslocação sobre duas pernas, garantindo segurança e visão acima das “ervas”.

Curiosamente, milhões de anos mais tarde, os atuais humanos, homo sapiens sapiens, por volta de 10.000 A.P., desenvolveram a agricultura. Cultivaram novamente gramíneas: trigo, centeio, aveia, etc. Foi a agricultura que permitiu desenvolver civilizações, as grandes cidades, a escrita, a organização política e a complexidade da organização social, dos cultos e do conhecimento.

Será também das estepes, das grandes pradarias euroasiáticas, que surgiram hordas de povos nómadas que destruíram, conquistaram e se fundiram com as civilizações, criando ciclos de ascensão e declínio ao longo da história, especialmente no Norte de África, Médio Oriente, Oriente e Europa. Estes povos são repetidamente registados, ao longo da história, pelas civilizações que com eles lidaram com vários nomes. Os registos arqueológicos comprovam estas mudanças, invasões, assimilações e adaptações. Talvez os mais conhecidos sejam os Hunos e os Mongóis, mas centenas de anos antes, e não milénios, há registos de grandes distúrbios também causados por povos invasores sobre as civilizações estabelecidas, especialmente a partir do advento da domesticação do cavalo.

Mais tarde, já depois da Idade Média, aquando da colonização dos continentes americanos, as “ervas” entram novamente em cena, contribuindo para o comércio triangular atlântico que iria moldar a história das américas e o comércio mundial. Os europeus criaram o comércio triangular entre Africa, Améria e Europa, sendo que a produção de cana-de-açúcar levada para as américas e produzida com mão-de-obra escrava africana foi essencial nesse processo. Hoje o açucar tem uma importância incontornável na nossa civilização, isto para não dizer que somos viciados em açúcar.

Assim, tendo aqui ignorado imensos casos e influências, pois daria um texto imensamente logo e moroso, fica um breve registo de como as “ervas” nos influenciaram e continuam a influenciar.

Algumas referências bibliográficas:
  • AMARAL, Ferreira do – Os filhos de Caim e Portugal: povos e migrações no II milénio a. C. Lisboa: Quetzal, 2003.
  • KEEGAN, John – Uma história da Guerra. Lisboa: Tinta da China: 2006.
  • SOLAR, David & VILLALBA, Javier (dir) – História Universal. 10 volumes. Amadora: Círculo de Leitores: 2007.
 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O Marketing Territorial é diferente do Marketing Empresarial ou Institucional

O Marketing territorial tem vindo a crescer enquanto subdomínio do marketing, sendo utilizado na gestão de territórios. Mas este tipo de marketing difere do marketing empresarial ou institucional. Os territórios, pelas suas características, são muito diferentes das empresas e instituições,  exigindo abordagens diferentes.
 
As grandes banhistas - Cezanne

Se numa empresa pode facilmente existir uma estratégia bem definida, assumida por uma liderança forte, com capacidade de decisão e operacionalização em todos os domínios da empresa, nos territórios tal é praticamente impossível de acontecer. Os territórios são sistemas iterativos complexos, de múltiplos atores e recursos, onde uma determinada liderança tem cariz político democrático. Aas próprias empresas e isntituições são atores importantes dos territórios.

 A gestão dos territórios está muito mais condicionada do que a gestão de uma empresa, pois, no segundo caso, não existe obrigação do estabelecimento de modelos democráticos. Apesar de tudo, nas sociedades que vivem em regimes democráticos, empresas, famílias e órgãos colegiais de especialistas técnicos, a título de exemplo, tendem a ser pouco democráticos nas suas práticas e organização perante o peso da propriedade, da tradição e do conhecimento.

Para as empresas será possível criar missões e culturas comuns. Mas nos territórios existem vários atores com diferentes interesses, por vezes contraditórios. Sobre os territórios podem coexistir várias culturas e subculturas, com os seus múltiplos interesses e valores, mesmo nas zonas menos cosmopolitas. É necessário um esforço adicional, respeitador da cidadania e igualdade de diretos, para além dos requisitos legais exigidos às empresas quando se gere um território.

Os territórios podem ser muito variados e heterogéneos, dificultando a identificação dos recursos e produtos a potenciar. Sempre que se pretende seguir uma determinada estratégia é necessário o envolvimento e aceitação da população para determinado objectivo de desenvolvimento territorial. Para além dos indivíduos, existem sobre os territórios outras entidades colectivas, capazes de mobilização e influência. Estas entidades podem ser também muito diversas: políticas; cívicas; técnicas; etc.

O facto dos territórios serem geridos pelo poder político, tendo em conta que este assenta num modelo democrático, surgem fortes probabilidades de mudanças imprevissíveis nas lideranças territoriais, inviabilizando a implementação de estratégias e planeamento a longo prazo.

Assim, os processos de marketing territorial, com o objectivo de potenciar o desenvolvimento de determinados territórios, independentemente da área de actividade ou objectivo final definido, têm sempre de nascer de processos inclusivos de cidadania, assentes em sólidas práticas democráticas. Caso contrário será impossível definir uma estratégia de atuação sólida e muito menos aplica-la a médio e longo prazo.

 
Referências bibliográficas:
 
FIGUEIRA, Ana Paula - Marketing territorial - uma nova dimensão do marketing. Estarreja, Mel Editores, 2011.
 
GINSBORG, Paul - A democracia que não há - que fazer para proteger o bem político mais precioso de todos os tempos. Lisboa: Editorial Teorema, 2008.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Depois de Hitler (After Hitler) - um documentário sobre o lado negro do pós-guerra

No documentário "After Hitler" de David Korn-Brzoza e Olivier Wieviorka, de 2016, recuperam-se imagens e registos pouco conhecidos do pós 2.ª Guerra Mundial. É muito comum, quando se estuda a história do século XX ignorar o modo como se reorganizou a europa e se deu a "desnazificação". Habitualmente, até nos livros de história do ensino secundário para os alunos de humanaidades, a sequência é direta. Depois da Guerra Mundial, numa descrição genralista e pouco pormenorizada das desnazificação, surgem as tensões entre aliados e soviéticos, manifestadas por discursos de Churchill, Estaline e Truman que, depois levariam à Guerra Fria.
 
Fonte da imagem: https://www.zed.fr/en/tv/distribution/catalogue/programme/after-hitler
Mas existe um período negro que parece querer ser escondido, talvez por ser incómodo para os vencedores aliados. Com a derrota alemã a europa ficou profundamente desorganizada. Respondeu-se com violência às violências da guerra. Judeus continuaram a morrer nos campos de concentração, enquanto outros continuavam a ser chassinados por populações claramente instrumentadas por ódios antigos e antisemitismo, mesmo do lado "aliado". Deu-se uma caça às bruxas com execuções sumárias e populares dos antigos colaboracionistas nazis. Comunidades germânicas em paises do centro da europa, que residiam nesses territórios há séculos, foram expulsas e massacradas. Muitos alemães comuns e seus descendentes foram executados em grupo, à semelhança do que faziam os nazis na suas limpezas etnicas. Foi permitida a escravatura da população alemã por parte dos aliados como modo de castigo e recuperação dos destroços de guerra causados. Deu-se um exodo massivo na europa com milhões depessoas em movimento em todos os sentidos, pois as delimitações feiteiriças nunca tinha sido capazes de delimitar e definir no território a diversidade das comunidades etnicas e nacionais Mesmo entre os aliados deram-se violências e exenofobias várias.
 
A guerra fria haveria de transformar os inimigos em aliados e os aliados em inimigos. Tudo mudou rapidamente e a memória do passado parecia ser apagada ou relembrada sempre com violência.
 
"After Hitler" é um daqueles documentários importantes para conhecer a história recente da Europa e refletir sobre o seu futuro.
 
 


 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Morte Negra - Um filme de ação credível sobre a Idade Média

Morte Negra pode parecer, à primeira vista, um filme de terror. É assustador, não por ser feito para esse fim, mas porque retrata uma época da história da europa hoje inimaginável.  Este filme de Christopher Smith conta com um elenco de atores bastante conhecidos e reconhecidos pela qualidade das suas performances em filmes de época. Sean Bean, Eddie Redmayne, Tim McInnemy, Carice Van Houten entre outros. As interpretações não dececionam, contribuindo para a credibilidade e realismo próprio do filme.
 

É essa credibilidade que eleva este filme acima de tantos outros filmes de acção de cariz histórico. Trata-se de uma história inserida no contexto das grandes pestes que assolaram a europa durante o século XIV, época conhecida como o período da Peste Negra. Não se pense que é um documentário. Obviamente tem as suas falhas, mas comparado com outros filmes este tem mais interesse do ponto de vista histórico.

O mais difícil de recriar nos filmes ditos históricos são as mentalidades, pois tendemos a representar épocas passadas segundo os nossos valores e princípios contemporâneos. Nota-se uma preocupação neste filme, apesar de ser direcionado a um público generalista, para com a profundidade das personagens e para o enquadramento histórico geral. As personagens são complexas, atormentadas, fruto da época em que vivem. A obra não escapa a alguns clichés, mas enriquece os espectadores com pormenores que não dececionam um publico mais exigente quanto aos conteúdos.

Sem desvendar o enredo seguem-se alguns exemplos. O guarda-roupa está bem conseguido, com distinção nas roupas e armamento entre as ordens sociais e hierarquias. O cavaleiro representante do bispo tem espada e uma armadura coerente, enquanto os restantes mercenários recorrem a armamento variado, usado e de menor qualidade.  Há alguma coerência na organização da aldeia descrita. O facto de existirem territórios pouco desconhecidos, quase bravios, que escapam ao poder feudal e eclesiástico é também verossímil. Na idade média o poder laico e eclesiástico tinha deveras dificuldades em controlar determinados territórios, tanto pela falta de meios e limitações técnicas, como pela própria organização em que se fundava.

A razão pela qual o filme tem passado quase despercebido e ter recebido algumas avaliações pouco positivas pode estar relacionado com o seu realismo. Morte Negra mostra o lado negro do cristianismo, da igreja e do radicalismo religioso medieval. Aborda a credulidade humana e regista episódios assustadores, próprios de uma época violenta onde a religião e a superstição amplificaram a crise de saúde pública provocada pelas pestes.
Provavelmente o título poderá ter contribuído para alguma confusão nos públicos para os quais o filme foi pensado. Não se trata de um filme de terror. Sendo um filme de ação não tem a sequência de ação por vezes apreciada. O fim pode ser surpreendente. Tal como o público que goste de uma recriação mais soída seja também afastado pelo título e pelo modo "hollywoodesco" com que o filme é apresentado.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Castro de Monte Mozinho – O génio da adaptação romana à geografia física e humana

Existe um tesouro arqueológico em Penafiel herdado da ocupação romana do território português. Este e outras preciosidades arqueológicas e da história nacional tiveram direito a destaque na série de documentários “Escrito na Pedra”, da autoria de Júlia Fernandes e recentemente exibidos na RTP2. Trata-se do castro de Monte Mozinho.

Fonte da imagem: http://www.cm-penafiel.pt/

Os vestígios desta povoação são particularmente curiosos. Uma vista aérea poderá levar os mais imaginativos aficionados da ficção científica a identificar o desenho de uma nave espacial – houve que dissesse que parecia o Millenium Falcon da saga Star Wars. Mas o sítio é especialmente curioso por ser um castro construído por romanos.

Os castros eram as povoações fortificadas de origem antiga, reconhecíveis nos povoados celtiberos da península, associados à Idade do Ferro. Constituíam-se em locais elevados, aglomerando casas de planta circular e telhados de colmo, defendidas por muralhas simples. Ou seja, com a romanização este tipo de ocupação foi sendo abandonada e a população indígena começou a adotar o modelo urbano romano, de planeamento em malha quadrangular, a ortogonalidade do cardo-decumanos, centralidade do fórum, praças e outros edifícios públicos. Importantes foram também as vilas - edificações centralizadoras que organizavam latifúndios e áreas de exploração do território rural, semelhantes a quintas de grandes dimensão e que poderiam ser imensamente ricas e autossuficientes.

Mas o Castro de Montezinho foi construído pelos romanos no século I. d.C., sendo ocupado até ao século V da nossa era. Não se trata da romanização de uma povoação mais antiga. Tudo indica, tal como salienta o documentário, que os romanos terão adotado este design de castro para atrair para aquele novo povoado a mão-de-obra indígena, pois pretendiam explorar o território da envolvente, rico em minérios. Não sendo de descurar o valor estratégico de domínio do território.

Assim, este castro é urbanisticamente híbrido. É singular, para além de proporcionar uma experiencia de visita única pela riqueza dos achados arqueológicos e vestígios dos edifícios descobertos e expostos para contemplação. Tudo indica que se trata de mais uma manifestação do génio de gestão e organização territorial dos romanos, sempre capazes de se adaptarem à geografia física e humana dos territórios que dominaram, tentando tirar deles o melhor partido.

domingo, 4 de setembro de 2016

A ilusão da aceleração e os benefícios da demora - Um ensaio filosóficos de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han parece um nome estranho para um filósofo da escola alemã especialista em Heidegger. Independentemente disso o autor germano-koreano tem lançado algumas obras interessantes, de leitura mais leve, mas sem serem simplistas, sobre temas da filosofia contemporânea próximos do cidadão comum, minimamente informado.
 
Ophelia - John Everett Millais
No seu livro "Aroma do Tempo - um ensaio filosófico sobre a arte da demora" Byung-Chul Han fala efetivamente do nosso tempo, do modo como a vida contemporânea parece ser mais acelerada, um frenesim mesmo. Mas o autor tem uma visão alternativa. Para ele o tempo não acelerou. Simplesmente removemos barreiras que nos ajudavam a estabelecer etapas e limites naturais. Hoje tudo parece acontecer num contínuo e em sobreposição, simplesmente porque não há o tempo de pausa que contribua para definição etapas e momentos de vida, aquilo que nos que nos ajudaria a situar e localizar num percurso finito, do qual queremos tirar maior e melhor partido.

Byung-Chul Han  refere-se constantemente ao termo "atomização" do tempo, uma contínua dispersão sem momentos diferentes, o que parece uma crítica e comparação do modo de vida contemporâneo aos princípios do sistema de produção fordista/taylorista, da produção em massa e numa linha de montagem com processo ininterruptos e repetitivos.
Esta perda de referências temporais torna-nos impreparados para lidar a realidade da vida e a inevitabilidade da morte. Se com a estruturação balizar das fases de vida nos preparávamos para a morte, agora parece faltar o apoio  natural e graduação perante um caminho que tem sempre um fim, mas que não tem de ser uma correria contínua. Talvez seja aqui que Byung-Chul Han se aproxima de Heidegger, que se dedicou, direta e indiretamente, à morte.
Isto pode parecer um bocado vago. Tentemos materializar com exemplos. Quando começa a adolescência e a idade adulta hoje em dia? Até quando somos jovens? Um idoso, o que o define, especialmente quando se diz que a idade é um estado mental? Existe ainda uma idade para estudar, trabalhar ou constituir família? E quanto tempo passa entre todas estas etapas?
Todas estas questões levantam imensas dúvidas e ainda mais questões. As respostas são imensas. Dificilmente se chegará a um consenso ou às respostas certas tendo em conta o nosso atual modo de vida e organização social, tendo em conta que vivemos em sociedades pós-modernistas. Talvez essa dificuldade se prenda no fundo com o que Byung-Chul Han pretende alertar: perante a ânsia de acelerar o tempo e não investir na adequada demorara que ajudaria a definir as várias etapas de vida e uma preparação para a morte, parecemos viver de modo acelerado longas vidas sem que efetivamente tivéssemos aproveitado o tempo finito que dispomos, pois parece que nunca paramos para saborear cada etapa.
Apesar do arriscar interpretativo, fica a referência e a contribuição para dar a conhecer este autor e assim refletir sobre o modo acelerado como vivemos. Apesar dessa vontade de aproveitar o tempo ao máximo muito provavelmente até podemos fazer menos, pior e nem sequer ser mais felizes com o tempo que dispomos.


Referências bibliográficas

Han, Byung-chul. "O Aroma do Tempo - um ensaio filosófico sobre a arte da demora". Lisboa: Relógio d'Água, 2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Retrospectiva de 7 anos de Blogue: Os 10 textos mais vistos de sempre

Parece que foi ontem mas este blogue fez 7 anos de existência. Começou por ser um escape, forma de partilhar curiosidades e conhecimentos vários com que o autor se ia deparando no dia-a-dia. Assim continuou nos dias que ia dando jeito, pois tudo isto é profundamente amador - nota-se é claro.

Número  - Jackson Pollock

Para não deixar o momento sem registo fica então aqui a indicação dos 10 textos mais vistos do blogue ao longo destes 7 anos de existência:

N.º 10 com 2.013 visualizações - Porque se chama Invicta à cidade do Porto?
N.º  9 com  2.073 visualizações - História, qual o significado e importância?
N.º  8 com  3.493 visualizações - Filme: "Planeta dos Macacos: a origem"
N.º  7 com  5.160 visualizações - País ou Estado mais pequeno do mundo?
N.º  6 com  6.485 visualizações - O Significado da palavra Matemática
N.º  5 com  7.063 visualizações - O que é um Loby, ou em Português Lóbi?
N.º  4 com  7.101 visualizações - Significado e origem da palavra F.U.C.K.
N.º  3 com  8.130 visualizações - Orgasmo masculino sem ejaculação - uma lição de Quintino Aires
N.º  2 com  9.465 visualizações - Filme “Sem tempo” – onde literalmente o tempo é dinheiro
N.º  1 com 26.142 visualizações -  Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

Não serão seguramente os melhores 10 textos, mas, por motivos vários, foram estes os escritos que despertaram mais curiosidade nos leitores do blogue. Denota-se uma grande variedade no tipo de textos anteriormente referidos, desde coisas mais leves e quase circunstância até assuntos mais pesados, passando também pelo cinema.
Por este blogue se continuará com variedade temática, tentando assim continuar a trabalhar para um espaço que se quer de busca pelo conhecimento, nas suas várias formas possíveis - pelo menos naquelas que o autor for capaz de apreender -, divulgando sempre que possível obras de arte.
Muito obrigado a todas e a todos que nestes 7 anos visitaram o blogue.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quem inventou os camuflados de guerra?

Supostamente foram os pintores cubistas que inventaram as pinturas de camuflados modernas, isto segundo o documentário "As Aventuras da Arte Moderna", no original "Les aventuriers de l'art moderne", da autoria de Amélie Harrault, Pauline Gaillard, Valérie Loiseleux  .  
 
Parque de Carrières-Saint-Denis - Georges Braque
 
Segundo a anterior fonte, durante uma das muitas batalhas da Primeira Guerra Mundial um telefonista francês recebeu instruções para transmitir a ordem de fogo à artilharia. Mal o canhão disparou foi atingido pelo inimigo e explodiu. O telefonista questiona-se: "Porque não proteger os homens com uma camuflagem que imitasse as formas e cores da natureza?"
 
O telefonista era o pintor  Lucien-Victor Guirand de Scévola , que de imediato transmitiu a ideia ao Estado-Maior francês. Em fevereiro de 1915 o Ministério da Guerra francês aceitou criar uma equipa sob sua direção. Scévola recorreu aos cubistas por serem capazes, com se tinha provado nas suas criações revolucionárias, de representar um ou mais objetos na sua íntegra, em todas as suas perspetivas, e não apenas sobre o ponto de vista do observador. Assim, supostamente, os cubistas inventaram as primeiras pinturas de camuflagens tais como as conhecemos hoje.
 
Pintores e escultores desenharam a aguarela também cenários falsos atrás das linhas. Pintam folhagens em tons naturais nos capacetes. Pintaram, esculpiram e construíram cadáveres, cavalos, fardos de palha, veículos, homens, ruinas e tudo o mais que pudesse contribuir para iludir o inimigo e ocultar os verdadeiros planos e estratégias de guerra. O famoso pinto Georges Braque, coinventor do cubismo juntamente com Picasso, terá participado ativamente nesses projetos.
 
Curiosamente os cubistas terão sido criticados por pelos academistas pela suas bizarras criações, mas acabaram por criar, indiretamente, ainda que pudesse ser pouco evidente para o não especialista, uma solução prática que ainda hoje as forças armadas não dispensam.
 
 

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa