domingo, 24 de fevereiro de 2013

Filme "O Rei" - A Ausência de Desenvolvimento Moral


No filme “O Rei” (The King) não há nenhuma recriação histórica nem qualquer alusão a monarquias. O título da obra resulta da análise simbólica de como a personagem principal se comporta ao longo da ação. Neste filme americano – muito mais lento do que muitos outros filmes conterrâneos pensados para o grande público -, passado num ambiente de bem típico de algumas comunidades religiosas dos EUA, explora-se a noção de moralidade. Apesar das sólidas bases religiosas que norteiam o comportamento das personagens secundárias, toda a trama é um subtil continuado de imoralismo e de comportamentos hipócritas, que começa levemente e vai crescendo em brutalidade.
Praticamente todas as personagens demonstram a fraqueza do seu desenvolvimento moral, e, como em muitos casos, o rei, como primeiro de todos, é o pior deles.
Este “Rei” não é um filme que sobressaia muito, mas fica uma sensação de incomodidade e estranheza que persiste bem depois de chegarmos ao final da sua visualização. A parte técnica está com a qualidade que se exige, e o ator principal – o mexicano Gael Garcia Bernal - segue pela trilha que já habituou.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

200.000 Visitas no blogue "A Busca Pela Sabedoria"!

Hesitei em fazer este "post", mas depois lá me decidi em assinalar e comemorar as 200.000 visitas ao blogue. Por isso, só posso começar por agradecer as visitas, comentários e sugestões que têm chegado. A minha vontade é continuar a acrescentar conteúdos, tentando melhorar a escrita e a qualidade e utilidade dos temas tratados, tentando sempre definir a "cultura geral" como o âmbito deste blogue. Pretendo que dessa variedade multidisciplinar seja o fruto principal a surgir deste espaço.
Curiosamente, tendo o evento pouco que ver com o blogue mas o conteúdo do texto tudo, foi divulgado na passada semana um texto de opinião da minha autoria no site P3 (associado ao jornal Público) com o título: A Especialidade que leva à Ignorância Geral. Esse pequeno ensaio de opinião defende, no fundo, aquilo que me levou a criar este blogue: a necessidade de um conhecimento que extravase as conceções académicas e de especialidade atuais, demasiado rígidas e que geram incapacidades de comunicação e conflitos desnecessários. Penso que a oportunidade que o P3 me possibilitou, por acaso, acabou por ser um modo de comemorar o marco das 200.000 visitas ao blogue.
Nota de 200.000 Reis Brasileiros de 1936 com imagem da Baia de Guanabara - Rio de Janeiro
P.S. - A nota escolhida serve para homenagear os muitos visitantes que também têm chegado do Brasil, e claro, por uma questão de coerência, pois os restantes marcos relacionados com o número de visitas ao blogue foram assinalados com a arte representada em alguns papeis moeda, preferencialmente da lusofonia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Portugal - Um País Históricamente Dependente do Exterior

Portugal, atendendo às caraterísticas geográficas não se distingue da vizinha Espanha quando se tenta comparar os dois lados da fronteira (1). No entanto, as fronteiras seguiram, sempre que possível, as linhas de água e cumeada de algumas serras. Tal como Espanha, Portugal vaira nas suas características geográficas de Norte para Sul e do Litoral para o Interior. Talvez por isso se afirme (2;6) que Portugal, enquanto realidade geográfica independente, é uma criação puramente humana. Talvez por isso mesmo se justifique a uniformidade e coesão do território nacional. Ou seja, Portugal nasceu no norte litoral e expandiu-se para sul (3), agregando as novas a diferentes zonas ao longo da reconquista, e posteriormente nas ações de povoamento e dinâmicas internas de ocupação que tentaram desenvolver o território. As várias zonas agregadas contribuíram com determinadas características para um todo nacional interdependente (3). Por exemplo, de um modo resumido: do norte atlântico saíram as grandes massas humanas, a nobreza medieval e a definição da repartição social; do norte interior o sistema municipal e organização concelhia; e do sul a economia urbana com forte relação com a área rural (1). Também as fortes tradições migratórias internas, trabalho sazonal e comércio contribuíram para a homogeneização nacional (6).
Título desconhecido - Amadeo de Souza Cardoso

A tendência dominante de um norte que, através da reconquista se impôs ao sul mas que foi depois por ele influenciado, não são as únicas razões para a coesão nacional. Segundo Orlando Ribeiro (3;6) já existiria uma língua, e talvez culturas comuns, antes da reconquista cristã. A península ibérica, por ser um local de passagem entre continentes, ainda que remoto, conheceu ocupação humana antiga (3). Na faixa ocidental litoral atlântica - sempre a mais remota da península - desenvolveram-se culturas distintas, mas ligadas ao exterior, tanto no paleolítico (os “concheiros”) e no paleolítico (civilização dolmética). Migrações posteriores criaram, na idade do ferro, o desenvolvimento de castros fortificados em altura que dominavam a paisagem. A posterior ocupação romana, integrou os antigos castros e ordenou o território em latifúndios e conventi - surgem muitas das delimitações territoriais, cidades, vias de comunicação que ainda hoje persistem. Terão sido essas delimitações administrativas que contribuíram para a definição das fronteiras do Estado, especialmente porque os Romanos terão também atendido às diferenças étnicas nesses ordenamentos (3). Com as consequentes invasões germânicas, e muçulmanas, grande parte das delimitações persistiram, mudando, em certos casos, apenas quem exercia o poder. A influência muçulmana ocorreu mais na cultura e técnicas que propriamente em mudanças nos limites administrativos.
Com as guerras de reconquista, surgiu a necessidade de repovoar os novos territórios. Desde logo o Estado português criou dependências com o exterior, começando pela própria primeira dinastia, responsável pela independência  que era de origem borgonhesa (4). Tanto a reconquista com o povoamento dependeram do exterior: cruzados estrangeiros ajudaram a tomar as principais praças-fortes do sul; colonos cristãos migraram para os novos territórios; e foram as ordens religiosas que conquistaram os grandes territórios do sul. A dependência para com o exterior continuou, posteriormente, a notar-se na balança de transações. Desde então a produtividade agrícola de Portugal nunca foi suficiente, as terras, apesar do baixo potencial agrícola (1) nunca foram aproveitados em todo o seu potencial, ainda que a esmagadora maioria da população se dedicasse à agricultura. 
O litoral, no final da idade Média e depois com a expansão marítima portuguesa, tendeu a ser a zona mais ocupada. Lisboa foi-se assumindo também como capital e importante cidade Europeia (3), mas sempre em grande dependência, pois era apenas um ponto de passagem do grande comércio que seguia rumo ao norte da Europa  No século XVIII, quando cessaram as remessas de ouro do Brasil e o comércio decresceu, o país tentou desenvolver o território da metrópole, ainda que se tenha continuado a apostar no expansionismo colonialista em África (5).
Importante também foi a recente afirmação de Portugal sobre uma grande zona de domínio económico e político. No entanto, essa pretensão tem assentado mais na herança histórica que no efetivo domínio e controlo dessas águas (2), algo que reforça a sensação da continua incapacidade de tirar o máximo partido do território continental.


Bibliografia

  1. Belo, Duarte; Daveau, Suzanne; Mattoso, José; 2011.”Portugal – O Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões”. Lisboa, Temas e Debate.
  2. Daveau, Suzanne; 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1998.
  3. Lautensach, Hermann; Ribeiro, Orlando. 1989. “Geografia de Portugal - Comentários e atualização de Suzzane Daveau. Lisboa: Edições João Sá da Costa.
  4. Mattoso, José; 1997. “História de Portugal vol.II – Monarquia Feudal”. Lisboa, Editorial Estampa.
  5. Medeiros, Carlos Alberto. 2006. “Primórdios da evolução dos pais. A expansão marítima e os seus reflexos”. Geográfica de Portugal. Revista Portuguesa de Geografia.
  6. Ribeiro, Orlando; 2011. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”. Lisboa, Letra livre.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Terror Viking – Um documentário sem cornos



De uma série de documentários intitulados de Guerreiros (Wariors), exibidos no Canal de História, dedicados às classes guerreiras de várias sociedades ao longo da história, trago aqui algumas palavras sobre os vikings. Apesar de algumas imprecisões e de um excesso de recurso ao espectáculo visual e de ação forçada, o documentário tem a capacidade, através de exemplificações práticas, de nos conseguir fazer entrar, um pouco, no mundo dos vikings.
Os vikings eram os guerreiros mais temidos e odiados do seu tempo, foram considerados piratas, salteadores, bárbaros, mas será que foram tudo isso? Ou será que foram também algo mais? E, já agora, quando ganharam os vikings os cornos?


Chegada de Vikings a Wirral - Chris Collingwood


A História, cultura e geopolítica
Aparentemente, de um momento para o outro, no debaldar do século VIII a Europa começou a sofrer ataques (Em 793 d.C. navios vikings chegam a Lindisfarne em Inglaterra e saqueiam violentamente o mosteiro existente, chacinando os monges. Estes ataques que iriam durar pelos próximos 300 anos), investidas e pilhagens por parte de povos que chegavam nos seus rápidos barcos vindos do norte. 
Vejamos primeiro a geografia da península escandinava, mais concretamente aquela que caracteriza a Noruega. Naquilo que hoje são alguns dos países mais civilizados do mundo, especialmente na Noruega e Suécia, mas também na Dinamarca, durante a baixa Idade Média ascende e desenvolve-se a cultura Viking. A geografia e o clima adverso desses territórios, (só a Noruega tem mais de 24.000 quilómetros de costa com Fyords profundos a dilacerar a paisagem), condicionaram a formação de grandes estados ou uniões políticas coerentes. Esses territórios eram dominados por pequenas tribos e grupos que lutavam habitualmente entre si, unidos por uma cultura semelhante que os incentivava a essa atitude bélica, formava-se uma cultura de guerreiros destemidos e implacáveis. Para esses povos o ponto de encontro mais acessível, estranhamente, situava-se no Mar. Os seus barcos eram utilizados para trocas comerciais, mas especialmente para, quando unidos nos embates das abordagens, servirem de campos de batalha aquático. Habitualmente, durante essas batalhas e depois de múltiplas abordagens, os barcos eram unidos formando plataformas mais ou menos conexas de combate. A dificuldade em combater no mar, em espaço exíguos, balançantes, instáveis e confusos obrigam os guerreiros vikings a desenvolver técnicas de combate que evitavam o erro e o descuido, obrigavam-nos a muita coordenação e manobras de equilíbrio incomparáveis. Eram mestres em combates corpo a corpo a curta distância, exímios no combate rápido anfíbio.
As artes bélicas, como modo de vida e influência económico-social, assumiam grande importância nas sociedades escandinavas. Provavelmente terão sido essas razões que levaram a que os povos escandinavos saírem dos seus territórios e partissem à aventura, conquistando e saqueando o mundo conhecido. A própria religião viking exercia também uma importante influência marcial. O deus supremo do panteão viking era Odin, deus da guerra. Os vikings acreditavam que se morressem honradamente e com bravura em combate teriam acesso ao paraíso, ao valhala, com o próprio Odin a resgatar todos os bravos guerreiros que tombassem em batalha. A sua perícia e convicções religiosas faria deles guerreiros temíveis.
Outra razão, associada também à cultura e religião, era a política interna na Escandinávia e o modo como estava organizada a economia e o poder das elites locais. Na altura dos maiores ataques vikings os grandes estados da Escandinávia estavam em formação e os novos reis e líderes, devido à cultura guerreira em lhes assistia, foram impelidos a provar a sua coragem e capacidade bélica em conquistas, pilhagens e atos de bravura no estrangeiro. Sendo que as riquezas pilhadas eram igualmente essenciais para o estatuto necessário a um rei viking. A guerra no estrangeiro servia para financiar a própria guerra no país natal, nas habituais disputas entre reis e pretendentes, com exércitos cada vez mais numerosos e bem equipados. 
A partir do século IX praticamente toda a Europa do Norte é pilhada, os vikings atacam: Dublin, Edimburgo  Hamburgo, Paris, etc. Por volta do século X a maior parte das cidades rendiam-se automaticamente quando surgiam os temíveis homens do norte, pagando enormes quantias de resgate para serem poupadas da destruição. 
Mas depois de séculos de conquistas e pilhagens por toda a Europa, depois de terem sofrido processos de aculturação, as comunidades escandinavas tornaram-se menos belicosas, tendo a conversão ao cristianismo para isso contribuído. 


Técnicas e tecnologias
Uma das armas terrestres preferidas dos vikings eram os machados. Usavam, preferencialmente, machados de uma só mão que lhes permitia erguer um escudo na outra. No entanto, o machado dinamarquês, pensado para se usar com as duas mãos, era impressionantemente grande: composto por um cabo de madeira que podia atingir os 2 metros, com uma lâmina de aço que podia chegar a pesar 3 kg. Por outro lado, utilizavam também pequenos machados de arremesso, por exemplo semelhantes com as “Franciscas” dos Francos, que conseguiam atirar certeiramente a mais de 45 metros
Sem matéria-prima dificilmente os vikings poderiam ter as armas necessárias aos constantes combates que desencadeavam. Pela Escandinávia, a turfa contém muito minério de ferro arrastado das montanhas e depositado nas zonas baixas. Os vikings desenvolveram técnicas siderúrgicas e metalúrgicas (inspirados nos inventores da técnica de fundição de metal dos pântanos inventada pelos romanos) de tratarem este material natural, extrair o necessário ferro para produzirem então as suas armas que eram especialmente letais nas suas mãos. 
Os Vikings foram também exploradores, comerciantes e colonizadores. Sabe-se que atingiram, com os seus barcos, o Mar Negro, o Mediterrâneo e até a América do Norte - antecedendo Cristóvão Colombo em mais de 400 anos. Formaram vários Reinos na Europa, por exemplo: alguns pequenos reinos na Irlanda e Inglaterra, o Ducado Normando (normando significava Homem do Norte) em França, o Reino de Nápoles e Sicília em Itália. Paradoxalmente constituíram a guarda de elite do Imperador Bizantino: os varegues. O próprio principado de Novgorod, que mais tarde daria origem ao reino e Império Russo, tem também origens e relações com os Vikings. Ou seja, para além de guerreiros temíveis, tiveram de ser também os melhores marinheiros do seu tempo. Para isso contribuiu a mestria no domínio da vela em alto mar, uma vela muito manobrável controlável por cordas, que ajudava a condução do barco em simultâneo com o tradicional leme. Essas velas eram feitas de lá ou linho e impermeabilizadas com sebo – pensa-se que valiam mais que o próprio barco. Os barcos – os drakars -podiam alcançar velocidades de 48 km/h com tripulações que iam até um máximo de 60 homens. No mar orientavam-se pelo Sol, pelas algas (se eram velhas ou novas e que direção tomavam com as correntes), pela direção do voo das aves, observavam todos os elementos, animais e plantas marinhas para ajudar na sua localização. Os vikings podiam aguentar meses em alto mar, pescando e dormindo no fundo dos navios em sacos cama de pele me morsa ou foca. Apesar de toda a tecnologia que na altura os distinguia, o facto das tripulações serem compostas por homens que eram simultaneamente guerreiros e marinheiros/remadores garantia que o barco poderia estar sempre em movimento – isso obrigava a um exercício constante da tripulação, que detinha, inevitavelmente, força e resistência muito acima da média. Também por utilizarem barcos muito exíguos, criava-se, indiretamente, o reforçar dos laços entre os tripulantes, criando uma camaradagem e confiança que lhes davam uma vantagem táctica militar superior no campo de batalha. 
Os viking eram também distintos engenheiros navais. Os tripulantes dos drakars sabiam construir os seus próprios barcos. Com os seus machados conseguiam habilmente transformar troncos de árvores em tábuas, e sem esquemas escritos, conseguiam construir os seus barcos apenas recorrendo à memória e as dimensões medidas a olho. Um barco médio precisava de madeira de mais de uma dúzia de árvores de porte médio (carvalhos, abetos e pinheiros). O design dos barcos permitia que fosse remado para trás e para a frente instantaneamente, sem terem de dar a volta. Eram calafetados com lá, pelo de animais ou musgo cobertos de sebo. Mas a maior vantagem da embarcação era o seu pequeno calado. Os fundos apenas mergulhavam 50 cm na água, permitindo navegar em águas muito baixas e desembarcar praticamente em todo o lado. 
Mas os barcos não era as únicas construções Vikings que os distinguiam no seu tempo. O modo com construíam fortes em terra dava-lhes também distinta vantagem. Construíam, habitualmente, recintos de planta circular perfeita, com diâmetros entre os 100 e os 300 metros. O perímetro era formado por uma elevação de terra reforçada de madeira e cercada por um fosso. No interior as construções eram dispostas seguindo um padrão quadrangular, existindo: estábulos, oficinas, armazéns, residências e até cemitérios.
No que toca às armas, os vikings não utilizavam só machados de combate. Recorriam muito habitualmente também a espadas, com design muito típico. Essas lâminas eram semelhante aos gládios romanos, mas mais esbeltas e alongadas, com punho quase sem proteção de mão. Por outro lado, as lanças eram muito populares, tendo, à semelhança dos hoplitas gregos, técnicas próprias de combate em grupo, que potenciavam a coordenação em linhas ordenadas, conjugando sobreposições de escudos e lanças em riste – podiam formar o chamado muro de escudos.

Então e os Cornos?
Sabe-se hoje que os vikings estavam muito longe de ser selvagens desmiolados, brutos que espalharam violência e destruição pela Europa. Eram na realidade formidáveis guerreiros, vindos de uma zona geográfica agreste e de extremos que os endurecia. Eram portadores de uma cultura guerreira que fomentava a coragem e os feitos militares. Detinham tecnologia pragmaticamente evoluída e adequada para as suas conquistas e explorações.
Funeral de um Viking - Frank Bernard Dicksee

Então e os capacetes Vikings? O seu aspeto era muito diverso, mas parece que nunca foi hábito utilizarem cornos como ornamentação. Essa visão foi inventada na época vitoriana (século XIX) para recriações românticas historicamente pouco fiáveis. Os únicos cornos que usavam tinham como função servir de recipientes de bebida, até porque os cornos estavam associados à fertilidade e não à arte bélica pelo que se sabe. Os vikings, a terem cornos não os usariam nos capacetes…

Este documentário pode ser visto, em 5 parte, respetivamente, mas sem legendas em:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Outras referências bibliográficas de cruzamento de dados:
“Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Média”. Círculo de Leitores.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As Bruxas ardiam mais na Idade Moderna que na Idade Média


Apesar dos casos de caça às bruxas, e condenações à fogueira de supostos comparsas do demónio e praticantes de magia, ter ocorrido já durante a Idade Média, foi no início da Idade Moderna (do renascimento à revolução industrial) que o fenómeno cresceu e atingiu o culminar.
Curiosamente, ou talvez não, os fenómenos de caça às bruxas em massa iniciaram-se na Europa do século XV (por decreto papal, e não só), mas depois de um período de acalmia, atingiu o culminar das perseguições no início do século XVII, coincidindo esse facto com os picos de tensão provocados pelas guerras da religião. Essa paranóia agudizava-se quando a Europa caia no rigorosíssimo religioso reformista e contrarreformista (opondo protestante e católicos). No entanto, as tensões eram muito mais que religiosas, eram também económicas e sociais. Aliás, foram, para além do preconceito e medo do desconhecido, razões materialistas e sociais que sustentavam grande parte da perseguição à bruxaria (especialmente a feminina).
O Sabbath das Bruxas (O grande Bode) - Goya
As pessoas processadas por bruxaria foram maioritariamente mulheres, seguindo o estereótipo de velha camponesa que vivia num local isolado. Mas esse estado de situação foi comum durante o período das guerras da religiosas (nomeadamente na Guerra dos 30 anos) que assolaram a Europa do século XVII, com muitas mulheres a viver sozinhas e abandonadas depois dos maridos terem sido mortos em combate. Fazendo uma leitura da época, podem encontrar-se, tal como já referi, razões socioeconómicas para a marginalização e perseguição dessas mulheres. Muitas delas tinham então de viver de esmolas e da caridade alheia, o que as obrigava também a comportamentos mais agressivos e marginalizantes. Logo, eram consideradas um peso para a sociedade de então, nem que fosse inconscientemente. Segundo, havia também as razões políticas, com vários casos registados de denúncias entre opositores políticos, que atacavam os inimigos acusando suas mulheres de bruxaria, tentando assim denegrir-lhes a imagem e prestígio público. Por fim, existiam também as razões económicas, especialmente quando essas mulheres dispunham de heranças consideráveis. Em certos casos registados foram os familiares dessas mulheres a mover as acusações de bruxaria, garantido assim o acesso fácil à herança. Por exemplo, na Nova Inglaterra, 90% das mulheres acusadas de bruxaria não tinham descendentes varões.
Sobre a caça às bruxas, independentemente das motivações religiosas, pode dizer-se que: foi, especialmente, uma perseguição para com as mulheres, e um sinal de uma sociedade intolerante, impreparada para lidar com os dramas sociais e até algo interesseira. Quanto teremos mudado? Terão desaparecido as bruxas e o modo de caça intolerante?

Referências Bibliográficas
Delumeau, Jean. 2007. “A civilização do Renascimento”. Edições 70
Solar, David; Villalba, Javier. 2005. “História Universal – Idade Moderna”. Círculo de Leitores.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Crítica ao filme: Para Roma com Amor

Quando me dirigi ao cinema para ver mais este filme de Woody Allen ia com grandes espectativas, por duas razões: porque o último filme do autor, passado em Paris, tinha sido sublime; e, porque Roma, o pano de fundo do filme em causa, é uma cidade única e fantástica.
Depois de ver “Para Roma com Amor” fiquei um pouco sem saber se o realizador tinha tentado aplicar a fórmula de sucesso de “Meia-noite em Paris” - filme já aqui analisado -, ou se a opção tinha sido outra. Ficou-me a sensação que este filme, apesar de no geral ser uma obra de qualidade, poderia ter sido muito melhor concebido. Pareceu-me que tinha sido feito um pouco à pressa.
O filme constrói-se por várias histórias que decorrem, supostamente ao mesmo tempo, em Roma, mas o estranho é não existir qualquer relação entre elas. Estranhamente a cidade Roma como fundo só sobressai pelas paisagens urbanas, não se notando muito mais influência para além disso.

Depois de ter começado este texto de um modo pouco simpático, acabo elogiando aquilo que me parece ser positivo no filme – e que até é muito.
Em "Para Roma com Amor", o ambiente urbano é fantástico, ou não fosse um filme que mostra Roma, - a cidade eterna - ainda que pudesse mostrar muito, muito mais. As personagens, e seus diálogos e iterações (com boas performances dos actores), são divertidos, bem ao jeito particular e desconcertante de Woody Allen. Os salpicos de surrealismo dão especial interesse ao filme, tal como as cenas caricatas e improváveis, repletas de crítica social e um sarcasmo, por vezes irónico, que tendem a levar-nos à reflexão.
Em resumo, aconselho a  ver o filme. É bom, divertido e complexo, mas, como Woody Allen já nos habituou a melhor, parece que fica a faltar algo.
Se algum dia Woody Allen fizer um filme em Lisboa, espero que seja mais parecido com o que fez em Paris do que com o de Roma - o que é injusto para as cidades, pois são incomportáveis, mas igualmente importantes.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

As criações de Tolkien – Documentário sobre a mitologia de "O Senhor dos Anéis"


Segundo o documentário “Clash of Gods: Tolkien Monsters”, a monumental obra de J. R. R. Tolkien é uma: “combinação de influências antigas modernas para criar a mais ambiciosa das viagens mitológicas desde a odisseia”. Esta afirmação tem um imenso peso, e, para os conhecedores da importância cultural das obras de Homero, uma comparação deste género, mesmo que não sendo verdadeira, é, por si só, já um grande elogio e honra.
Tendo o objetivo ou não de superar Homero - segundo o documentário em causa isso era um dos objetivos-, Tolkien terá tido como objetivo escrever uma mitologia própria e original para o seu país, tendo-se baseado, principalmente, nas antigas Sagas Vikings/Escandinavas, em Beowulf, Lenda do Rei Artur, Bíblia e em muitos outros textos antigos, misturando-os com as influências e experiências do seu mundo contemporâneo.
Segue uma pequena descrição, mais ou menos separada por temas, sobre o imaginário da obra de Tolkien, sobre a sua fantasia épica, registada em vários livros, sobre a “Terra Média”, local onde, entre outras histórias, acorrem o enredo de “O Senhor dos Anéis” e de “O Hobbit”.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da Mitologia Europeia na Obra de Tolkien
Na mitologia nórdica o mundo é constituído por 3 níveis: superior - Asgard (local onde os deuses vivem); o inferior - Hell (o submundo dos mortos; entre os dois fica o Midgard, a terra que fica entre o meio rodeada pelo oceano- mundo habitado por elfos, anões e homens). O midgard traduz-se facilmente por "Terra Média". 
Podemos encontrar referências a um anel poderoso na lenda do Rei Artur e os Cavaleiros da Tabula redonda. Nessa lenda existem objectos mágicos entre eles um anel da invisibilidade. Mas o Anel do Senhor dos Anéis corrompe e cria adição à sua pose por quem o usa, pois nele está impregnada a essência e espírito maléfico do seu criador - Sauron. A ideia de um anel amaldiçoado encontra-se noutra saga Islandesa. Nela um rei possui um anel de ouro que lhe dá uma riqueza inimaginável, algo desperta a inveja do seu filho. A tentação leva à loucura, com o príncipe a matar o pai para se apoderar do anel, que depois esconde-o numa caverna. Lá o anel amaldiçoado transforma o príncipe numa horrível serpente. Essa saga, no fundo, é bastante semelhante ao que acontece com Gollum - que mata o seu amigo Deagol para se apoderar do anel, que o vai corrompendo e transformando em mostro ao longo da sua longa vida numa escura caverna.
A Saga de Beulf relaciona-se especialmente com “O Hobbit”, que conta a história de Bilbo Baggins, tio de Frodo. A história passa-se anos antes e tem relação direta com o enredo e ação de “Senhor dos Anéis”. 

A Influência da Infância Campestre na obra de Tolkien
Uma das principais personagens de “O Senhor dos Aneis” é bem demonstrativo dos seus valores e ideais de Tolkien. Frodo vivia no Shire, terra de extensas colinas e verdes campos, é lá que vive a sua raça - os hobbits. Os hobitts são seres campestres, semelhantes a humanos mas com altura até 1,20m. Andam descalços pois têm uma planta do pé muito resistente e pés cobertos de pelos. São um povo caseiro e pacífico que não se mete em grandes aventuras. Os autores do documentário associam a vida calma do Shire à infância do Tolkiean na região rural do ocidente da Inglaterra, a Cornualha. Alguns dos ideias de Tolkien, do abraçar de uma vida rural, pastoral e simples transparece na vida dos hobbits, a simplicidade do antigamente em detrimento da grandeza e da pretensão da época contemporânea.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Hobbit"

A Influência da Católica na Obra de Tolkien
Descobriu-se, através de uma planta encontrada em 1977, que Tolkien tinha criado um mito de criação para a sua epopeia. Com essa descoberta cria-se uma nova palavra para esse novo estilo literário: a mitopeia. Isso significava que, para além da ação descrita enquanto história de ficção, Tolkien tinha criado todo um mundo, um ambiente, uma geografia, culturas, religiões e os próprios mitos dentro dos mitos ficcionais. A história da criação da Terra Média só foi publicada depois da morte do autor, num livro chamado Silmarilion. Este era o plano, o projecto, as bases e fundações do seu mundo fantasioso. Tudo o que tinha acontecido milhares de anos antes, e que era omisso ou apenas tenuemente referido nas obras anteriores. Curiosamente, a fonte que mais influenciou - atendendo ao documentário - essa criação foi até mais a Bíblia que os próprios Mitos Nórdicos. Tolkien era um católico romano extremamente devoto, por razões pessoais e historial familiar Na mitopeia de Tolkiean existe um Deus supremo chamado Iluvatar. Esse deus cria seres angélicos chamados Ainur que entoam canções tão belas que o mundo surge a partir delas. O mundo é criado através de uma sinfonia gigante ou música dos Ainur, definindo assim todas a história do mundo que Deus torna real. 
Os autores relacionam uma raça criada por Tolkien com o imaginário judaico-cristão. Referindo que os elfos seriam uma raça de seres quase perfeitos e imortais que representam a visão que os humanos seriam se não tivessem sido manchados pelo pecado original de Adão e Eva. 

Tolkiean, o Linguista
Para Tolkien os jogos de palavras eram um hábito antigo, que depois aprofundou na sua carreira académica. Já em criança inventara muitas expressões que contribuiriam para as línguas do universo da Terra Média, especialmente a complexa língua dos elfos. Partes significativas da língua dos elfos tinham como base uma língua verdadeira: o finlandês. Tolkien apreendera-o quando estudava o mito nacional da Finlândia chamado kalevala - onde existem anões e elfos. 
Como linguista que era, não é de espantar que Tolkien, na sua Terra Média, tenha criado várias línguas diferentes para cada raça de criatura, dizendo a própria língua muito sobre cada uma das raças que a utilizava. Por exemplo: os Elfos, os seres que mais se aproximavam dos ideais de perfeição, eram os que tinham a língua mais refinada e complexa; aos anões associou as antigas runas escandinavas.
A palavra hobbit tem muitas semelhanças com a palavra "habito" ou em latim, habitus, significando uma criatura de hábitos e que está habituada a sua maneira de viver e tem uma existência muito comum. Já Frodo significa sensato em escandinavo e anglo-saxónico antigo.
O centro de Mordor, o monte "Doom" vai beber da influência do inferno cristão - um local de fogo e enxofre. Numa relação com o inferno de Dante, este local negro e estéril. Mordor é semelhante a Mortor (morte ou assassino em anglo-saxónico) e a Morf (assassinato em escandinavo antigo), ambos com relações com o termo morte.
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

A Influência da 1ªGuerra Mundial
Mas há uma experiência da vida real que inspirou e influenciou Tolkein e a sua obra: a sua participação como soldado nas trincheiras da 1ª guerra mundial. As suas experiências de guerra tiveram influência nas batalhas da Terra Média, no seu relato, descrições e realismo sangrento e destrutivo dos conflitos. Tal não é de admirar pois Tolkien, como tenente do exército Inglês, participou diretamente na batalha do Somme, onde morreram 1,5 milhão de homens. A visão do pântano dos mortos associa-se à visão do verão das trincheiras, dos corpos podres dos soldados, estáticos sobre as águas que se acumulavam.
É talvez no livro “O Hobbit” em que a própria visão pessoal dou autor é mais perfeitamente personificada e tornada numa alegoria. Esse livro acaba com uma batalha entre 5 exércitos, lutando pelo tesouro do dragão. Ai Bilbo vê muitos dos seus amigos morrer e percebe a futilidade da guerra. Tal como Bilbo, tolkien viu os seus companheiros morrer em batalha. Em França lutou ao lado de três dos seus amigos mais íntimos, tendo sobrevivido apenas um. Novamente, tal como anteriormente com Bilbo, Tolkien reflete em Frodo muitas das suas angústias e pensamentos. Frodo, quando regressa ao Shire não se consegue adaptar, tem pesadelos terríveis. Tal como Tolkien, tem recordações traumáticas. Frodo ficou devastado pelas terríveis experiências que viveu, tal como o próprio Tolkien depois da 1ª guerra mundial.
De todas as outras personificações e alegorias de Tolkien salientam-se os Orcs, que simbolizam as atrocidades, violências e horrores cometidos na guerra. Os Orcs são soldados de infantaria, são Elfos corrompidos, degenerados, deformados, conspurcados e de aspeto horrível. São descritos como criaturas fascinadas por máquinas, pelo fabrico de coisas inteligentes e pelo lucro, que tentam fazer com que outras raças trabalhem para eles. Os autores do documentário fazem aqui uma dupla relação com a Alemanha Nazi e com o Capitalismo Selvagem. Talvez o nome dos orcs se tenha inspirado em Beowulf, onde existe uma descrição de todas as criaturas do mal que descenderam de Caim, depois deste ter assassinado Abel. Entre elas estão os Orcs.

Gandalf, um herói nórdico com parecenças com Cristo?
Depois de “O Senhor dos Anéis” ter sido escrito, Gandhalf tornou-se o arquétipo dos feiticeiros. Antes disso, mesmo nas ficções, a magia era considerada como algo malévolo, especialmente anticristã por se associar ao mundo pagão. Mas Gandhalf é solidamente um ser benigno, que tenta fazer o melhor para o bem comum. A Personagem de Gandhalf tem como inspiração a mitologia nórdica, mas não só. Em escandinavo antigo Gandhalf significa: “elfo mágico” ou “elfo que usa a magia”. Outra possível inspiração é o deus Viking: Odin. Para os escandinavos Odin representava muitas coisas: deus da sabedoria; deus da guerra; deus da morte; ou o errante - a maior relação com gandhalf. Um dos seus aspetos de Odin é ser o deus das máscaras e das muitas identidades - tem centenas de nomes e disfarces. Quando viaja pela terra viaja como o viajante cinzento, veste uma túnica cinzenta, tem um chapéu largo de abas e uma longa barba. Tal como Odin, Gandhalf vagueia pela Terra Média durante anos, trabalhando secretamente para destruir as suas forças maléficas. 
Os autores do documentário também relacionam a personagem de Gandhalf com a história de Jesus. Isto porque se autossacrifica, morre e regressa como “O Branco”. Gandalf talvez seja a mistura de Odin e Jesus – uma mistura de temas cristãos e pagãos. 
Desenho de Alan Lee criado para para "O Senhor dos Anéis"

Crítica à Industrialização e mecanização
Quando os hobbits regressam ao Shire ficam em estado de choque. As pessoas estão oprimidas, o ambiente está poluído e há maquinaria por todo o lado. Isso simbolizaria um dos maiores medos de Tolkien. No interior de Inglaterra vira a mesma transformação a acontecer. Tolkien desde criança via a industrialização como um fenómeno proveniente da corrupção humana. O desejo de industrializar estava inequivocamente ligado a um desejo de domínio das pessoas e da natureza. O culto da natureza e a influência das mitologias nórdicas, e também celtas, são muito evidentes em todo o imaginário “Tolkiano”.

Conclusão
Muito mais haveria por dizer sobre as obras de Tolkien, mas limitei-me quase sempre ao que constava no documentário em causa, e mesmo assim o texto ficou excessivamente longo. Talvez se salve por estar dividido por temas e por serem muitos os fãs de Tolkien que  não dispensaram tudo aquilo que se possa registar e escrever sobre o assunto – apesar deste texto ser uma pequena epopeia...
Tolkien, apesar de ter partido e sido influenciado pela mitologia antiga, é o pai da ficção fantástica “medievalesca”, misturando os valores da Alta Idade Média com a magia e fantástico da mitologia das culturas nórdicas, ainda que com pitadas de inspiração judaico-cristã. Sem ele dificilmente o género seria aquilo que conhecemos hoje.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mediterrânico – A estranheza de um clima pouco apto para a Agricultura


Em Portugal, como em qualquer outro país de clima predominantemente mediterrâneo, os Invernos são as estações mais húmidas e frias (ainda que desordenadamente) e os Verões secos e quentes. Por cá [Portugal] podemos pensar que pelo resto do globo os Invernos e Verões, a nível climático, se estruturam de modo semelhante aos nossos, apenas com variações nas quantidades de precipitação e temperatura. No entanto, o clima mediterrâneo é tudo menos comum na terra: apenas 3% do globo apresenta um clima do tipo mediterrânico (Bacia Mediterrânica; Costa da Califórnia; Costa central do Chile; Sudoeste da África do Sul; Costa Sul e Sudoeste da Austrália).
Montanhas na Provença - Cezanne
No clima mediterrânico, por mais normal que nos possa parecer – como habitantes de um país marcado por esse tipo de clima -, os Verões são muito singulares, pois é, simultaneamente, a época mais seca do ano. Curiosamente – provavelmente só para nós -, nas restantes regiões subtropicais temperadas, por exemplo, em Washington, que fica à mais ou menos à mesma latitude que Braga, os meses de Verão são os de maior precipitação! Aí, o calor significa mais humidade, e não secura como por cá [Portugal].
Apesar do clima mediterrânico ter muitas vantagens turísticas, pois o calor e a quase ausência de chuva nos Verões são ideais para atividades exteriores, na agricultura a mesma combinação é uma desvantagem, pois a vida vegetal desenvolve-se preferencialmente com humidade e calor em simultâneo – basta lembrar o caso da exuberância das selvas tropicais. Ou seja, no clima mediterrânico, à medida que os meses avançam e da primavera se passa para o verão, as chuvas começam a diminuir. Faltando a humidade e calor em simultâneo, a vegetação e a agricultura, por consequência, tenderá a ser menos favorecida nos países mediterrânicos. Mesmo assim, algumas espécies, tal como as oliveiras e as videiras adaptam-se bem a este clima, tal como todo o tipo de culturas de regadio, garantindo a mão humana aquilo que a natureza não provém.
Poderíamos então dizer que a irrigação resolveria os problemas e obstáculos à agricultura nos climas secos, tal como é o clima mediterrânico no verão. Mas podemos muito bem estar enganados, pois o excesso de irrigação leva à salinização dos solos e à sua consequente infertilidade. Esse fenómeno explica-se pela presença de sais, ainda que em pequenas quantidades, na água doce e que acabam por precipitar e se depositar nos solos, uma vez que o calor faz evaporar apenas a água (alusão direta às salinas). Apesar de ser um processo lento, a salinização dos solos acaba por ser inevitável. Hoje, na Mesopotâmia  muitos dos solos que foram irrigados e férteis durante séculos são agora estéreis. O mesmo parece estar a acontecer em Israel.
Esperemos então que as zonas mediterrânicas não atinjam o mesmo nível de saturação e salinização dos solos existentes já noutras regiões - onde se inclui obviamente Portugal, e mais particularmente o Alentejo. Esperemos que saibamos perceber as nossas limitações e o modo de as ultrapassar, sem soluções que agravem ainda mais as condicionantes naturais. Nem sempre forçar a natureza a uma coisa não natural tem bons resultados – redundâncias e trivialidades à parte. Por vezes a "fatura" vem anos, séculos ou milénios depois...
Nota: Usar o termos Mediterrânico ou Mediterrâneo é indiferente, segundo o sítio da Internet "Cinerdúvidas". Ver mais em: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=15372

Referências Bibliográficas:
  • Daveau, Suzanne. 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa.
  • Pereira, Ana Ramos. 2002. “Geografia Física e Ambiente”. Universidade Aberta
  • Ribeiro, Orlando. 2011. “Portugal o Mediterrrâneo e o Atlântico”. Letra livre.
  • Wikipédia. "Mediterranean climate". Consultado em 18 de Dezembro de 2012, disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Mediterranean_climate

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Efeito Borboleta - O Filme


Ao pegar no DVD “Efeito Borboleta” – confesso – preparava-me para o ver já com algumas ideias pré-concebidas em mente. Contava que o filme tratasse algum tema relacionado com  teorias da conspiração, ou então contasse a história de um qualquer pequeno evento, insignificante, que pudesse causar no final do filme um grande e imprevisível acontecimento, contando especialmente que isso fosse uma grande catástrofe. Espera por uma história de traços ficcionais mas que traduzisse uma realidade credível e possível de acontecer na nossa realidade, ainda que pudesse ser "hollywoodescamente catastrófica". Ou seja, esperava que fosse uma demonstração, em grande escala, de um emaranhado de personagens e grandes eventos que envolvessem, de algum modo, o coletivo e a própria humanidade. Mas não se passsou nada disso.

O filme começa por citar um chavão e citação das teorias de Edward Lorenz, que, relacionando-as com a Teoria do Caos, alerta para que:  pequenas mudanças nas variáveis iniciais de sistemas complexos podem resultar em grandes efeitos de grande escala. No entanto, há que lembrar que as teorias de Lorenz eram de cariz climático, sendo a conhecida citação das asas da hipotética borboleta, que provocariam uma tempestade do outro lado do planeta, uma metáfora climática.
Voltando ao filme. Em o “Efeito Borboleta” a teoria do caos é adaptada à vida de um jovem, interpretado por Ashton Kutcher – provavelmente a sua melhor performance no cinema até hoje. O protagonista tem a capacidade de, através de inexplicáveis poderes, modificar acontecimentos e atos que teve no passado, podendo mudar assim o seu presente, no entanto sem controlar todas as consequência efeitos desencadeados por essas pequenas mudanças do passado. Não revelarei mais, mas digo ainda que o filme é rápido e violentamente emocionalmente, surpreendente, com cenas que quase chegam a assustar pela tensão que induzem, e empolgante até um final imprevisível.
Apesar deste filme ser uma tentativa demonstrativa muito parcial e particular das ideias subjacentes à teoria do caos, é um bom filme para exercícios de autorreflexão, que demonstram como atos simples podem condicionar toda uma vida, ou vidas.

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