quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Platão tenta mesmo provar a imortalidade da alma?

Platão, em algumas das suas obras, colocando as suas palavras na boca de Sócrates – enquanto uma quase “personagem” que substitui o próprio autor -, reflecte e teoriza sobre a alma humana, isto especialmente nas obras Fédon e República onde tenta comprovar a existência e a imortalidade da alma. Em ambas as obras, mas mais aprofundadamente no Fédon (ou da alma), Platão recorre a uma poderosa dialéctica – arte de convencer através do diálogo devidamente fundamentado e encadeado – para comprovar a imortalidade da alma, iniciando o debate com uma forte argumentação – um possível exemplo daquilo que mais tarde Aristóteles apelidaria de retórica lógica (ou tentativa disso). 
A morte de Sócrates - Jacques Louis David
Mas, à medida que a discussão – sendo Sócrates a “personagem” que na discussão defende a tese de Platão perante os demais intervenientes – se vai adensando e aprofundando o discurso e a dialéctica de Sócrates mudam. Não vou aqui focar os primeiros argumentos – verdadeira arte dialéctica – de Platão através da intervenção de Sócrates, mas os últimos por serem os mais surpreendentes e inesperados – se bem que intelectualmente menos conseguidos. Sócrates, a uma determinada altura, numa das suas intervenções, começa a fazer referências à mitologia, relacionando a com a alma. Já no final da obra essa relação é então completamente abraçada e evidente, sendo transformada na derradeira justificação para a imortalidade da alma – transparecendo a ideia de que houve uma desistência da argumentação lógica. No mínimo estranho este desfecho, especialmente se considerarmos que Platão era um acérrimo defensor da discussão com base em sólidos argumentos e não em opiniões infundadas ou difíceis de justificar. Mas se atendermos às limitações tecnológicas do saber de então, este tipo de recurso não é de todo despropositado. No entanto não deixa de ser estranho este caso pois, mesmo na Grécia do séc. V a.C. havia já quem contestasse a validade das análises mitológicas, ou seja, não era algo que Platão pudesse usar como uma verdade incontestável capaz de validar a tese a que se propunha.
Mas será que este desfecho de Fédon não terá sido propositado? Platão poderia simplesmente querer demonstrar que alguns temas e assuntos simplesmente não podem ser provados ou comprovados pela razão? Ou seria uma espécie de crítica aqueles que, mesmo iniciando um debate com forte oratória, baseada em argumentos logicamente encadeados, quando vêm os seus argumentos esgotados, invariavelmente, enveredam pelo recurso à mitologia e ao sobrenatural para justificarem a sua posição, não admitindo que são incapazes de compreender aquilo que inicialmente se propuseram a defender ou porque simplesmente não têm razão?

Bem, esta é mesmo só uma possível interpretação, pois o conceito de Alma que Platão descreve pode até ser visto como a própria razão que é toldada pelo “corpo”: senso comum. Bem, mas isso dava outra discussão.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa