quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nem tudo o que parece é Cuscuz (ou Couscous)

Num artigo sobre culinária vou tentar ser ligeiro, ou seja, light. Como frequentador de restaurantes de origem Norte Africana e tendo na família várias pessoas que fazem receitas diferentes de Cuscuz (ou couscous), tenho de falar de Cuscuz.

É cada vez mais corrente por Portugal fazer-se Cuscuz, como receitas próprias, acompanhamento de saladas ou afins. É aqui que se justifica este artigo. Especialmente por cá, talvez por ser algo novo, confunde-se Cuscuz com Sêmola.

A Sêmola é o resultado incompleto da moagem de cereais. A Sêmola é utilizada como acompanhamento do Cuscuz. Logo, o Cuscuz não é só a Sêmola. O Cuscuz é todo o prato, composto pelo cozinhado de vegetais, carnes e então a sêmola. Existem muitas receitas de Cuscuz, cada uma característica de cada zona, sendo típicas do Norte de África.

Receita de Cuscuz Tradicional Marroquino - fonte: receitas gnt
Dizer que se come Cuscuz quando se come algo feito apenas com a Sêmola seria o mesmo que comer só o arroz do tríptico "Cozido à Portuguesa" e dizer que estamos a comer todo o prato, e sempre que comêssemos arroz disséssemos que comíamos cozido à portuguesa. 

Por isso, quando comerem Cuscuz, comam tudo, com tudo o que é suposto e têm direito. Mas podem comer só a sêmola, pois fica muito bem noutros pratos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Porque incomodam tanto aos Muçulmanos os Cartoons Maomé

Depois dos ataques terroristas ao Charlie Hebdo o mundo ocidental ficou estarrecido. A justificação terá sido o modo insultuoso como o jornal havia representado, diversas vezes, o profeta do Islão. Mas, conhecendo um pouco da cultura e tradições islâmicas, percebe-se que, mesmo que os cartoons não fossem insultuosos haveria sempre protestos fortes contra qualquer tipo de representação do profeta. Falo de reações puramente religiosas e não políticas, embora isso seja difícil de separar no Islão.
Muitos Xiitas e Sunitas, as duas principais correntes atuais do islamismo, condenam qualquer representação antropomórfica do profeta. Embora aparentemente essa não seja uma proibição direta expressa no Alcorão, alguns Hadith – tradições islâmicas de valor jurisprudencial - condenam-nas diretamente. Esta justificação tem origem antiga, advém do perigo da idolatria, quando um ídolo passa a ser mais importante que o significado representado. Também existem correntes que seguem pela proibição, pois somente Alá pode criar vida, mesmo que somente em representação.
O Profeta orando na Kaaba - gravura otomana do século XVI
Curiosamente, no próprio cristianismo surgiram movimentos semelhantes, por exemplo o movimento iconoclasta Bizantino e algumas tendências Protestantes já da época moderna, condenam qualquer representação de Jesus e demais personalidades bíblicas, muito menos de Deus. Apenas a cruz era possível de representar.
Voltando ao islamismo, não é de estranhar que para identificação visual do profeta se tenha recorrido a representações monográficas em escrita árabe. Também não é estranho estarem banidas das mesquitas quaisquer representações decorativas de vida. Habitualmente recorriam e recorre-se apenas a formas geometrizadas e às passagens do Alcorão como decorações e formas de passar a mensagem religiosa.
Por outro lado, se há registos de Hadith que fazem a proibição representativa de Maomé, também se encontraram Hadith que o representam, ainda que em alguns ele possa aparecer encoberto por véus ou representado simbolicamente como uma chama.
Extremismos, fanatismos e fundamentalismos à parte, para compreender o que se passa no mundo atualmente é necessário conhecer um pouco mais dos princípios pelos quais se regem os muçulmanos, e perceber que nem sempre os valores e ideais são universais entre todas as culturas. O que pode ser inofensivo para uma cultura pode não ser para outra.

Referências Bibliográficas
  • Donini, Pier Giovanni. “O Mundo Islâmico - Do Século XVI à Actualidade”. Editorial Presença, 2008.
  • Larsson, Göran. “Muslims and the New Media”. Ashgate, 2011
  • Grabar, Oleg. "The Story of Portraits of the Prophet Muhammad". Studia Islamica, 2003.
  • Robinson, C. F. “Islamic Historiography”. Cambridge University Press, 2003.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Paris - A cidade das Luzes Filosóficas

Qual é a cidade das Luzes? Paris. Sim, de facto é Paris. Mas de que luzes falamos quando referimos este título? Serão luzes utilitárias ou decorativas, os mecanismos e aparelhos de iluminação física que usamos correntemente em várias formas e formatos? Não, pelo menos na origem do termo, as luzes não eram essas.
Voo de Paris  - Leonid Afremov
Hoje, Paris deslumbra pelas suas iluminações públicas. São imensas, quer sejam nos grandes monumentos e edifícios, quer nos barcos que sobem e descem o Sena. Também as podemos encontrar em pequenas vendas ambulantes de rua e muitas outras surpresas da vida urbana parisiense. Os grandes monumentos estão particularmente bem iluminados, com verdadeiros projetos de iluminação pensados para fazer destacar o património. As muitas lojas, alguns bairros característicos (por exemplo o boémio Pigalle, com as suas luzes de tons vermelhos e onde se situa o Moullin Rouge) trabalham, à sua dimensão particular, a luz. A Torre Eiffel está repleta de lâmpadas, que dão de si a cada hora, e especialmente no seu topo existe um mecanismo que a transforma num farol rotativo – um espetáculo em si mesmo. Nos Campos Elísios mistura-se a iluminação pública da grande avenida, com as luzes dos imensos veículos, com as grandes lojas, o Arco do Triunfo e a Grande Roda panorâmica da Praça da Concórdia. Existem imensos outros sítios que merecem uma descrição, por exemplo a zona de Montmartre (bairro dos artistas) e muitas outras.
Mas as luzes de Paris que lhe fizeram o nome são de outra época: são anteriores à descoberta da manipulação da própria eletricidade. Essas luzes eram do movimento iluminista, ou movimento das Luzes. Sendo Paris uma das cidades mais importantes da época (século XVIII) compreende-se porque teve ai tanto impacto esse movimento, que usava as luzes como metáfora para a valorização do racionalismo e o combate ao obscurantismo do conhecimento. Foi um movimento filosófico humanista que se sentiu particularmente em Paris, pois reunia a massa crítica, humana e porque o poder instituído era conservador e católico - o que acabou por o amplificar e dar mais força pela repressão e pela censura inicial que sofreram alguns desses pensadores e filósofos das luzes. Há que lembrar os nomes de Voltaire, Diderot, Rosseau e outros. Há que lembrar, pro outro lado, os salões da época e como alguns poderosos apoiaram, mesmo contra outros poderes, essa tendência iluminista.
Talvez tenha sido esta associação inicial às luzes, especialmente reforçada com a influência burguesa do século XIX sobre a cidade (a sua forma e vida), que terá levado a que existissem de factos iluminações e luzes físicas dignas de destaque em Paris. Essas luzes, as recentes e as antigas ainda se sentem na cidade, onde facilmente podemos iluminar o corpo e a mente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A democracia ateniense era a mais desenvolvida da antiguidade?

Quando falamos na história dos regimes políticos, e das democracias em particular, é inevitável falar abordar a ateniense. Existem obvias razões para isso, porque por lá, por aquelas polis (cidade), passaram e viveram algumas das mais famosas personalidades da antiguidade (filósofos, políticos, artistas, etc.), porque os atenienses estiveram envolvidos nos principais acontecimentos políticos e militares da época naquela zona do globo com importância futura na história do ocidente (guerras médias com os persas, guerra do Peloponeso, etc.), porque desenvolveram um império naval mercantil e militar considerável, porque criaram uma cidade imensa dentro da realidade grega clássica (ricamente embelezada com monumentos, arte e arquitetura) e, entre outras razões, porque tinham uma democracia (com relatos das suas práticas a chegarem aos dias de hoje, sendo o episódio da condenação à morte de Sócrates marcante pelas questões que levanta).
Discurso fúnebre de Péricles - Philipp Von Foltz
No entanto, existiam várias democracias na Grécia antiga. É o próprio Aristóteles que nos diz isso, pois terá compilado a constituição de praticamente todas elas, mesmo as das polis que assentavam noutro tipo de regimes (monarquias, tiranias, oligarquias, etc.). Infelizmente muitos dos escritos e registos de Aristóteles perderam-se. Somente a constituição de Atenas sobreviveu de todo esse seu trabalho de compilação.
Assim, hoje, dificilmente saberemos se a verdadeira e mais desenvolvida democracia grega da antiguidade clássica terá sido a ateniense. Não sabemos exatamente quantas mais teriam existido nem qual terá sido a primeira. Esta questão tem importância pois sabemos dos limites desta democracia, que não era universal e deixava de parte a maioria da população (mulheres, escravos, estrangeiros e outros que perdessem a sua cidadania/direitos políticos).
Mas, partindo dos outros registos e vestígios das antigas polis, quase todas com elementos comuns, como por exemplo ágoras e assembleias de cidadãos, provavelmente os princípios democráticos podem ter sido bastante generalizados, nem que fosse em sistemas mistos, mais ou menos desenvolvidos de cidadania e envolvimento político cívico dos habitantes da cidade no seu governo.
 
Referências bibliográficas:
  • Farago, France. "As Grandes Correntes dos Pensamento Político". Porto Editora, 2007.
  • Ferreira, José Ribeiro. "História das civilizações clássicas I - Grécia". Universidade Aberta, 1996.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Introdução à morfologia da cidade islâmica – Religião e demais influências na criação da cidade privada

No versículo 4 do capítulo XLIX do Corão podemos ler o ensinamento: “O interior da tua casa é um santuário”. Esta passagem explica o porquê das formas diferentes e particulares da cidade islâmica tradicional. O urbanismo orgânico e sem plano destas cidades caracteriza-se pelas ruas estreitas, tortuosas, com quebras visuais de continuidade, cheias de cotovelos e becos sem saída. As fachadas das habitações são minimizadas, austeras e, por vezes, quase inexistentes. Não são raras as vezes em que existe apenas uma porta, ou um portão, forte e resistente. Existem muitas passagens inferiores, zonas menos iluminadas e edifícios que crescem nos pisos superiores cobrindo as ruas. As ruas são, em muitos casos, apenas corredores utilizados para deslocações entre um ponto e outro, sem a vida e arquitetura de cariz público das restantes cidades. Os espaços realmente públicos são diminutos, especialmente os mais amplos. Mesmo o bazar situava-se numa das portas das cidades, na sua envolvência e não numa praça como as cidades de influência greco-romana. Somente na mesquita se situam os grandes pátios amplos.
 
Mulheres no Casbah de Argel - Marie Berton-Maire
São várias as razões para estas características. Primeiro que tudo será a influência religiosa. Evita-se a ostentação exterior, pois todos serão iguais perante Alá. A ostentação, riqueza e vida volta-se para o interior das habitações. É nos pátios que o edifício recebe a luz que combate a insalubridade. É ai que se vive em sociedade, na privacidade de cada lar que é sagrado. É ai que florescem as magníficas decorações e crescem os jardins interiores de influência iraniana. As próprias ruas criam a sensação de privacidade e segurança dos olhares indiscretos, sempre reforçada pelas casas-fortaleza e suas austeridades externas.

Dança de Harem - Giulio Rosati
O facto da expansão dos primeiros impérios islâmicos ter sido tão grande e avassaladora criou um choque de culturas, apesar da grande capacidade adaptativa dos primeiros islamitas. Na prática tratou-se de uma cultura não urbana que ocupou grandes metrópoles urbanas, próprias do mediterrâneo e médio-oriente. Foi a partir dai que o islão se foi urbanizando segundo a sua cultura própria, sobre a ruina das conquistas. Dai a falta de planos e o urbanismo orgânico das cidades islâmicas. Não podemos esquecer que o avanço do islão beneficiou do conflito e desgaste entre Império Bizantino e Persas Sassânidas, enfraquecidos pela guerra constate, tendo ocupado os seus territórios, caracterizados por contarem zonas altamente urbanizadas.
Por fim, o efeito do clima. É evidente a utilização de uma estrutura urbana própria de climas tórridos, onde importa, acima de tudo, garantir sombras e zonas de descanso.

Haveria muito mais a dizer, mas fica uma primeira introdução que pretende dar alguma luz sobre o modo como se definiram as cidades islâmicas e a sua influência nas restantes cidades por onde essa civilização passou (o caso de Portugal por exemplo).
 
Referências bibliográficas:
Goitia, Fernando Chueca; "Breve História do urbanismo", Editorial Presença, Lda., Lisboa, 1989.
Keegan, John; "Uma história da Guerra", Tinta da China, 2009
Mumford, Lewis; "A Cidade na História", Martins Fontes, S. Paulo, 1998

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Finalmente sabemos porque voam as aves em V?

A resposta para a questão "Porque voam as aves em V?" será mais ou menos evidente. Mas só recentemente tivemos provas concretas que confirmavam as suspeitas, devido aos os estudos dirigidos por Steven Portugal.

Fonte: National Geographic
Então, segundo o estudo em causa, as aves voam em V, e com o bater de asas coordenado, principalmente por duas razões: poupança de energia por mais valias aerodinâmicas e por aproveitamento positivo das turbulências geradas pelo voo e, facilidade em seguir o líder.
Outros estudos referem que aves que recorram ao voo em grupo em V conseguem poupanças de 20 a 30% da energia despendida em situação de voo isolado. Agora a grande novidade é que se percebeu efetivamente como isso é possível, através de uma circulação de ar provocada pelas aves da dianteira que facilitam o movimento das asas das que voam imediatamente atrás.

Fonte: BBC
Poderão existir outras razões para além eficiência de voo. Ainda por comprovar estão as teorias que defendem ser um modo de defesa pois o modo coordenado de voo em grupo compacto pode ter o mesmo efeito dos cardumes de peixes. Em grupo as aves assemelham-se a uma só ave gigante.
Existe também quem defenda que o voo em V garante condições de higiene em voo de grandes distâncias quando as aves defeção.
Ficando ainda por explicar a razão mais comportamental e social, sem dúvida que esta descoberta permite agora outros "voos" de investigação, quem sabe aplicando a outras áreas do saber e tecnologia.
 
Referências bibliográficas
[1] - "Birds That Fly in a V Formation Use An Amazing Trick", da autoria de Ed Young. disponível em: http://phenomena.nationalgeographic.com/2014/01/15/birds-that-fly-in-a-v-formation-use-an-amazing-trick/
[2] - "Fly like a bird: The V formation finally explained", da autoria de Victoria Gill, disponível em: http://www.bbc.com/news/science-environment-25736049
[3] - "Why Birds Fly in a V Formation", Patricia Waldron, disponível em: http://news.sciencemag.org/biology/2014/01/why-birds-fly-v-formation

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Havia igualdade de género no antigo Egipto?

As fontes não são conclusivas, mas existem algumas evidências que conseguem sustentar uma quase igualdade de género no antigo Egipto. Pelo menos, comparativamente a outras culturas e civilizações da época, a do antigo Egipto terá garantido uma relativa igualdade de género entre homens e mulheres. No entanto, parece que o domínio terá sido sempre masculino.
Vejamos então alguns dados. Começamos pela mitologia. No antigo mito de Osíris e Iris, é Isis que, recorrendo à sua determinação e magia, faz ressuscitar Osíris (seu irmão e marido) assassinado por Seth. Depois é o filho de ambos, Hórus, que passa a governar o Egipto, enquanto Osíris se torna o governante do reino dos mortos. A importância de Isis, do seu papel de mãe e mulher, é essencial neste mito egípcio. Este era um verdadeiro mito da criação da sociedade egípcia e da sua crença na vida após a morte, tão importante para aquela civilização.

Homem e mulher egípcios - XXIV a.c.

A egiptóloga Barbara Lesko defende que existia igualdade jurídica ente homem e mulheres no antigo Egipto, pois a ambos era permitida a posse e uso-e-fruto dos bens, tal como venda e passar em testamento. No entanto Gay Robbins, igualmente egiptóloga, refere que mesmo havendo esse estatuto, na prática tal direito seria destinado ao papel assumido como mãe, tal como o de Isis no mito. Assim, na prática, sem a proteção masculina essa igualdade poderia ser difícil de existir de facto.
Não existem certezas absolutas, até porque a história da vida comum não era o principal foco dos registos antigos (sempre interessados em grandes conquistas, reinados e celebrações religiosas). Há que lembrar que as correntes historiográficas que focaram a importância desse tipo conhecimento histórico só se desenvolveram na primeira metade do século XX, pelos historiadores da famosa escola e corrente dos Annales.
Analisando o modo como como os antigos egípcios representavam os dois géneros também pode levar a resultados inconclusivos. Se existem representações em que o homem parece dominar a mulher, também existem outras em que ambos se representam nivelados em igualdade estrita.
No que toca à monarquia egípcia existem provas do governo de mulheres. Por exemplo, Hatchepsut, governou em nome próprio como faraó no XV a.c.. Muito conhecido é também o governo de Cleópatra, ainda que num período posterior completamente diferente, e sob influência de culturas externas. Pode muito bem ter havido uma progressiva tendência para a igualdade, mas por enquanto não há certezas.
Estátua de uma homem, mulher e criança - XIV a.c.
Tendo havido ou não verdadeira igualdade de género no antigo Egipto, é seguro que a mulher assumia um papel de maior liberdade e igualdade em relação às sociedades contemporâneas de então. Isto talvez se explique pela própria natureza da sociedade egípcia, mais estável, menos violenta e tumultuosa que outras grandes civilizações da época.
 
Referências bibliográficas:
  • ARAÚJO, Luís Manuel de. Mitos e Lendas – Antigo Egipto. Livros e Livros, 2008.
  • BALTHAZAR, Gregory da Silva. “Feminismo e a Igualdade de Gênero no Antigo Egito:
  • Uma Utopia da Emancipação Feminina”. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011
  • LESKO, Barbara. The Remarkable Women of Ancient Egypt. Providence: Scribe, 1996.
  • ROBINS, Gay. Women in Ancient Egypt. Cambridge: Harvard University Press, 1996.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

George Orwell, 1984, Marx, Materialismo e o perigo do Totalitarismo

Tanto se poderia dizer sobre a obra 1984 de George Orwell - pseudónimo de Eric Arthur Blair. Trata-se da obra que elevou o conceito de ficção social – ou distopia - a um patamar de genialidade. A obra é fortíssima, capaz de impressionar o leitor e o força-lo a pensar, sobre si e sobre a sociedade em que vive, sobre a história, a política e o mundo em geral.
Queria salientar três curiosidades desta obra, que se sentem com a leitura e que a prolongam para outros caminhos.
Cartaz contemporâneo do lançamento de 1984 alusivo ao Big Brother
 
Primeiro, o final do livro é descrito de uma forma incrivelmente realista, forte e tão credível que podemos ficar quase incomodados, numa relação direta com os últimos anos de vida do autor, que escreveu o livro em contrarrelógio. Orwell sofria de tuberculose e temia não terminar a obra. Talvez só por isso a obra tenha a força final que tem.
Segundo, algures no livro, num dos excertos citados em leitura pela personagem principal, encontramos uma descrição bastante simples e útil para a compreensão das teorias marxistas, da luta de classes e do materialismo histórico e da dialética marxista. Concordando-se ou não com Marx, a sua obra filosófica é importantíssima para compreender a história contemporânea, e a própria humanidade. Orwell explica muito bem, através de um excerto citado na sua obra de um outro escrito ficcional, aquilo a que Marx chamou a “luta de classes” pelo “controlo dos meios de produção”, de como as classes imediatamente abaixo da dominante (“medias” ou outras) fizeram revoluções para tomar o poder ao longo da história, criando ciclos de revoluções que levaram à mudança social. Essa luta pelo poder coincidia com a luta e procura do domínio dos meios de produção (“a riqueza”). Isto ajuda a compreender também a dialética marxista, ao fundamentar o constante confronto pelo domínio material como o motor para todas as mudanças nas sociedades humanas (sociais, culturais, religiosas, etc.).
Terceiro, o livro avisa (urgentemente) para os perigos do totalitarismo, de como pode desumanizar a própria humanidade, com homens e mulheres vivendo vidas esvaziadas de sentido sem liberdade para se realizarem individualmente. Esta mensagem continua muito atual, ainda que felizmente as “quase profecias” catastróficas de Orwell felizmente não se tenham vindo a concretizar.
Há que lembrar que 1984 é publicado em 1949, período em que a Europa estava seriamente ameaçada pelo avanço soviético de Estaline, em que na China chega ao poder Mao Zedong e que, apesar da vitória dos aliados e da democracia na europa ocidental, por todo o mundo brotavam governos autoritários. Orwell, apesar de escrever uma ficção, tem a capacidade de não misturar a teoria do materialismo histórico e a dialética marxista com os totalitarismos o geral. Talvez assim se perceba o porquê de Orwell se ter voluntariado para a guerra civil de Espanha como soldado contra o fascismo totalitarista de Franco, atitude que conciliou com as suas supostas tendências marxistas não totalitaristas – que podem ser vistas (ou não) como um contrassenso, uma vez que Marx defendia a necessidade da ditadura do proletariado como estágio intermédio antes de se chegar ao comunismo ideal.
Muito mais haveria para falar do autor e da sua obra – por exemplo que é dela que nasce o conceito pernicioso de “Big Brother”, da sociedade do controlo informativo total em rede em tempo real.
Em sumula, diria que se trata de uma ficção social com forte pendor filosófico e de ligação a quase todas as ciências sociais. Seja como for, 1984 é uma obra indispensável, muito importante para a formação cultural e cívica individual.
 
Referências bibliográficas gerais:
Uma busca pela wikipédia é suficiente para a generalidade dos conceitos, sendo que são tratados de modo introdutório e resumido simplificado para enquadrar a obra 1984:
Referências Bibliográficas mais aprofundadas:
  • Engels, Friedrich; Marx, Karl; "Manifesto do Partido Comunista", Edições Avante, 2011.
  • Marx, Karl; "O Capital", tomo I, II e III, Edições Avante.
  • Orwell, George; "1984", Antígona, 2007
  • Rémond, Réne; "Introdução à história do nosso tempo - Do antigo regime aos nossos dias", 1994.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Economia e Ecologia - Quase sinónimos quase opostos

Economia e Ecologia são termos que remetem para áreas de atividade por vezes tão distintas apesar de terem origem onomástica semelhante. Ou seja, ambos derivam da palavra grega Oikos, que significa casa. A economia será então, traduzindo literalmente, “a gestao da casa” que será “Oikos + Nomos”, sendo que Nomos significa Lei/costume/gestão. A ecologia será então, traduzido literalmente, “o estudo da casa” que será “oikos + logos”, sendo que Logos significa conhecimento.

Título desconhecido - Walt Kuhn
Esta constatação onomástica (origem dos nomes) levanta, no mínimo, muitas questões. Se o objecto - Oikos, a casa - é o mesmo porque será que estas duas áreas de conhecimento tantas vezes andam em conflito e lados opostos, defendendo visões, praticas e atitudes nem sempre compatíveis. Se a “ lei ou gestão da casa” anda longe do “conhecimento da casa” a casa não pode estar “arrumada”. Hoje em dia, o conceito da sustentabilidade tem vindo a aproximar as duas áreas, uma vez que ambas recorrem a ele e ele próprio só se concretiza na sua plenitude se a sustentabilidade for financeira e ambiental (tal como outras possíveis vertentes, com tendência para o alargamento do conceito).
Ambientalistas como Satish Kumar, entre outros, têm lutado pela aproximação entre economia e ecologia, sendo que coloca a primeira a depender da segunda, defendendo que “para se gerir uma casa é preciso conhece-la primeiro”. Ou seja, para que se faça economia é preciso primeiro fazer ecologia.
Para além dos jogos de palavras em que podemos cair, a aproximação entre economia e ecologia, independentemente de uma eventual guerra pela supremacia disciplinar, é o um caminho inevitável para garantir a sustentabilidade. Garante-se assim, supostamente, a dimensão ambiental e económica das actividades humanas.

Felizmente a tendência será a aproximação entre economia e ambiente, felizmente para todos nós e para as gerações futuras.


Nota: um agradecimento à Telma Fontes pela indicação do ambientalista Satish Kumar para citação neste texto.

Referências bibliográficas:

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Origem das Finanças Municipais - As Muralhas

Muitas das cidades europeias, e também as portuguesas, têm origem na antiguidade clássica, nomeadamente na colonização e desenvolvimento grego e depois romano. Foram esses povos que desenvolveram alguns dos modelos mais complexos e completos de governo cívico. Foi ai que de desenvolveu o próprio conceito de cidadania, cidadão, civismo, e etc.

Ilustração do foral de Évora  de 1501 - Autor desconhecido

No entanto, grande parte da nossa organização municipal das nossas cidades tem origem medieval. As cidades medievais eram, num mundo feudal, polos de liberdade, e onde as relações diretas pessoais de vassalagem eram minimizadas perante um sentimento e concordância colectiva perante as necessidades e desafios comuns da comunidade. São famosos os foros ou forais, por decreto real, onde cada vila e cidade assumiam a sua individualidade, as suas regras particulares de governo e existência perante todas as demais entidades, senhorios e poderes. Esta era uma época das leis particulares e não das leis universais e igualitárias que hoje definem as nossas sociedades.
As finanças municipais surgiram da necessidade de construir muralhas e defesas para comunidade. De início, constituíram-se fundos pontuais para garantir os meios necessários para as fortificações, devendo todos contribuir. Quem não contribuísse arriscava a expulsão. Rapidamente essas contribuições pontuais passaram a ser permanentes e os fundos recolhidos utilizados para outros fins, tais como vias de comunicação e outros serviços públicos.
Havendo necessidade de gerir os fundos e de tomar decisões sobre o desenvolvimento de cada localidade, surgiu a necessidade de estabelecer governos locais. Essas terão sido as primeiras assembleias de “homem bons”, uma espécie de democracia medieval e que terão contribuído também para a constituição daquilo que seriam as câmaras municipais. Obviamente que não eram democracias plenas, até porque a legislação não era universal e os direitos e deveres estavam longe de ser comuns, pois vivia-se numa sociedade hierarquizada, por classes e onde prevaleciam os vínculos feudais. Mas sem dúvida que o carácter excepcional da vida nas cidades constituiu, em tempo medievais, verdadeiros focos e centelhas de liberdade e governo cívico.
 
Referências bibliográficas:
  • Chueca Goitia, Fernando. "Breve História do Urbanismo", Editorial Presença, 1996.
  • Mattoso, José. "História de Portugal - Vol.II - Monarquia Feudal", Editorial Estampa, 1997.
  • Ramos, Rui (Coord.). "História de Portugal", Esfera dos Livros, 2012.

Artigos relacionados

Related Posts with Thumbnails
WOOK - www.wook.pt

TOP WOOK - Arte

TOP WOOK - Dicionários

TOP WOOK - Economia e Finanças

TOP WOOK - Engenharia

TOP WOOK - Ensino e Educação

TOP WOOK - Gestão

TOP WOOK - LITERATURA





A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



Introduza o seu e-mail para receber a newsletter do blogue: