quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Existiu uma civilização urbana no Amazonas que fabricava solo e geria a selva?

Das civilizações pré-colombianas das américas pouco se fala dos índios da bacia hidrográfica do Amazonas. Essas populações têm sido consideradas pouco desenvolvidas quando comparadas com as culturas da Mesoamérica e dos Andes. Os famosos, Maias, Incas, Aztecas, entre muitas outras civilizações e culturas, são dominantes no imaginário coletivo. Neste contexto os índios do Amazonas eram considerados povos seminómadas, de caçadores-recolectores que apenas pontualmente se dedicavam à agricultura, com tecnologia pouco mais desenvolvida que a dos povos da pré-história. 

GEORGE RETSECK (map); LUIGI MARINI (aerial view) in 
 Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

No entanto a ideia de que a bacia do Amazonas era pouco povoada antes da chegada dos europeus, e os seus povos pouco desenvolvidos, está totalmente errada. Estudos recentes têm contrariado esta ideia. Mas há que recordar que essa ideia de uma civilização amazónica tinha inspirado Percy Fawcett numa arriscada aventura, tendo desaparecido na selva brasileira em 1925, enquanto procurava por vestígios de uma grande civilização urbana desaparecida. Fawcett procurava pela cidade perdida de Z. 

Ao longo do século XX, especialmente nas últimas décadas, a possibilidade de encontrar cidades no Amazonas despertou o interesse dos arqueólogos. Destaca-se a descoberta do local arqueológico de Kuhikugu, pelo antropólogo Michael Heckenberger.  O local era composto por várias aldeias conectadas num sistema complexo polinucleado que no total podia acolher perto de 50.000 pessoas. Este achado foi muito badalado por um artigo publicado na revista Time em 2005. O nível de desenvolvimento destas comunidades é comprovado pela qualidade da cerâmica encontrada nas escavações, mas especialmente pela capacidade de engenharia hidráulica e agrícola. As escavações têm revelado a construção de sistemas complexos de drenagem e a criação de solo antropogénico, chamado “terra negra”. Este solo era produzido pelos índicos através de composições minerais e matéria orgânica, com forte presença de carvão vegetal. Este solo apresenta características únicas, de Ph neutro e que ainda não foi possível replicar.

Tudo indica que a bacia do Amazonas estaria povoada por estes sistemas urbanos polinucleados e altamente conectados. A Selva pode muito bem ter sido furto de uma manipulação e gestão orientada para suportar estas comunidades humanas, tendo esta realidade mudado com a chegado dos europeus e doenças que dizimaram a população nativa, obrigando os resistentes a optar por um modo de vida seminómada. Não existiam cidades de pedra, pois esse elemento é escasso nesses locais. Estas urbes construíam-se de madeira, barro e terra, elementos facilmente absorvidos pela selva ao longo dos anos. A selva tem apagado os vestígios, mas os solos encerram muita informação e novas tecnologias como o LIDAR permitem identificar estruturas e elementos produzidos pela mão humana ocultos pela vegetação e solo.

À medida que vamos sabendo mais sobre a ocupação humana pré-colombiana do Amazonas mais poderemos aprender sobre o que foi um sistema sustentável ecológico de desenvolvimento urbano. Pode ser uma solução para o nosso futuro, pois as cidades não têm de ser todas de pedra. 

Referências:

Clement, C.R.; Klüppel, M.P.; German, L.A.; Almeida, S.S.; Major, J., Aragão, L.E.O.C.; Guix, J.C.; Lleras, E.; WinklerPrins, A.M.G.A.; Hecht, S.B.; McCann, J.M. (2009). Diversidade vegetal em solos antrópicos da Amazônia. In As Terras Pretas de Índio da Amazônia -- Sua Caracterização e Uso Deste Conhecimento na Criação de Novas Áreas W.G. Teixeira, D.C. Kern, B.E. Madari, H.N. Lima, e W.I. Woods (eds.), pp. 147-161.  Manaus: Embrapa Amazônia Ocidental.

Clement, C., Denevan, W., Heckenberger, M., Junqueira, A., Neves, E., Teixeira, W., & Woods, W. (2015). The rain forest is a human creation. Embrapa Solos. 

Heckenberger, M. J. (2009). Lost Cities of the Amazon. Scientific American 301, 64 - 71. doi:10.1038/scientificamerican1009-64 

Heckenberger, M.J., A. Kuikuro, U.T. Kuikuro, J.C. Russell, M. Schmidt, C. Fausto, and B. Franchetto (2003). 1492: Pristine forest or cultural parkland? Science 301: 1710–1714. Heckenberger, M.J., J.C. Russell, J.R. Toney, and M.J. Schmidt. 2007. The legacy of cultural landscapes in the Brazilian Amazon: Implications for biodiversity. Philosophical Transactions of the Royal Society (B) 362: 197–208

Mann, C.M. 2005. 1491: New revelations of the Americas before Columbus. New York: Alfred Knopf.

WinklerPrins, A.M.G.A.  (2009). Sweep and char and the creation of Amazonian Dark Earths in homegardens. In Amazonian Dark Earths: Wim Sombroek’s Vision, W.I. Woods, W. Teixeira, J. Lehmann, C. Steiner, and A.M.G.A. WinklerPrins, and L. Rebellato (eds.), pp. 205-211.  Dordrecht: Springer Publisher

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