terça-feira, 10 de maio de 2016

Efeito parasitário do turismo no património e urbanismo

Pode ser polémico, mas o turismo pode ter um efeito parasitário geral, beneficiando de investimentos e das existências de outras atividades contribuindo diretamente pouco ou nada para os custos que recaem sobre elas. Um desses casos poderá ser o património histórico, mas também o urbanismo na sua dimensão integrada de conjuntos edificados e atividades que se desenvolvem nos espaços urbanos.

Grupo de artistas dinamarqueses em Roma -  Constantin Hansen
O turismo é claramente um sector económico de extrema importância. Do ponto de vista psicossocial, trata-se de uma atividade de lazer que pretende proporcionar experiências agradáveis, que seja pelo lado lúdico, instrutivo ou outro. É imensamente importante do ponto de vista económico, até porque é tratado como uma exportação. Mas o turismo só acontece onde existam atrações que o justifiquem. No caso do património histórico e urbanismo essas atrações surgem de heranças ou desenvolvimentos que não foram pensadas para esse fim, ou seja, a sua utilidade é quase sempre transformada e adaptada. Alguns desses usos originais pretenderiam dar resposta às necessidades contemporâneas das épocas em que as construções terão sido edificadas. Mas quem fala de construções fala de outro tipo de criações humanas que possam ter nos dias que correm utilização turística. O turismo, nestes casos, usa os recursos já existentes. Será que os usa na mesma medida em que contribui para os manter?

Em muitos destes casos existe uma pressão turística crescente sobre determinados patrimónios. Ou as entidades públicas encontram modo de converter essa procura em receitas para compensar os custos sobre a degradação que se acelera do património ou então entra-se em casos de insustentabilidade. Isto tanto é valido para o sector público como privado, sendo que na dimensão pública os preços cobrados pelo usufruto tendem a refletir diretamente os encargos. Mas nos casos em que esses patrimónios têm usos religiosos, cívicos e identitários locais e nacionais, a cobrança de entradas ou impostos indiretos para suportar esses custos, especialmente aos autóctones ou cidadãos a quem esse património é próximo, pode gerar injustiças, ainda que não reflita a totalidade dos gastos.

Assim não será de estranhar que se considere o sector do turismo parasitário em determinados casos, especialmente quando contribui para a degradação do património, impede que os cidadãos do país em causa o usufruam ou pelo simples facto de causar tais impactos que descaracteriza ou transforma a vida das populações locais. Será certo que tem efeitos económicos positivos e que pode contribuir indiretamente através dos impostos de consumo que gera para a economia e finanças públicas. Mas será que esses fundos depois chegam aos organismos que gerem o património e às autoridades urbanas e territoriais que têm de lidar com os impactos da pressão sobre as infraestruturas, sistemas de transportes e outros?  Existem entidades e autoridades públicas que encontraram várias alternativas de tentar transferir estes custos para a indústria do turismo mas é uma questão que continua a ser pertinente.

Fica a questão e alguma bibliografia que trata esta problemática.


Referências bibliográficas:
Benhamou, Françoise. (2011). L´économie de la culture (7ª edicion). Paris: La découverte.

Graham, Brian; Ashworth, G. J.; Tunbridge, J. E. (2000).
A geography of heritage - Power, Culture & Economy. London: Arnold.

Patin, Valéry. (2012).
Tourisme et patrimoine. Paris: La documentation française.
Peackock, Alan; Rizzo, Ilde. (2008).
The heritage game - economics, policy and practice. Oxford: Oxford University Press.

Rizzo, Ilde & Mignosa, Anna (ed.) (2013).
Handbook on the economics of cultural heritage. Cheltenham/Northampton: Edward Elgar.
 

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