sexta-feira, 7 de junho de 2013

O fraco crescimento da economia portuguesa deve-se aos serviços?

Pretende-se com este texto aproximar algumas explicações para os atuais défices, e que vêm de alguns anos, para o fraco crescimento e performance da economia portuguesa. Fica então esse arriscar de conjeturas.
Auto-retrato com o grupo da Brasileira  - Almada Negreiros
 
O processo de desenvolvimento económico de um país pode-se simplificar, apesar de todos os erros e imprecisões provenientes do particular, em três fases interligadas (Costa et all, 2011):
  1. O desenvolvimento de uma economia arranca com um setor agrícola dominante, com uma produtividade e riqueza associada que cresce lentamente.
  2. Posteriormente, ocorre a industrialização, ocorrendo uma transferência dos recursos e da produtividade dos setores primários para o novo setor naturalmente mais produtivo, tendencialmente o mais industrializado.
  3. Por fim o crescimento económico é dominado pelo setor dos serviços, num setor que tende a apresentar níveis de produtividade e taxas de crescimentos inferiores ao industrial. Com esta terceira fase, as transferências de produtividade e recursos acumulados, tendem a fazer reduzir a própria produtividade de toda a economia, pois como se disse o setor secundário (indústria) é, regra geral, mais produtivo que o terciário (serviços).
Seguramente que existirão muitos casos particulares a escapar a esta simplificação, mas deste modo pode-se ter, pelo menos, uma noção básica dos principais e mais comuns processos de desenvolvimento que seguem as economias padrão.
Tendo em conta que a economia portuguesa tem vim a cair nos últimos anos, e mesmo em décadas anteriores tem crescido abaixo do que seria expectável, a partir do modelo anterior, e cruzando-o com outros dados, poderemos tentar encontrar algumas explicações e constatações.
Num outro texto já se abordou aqui no blogue o problema da baixa produtividade como um dos principais condicionantes da economia portuguesa (Amaral, 2010). Partido desse axioma poderemos encontrar na evolução e predomínio dos setores de atividade em Portugal uma possível explicação para a nossa pouca produtividade e fraco crescimento económico. Se atendermos a que a industrialização foi bastante tardia em Portugal, e que quando ocorreu assentou, salvo algumas exceções, em processos tecnologicamente pouco intensivos e que recorriam a mão-de-obra barata e não especializada, poderemos perceber o pouco valor acrescentado que traziam já na altura. Se atendermos que esse período de crescimento industrial não foi muito extenso e que o setor nunca foi sequer dominante (ver texto sobre emprego; INE, 2013), facilmente compreendemos que nunca se acumularam os capitais necessários para uma industrialização mais tecnológica e com mais valor acrescentado. Os acréscimos de produtividade e capitais vindos do setor agrícola e do industrial possível, mesmo que reduzidos, passaram quase diretamente para o novo e ascendente setor dos serviços (Costa et al, 2011). Assim, nestes complexos processos de transferências de produtividades e capital, fomentou-se precocemente um setor terciário sem ter existido uma indústria de suporte forte. Logo, ficamos muito limitados na nossa produtividade, condicionando assim o nosso crescimento e pujança económica global.
Muitas outras teorias e explicações válidas à parte, estas palavras são apenas uma tentativa de aproximação à compreensão do atual estado económico de Portugal. Provavelmente, antes de atuar, seria necessário primeiro estudar e perceber.

Referências bibliográficas
  • Amaral, Luciano; 2010, “Economia Portuguesa, as últimas décadas”. Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa.
  • Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; 2011, “História Económica de Portugal – 1143-2011”. Esfera dos Livros, Lisboa.
  • INE; 2013, “Portal do Instituto Nacional de Estatística”. Acedido entre 15 de Maio e 30 de Maio de 2013: http://www.ine.pt/xportal
 

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