terça-feira, 12 de agosto de 2014

Boca do Inferno – Leituras de história contemporânea


Ler as crónicas de Ricardo Araújo Pereira é arriscar várias coisas. Primeiro, arrisca-se a ler algo escrito em bom português, com uma pontuação, construção frásica e recursos gramaticais impecáveis. Depois, e como é expectável, arrisca-se o sorriso e o riso, ou, para outros, aquela associação bem-humorada que diverte mas que fica guardada no pensamento individual, sem quaisquer manifestações físicas externas – admito que esse é mais o meu caso.

Mas o que me leva a escrever este texto não é nenhum dos dois casos anteriores. O que me motiva a invocar aqui os livros das crónicas “Boca do Inferno” é o seu potencial histórico. Quando peguei no último livro destas crónicas (o 3º no caso em questão), dei por mim a ler as crónicas de uma época passada, daquilo que era a actualidade na altura. Não sei se podem considerar como documentos históricos. Isto porque são crónicas subjectivas de humor, e porque o autor não é obrigado a nenhuma metodologia de criação de conhecimento histórico – embora Paul Veyne diga que a história não tem método. Ricardo Araújo Pereira não esconde os seus gostos e preferências, o que é aceitável e até útil já que se tratam de artigos de opinião. No entanto, por as fazer sobre temas de importância geral contemporânea – na maior parte dos casos – acaba por fazer uma súmula da história recente. Basta pegar nos livros, e se os lermos de seguida, vamos recordar episódios históricos recentes, e vamos fazê-lo de um modo leve e agradável, pois a motivação é a busca pelas interpretações humorísticas do autor. Assim, Ricardo Araújo Pereira faz, talvez sem intenção, bastante pelo desenvolvimento da história contemporânea nas suas obras “A Boca do Inferno”, pois faz-nos recordar a história (no sentido lato do termo) dos últimos anos. E, com as suas opiniões, contribui para que construamos a nossa, interpretando a história recente. Pelo menos não há o risco de sermos ocultamente direccionados para uma determinada prespetiva mascarada de imparcialidade, pois nisso não há dúvidas. Ricardo Araújo Pereira é tudo menos imparcial.
Importa não esquecer que a análise histórica da antiguidade se faz recorrendo também aos cronistas da época, e, que em muitos casos, será difícil saber quais desses escritos constituem provas incontestáveis do que realmente aconteceu. Nunca saberemos, em muito deles, se são de facto imparciais.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Tecnocracia – A Utopia que Platão Prescreveu na sua República?

Ao ler-se a República de Platão, fica a sensação que o conhecido filósofo não era grande apreciador da Democracia. Para ele o sistema ideal seria a Aristocracia [2], no sentido da etimologia da própria palavra, que era nada mais nada menos que “o governo dos melhores” [3]. Ou seja, Platão, no seguimento do pensamento socrático, considerava que o regime democrático muito suscetível de decisões políticas erradas, por desconhecimento e manipulação dos cidadãos ignorantes nos assuntos mais complexos, correndo-se também o risco dos cargos de topo serem ocupados por pessoas impreparadas para as exigências reais.
Os pretendentes - Leopold Schmutzler
Na sua defesa da atribuição dos cargos governativos aos “melhores” pretendia salvaguardar o bom governo [3]. Esses melhores seriam identificados depois pelas suas capacidades, conhecimentos. Não é por acaso que Platão considerava deverem ser os filósofos a governar, ou seja, os sábios, pois nessa altura a sabedoria era tendencialmente transversal e abrangente, ainda que alguns desses sábios se especializassem.
Assim, deste modo, será que Platão, segundo as suas palavras, próprias do seu tempo, em a República, defendia a tecnocracia [5;6]. Ou seja, que os melhores em cada área - no caso contemporâneos os técnicos [4] - deveriam ser os responsáveis governativos públicos pelas mesmas, numa clara oposição à democracia, em que qualquer cidadão poderia desempenhar qualquer cargo público.
Não é de estranhar que isto tenha sido polémico na altura, tendo o próprio Sócrates [1], entre outras razões também, cometido suicídio devido a estas críticas à democracia ateniense.
Quase na mesma lógica, mas já no século XIX, Max Weber refere-se ao termo "burocracia" como o governo da razão, numa relação de proximidade com a atual tecnocracia, isto sem qualquer conotação negativa assim associada. Para Weber, o poder burocrático (exercido por técnicos segundo a nossa atual conceção) seria um dos poderes daquilo que prescrevia como "Troikocracia" [7], que seria no fundo um equilíbrio de poderes (carismático, tradicional e burocrático) capaz do melhor sistema de governo possível.
Hoje em dia ainda se debate qual o equilíbrio entre democracia e tecnocracia, os limites e esferas de ação ideais de cada um desses sistemas/prescrições governativas. Resta saber qual será o próximo passo. Será que se cumpre o ideal platónico dos "filósofos" passarem a ser os nossos governantes? Será pela nomeação direta desses tais sábios ou pela transformação de todos os cidadãos, devido à crescente escolarização, em filósofos na especialidade (técnica)?
 
Referências bibliográficas

[1] "A Apologia de Sócrates", Platão, Guimarães editora, 2009.
[2] "Defender a Aristocracia faz sentido?", texto do blogue a Busca pela sabedoria, disponível em:
http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/2009/09/aristocracia.html
[3] "República ou Politeia", Platão, Guimarães Editores, 2005.
[4]"Técnico",  Dicionário online da Porto editora, disponível em:
http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/t%C3%A9cnico
[5]"Tecnocracia", Dicionário online da Porto editora, disponível em: http://www.infopedia.pt/lingua-portuguesa/tecnocracia
[6]"Tecnocracia", InfoEscola, disponível em: http://www.infoescola.com/formas-de-governo/tecnocracia/
[7] "Troikocracia, Weber e o Marquês de Pombal - segundo Miguel Pereira Lopes",  texto do blogue a Busca pela sabedoria, disponível em: http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/2014/05/troikocracia-weber-e-o-marques-de.html

terça-feira, 24 de junho de 2014

A economia serve para buscar a felicidade?

Existem imensas definições para caracterizar a economia. Se começarmos pela origem etimológica do termo (Oikos + Nomos = Casa + leis/costume/normas) concluímos que o termo pode ser incrivelmente vasto. Já desde a antiga Grécia filósofos e pensadores dedicaram atenção aos estudos da “economia”, ainda que com uma metodologia e abordagem muito distinta daquilo em que esta ciência (humana) viria a usar atualmente. Terá sido durante a Idade Moderna, com o mercantilismo, e depois na Idade Contemporânea com o desenvolvimento do capitalismo e revolução industrial, que o significado e método clássico de economia se terá definido.

Estúdio com crânio - Georges Braque

De um modo simplista poderia dizer-se que: a economia é a ciência humana que estuda os mecanismos de produção, consumo, distribuição e rendimentos de bens e serviços (sempre limitados) com vista à sua otimização. A definição é simples, e muito limitada, tendo em conta a sua abrangência, porque economia pode ser quase tudo, pois se pensarmos na origem etimológica do termo, será tudo menos simples definir o que são as regras (naturais e artificiais) da nossa casa (ambiente).
 
No entanto, encontrei recentemente uma possibilidade curiosa para o fim ou objetivo da economia que pode ajudar na sua compreensão e simplificação. Segundo o livro “Economia para totós”, a economia é a ciência que pretende otimizar o uso de bens e serviços para garantir o máximo de felicidade aos indivíduos. Não sei se isto é inocente ou não, mas não entra aqui a palavra lucro e acumulação de capital. É curiosa esta mudança, pois a essa “busca pela felicidade” os autores acrescentam também a componente ambiental, no sentido de que a “boa” economia será também a que garante sustentabilidade dos recursos. Ou seja, a economia será então a ferramenta que permite avaliar os recursos e bens, sempre escassos limitados, e organizar todo o sistema produtivo e distributivo de modo a garantir o que as pessoas pretendem, gerando felicidade e sustentabilidade ambiental.
 
Tudo isto pode ser ingenuidade, ou uma mudança de paradigma, especialmente relevante se pensarmos que vivemos numa altura em que se diaboliza a economia e os economistas. Será isto apenas uma ação de marketing, intencional ou não, dos economistas para defenderem a sua ciência - que não por acaso é humana -, tentando liga-la à causa ambiental, humanizando-a e modernizando-a perante o individualismo contemporâneo centrado na busca da felicidade individual?
 
Referência bibliográficas

domingo, 8 de junho de 2014

Uma Antologia Filosófica sobre o Trabalho

Começo já por avisar que este texto vai ser muito longo, pois é quase uma mini-antologia filosófica sobre o trabalho, embora possam faltar muitas teorias e pensadores. Então aqui vai.

De um modo geral, os antigos filósofos gregos desprezavam o trabalho físico. O trabalho, por surgir de uma necessidade física, era uma prisão, logo uma limitação e um atentado à liberdade. Só assim se compreende como nessas suas sociedades as elites intelectuais se tenham desenvolvido mantendo uma dependência tão grande do esclavagismo. Ou seja, a verdadeira liberdade só começava quando garantidas as necessidades mínimas, pelo que todo o trabalho que constituísse uma obrigação era para eles negativo. As atividades sublimes seriam as que não dependessem dessa obrigação básica, o que é contrário a toda a organização e estruturação laboral: contrária a horários, hierarquias, a responsabilidades definidas de produção e a vencimentos.


Angelus - Jean-François Millet
Por exemplo, para Platão, um artesão arriscava a falsidade, pois era um imitador da natureza (direta ou indiretamente), realidade essa que era também uma imitação da verdade, e não a verdade propriamente dita. Logo o trabalho, de criação e produção, era uma imitação de uma imitação, uma sequência de falsidades e defeitos replicados, em suma: um distanciamento da verdade evitável. A verdade e a beleza que só podiam ser atingidas através do imaterial, do conhecimento intelectual e do espírito. Esta visão teve impactos imensos na maior valorização posterior do trabalho intelectual face ao trabalho físico.

Aristóteles, por sua vez, distinguiu que a criação não era por si só negativa, pois não era uma imitação da realidade (que por sua vez era uma imitação da verdade – segundo a visão platónica). Para ele o artífice poderia remisturar a realidade, para atingir um trabalho benemérito. O artífice poderia criar o belo através da suar arte e engenho. Definiu assim quais os trabalhos que poderiam ser dignos, mas, de um modo geral, foi sempre a dimensão intelectual, onde a poética assumia muita importância, que continuou sendo a mais digna atividade do desenvolvimento humano.


Para além desta influência grega surge uma outra influência que marcará toda a nossa história: a cultura judaico/cristã. Será dos escritos sagrados fundamentais dessa corrente religiosa, seja em que versão for, que surge a ideia de um Deus trabalhador, que construiu o mundo. O mesmo Deus que, depois da desobediência de Adão e Eva – como os primeiros humanos –, os castigou com a expulsão do Paraíso, e dai em diante passando o castigo de depender do trabalho como forma de subsistência a toda a humanidade. Assim, toda a história das comunidades de origem judaico/cristãs centraram a sua cultura no trabalho, na noção de castigo divino, de obrigação até ao fim dos dias como algo incontornável, mesmo que essa noção negativa do trabalho estivesse apenas indiretamente presente na vida dessas comunidades, e da qual a nossa é herdeira.


Na época medieval o trabalho continuou a ser um sinónimo de penitência, basta relembrar que as classes privilegiadas - a nobreza - estavam proibidas de trabalhar, e que algumas formas de monaquismo visam o labor e a oração – ora et labora -como os únicos caminhos para a salvação, trabalhando o corpo e a alma. Pode-se dizer que foi São Tomás de Aquino quem nessa altura mais contribuiu para redefinir a ideia de trabalho, e de o expurgar de algum do seu valor negativo, reforçando que o trabalho poderia ser benéfico, incluindo até o comércio, quando desse frutos a toda a comunidade cristã.


Vários pensadores e filósofos, uns mais de ação intelectual outros geradores de novas realidades sociais – como por exemplo os iniciadores das cisões no cristianismo ocidental – foram desenvolvendo, por sua vez, pensando em toda a população e não apenas na vida dos mosteiros, a ideia de que o trabalho não era uma penitência degradante, mas uma forma útil de obter a salvação, e que a criação de riqueza poderia ser um sinónimo do bom trabalho do corpo e da alma. Não foi por acaso que Max Weber, no século XIX, relacionou o Protestantismo com o Espírito do Capitalismo, mesmo que outros se tenham servido de outros exemplo para relacionar o capitalismo com outras confissões religiosas e até outras razões.


Mas foi no século XVIII que se assumiu verdadeiramente a obtenção de riqueza como algo digno, e logo também do trabalho, contrariando muita da tradição cristã que abominava a acumulação de riqueza, fosse por que meio fosse. O principal autor conceptual, que redigiu essas ideias, foi Adam Smith. Para ele: “o trabalho era a única medida real e definitiva que poderia servir, em todos os tempos e em todos os lugares, para avaliar e comprar o valor de toda as mercadorias”. O trabalho constituiu-se como algo instrumental e abstrato, e a sua essência era o tempo. O trabalho não era senão aquilo que produzia riqueza. Para cientificar a noção de trabalho Malthus restringiu-o à produção de bens.


Voltando uns anos atrás, foi Locke que definiu o trabalho como símbolo da autonomia individual, na medida em que graças a ele o individuo se tornava capaz, pelo simples exercício da suas faculdades próprias, de satisfazer as suas necessidades negociando livremente o lugar que essas faculdades lhe permitiam obter na sociedade. O trabalho é então visto como uma capacidade da qual o individuo dispõe livremente e cujas condições de venda, estipuladas numa convenção resultante de um ato livre, negocia com um empregador. Deste modo surge a novidade da época: a liberdade do trabalhador decidir a quem presta os seus serviços, ficando para sempre em causa as antigas estruturas sociais de ordens, o feudalismo e as relações pessoais de dependência imutáveis. No entanto, o mundo estava longe de garantir igualdade na nova liberdade que se criava conceptualmente, pois as relações entre trabalhador e empregador (ou solicitador de trabalho) estavam longe de constituir uma igualdade entre pares.


O trabalho passou a ser a nova relação social que estruturou as sociedades ocidentais, no mesmo sentido em que o individualismo se assumia sem rodeios, embora fosse um conceito tão antigo como as religiões do livro ao defenderem o “livre arbítrio”. O trabalho assalariado desembaraçou-se das relações tradicionais de dependência pessoais, baseadas no parentesco, no sangue e no nascimento. Criou-se uma nova liberdade, mas, ao mesmo tempo, um novo condicionamento.


Por falar em condicionalismo à liberdade individual, será útil voltar novamente um pouco atrás. Ao assumir-se a noção de individualismo e do poder de ação do Homem, colocaram-se em causa as Leis Naturais imutáveis. Hobbes demonstrou que são os indivíduos os criadores das suas próprias leis, para si e por si; que se submetem a uma determinada autoridade por necessidade e medo. Assim também foi o mesmo para o trabalho, com o trabalhador submeter-se, em liberdade individual, a um empregador em troca de pagamento, formando uma nova lei e compromisso. Curiosamente, isto não era muito diferente do feudalismo, quando essa condição não era hereditária, e cada indivíduo podia decidir a quem prestar vassalagem. Seculos depois, Hegel aprofundou a ideia de que é o Homem quem faz a sua história – coisa que hoje nos parece obvia. Partindo de Hegel, Marx diz que o homem não pode existir de outro modo que não trabalhando, construindo a seu percurso, inspirando também no humanismo de Bacon – esse pensador que converteu, através da ciência e da razão, o medo em energia positiva. Para Marx, o verdadeiro trabalho era uma necessidade consciente visando fazer do mundo natural um mundo humano. Assim, o trabalho era a manifestação maior da individualidade, mas também constituiu o meio interior pelo qual se realiza a verdadeira sociabilidade. É através dele que se realiza a troca recíproca daquilo que cada um é verdadeiramente, ao colocar qualquer coisa de si no produto que faz e que troca por outros bens e serviços entre iguais.
Por sua vez, e na senda de Marx, Louis Blanc defendeu que o trabalho seria o veículo da realização do individuo e da garantia da felicidade, uma vez que o trabalhador, do ponto de vista ideal, faria exatamente o que gostaria, por no seu trabalho estar parte de si, do seu génio criador, que o realizaria e lhe traria então a felicidade. Esta visão utópica entrou posteriormente em choque com organização do trabalho taylorista/fordista, com a linha de montagem a contribuir para aprisionar qualquer eventual realização pessoal, criatividade e manifestação individual do trabalhador sujeito a esses princípios de produção. A standardização veio impossibilitar que uma parte importante do trabalho fosse criativo, e capaz de realizar aqueles para quem essa dimensão era essencial, mas pode muito bem ter trazido felicidade a outros espíritos, embora não se coadunando muito com a liberdade do espírito humano.


Por outro lado, o consumismo constituiu-se também como outra eventual prisão para quem fazia depender a sua subsistência do trabalho. O individualismo, em conjugação com o consumismo, criou uma nova armadilha. Para Hanna Arendt, o Homem moderno ficou escravo do trabalho por própria vontade, na incessante busca pelo enriquecimento urgente, aquele que nos torna pobres porque desaproveitamos a qualidade de vida no geral, e as outras dimensões da vida não produtivas que nos tornam humanos (cultura, religião, etc.). Também Heidegger vê no advento dos tempos modernos a redução das múltiplas relações que o homem mantinha com o mundo (relações de escuta, contemplação, e de ação) a uma só, a da produção-consumo. Desse modo, o trabalho como laço social é também muito redutor, pois obrigaria a traduzir toda a dimensão humana a uma relação de troca, de bens e de serviços. Segundo Hans Jonas, o capitalismo parece ser a forma mais eficaz e rápida de valorização, apoiando-se no interesse em que cada um tem em valorizar as suas capacidades, a fim de delas extrair benefícios. Isto, sem dúvida, é uma forma muito redutora de humanismo, e de vivência do individuo em comunidade. As nossas atividades humanas, felizmente, estão longe de apenas se traduzirem em produção para ganhos individuais. Se assim não fosse: a fraternidade e solidariedade seriam conceitos vazios, se bem que estão longe de ser universais.


Apesar de toda a nossa atual capacidade de acumular riqueza, e todas as possibilidades que o capitalismo em liberdade total permitiu, o Homem está longe de ser feliz. Lipovetsky argumenta que a decepção das sociedades contemporâneas, hiperconsumistas, provem da noção de existência da liberdade total de cada um se realizar pessoalmente, mas que, apesar de tudo, a felicidade continua por alcançar. Ou seja, não havendo barreiras evidentes à felicidade instala-se a frustração quando os indivíduos não a conseguem atingir, pois deixa de haver uma solução evidente ou desculpa para ela não chegar. Aqui há também um paralelismo com o desejo de ter e fazer o trabalho de sonho, aquele que realize e potencie individualmente cada pessoa.


Assim, depois de este longo texto podemos ver que a noção, definição e valor do trabalho estão longe de ser imutáveis, e até podemos dizer que a noção actual de trabalho foi, em parte, inventada no século XVIII. De qualquer dos modos, tome o futuro o rumo que tomar, será difícil conceber nele sociedades onde o trabalho seja secundarizado, mesmo que muitos trabalhos passem a ser feitos por maquinaria e tecnologia, pois novas formas de trabalho estão sempre a surgir. Mais que tudo, penso que importa, não sermos escravos do trabalho, mas usar o trabalho como garante da nossa felicidade.


Referências bibliográficas

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ramalho Ortigão e a Defesa do Património Edificado em Portugal

Ramalho Ortigão foi um homem do seu tempo, um erudito dedicado a várias áreas de atividade, mas especialmente às letras. Era um homem de causas e valores, por isso colocou a sua vida e escritos ao serviço do que considerava civicamente importante, tendo sido uma das suas lutas a defesa do património edificado nacional. Nessa demanda participou em várias iniciativas, desempenhou alguns cargos de responsabilidade e escreveu muito, tendo uma das suas obras marcado para sempre a essa temática entre terras lusas, constituindo-se quase como uma cartilha e modelo para a identificação do património e critérios de intervenção (Custódio, 2013). Essa obra, ainda hoje relevante e importantíssima, foi “O Culto da Arte em Portugal”, onde o autor ensaia um documento crítico e descritivo sobre o património artístico português, identificando muito património que, na época, se iam perdendo (Ortigão, 2007).
Excerto da imagem de Ramalho Ortigão pertencente à obra "O grupo do Leão" - Columbano Bordalo Pinheiro
Em finais do século XIX a preservação do património em Portugal estava mais atrás do da realidade dos países mais desenvolvidos da Europa. Tal facto seria devido ao atraso económico e de desenvolvimento do país, com a sua tardia industrialização (Costa et al, 2011) – essa revolução que mudou os sistemas produtivos e a própria sociedade que se queria livrar do obsoleto (Choay, 2010). Mas o progresso industrial teve os seus efeitos destrutivos, o que levou ao despertar de algumas elites, especialmente as artísticas e intelectuais, para um romantismo que procurava na simplicidade do passado o expoente da beleza e estética em oposição à uniformização galopante e massiva da industrialização. Assim surgiu a necessidade de preservar patrimónios móveis e imóveis. O sentimento de defesa do património distintivo das várias regiões bebeu também bastante dos movimentos nacionalistas (Rémond, 2011). O caso português não foi exceção, e a ação de Ramalho Ortigão inseriu-se nesse movimento que brotava pela Europa fora (Alves, 2009).

Mas mais do que identificar obras, a crítica de Ortigão – supostamente o primeiro crítico de arte em Portugal (Oliveira, 2008) – é uma reflexão sobre a sua área de estudo enquanto membro dirigente da comissão dos monumentos, tentando superar os modelos vigentes de salvaguarda e proteção do património (Custódio, 2013).

Para Ortigão existia um desleixo e desorganização da política da arte e património (Infopédia, 2014). Ortigão lamenta a falta de museus e o desvirtuamento do que tinha qualidade artística pela simples ignorância das gentes e artistas, que, sem conhecerem a arte nacional, emperram no banal e na imitação do estrangeiro e evitam a criação original. O papel de Ortigão na defesa do ensino nas temáticas do património foi igualmente importante e visionário.
 
O trabalho da comissão a quem esteve ligado foi em parte efémero pelo pouco tempo em que esteve constituída – tal como as iniciativas que já tinham acontecido no passado - (Alves, 2009) -, mas ficou lançada a semente, de uma entidade que bebeu muito do espírito crítico, erudito e batalhador de Ortigão (Custódio, 2013).

Apesar dos seus cuidados estudos, dos muitos ensaios, relatórios, memórias descritivas e visitas aos vários locais, existem autores que questionam os resultados práticos e a consequência dos seus trabalhos (Alves, 2009). Mesmo a sua famosa e importante obra, “O Culto da Arte em Portugal”, não está isenta de críticas, uma vez que “ não é uma obra técnica destinada à construção de um modelo de interpretação e definição dos monumentos, nem do modo como esse modelo pode intervir na estruturação da conservação e restauro” (Custódio, 2013). Também surgem críticas à obra por se considera que a “falta de referências mais pormenorizadas acaba por transformar a primeira parte deste livro num arrolamento sem ordem das desgraças do nosso património, muitas vezes descontextualizadas, misturando as ações oitocentistas de restauro com as transformações arquitetónicas setecentistas, executadas sob uma orientação totalmente distinta daquelas e, como tal, como uma leitura e compreensão totalmente diferentes” (Alves, 2009).

Nos seus vários cargos, chegou mesmo a desempenhar o papel de presidente do conselho dos monumentos nacionais, mas, ao contrário do seu sucesso nas questões das artes decorativas, as suas ações para o património edificado não obtiveram o êxito que desejava, tendo-se afastado posteriormente (Alves, 2009), pois os movimentos de salvaguarda ainda pouco podiam perante a força da modernidade, do novo e do moderno, especialmente naquela época de positivismo exacerbado.

Críticas à parte, pois quando se inova e se parte quase do zero, como foi o caso de Ramalho Ortigão nas questões da conceptualização escrita em português sobre as questões do património, é fácil, à distância dos anos, evidenciar críticas e lacunas. Mesmo criticável, a sua obra e ação foram importantíssimas para a salvaguarda do Património edificado em Portugal, especialmente porque influenciou os estudos e ações posteriores, que tentaram seguir os seus ensinamentos, aprofundando-os ou refutando-os. Fosse como fosse, a sua importância é quase sempre o ponto de partida, ou o marco inevitável nessa área de estudos. Por exemplo, anos depois, foi na I República que muito do seu trabalho seria aproveitado (Custódio, 2013), tal como por outras iniciativas posteriores, independentemente das motivações e momentos políticos.
 
Bibliografia
  • Alves, Alice Nogueira, “Ramalho Ortigão e o culto dos monumentos nacionais no século XIX”, tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa, 2009
  • Choay, Françoise, “A Alegoria do Património”, Lisboa, Edições 70, 2010
  • Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; “História da Economia Portuguesa – 1143-2011”, Lisboa, Esfera dos Livros, 2011.
  • Custódio, Jorge, “Renascença Artística e Práticas de Conservação e Restauro Arquitectónico em Portugal Durante a I República – Volume I”, Lisboa: Caleidoscópio, 2013.
  • França, José-Augusto, “História da Arte em Portugal – O Pombalismo e o Romantismo”, Lisboa, Editorial Presença, 2004.
  • Infopédia, “O Culto da Arte em Portugal”, disponível em: http://www.infopedia.pt/$o-culto-da-arte-em-portugal, acedido em 7 de Maio de 2014.
  • Oliveira, Leonel (coord.), “Quem é quem – Portugueses Célebres”, Lisboa, Circulo de Leitores, 2008.
  • Ortigão, Ramalho, “O Culto da Arte em Portugal”, Lisboa, Esfera do Caos, 2007
  • Rémond, René, “Introdução à história do nosso tempo – do antigo regime aos nossos dias”, Lisboa, Gradiva, 2011.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Troikocracia, Weber e o Marquês de Pombal - segundo Miguel Pereira Lopes

Tendo eu ido a assistir a uma conferência sobre Poder Autárquico fiquei surpreendido com uma das intervenções dos palestrantes, pois surgiram várias referências a Max Weber e ao Marquês de Pombal com o intuito propositado de controvérsia e reflexão crítica. Por isso, pareceu-me interessante referir aqui algumas das palavras de Miguel Pereira Lopes, professor no ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, proferidas nessa conferência.

1.º Marquês de Pombal - Louis Michel Van Loo
 
Então o nosso palestrante defendeu que a boa governação se dava através da Troikocracia, que, segundo Max Weber, deveria resultar do equilíbrio de três poderes:
  • Poder Carismático – associado ao poder político, dos líderes políticos, suas capacidades mobilizadoras e seu espírito visionário e inovador (“que faz sonhar”), resultantes na nossa época contemporânea do sistema democrático.
  • Poder Tradicional – associado à tradição e hábitos sociais, convenções e outros.
  • Poder Legal/Técnico/Racional – termo que Miguel Pereira Lopes considera estar ligado à concepção de burocracia que Weber terá inventado, na altura sem qualquer conotação negativa.
Assim, supostamente, a boa governança resultaria de um equilíbrio destes três anteriores poderes, sendo isso a suposta Troikocracia. Foi sugerido que na nossa história tivemos um claro exemplo de sucesso em que essas três vertentes da troikocracia foram conjugadas com sucesso. Esse exemplo terá sido a governação do Marquês de Pombal, especialmente depois do evento do terramoto de 1755, quando a cidade necessitou de ser reconstruida, mas depois também ao longo de toda a sua governação. Parece então que o Marquês decidia em plena consciência e informação. Consta que permitia aos técnicos a sugestão de todo o tipo de soluções sem os condicionar. Só depois então decidia, com autoridade e força, dentre aquelas que lhes pareciam as melhores soluções o projeto a implementar, respeitando a sua visão política de desenvolvimento. Ou seja, o Marquês era o carismático e visionário inovador, que se legitimava e ligava ao poder tradicional pelo mandato e apoio real, e que decidia com base no poder racional e técnico burocrático.
Depois de apresentado deste modo o conceito de Troikocracia de Weber e de Miguel Pereira Lopes aprece menos polémico, e a ação do Marquês de Pombal incrivelmente simples e óbvia. Mas será que o conceito de Toikocracia não é, ainda assim, discutível? E será que esta metodologia do Marquês de Pombal é realmente aplicada na prática deste modo tão simplista?

terça-feira, 6 de maio de 2014

A Ponte Dona Maria Pia - Uma obra prima da engenharia e do património industrial

A Ponte Dona Maria Pia é um dos ícones e marcos da história industrial portuguesa, pelo que significou utilitariamente na sua época de construção, mas também pelo que continua a significar.
Para perceber a importância patrimonial desta estrutura de aço importa perceber a época e contexto da sua construção. Em meados do século XIX vivia-se em Portugal a Regeneração, e o governo de Fontes Pereira de Melo (Martins, 2014; Mattoso, 1998). Isso concretizou-se numa vontade governamental de forçar a modernização e industrialização do país (Cordeiro, 2009). Para a concretização dessa estratégia era imprescindível melhorar as vias de comunicação, conhecidamente deficitárias (Mattoso, 1998), sendo a opção pelo caminho-de-ferro incontornável. Assim fez-se por conectar os principais polos económicos do país, e a ligação Lisboa-Porto (Rodrigues, 2006) não podia ser descurada. Só que isso apresentava um desafio: o atravessamento do rio Douro junto ao Porto. Foi Manuel Afonso Espregueira, enquanto Diretor Geral da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, quem resolveu o problema do atravessamento (Cordeiro, 2009), decidindo-se por uma ponte. Essa obra acabou por ser parte vital da revolução dos transportes que ocorreu na época (Mattoso, 1998).
Monte D. Maria Pia - Emílio Biel
Curiosamente, um dos maiores impactos que teve na economia na época foi no setor da construção (Mattoso, 1998) - o que leva a refletir sobre o modo como são planeados, e projetados, desde há séculos, os investimentos em Portugal, sendo que neste caso seria espectável que o maior impacto fosse no setor da indústria de bens transacionáveis, apesar de ser considerado um projeto exemplar a todos os níveis.
Inicialmente estaria previsto consagra-la a D. Fernando, mas acabou por ser D. Maria a dar nome à ponte, aquando da inauguração em 1877 (Costa et al., 2009). Naquela construção manifestou-se a ideologia da época, a da burguesia que quebrava as limitações tradicionais de classe e poder, e que abraçava projectos de investimento e desenvolvimento industrial, especialmente os de construção em aço, permitindo estruturas leves, grandiosas e de rápida execução (Martins, 2014). Talvez não terá sido por acaso que este marco da construção do ferro tenha sido erguido no Porto, cidade comercial e burguesa por excelência.
Para superar o desafio em causa foi lançado um concurso público internacional em 1875 (Franklin, 2010), ao qual concorreram 4 empresas com soluções diferentes. Venceu a proposta de Gustave Eiffel por razões de estética, estrutura, e, talvez mais que tudo, por ser a que menores custos propunha (Costa et al., 2009). Aliás, o preço foi tão baixo em relação aos concorrentes que foi constituída uma comissão excecional de 3 engenheiros franceses para confirmarem a proposta (Franklin, 2010).
Apesar da ponte ser atribuída a Gustave Eiffel, por ser o director do projeto e da empresa, o verdadeiro projetista e responsável pela solução adoptada terá sido Théophile Seyrig (Cordeiro, 2009; Franklin, 2010). Por Seyrig ser subalterno de Eiffel, e por este ter obtido fama imensa com a sua famosa torre de Paris, talvez sejam as razões pelas quais o seu nome raramente se associa à ponte D. Maria (Cordeiro, 2009). De qualquer dos modos, apesar das dúvidas de autoria e tipo de implicação de cada um dos engenheiros, é certo que estiveram
envolvidos, pois anos depois ambos descreveram com muita precisão os cálculo e métodos utilizados, que eram de facto arrojados e na vanguarda da tecnologia da época (Cordeiro, 2009; Franklin 2010). Terá sido essa a razão pela qual conseguiram uma proposta tão melhor que as restantes.
Então mas importa concretizar com mais pormenor o porquê do arrojo e originalidade técnica e estética da ponte. De facto as medidas técnicas adotadas foram vanguardistas. A estrutura é de uma impressionante leveza, composta por um arco biarticulado de 160 metros de vão (Costa, 2009; Franklin, 2010), que suporta o tabuleiro ferroviário de via simples, de 354 metros de comprimento (Rodrigues, 2006), através de pilares em treliça assentes em seis maciços de betão. O tabuleiro superior situa-se a 61 metros de altura do rio (Franklin, 2010). O tabuleiro é composto por 3 partes distintas, sobre o extradorso do arco e sobre as duas secções das margens assentes em pilares. A ponte foi dimensionada e preparada para resistir aos ventos ciclópicos que varrem aquela zona do vale do Douro, tal como para resistir aos gradientes e variações térmicas, com ligações absorventes e adaptáveis (Franklin, 2010).
Impressionante foi o modo como a obra decorreu sem acidentes, apesar dos 150 trabalhadores, da utilização de 1600 toneladas de aço (Costa, 2009) (que vinham na forma de vigas e outros elementos construtivos de França já cortados, furados e prontos a montar e rebitar) e do tempo record de construção em apenas 22 meses, tendo ocorrido nesse período uma cheia do rio (Franklin, 2010). Também o processo construtivo foi inovador, sendo construída simetricamente a partir das margens com as duas secções a avançarem em consola, tendo sido unidas a meio vão com um erro mínimo. Após concluída a ponte, intensamente avaliada, nada de registou de deficitário, e as flechas de 20 a 25 mm são impressionantes até para a tecnologia contemporânea.
Mas existiam limitações, uma vez que apenas uma composição de cada vez, com carga limitada e a velocidades de 20km/h, podia atravessar em segurança a ponte (Costa, 2009).
A ponte, tal como já se referiu, permitiu ao Porto assumir novamente a preponderância económica face a Gaia, onde se estavam a concentrar as atividades trazidas pela ferrovia antes da construção da ponte (Martins, 2014), impossibilitadas de atravessar o rio.
Assim a ponte, que continua ainda em excelente estado de conservação, é a manifestação máxima de uma época em que se inovou, se soube escolher e implementar alguns projetos profícuos e racionalmente constituídos. Também corporizou o desenvolvimento científico e do próprio positivismo da época, com os respetivos impactos sociais. Hoje a ponte continua ser um marco turístico, estando a ser pensados vários projectos de aproveitamento e valorização, o que demonstra como ainda é sentida como um valor importante a preservar.
Bibliografia

Costa, Fábio; Moreira, Miguel; Nunes, Vasco, “Ponte D. Maria - Gustave Eiffel”, blogue Arquitectura do Ferro, 2009, disponível em: http://arquitecturaferro.blogspot.pt/2009/02/ponte-d-maria-gustave-eiffel.html

Cordeiro, José Manuel Lopes, “Ponte D. Maria Pia: uma ponte de Eiffel… e de Seyrig”, Braga, 2009. Disponível em www.ocomboio.net

Guerra, Franklin, 2010, “história da engenharia em Portugal”, Porto, Publindústria.

Martins, A. “Ponte de D. Maria Pia”, IGESPAR, acedido em 8 de Abril de 2014, disponível em: http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/70405/
Mattoso, José (dir.), 1998, “História de Portugal” – O Liberalismo”, Volume 5”, Lisboa, Editorial Estampa.

Rodrigues, Adriano Vasco, 2006, “História breve da engenharia civil – pilar da civilização ocidental”, Porto, Ordem dos Engenheiros Região Norte.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Qual o nome desta época em que vivemos?

Quando pretendo tratar qualquer assunto relacionado com a sociedade e o tempo em que vivemos custa-me saber como nomeá-la. Costumo utilizar o termo: sociedade e época contemporânea. Mas, historicamente falando, a época Contemporânea, por convenção, começou depois do marco que foi a Revolução Francesa. Foi há muito tempo, e neste tempo aconteceu tanta coisa que se nos compararmos com as sociedades de até há menos de 100 anos não nos parecem, à luz dos nossos dias, nada contemporâneas. Mais estranho ainda seria utilizar o termo sociedade ou época Moderna, pois essa é anterior à própria era Contemporânea, que historicamente se situa entre a Idade Média e a Idade Contemporânea. Assim, os termos correntes de “moderno” e “contemporâneo” soam a estranho. Mas, pessoalmente, ainda me parece mais estranho quando alguns pensadores seguem pelo “Pós-Moderna” e “Pós-Contemporânea”. E se a isto adicionarmos o pensamento e teoria que defendem a chegada ao “fim da história” – no sentido em que a história tende para algo que se pode prever ou que já nada de substancialmente diferente do que hoje existe irá acontecer -, fica ainda mais estranho compreender o nosso mundo atual, e situarmo-nos nele.
A Elevação da Cólera - Arman


Esta é uma época de incerteza, mas talvez seja assim a visão que todos têm do seu próprio tempo e momento em que vivem - existem imensos relatos históricos disso. Esta sensação pode ser apenas um sentimento normal e recorrente ao longo da história: que o momento contemporâneo é sempre mais incerto e inseguro do que o passado. Isso pode ter muitas explicações, mas uma delas seguramente é a herança e sentimento de enquadramento histórico. Podemos saber pouco do passado, e não apreciar o estudo da história, mas conseguimos encontrar mais certezas nele - pois a nossa vida sociedade tende a enquadrar-nos historicamente - que no presente, e ainda menos no futuro.
Se somos modernos desde finais do século XV, contemporâneos desde o final do século XVIII, o que somos hoje? Como se chamará esta época? Contemporânea ainda faz sentido do ponto de vista histórico? E do das outras áreas do saber? Gilles Lipovetsky chama-lhe época Hipermoderna e do Hiperconsumo, propensa à deceção. Outros optaram seguramente por outras nomenclaturas e terminologias, pois outras disciplinas e áreas do saber seguem também as convenções suas próprias histórias – por mais estranho que pareça – para definir divisões do passado, especialmente porque são quase sempre artificiais e apenas conceptuais.
Resta saber se uma visão contemporânea, por mais válida e fundamentada que seja neste momento, corroborará a visão histórica que o futuro fará de nós.
Bibliografia:

Lipovetsky, Gilles; "A sociedade da Deceção", Edições 70, 2012.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quando os Ministros eram escravos

Numa conferência sobre alterações climáticas, realizada no Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, assisti a uma intervenção digna de mais uma curiosidade para registar aqui no blogue. Em jeito de comentário, quando se tratava da importância dos decisores políticos nas medidas, políticas e soluções para os impactos das alterações climáticas, o professor Alveirinho Dias partilhou, entre muitas outras coisas, algo digno de despertar surpresa. Curiosamente, nada teve que ver diretamente com ambiente, geologia ou afins.
O Ministro (Sacerdote) patinador - Henry Raeburn
O professor reportou para a etimologia da palavra Ministro. Supostamente, segundo ele, ministro seria alguém a quem os romanos designavam como gestor caseiro, habitualmente um escravo. Ou seja, os romanos abastados delegavam essa missão (esse ministério, essa tarefa) aborrecida e trabalhosa de gerir num escravo. Se fosse um mau gestor, simplesmente era “substituído”. A tal referência histórica serviu para que a plateia refletisse sobre os nossos atuais gestores ministros, de como se delega neles ainda essa tarefa chata de gestão da coisa pública, sem grande preocupação e com bastante irresponsabilidade cívica por parte dos próprios cidadãos. A ligação com a condição de escravo ou servo da própria palavra dá-se pela composição associada ao termo “minor”, que se subordina ao maior, ao “magis”, que compõe a palavra “magíster”. Nessa altura o “minister” obedecia ao “magíster”. Esta relação de dependência foi sendo dissipada pelas épocas seguintes, ainda que tenham subsistido as duas funções, magistrado e ministro, numa lógica de separação de poderes dos tempos contemporâneos.
No entanto, tendo em conta o atual momento em Portugal, o professor considerava, em jeito de brincadeira e de alerta para a tomada de consciência, que neste momento os escravos destes ministros seriamos nós, e não ao contrário como seria no tempo da antiga Roma.
Independentemente das mensagens políticas e cívicas fica a curiosidade etimológica capaz de despertar reações bem variadas. Ficam também algumas referências – as possíveis – para fundamentar este texto.

Referências bibliográficas
Online Etymology Dictionary, “Minister”, disponível em:
http://www.etymonline.com/index.php?term=minister

Wikipédia, “Ministro”, disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ministro

domingo, 30 de março de 2014

Thomas Hobbes e a necessidade de uma ameaça extraterrestre

As ideias de Thomas Hobbes para a organização do Estado foram e continuam a ser polémicas. Isto porque, principalmente, na sua obra “O Leviatã” consta uma fundamentação teórica para legitimar o Estado Absoluto. Esse modelo e princípios, que advogavam a necessidade de um Estado forte e interventivo corporizado na figura de um governante absoluto munido de todos os poderes e meios para defender o próprio Estado, chocam obviamente com os princípios do liberalismo. Hobbes desenvolveu a sua teoria de Estado no século XVII, em período de desenvolvimento dos Estados Modernos. O pensamento liberal era apenas uma semente, e a experiência dos seus tempos, e a da sua própria via, forçavam-no a recorrer ao absoluto para resolver pragmaticamente os problemas do seu tempo: instabilidade social e guerra endémica. Talvez até tenha sido a magnitude da sua obra que forçou a criação de outras antagónicas de via liberalizante – mais isso são só suposições pessoais.
Guernica - Picasso
O problema da teoria de Hobbes acorre especialmente quando descontextualizada do seu momento histórico e político. Isto não serve para desculparmos Hobbes, até porque ele nunca corporizou o seu Leviatã ou foi um tirano que impossibilitou as liberdades. Ele apenas as reformulou e redigiu, e nem sabemos sequer quais as suas reais intenções quando as concretizou. Poderia ter sido irónico – nunca o saberemos.
Por outro lado, Hobbes, seguindo a já citada teoria política do absoluto, reforça mesmo hoje muito importante, ainda que possa ser contrário aos seus próprios princípios, com tendência para negarem o Homem como ser profundamente social, e bem-intencionado por natureza. A sua visão chocava como a visão de Aristóteles, que via o homem como um “animal social” e com a ideia base do “bom selvagem” de Rosseau. Podia dizer-se também que antevia parte do pensamento controverso de Nietzsche e ofendia profundamente ao liberal John Locke. Ou são somente simplificações para que isto se encaixe num texto curto. Ou seja, o tal princípio importante ainda hoje válido é: quando existe um perigo comum mais facilmente se gera unidade e capacidade de cooperação. É uma ideia profundamente pragmática.
Então onde entram os extraterrestres neste assunto? Entram agora. Vou arriscar, como tantos outros fizeram, descontextualizar Hobbes. Partindo das premissas base do seu pensamento, a Paz mundial e harmonia internacional universal somente seriam possíveis enquanto existisse uma ameaça extra planeta: uma ameaça extraterrestre. Assim que a ameaça desaparecesse voltaríamos às nossas guerras internas, perderíamos a paz e capacidade de cooperação.


Referências bibliográficas:
  • Caillé, Alain; 2005. "História Crítica da Filosofia Moral e Política". Verbo.
  • Garcês, Ana Paula; Martins, Guilherme de Oliveira;  2009. "Os Grandes Mestres da Estratégia - Estudos sobre o poder da Guerra e da Paz". Edições Almedina.
  •  Schwanitz, Dietrich , 2012. "Cultura - Tudo o que é preciso saber". Dom Quixote.

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