quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pequena História Recente do Emprego em Portugal e seus Contrastes Regionais

Desde a fundação de Portugal que se registam fortes contrastes na distribuição da população sobre o território português, especialmente entre norte e sul, e litoral e interior (Lema & Amp; Rebelo, 1996). Nessa ocupação, até ao século XX, destacava-se uma maior concentração de população nas zonas de mais intensos recursos: primeiro nas zonas agrícolas; depois junto aos grandes portos comerciais (Costa et al, 2012; Mattoso, 1997; Ramos, 2011).
Mas desde 1950 ocorreu uma grande transformação económica em Portugal que mudou o radicalmente o emprego. A adesão à OECE, EFTA e o aproveitamento dos planos de financiamento internacionais de reconstrução da economia europeia industrializaram o país (Costa et all, 2012). Parte dessa modernização económica, via industrialização, assentou no recurso a mão-de-obra desqualificada que era onerada por baixos salários. Desde então verificou-se um declínio da sociedade tradicional rural (Medeiros, 2006), primeiro com a nova industrialização e depois com terciarização resultante da expansão das atividades de serviços e do próprio Estado Social, também relacionadas com a adesão à CEE e depois com a crescente integração europeia (Costa et all, 2012; Ramos, 2011).
Hoje a tendência para a concentração de população em torno das zonas urbanas (polos metropolitanos do Porto e Lisboa, e cidades médias) de melhor acessibilidade, onde existe mais oferta de equipamentos, bens e serviços, contribuiu para o desenvolvimento e reforço do setor dos serviços (Medeiros, 2006) – que é neste momento o setor que mais população ativa emprega (Pordata, 2013).

Figura 1 – População residente empregada como quadros superiores e profissões intelectuais e científicas, relativamente à população residente empregada, por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Por outro lado, as taxas de atividade mais baixas, em oposição às zonas onde a população ativa tem maiores qualificações, situam-se nos concelhos mais envelhecidos e menos urbanos, tal como se demonstra na Figura 1 e 2. 
 
Figura 2 – Taxa de atividade da população por concelho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)

Como seria de esperar, os valores mais elevados de taxa de atividade da população verificam-se nas áreas de maior dinamismo económico, o que significa que nessas zonas os mercados de trabalho são mais ativos em termos de criação de emprego e mais extensivos do ponto de vista das bacias de emprego que geram (Medeiros, 2006).
Figura 3 - Índice de atratividade (total entradas/total emprego). Fonte: Medeiros (2006)
  
 Torna-se evidente (ver figura 3) que as zonas urbanas de mais relevância são aquelas que apresentam também maiores índices de atratividade; expectável uma vez que serão as zonas onde existem mais dinâmicas nos principais setores de empregabilidade: Serviços, de seguida o Secundário a alguma distância, e por último o Primário (Pordata, 2013).
Figura 4 - Índices dominantes casa-trabalho, em 2001. Fonte: Medeiros (2006)
Um outro fator importante para as dinâmicas de emprego das várias regiões é a facilidade das deslocações, a mobilidade e acessibilidade. Na Figura 4 denota-se novamente que os centros urbanos mais populosos, e mais dinâmicos economicamente, são aqueles que apresentam mais capacidade de mobilidade entre “casa e trabalho” (Medeiros, 2006).
Mas não é só a diferença entre urbano e rural que marca as diferenças das dinâmicas de emprego regionais. O contexto cultural tem uma importância imensa (Medeiros, 2006). Um desses exemplos paradigmáticos é o das zonas envolventes ao Grande Porto, em que regionalmente se valoriza mais a entrada cedo no mercado de trabalho, mesmo que com qualificações reduzidas, que a continuidade dos estudos.
Não se poderá caracterizar a estrutura do emprego em Portugal sem abordar também o fator do desemprego. De um modo geral o desemprego atual resulta da restruturação do setor agrícola e das atividades de transformação, tal como de uma indústria que não teve a capacidade de se modernizar, aumentar a produtividade e competir nos mercados internacionais à medida que a economia portuguesa se foi liberalizando (Mederios, 2006; Costa et all, 2012).
Tabela 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012
Fonte: INE, Pordata (2013)

Como se pode confirmar pela tabela 1 e gráfico 1, desde 1974 a percentagem de população ativa no setor industrial tem caído, mas não tanto como no setor agrícola. Depois da época de expansão industrial de1950-1973 (Costa et all, 2012), e da queda do protecionismo do Estado Novo, o setor sofreu um ajustamento gradual rumo à livre concorrência e aumento dos direitos laborais, tendo-se registado uma queda de população empregada de quase 10% do total. 

Figura 5 - Dinâmica do emprego industrial. Fonte: Medeiros (2006)
Apesar da queda, algumas zonas do país mostram-se mais dinâmicas que outras (ver figura 5), especialmente aquelas ligadas a determinados clousters (Medeiros, 2006), que recorrem à especialização/diferenciação, usando tecnologia e recursos humanos qualificados, capazes de competir internacionalmente. Um exemplo disso será a indústria dos Moldes localizada na Marinha Grande e Leiria.

Tabela 2 – População empregada por setor para as NUTSIII e Regiões Autónomas
Fonte: INE, Pordata (2013)


Gráfico 1 – População total empregada por setor de 1974 a 2012 em %
Fonte: INE, Pordata (2013)


Apesar de toda a diversidade regional portuguesa, ao nível do emprego notam-se algumas tendências comuns, mesmo que algumas zonas sejam mais rurais ou urbanas, outras muito mais industrializadas e outras dedicadas ao setor primário, com os serviços empregarem percentagens muito significativas (quase sempre a maior fatia) da população ativa. De 1960 a 2001, tal como se demonstra na tabela 2, com exceção da Grande Lisboa e Grande Porto e de outras zonas pontuais (Serra da Estela; Médio Tejo; Algarve; Baixo Mondego; Entre Douro e Vouga; e Ave), a industrialização cresceu consideravelmente e as atividades Agriculturas perderam muita mão-de-obra. No entanto, o crescimento mais espetacular deu-se no setor dos serviços, num país que em 50 anos deixou de ser maioritariamente Agrícola para se dedicar aos Serviços, sem ter passado por uma economia dominantemente assente no setor industrial (ver gráfico 1).

Referências Bibliográficas
• Amaral, Luciano; 2010. “Economia Portuguesa, as últimas décadas”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Costa, Leonor Freire; Lains, Pedro; Miranda, Susana Munch; 2011. “História Económica de Portugal – 1143-2011”. Lisboa, Esfera dos Livros.
• Estanque, Elísio; 2012. “A Classe Média: Ascensão e Declínio”. Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
• Lema, Paula Bordalo; Rebelo, Fernando; 1996. “Geografia de Portugal – Meio Físico e Recursos Naturais”. Lisboa, Universidade Aberta.
• Mattoso, José; 1997. “História de Portugal - vol.IV – O Antigo Regime”. Lisboa, Editorial Estampa.
• Medeiros, Carlos Alberto (Direcção); 2006. “Geografia de Portugal”. Lisboa, Círculo de Leitores.
• Pordata; 2013. “População ativa por atividade económica”. http://www.pordata.pt/, consultado em 15 de Abril de 2013
• Ramos, Rui (Direcção); 2009. “História de Portugal”. Lisboa, Esfera dos Livros.



sábado, 13 de abril de 2013

CONTEMPORANEIDADES - Um livro indiretamente ligado a este blogue


Esta é a primeira publicação aqui no blogue relacionada com poesia, mas não poderia deixar de assinalar aqui, no meu primeiro blogue, o lançamento do meu primeiro livro. Essa primeira obra individual não tem relação direta aqui com A Busca Pela Sabedoria, mas tem uma imensa relação indireta. 
O livro em causa é o resultado do trabalho de análise opinativa social, na forma de 15 telas e 30 poemas, da realidade contemporaneidade portuguesa. Pode-se dizer que os poemas são tomadas de posição, numa mesma estrutura rígida e em rima. As telas surgem de fundos negros e recorrem, sem preocupações de traço e fidedignidade nas proporções,  ao simbólico para fazer despertar a reação emotiva.
A Busca pelo livro aberto - Micael Sousa
Porque a busca pela sabedoria passa também pela experimentação, registo aqui a referência ao livro CONTEMPORANEIDADES, deixando um dos poemas e uma das telas do projeto para tentar fazer despertar a curiosidade. A sinopse e mais informação sobre o livro em causa pode ser visto aqui.

SABEDORIA INTERESSEIRA

Estuda para ganhares muito dinheiro! – Ordenou.
Cedo, ainda quando não podíamos entender,
Ensinaram-nos a ver no ensino o que sempre faltou
A este povo, que só agora pode aceder
Às oportunidades do saber. Quem atulhou
De ilusões este povo de humilde complexão,
Afastando-o de uma desinteresseira erudição?

A sabedoria é a maior das riquezas,
Com ela vamos além dos limites,
Preparamo-nos melhor para as incertezas,
Condicionamos os ignorantes tiques,
Encarando o mundo com uma cética firmeza.
Por vezes apenas serve para sabermos
O que verdadeiramente desconhecemos.

Mas o saber só por si não é sinónimo
De fortuna, dinheiro e sucesso.
É apenas um imaterial património
Que pode dar origem a um processo
Mais longo que qualquer matrimónio,
Mais fiel que qualquer compromisso,
Que alimenta o espírito insubmisso.

O saber pode fazer a fortuna, mas nada garante.
O saber é ferramenta que pode ajudar a ir avante.

domingo, 7 de abril de 2013

Um gole para ler os "Contos do Gin-Tonic"

Porque o surrealismo não é só uma expressão plástica, não é uma coisa só passado - mais concretamente, do início de século XX -, e porque também tivemos os nossos casos nacionais, hoje trago aqui um excerto de uma recomendação literária feita por um amigo. Quando me foi emprestado para ler achei estranho o título do livro em causa. Só depois percebi que era uma colectânea surrealista de poemas, prosas, descrições, diálogo e devaneios, sempre regados de um humor, por vezes, desconcertante. Na amalgama, que aparentemente parece composta sem nexo, há mensagens dissimuladas e outras mais ou menos evidentes. Não seria de esperar outra coisa, pois a obra nasce ainda durante a ditadura do Estado Novo. 
No entanto, a pesar de tudo, quando muito do que está escrito nos "Contos do Gin-Tonic" parece fazer pouco sentido, podemos especular se o autor teria ou não bebido uns copos a mais. 


Dois limões em férias - António Dacosta

Deixo aqui um curto excerto, somente para dar uma ideia e abrir o apetite, tal como fui aliciado quando me emprestaram o livro:

"Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia."


Bem... Digam lá que não sentem que precisam de um copo?

sexta-feira, 29 de março de 2013

O Sentido da Vida (em 10 segundos)

Neste texto que será curto, pois a referência é igualmente muito curta - demasiado curta para tudo o que na história da humanidade se desenrolou em torno dessa grande questão. A justificação destas palavras impõem-se para referir um daquelas momentos ímpares do cinema, num filme, mas mais concretamente num sketch, onde os Monty Python resumem em 10 segundos qual o sentido da vida, depois de terem feito uma viagem de mais de 100 minutos tentando satiricamente tratar a nossa Humanidade.
Então, segundo os Monty Python, o sentido da vida é "viver bem", e para isso:

"Tentem ser bons para os outros, evitem comer gorduras, leiam um livro de tempos a tempos, façam algumas caminhadas, e tentem viver em paz e harmonia com todos os credos e nações"


Apesar de ser um filme que vi já muitas vezes, e um dos mais estimados da minha cinemateca, foi no livro "Heidegger e um Hipopótamo Chegam às Portas do Paraíso", de Daniel Klein e Thomas Cathcart ,que voltei a recordar este sketch. Nessa obra única, onde se mistura a Morte com a já difícil mistura de Filosofia e Humor,  refere-se, depois de várias alusões às posições e correntes de muitos filósofos, que o sentido da vida pode ser algo bem simples, tal como sumariaram os Python.

terça-feira, 19 de março de 2013

Amor Imaterial vs. Amor Material: Platão vs. Lucrécio


O amor imaterial, direcionado para o belo e para o ideal, mantendo as distâncias, é bem conhecido, especialmente nas interpretações medievais dos escritos de Platão. Essas noções reforçadas pelas teologias e pelo sistema valorativo religioso medieval – que abominava a existência material e mundana - influenciaram as sociedades ocidentais desde então. Mas da antiguidade grega herdamos muitas outras filosofias e modos conceptuais de lidar com o amor, por exemplo os epicuristas e os hedonistas encontram-se entre alguns dos mais importantes. 


O beijo - Klimt

Em “Os Filósofos e o Amor” as autoras optam por citar principalmente dois pensadores/escritores da antiguidade greco-latina para personificar dois modos antagónicos de pensar e viver o amor. Aude Lancelin e Marie Lemonnier, nessa singular obra, colocam em oposição Platão e Lucrécio, ainda que ambos procurassem minimizar os impactos negativos do amor, pois sabiam que é tanto essencial como inevitável para nós humanos viver existências onde o amor marca sempre presença, seja em que modo for.
Platão - como já referi - defende um distanciamento físico, no sentido de amar e aspirar ao ideal e não tanto ao plástico e físico, podendo o sentimento nunca ser corporizado. De um modo simplista – mesmo muito simplista - manter certas distâncias, uma vez que amar era inevitável e que poderia amar ideias, seria para o filósofo muito mais seguro e evitavam-se assim as emoções indiretas e reações negativas (algumas delas violentas) que podem contribuir para a infelicidade. Parece que Platão desistia perante o amor físico, não porque não fosse bom ou um prazer, mas porque amar corporeamente podia trazer mais malefícios que benefícios. Já o poeta Lucrécio segue, notando os mesmos perigos que Platão, pelo caminho exatamente oposto. De modo a evitar a dependência de uma só pessoa e outras fontes de potencial infelicidade, que poderia levar à autodestruição do individuo que ama, o poeta romano opta pelo recurso ao excesso carnal, pelo amor físico sem quaisquer limites, num claro comportamento materialista e hedonista.
Apesar da simplicidade com que tentei apresentar estes dois autores e suas teorias/posturas, podemos facilmente constatar que o amor desde há muito é visto como uma dicotomia: bem/mal. A condição humana, e os problemas de há 2000 anos, continuam a invadir as nossas mentes contemporâneas. Ainda hoje há quem siga, mesmo que inconscientemente, estes dois extremos, independentemente dos vários conceitos de amor: ora distanciando-se dele ora consumindo-o em sofreguidão descartável. De qualquer dos modos, ambos as abordagens denotam algo que se poderia considerar sendo medo, receio esse que cada uma e cada um de nós tenta resolver do modo que melhor pode, optando outros pelo meio-termo. Parece-me estas questões continuarão sempre atuais ou não fossemos animais sociais condicionados, para o bem e para o mal, pelas emoções.

Referências Bibliográficas
  • Lancelin, Aude & Memonnier, Marie. "Os Filósofos e o Amor". Tinta da China, 2010.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Criança Nasceu com o Renascimento


Hoje, quando olhamos para uma criança vemos uma criança, mas sempre foi assim. Antigamente, na época medieval, as crianças representavam-se como pequenos adultos, sem se constituírem como uma idade “própria”, com as suas próprias caraterísticas e distinções. As crianças medievais tinham um valor e importância bem diferente das de hoje.
É a partir do século XV que se institui um novo modo de representar a criança na arte, especialmente a mais retratada das crianças: Jesus. Nessa altura começam a surgir em várias obras, nas cenas da natividade e em outras representações onde se incluíam os primeiros momentos ou anos da vida, manifestações de um jesus com os traços característicos dos recém-nascidos e/ou crianças – jesus deixa de ser representado com gestos de santificação e abençoamento para passar a ser uma bebé ou criança perfeitamente normal (notar o trabalho de Jan Van Eyck). Isto poderia ser visto apenas como uma evolução das técnicas e dos gostos plásticos e artísticos, no entanto era a própria sociedade que começava a mudar e as crianças a ganhar um destaque sem precedentes. Mas essa ascensão foi lenta. Por exemplo, é no século XVII, nos retratos encomendados pelos mais abastados, que começam a surgir crianças com roupas distintas dos adultos. 
A Virgem Maria amamentando - Jan Van Eyck
Voltando ao século XV, encontram-se outros indícios que parecem atestar a mudança de mentalidades. Enquanto autores como Montaigne referem que perder vários filhos bebés “é um desgosto mas não um lamento”, outros pais tendiam a guardar retratos dos seus rebentos prematuramente falecidos. Por outro lado, Kochanowski assumiu um comportamento de mudança, tendo dedicado a sua melhor obra à sua filha que morrera aos 4 anos. 
Durante toda a Idade Moderna foi crescendo sem cessar a importância e atenção dada às crianças, e com isso desenvolveu-se naturalmente a própria educação, e pode-se dizer que surgiu a pedagogia. Os catecismos e os cantos corais de crianças foram os primeiros reflexos da importância que se começou a dar à instrução dos mais novos – numa altura em que isso não se separava da religião. 
Os colégios medievais, por mais estranho que nos possa parecer, não faziam distinções de classes por idades; essa metodologia pedagógica só viria ser adotada posteriormente. O interesse do professor pelo desenvolvimento dos alunos limitava-se à transmissão de conhecimentos e à melhoria da capacidade de memorização. Os estudantes eram, em tempos medievais, vistos como grupos de causadores de conflitos com as comunidades onde os estudos se davam, ou seja, de má fama, apesar de ligados o clericalismo. isto ocorria especialmente nos estudantes universitários.
Foi então entre o século XV e XVII que se ganhou consciência efetiva, e irrefutável, de que a criança e o adolescente eram seres diferentes dos adultos, e que precisavam de um tipo especial de proteção – para o bem deles e da própria sociedade. Esses primeiros pedagogos defendiam que a disciplina era o único meio de proteger as crianças do mundo corrompido e de as preparar para uma existência de hábitos virtuosos. Com um forte sentimento religioso à mistura, consideravam que os professores tinham as almas dos alunos a seu cargo, sendo responsáveis pela conduta moral das crianças, e indiretamente dos futuros adultos que viriam a ser. 
Desde os primeiros séculos após o período medieval a pedagogia continuou a mudar, desenvolvendo-se novas teorias e métodos pedagógicos, tal como novos e mais aprofundados modos de ver as crianças. No entanto, pode-se dizer que a criança, tal como a pensamos e vemos hoje, terá nascido no renascimento, ainda que hoje saibamos que na antiguidade a pedagogia já tivesse séculos de desenvolvimento – já Aristóteles dizia mais ou menos isto: “educai as crianças para evitar castigar os homens”.

Referência bibliográficas:
  • Delumeau, Jean. "A Civilização do Renascimento". Edições 70, 2004

terça-feira, 5 de março de 2013

Sifão – O uso da água e da gravidade para desodorizar

Conhecendo ou não o que é ou como funciona um sifão praticamente todos os dias lidamos com essa maravilha da tecnologia. Basta entrar numa casa de banho e olhar para uma sanita/retrete, de aconselhavelmente depois do autoclismo ter sido ativado e não se encontrar ai qualquer outras presença além da água. É essa mesma água que se encontra no fundo de qualquer sanita/retrete, em boas condições de funcionamento, que constitui o sistema de sifão mais comum e generalizado usado nos nossos dias. O sistema de curvas e desníveis, criados propositadamente para o efeito, permitem que toda a secção de escoamento fique, constantemente ocupada com água. Garantindo-se que a água é renovada pelo autoclismo, e arrastados todos os dejetos e afins, este sistema gravítico garante higiene e que o mau cheiro das tubagens a jusante não ascenda e contamine as nossas casas de banho.
Exemplo de um sifão de sanita/retrete

Ou seja, o bom “sifonamento” – que é o mesmo que isolamento gravítico por água nos sistemas de drenagem (regulamente  com fecho hídrico entre 50 e 75mm)– é essencial, mas deve ser feito com cuidado, pois o duplo “sifonamento” de um mesmo coletor (ou parte de um sistema de drenagem que não tenha contacto livre com a atmosfera) produz alterações no escoamento, podendo transformar aquilo que corria por gravidade e em secção não cheia passar a escoamento sobre pressão. Essa mudança pode fazer com que a deposição de água seja sugada e a quantidade de água necessária para evitar a passagem nos maus cheiros não seja assegurada. Acontecendo isso nenhum dos sifões funcionará.
A presença, por gravidade da água, criando uma membrana física aos maus cheiros foi uma invenção importantíssima, que, na minha opinião, merece ser recordada, pois todos os dias contribui para que tenhamos bom ambiente em nossas casas e noutros locais onde nos aliviamos de muitas das nossas necessidades e aflições – sítios onde até nos podemos, em maior conforto, perder em pensamentos e ensaiamos renovações correntes.

Referência bibliográficas:
Pedroso, Vitor M. R. "Manual dos sistemas prediais de distribuição e drenagem de águas". LNEC, 2007.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Filme "O Rei" - A Ausência de Desenvolvimento Moral


No filme “O Rei” (The King) não há nenhuma recriação histórica nem qualquer alusão a monarquias. O título da obra resulta da análise simbólica de como a personagem principal se comporta ao longo da ação. Neste filme americano – muito mais lento do que muitos outros filmes conterrâneos pensados para o grande público -, passado num ambiente de bem típico de algumas comunidades religiosas dos EUA, explora-se a noção de moralidade. Apesar das sólidas bases religiosas que norteiam o comportamento das personagens secundárias, toda a trama é um subtil continuado de imoralismo e de comportamentos hipócritas, que começa levemente e vai crescendo em brutalidade.
Praticamente todas as personagens demonstram a fraqueza do seu desenvolvimento moral, e, como em muitos casos, o rei, como primeiro de todos, é o pior deles.
Este “Rei” não é um filme que sobressaia muito, mas fica uma sensação de incomodidade e estranheza que persiste bem depois de chegarmos ao final da sua visualização. A parte técnica está com a qualidade que se exige, e o ator principal – o mexicano Gael Garcia Bernal - segue pela trilha que já habituou.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

200.000 Visitas no blogue "A Busca Pela Sabedoria"!

Hesitei em fazer este "post", mas depois lá me decidi em assinalar e comemorar as 200.000 visitas ao blogue. Por isso, só posso começar por agradecer as visitas, comentários e sugestões que têm chegado. A minha vontade é continuar a acrescentar conteúdos, tentando melhorar a escrita e a qualidade e utilidade dos temas tratados, tentando sempre definir a "cultura geral" como o âmbito deste blogue. Pretendo que dessa variedade multidisciplinar seja o fruto principal a surgir deste espaço.
Curiosamente, tendo o evento pouco que ver com o blogue mas o conteúdo do texto tudo, foi divulgado na passada semana um texto de opinião da minha autoria no site P3 (associado ao jornal Público) com o título: A Especialidade que leva à Ignorância Geral. Esse pequeno ensaio de opinião defende, no fundo, aquilo que me levou a criar este blogue: a necessidade de um conhecimento que extravase as conceções académicas e de especialidade atuais, demasiado rígidas e que geram incapacidades de comunicação e conflitos desnecessários. Penso que a oportunidade que o P3 me possibilitou, por acaso, acabou por ser um modo de comemorar o marco das 200.000 visitas ao blogue.
Nota de 200.000 Reis Brasileiros de 1936 com imagem da Baia de Guanabara - Rio de Janeiro
P.S. - A nota escolhida serve para homenagear os muitos visitantes que também têm chegado do Brasil, e claro, por uma questão de coerência, pois os restantes marcos relacionados com o número de visitas ao blogue foram assinalados com a arte representada em alguns papeis moeda, preferencialmente da lusofonia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Portugal - Um País Históricamente Dependente do Exterior

Portugal, atendendo às caraterísticas geográficas não se distingue da vizinha Espanha quando se tenta comparar os dois lados da fronteira (1). No entanto, as fronteiras seguiram, sempre que possível, as linhas de água e cumeada de algumas serras. Tal como Espanha, Portugal vaira nas suas características geográficas de Norte para Sul e do Litoral para o Interior. Talvez por isso se afirme (2;6) que Portugal, enquanto realidade geográfica independente, é uma criação puramente humana. Talvez por isso mesmo se justifique a uniformidade e coesão do território nacional. Ou seja, Portugal nasceu no norte litoral e expandiu-se para sul (3), agregando as novas a diferentes zonas ao longo da reconquista, e posteriormente nas ações de povoamento e dinâmicas internas de ocupação que tentaram desenvolver o território. As várias zonas agregadas contribuíram com determinadas características para um todo nacional interdependente (3). Por exemplo, de um modo resumido: do norte atlântico saíram as grandes massas humanas, a nobreza medieval e a definição da repartição social; do norte interior o sistema municipal e organização concelhia; e do sul a economia urbana com forte relação com a área rural (1). Também as fortes tradições migratórias internas, trabalho sazonal e comércio contribuíram para a homogeneização nacional (6).
Título desconhecido - Amadeo de Souza Cardoso

A tendência dominante de um norte que, através da reconquista se impôs ao sul mas que foi depois por ele influenciado, não são as únicas razões para a coesão nacional. Segundo Orlando Ribeiro (3;6) já existiria uma língua, e talvez culturas comuns, antes da reconquista cristã. A península ibérica, por ser um local de passagem entre continentes, ainda que remoto, conheceu ocupação humana antiga (3). Na faixa ocidental litoral atlântica - sempre a mais remota da península - desenvolveram-se culturas distintas, mas ligadas ao exterior, tanto no paleolítico (os “concheiros”) e no paleolítico (civilização dolmética). Migrações posteriores criaram, na idade do ferro, o desenvolvimento de castros fortificados em altura que dominavam a paisagem. A posterior ocupação romana, integrou os antigos castros e ordenou o território em latifúndios e conventi - surgem muitas das delimitações territoriais, cidades, vias de comunicação que ainda hoje persistem. Terão sido essas delimitações administrativas que contribuíram para a definição das fronteiras do Estado, especialmente porque os Romanos terão também atendido às diferenças étnicas nesses ordenamentos (3). Com as consequentes invasões germânicas, e muçulmanas, grande parte das delimitações persistiram, mudando, em certos casos, apenas quem exercia o poder. A influência muçulmana ocorreu mais na cultura e técnicas que propriamente em mudanças nos limites administrativos.
Com as guerras de reconquista, surgiu a necessidade de repovoar os novos territórios. Desde logo o Estado português criou dependências com o exterior, começando pela própria primeira dinastia, responsável pela independência  que era de origem borgonhesa (4). Tanto a reconquista com o povoamento dependeram do exterior: cruzados estrangeiros ajudaram a tomar as principais praças-fortes do sul; colonos cristãos migraram para os novos territórios; e foram as ordens religiosas que conquistaram os grandes territórios do sul. A dependência para com o exterior continuou, posteriormente, a notar-se na balança de transações. Desde então a produtividade agrícola de Portugal nunca foi suficiente, as terras, apesar do baixo potencial agrícola (1) nunca foram aproveitados em todo o seu potencial, ainda que a esmagadora maioria da população se dedicasse à agricultura. 
O litoral, no final da idade Média e depois com a expansão marítima portuguesa, tendeu a ser a zona mais ocupada. Lisboa foi-se assumindo também como capital e importante cidade Europeia (3), mas sempre em grande dependência, pois era apenas um ponto de passagem do grande comércio que seguia rumo ao norte da Europa  No século XVIII, quando cessaram as remessas de ouro do Brasil e o comércio decresceu, o país tentou desenvolver o território da metrópole, ainda que se tenha continuado a apostar no expansionismo colonialista em África (5).
Importante também foi a recente afirmação de Portugal sobre uma grande zona de domínio económico e político. No entanto, essa pretensão tem assentado mais na herança histórica que no efetivo domínio e controlo dessas águas (2), algo que reforça a sensação da continua incapacidade de tirar o máximo partido do território continental.


Bibliografia

  1. Belo, Duarte; Daveau, Suzanne; Mattoso, José; 2011.”Portugal – O Sabor da Terra. Um retrato histórico e geográfico por regiões”. Lisboa, Temas e Debate.
  2. Daveau, Suzanne; 1998. “Portugal Geográfico”. Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1998.
  3. Lautensach, Hermann; Ribeiro, Orlando. 1989. “Geografia de Portugal - Comentários e atualização de Suzzane Daveau. Lisboa: Edições João Sá da Costa.
  4. Mattoso, José; 1997. “História de Portugal vol.II – Monarquia Feudal”. Lisboa, Editorial Estampa.
  5. Medeiros, Carlos Alberto. 2006. “Primórdios da evolução dos pais. A expansão marítima e os seus reflexos”. Geográfica de Portugal. Revista Portuguesa de Geografia.
  6. Ribeiro, Orlando; 2011. “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico”. Lisboa, Letra livre.

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