terça-feira, 7 de agosto de 2012

Porque são diferentes os Emigrantes Portugueses em França?

Agosto é tipicamente, e desde há algumas décadas, o mês de retorno de muitos emigrantes portugueses à pátria de origem, e também agora de muitos dos seus descendentes que nunca chegaram a morar em Portugal. Com a chegada dos portugueses emigrados Portugal muda, sente-se a diferença nos espaços públicos e locais onde tendem a juntar-se mais pessoas: ouvem-se mais “línguas estranhas” um pouco por todo o lado. Também as famílias crescem nesta altura, pois dificilmente haverá quem não tenha familiares emigrados. Com estas mudanças, e respetivos novos influxos humanos, tendem a ocorrer intercâmbios e, por vezes, choques de culturais. O efeito (ou embate) pode dar-se no sentido do de enriquecimento ou de conflito. 
Carga Humana (tríptico 2) - Paula Rego

De um modo geral, independentemente do país de acolhimento, o surgimento dos ditos choques é espectável e normal. No caso de países onde existe forte tradição de emigração o choque tende a ser ainda maior (*), pois tendem a ser países em processo de mudança, restruturação e reconstrução a vários níveis. Ou seja, quem emigra é naturalmente aculturado, mudando e adaptando-se à cultura dos países de acolhimento, mas quando volta às suas raízes também muito do que ficou mudou. O desfasamento é duplamente acentuado tanto pela aculturação dos emigrados como pelas mudanças que ocorrem no próprio país de origem. Pode-se dizer que Portugal é um país com forte tradição de emigração, e que a sociedade portuguesa mudou muito desde a década de 60 do século XX (ver documentário: Portugal um Retrato Social).
Para além disso, e especialmente para o caso dos emigrados em França, o choque cultural é ainda mais forte e evidente, muito devido às próprias características da cultura francesa. Em França a cultura é muito centralizada, exigindo aos imigrantes que a adotem integralmente para melhor integração. Tal não é verdade para outros países de forte tradição de imigração; Um exemplo importante a ter em conta é o da comunidade italiana, tendo sido feito um estudo que comparou o tipo de aculturação que sofreram os  imigrados italianos nos EUA e em França (*): nos EUA, por ser uma cultura federalista que cria condições favoráveis para o continuar da identidade cultural de origem dos imigrantes, os italianos mantiveram muito da sua herança cultural; por outro lado, em França, pelo peso do centralismo e força da cultura francesa, a aculturação foi muito marcada, com a herança da cultura de origem a dissipar-se rapidamente. Assim, é compreensível a forte aculturação dos emigrantes portugueses a viver em França, contribuindo para que pareçam muito mais estranhos aos portugueses residentes que os emigrados noutros países.
No entanto, existem também outras razões internas que podem ajudar a tentar compreender os choques culturais, a própria noção de “cultura de origem” pode ser polémica.. Na verdade não existe uma cultura de origem (*). Existem sim muitas. A cultura urbana nacional não é igual à rural, e mesmo dentro dos meios rurais e urbanos existem grupos bastante distintos, com reações e comportamentos diferentes face às aculturações. Assim, nem todos os emigrantes tendem a comportar-se do mesmo modo perante as mesmas solicitações, até porque, para além disso, cada individuo terá sempre a sua personalidade própria, mais ou menos independente do meio.
Agora em Agosto, quando ouvirem um emigrante a misturar palavras e conceitos, pensem que todos nós, mesmo aqueles que nunca saíram do país e experimentaram viver noutra cultura, recorremos abundantemente a estrangeirismos sem fazermos grande esforço para recorrer aos termos existentes da língua portuguesa – quem nunca disse: “Link”, email, “post”, “briefing”, etc. e tal. A tecnologia, e outras áreas de especialidade, têm tido uma forte influência na língua e contribuído, em parte, para uma certa aculturação anglo-saxónica. Se pensarmos nos termos informáticos e da área da gestão/marketing o rol de estrangeirismos é imenso!
Muito mais haveria para dizer sobre este tema. Para já o melhor é aproveitar o Verão, o clima, as férias e a oportunidade para nos enriquecermos culturalmente com os emigrantes que nos visitam, pois parece que muitos vão continuar a emigrar, esperando um dia voltar.

Referências bibliográficas
(*) Cuche, Denys. “Noção de Cultura em Ciências Sociais”. Fim de Século: 2006

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