quinta-feira, 12 de abril de 2012

Quando se começou a chamar os caloiros por "bestas"

Enquanto palmilhava com os olhos um documento sobre a história das primeiras universidades europeias, dou por mim a ler algo sobre caloiros e praxes. O texto em causa era parte integrante do livro "Os intelectuais da idade Média", obra de Jacques Le Goff - um famoso e importante medievalista francês dos nossos tempos. A determinado momento da leitura, chego a um título que diz: Clima Moral e Religioso. Uns parágrafos depois o autor refere que o documento Manuale Scolarium (um documento do século XV) refere que em tempos anteriores - naquele período que conhecemos com Idade Média - os jovens adolescentes que ingressavam nas universidades começaram a ser sujeitos a uma "purgação". O objetivo desse ritual era retirar ao jovem a rusticidade do meio  de origem, torna-lo um membro da nova comunidade urbana intelectual, fazer com que abandonasse a, suporta, bestialidade. Refere o documento que era habitual troçar do seu cheiro a animal selvagem, do seu olhar perdido, das orelhas compridas, dos dentes que se pareciam com presas. Parece que em alguns casos limavam os dentes aos caloiros, entre outros rituais. Havia também lugar a uma confissão parodiada onde se confessavam vícios extraordinários.
O esfolamento de Marsyas - Ticiano

Assim, tendo em conta os dados anteriores, parece que as "praxes" (ou purgações) serão tão antigas como as próprias universidades europeias, e que existe uma explicação simbólica para o uso do termo "besta". No entanto, será que, nos dias que correm, estes rituais de praxe servem para remover a besta, mais ou menos bestial, que mora em cada um de nós ou apenas a potencia?

Fonte:
Jacques Le Goff, Os intelectuais na Idade Média, 2ª edição. Lisboa: Gradiva, 1987

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