quinta-feira, 22 de julho de 2010

Gato Preto, Gato Branco: Cinema do Mundo com Música do Mundo

Admito a minha grande falha cinematográfica, uma clamorosa lacuna, pois só ontem tive a oportunidade de procurar na minha cinemateca e ver com a atenção que merece o mais famoso filme de Emir Kusturika. Sim, só ontem vi na “integra” a obra ‘Gato Preto, Gato Branco’. Mas que filme! Que ambiente! Que música!

Esgrimindo - Paja Javanovic
 Estava preparado e à espera duma obra sui generis e as expectativas eram altas, muito altas. Para meu próprio espanto, foram superadas. Há originalidade, começando pelo próprio género (se é que se pode assim definir): farsa, comédia, musical, drama, romance, entre outros. O enredo, o ambiente e as personagens são sem dúvida ímpares. De tão estranho e caricato, tudo nesta obra de Kusturica soa a ficção tresloucada, mas será mesmo assim? Será este mundo e ambiente inteiramente fictício - não obstante de se passar na Sérvia dos anos 90 ao largo do rio Danúbio -, povoado por personagens que assumem os mais diversos comportamentos e papeis, muitos deles antagónicos e incoerentes (ladrões, assassinos, corruptos, indigentes, cobardes, pelintras, músicos, pessoas comuns, sonhadores, viciados em jogo, honestos, solidários, simpáticos, entre tantos outros), tão diferente da realidade local?

Muito provavelmente tudo o que é descrito e registado pelas câmaras não passará de um grande exagero de uma possível realidade, muito ao género das comédias italianas dos anos 60 e 70 que primam pelas hipérboles cinematográficas como modo de fazer humor. No entanto, somos sem dúvida transportados para um mundo novo, repleto de vida própria, cores, cheiros e, acima de tudo música!

Apesar da lufada de ar fresco que traz, o desenrolar da acção é típico e muito semelhante ao que é utilizado noutros filmes, através de um crescendo de eventos que se vai desenrolando para desembocar num final coerente. É o facto de tudo ser tresloucado que , quanto a mim, contribui para a originalidade ao filme.

O gato preto e o gato branco, possivelmente as “existências” que dão nome ao filme, estão presentes e aparecem sempre juntos ao longo do filme. O significado das constantes aparições dos dois gatos é profundamente dúbio, não imediato, pois é um acto consciente e propositado de Kusturika, fornecendo assim ao cinespectador uma tela branca para que este pinte de acordo com o seu próprio entendimento e imaginação.

Outro aspecto muito importante e sempre constante no filme é a música. Kusturica brinda-nos com música tradicional dos Balcãs de clara inspiração Cigana – tudo muito “Gipsy". Só pela música ‘Gato Preto, Gato Branco’ merece ser apreciado e ouvido.

São filmes destes, cessando muito do marasmo “Hollywoodiano”, que nos lembram que o bom Cinema, original e vanguardista, pode vir de qualquer parte do mundo e ter como personagens principais os mais improváveis dos indivíduos, nos mais improváveis dos contextos humanos e geográficos.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa