quinta-feira, 26 de maio de 2011

Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos

Com o desenvolvimento económico e aumento dos salários e rendimentos dos cidadãos, em geral, vem o aumento do consumo. Este é um dos pressupostos do nosso capitalismo, e uma relação económica patente até no nosso dia-a-dia - quanto mais ganhamos tendencialmente mais consumimos, por mais poupados que sejamos. 

O Ladrão - Fernando Botero
Quer os transportes quer a habitação têm sido produtos/serviços em que se tem exigido - porque efectivamente os queremos consumir - mais, melhor e, quase sempre, maior. Não é preciso ser especialista em história recente, ou até mesmo em automóveis, para notar que os veículos automóveis particulares têm crescido de dimensão em quase todas as classes e categorias - hoje um veiculo familiar é muito mais espaçoso do que um produzido na década de 70. Já no que toca às habitações é também notória a procura por espaços maiores, mais amplos e, em muitos casos, de preferência no modelo de vivenda com quintal e jardim. Se assim não fosse as periferias não teriam crescido ao ritmo exponencial que temos verificado, quer seja em Portugal quer no estrangeiro - notar o exemplo dos EUA.
Estas procuras e vontades por mais e maior, no sector automóvel e imobiliário, têm influenciado muito os custos dos produtos desses sectores e de outros relacionados, sendo o próprio sector público também visado.

Vejamos então as palavras de Daniel Murta na sua obra "Quilómetros, Euros e pouca terra - manual de Economia dos Transportes" que referem essa e outras relações:

"Um aumento de salários tem um efeito ambíguo na dimensão das propriedades: o custo de transporte revela do tempo e o salário é monetário; a subida do salário torna, instantaneamente - por custo de oportunidade - as mesmas casas mais caras, em termos do tempo perdido até elas; que vale mais se forem maiores alargam a cidade tornando-se mais longínquas, logo duplamente mais caras (nominalmente por terem mais m2, e porque ao obrigarem a cidade a crescer e ao ficarem mais longe, têm maior custo de transporte)."

Das palavras do autor saliento o parte final. Saliento  o facto de: havendo procura por casas maiores, que ocupam mais espaço, forçosamente a cidade estende-se mais, aumentando assim os custos de transporte para quem habita nessas casas, pois está, de facto, mais longe de tudo. Ou seja, os custos de transporte aumentam tendencialmente, e aumentam mais ainda se considerarmos que cada vez se procuram também carros maiores que ocupam mais espaço, forçando ainda mais o aumento das distâncias pelo tráfego e necessidades de estacionamento que provocam, logo mais onerosos. Outras perspectiva do aumento destes bens e produtos [automóveis e casas] e a do aumento dos custos para a gestão pública e colectiva. Com cidades cada vez mais extensas aumentam os custos para fazer chegar infra-estruturas (estradas, abastecimento de água e esgotos, electricidade, etc.) tal como os serviços (hospitais, escolas, policia, etc.) a toda a nova cidade excessivamente estendida. Tudo isto sem falar nos custos do próprio solo excessivamente ocupado, especialmente nos impactes ambientais que isso tem, algo que no fundo e a longo prazo tem também impactos económicos.

Dependendo o apuramento do custo de viver num determinado sitio dos custos de transporte e de habitação, sendo o resultado desse apuramento nos centros urbanos principalmente influenciado pelo custo de habitação e nas periferias pelo custo do transporte, num futuro muito próximo muitas famílias poderão ter de voltar a morar "mais no centro", assim que se tornar evidente que em alguns casos a sua procura por maiores casas e automóveis se tornar insustentável, do ponto de vista dos impactos económicos e custos dessas opções - muito devido ao aumento de custo dos transportes.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa