domingo, 29 de janeiro de 2012

A Maçonaria (portuguesa) segundo o Diário de Notícias

 Parece que Portugal acordou para a Maçonaria, apesar de estar por terras lusas há pelo menos dois séculos. Curioso, mas coisa simples de explicar quando são os próprios Media que definem os interesses pela notícia, enquanto coisa valorativa. Como o tema está na berra, não podia deixar de recuperar um recorte de jornal de há uns tempos que guardei, de uma edição do Diário de Notícias (DN) que fazia uma grande reportagem sobre a maçonaria nacional. O artigo em si, demorando-se em pelo menos 12 páginas, aborda e faz uma leitura abrangente dessas sociedades secretas, expondo alguns casos e características da maçonaria em Portugal (referindo mesmo alguns dos destacados membros de hoje e de ontem – aquilo que parece cativar a imaginação das pessoas nos dias que correm). De tudo o que trata e apresenta a dita reportagem, trago aqui ao blogue principalmente os conteúdos explicativos e de razão de ser – segundo o DN – da própria maçonaria, especialmente da portuguesa.
O mito de Orfeu - Marc Chagall
  Se a origem medieval da maçonaria é real ou fictícia – uma espécie de mito histórico da criação da própria maçonaria – quase ninguém saberá. Provavelmente só os membros dessas sociedades maçónicas mais tradicionais, caso guardem documentos e outros testemunhos ou provas, o podem atestar. De qualquer dos modos, mesmo podendo a maçonaria não ser tão antiga como a existência das guildas ou grupos de mestres-pedreiros que construíram as catedrais e edifícios mais complexos medievais, os símbolos e associações, tal como o próprio nome, bebem muito desses tempos. Não é por acaso que maçon em francês quer dizer pedreiro - aquele que trabalha a pedra. É que na Europa Medieval cristã os mestres-pedreiros medievais eram dos poucos a ter conhecimentos de matemática, geometria, gestão e capazes de projetar. Há que lembrar que as poucas universidades que existiam eram de criação muito recente e se dedicavam quase exclusivamente aos estudos da teologia e do direito (quanto muito medicina também em alguns casos com a denominação de física); o estudo das bases que seriam a ciência de hoje nas universidades ainda teria que esperar uns séculos. Ainda na língua francesa, “franc-maçon” significa “pedreiro livre”, numa relação com o livre construtor, aquele que pela sua liberdade, capacidade e conhecimentos podia construir algo de novo ( e no caso da pedra, transformar uma pedra bruta num elemento perfeitamente geométrico e/ou ornamentado). Os conhecimentos que estes mestres construtores tinham deram-lhe, em tempos feudais medievais e de liberdades condicionadas, um estatuto social distinto. Não eram nobres, mas tinham algumas regalias e liberdades especiais (incluindo a de deslocação e trabalho por conta de quem escolhessem), pois o poder secular e religioso precisava dos seus saberes e conhecimentos para a construção das grandes obras – aquelas que aspiravam a tocar os céus e ficar, metaforicamente, mais perto de Deus.
  Mais tarde, depois do renascimento, quando o conhecimento dos antigos clássicos começou a ser redescoberto. Também com um maior acesso à informação e sua disseminação mediante a invenção e generalização da imprensa, o conhecimento acumulado do passado e restrito a alguns grupos – guildas de ofícios, onde se incluíam os mestres-pedreiros, o saber das universidades e do mundo sacro – passa a ser de acesso mais facilitado. Mas foi durante o Iluminismo do século XVIII – sem se saber o que deu origem a quê, se o iluminismo à maçonaria ou a maçonaria ao iluminismo, ou se mera coincidência entre ambos - que a maçonaria ganhou o cunho, simbolismo e razão de ser que a caracteriza ainda hoje. A Maçonaria nessa altura ganhou o cunho, mais que tudo, filosófico e cultural - os pedreiros talhariam da ignorância o saber, e do homem rude o homem aperfeiçoado. O objetivo não seriam as construções de pedra mas as do saber. Diz-se que foi da maçonaria que nasceu o triplo ideal de: igualdade, liberdade e fraternidade. Diz-se também que a maçonaria esteve envolvida em muitas das revoluções e lutas pela liberdade, exemplo da Revolução francesa, Independência Americana, da Independência do Brasil e da Revolta Liberal em Portugal (1820). Já a relação com a Implantação da República em Portugal em 1910 é também inegável.
  Hoje existem pelo menos dois tipos diferentes de maçonaria: a regular e a irregular. Na regular é obrigatório que cada maçon confesse uma religião, pois, independentemente de qual for, terá de crer no “Grande Arquitecto” ou GADU – a entidade, força ou divindade da qual o universo tem origem e razão de ser, seja qual for o nome que lhe atribua (Javé, Jeová, Alá, Deus, Buda, etc.). Ou seja, na maçonaria regular é possível estarem reunidos na mesma loja (a maçonaria organiza-se em lojas, o que pode não ser um espaço físico mais apenas a designação do grupo em causa) maçons de várias religiões, sendo vedada a presença apenas a ateus. Por outro lado, na maçonaria irregular podem ser admitidos ateus. Também apenas na maçonaria irregular se permite a iniciação de mulheres, em lojas femininas ou mistas.
  Segundo o artigo onde se baseia a maior parte da informação, que a primeira loja maçónica nasceu em Inglaterra em 1717, mas as origens, tal como já foi referido, parecem ser muito anteriores. Em Portugal a maçonaria organiza parece ter surgido no dealbar do século XIX, embora se haja indícios de alguns destacados portugueses que já anteriormente tinham ligações maçónicas a lojas fora do país. Atualmente existem em território nacional duas grandes obediências: uma regular com a designação de “Grande Loja Legal de Portugal” ou “Grande Loja Regular de Portugal” (GLLP/GLRP); e outra irregular com a designação “Grande Oriente Lusitano” (GOL). Consta que ambas terão cerca de 2000 maçons entre os seus membros, perfazendo então mais de 4000 maçons a nível nacional inseridos em ambas as duas grandes obediências, mas existem seguramente mais maçons com outras obediências não tão numerosas e conhecidas.
Os graus da maçonaria, ou hierarquias, podem obedecer a dois sistemas distintos. Ou se segue o rito escocês ou o rito de York. No primeiro existem 33 graus (ou níveis) enquanto no segundo apenas 10. Em Portugal o mais praticado parece ser o escocês.
  Os símbolos maçónicos são muitos, podendo ser consideramos os seguintes como mais importantes: o compasso (símbolo da retidão, ação do homem sobre a matéria e sobre si mesmo, e moralidade); o esquadro (símbolo da justiça, exatidão, do espírito, pensamento, e do absoluto pela relação com o círculo); a letra “G” (significa: gravitação, geometria, geração, génio, gnose, glória, e grandeza); o avental (símbolo de trabalho, com diferentes cores e inscrições para distinguir os vários níveis dentro da hierarquia maçónica); os 3 pontos (significam: luz, trevas e tempo; nascimento, vida e morte; sabedoria, força e beleza; liberdade, igualdade e fraternidade); a pedra por talhar e a pedra talhada (relação com a busca pela perfeição através da dedicação e trabalho), e; as colunas (símbolos dos limites do mundo, da vida e da morte, do ativo e do passivo, do elemento masculino e feminino).
  Hoje, atendendo novamente à reportagem, o acesso à maçonaria é mais liberalizado que em épocas do passado. Hoje pode-se ser iniciado na maçonaria por convite ou por autoproposta. No entanto, os maçons, segundo eles mesmos, tendem a ser cuidadosos e exigentes na admissão de novos membros. Explica o DN que são város os paços para se tornar maçon: Convite (ou autoproposta); investigação sobre o candidato; rito de iniciação, com chegada de olhos vendados ao local para o efeito (templo ou local de reunião da loja ou obediência), seguido de interrogatório e “testamento maçónico” – um documento de teor filosófico -, de 3 voltas ao templo - na presença dos “irmãos” maçónicos de loja - e por fim, dada a última volta, o candidato é considerado maçon, recebendo o grau mais baixo – grau de “aprendiz” -, sendo de seguida queimado o seu testamento maçónico.
  Nos dias que correm, em sociedades democráticas e onde se aspira a cada vez mais transparência pode ser difícil de perceber e compreender a razão de ser deste tipo de sociedades secretas. Tais receios e incompreensões ganham outra dimensão, no caso da maçonaria, por serem constituídas, habitualmente, por elites. Ou seja, é normal, especialmente por desconhecimento, que se se desconfie sobre quais os assuntos e propósitos maçónicos. Os receios, tendo em conta alguns casos divulgados nos Media, poderão ter real fundamento. No entanto, atendendo a história (perseguições, punições, violências e intolerâncias), é igualmente compreensível que alguns maçons tenham receio em revelar a sua filiação iniciática.
  Para melhor compreensão da maçonaria e seus objetivos, é útil citar aqui José Manuel Anes e a definição que ele próprio dá de maçonaria: “Organizações fraternais, com uma determinada regra de funcionamento e de vida, sujeita a uma hierarquia cujo o objetivo é o aperfeiçoamento espiritual dos seus membros”. Com esta definição e objetivos não será difícil ter simpatia perante estas organizações. No entanto, podem existir linhas muito ténues entre desenvolvimento (e aperfeiçoamento) dos membros destes grupos e favorecimento dos mesmos à custa de toda a sociedade. Claramente isso, a acontecer, seria uma óbvia subversão dos ideais maçónicos tal como são apresentados pelos próprios membros; provavelmente é mesmo ai que reside toda a polémica em torno da maçonaria nos dias que correm. Numa sociedade democrática até faz todo o sentido que os indivíduos se queiram aperfeiçoar pelo seu próprio mérito e valor, pois até será toda a sociedade que ganhará com isso. O que falha depois será a relação do ideal com o real
  De qualquer dos modos, tal como em muitas outros assuntos, há que evitar o obscurantismo e preconceito. Uma opinião sobre este assunto será tanto mais válida quanto mais informada for. Aqui entramos no paradoxo, pois, como estas sociedades são supostamente secretas, dificilmente as opiniões sobre o que são e o que fazer poderão ser verdadeiramente informadas.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa