sábado, 23 de julho de 2011

Imperativo categórico: uma visão de nós e dos outros

Volto mais uma vez - a terceira - ao livro "Platão e um Ornitorrinco entram num bar - Filosofia com Humor" para construir aqui mais um ensaio de texto, mais uma partilha pseudo-filosófica bem-humorada (ou não). 
Muitas vezes classifica-se "como sendo Filosófico" algo que de facto não o é e que apenas é melancólico ou ininteligível. Neste caso - no caso deste texto - é filosofia da pura e da dura, da séria e sistemática, ou seja, filosofia germânica, mais concretamente, filosofia Kantiana.
Bailarina - Miró
Do livro já referido, no subcapítulo "O Imperativo categórico Supremo e a Velha Regra de Ouro" Thomas Cathcart e Daniel Klein registaram mais um rasgo de genial originalidade escrita. Vemos, em curtas palavras, a relação entre o "Imperativo Categórico Supremo" ("Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal") e a "velha regra de ouro" ("Faz aos outros aquilo que queres que te façam a ti").
No fundo, o Imperativo categórico supremo de Kant não é mais que uma definição refinada da "velha regra de ouro". Podemos ver a "invenção" de Kant como a análise do que pode ter sido a génese dos princípios morais, pois nela descreve como os comportamentos dos indivíduos se podem tornar num código de conduta ou conjunto de regras sistemáticas a seguir, ou seja, na Moral. Mesmo assim parece-me que Kant define principalmente, e mais que tudo, os princípios da ética mais que a própria moral (ver anterior texto "Moral vs. Ética"), pois evidencia que as regras (ou os princípios dos códigos) a adoptar só fazem sentido e são válidas se analisadas, questionadas e se de facto trouxerem mais-valias e ganhos aos indivíduos - individualmente e colectivamente. Fazendo aqui uma analogia abstracta: todo o "Bem" que um individuo A fizer a um B, e um B fizer a um C, e por ai fora, contribuirá para haver uma contínua distribuição de "Bem". Isso será ainda melhor se A conseguir fazer "Bem" a C, a D e outros também, desse modo a eficiência e eficácia da distribuição de "Bem" - se é que assim se pode dizer -, em comunidade, ascende a outro nível. Em última análise, directa ou indirectamente, A receberá sempre "Bem" se o intercâmbio de "Bem" for aceite por uma maioria, uma sociedade por exemplo. Provavelmente o mais complicado aqui é mesmo saber de facto: o que é o "Bem" - coisa difícil de definir, até porque haverá sempre tantas definições de "Bem" como a quantidade de indivíduos pensantes e capazes de sentir.

As várias religiões, mais ou menos dogmaticamente, foram definindo e aprimorando a "Velha Regra de Ouro", ou veja-se:
  • Hinduísmo, em o Mahabharata: "Não faças aos outros o que não desejas que te seja feito a ti..."
  • Judaísmo, em o Talmude: "O que é odioso para ti, não faças ao teu próximo".
  • Zoroastrianismo, em o Dadistan-i-Dinik: "A natureza só é boa quando não faz a outro ser humano o que não é bom para ti".
  • Budismo, segundo o Dhammapada: "Não magoes os outros de formas que tu próprio considerarias penosas".
  • Confucionismo, em Anacletos: "Não faças aos outros o que não queres que te seja feito a ti".
  • Islão, em Sunnah: "Ninguém é crente enquanto não desejar para o outro o que deseja para si mesmo".

Em suma, todas as correntes filosóficas e religiosas apresentadas convergem, mais ou menos, no mesmo sentido.
Na nossa época, onde cada vez mais taras e fetiches vão sendo revelados, é caso para: dizer "há gostos para tudo"; reflectir sobre quais os limites do absoluto e universalidade do "Bem", e até que ponto o  conceito de "Bem" pessoal pode ser exactamente o conceito de "Mal" de outrem. 
Especulando, quem sabe se o Dogma não serviu e foi inventado com o intuito de evitar que actos de "Bem" dúbios fossem praticados? 
Não é por coincidência que no livro "Platão e um Ornitorrinco entram num bar - Filosofia com Humor" se refere o caso do masoquismo. Será que poderíamos estar bem, não sendo nós masoquistas, se um masoquista nos proporcionasse a sua noção de bem?
É caso para citar mais uma frase do livro, neste caso uma dupla citação - pois faço citação de uma citação -, de George Bernard Shaw: "Não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem a ti; eles podem ter gostos diferentes"
Pois é, gostos temos todos, muitos deles muito diferentes, mas todos temos, com a democratização das sociedades a pretensão de poder optar do que gostar.

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