domingo, 2 de setembro de 2012

A Busca pela Sabedoria faz 3 anos!

Já passaram três anos desde que me estreei na "blogosfera".  Na altura, essa aventura começou como uma necessidade de escapar ao mundo cinzento e quadrado da vida quotidiana e às rotinas profissionais, quase sempre limitativas da busca e análise de conhecimentos universalizantes humanistas. Este blogue foi o primeiro de vários, nele, e por ele, enveredei numa disciplina informar de tentar sistematizar ideias e pensamentos, baseados em leituras e outras aquisições de conhecimentos e experiências várias. Paradoxalmente, acabei por cair numa rotina também, pois ter um blogue exige contínua atualização e introdução de novos textos. Mas como a diversidade dos conteúdos é tão grande, infindável mesmo, a rotina que se criou foi benéfica para o desenvolvimento  e aprofundamento da desejada busca pessoal, a qual queria o mais eloquente possível
Três pares de sapatos - Van Gogh
Três anos passados, quase 150.000 visitas e mais de 200 textos depois, a vontade é de não parar, de continuar - haja tempo para poder colocar em "blogue" tudo aquilo que me vai parecendo ter interesse para esta busca. 
A Busca pela Sabedoria vai ganhando maturidade, e provavelmente em breve será a altura para tentar novas realizações e etapas. Pode ser que um dia, se se concretizarem algumas propostas, do blogue nasça algo mais palpável e físico. Quem sabe?
Aproveito para agradecer a todos os visitantes, pessoas que têm comentado os textos, que me têm corrigido  erros que sempre vão aparecendo e feito sugestões de todo o tipo: Muito obrigado! Agora é tempo de "mudar de botas" e me pôr novamente a caminho desta busca. Até breve, até próximo post!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Compêndio de curiosidades e tradições sobre casamentos


No ano passado, por volta desta altura, decidi, por razões particularmente pessoais, fazer uma pesquisa informal pela Internet sobre curiosidades e tradições associadas directamente e indirectamente aos casamentos. Assim resultou um pequeno compêndio de duas páginas destinado a encher com outros conteúdos algumas mesas. Muitas destas informações são mitos ou interpretações erróneas, algumas perto da verdade ou do que se sabe historicamente, outras são meras fantasias criadas para dar sentido a alguns comportamentos- ainda que tenha feito alguma filtragem. De qualquer dos modos, verdade ou mito, algumas destas explicações são divertidas e curiosas o suficiente para que sejamos levados a investigar sobre a sua veracidade. Fica então o dito compêndio, ordenado alfabeticamente. Agora é uma questão de investigar, ficando aqui a possibilidade para comentar, refutando ou reforçando com fontes credíveis, para quem quiser entrar nessa busca.
O Casamento - Adrien Moreu

Alianças
As alianças de casamento e de compromisso são usadas no quarto dedo, porque outrora no Egipto se pensava que uma veia nesse dedo estava directamente ligada ao coração. A aliança representa um circulo, ou seja, uma ligação perfeita entre o casal. O círculo representava para os Egípcios a eternidade, tal como o amor, que deveria durar para sempre.

Algo velho, novo, emprestado e azul
O ditado, "Algo velho, algo novo, algo emprestado e algo azul” é usado desde os tempos Victorianos. O “algo velho” representa os laços da família e a sua vida passada; "Algo novo" representa a sua nova vida juntos e os seus desejos de felicidade, prosperidade e sucesso; "algo emprestado" de uma mulher casada e feliz para emprestar a boa sorte; e "algo azul" representa a felicidade e a constança.

Atirar Arroz
A tradição de atirar grãos de arroz sobre os noivos, após a cerimónia nupcial, teve origem na China, onde um Mandarim quis mostrar a sua riqueza, fazendo com que o casamento da sua filha se realizasse sob uma "chuva" de arroz.

Brindes e bebidas
No Japão, o casal de noivos bebe 9 goles de sake, tornando-se marido e mulher a partir do primeiro gole.
Na China, a cor do amor é o vermelho, durante a cerimónia do casamento, o casal bebe vinho com mel de dois copos atados com uma fita vermelha.
As noivas do Médio Oriente pintam motivos henna nas suas mãos e pés para as proteger do mau-olhado. 
Os franceses muitas vezes fazem brindes num copo especial com duas pegas, especial para os noivos.

Beijo
Nos tempos romanos, o beijo selava o acordo do casal de assumir um compromisso para a vida.

Bolo de Casamento
A tradição do bolo de casamento remonta à antiga Roma, onde na cerimónia de casamento se partia um pedaço de pão sobre a cabeça da noiva para o bem da fertilidade.
O bolo da noiva é, desde há séculos, um símbolo de boa sorte e de festividade. No tempo dos Romanos, a noiva comia um pedaço de bolo, e exprimia o desejo de que nunca lhes faltasse o essencial para viverem.
A tradição do "tradicional" bolo de casamento empilhado, partiu de um jogo, onde a noiva e o noivo tentavam beijar-se por cima de um bolo, que se tornava cada vez maior, tentando não o derrubar.

Bouquet da noiva
O bouquet da noiva tem origem medieval. Nesta época, as mulheres levavam ervas aromáticas para afugentar os maus espíritos. Pouco a pouco, o ramo da noiva tornou-se um hábito em todos os casamentos e, com a passagem do tempo, acrescentaram-se significados às diferentes flores.
O bouquet pode ter surgido também na Grécia como uma espécie de amuleto contra o mau-olhado e, na sua confecção, era utilizado o alho.

Chover no casamento
De acordo com a tradição hindu, chover no dia do casamento é considerado um sinal de sorte.

Damas de Honor
As testemunhas, ou damas de honor exigidas num casamento romano, protegiam a noiva, vestindo-se de maneira semelhante a ela, enganado assim os maus espíritos, evitando o mau olhado e a inveja.

Dar o Nó
A expressão “dar o nó” vem de antigas tradições relativas aos casamentos Egípcios e Hindus, onde as mãos da noiva e do noivo são literalmente atadas, demonstrando o seu laço de união.

Diamantes
Diamantes sobre ouro ou prata, ficaram muito populares a formalizar um compromisso, devido aos Venezianos o terem feito, por volta início do século XVI.

Danças
Na Turquia, antes da noiva sair do local da cerimónia, pede às suas amigas solteiras para escreverem os seus nomes na sola dos seus sapatos. Depois da noite de dança, a tradição dita que a assinatura da pessoa que estiver mais gasta será a próxima pessoa a casar.

Data para casar

A popularidade dos casamentos em Junho descende da deusa Romana Juno, que era o deusa do casamento, do nascimento e do coração.
No Brasil, o mês preferido também é Maio, provavelmente, pela referência de Maya, Maria, mãe.

Despedidas de solteiro
As despedidas de solteiro foram originadas pelos soldados Espartanos, que se despediam dos seus dias de solteiros com uma festa desconcertante.
Em Portugal o típico vestido de casamento, antes do século vinte era tradicionalmente preto.

Evitar casar em família
Na tradição católica originalmente usava-se anunciar o casamento, afixando a intenção dos noivos, para assegurar que estes não eram família.

Flor na lapela
A tradição do casamento de o noivo usar uma flor no fato origina dos tempos medievais quando os cavaleiros usavam uma flor para simbolizar a pessoa amada como prova do seu amor. 

Levar a noiva ao colo

Os romanos carregavam a mulher no colo ao levá-la para casa, para evitar que ela tropeçasse, o que significava mau presságio.

Lua-de-Mel
A Lua-de-mel tem origem no povo germânico, pois era costume se casar na Lua Nova. Na cerimonia, os noivos bebiam uma mistura de água com mel para proporcionar boa sorte. 
O costume também poderia ter nascido em Roma: os convidados pingavam gotas de mel na porta de entrada da casa dos noivos para que estes tivesse uma "vida doce". 
Os judeus acreditam que casar na Lua Crescente é prenúncio de felicidade.
Outra opção é termo lua-de-mel vir também do tempo em que o casamento era um rapto, muitas vezes contra a vontade da rapariga. O homem apaixonado raptava a mulher e escondia-a durante um mês (de uma lua cheia até à outra) num lugar afastado. Durante esse período, tomavam uma bebida fermentada, à base de mel, que devia durar 28 dias, o tempo do mês lunar. 
A lua-de-mel, tal como a conhecemos hoje, tem origens nos hábitos ingleses do século XIX. O recém-casado passava uma época no campo para se libertar das obrigações sociais

Posição dos Noivos
A razão da noiva ficar sempre do lado esquerdo do seu noivo tem a sua origem nos anglo-saxões. O noivo, temendo a tentativa de rapto da noiva, deixava sempre o braço direito livre para tirar a sua espada.

Roubar a noiva e bater o pé
Na Finlândia existe a tradição do  roubo da noiva, feito pelo padrinho do noivo. Para a reaver, não necessariamente sóbria, o noivo terá de completar com sucesso uma ou mais tarefas. Também na Finlândia existe a tradição do "bater do pé": o casal deve bater o pé (com força) no momento em que a faca toca o fundo do prato do bolo. O primeiro a bater o pé demonstra logo aí quem manda em casa.

Sorte e Fertilidade

As ferraduras são consideradas objectos de boa sorte num casamento devido à sua forma em lua, que se diz símbolo da fertilidade.
Na Alemanha, a noiva transporta sal e pão no seu bolso para assegurar recompensa, o noivo transporta grãos de cereais, para dar saúde e sorte.
Os ingleses acreditam que se a noiva encontrar uma aranha no vestido de casamento, esta trará sorte ao casamento. 
Na Holanda planta-se um pinheiro fora da casa dos recém-casados, símbolo de fertilidade e de sorte.
 Uma noiva sueca costuma colocar uma moeda de prata oferecida pelo seu pai e uma moeda de ouro oferecida pela sua mãe, em cada sapato, assegurando que ela nunca passará sem eles.
Na Índia, o irmão do noivo atira com flores sobre o casal no fim da cerimónia para os proteger do mal.
No Egipto, para dar boa sorte, as mulheres egípcias beliscam a noiva no dia do seu casamento.
Na África do Sul, ambos os pais da noiva e do noivo, transportam fogo, simbolizando o fogo que passa dos seus corações acendendo um novo fogo no coração dos recém-casados.
As mulheres marroquinas tomam um banho de leite para se purificarem antes da cerimónia do casamento.

Vestido de Noiva
A tradição ocidental do vestido branco foi iniciada em 1840 em Inglaterra pela Rainha Victoria, no seu casamento com o príncipe Alberto. No Japão, o branco foi utilizado para as noivas, muito antes da Rainha Victoria o ter popularizado no mundo ocidental.
Na Dinamarca, as noivas e os noivos tradicionalmente trocam as roupas um com o outro, para confundir os maus espíritos.

Véu e grinalda da Noiva
O uso do véu da noiva era um costume da antiga Grécia. Os gregos acreditavam que a noiva, ao cobrir o rosto, ficava protegida do "mau-olhado" das mulheres e da cobiça dos homens. Tinha ainda um significado especial para a mulher: separava a vida de solteira da vida de casada e futura mãe. Hijab (véu), quer dizer, em árabe, "o que separa duas coisas".
O uso da grinalda permitia que a noiva se distinga dos convidados, fazendo com que se pareça com uma rainha. Tradicionalmente, quanto maior a grinalda, maior é o símbolo de status e de riqueza.

sábado, 18 de agosto de 2012

Manipular as Ações Alheias Sugerindo Ideias Indiretas – A Impulsão Ideomotora


E se conseguissem influenciar os nossos comportamentos e ações físicas através de ideias indiretas? Bem, parece que podem de facto, que de um modo inconsciente somos altamente influenciáveis, sem disso termos a mínima perceção, pelas mais ínfimas sugestões. 
Os papagaios  (os acrobatas)- Fernad Léger
Uma das experiências clássicas da psicologia social, uma entre muitas referidas no livro “Pensar, Depressa e Devagar”, realizada pelo John Bargh revela o modo como, indiretamente, qualquer pessoa é altamente influenciada apenas por ideias. Nessa experiência foi pedido a um grupo de jovens que ordenassem um conjunto limitado de palavras numa frase coerente. A metade dos indivíduos disponibilizou-se um rol de palavras relacionadas indiretamente com o tema da velhice. Aos restantes não havia qualquer relação de conjunto das palavras a qualquer tema evidente. Depois de todos participantes na experiência concluírem a tarefa proposta, atravessaram um corredor para continuarem com mais testes, mas era no percurso entre salas que residia verdadeiramente a experiência. Por mais surpreendente que possa parecer, os jovens que tinham formulado frases com alusões à velhice deslocaram-me mais lentamente que os outros. Num questionário posterior a maioria dos jovens a quem tinham sido fornecidas palavras relacionadas com velhice consideraram não ter notado qualquer tema em comum nas palavras.
Este exemplo experimental, relatado por Daniel Kahneman na obra já citada, revela como podemos ser facilmente influenciados por impulsões. Neste caso concreto foi uma ideia subliminar que gerou uma ação inconsciente e não premeditada: deu-se o efeito ideomotor (*). Então, tendo em conta o exemplo e aplicando o pensamento indutivo, muitos poderão ser os casos em que os nossos comportamentos e ações são, propositadamente ou não, influenciados pelas ideias que existem e são disseminadas à nossa volta. É quase preocupante concluir quão facilmente podemos ser influenciados, quão ténues e simples podem também ser os meios e os modos de o fazer, e quão evidentes podem ser os resultados. Se, muitas vezes, sem intenção podemos ser levados a ter certos comportamentos, imagina-se então quando essa influência é propositada. O primeiro passo para tentar minimizar essa disposição natural, caso se pretenda enveredar por esse caminho, é começar por admitir e assumir a facilidade como qualquer um de nós é influenciado pelo meio e pelas ideias.

Nota: O Livro no qual se fundamentou o presente texto é incrivelmente útil e interessante para quem se quer iniciar na psicologia social. Daniel Kahneman escreve de um modo simples, por vezes até sarcasticamente divertido, recorrendo e referindo muitos exemplos de experiências que ajudam à compreensão de conceitos e saberes complexos e de especialidade. Seguramente que esta mesma obra será utilizada posteriormente como base a mais textos. Sem dúvida que a recomendo. Não foi por acaso que o autor, que é psicólogo, ganhou o prémio Nobel da Economia, por mais estranho que possa parecer à primeira vista.

Referências Bibliográficas
(*) Kahneman, Daniel. “Pensar, Depressa e Devagar”. Temas e Debates, 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Porque são diferentes os Emigrantes Portugueses em França?

Agosto é tipicamente, e desde há algumas décadas, o mês de retorno de muitos emigrantes portugueses à pátria de origem, e também agora de muitos dos seus descendentes que nunca chegaram a morar em Portugal. Com a chegada dos portugueses emigrados Portugal muda, sente-se a diferença nos espaços públicos e locais onde tendem a juntar-se mais pessoas: ouvem-se mais “línguas estranhas” um pouco por todo o lado. Também as famílias crescem nesta altura, pois dificilmente haverá quem não tenha familiares emigrados. Com estas mudanças, e respetivos novos influxos humanos, tendem a ocorrer intercâmbios e, por vezes, choques de culturais. O efeito (ou embate) pode dar-se no sentido do de enriquecimento ou de conflito. 
Carga Humana (tríptico 2) - Paula Rego

De um modo geral, independentemente do país de acolhimento, o surgimento dos ditos choques é espectável e normal. No caso de países onde existe forte tradição de emigração o choque tende a ser ainda maior (*), pois tendem a ser países em processo de mudança, restruturação e reconstrução a vários níveis. Ou seja, quem emigra é naturalmente aculturado, mudando e adaptando-se à cultura dos países de acolhimento, mas quando volta às suas raízes também muito do que ficou mudou. O desfasamento é duplamente acentuado tanto pela aculturação dos emigrados como pelas mudanças que ocorrem no próprio país de origem. Pode-se dizer que Portugal é um país com forte tradição de emigração, e que a sociedade portuguesa mudou muito desde a década de 60 do século XX (ver documentário: Portugal um Retrato Social).
Para além disso, e especialmente para o caso dos emigrados em França, o choque cultural é ainda mais forte e evidente, muito devido às próprias características da cultura francesa. Em França a cultura é muito centralizada, exigindo aos imigrantes que a adotem integralmente para melhor integração. Tal não é verdade para outros países de forte tradição de imigração; Um exemplo importante a ter em conta é o da comunidade italiana, tendo sido feito um estudo que comparou o tipo de aculturação que sofreram os  imigrados italianos nos EUA e em França (*): nos EUA, por ser uma cultura federalista que cria condições favoráveis para o continuar da identidade cultural de origem dos imigrantes, os italianos mantiveram muito da sua herança cultural; por outro lado, em França, pelo peso do centralismo e força da cultura francesa, a aculturação foi muito marcada, com a herança da cultura de origem a dissipar-se rapidamente. Assim, é compreensível a forte aculturação dos emigrantes portugueses a viver em França, contribuindo para que pareçam muito mais estranhos aos portugueses residentes que os emigrados noutros países.
No entanto, existem também outras razões internas que podem ajudar a tentar compreender os choques culturais, a própria noção de “cultura de origem” pode ser polémica.. Na verdade não existe uma cultura de origem (*). Existem sim muitas. A cultura urbana nacional não é igual à rural, e mesmo dentro dos meios rurais e urbanos existem grupos bastante distintos, com reações e comportamentos diferentes face às aculturações. Assim, nem todos os emigrantes tendem a comportar-se do mesmo modo perante as mesmas solicitações, até porque, para além disso, cada individuo terá sempre a sua personalidade própria, mais ou menos independente do meio.
Agora em Agosto, quando ouvirem um emigrante a misturar palavras e conceitos, pensem que todos nós, mesmo aqueles que nunca saíram do país e experimentaram viver noutra cultura, recorremos abundantemente a estrangeirismos sem fazermos grande esforço para recorrer aos termos existentes da língua portuguesa – quem nunca disse: “Link”, email, “post”, “briefing”, etc. e tal. A tecnologia, e outras áreas de especialidade, têm tido uma forte influência na língua e contribuído, em parte, para uma certa aculturação anglo-saxónica. Se pensarmos nos termos informáticos e da área da gestão/marketing o rol de estrangeirismos é imenso!
Muito mais haveria para dizer sobre este tema. Para já o melhor é aproveitar o Verão, o clima, as férias e a oportunidade para nos enriquecermos culturalmente com os emigrantes que nos visitam, pois parece que muitos vão continuar a emigrar, esperando um dia voltar.

Referências bibliográficas
(*) Cuche, Denys. “Noção de Cultura em Ciências Sociais”. Fim de Século: 2006

sábado, 28 de julho de 2012

Filme: Shutter Island


Martin Scorsese, em mais um filme onde dá o protagonismo a Di Caprio, surpreende-nos com a tensão, quase terror, predominantemente – que é para não dizer completamente – psicológica de Shutter Island. Este tipo de filme não é muito comum, e menos ainda para o diretor em causam, especialmente tendo em conta a obra anterior. Assistir a Shutter Island é entrar num enredo de reviravoltas surpreendentes. Mas desengane-se quem pense que se trata de um filme de ação dos mais típicos e de puro entretenimento visual. A ação desta obra de Scorsese é intensa e cativante pela curiosidade que desperta, pelo desconhecido e pelas emoções e sensações que provoca, independentemente de cenas altamente produzidas visualmente. Parece-me difícil de catalogar o filme, podendo dizer-se que é um filme de ação, drama, terror, policial, desde que a cada uma destas possíveis classificações adicionarmos a palavra “psicológico”.
A trama, ao jeito policial, vai-se adensando com o decorrer do filme, o “suspense” é a regra. O final é surpreendente, apesar de várias pistas espalhadas ao longo do filme que o pudessem prever. Essas informações, inicialmente incompreensíveis, podem deixar-nos a pensar no final - a mim pelo menos deixou. Para além de uma história bem original, o modo como nos é apresentada permite diversidade nas interpretações. Muitos poderão não gostar de algumas “pontas soltas” mas, a meu ver, isso acrescenta e torna o filme mais rico, dado um papel mais ativo e interpretativo a quem vê o filme, isto apesar de estar longe de ser um filme é que a sua compreensão dependa totalmente da imaginação do espetador. 
Algumas reflexões então sobre a história propriamente dita: Afinal o que é real?, até que ponto podemos confiar no que consideramos ser real, ou que é construído?
Di Caprio excede-se na excelente interpretação, mesmo em cenas mais intensamente duras (psicologicamente). Todos os atores revelam suas qualidades, respondendo com as emoções e reações que se esperam para os eventos aos quais são sujeitos na trama. A fotografia está muito bem conseguida. A Ilha é verdadeiramente sinistra, ora calma e aprazível.
Recomendo o filme, mas recomenda também que se preparem para cenas mais pesadas, com alguma violência física e psicológica.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Maior depósito de plástico do Mundo fica no Mar?


Como sabemos, os oceanos e mares não são massas de água estáticas. Para além do que é mais visível, principalmente devido às marés (influenciadas pela gravitação lunar) e das ondas (influenciadas principalmente influenciadas pelo vento), as grandes massas de água agitam-se e movimentam-se devido às correntes marítimas (fenómeno proveniente, principalmente, das diferenças de temperaturas entre as várias zonas dessas mesmas massas de água, ou daquelas que com elas confinam). Assim, as águas marítimas e oceânicas estão em constante movimento, com correntes bem definidas que deslocam quantidades imensas de água, com forças capazes de arrastar quase tudo. Nesse tudo inclui-se muito do lixo que se deposita deliberadamente ou que indiretamente acaba por ir parar a essas grandes massas de água. No caso dos plásticos, por serem de difícil desintegração, e serem muitas vezes leves o suficiente para serem arrastados e ficarem até em suspensão, o problema do lixo oceano adquire uma nova dimensão. 
Civilização Congelada - Arman
Na maior parte dos oceanos existem zonas onde a confluência de várias correntes tende a criar zonas neutras, ou seja, zonas onde as correntes se anulam e equilibram, onde os detritos se acumulam em suspensão contínua [2]. Criam-se assim vórtices e respetivas zonas propensas de acumulação, que podem ocupar zonas imensas, maiores que estados e países – por exemplo, o vórtice de lixo do Pacífico Norte é maior que o estado do Texas (695.661,56 km2) -, onde determinados tipos de lixo se vão acumulando, especialmente os leves e quase indestrutíveis plásticos.
Apesar dos plásticos poderem ser inertes, a fauna e flora marítima desses locais de acumulação oceânica está a ser influenciada pela presença dos objetos estranhos. Muitos dos peixes, e outros animais (aves, tartarugas e mamíferos aquáticos) ingerem os plásticos, confundindo-os com alimento [1]. Ao perigo inerente ao próprio plástico, juntam-se os efeitos de outros poluentes muito mais perigosos que, pelo efeito de “esponja”, lhes aderem. Para além de ser perigoso para a vida marinha, a influências destes poluentes pode afetar indiretamente a saúde humana, uma vez que podemos estar a ingerir, por exemplo, peixes que, por sua vez, ingeriram esses produtos potencialmente perigosos. Dados da Greenpeace sugerem que por cada quilo de plâncton existem na zona do vórtice do Pacífico Norte existem 6 quilos de plástico [1]. Mas essa grande quantidade de plástico nem sempre corresponde a pedaços de grandes dimensões (a maior parte tem cerca de 1 cm ou muito menos). Têm sido reveladas fotografias falsas, especialmente na Internet, como sendo do vórtice de Lixo do Pacífico, no entanto algumas delas são de outros locais (habitualmente lagos e rios altamente poluído, próximos de locais de forte ocupação humana) [3].
No entanto alguns estudos desvalorizam, parcialmente, ou simplesmente concluem que pouco se poderá dizer quanto aos efeitos reais da ingestão de plástico pela fauna. Apesar disso não se negam os efeitos dos plásticos nesses ecossistemas. É consensual que os  elementos estranhos, como os plásticos, levam ao desequilíbrio ambiental, uma vez que os pedaços de plástico estão a o fazer crescer outros organismos à sua volta, ou até transportar novas espécies estranhas para a zona [3][4]. 
Independentemente dos impactes ambientais, um dia, no futuro, quando escassear matéria-prima para produzir plásticos, ou simplesmente no vórtice do lixo a concentração de polímeros for tão grande que se torne viável a sua reutilização – porque a tendência é continuar a crescer -, talvez aquela seja de facto uma das maiores fontes para a obtenção de novos produtos de plástico. 

Referências Bibliográficas
[3] "Lies You’ve Been Told About the Pacific Garbage Patchhttp://io9.com/5911969/lies-youve-been-told-about-the-pacific-garbage-patch
[4] "Increased oceanic microplastic debris enhances oviposition in an endemic pelagic insect" http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/early/2012/04/26/rsbl.2012.0298.full#F1

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Poder (ou sucesso) e a Testosterona


São vários os estudos que apontam para uma relação direta entre o sucesso e a biologia. Esta relação poderia ser abordada do ponto de vista biológico visível, ou seja, de como as características físicas influenciam o sucesso ou insucesso social (ou outro) dos indivíduos. No entanto, neste texto pretende-se, ainda que de um modo quase leigo e ao nível da curiosidade, abordar o tema do sucesso e sua relação direta com as hormonas, mais concretamente com as hormonas responsáveis pela diferenciação e atividade sexual.
Sobre a Crise no Congresso do SPD - John Heartfield
Existe uma relação  direta, nos homens, entre sucesso – no sentido lato do termo (económico, em competições de toda a natureza, no ter poder, etc.) – e a testosterona [1]. Em casos de sucesso momentâneo, o organismo dos homens produz automaticamente mais testosterona, acontecendo o mesmo em sentido inverso aquando da "derrota". Assim, pode-se concluir que um homem que obtém sucesso considerável passa por uma fase de produção extra de testosterona. Como não podia deixar de ser essas hormonas irão influenciar o indivíduo em causa, e os restantes que com ele se relacionam indiretamente.
As influências hormonais são imensas, tanto física como psicologicamente. No caso da testosterona, a sua presença dita o desenvolvimento físico, a massa muscular, o vigor e também, é claro, o apetite sexual dos homens. Provavelmente a razão de ser deste facto, -comprovado com vários estudos - provém de tempos imemoriais, onde os acasalamentos se davam mais pela força do que por qualquer outra via. Os mais fortes, os líderes, seriam aqueles que teriam de ter mais capacidade de reprodução, trazendo benefícios e maior probablidade de sobrevivência à espécie. Ao fazermos a transposição para o mundo animal – sem com isso tentar que nos excluamos dele -, são os machos mais bem-sucedidos, mais fortes, mais exuberantes (ou o quer que seja valorizado na espécie em causa) que tendem a ser os principais reprodutores, e a conseguir para si o maior número de fémeas (isto apesar de haver exceções em algumas espécies, onde essa faceta de dominação é assumida pelas fémeas). Logo, é compreensível que fosse uma necessidade produzir mais testosterona quando o sucesso viesse. De tal modo, também já se comprovou que o sucesso previsto, ou aquele que pode ser induzido ou imaginado, leva igualmente à produção de maiores níveis de testosterona [2]. No fundo, podemos estar perante um ciclo extremamente útil, tão complexo como a nossa espécie, onde a dimensão psicológica - pois o sucesso pode não ser real - influência a física, e vice-versa.
No caso do sexo feminino, parte-se do princípio que o mesmo poderá ser verdade para uma eventual relação entre o sucesso e a produção de estrogénio, no entanto, na pesquisa que fiz – ainda que não tenha exaustiva – não encontrei nenhum trabalho que possa suster tal teoria, ao contrário do caso da testosterona onde os estudos são muitos. 
Tudo isto parece animalesco demais, especialmente porque hoje desenvolvemos sociedades, altamente complexas, onde estas supostas influências primordiais, perderam a utilidade (ou não).
Estas evidências e conclusões sobre as relações entre o sucesso/poder e o aumento da testosterona (e especulando também para que o caso do estrogénio a relação em causa também seja verdade) podem explicar e justificar o porquê de muitos comportamentos animais e humanos. No nosso caso, enquanto espécie que vive em sociedades complexas, e tendo em conta os tempos correntes, provavelmente está aqui a explicação e o porquê de a muitos artistas, celebridades, milionários, políticos, e outros que se considerem ter sucesso, se associarem vidas repletas de uma atividade sexual impressionante, muitas delas escandalosas perante a vida do cidadão comum.

Referências Bibliográficas:
[1] Steven J. Stanton, Oliver C. Schultheiss. “The hormonal correlates of implicit power motivation”. Journal of Research in Personality 43 (2009) 942–949. Disponível em: http://www.psych2.phil.uni-erlangen.de/~oschult/humanlab/publications/ssjrp.pdf

[2] Oliver C. Schultheiss, Kenneth L. Campbell, and David C. McClelland. “Implicit Power Motivation Moderates Men’s Testosterone Responses to Imagined and Real Dominance Success”. Article ID hbeh.1999.1542. Disponível em: http://www.psych2.phil.fau.de/~oschult/humanlab/publications/scm1999.pdf

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