sábado, 28 de julho de 2012

Filme: Shutter Island


Martin Scorsese, em mais um filme onde dá o protagonismo a Di Caprio, surpreende-nos com a tensão, quase terror, predominantemente – que é para não dizer completamente – psicológica de Shutter Island. Este tipo de filme não é muito comum, e menos ainda para o diretor em causam, especialmente tendo em conta a obra anterior. Assistir a Shutter Island é entrar num enredo de reviravoltas surpreendentes. Mas desengane-se quem pense que se trata de um filme de ação dos mais típicos e de puro entretenimento visual. A ação desta obra de Scorsese é intensa e cativante pela curiosidade que desperta, pelo desconhecido e pelas emoções e sensações que provoca, independentemente de cenas altamente produzidas visualmente. Parece-me difícil de catalogar o filme, podendo dizer-se que é um filme de ação, drama, terror, policial, desde que a cada uma destas possíveis classificações adicionarmos a palavra “psicológico”.
A trama, ao jeito policial, vai-se adensando com o decorrer do filme, o “suspense” é a regra. O final é surpreendente, apesar de várias pistas espalhadas ao longo do filme que o pudessem prever. Essas informações, inicialmente incompreensíveis, podem deixar-nos a pensar no final - a mim pelo menos deixou. Para além de uma história bem original, o modo como nos é apresentada permite diversidade nas interpretações. Muitos poderão não gostar de algumas “pontas soltas” mas, a meu ver, isso acrescenta e torna o filme mais rico, dado um papel mais ativo e interpretativo a quem vê o filme, isto apesar de estar longe de ser um filme é que a sua compreensão dependa totalmente da imaginação do espetador. 
Algumas reflexões então sobre a história propriamente dita: Afinal o que é real?, até que ponto podemos confiar no que consideramos ser real, ou que é construído?
Di Caprio excede-se na excelente interpretação, mesmo em cenas mais intensamente duras (psicologicamente). Todos os atores revelam suas qualidades, respondendo com as emoções e reações que se esperam para os eventos aos quais são sujeitos na trama. A fotografia está muito bem conseguida. A Ilha é verdadeiramente sinistra, ora calma e aprazível.
Recomendo o filme, mas recomenda também que se preparem para cenas mais pesadas, com alguma violência física e psicológica.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Maior depósito de plástico do Mundo fica no Mar?


Como sabemos, os oceanos e mares não são massas de água estáticas. Para além do que é mais visível, principalmente devido às marés (influenciadas pela gravitação lunar) e das ondas (influenciadas principalmente influenciadas pelo vento), as grandes massas de água agitam-se e movimentam-se devido às correntes marítimas (fenómeno proveniente, principalmente, das diferenças de temperaturas entre as várias zonas dessas mesmas massas de água, ou daquelas que com elas confinam). Assim, as águas marítimas e oceânicas estão em constante movimento, com correntes bem definidas que deslocam quantidades imensas de água, com forças capazes de arrastar quase tudo. Nesse tudo inclui-se muito do lixo que se deposita deliberadamente ou que indiretamente acaba por ir parar a essas grandes massas de água. No caso dos plásticos, por serem de difícil desintegração, e serem muitas vezes leves o suficiente para serem arrastados e ficarem até em suspensão, o problema do lixo oceano adquire uma nova dimensão. 
Civilização Congelada - Arman
Na maior parte dos oceanos existem zonas onde a confluência de várias correntes tende a criar zonas neutras, ou seja, zonas onde as correntes se anulam e equilibram, onde os detritos se acumulam em suspensão contínua [2]. Criam-se assim vórtices e respetivas zonas propensas de acumulação, que podem ocupar zonas imensas, maiores que estados e países – por exemplo, o vórtice de lixo do Pacífico Norte é maior que o estado do Texas (695.661,56 km2) -, onde determinados tipos de lixo se vão acumulando, especialmente os leves e quase indestrutíveis plásticos.
Apesar dos plásticos poderem ser inertes, a fauna e flora marítima desses locais de acumulação oceânica está a ser influenciada pela presença dos objetos estranhos. Muitos dos peixes, e outros animais (aves, tartarugas e mamíferos aquáticos) ingerem os plásticos, confundindo-os com alimento [1]. Ao perigo inerente ao próprio plástico, juntam-se os efeitos de outros poluentes muito mais perigosos que, pelo efeito de “esponja”, lhes aderem. Para além de ser perigoso para a vida marinha, a influências destes poluentes pode afetar indiretamente a saúde humana, uma vez que podemos estar a ingerir, por exemplo, peixes que, por sua vez, ingeriram esses produtos potencialmente perigosos. Dados da Greenpeace sugerem que por cada quilo de plâncton existem na zona do vórtice do Pacífico Norte existem 6 quilos de plástico [1]. Mas essa grande quantidade de plástico nem sempre corresponde a pedaços de grandes dimensões (a maior parte tem cerca de 1 cm ou muito menos). Têm sido reveladas fotografias falsas, especialmente na Internet, como sendo do vórtice de Lixo do Pacífico, no entanto algumas delas são de outros locais (habitualmente lagos e rios altamente poluído, próximos de locais de forte ocupação humana) [3].
No entanto alguns estudos desvalorizam, parcialmente, ou simplesmente concluem que pouco se poderá dizer quanto aos efeitos reais da ingestão de plástico pela fauna. Apesar disso não se negam os efeitos dos plásticos nesses ecossistemas. É consensual que os  elementos estranhos, como os plásticos, levam ao desequilíbrio ambiental, uma vez que os pedaços de plástico estão a o fazer crescer outros organismos à sua volta, ou até transportar novas espécies estranhas para a zona [3][4]. 
Independentemente dos impactes ambientais, um dia, no futuro, quando escassear matéria-prima para produzir plásticos, ou simplesmente no vórtice do lixo a concentração de polímeros for tão grande que se torne viável a sua reutilização – porque a tendência é continuar a crescer -, talvez aquela seja de facto uma das maiores fontes para a obtenção de novos produtos de plástico. 

Referências Bibliográficas
[3] "Lies You’ve Been Told About the Pacific Garbage Patchhttp://io9.com/5911969/lies-youve-been-told-about-the-pacific-garbage-patch
[4] "Increased oceanic microplastic debris enhances oviposition in an endemic pelagic insect" http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/early/2012/04/26/rsbl.2012.0298.full#F1

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Produtividade – Provavelmente o Maior Défice da Economia Portuguesa

O grande problema da economia portuguesa é a falta de produtividade. Recorrendo ao glossário da obra onde baseou parte substancial deste texto, Produtividade (ou PIB por trabalhador-hora): corresponde à quantidade de bens e serviços produzida num país dividida pelo conjunto de empregados e pelas horas por si trabalhadas. 
Na obra “Economia Portuguesa, as últimas décadas” Luciano Amaral faz um síntese sobre a história da economia portuguesa desde os anos 60 do século XX até ao ano de 2010 – de notar que Portugal na altura ainda não estava sob resgate financeiro da troika, embora a obra em nada fique desatualizada por isso. Para Luciano Amaral o problema central é a produtividade, baseando essa constatação na análise histórica económica
A Sesta - José Malhoa
O autor não teme polémicas, e assume-as com frontalidade – a sua visão sobre o Estado Novo é potencialmente polémica. Defende que entre os anos 60 e 74, do século passado, ocorreu o período de ouro da economia portuguesa. Isto porque a produtividade nesses anos foi crescente, superior ao crescimento dos salários/custos do trabalho, e serviu para aproximar a economia portuguesa dos países desenvolvidos. Segundo o autor existia na época disponibilidade de financiamento para a economia, devidamente auxiliada pelo próprio controlo que o Estado exercia com a Moeda e sobre um mercado interno e de exportação devidamente controlado. Não eram de diminuir também as remessas provenientes dos emigrantes que contribuíam para uma maior disponibilidade da moeda, uma maior liquidez da banca nacional. O corporativismo e o controlo Estatal, conjuntamente com horários de trabalho intermináveis, poucos ou nenhuns direitos laborais – de notar que não existia salário mínimo, poucas ou nenhumas férias e sequer nem subsídio de desemprego efetivo -, ajudam em muito a gestão empresarial. A mão-de-obra era dócil e em grande quantidade. Assim, parece que não seria muito difícil que a economia crescesse, pois isso era feito à custa do próprio trabalhador, de uma série de restrições e sujeições que nem sempre contribuíam para a melhoria da qualidade de vida da população. Aqui se prova que nem sempre há uma relação direta entre crescimento económico e crescimento da qualidade de vida, pelo menos na mesma quantidade/qualidade. Há que lembrar que, por exemplo, se a dívida pública era baixa isso se devia ao pouco investimento, comparativamente com o atual, que o Estado fazia em Saúde, Prestações Sociais e Educação, entre muitas outras.
Mas porque não temos maior ou mais produtividade? Será por lacunas ao nível humano, especialmente da especialização/educação/formação e da rigidez do mercado de trabalho português? Segundo Luciano Amaral a razão principal pode não ser nenhuma dessas, embora as admita parcialmente. Isto porque Portugal flexibilizou muito o seu mercado de trabalho, ao nível dos restantes parceiros económicos, e porque os investimentos em educação têm sido imensos, dos maiores a nível europeu. Mas como sabemos, analisar sistemas complexos, ainda para mais de sociedades complexas com infindáveis relações endógenas e exógenas, é difícil estabelecer absolutos, com causas e efeitos estanques. No entanto, as constatações e sugestões do autor devem-nos fazer refletir.
Na obra é apresentada uma outra possível razão para a falta de produtividade nacional, uma para além das que habitualmente nos são apresentadas nos meios não especializados. Essa razão será a baixa intensidade capitalística em comparação com os outros países desenvolvidos. Separa-nos dos países mais desenvolvidos muito mais a diferença entre capital físico que o capital humano. Isto pode querer dizer várias coisas: que a nossa quantidade/qualidade tecnológica (equipamentos, maquinaria, etc.) disponível, tendo em conta as horas que trabalhamos, é baixa; e/ou a produtividade do capital em Portugal é baixa. Então, a nossa baixa produtividade, pelo menos não tão alta como seria suficiente para que a economia possa suportar uma qualidade de vida generalizada mais sustentável - sem défices e endividamentos, quer públicos quer privados –, pode depender muito mais da fraca rendibilidade do próprio capital que da mão-de-obra. Provavelmente é por isso que no estrangeiro os trabalhadores portugueses são dos mais produtivos. Aqui pode-se dizer que se sentem também os efeitos do modo como se organiza o trabalho em Portugal, de como se faz a gestão de recursos e da própria produção, podendo-se estabelecer uma relação com falta de formação e especialização – teoria que talvez Luciano Amaral não subscreva. Um dado importante, e relacionado com a baixa produtividade capitalística – algo que sugeri ao autor na apresentação do Livro em Leiria –, são os hábitos de investimentos que se fazem em Portugal. Podemos constatar que uma parte significativa do investimento (e dos própios emprestimos da banca a particulares), pelo menos o do pequeno investidor, se aplica no setor imobiliário, com rendibilidades muito diferentes e inferiores  ao que se poderia obter no setor da industria e dos bens transacionáveis (ver texto do blogue “Especulação Imobiliária - um mau investimento“), mas de aparente menor risco e com ganhos (aparentes) mais imediatos (especialmente se se associarem à especulação imobiliária).
Voltando à definição de produtividade: se trabalhamos horas a fio com pouca tecnologia seguramente que seremos pouco produtivo; se repetirmos processos redundantes, por falta de organização, seguramente que seremos pouco produtivos; se alongarmos horários de trabalho só para parecer que trabalhamos mais, seguramente que seremos pouco produtivos; se não investirmos o capital acumulado em projetos de valor acrescentado, seguramente que seremos pouco produtivos; se a mão-de-obra não estiver motivada seguramente seremos pouco produtivos... A lista poderia continuar até se acabarem os carateres...
O tema, por ser muito complexo, por se relacionar com o momento presente, por ser pluridisciplinar, poderia só por si encher todos os textos deste blogue. No entanto, fica aqui uma abordagem superficial, ainda que já muito longa, ao tema da fraca produtividade da economia nacional.

Referências Bibliográficas
Amaral, Luciano. "Economia Portuguesa, as últimas décadas". Lisboa, FFMS: 2010.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Poder (ou sucesso) e a Testosterona


São vários os estudos que apontam para uma relação direta entre o sucesso e a biologia. Esta relação poderia ser abordada do ponto de vista biológico visível, ou seja, de como as características físicas influenciam o sucesso ou insucesso social (ou outro) dos indivíduos. No entanto, neste texto pretende-se, ainda que de um modo quase leigo e ao nível da curiosidade, abordar o tema do sucesso e sua relação direta com as hormonas, mais concretamente com as hormonas responsáveis pela diferenciação e atividade sexual.
Sobre a Crise no Congresso do SPD - John Heartfield
Existe uma relação  direta, nos homens, entre sucesso – no sentido lato do termo (económico, em competições de toda a natureza, no ter poder, etc.) – e a testosterona [1]. Em casos de sucesso momentâneo, o organismo dos homens produz automaticamente mais testosterona, acontecendo o mesmo em sentido inverso aquando da "derrota". Assim, pode-se concluir que um homem que obtém sucesso considerável passa por uma fase de produção extra de testosterona. Como não podia deixar de ser essas hormonas irão influenciar o indivíduo em causa, e os restantes que com ele se relacionam indiretamente.
As influências hormonais são imensas, tanto física como psicologicamente. No caso da testosterona, a sua presença dita o desenvolvimento físico, a massa muscular, o vigor e também, é claro, o apetite sexual dos homens. Provavelmente a razão de ser deste facto, -comprovado com vários estudos - provém de tempos imemoriais, onde os acasalamentos se davam mais pela força do que por qualquer outra via. Os mais fortes, os líderes, seriam aqueles que teriam de ter mais capacidade de reprodução, trazendo benefícios e maior probablidade de sobrevivência à espécie. Ao fazermos a transposição para o mundo animal – sem com isso tentar que nos excluamos dele -, são os machos mais bem-sucedidos, mais fortes, mais exuberantes (ou o quer que seja valorizado na espécie em causa) que tendem a ser os principais reprodutores, e a conseguir para si o maior número de fémeas (isto apesar de haver exceções em algumas espécies, onde essa faceta de dominação é assumida pelas fémeas). Logo, é compreensível que fosse uma necessidade produzir mais testosterona quando o sucesso viesse. De tal modo, também já se comprovou que o sucesso previsto, ou aquele que pode ser induzido ou imaginado, leva igualmente à produção de maiores níveis de testosterona [2]. No fundo, podemos estar perante um ciclo extremamente útil, tão complexo como a nossa espécie, onde a dimensão psicológica - pois o sucesso pode não ser real - influência a física, e vice-versa.
No caso do sexo feminino, parte-se do princípio que o mesmo poderá ser verdade para uma eventual relação entre o sucesso e a produção de estrogénio, no entanto, na pesquisa que fiz – ainda que não tenha exaustiva – não encontrei nenhum trabalho que possa suster tal teoria, ao contrário do caso da testosterona onde os estudos são muitos. 
Tudo isto parece animalesco demais, especialmente porque hoje desenvolvemos sociedades, altamente complexas, onde estas supostas influências primordiais, perderam a utilidade (ou não).
Estas evidências e conclusões sobre as relações entre o sucesso/poder e o aumento da testosterona (e especulando também para que o caso do estrogénio a relação em causa também seja verdade) podem explicar e justificar o porquê de muitos comportamentos animais e humanos. No nosso caso, enquanto espécie que vive em sociedades complexas, e tendo em conta os tempos correntes, provavelmente está aqui a explicação e o porquê de a muitos artistas, celebridades, milionários, políticos, e outros que se considerem ter sucesso, se associarem vidas repletas de uma atividade sexual impressionante, muitas delas escandalosas perante a vida do cidadão comum.

Referências Bibliográficas:
[1] Steven J. Stanton, Oliver C. Schultheiss. “The hormonal correlates of implicit power motivation”. Journal of Research in Personality 43 (2009) 942–949. Disponível em: http://www.psych2.phil.uni-erlangen.de/~oschult/humanlab/publications/ssjrp.pdf

[2] Oliver C. Schultheiss, Kenneth L. Campbell, and David C. McClelland. “Implicit Power Motivation Moderates Men’s Testosterone Responses to Imagined and Real Dominance Success”. Article ID hbeh.1999.1542. Disponível em: http://www.psych2.phil.fau.de/~oschult/humanlab/publications/scm1999.pdf

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Como as Despesas de Guerra Medievais deram Poder aos Parlamentos


O caso paradigmático de “Parlamento” mais conhecido foi o que emanou da monarquia medieval Inglesa, até porque foi provavelmente – se não mesmo com toda a certeza – o primeiro a funcionar regularmente. Não confundir funcionamento de parlamentos com cortes medievais, pois são substancialmente diferentes, pois nos “parlamentos” o Povo tem representação garantida, enquanto que as primeiras cortes tenderam a ser reuniões consultivas do governante com o clero e a nobreza. Consta que as primeiras cortes alargadas começaram a ser reunidas na Flandres – os países baixos - em 1127, mas no final do século XII já aconteciam também nos reinos peninsulares, especialmente no reino de Leão – de onde se emancipou Portugal. 
Parlamento Inglês com Eduardo (I ou III) - autor e data desconhecida
Curiosamente, e por mais paradoxal que possa parecer, a necessidade de consulta à sociedade da época, por parte dos governantes medievais, aconteceu em plena época feudal. Então porque precisavam os supostos “todos poderosos” medievais de ouvir e seguir opiniões dos seus súbditos? Bem, não parece que se pudessem considerar os líderes medievais como aficionados dos modelos democráticos, até porque dificilmente os conheceriam ou sequer compreenderiam – admito aqui a pura especulação, mais ou menos preconceituosa. A explicação passa mais pela necessidade e não tanto pela vontade. 
O sistema feudal, ou relações feudais, definia muito concretamente quais as obrigações e direitos entre senhores e vassalos. Antes da Baixa Idade Média os soberanos dependiam, grande parte, diretamente dos seus vassalos – o Estado estava longe de ser uma realidade. Como o clima era de guerra constante, com cada vez mais especialização, os custos militares ultrapassavam muitas das vezes aquilo a que as obrigações feudais exigiam. Assim, o soberano via-se obrigado a consultar e pedir autorização aos seus vassalos e súbditos para lançar impostos adicionais
Esta obrigatoriedade de consulta e aprovação às cortes ou parlamentos, que funcionavam por representação especialmente para os elementos do Povo, fizeram com que essas instituições consultivas fossem ganhando cada vez mais importância. Foi na Inglaterra que o parlamentarismo ganhou mais importância política, tendo posteriormente (já na época moderna) ficado com a maior parte do poder. Isto porque, à custa da aprovação de novos impostos, o parlamento inglês foi reservando para si o poder legislativo.
Assim, foi a guerra, a necessidade de financiar as guerras dos monarcas medievais, que deu poder às cortes, e posteriormente aos parlamentos, tendo indiretamente contribuído para o desenvolvimento das democracias ocidentais.

Referências Bibliográficas:
"A Evolução do Mundo Medieval". David Nicholas, Publicações Europa-América, 1999

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Gordura é Formosura: A Mudança dos Modelos de Beleza na actualidade?

ezaEstava eu muito bem a fazer um raro zapping e deparo-me, quando passava por um dos canais de música, com uma figura feminina algo estranha. A sua estranheza não se devia tanto a adereços, ao guarda-roupa ou maquilhagens, mas mais com as suas formas, com o seu corpo quase desenquadrado naquele meio televisivo. Curiosamente, a dita cantora, no seu videoclip "Starship", exprimia e fazia por salientar as suas já acentuadas formas como arma de sedução. Falo de Nicki Minaj, uma cantora de aparência pouco habitual, segundo os padrões de beleza actuais que tendem a privilegiar outro tipo de formas mais leves, segundo aquilo que se tem considerado mais "vendável" no mundo dos videoclips musicais.  
Não consta que a cantora em causa se destaque especialmente pela sua qualidade vocal única, nada, por exemplo, como o caso da voz de Adle, talento que lhe permitiu atingir fama mundial, independentemente das suas qualidades físicas para vidoclips sexualmente cativantes. A comparação entre Adele e Minaj pode ser desproporcionada, até porque os estilos musicais em causa, e o tipo de videoclips, são quase antagónicos, mas a ideia aqui deste texto é abordar as formas, os modelos de beleza e o marketing associado ao mundo da música. 
Claramente Nicki Minaj faz do seu corpo uma poderosa arma de marketing para vender a sua música - isto não desconsiderando na qualidade da música em causa, do ritmo e outras propriedades decorrentes do próprio tipo de música. Ela simplesmente recorre a essas armas, tão legitimas como outras quaisquer, à semelhança do que muitos outros artistas enquanto soldados nas guerras pela popularidade e pelo ascender ao "estrelato POP".
Benefits supervisor sleeping - Lucian Freud
Não vou salientar nenhum estudo, obra ou sequer tentar fazer aqui alguma demonstração ou evidenciar uma qualquer clarividência. Mas, este pormenor que me chamou a atenção no sensual videoclip da Minaj levou-me a questionar os nossos padrões contemporâneos de beleza. Será que os padrões de beleza estão novamente a mudar? Depois de algumas décadas em que reinavam a beleza magra, voltaremos a ter deusas roliças? Quem sabe. Ou então, simplesmente o paradigma pode estar a mudar num sentido diferente: não definindo modelos regidos a seguir, mas permitindo uma nova variedade de beleza muito variada, e muito mais democrática.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Guerra dos Tronos - Fantasia Medieval para Adultos

A Guerra dos Tronos” ou “ O Jogo dos Tronos” – na tradução direta do inglês – é uma das mais cotadas séries televisivas da atualidade (ver no IMDB). Os 10 livros que compõem as “As crónicas do Gelo e do Fogo” foram adaptadas para televisão pela HBO e o resultado foi, no mínimo, positivo e original. Depois do sucesso de “Roma”  (ver no IMDB) esta é mais uma grande série épica. No entanto, essa anterior grande realização seja, em alguns aspetos, substancialmente diferente: "Roma" baseiam-se em História factual, produzida com especial atenção ao rigor histórico, ainda que seja uma adaptação romanceada, podendo ser quase vista como um documentário (ou não tivesse o envolvimento também da BBC).
Mas a “A Guerra dos Tronos” é uma ficção. George. R. R. Martin, o autor, admite a influência de clássicos da literatura associada ao “fantástico medieval”, especialmente da monumental obra que é “O Senhor dos Anéis”. Apesar de não ser uma obra Histórica, o universo fantástico medieval criado por Martin para a sua grande história revela sólidos conhecimentos do passado factual. São muito evidentes na terra de Westeros – área geográfica, tipo continente, onde se passa a maior parte da história - as influências da Europa Medieval: das relações feudais, da monarquia absoluta, as lides da guerra, da política e tramas palacianas, dos códigos de cavalaria e comportamentos de classe, do campesinato e suas ligações à terra, etc. São também notórias as inspirações bebidas diretamente da mitologia nórdica e germânica, entre muitas outras, no mundo fantasioso de “A Guerra dos Tronos”. George. R. R. Martin conseguiu criar uma fantasia encorpada por um enredo elaborado – aliás, muito elaborado – de relações entre personagens, bem trabalhadas, e uma política altamente complexa, que se concretiza no desenrolar da história e se vai aprofundando com o emaranhado da intriga e as correrias de uma infindável panóplia de personagens.
O autor criou uma “fantasia medievalescapara adultos, evitando alguns lugares comuns e um Excessivo apego a uma personagem principal (ou grupo restrito) que normalmente costuma assumir o papel de herói (ou heróis), até porque nesta série eu diria que, tal como na vida real, não existem heróis, pelo menos pelos padrões habituais no género. Em “A Guerra dos Tronos” as personagem são humanas, acima de tudo. Mesmo aquelas que mais poderiam tender para o modelo heroico são retratadas com defeitos, e o tratamento de supremacia não é absoluto e linear, e muitas vezes fica muito longe de ser justo. Martin cria um mundo ficcional fantástico realista, muito pouco habitual para o género, e até para qualquer criação televisiva ou cinematográfica de géneros ditos mais correntes. As personagens vão-se moldando com o desenrolar dos acontecimentos, vão demonstrando o seu carácter, vão ficando mais complexas. Muitas vão morrendo, muitas são injustiçadas, algumas criam percursos de sucesso e afirmação, mas a tragédia é o pano fundo. As alterações podem ser repentinas. Por vezes, enquanto espectadores ou leitores, não estamos preparados para as mudanças, e menos ainda para as mortes.
Um especto muito importante da série é a fidedignidade dos diálogos e da série para com a história contida nos livros. Isso tem sido garantido pelo envolvimento na escrita dos guiões, produção e realização do Próprio George R. R. Martin.
Pessoalmente – como já se notou - sou um apreciador deste tipo de criações, mas a popularidade de “A Guerra dos Tronos” é tão grande e incontornável que merece ser analisada. Tal só pode significar qualidade, com ose explicaria, que mesmo aquelas e aqueles que não seja particularmente apreciadores do género fiquem rendidos a esta magistral obra, quer seja em livro ou em série televisiva?
Também existe uma versão de “A Guerra dos Tronos” em formato de jogo de tabuleiro. Aliás existem duas, com a 2ª edição a conseguir ascender aos melhores jogos do género, segundo os aficionados desse tipo de jogos. Por outro lado, a versão realizada para jogos computador no género estratégia (versão génesis), segundo as críticas, não faz jus à obra original, chegando mesmo a ser medíocre. Aí, provavelmente o autor não se preocupou, ou foi chamado, a guiar a adaptação tal como o fez na série televisiva.
Em jeito de resumo, “A Guerra dos Tronos” é já uma das mais importantes e incontornáveis obras televisivas deste novo milénio.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Arte Dramática – Uma terapia Psicológica Social

Podemos ver nas criações artísticas muitas utilidades e funções, podemos aprecia-las por muitos e diversos pontos de vista, ou não fosse a Arte uma conceção, no mínimo, subjetiva. Pode-se dizer, de um modo muito simplificado, que há considere mais a Arte pela dimensão simbólica e quem a veja mais pelo valor estético da criação em causa. Para outros ainda pode ser na conjugação do simbolismo com a estética, numa fusão e equilíbrio próprio, que se atinge verdadeiramente o ideal de Arte – pessoalmente fico-me mais por esta visão. Provavelmentehaverá ainda quem considere outras coisas sobre Arte, e até questione o que é afinal uma obra de arte. A discussão seria interminável.
Manhã - Munch
Sem querer entrar nas discussões em torno do que é uma obra de arte – assunto que merece um outro texto dedicado ao assunto – opto por conduzir estas palavras para escolher outra via. Pretende-se aqui analisar e refletir, especificando e setorizando, sobre o potencial terapêutico da Arte Dramatica/tragica, não excluindo todas as demais possíveis “utilidades” de uma obra de arte que se remeta para essa categora (ou categorias).
Qualquer Arte pode ser vista como uma expressão de sentimentos, ideias, e afins. Algumas criações são consideradas dramáticas ou trágicas – independentemente de estarem ou não associadas à atuação, ao teatro e ao cinema -, potenciando emoções negativas. Algumas dessas transmitem medo, ódio, aversão, repulsa entre um sem fim de sentimentos pouco positivos. No entanto, essa opção pela arte dramática pode ter efeitos positivos e ser bastante útil por isso mesmo. Este tipo de Arte pode ser paradoxal!
Segundo Nelson Goodman, em “A Linguagem da Arte”, essa utilidade e potencial terapêutico deve-se ao seguinte: "a tragédia tem efeito de nos libertar de emoções negativas reprimidas e escondida, ou de nos administrar doses calculadas do vírus morto para prevenir ou mitigar a devastação de um ataque real. A arte torna-se não apenas paliativo, mas também terapia, fornecendo um substituto da realidade boa e uma salvaguarda contra a realidade má".
São várias as criações artísticas que  ajudam acomprovar estas palavras de Goodman. Veja-se a intemporalidade e persistência dos temas das grandes tragédias Gregas ao longo de toda a cultura Ocidental. Sabemos que esses temas trágicos fascinam, mas serão assim porque, nem que seja inconscientemente, têm os seus efeitos positivos nos individuos. Desde então esses modelos foram copiados e replicados, como forma de dar conteúdos à arte e, mesmo que não fosse objetivo último, fazer alguma terapia psicológica – individual ou coletiva.
Isto faz-me lembrar um exemplo, corriqueiro e bem próximo do cidadão comum, especialmente por terras além-mar, no Brasil, mas que se sente também por Portugal, quer nas criações nacionais ou importadas. Grande parte das telenovelas têm esse efeito terapêutico sobre as "grandes massas", com as tragédias ficcionais a entrarem no quotidiano popular e, durante um curto período de tempo, a dosear as agruras do dia-a-dia, ajudando a preparar para os dramas incontornáveis da vida real. Este é mesmo apenas um exemplo, cada país ou cultura terá a sua própria realidade no administrar doses terápêuticas da tragédia, ainda que umas possam ser consideradas mais "artísticas" que outras.

Fonte Bibliográfica: Goodman, Nelson. "Linguagens da Arte - Uma Abordagem a Uma Teoria dos Símbolos". Lisboa: Gradiva, 2006.

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