sexta-feira, 29 de junho de 2012

Gordura é Formosura: A Mudança dos Modelos de Beleza na actualidade?

ezaEstava eu muito bem a fazer um raro zapping e deparo-me, quando passava por um dos canais de música, com uma figura feminina algo estranha. A sua estranheza não se devia tanto a adereços, ao guarda-roupa ou maquilhagens, mas mais com as suas formas, com o seu corpo quase desenquadrado naquele meio televisivo. Curiosamente, a dita cantora, no seu videoclip "Starship", exprimia e fazia por salientar as suas já acentuadas formas como arma de sedução. Falo de Nicki Minaj, uma cantora de aparência pouco habitual, segundo os padrões de beleza actuais que tendem a privilegiar outro tipo de formas mais leves, segundo aquilo que se tem considerado mais "vendável" no mundo dos videoclips musicais.  
Não consta que a cantora em causa se destaque especialmente pela sua qualidade vocal única, nada, por exemplo, como o caso da voz de Adle, talento que lhe permitiu atingir fama mundial, independentemente das suas qualidades físicas para vidoclips sexualmente cativantes. A comparação entre Adele e Minaj pode ser desproporcionada, até porque os estilos musicais em causa, e o tipo de videoclips, são quase antagónicos, mas a ideia aqui deste texto é abordar as formas, os modelos de beleza e o marketing associado ao mundo da música. 
Claramente Nicki Minaj faz do seu corpo uma poderosa arma de marketing para vender a sua música - isto não desconsiderando na qualidade da música em causa, do ritmo e outras propriedades decorrentes do próprio tipo de música. Ela simplesmente recorre a essas armas, tão legitimas como outras quaisquer, à semelhança do que muitos outros artistas enquanto soldados nas guerras pela popularidade e pelo ascender ao "estrelato POP".
Benefits supervisor sleeping - Lucian Freud
Não vou salientar nenhum estudo, obra ou sequer tentar fazer aqui alguma demonstração ou evidenciar uma qualquer clarividência. Mas, este pormenor que me chamou a atenção no sensual videoclip da Minaj levou-me a questionar os nossos padrões contemporâneos de beleza. Será que os padrões de beleza estão novamente a mudar? Depois de algumas décadas em que reinavam a beleza magra, voltaremos a ter deusas roliças? Quem sabe. Ou então, simplesmente o paradigma pode estar a mudar num sentido diferente: não definindo modelos regidos a seguir, mas permitindo uma nova variedade de beleza muito variada, e muito mais democrática.

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Guerra dos Tronos - Fantasia Medieval para Adultos

A Guerra dos Tronos” ou “ O Jogo dos Tronos” – na tradução direta do inglês – é uma das mais cotadas séries televisivas da atualidade (ver no IMDB). Os 10 livros que compõem as “As crónicas do Gelo e do Fogo” foram adaptadas para televisão pela HBO e o resultado foi, no mínimo, positivo e original. Depois do sucesso de “Roma”  (ver no IMDB) esta é mais uma grande série épica. No entanto, essa anterior grande realização seja, em alguns aspetos, substancialmente diferente: "Roma" baseiam-se em História factual, produzida com especial atenção ao rigor histórico, ainda que seja uma adaptação romanceada, podendo ser quase vista como um documentário (ou não tivesse o envolvimento também da BBC).
Mas a “A Guerra dos Tronos” é uma ficção. George. R. R. Martin, o autor, admite a influência de clássicos da literatura associada ao “fantástico medieval”, especialmente da monumental obra que é “O Senhor dos Anéis”. Apesar de não ser uma obra Histórica, o universo fantástico medieval criado por Martin para a sua grande história revela sólidos conhecimentos do passado factual. São muito evidentes na terra de Westeros – área geográfica, tipo continente, onde se passa a maior parte da história - as influências da Europa Medieval: das relações feudais, da monarquia absoluta, as lides da guerra, da política e tramas palacianas, dos códigos de cavalaria e comportamentos de classe, do campesinato e suas ligações à terra, etc. São também notórias as inspirações bebidas diretamente da mitologia nórdica e germânica, entre muitas outras, no mundo fantasioso de “A Guerra dos Tronos”. George. R. R. Martin conseguiu criar uma fantasia encorpada por um enredo elaborado – aliás, muito elaborado – de relações entre personagens, bem trabalhadas, e uma política altamente complexa, que se concretiza no desenrolar da história e se vai aprofundando com o emaranhado da intriga e as correrias de uma infindável panóplia de personagens.
O autor criou uma “fantasia medievalescapara adultos, evitando alguns lugares comuns e um Excessivo apego a uma personagem principal (ou grupo restrito) que normalmente costuma assumir o papel de herói (ou heróis), até porque nesta série eu diria que, tal como na vida real, não existem heróis, pelo menos pelos padrões habituais no género. Em “A Guerra dos Tronos” as personagem são humanas, acima de tudo. Mesmo aquelas que mais poderiam tender para o modelo heroico são retratadas com defeitos, e o tratamento de supremacia não é absoluto e linear, e muitas vezes fica muito longe de ser justo. Martin cria um mundo ficcional fantástico realista, muito pouco habitual para o género, e até para qualquer criação televisiva ou cinematográfica de géneros ditos mais correntes. As personagens vão-se moldando com o desenrolar dos acontecimentos, vão demonstrando o seu carácter, vão ficando mais complexas. Muitas vão morrendo, muitas são injustiçadas, algumas criam percursos de sucesso e afirmação, mas a tragédia é o pano fundo. As alterações podem ser repentinas. Por vezes, enquanto espectadores ou leitores, não estamos preparados para as mudanças, e menos ainda para as mortes.
Um especto muito importante da série é a fidedignidade dos diálogos e da série para com a história contida nos livros. Isso tem sido garantido pelo envolvimento na escrita dos guiões, produção e realização do Próprio George R. R. Martin.
Pessoalmente – como já se notou - sou um apreciador deste tipo de criações, mas a popularidade de “A Guerra dos Tronos” é tão grande e incontornável que merece ser analisada. Tal só pode significar qualidade, com ose explicaria, que mesmo aquelas e aqueles que não seja particularmente apreciadores do género fiquem rendidos a esta magistral obra, quer seja em livro ou em série televisiva?
Também existe uma versão de “A Guerra dos Tronos” em formato de jogo de tabuleiro. Aliás existem duas, com a 2ª edição a conseguir ascender aos melhores jogos do género, segundo os aficionados desse tipo de jogos. Por outro lado, a versão realizada para jogos computador no género estratégia (versão génesis), segundo as críticas, não faz jus à obra original, chegando mesmo a ser medíocre. Aí, provavelmente o autor não se preocupou, ou foi chamado, a guiar a adaptação tal como o fez na série televisiva.
Em jeito de resumo, “A Guerra dos Tronos” é já uma das mais importantes e incontornáveis obras televisivas deste novo milénio.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Arte Dramática – Uma terapia Psicológica Social

Podemos ver nas criações artísticas muitas utilidades e funções, podemos aprecia-las por muitos e diversos pontos de vista, ou não fosse a Arte uma conceção, no mínimo, subjetiva. Pode-se dizer, de um modo muito simplificado, que há considere mais a Arte pela dimensão simbólica e quem a veja mais pelo valor estético da criação em causa. Para outros ainda pode ser na conjugação do simbolismo com a estética, numa fusão e equilíbrio próprio, que se atinge verdadeiramente o ideal de Arte – pessoalmente fico-me mais por esta visão. Provavelmentehaverá ainda quem considere outras coisas sobre Arte, e até questione o que é afinal uma obra de arte. A discussão seria interminável.
Manhã - Munch
Sem querer entrar nas discussões em torno do que é uma obra de arte – assunto que merece um outro texto dedicado ao assunto – opto por conduzir estas palavras para escolher outra via. Pretende-se aqui analisar e refletir, especificando e setorizando, sobre o potencial terapêutico da Arte Dramatica/tragica, não excluindo todas as demais possíveis “utilidades” de uma obra de arte que se remeta para essa categora (ou categorias).
Qualquer Arte pode ser vista como uma expressão de sentimentos, ideias, e afins. Algumas criações são consideradas dramáticas ou trágicas – independentemente de estarem ou não associadas à atuação, ao teatro e ao cinema -, potenciando emoções negativas. Algumas dessas transmitem medo, ódio, aversão, repulsa entre um sem fim de sentimentos pouco positivos. No entanto, essa opção pela arte dramática pode ter efeitos positivos e ser bastante útil por isso mesmo. Este tipo de Arte pode ser paradoxal!
Segundo Nelson Goodman, em “A Linguagem da Arte”, essa utilidade e potencial terapêutico deve-se ao seguinte: "a tragédia tem efeito de nos libertar de emoções negativas reprimidas e escondida, ou de nos administrar doses calculadas do vírus morto para prevenir ou mitigar a devastação de um ataque real. A arte torna-se não apenas paliativo, mas também terapia, fornecendo um substituto da realidade boa e uma salvaguarda contra a realidade má".
São várias as criações artísticas que  ajudam acomprovar estas palavras de Goodman. Veja-se a intemporalidade e persistência dos temas das grandes tragédias Gregas ao longo de toda a cultura Ocidental. Sabemos que esses temas trágicos fascinam, mas serão assim porque, nem que seja inconscientemente, têm os seus efeitos positivos nos individuos. Desde então esses modelos foram copiados e replicados, como forma de dar conteúdos à arte e, mesmo que não fosse objetivo último, fazer alguma terapia psicológica – individual ou coletiva.
Isto faz-me lembrar um exemplo, corriqueiro e bem próximo do cidadão comum, especialmente por terras além-mar, no Brasil, mas que se sente também por Portugal, quer nas criações nacionais ou importadas. Grande parte das telenovelas têm esse efeito terapêutico sobre as "grandes massas", com as tragédias ficcionais a entrarem no quotidiano popular e, durante um curto período de tempo, a dosear as agruras do dia-a-dia, ajudando a preparar para os dramas incontornáveis da vida real. Este é mesmo apenas um exemplo, cada país ou cultura terá a sua própria realidade no administrar doses terápêuticas da tragédia, ainda que umas possam ser consideradas mais "artísticas" que outras.

Fonte Bibliográfica: Goodman, Nelson. "Linguagens da Arte - Uma Abordagem a Uma Teoria dos Símbolos". Lisboa: Gradiva, 2006.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

As adaptações dos rituais cristãos – A adaptação de toda a construção humana


Poucas construções humanas são imutáveis, ainda mais aquelas que não têm a substância da ocupação de um espaço físico. Se mesmo um edifício, monumento ou construção física, com o passar dos anos, se vai degradando, rearranjado, reabilitando, mudando os usos e os fins, e até ficando completamente transfigurado, que dizer de todas as construções humanas não físicas que ainda estão mais sujeitas às mudanças culturais, sociais, psicologias e outras mais influências metafísicas?
O Sacrifício de Isaac - Caravaggio
Tal inevitabilidade pode ser vista como progresso ou degeneração. Tais mudanças, e desenvolvimentos divergentes perante as próprias origens, em movimentos originais ou de fusão e influência do já existente, são bem evidentes nas religiões. Pensando no caso do cristianismo existe nessa mesma religião ambos os exemplos. Se o cristianismo foi revolucionário no seu universalismo, na igualdade doutrinária que se associa à igualdade de todos os homens perante Deus, já no que toca aos ritos e rituais foi muito pouco original.  Segundo David Nicholas, importante historiador norte-americano, na obra “A Evolução do Mundo Medieval”, o cristianismo pediu emprestado a outras religiões muitos dos seus rituais. Por exemplo: os cristãos começaram a celebrar o nascimento de Jesus por volta do Festival de Saturno; A Páscoa Cristã era calculada segundo o equinócio da Primavera, associada ao Festival do Sol, mas também acontecia em simultâneo com a Páscoa Judaica; A forma da cerimónia do batismo foi retirada do culto de Mitra (que fora batizado com sangue de touro); Mesmo o conceito polémico da transubstanciação tem semelhanças com outros cultos religiosos. Para além destas, muitas mais influências exteriores teve, quer no clero, quer na arquitetura religiosa, quer em muitos outros aspetos.
O autor diz ainda que muitos dos rituais foram deliberadamente adotados para que os romanos, e os povos que viviam no seio do seu império, não os achassem tão estranhos. Ter só um deus era estranho, não o representar mais estranho era, e não ter rituais era simplesmente incompreensível para a mentalidade religiosa da época. 
Ainda hoje várias religiões usam de técnicas várias para cativar novos crentes e se inserirem em comunidades que lhes podem ser estranhas. Algumas, como por exemplo os pregadores do cristianismo mais evangélico, cuidam muito do seu aspeto quando se apresentam junto das populações. O seu aspeto, linguagem e abordagem é pensada e trabalhada para causar o máximo de simpatia – isto sem qualquer juízo de valor sobre a sinceridade de tais condutas. Tal opção não é de estranhar, até porque noutras atividades, especialmente nas mais comerciais, a opção é mais ou menos a mesma: a marca, a personalidade, a ideia, o valor, o conceito adapta-se, quase sempre, ao meio
Depois há sempre quem queira, apesar de tudo, voltar às origens, mesmo que as origens sejam pouco ou nada originais, ou de tal modo diferentes do atual contemporâneo que ficariam irreconhecíveis ou outra coisa completamente diferente e contrária aos próprios princípios pelos quais encetaram tal demanda.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Aos Franceses pouco interessam os Escândalos Sexuais dos seus Políticos?


O escândalo sempre foi algo muito apetecível como tema de controvérsia, quer as pequenas fofocas entre amigos, conhecidos ou vizinhos ou até aquelas relacionadas com as grandes figuras públicas. Dos vários tipos de escândalos, os de conduta sexual estão estre os mais sensacionalistas, e, no caso das figuras públicas ou de proa da sociedade, esse potencial de interesse parece subir ainda mais. Uma razão sociológica evidente relaciona-se com a procura, pelas massas, daquelas características mundanas naquelas personalidades que lhes são, por vezes, apresentadas como arquétipos de perfeição, e modelos a seguir e sinónimos de sucesso. 
Infinidade de maquinas de escrever e infinidade de macacos, e infinidade de tempo = Hamlet - Arman

Mas essa importância pelo escândalo associado às elites não se verifica em todos as sociedades, umas valorizam mais esta procura pelo escândalo privado que outras. Por exemplo, nisto, Inglaterra e França são muito diferentes, especialmente no que toca à vida dos seus políticos/líderes. São os próprios jornalistas franceses a admitir que a vida privada e os escândalos dos seus políticos não interessam à população – alguns jornalistas, em recente reportagem do magazine “Capital” do canal francês M6, referiram vários casos de escândalos abafados e não divulgados por não interessarem ao público francês, um exemplo foi o caso da segunda família de François Mitterrand, que nunca foi revelada durante os anos da sua presidência*. 
Curioso? Sim, de facto. Que quererá isto significar do ponto de vista sociológico e cívico? Um nível superior de cidadania política? Mais respeito pelas pessoas enquanto representantes das pessoas? Uma ilusão e estado que se pretende manter, independentemente da verdade? Bem. Talvez, talvez sim, talvez não. 

sábado, 12 de maio de 2012

Curiosidades sociais sobre canhões em cidades do Sul de França


Fruto de algumas viagens, e recolher de informações em diversos locais por onde fui passando, lembro duas curiosidades sobre canhões em duas das maiores cidades do Sul de França. Ambas as “estórias”, apesar de o elemento relacional serem os canhões de fortalezas existentes nas cidades em causa, denotam elementos contraditórios sociais, para não dizer o antagonismo entre classes sociais
Os canhões destas estórias são os das cidades de Marselha e Nice, ambos pertencentes a fortalezas que defenderam, durante muitos anos, os portos e as próprias cidades. Hoje os canhões já não cumprem as suas funções. Em Nice quase nada existe da fortaleza,  e seus canhões, sob um jardim e miradouro – uma ruina que até assenta muito bem na cidade. Das fortalezas, ainda bem conservadas que protegem o Porto Antigo de Marselha, também já não se avistam canhões, ficaram apenas as aberturas de onde anteriormente espreitavam. Mas vamos às curiosidades propriamente ditas, vamos às "estórias".
Entrada do Porto de Marselha - Claude Joseph Vernet
Consta que no século XIX, na altura em que Nice era uma colónia balnear muito importante e muito frequentada por Ingleses – pela burguesia e nobreza inglesa, tendo a própria rainha Victória por lá andado -, um inglês teve uma ideia. Conta a lenda que, de modo a evitar que a sua esposa se esquecesse de preparar o almoço a horas – mais um reforçar da ideia da grande pontualidade dos ingleses -, o tal inglês mandava disparar, exatamente às 12h00, do alto do monte do antigo forte (mesmo junto ao porto), um dos canhões. Hoje, todos os dias pelas 12h00, continua a ouvir-se o ecoar do som do canhão em Nice, embora tal seja assegurado por um moderno sistema de som de grande potência. O canhão já não se dispara, mas para os distraídos turistas, o susto, provavelmente, é o mesmo.
Já em Marselha, diz a história – desta vez com “h” - que os canhões, dispostos nos vários fortes e complexos defensivos, apontavam em duas direções distintas - no sentido figurado. Os canhões, como em todas as fortalezas do género, apontavam para os pontos estratégicos a defender, aqui especialmente para a entrada do porto, que era a grande riqueza deste que foi um dos maiores portos da Europa. No entanto, consta também que os canhões dos fortes apontavam, em simultâneo, para a própria cidade, especialmente para os bairros mais populares. A razão de ser disto deveu-se ao grande historial de revoltas que foram acontecendo por Marselha ao longo da história, especialmente no século XVIII e XIX. Não é por acaso que o hino de França, adotado depois da revolução francesa, se chame “A Marselhesa”. 
Muitas leituras se poderão fazer destas duas histórias/estórias sobre tão particulares canhões. Mas, é evidente que existe aqui uma relação dicotómica e até luta entre classe: enquanto em Nice o canhão servia os caprichos dos mais abastados, em Marselha oprimia dos menos afortunados. As armas sempre tiveram essa particularidade: a de servirem para benefício de quem as dispunha...

Nota: qualquer roteiro turístico contará estas mesmas histórias, e também os autóctones de ambas as cidades. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Textos mais visitados do mês - Abril de 2012

Filme: Bamboozled

Guardei este filme durante muito tempo na prateleira antes de o ver, cerca de 2 anos para ser exacto. Guardei por saber que se tratava de uma polémica e profunda obra de Spike Lee. Neste filme, de comédia burlesca, comédia negra e drama, faz-se também intervenção racial - não se esperaria outra coisa num filme de Spike Lee.
O filme em causa parece desarranjado. O modo como foi filmado e produzido faz lembrar o género documental ou reportagem, mas depois a velocidade das cenas tendem a fazer salientar a comicidade das imagens em movimento.
As personagens mudam ao longo do filme, de sábios passam a tolos, de avisados a desprevenidos, e vice-versa, numa manipulada inconsistência. Sim, é mesmo um filme estranho!
Diria que é um bom filme, apesar (ou por ser, para algumas opiniões), estranho. Mesmo a própria moral da história - pois aqui parece-me evidente que há uma deliberada mensagem moralizante associada ao filme - é destruturada. Por vezes as prestações dos actores parecem medíocres, mas tal pode ter sido também manipulação com vista ao burlesco, pois certas cenas são de excelente interpretação.
Toda a estranheza - e usei esta palavra e suas derivações várias vezes - do filme, a minha opinião, tem um grande objectivo de fundo: desmontar preconceitos!, desmontar que algo pré-construído ao nível dos valores e juízos pode ser um grande erro!  Não são só preconceitos raciais sobre Afro-Americanos que o filme aborda, mas todo o tipo de preconceitos, em ambos os sentidos, e até outros sociais que não dependem de questões raciais. Fica a sugestão deste estranho filme, algo a ver para reflectir!

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