domingo, 20 de novembro de 2011

Porque "fumam mal" hoje as chaminés?

Sempre que começa o Inverno, ou por vezes até o Outono, começam-se a acender em muitos dos lares portugueses lareiras. Por essa altura é comum também surgirem conversas, mais ou menos informais sobre essas mesmas lareiras, sedo já uma constatação habitual a noção generalizada de que: as lareiras de antigamente fumavam melhor, hoje constrói-se cada vez pior!”. Nada poderia ser mais falso!
Tempestade de Neve - William Turner

O senso comum leva, obviamente, a associar o problema de escoamento do fumo das atuais lareiras para o exterior dos edifícios à sua própria construção – da lareiras é claro. A associação é normal, no entanto o problema não é das lareiras em si, o problema é do edifício. Mais concretamente, o problema relaciona-se com a falta de ventilação natural dos edifícios de construção contemporânea, que advém da maior estanquidade e isolamentos dos materiais e técnicas construtivas que hoje se utilizam. Ou seja, o problema do fumo surgiu depois de se resolver o problema do mau isolamento dos edifícios mais antigos. Nos edifícios de construção mais antiga, porque tinham tantas frinchas e espaços vazios por onde entrava ar vindo de fora e devido à convecção, o ar-circulava naturalmente de dentro para fora e vice-versa. O ar ao longo dos edifícios, por razões de convexão, circula: entrando ar frio do exterior e saia o mesmo ar depois de aquecido pela chaminé. Ou seja, antigamente: criava-se ventilação natural direccionada que forçava o fumo a sair pela chaminé. Este fenómeno era tanto mais acentuado quando maior fosse o vento. Esses fenómenos podem ser chamados de "efeito de chaminé".
Apesar do isolamento dos edifícios ser benéfico do ponto de vista energético, mesmo que fumem mal as chaminés, isso fará com que tenhamos menos ventilação natural e que as renovações de ar possam não ser as suficientes para dispersar alguns maus odores e até gases nocivos e perigosos para a nossa saúde que se formam dentro dos edifícios.
Curiosamente, se pretendermos que as nossas chaminés de construção recente “fumem” melhor há que instalar sistemas de ventilação mecânica ou então deixar de isolar tantos as casas. Qualquer uma das soluções traz acrescimentos de consumo energético para manter uma determinada temperatura. Resta saber se a degradação do Ambiente – associada aos crescentes consumos energéticos e emissões poluentes correspondentes - vale mais que um ambiente interior com alguns gases perigosos e o desagradável e visível fumo?

Ficam as seguintes opções:
•    Acender a lareira, passar algum frio, não isolar a casa e deixar a chaminé "fumar bem";
•   Acender a lareira, evitar o frio, isolar a casa e ficar com fumo no interior e outros gases nocivos;
•    Acender a lareira, evitar o frio, insolar a casa e gastar energia a ventilar o fumo e outros gases perigosos para fora;

•    Acender a lareira com um recuperador de calor (que custará mais dinheiro e nos "afastará mais da chama"), evitar o frio e insolar a casa, sem esquecer outros gases perigosos;
•    Não acender lareira, isolar a casa, usar outras técnicas e fontes de calor (que tendencialmente gastam mais energia) e evitar o fumo, mas alguns gases perigosos ficam sempre lá.

Bem, confuso e complexo, até porque a solução ótima obriga a uns quantos cálculos e escolhas pessoais ou dependentes dos contextos… não obstante de habitualmente ser a última opção a melhor. No fundo, interessa é mesmo isolar a casa quanto baste (por exemplo, reguladores em fachadas e caixilharias que permitem controlar a entrada de ar) para garantir alguma ventilação natura para dispersar gases nocivos.  Já a fonte de aquecimento depende, por outro lado, de quanto estamos dispostos gastar com isso. Mas uma lareira é sempre uma lareira, afetivamente e emocionalmente as sensações que liberta são outras.

Será que, pensando em todo o trabalho e questões que levanta, vale sequer iniciar uma conversa sobre como fuma uma chaminé?

Nota: para mais informações sobre ventilação natural de edifícios fica a seguinte sugestão: "Ventilação Natural de Edifícios de Habitação" da autoria de João Carlos Viegas, numa edição do LNEC de 2002.

domingo, 13 de novembro de 2011

Os primeiros "Homens" eram necrófagos?

Quando imaginamos os nossos antepassados, as primeiras espécies Homo – aquelas com nomes difíceis de decorar e a lembrar de aspeto simiesco -, e pesamos nos seus modos de subsistência vem-nos à memória, de imediato, a caça/recoleção. Mas, se nos centrarmos na aurora das primeiras espécies nossas antecessoras, quando a tecnologia que tinham e dominava eram os próprios primeiros exemplos de tecnologia, não será difícil admitir que caçar seria difícil. As espécies Homo não tinham presas, mandibulas, garras ou outras valências biológica que fizerem deles caçadores naturais, para o serem teriam de recorrer à tecnologia.
Homo Erectus - Zdenek Burian

As primeiras realizações tecnológicas – a primeira tecnologia -, sendo que tudo tem um princípio e se desenvolve inicialmente de algo simples, não passavam de pedras toscamente talhadas que poderiam ser usadas para o corte, a precursão e o raspar. Ou seja, seria muito difícil, ou até impossível, caçar com essas ferramentas. Mesmo com o melhor dos bifaces ninguém conseguiria caçar um herbívoro de médio ou grande porte, ou outro animal mais pequeno que era tendencialmente mais rápido. Há que notar que não existiam ainda lanças, arcos, flechas ou fundas que permitissem caçar à distância. Ou seja, a carne que os primeiros Homos poderiam aceder era, quase com toda a certeza, a proveniente da recoleção. Tal como recolhiam frutos, bagas e raízes das espécies vegetais recolhiam também a carne de animais feridos ou mortos. Logo, há grandes probabilidades, já para não dizer certeza, que os antepassados da espécie Humana seriam necrófagos. Só depois com o desenvolvimento tecnológico foi possível caçar de facto animais vivos.
Foi essa capacidade, de retirar o máximo sustento do meio que contribuiu para o evoluir das espécies de hominídeos, incluindo a nossa: o homo sapiens. No entanto, essa capacidade de aproveitamento, quando levada ao extremo – e os casos ao longo da nossa história (escrita e não escrita) foram muitos, veja-se por exemplo as alterações ambientais na Ilha de Páscoa e em maior escala na Austrália – tem impactos negativos na biodiversidade, no próprio ambiente e, agora, até no próprio clima. De um ponto de vista muito pessimista, poderemos dizer que a Humanidade de hoje está, em parte, a ser necrófaga, pois se continuarmos a descuidar do planeta, poderemos estar a alimentarmo-nos de um moribundo, morrendo nós com ele [o planeta terra].

Referências Bibliográficas:
  • Cardoso, João Luís. "Pré-História de Portugal". Lisboa, Universidade Aberta, 2007.
  • Solar, David e Villalba Javier. "História da Humanidade - A Pré-História". Barcelona, Editorial Oceano, 2005.

domingo, 6 de novembro de 2011

Memorial do Convento - A frase mais longa num romance

Muitos portugueses admiram Saramago por ser o nosso único prémio Nobel da literatura, uns contra vontade - pelas polémicas, personalidade e escolhas de vida -  e muitos outros genuinamente pela monumentalidade do seu trabalho. Normalmente, a primeira crítica que se arremessa contra o desaparecido autor é a sua pontuação (ou falta dela). Sem dúvida que pode ser de difícil leitura - o que até pode ser bom. Não sei se o nosso Nobel não pretendia complicar propositadamente a sua escrita. Será que queria que os Portugueses se esforçassem e dedicassem mais tempo à leitura? Pois ler uma coisa “complicada” demora forçosamente mais tempo. Será que estava a criticar-nos pelos nossos parcos hábitos de leitura e, logo, dificuldades em compreender textos um pouco mais complexos e arrojados do ponto de vista da pontuação.
Procissão da verdadeira cruz na Praça de S. Marcos - Gentile Bellini

Pegando na polémica pontuação a que Saramago recorria, queria referir aqui um excerto de uma das suas obras, que por acaso até foi a que lhe deu o prémio Nobel - Memorial do Convento. Confesso que uma frase em especial dessa obra me surpreendeu, isto porque deve ser das maiores frases escritas até hoje num romance: desenvolve-se ao longo de 7 páginas! Provavelmente isto pouco de novo tem para muitos de vós, até porque a obra passou a ser de estudo obrigatório no ensino secundário.
Voltando à longa frase que me fez escrever este texto. Na minha opinião Saramago demonstrou com esta opção e criação o seu génio. A frase em causa relata uma procissão. De início, por ser uma descrição, somos levados a ler rapidamente para chegarmos à acção, para pegarmos de novo na história das personagens. No entanto, a frase parece interminável, e à medida que avançamos mais rápido tenderemos a lê-la cada vez mais rapidamente. Esta estratégia do escritor faz com que o leitor entre numa dinâmica acelerada, ganhando todo o evento uma vivacidade frenética muito própria. Assim, à medida que sentimos o movimento de todo o aparato descrito, que serve para descrever toda uma sociedade - as suas características, as suas injustiças, hipocrisias, crenças e inocências –, entramos na visão que o autor quer transmitir do evento em causa e suas implicações. Saramago faz assim uma longa descrição, que até se torna rápida e dinâmica, numa sequência de contra-sensos e absurdos que vai salientando. 
Concordando-se ou não com a visão do autor, é magistral o modo como o faz!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"As confissões de Schmidt" - o poder de escrevermos sobre nós próprios

O filme “As confissões de Schmidt” conta a história de um homem banal, com defeitos e virtudes, numa vida igual a tantas outras onde não se destaca nada nem nenhum evento relevante;  a personagem principal nem sequer tem qualquer característica particularmente interessante. Mas é nisso mesmo que o filme ganha o seu interesse, a banalidade de uma vida comum comprova-se aqui que pode ser interessante. Para isso contribui muito o actor, a sua prestação e performance. Jack Nicholson prova, neste filme, ser um dos melhores actores norte-americanos vivo, sendo a sua presença suficiente para tornar um filme corriqueiro num bom filme.
A história, de um modo resumido, é a de um homem a viver uma fase decisiva da sua via, provavelmente a última que viverá; conta-se o episódio de um homem que passa pelo se derradeiro processo de expiação e reflexão. O filme transmite a ideia de um Schmidt que passou uma vida sem reflectir sobre si e o mundo em que viveu e vive, que só o fez quando começou, por acaso do destino, de um modo indirecto a escrever sobre si próprio
Tentando tirar daqui uma reflexão: por vezes umas palavras pessoais que provoquem um “clique” é tudo o que precisamos para reflectir sobre nos e o nosso lugar no mundo, e hoje, como as novas tecnologias da informação, isso pode passar pelo clique do teclado.

sábado, 22 de outubro de 2011

País ou Estado mais pequeno do mundo?

Numa recente conversa à mesa, discutia-se entre amigos qual o país mais pequeno do mundo. A discussão começou por centrar-me mais naquilo que distinguia um País de um Estado. Nem sempre a distinção entre estes dois conceitos é óbvia – os pratos e talheres foram nossas testemunhas -, pois o termo País pode ser utilizado para nomear um Estado ou outra Entidade Política – por exemplo federação de Estados. De um modo simplista e pragmático, País e Estado podem ser consideramos a mesma coisa, se assim forem considerados por outros países e estados - o risco de paradoxo aqui é evidente, pois caso ninguém reconhecesse outrem não existiriam Países ou Estados. Confuso (1)(2)! 
Para ser mais simples ainda, apesar dos termos poderem significar a mesma coisa, um Estado relaciona-se mais com o governo e o país com o espaço territorial (3), ou seja, Estado com a dimensão política e País com a geográfica (4). Apesar desta distinção, política e geografia aparecem muitas vezes relacionadas uma com a outra: a política (no sentido da organização e gestão de sociedades humanas) relaciona-se ou acontece para ou numa determinada geografia e a ocupação humana e exploração dos recursos partem sempre de um tipo de política, por mais simples que seja.
Estas simples explicações, ou até talvez mesmo ingénuas, servem para a introdução àquele que é o propósito deste texto: Estado ou País mais pequeno do mundo. O Estado ou país – neste caso discutível para alguns - oficial mais pequeno do mundo será o Vaticano. Mas existe um, ainda que não sendo reconhecido por outros Estados ou países, que consegue ser ainda mais pequeno que o Estado Pontífice; falo de Sealand.
Sealand situa-se no Mar do Norte mas não é uma ilha, nem sequer tem terra, rochas ou areias. Sealand é uma plataforma militar marítima construída durante a 2º Guerra Mundial como posto avançado para prever e prevenir os ataques alemães, tendo sido no final da guerra utilizada como apoio ao ataque continental do Aliados às forças nazis que ocupavam a Europa continental (5)(6). Mas é depois da guerra, e de ser abandonada pelos ingleses, que a história desta antiga plataforma – intitulada até 1966 de Rough Towers - ganha contornos de excentricidade, um tanto ou quanto burlesca.
Em 1967 a estrutura é ocupada por Roy Bates, alguns familiares e amigos. Baytes autonomeou-se príncipe, constituindo assim o principado de Seland. Desde então começou a emitir passaportes e selos de correio, criou uma constituição, um hino e uma bandeira, tendo até cunhado dólares de ouro e prata (5)(6). Esta bizarria só foi possível de manter por a plataforma hoje estar fora das águas territoriais inglesas, a umas meras 3 milhas.
Mais haverá para contar sobre sealand, mais casos caricatos: chegou a ter um golpe de estado - encetado por um alemão - e de um terrível incêndio. Até a crise financeira passou por Sealand, com o príncipe herdeiro disposto a vender o seu principado (5).
Mesmo com todos os esforços dos seus governantes, Sealand não é considerado um país ou Estado de facto, pois nenhum outro o reconheceu como tal.

Referências e Notas:
(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Estado
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Pa%C3%ADs
(3) Definição de Estado: Nação organizada politicamente. Fonte: Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Estado
(4) Definição de País: - espaço demarcado por fronteiras geográficas e dotado de soberania própria; estado; nação. Fonte Infopédia, disponível em http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/Pa%C3%ADs
(5) http://pt.wikipedia.org/wiki/Sealand
(6) http://www.sealandgov.org/

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Meia-Noite em Paris - uma epifania de filme de Woddy Allen

Soa a meia-noite e inicia-se a viagem ao passado. Quantos não olham para o que se passou na história – pelo menos a que conhecem - com nostalgia de uma época que não viveram nem conheceram, mas que atrai como desejo de escapar à realidade contemporânea. Presunções à parte, estas primeiras duas frases poderiam ser o mote e apresentação do mais recente filme de Woody Allen, falo do “Meia-Noite em Paris”.
Voltei agora do cinema e sinto ainda as sensações das imagens e sons da visão que Allen transmitiu da mítica cidade das Luzes, da cultura, da liberdade e do romance; a Paris de postal é o fundo recorrente, com a sua arquitectura, arte, cultura e alma. Allen retrata também Paris pelo modo como ele próprio vê os vários artistas que por lá passaram e mais tarde seriam os grandes nomes da arte e cultura de todos os tempos.
Quem apreciar arte não poderá ficar indiferente a este filme, pois trata-se de uma verdadeira montanha russa a percorrer montras de onde podemos conhecer os artistas e autores célebres do passado. Os planos de Paris são muito belos, a música, embora não muito gaulesas, é adequada. Os actores, à excepção do principal que parece um pouco desadaptado do papel que seria suposto desempenhar, vestem magistralmente as suas personagens (o Dali é Magistral!).
Meia-Noite em Paris é um filme bem ao estilo do autor/realizador; quando a ficção ultrapassa os limites do que poderia ser real a estranheza não se mostra e nota - em Woody Allen passar do real ao surreal e fantasioso é por vezes tão natural que nem damos por isso. O modo como mistura irrealidades com realidades, sendo que isso normalmente é apenas o contexto e ambiente para tornar a história principal mais emotiva, não nos desvia do verdadeiro enredo.
Pegando naquilo que me parece ser a história principal, eu diria que o filme, sem “estragar o filme” para quem ainda não teve o prazer de o ver, retrata algo tão simples como: a história de um escritor em crise, crise de identidade, com aventuras pelo presente e passado que culminam numa epifania transformadora.


Afinal quem não procura uma [epifania] para dar sentido à sua vida?

sábado, 1 de outubro de 2011

Terá a "Troika" vindo da Rússia?

A palavra Troika tem sido utilizada neste último ano em Portugal de forma constante, pois foi o termo adoptado pela equipa constituída pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, criada para resgatar Portugal (entre outros países) e a sua dívida estatal, adoptou um nome que soa a trio. Como a crise afecta directamente, mais do que provavelmente esperavam os portugueses inicialmente,  palavra vai-se repetindo.
Mas afinal de onde vem o termo Troika? Terá sido inventado aquando da crise das dívidas soberanas especificamente para representar a união das 3 entidades anteriormente referidas? 

Troika de Inverno - Yuri Aleksandrovich Sergeyev

Bem, parece que não. Parece que foi uma adopção de uma palavra russa. Originalmente a palavra Troika (1) em russo servia para nomear o conjunto de três cavalos a um carro (carruagem, carroça ou trenó). No fundo significa uma associação, uma composição de três entidades que se unem para algo.
 
Terá então a Troika, que tem visitado Portugal, sido constituída para “puxar”, numa relação com a palavra russa, Portugal da crise?
 
Referências: 
(1) - http://pt.wikipedia.org/wiki/Troika

domingo, 25 de setembro de 2011

Quando o Rococó era pejorativo

Rococó foi o estilo artístico dominante na maior parte da Europa do século XVIII, tendo sucedido ao estilo Barroco, ainda que se possa dizer que foi integrante do seu precursor. Até aqui nada de novo e de especial a salientar - no fundo é cultura geral. Mas interessa aprofundar um pouco mais o tema para outras reflexões. O Rococó caracterizava-se pela frivolidade, leveza de ser dos temas e dos ambientes. A pintura que se insere nesse estilo tratava temas relacionados com o amor, a "boa vida", ou certas vezes apenas a nudez embelecida. Diz-se que era um tipo de arte meramente decorativa, especialmente criada para a aristocracia e seus mundos cor-de-rosa, ainda que executada com grande talento e técnica.
O baloiço - Jean-Honoré Fragonard
O termo Rococó terá sido inventando, pouco depois da Revolução francesa, por um discípulo de Jacque-Louis David; tratava-se de uma alusão à palavra rocaile, que significava um tipo de ornamentação à base de conchas e pedras usadas habitualmente em fontes e grutas. A palavra estava carregada de ironia e desdém, tendo sido considerada um pejorativo pelos artistas do Neoclassicismo, o estilo dominante a partir dos finais do século XVIII e inícios do século XIX.
Este exemplo da história da arte permite algumas reflexões sobre a cultura e a nosso modo de organização social. Hoje a palavra Rococó pode até nem ser lá grande insulto, mesmo havendo quem a utilize como adjectivo de frivolidade. Tal como a arte, muitas das concretizações humanas passam pelo processo de novidade, aceitação e refutação; são construídas coisas novas que dão lugar a outras novas depois de um processo de desconstrução. Quantas não são as vezes em que algo tem de ser denegrido para que outra coisa nova se possa impor no antigo espaço ocupado pela sua precursora?
Dirão os moralistas que isso é negativo, pois os valores perdem-se. Mas, provavelmente, os mais progressistas dirão em sentido contrário que esse é um aspecto positivo da condição humana: a incessante procura de algo novo, de modo a que a vida possa ser melhor, isto num mundo de constantes mudanças e adversidades para o qual é preciso encontram novas respostas.
Este exemplo faz-nos pensar, entre muitas outras coisas, sobre o valor das coisas, os próprios valores e o quanto o período histórico condiciona tudo isso.

Fonte: Arte - Grande Enciclopédia, civilização editora.

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