sábado, 23 de julho de 2011

Imperativo categórico: uma visão de nós e dos outros

Volto mais uma vez - a terceira - ao livro "Platão e um Ornitorrinco entram num bar - Filosofia com Humor" para construir aqui mais um ensaio de texto, mais uma partilha pseudo-filosófica bem-humorada (ou não). 
Muitas vezes classifica-se "como sendo Filosófico" algo que de facto não o é e que apenas é melancólico ou ininteligível. Neste caso - no caso deste texto - é filosofia da pura e da dura, da séria e sistemática, ou seja, filosofia germânica, mais concretamente, filosofia Kantiana.
Bailarina - Miró
Do livro já referido, no subcapítulo "O Imperativo categórico Supremo e a Velha Regra de Ouro" Thomas Cathcart e Daniel Klein registaram mais um rasgo de genial originalidade escrita. Vemos, em curtas palavras, a relação entre o "Imperativo Categórico Supremo" ("Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal") e a "velha regra de ouro" ("Faz aos outros aquilo que queres que te façam a ti").
No fundo, o Imperativo categórico supremo de Kant não é mais que uma definição refinada da "velha regra de ouro". Podemos ver a "invenção" de Kant como a análise do que pode ter sido a génese dos princípios morais, pois nela descreve como os comportamentos dos indivíduos se podem tornar num código de conduta ou conjunto de regras sistemáticas a seguir, ou seja, na Moral. Mesmo assim parece-me que Kant define principalmente, e mais que tudo, os princípios da ética mais que a própria moral (ver anterior texto "Moral vs. Ética"), pois evidencia que as regras (ou os princípios dos códigos) a adoptar só fazem sentido e são válidas se analisadas, questionadas e se de facto trouxerem mais-valias e ganhos aos indivíduos - individualmente e colectivamente. Fazendo aqui uma analogia abstracta: todo o "Bem" que um individuo A fizer a um B, e um B fizer a um C, e por ai fora, contribuirá para haver uma contínua distribuição de "Bem". Isso será ainda melhor se A conseguir fazer "Bem" a C, a D e outros também, desse modo a eficiência e eficácia da distribuição de "Bem" - se é que assim se pode dizer -, em comunidade, ascende a outro nível. Em última análise, directa ou indirectamente, A receberá sempre "Bem" se o intercâmbio de "Bem" for aceite por uma maioria, uma sociedade por exemplo. Provavelmente o mais complicado aqui é mesmo saber de facto: o que é o "Bem" - coisa difícil de definir, até porque haverá sempre tantas definições de "Bem" como a quantidade de indivíduos pensantes e capazes de sentir.

As várias religiões, mais ou menos dogmaticamente, foram definindo e aprimorando a "Velha Regra de Ouro", ou veja-se:
  • Hinduísmo, em o Mahabharata: "Não faças aos outros o que não desejas que te seja feito a ti..."
  • Judaísmo, em o Talmude: "O que é odioso para ti, não faças ao teu próximo".
  • Zoroastrianismo, em o Dadistan-i-Dinik: "A natureza só é boa quando não faz a outro ser humano o que não é bom para ti".
  • Budismo, segundo o Dhammapada: "Não magoes os outros de formas que tu próprio considerarias penosas".
  • Confucionismo, em Anacletos: "Não faças aos outros o que não queres que te seja feito a ti".
  • Islão, em Sunnah: "Ninguém é crente enquanto não desejar para o outro o que deseja para si mesmo".

Em suma, todas as correntes filosóficas e religiosas apresentadas convergem, mais ou menos, no mesmo sentido.
Na nossa época, onde cada vez mais taras e fetiches vão sendo revelados, é caso para: dizer "há gostos para tudo"; reflectir sobre quais os limites do absoluto e universalidade do "Bem", e até que ponto o  conceito de "Bem" pessoal pode ser exactamente o conceito de "Mal" de outrem. 
Especulando, quem sabe se o Dogma não serviu e foi inventado com o intuito de evitar que actos de "Bem" dúbios fossem praticados? 
Não é por coincidência que no livro "Platão e um Ornitorrinco entram num bar - Filosofia com Humor" se refere o caso do masoquismo. Será que poderíamos estar bem, não sendo nós masoquistas, se um masoquista nos proporcionasse a sua noção de bem?
É caso para citar mais uma frase do livro, neste caso uma dupla citação - pois faço citação de uma citação -, de George Bernard Shaw: "Não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem a ti; eles podem ter gostos diferentes"
Pois é, gostos temos todos, muitos deles muito diferentes, mas todos temos, com a democratização das sociedades a pretensão de poder optar do que gostar.

sábado, 16 de julho de 2011

Nuvens de álcool no Espaço - cervejas e a origem da vida

Quando se pensa na imensidão do Espaço pensa-se num pano negro salpicado de estrelas, pensa-se em galáxias, planetas, cometas, asteróides e até nos estranho buracos negros, isto quando se trata de pensamentos de leigos é claro, pois estas nem são seguramente as coisas mais bizarras que se podem achar numa busca espacial.
A atestar isso mesmo existe um documentário, muito resumido e cheio de alusões do nosso mundo que servem de comparações para uma melhor percepção dos fenómenos que ocorrem para além da nossa Terra. O documentário dá pelo nome de "Universo - curiosidades", ou no original "The Universe - strangest things, e tem sido exibido no Canal de História.
Rapaz da Adega - Chardin
 Uma dos fenómenos que me pareceu mais curioso, e de facto extraordinariamente apropriado para uma referencias espirituosas, foi o das nuvens de álcool em plena imensidão espacial.  Diz-se até no documentário que existem nuvens imensas cheias de álcool etílico, o álcool que bebemos, aquilo que ingerimos, por exemplo, na cerveja. Parece que no espaço existem enormes destilarias!
Citando os dizeres traduzidos do documentário em causa para a nossa língua: A primeira nuvem de álcool foi detectada em 1975, desde então muitas mais destas estranhas nuvens foram observadas. A nuvem G34.3, que se encontra na constelação de águia, tem 1000 vezes o diâmetro do nosso sistema solar. Na G34.4 há álcool etílico suficiente para fornecer 300.000 canecas de cerveja todos os dias a cada pessoa do planeta terra durante os próximos mil milhões de anos.
O problema seriam os efeitos secundários. Se beber em excesso pode dar origem a grandes dores de cabeça, aqui, beber um trago era má disposição quase garantida,  pois o álcool etílico em causa encontra-se misturado com cianeto de hidrogénio e alguns outros químicos não muito comestíveis.
Mas importa referir afinal o que são e como se constituem estas nuvens, ficando mais uma citação do documentário: As nuvens moleculares gigantes são enormes complexos de gases e poeiras. Algumas delas são do tamanho do nosso sistema solar. Os seus núcleos grandes e densos permitem a formação de moléculas complexas que produzem um cocktail cósmico. Nas nuvens inter-estelares são os grãos de poeira que servem como local chave de nucleação para que as moléculas mais simples como o hidrogénio molecular, a água, e o dióxido de carbono se unam e reajam quimicamente para formar moléculas mais complexas como o álcool etílico. Quando os grãos de poeira migram mais para perto do centro da nuvem molecular começam a aproximar-se da estrela central que se está a formar no seu núcleo, isso aquece-os o suficiente para evaporar algumas das moléculas complexas.
Destas nuvens, ou outras muito semelhantes, por incrível que pareça, formaram-se diversos sistema solares, planetas e até talvez vida! Uma possibilidade espantosa de facto!
 Nas bordas exteriores das nuvens, estes grãos de poeiras congelados com as suas moléculas associadas continuam intactos. Hoje conhecemo-los como cometas. Julga-se que esses cometas possam ser responsáveis por trazer algumas dessas moléculas mais complexas para o interior dos próprios sistemas solares de origem ou de outros que se cruzem nas suas árbitras. É plausível dizer que os cometas podem ter semeado o nosso planeta com essas moléculas - verdadeiros blocos de construção de coisas como os aminoácidos, os quais precisamos para a vida.
No documentário afirma sem qualquer dúvida que: O nosso sol e a terra formaram-se a partir de uma nuvem inter-estrelar, muito semelhante a esta[s] nuve[ns], e se houver os ingredientes certos, os ingredientes orgânicos certos, temos os ingredientes propícios à vida. Afinal as nuvens de moléculas orgânicas são bastante comuns no espaço. Se pulverizássemos a terra e a transformássemos em pó obteríamos algo semelhante a essas nuvens , pois têm praticamente todos os químicos que nos compõem.

Curioso como o álcool pode revelar os indícios para a origem da vida. Não obstante, e fazendo aqui uma referência um pouco arriscada, consta que alguns nascimentos nos nossos dias se proporcionaram por noite em que os progenitores estavam bem bebidos, estando ai também o álcool ligado à origem da vida!

domingo, 10 de julho de 2011

O optimismo de «A Metamorfose» de Kafka

Duvido que alguém que leia por completo a obra A Metamorfose de Kafka lhe fique indiferente. Aliás, duvido sequer que quem acabe de ler a última página deste livro não pare, pelo menos uns minutos, para pensar, reflectindo, na vida - se é que não o fez ao longo da leitura da obra -, na sua existência e de todas as existências em sociedade, como a das próprias sociedades humanas que existem, especialmente as contemporâneas.
O Bestiário - André Masson
A história é dramática e duramente realista (estilisticamente falando). Dizem e diz-se que representa o desespero humano e as limitações da condição humana, num rol de frustrações fantasiosas e grotescas do característico e realismo de tantas vidas. A discrição é, como já disse, tão realista e crua que as palavras tocam e transportam o leitor para a irrealidade da realidade descrita em A Metamorfose. Mas, apesar de tudo, de tudo o que de negro e desesperante o conto encerra, penso que a história de Kafka pode ter um lado positivo e até optimista.
Apesar da descrição, que por vezes no arrepia com os ambientes e formas repulsivas, sobre a forma e vivência de Gregor depois da sua metamorfose que o tornou num ser monstruoso semelhante a um insecto, apesar da frieza de tratamento da família para com o modificado Gregor, apesar do fim trágico quase ridículo de Gregor: há uma mensagem positiva na obra. Apesar da desgraça da personagem principal, foi toda a uma família - a de Gregor (pai, mãe e irmã) - que, por causa dessa desgraça, soube sair, ainda que com grande crueldade e frieza, da situação insustentável em que estava e persistia.
Assim, esta obra poderá ter vários "morais" - num sentido nada dogmático - e um deles pode ser: mesmo da maior e mais estranha das calamidades, podem sempre surgir oportunidades.
No entanto, esta parece-me uma obra "difícil", não de leitura mas do modo como o leitor tem de lidar com as descrições dos ambientes e da acção, especialmente pelo seu forte cariz psicológico disfuncional patente em todo livro.

Duvido que alguém que leia A Metamorfose, com olhos de ler e consciência de reflectir, lhe fique indiferente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Portugal com vergonha do passado Colonial?

No passado dia 21 de Junho de 2011, na Livraria Arquivo, tive oportunidade de assistir à apresentação do mais recente livro do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, obra de título “Portugal – Ensaio contra a autoflagelação”. 
Perturbação na Floresta - Malangatana
Do muito que o autor partilhou, das reflexões e teorizações, muitas delas baseadas nos conhecimentos que adquiriu ao longo de anos de estudos, investigação e ensino, houve uma que não pude deixar de reter e aqui divulgar. Essa referência surgiu a propósito de uma questão colocada durante o período de debate por uma das pessoas que assistia à sessão. A questão prendia-se com a Guerra Colonial e o processo de descolonização, prendia-se com desabafos pessoais sobre o modo como foram tratados os soldados que combateram no Ultramar.

A resposta de Boaventura de Sousa Santos não poderia ter sido mais interessante - e até surpreendente tendo em conta de todo o seu historial ideológico/político -, referiu que Portugal, aquando da entrada na União Europeia, “teve vergonha” do seu passado colonial e não soube capitalizar o papel que tinha desempenhado em África. Para Boaventura de Sousa Santos Portugal, indirectamente, tinha estado ao serviço da NATO e dos interesses das Democracias Ocidentais ao travar os avanços comunistas que se associavam aos movimentos independistas dos territórios ultramarinos portugueses. O autor refere que: era muito importante, para a NATO, garantir que a África do Sul (nessa altura em pleno regime do Apartheid) ficasse fora das influências Soviéticas e que as suas riquezas fossem salvaguardadas. Curiosa esta perspectiva atendendo ao que já referi sobre o autor.

 Já em anterior texto referi que a NATO se tinha oposto à Guerra Colonial portuguesa e que até tinha contribuído para a difusão de valores democráticos nos oficiais das Forças Armadas nacionais, tendo isso mais tarde influenciaria o golpe militar e revolução de 25 de Abril. Mas esta perspectiva refere, sem receios, a aliança, não assumida, entre os interesses do Portugal Fascista e os da NATO no espaço geopolítico Africano.
Fica aqui mais alguma matéria para reflexão sobre o nosso passado recente, que, inevitavelmente, influencia o nosso presente.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Revolta Estudantil de 69 e o 25 de Abril de 74 - Uma Possível Relação

No Documentário Crise Académica de 69, uma produção nacional do Canal de História, é apresentado e descrito um dos eventos políticos nacionais mais importantes entre o periodo da candidatura de Humberto Delgado em 1958 e da Revolução de 25 de Abril de 1974.
Os anos 60 foram verdadeiros anos de revolução e mudanças sociais por toda a Europa (e não só), especialmente entre os mais jovens e os meios académicos. No documentário em causa referem-se algumas das razões dessa mudança. Entre elas: a criação do Pacto de Varsóvia, como a possibilidade que permitia democratizar o acesso ao Ensino Superior especialmente pela possibilidade de ser frequentado pela classe operária; os escritos e influência filosófica de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, através da corrente filosófica do existencialismo que valorizava os indivíduos e as suas liberdades, que levou a exigir na prática mais liberdade e democracia. Em França o culminar dessa mudança foi o conhecido Maio de 68. Em Portugal, essas mesmas ideias, que por cá eram ainda mais revolucionárias - devido à existência de um Estado Anti-democrático desde 1928 -, chegaram e foram assumidas pela comunidade académica de Coimbra, especialmente pelos seus estudantes, em 1969, o que levaria aos acontecimentos da Crise Académica de 69.
Maio de 68 II - Júlio Pomar
Os estudantes de Coimbra exigiam mais liberdade na sua Universidade, que era um modo indirecto de o fazer para toda a sociedade Portuguesa. A partir de então os estudantes, através das repúblicas, associações, grupos culturais, e até movimentos políticos clandestinos, concretizaram, neste período histórico específico, a um novo activismo cívico e político.
Provavelmente o evento que despoletou todas as posteriores acções mais visíveis foi o acontecimento que ocorreu aquando da inauguração do edifício da Faculdade de Matemática. Para esse evento deslocaram-se a Coimbra os Ministros das Obras Públicas, da Educação (o célebre historiador televisivo Hermano Saraiva) e Presidente da República de então, Almirante Américo Tomás. Os estudantes defendiam que deveriam participar activamente nessa acontecimento académico. De modo a cumprir essa vontade é decidido, entre os estudantes, que Alberto Martins, presidente da Associação académica de Coimbra, deveria pedir a palavra durante o decorrer da cerimónia.  Hoje em dia a possibilidade de alguém se fazer ouvir e poder intervir é um dado adquirido, mas naquela altura este acto era uma verdadeira afronta ao Regime e uma manifestação mais que evidente vontade de ter mais liberdade.
Assim, Alberto Martins cumpre a sua missão, levanta-se e diz: ”Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me permissão que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?”. A História conta que a palavra lhe foi negada e que a cerimónia fora repentinamente terminada.
Esta tomada de posição valei a prisão a Alberto Martins, que no dia seguinte viria a ser libertado, depois da pressão dos estudantes que se mobilizaram e se manifestaram junto do cárcere. Apesar do sucesso da manifestação os manifestantes, como seria de esperar,  foram violentamente dispersados e os feridos foram bastantes.
A partir de então as manifestações e activismos despoletaram e foram ganhando cada vez mais força e notoriedade por Coimbra. Fizeram-se assembleias gerais, marchas, protestos e até greves às aulas e exames, tudo de um modo pacífico e simbólico.
Uma das resposta do Regime fascista foi punir os elementos mais activistas dos movimentos estudantis, incorporando-os no exercito, e forçando-os a lutar no Ultramar, ao todo foram 59. Foram incorporados como "traidores à pátria". Isso deixou um grande incomodo entre os militares, por se considerarem diminuídos do seu estatuto de "espelho e orgulho da nação" para algo semelhante a "ferramenta de repressão e castigo do Regime".
Assim, directa ou indirectamente, estes 59 castigados foram "minando" - palavras dos entrevistados para o documentário - e estabelecendo contactos com os oficiais mais liberais, aqueles que pretendiam também mais liberdade e democracia (é nesses militares que se manifestou a influência dos ideias democráticos ocidentais que chegavam via formação militar de topo através da NATO - algo já aqui referido no blogue em anterior texto) e que mais tarde seriam os Capitães e os responsáveis pela Revolução - que foi na sua génese principalmente militar (algo tratado também em anterior texto aqui no blogue) - do 25 de Abril de 1974. Não será de todo descabido então considerar que a revolta académica de 69 também influenciou o golpe militar e revolução de 74.
No entanto, com a mudança de Ministro da Educação, quando José Hermano Saraiva foi substituído em Janeiro de 1970, todos os castigos e medidas de repressão foram retirados e revogados. Assim, pode-se dizer - e são os próprios dirigentes das revoltas estudantis que o afirmam - que de facto a revolta estudantil de 1969 triunfou. Não admira que os envolvidos se sintam honrados e orgulhosos disso hoje.  
Será que no futuro as gerações de hoje terão motivos para se orgulhar pelo seu activismo cívico e político, ainda por cima quando não temem repressões e têm liberdade de actuação?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Zatôichi, um filme japonês de acção diferente a considerar

O filme japonês Zatôichi é no mínimo "estranho". Este filme de Takeshi Kitano, que para além de realizador e também actor principal do filme, insere-se em tantas géneros que é difícil de categorizar. Tanto pode ser visto como drama, acção, comédia e histórico/caracterização social de época.
O filme conta-nos um a história (romanceada) de zaitôchi (um massagista, cego, jogador e mestre nas artes marciais de espada, criado pelo romancista japonês Kan Shimozawa durante o período Edo), conta, mais concretamente, o episódio em que a personagem chega a uma aldeia reprimida por grupos de bandidos locais.  Zaitôchi é, desde o século XIX, uma personagem muito popular no Japão, deu origem a dezenas de contos e filmes, mas este de Takeshi Kitano, datado de 2003, é peculiar. Para além de não o conseguir caracterizar também é extremamente difícil de avaliar. 
Para além das cenas bem humoradas, de uma acção ora dinâmica ora lenta e dramática, salientam-se os cenários e ambientes. Mais que tudo, em Zatôichi, é possível - pelo menos atendendo que o que é transmitido é verdadeiro - conhecer um pouco do Japão do século XIX, antes da influência Ocidental. Neste filme, o realizador apresenta-nos: o modo como se fazia a agricultura e o comercio; algumas tradições culturais e artísticas - música e teatro -; a vida e morfologia das habitações, das casas de jogo de dados e das tabernas; geishas - no caso das geishas o contraste dos seus kimonos  e maquilhagens com os ambientes cinzentos assume uma beleza especial, samurais, ninjas, e muitos outros.
Com este filme podemos rir, ver litros de sangue (digitalizado) e conhecer uma muito popular personagem da cultura japonesa de ficção, tal como um pouco da a cultura japonesa. 
O filme não é seguramente dos melhores de sempre, se calhar nem é dos melhores feitos no Japão, mas para nós, que não estamos habituados a ver este tipo de cinema, Zatôichi deve ser um filme a considerar.
Ah, o final musical é surpreendente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O Governo que nem 5 minutos governou

Já anteriormente referi, a propósito de outro tema, a obra "Histórias rocambolescas da História de Portugal" - obra capaz de despertar, mesmo naqueles mais adversos às coisas do passado, uma genuína curiosidade pela História de Portugal. De novo aqui no blogue volto a referir a obra de João Ferreira para voltar novamente ao tema da 1ª República em Portugal (a anterior referencia centrava-se em torno da questão: Afinal quantas repúblicas existiram em Portugal, 3 ou 2?). Este novo texto recai nesse conturbado, e verdadeiramente revolucionário, período histórico/político onde se radicalizou (exemplo do anticlericalismo) e se fez avançar e evoluir o país (exemplo da instrução escolar  generalizada e do aumento das liberdades individuais), mas mais concretamente naquilo que foi, provavelmente, o cúmulo da instabilidade governativa nacional. 
O Salto do Coelho - Amadeo de Souza Cardoso
 João Ferreira diz-nos que: "Em menos de 16 anos, entre 5 de Outubro de 1910 e 28 de Maio de 1926, sucederam-se 8 chefes de Estado e 42 Governos". Tamanho alvoroço político parece quase inacreditável, e ainda inacreditável é o facto de ter existido um Governo que nem 5 minutos durou. Em 1920 o Governo de Fernandes Costa demitiu-se ainda antes sequer de ser empossado, só porque se juntou uma multidão de protesto no Terreiro do Paço quando o pretenso novo Governo se preparava para seguir para a sua suposta tomada de posse. Em jeito de gozo, e brincadeira, este ficou conhecido para a História como "O Governo dos 5 minutos". A bem da verdade o nome até que é gracioso, pois este Governo nem sequer 5 minutos!
As razões de antigamente hoje não se justificam, até porque, embora se diga que esta 3ª República é jovem, a consciência democrática de hoje é muito superior à do inicio do século, numa época em que se vivia muito na base do "experimentalismo político" e que uns meros contestatários podiam intimidar um qualquer Governo.
De facto evoluímos muito, muito mesmo! Saber governar em democracia é saber lidar e respeitar o contraditório, sem medos e receios se o apoio popular for de facto maioritário e legitimado por eleições rectas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Transportes urbanos e habitação - uma relação indissociável de custos

Com o desenvolvimento económico e aumento dos salários e rendimentos dos cidadãos, em geral, vem o aumento do consumo. Este é um dos pressupostos do nosso capitalismo, e uma relação económica patente até no nosso dia-a-dia - quanto mais ganhamos tendencialmente mais consumimos, por mais poupados que sejamos. 

O Ladrão - Fernando Botero
Quer os transportes quer a habitação têm sido produtos/serviços em que se tem exigido - porque efectivamente os queremos consumir - mais, melhor e, quase sempre, maior. Não é preciso ser especialista em história recente, ou até mesmo em automóveis, para notar que os veículos automóveis particulares têm crescido de dimensão em quase todas as classes e categorias - hoje um veiculo familiar é muito mais espaçoso do que um produzido na década de 70. Já no que toca às habitações é também notória a procura por espaços maiores, mais amplos e, em muitos casos, de preferência no modelo de vivenda com quintal e jardim. Se assim não fosse as periferias não teriam crescido ao ritmo exponencial que temos verificado, quer seja em Portugal quer no estrangeiro - notar o exemplo dos EUA.
Estas procuras e vontades por mais e maior, no sector automóvel e imobiliário, têm influenciado muito os custos dos produtos desses sectores e de outros relacionados, sendo o próprio sector público também visado.

Vejamos então as palavras de Daniel Murta na sua obra "Quilómetros, Euros e pouca terra - manual de Economia dos Transportes" que referem essa e outras relações:

"Um aumento de salários tem um efeito ambíguo na dimensão das propriedades: o custo de transporte revela do tempo e o salário é monetário; a subida do salário torna, instantaneamente - por custo de oportunidade - as mesmas casas mais caras, em termos do tempo perdido até elas; que vale mais se forem maiores alargam a cidade tornando-se mais longínquas, logo duplamente mais caras (nominalmente por terem mais m2, e porque ao obrigarem a cidade a crescer e ao ficarem mais longe, têm maior custo de transporte)."

Das palavras do autor saliento o parte final. Saliento  o facto de: havendo procura por casas maiores, que ocupam mais espaço, forçosamente a cidade estende-se mais, aumentando assim os custos de transporte para quem habita nessas casas, pois está, de facto, mais longe de tudo. Ou seja, os custos de transporte aumentam tendencialmente, e aumentam mais ainda se considerarmos que cada vez se procuram também carros maiores que ocupam mais espaço, forçando ainda mais o aumento das distâncias pelo tráfego e necessidades de estacionamento que provocam, logo mais onerosos. Outras perspectiva do aumento destes bens e produtos [automóveis e casas] e a do aumento dos custos para a gestão pública e colectiva. Com cidades cada vez mais extensas aumentam os custos para fazer chegar infra-estruturas (estradas, abastecimento de água e esgotos, electricidade, etc.) tal como os serviços (hospitais, escolas, policia, etc.) a toda a nova cidade excessivamente estendida. Tudo isto sem falar nos custos do próprio solo excessivamente ocupado, especialmente nos impactes ambientais que isso tem, algo que no fundo e a longo prazo tem também impactos económicos.

Dependendo o apuramento do custo de viver num determinado sitio dos custos de transporte e de habitação, sendo o resultado desse apuramento nos centros urbanos principalmente influenciado pelo custo de habitação e nas periferias pelo custo do transporte, num futuro muito próximo muitas famílias poderão ter de voltar a morar "mais no centro", assim que se tornar evidente que em alguns casos a sua procura por maiores casas e automóveis se tornar insustentável, do ponto de vista dos impactos económicos e custos dessas opções - muito devido ao aumento de custo dos transportes.

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