sábado, 19 de fevereiro de 2011

Os Testemunhos e os Testículos - algumas visões etimológicas

Hoje, pelo menos em Portugal, devido ao pretenso laicismo das nossas instituições públicas,  para validar um testemunho não precisamos de jurar sobre ou por algo - um objecto por exemplo. No entanto, em alguns países ainda se jura, por exemplo, sobre um livro sagrado.
Composição nº61 - Alexander Rodchenko
 Esquecendo para já este primeiro parágrafo, este texto pretende fazer uma pequena incursão sobre a etimologia dos termos relacionados com a acção de testemunhar. Existem várias teorias - um pouco para todos os gostos - sobre a origem desta acção. Helder Guégués (1) afirma que  a palavra "testemunha" provém do latim, de "testis" que significa algo semelhante a "teste", refere também, indo linguisticamente ainda mais ao passado, que este termo latino deriva por sua vez do termo Indo-europeu "tris", que se relaciona, por exemplo, com o "tree" do inglês actual, ou seja árvore - uma acepção com alguém de conduta sólida, com os "pés bem assentes na terra", imparcial e justo. Mas Helder Guégués vai ainda mais longe, afirma também que "testis" está na origem da palavra "testículo", e remete a origem do nome para o facto desse órgão atestar a masculinidade de um individuo - algo de extrema importância na antiguidade pelo facto das sociedades serem profundamente patriarcais.
Reinaldo Pimenta (2), no livro "A Casa da Mãe Joana" - uma obra sobre curiosidades etimológicas, afirma que o termo latino "testis" originou os termos "testimoniu" e "testiculu". Refere o autor (2) que a palavra "testis", formada de uma variação de "tri" (três) + "sto" (estou), significa algo como: “que está ou assiste como terceiro”.  Diz (2) também que a terminação "culu" era usada para fazer diminutivos.  Assim, a palavra "testiculu" teria sido formada  para significar "pequena testemunha". 
Círculo Branco - Alexander Rodchenko
Também o sitio da Internet "Ciberdúvidas" (3), citando o "Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa", de José Pedro Machado, refere que o termo testemunhar advém  do termo latino "testemoniare", que derivou de "testemoniu" (testemunho, depoimento ou prova). Mas, por outro lado, esta fonte não segue pelas mesmas constatações que as anteriormente citadas, diz até que nada se pode concluir sobre a relação ente testemunha e testículo, limitado-se a referir que  o termo latino "testiculu" significa: testículo; orquídea;  planta. 
Apesar das palavras testemunho e testículo terem cada uma a sua raiz latina, isso não exclui que ambas as raízes etimológicas dessas mesmas palavras se relacionem.
Ainda no "Ciberdúvidas" (3) a explicação continua através do recurso a outro autor, o brasileiro Deoníso da Silva que escreveu a obra "A Vida íntima das Palavras - Origens e Curiosidades da Língua Portuguesa".  Novamente se volta à origem da palavra "testis" - "que está ou assiste como terceiro"(2)- e da palavra "testiculu" - "pequena testemunha" (2).  Deoníso da Silva (3), para explicar a relação que temos tentado analisar, relembra o modo como se davam os nascimentos na antiga Roma. Nessa altura, segundo este autor, um nascimento era sempre um acto presenciado por testemunhas, que serviam para atestar o sexo da criança. Esta necessidade de certificação era de extrema importância, pois se o sexo da criança fosse masculino significaria que a família teria continuidade - ainda hoje em alguns países as crianças herdam apenas o nome do pai. Assim, essa acto social surge como mais uma possível explicação para o modo como esses distintos órgãos sexuais [os testículos] podem ter ganho tal nome, por "assistirem o pénis" e por "atestarem" a masculinidade.
Aqui fica mais uma curiosidade etimológica sem conclusões absolutas. Podemos apenas afirmar que pode existir uma relação directa entre testemunho e testículo, mal tal não é garantido.
Amarelo e Vermelho - Alexander Rodchenko
Acabo este texto sem resistir a fazer aqui uma observação que se relaciona com o primeiro parágrafo: seria engraçado ver alguém, especialmente num tribunal, a jurar pelos seus testículos - numa relação com o próprio acto de testemunhar -, mas será que hoje - para o bem e para o mal - os testículos valerão tanto como antigamente?

Fontes
1 - http://letratura.blogspot.com/2006/10/etimologia-testemunha.html
2 - http://www.thalesc.com/blog/2007/12/etimologia_das_palavras.html
3 - http://ciberduvidas.sapo.pt/pergunta.php?id=12151

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Novo cabeçalho e logótipo do "A Busca pela Sabedoria"

Parece que Heraclito disse um dia: "Nada é permanente, salvo a mudança"
Novo logótipo do blogue
Parece-me também que aqui o blogue, por já ir persistindo permanentemente com as suas próprias dinâmicas, ao longo do tempo também tem sofrido as suas próprias mudanças. Chegou agora a hora de deixar de "usurpar" uma das mais belas pinturas de Van Gogh - A Noite Estrelada -, embora em nada tenha diminuído a admiração e paixão que tenho por essa obra. Chegou a altura de usar dos próprios meios gráficos para dar moldura e formar uma imagem para este projecto. Por isso, criei então esta bússola como símbolo da busca. Já o sabedoria, como ainda não a alcancei e espero nunca alcançar pois assim se perderia o gosto pela viagem intelectual, não a sei como representar.  Portanto, a dita bússola terá de servir.

Boas Buscas pela Sabedoria pois este é também o vosso espaço, criado para divulgar ideias e saberes avulsos, mas também para que esses mesmos retalhos possam ser discutidos e debatidos.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Veículos Eléctricos em Rede (V2G) - armazenar energia e potenciar as Energias Renováveis

Começam a chegar ao consumidor os primeiros veículos automóveis eléctricos verdadeiramente funcionais. Neste aspecto Portugal é pioneiro e já temos alguns  postos de abastecimento adaptados aos novos veículos eléctricos - através de readaptações nos postos tradicionais de abastecimento de combustíveis fósseis ou em locais propositadamente preparados para o efeito.
Pininfarina Sintesi
Já num anterior texto fiz referência aqui no blogue a algumas das limitações do veículos eléctricos, sendo uma das principais a dificuldade em armazenar a energia. Referi também que uma das possibilidades seria construir e adaptar as infra-estruturas rodoviárias para o carregamento em estrada. No entanto, com o continuar do desenvolvimento das baterias - aumento da capacidade de armazenamento, diminuição do tempo de carga e disponibilização de energia de pico instantânea (através dos supercondutores) - provavelmente esse cenário, um tanto ou quanto de ficção cientifica, provavelmente pode nunca vir a acontecer. Nesse mesmo sentido, do aperfeiçoamento das baterias, já se conjecturam outras possibilidades, ideias e projectos que podem transformar os automóveis eléctricos num modo de solucionar em simultâneo um importante problema das rede eléctricas convencionais - o armazenamento da energia na própria rede.
Os sistemas de produção e distribuição de energia que hoje usamos têm grandes dificuldades em armazenar quantidades significativas de energia durante grandes intervalos de tempos. Isto afecta especialmente os modos de produção renoveis - as famosas energias renováveis - pois são aquelas que funcionam de um modo contínuo ou apenas quando determinadas condições estão reunidas (caudais de água, vento, exposição solar, etc.). Ou seja, elas efectivamente produzem energia mas nem sempre quando mais precisamos dela, o que obriga a existir um modo de poder armazenar essa energia para quando for efectivamente necessário. Construir grandes sistemas de baterias ou outras formas de acumuladores é economicamente inviável - pelo menos actualmente - mas também ecologicamente, pois teria custos enormes e impactes ambientais dificilmente recuperáveis (impactes na construção, na manutenção e fim de vida dos materiais e das próprias infra-estruturas).
Com o advento dos veículos rodoviários eléctricos, que não vivem sem as suas baterias, surge uma oportunidade de armazenar energia adicional proveniente da rede. Quer isto dizer que já se perspectiva um sistema em que os automóveis eléctricos possam acumular no período nocturno energia da rede. Durante o dia, quando o veiculo estivesse parado, essa energia acumulada, uma quantidade que não fosse necessárias para utilizar nos trajectos a realizar nesse dia, poderia ser transferida novamente para a rede. Isto poderia até ser proveitoso economicamente para os proprietários dos veículos pois estariam a vender de novo energia à rede ou então seriam ressarcidos pelo "aluguer" das suas baterias. Tal como permitiria acumular a energia não utilizável em períodos de fraca procura, relacionando-se isso, já dito anteriormente, com um importante apoio ao desenvolvimento das energias renováveis.

Esta proto-projecto já tem nome, chama-se Vehicle to Grid e até já tem a sua própria sigla: V2G. Apesar do V2G ainda não estar minimamente implantado, já se pensam noutros projectos que o integram e readaptam. Exemplo disso é o conceito de garagens inteligentes que pretendem, através da instalação de modo próprios de produção de energias renováveis   recarregar as baterias do veículos automóveis.
Esquema de integração e utilização de uma Garagem Inteligente (Smart Garage)
Tudo isto não passam de ideias ainda impossíveis de pôr em prática,  quer por dificuldades tecnológicas, quer por imprevisibilidade do mercado da energia e dos próprios transportes. Apesar de ser difícil prever o futuro, trata-se de um possibilidade a deixar em aberto e um possível  modo de colmatar uma deficiência - a acumulação - dos modos de produção associados às energias renováveis e, claro, de fomentar o uso dos automóveis eléctricos, com todas as vantagens ambientais que também daí advém (neste caso também económicas para os próprios proprietários).
Fontes:
  • http://www.udel.edu/V2G/
  • http://move.rmi.org/move-news/what-is-the-smart-garage.html

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Conferência-debate com Carvalho da Silva em Alqueidão da Serra- algumas notas

No sábado dia 29 de Janeiro de 2011 participei, enquanto moderador, numa conferência-debate em Alqueidão da Serra - freguesia do concelho de Porto de Mós do distrito de Leiria - que tinha como orador o Doutor Carvalho da Silva - um dos mais importantes sindicalistas portugueses da actualidade e também investigador da área das ciências sociais, mais concretamente do CES. Foi a minha primeira experiência nestas andanças mas, atrapalhações e nervosismos à parte, senti que foi deveras enriquecedora - para mim e para todos os presentes -, quer pela experiência, quer pela partilha de saber por parte do orador. 
Lendo o jornal - José Malhoa
Pareceu-me tão interessante o que foi dito em Alqueidão da Serra naquela noite, que não podia deixar de trazer e registar aqui no blogue alguns dos conteúdos tratados.
Deixava então aqui, em honra ao orador e a sua disponibilidade, algumas das ideias que fixei das suas várias intervenções (lembro que estas foram as minhas interpretações das suas palavras e não a reportagem objectiva do que se passou): 
  • Os políticos não são todos maus na medida em que num qualquer grupo de executantes, praticantes, profissionais ou outros, também nunca todos podem ser maus - resposta a um dos presentes que da plateia disse: "os políticos são todos maus, são todos iguais"; 
  • Cuidado com as generalizações, pois através delas podem ser cometidas as mais grandes injustiças - uma clara referência a perda de direitos e ajudas sociais; 
  • Os cidadãos só acedem realmente à informação se a discutirem, se discutirem o que ouvem e vêm através dos Media - referindo-se que aceder à Internet, ver televisão, ouvir rádio, não é suficiente para estarmos informados, temos de discutir e colocar em causa toda essa informação .  
  • Os cidadãos devem ser os motores da mudança social através da participação cívica - comentário ao estado da nossa democracia que só se pode concretizar pela participação politica e cívica de todos os cidadãos. 
  • A vida sempre foi altamente instável, não podemos dizer aos nossos jovens que, só por a sua o ser também, que não devem ter esperança de um futuro melhor - referiu que há umas décadas a vida era muito mais instável e não era por isso que a esperança morria, todas as sociedades devem cultivar a esperança de que se irá viver melhor, caso contrário o próprio sentido de ser da sociedade deixa de fazer sentido. 
  • Temos de debater os sistemas vigentes e procurar a sustentabilidade a todos os níveis - uma clara alusão à necessidade de encontrar soluções, entre todos os parceiros sociais, para a estabilidade e sustentabilidade do Estado Social. 
  • Devido aumento da esperança média de vida temos de dar ocupação aos nossos idosos, pois podem ainda ser ainda muito úteis à sociedade - uma chamada de atenção para o papel dos idosos na sociedade contemporânea e para a necessidade de os valorizar por todo o potencial social que têm, tal como por razões económicas. 
  • O cortar no custo de produção não deve passar imediatamente cortar nos salários, até porque os custos com os salários representam, em média e regra geral, menos de 15% dos custos reais de produção - apontou para a necessidade de focar os cortes em todos os outros custos e não nos salários, pois será voltar aos salários de subsistência, com todos os malefícios que dai advêm. 
  • O crescimento tem de ser assente no trabalho e não no consumo - critica à sociedade consumista esvaziada de valores. 
  • O individualismo sempre existiu, simplesmente hoje torna-se um valor em si e  prejudica  as dinâmicas sociais que estão ligadas à necessidade de trabalhar em conjunto por causas e melhorias colectivas - crítica ao individualismo contemporâneo, especialmente ao culto do individual em detrimento do colectivo nos dias que correm. 
  • Não deve existir a culpabilização pessoal sobre o desempregado, pois essa situação não depende só dele, mas sim de muitos factores externos a ele - a responsabilização deve ser distribuída por todos, especialmente pelo Estado e outras instituições de grande abrangência social. 
  • Em Portugal não trabalhamos menos que nos outros países, a nossa falta de produtividade está relacionada com a falta de organização do próprio trabalho - crítica ao aumento dos horários de trabalho e defesa da necessidade de reestruturar dos modelos e organização do trabalho em Portugal. 
  • A falta de ética e consciencialização é um facto, especialmente em algumas figuras que deveriam ser exemplos - todos se devem guiar por padrões elevados de ética e moral, mas do topo da sociedade, e de que tem responsabilidade sobre o colectivo, deve sempre vir o exemplo. 
  • Portugal tem muitas lacunas, especialmente na educação, situação que ainda não recuperamos do antigamente - referência a uma das maiores lacunas  da sociedade portuguesa que ainda tem baixos níveis de educação, qualificação e formação, apesar de ter havido uma grande evolução.

Nestes breve resumo por tópicos, apesar de ter sido a minha percepção a compilar as palavras que aqui deixo, tentei usar do máximo de objectividade e tocar, o quanto possível, no que Carvalho da Silva transmitiu, tentando evitar a minha própria opinião ou juízos de valor sobre o que foi transmitido - o que por vezes, apesar da vontade, se torna impossível.

Aproveito também para agradecer o convite ao professor Jorge Pereira e à Associação Coral Calçada Romana pelo convite que me fizeram para participar nesta iniciativa.

domingo, 23 de janeiro de 2011

"José e Pilar" - um filme sobre um par com um amor ímpar

O filme "José e Pilar", da autoria de Miguel Gonçalves Mendes, é uma obra difícil de descrever e classificar. Não se trata de um verdadeiro documentário, mas também não é evidentemente uma ficção. Não é uma filmagem puramente biográfica, mas fala da vida de duas pessoas bem reais passada num período de tempo exacto. No entanto, se tivesse de o classificar diria que se trata de  um "quase-documentário", pois as cenas que retratam José Saramago e Pilar del Rio encaixam-se - pelo menos aparentemente - no rigor e objectividade característicos do género documental. Só não afirmo, sem qualquer dúvida, que se trata de um documentário porque não é nada comum serem realizados filmes que tocam tanto no intimo e na vida privada de personalidades sobejamente conhecidas e de as vermos exporem-se tanto perante as câmaras - muito sinceramente, parece quase impossível como tudo aquilo pode ser genuíno e estar ao nosso dispor, ao dispor do cidadão comum . Talvez seja essa a diferença que torna este filme único e imperdível. Mas mesmo que nem tudo do que nos é apresentado seja genuíno, eu fiquei convencido! Fiquei Mesmo! Depois de ver o filme senti que tinha mesmo ficado a conhecer aquelas duas pessoas, que lhes fora tirada a máscara do mediatismo e as "cosméticas" que normalmente cobrem as celebridades - mesmo as mais intelectuais e ligadas à cultura.
Aconselho esta obra a todos, pois a todos irá interessar; para os que gostam da obra e da figura que foi Saramago - como eu - este filme será um deleite porque nos permite contemplar o lado mais pessoal do mestre; para os que desconhecem Saramago será uma descoberta cativante; e para os que desgostam, ou mesmo o detestam, o escritor pelo menos poderão aceder ao lado mais afável e agradável, e talvez melhorar a imagem que têm dele - ou talvez não...
Falando agora dos conteúdos do filme propriamente dito. O filme retrata uma parte importante da vida de Saramago, da sua vida conjugal e de cumplicidade com Pilar - a espanhola que alguns, ingenuamente ou por desconhecimento, acusam de nos ter roubado para Lanzarote o "Nobel Português". O filme não apresenta Pilar como uma mera personagem secundária, ela aqui é também uma figura principal.
Resumidamente, retrata-se no filme o período imediatamente antecedente e o da própria criação da obra "A Viagem do Elefante". Foi nesse período que Saramago adoeceu gravemente, o que implicou alongar o tempo das filmagens e que acabou por enriquecer dramaticamente ainda mais o resultado final. Em "José e Pilar", algo que me parece verdadeiramente enriquecedor é ouvir e ver, na primeira pessoa, as filosofias de vida e valores pessoais que defendem Saramago e Pilar, sendo que Saramago trata muito os temas da religião e do sentido da vida - quer antes quer depois da doença que quase o matou na altura. 
Mas a verdadeira mensagem deste filme é o Amor,  o exemplo de um amor único e muito próprio entre os dois que dão nome ao título. Esta apresentação deste amor serve, no fundo, para demonstrar quão diverso pode ser o próprio Amor, de como pode ser diferente conforme os contextos em que se desenrola e as personalidades envolvidas. Em "José e Pilar" apresentam-nos um Amor, um que o é verdadeiramente e que, por mais palavras que eu tente utilizar aqui para o classificar, não o poderei descrever, pois o amor sente-se e não se descreve por palavras - pelo menos não tão bem, no meu entender. No final do filme acredito que todos tenham, verdadeiramente, sentido algo com a exposição deste amor entre "José e Pilar".

domingo, 16 de janeiro de 2011

Van Gogh, o filme - um retrato de um ambiente de época

Esperava que o filme "Van Gogh", de Maurice Pialat, fosse mais uma obra biográfica completa, contendo todo o percurso de vida, de mais uma célebre personagem.da história - neste caso história da arte. No entanto o filme foge a esse estereotipo cinematográfico. A obra trata apenas os últimos 3 meses da vida do pintor, a sua fase final de vida, já depois do célebre episódio do auto-infligido corte na orelha. Van Gogh aqui é apresentado de uma forma desconcertante e repleta de comportamentos antagónicos. Ora simpático e sociável, auto-confiante e capaz de um sentido de humor inteligente, ora melancólico, antipático, anti-social e completamente descrente do seu talento. Mas o que me fez escrever sobre este filme não foi o modo como Pialat apresenta Van Gogh. O que verdadeiramente penso tornar este filme imperdível é o modo como é caracterizado o ambiente da época em que viveu Van Gogh. Como são mostrados os vários ambientes sociais e físicos, os hábitos e dia-a-dia das várias classes sociais do final de século XIX em França. Na obra vemos como as pessoas se alimentavam, onde viviam, como conviviam - as relações sociais e pessoais que tinham -, o modo como se transportavam, o que vestiam - e até como tomavam banho, não havendo aqui qualquer problema em mostrar o nu -, a música que ouviam e como dançavam. Não sei se viver no final do século XIX seria mesmo assim, no entanto tudo parece muito fidedigno e natural.
Mas de todos os ambientes expostos o que me pareceu mais cativante foi o do bordel. Lá vemos um Toulouse Lautrec adormecido, e provavelmente embriagado, numa cama partilhada por outros boémios e prostitutas. Até o bem conhecido o "cancan" aqui aparece retratado como uma dança popular, que quer homens quer mulheres, praticavam como expressão máximo do divertimento livre e sem preconceitos - pois todos a dançavam, individualmente ou em conjunto, independentemente do género.

Van Gogh pintou, sem dúvida,  belos quadros, mas Maurice Pialat gravou, usando como mote o nome do conhecido pintor, com cores e sons, um singular quadro cinematográfico de um ambiente de época muito característico.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias"

A propósito de uma investigação sobre mobilidade e transportes urbanos, peguei num livro que tinha comprado há algum tempo mas que nunca tinha chegado a abrir - ainda cheirava a novo. Comprei-o na altura por me parecer importante pelos conteúdos e pelos próprios autores - nunca se sabe quando se irá precisar de um livro sobre urbanismo.
Refiro-me à obra "Politicas Urbanas - tendências, estratégias e oportunidades", editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e da autoria de Nuno Portas, Álvaro Domingues e João Cabral, entre outros colaboradores.
A partida de cartas - Fernand Léger
Estava eu simplesmente à procura de dados ou informações sobre mobilidade em cidades de morfologia urbana e social semelhantes a Leiria e acabei por me deparar com um resumo, por tópicos, das principais razões para a degradação, desorganização e disfuncionalidade que se pode assistir nas Cidades Médias (cidades como Évora, Faro, Guarda, Leiria, Castelo Branco, Viseu, Guimarães, entre muitas outras). Problemas esses que se traduzem em: descontinuidade urbana; desarticulação entre os vários espaços; problemas de mobilidade e congestionamento; descaracterização patrimonial, ambiental e social; falta de espaços públicos e privados de qualidade e de toda uma série de infra-estruturas urbanas dispostas em quantidades desadequadas e de forma pouco harmoniosa e equitativa; entre muitos outros fenómenos isolados ou combinados. É, no mínimo, auspicioso querer encontrar e resumir as causas para tudo isto, mas tendo em causa a reputação académica e profissional dos autores, poucos estariam em melhor posição para poder arriscar algumas explicações. Então decidi eu próprio arriscar e trazer aqui a tentativa do resumo e interpretação dessas mesmas palavras. Faço-o porque entendo  serem pertinentes as palavras dos autores e, mesmo que estas não sejam as derradeiras explicações, porque nos permitem reflectir sobre as possíveis causas do disfuncionalismo urbano que ainda hoje vivemos me Portugal.
Principais causas e razões que nas últimas décadas condicionaram negativamente a realidade urbana das cidades médias:
•    Aumento dos rendimentos e nível de vida que fez crescer o consumo e o aumento da aquisição e uso de veículos automóveis - aumento da motorização. Este aumento de tráfego originou e continua a contribuir para os congestionamentos rodoviários, especialmente em zonas onde as vias de comunicação e demais infra-estruturas urbanas não estão preparadas para o uso intensivo do automóvel - centros históricos por exemplo.
•    O aumento do investimento do Estado em infra-estruturas de serviços públicos (Saúde, Educação, Desporto, Cultura, etc.) que, aliado a baixas de taxa de juro, provocaram um crescimentos vertiginoso do sector imobiliário privado. Os serviços municipais não conseguiram responder a este crescimento súbito e explosivo, a desordem generalizou-se e as zonas de expansão urbana avançaram mais depressa que o ordenamento dos planos e do que a existência das infra-estruturas públicas e serviços públicos que as deveriam servir
•    Falta de articulação entre as Autarquias e o Estado na regulação das pressões expansivas do sector imobiliário que procurava ocupar cada vez maiores áreas, mesmo que sem infra-estruturas e sem atender aos impactos nos meios ambientais e urbanos.
•    Inicio tardio da aplicações das ferramentas de planeamento - por exemplo os PDMs - a um território já muito condicionado, desordenado e destruturado - quase caótico em alguns casos. Mesmo ao nível do traçado das novas vias de comunicação, devido às existências, criaram-se enormes dificuldades em dotar as zonas urbanas de mobilidade adequada e a custos sustentáveis.
•    A própria acção do Estado em construir as suas grandes infra-estruturas em solos baratos e periféricos, contribuindo ainda mais para a descontinuidade urbana e degradação das zonas já consolidadas.
As causas apontadas não surpreendem os mais despertos para os fenómenos associados às expansões urbanas das cidades portuguesas nas últimas décadas do século XX, mas mesmo sendo óbvias ainda hoje há quem as desconsidere a importância da regulação urbana e planeamento dos usos dos solos. As nossas ferramentas - se é que assim se podem chamar - de ordenamento do território e de planeamento urbano não estiveram à altura do crescimento económico e melhoria significativa da qualidade de vida que surgiram com o advento 3ª república - pós 25 de Abril -, foram incapazes de regular e controlar a pressão de crescimento e expansão urbana. No fundo crescemos quase sempre mal, crescemos de um modo insustentável e irreflectido sem ter em conta os efeitos e custos que isso teria no futuro. Hoje a factura chega-nos através da disfuncionalidade da grande parte das nossas cidades. Os custos para liquidar essa factura são agora incomparavelmente superiores ao que seriam se de inicio o planeamento tivesse sido uma realidade - pois é muito mais difícil desenhar algo quando a folha de base já está tão riscada e borratada. Penso não ser errado concluir que para crescer com sustentabilidade não basta liberdade e capital, é preciso também educação e responsabilidade - especialmente respeito e consideração pelo interesse público e pelo bem comum, seja lá o que isso for.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

César, Czar, Kaiser - títulos de imperador, apesar de Júlio César nunca o ter sido

Júlio César é uma das personalidades mais conhecidas da história. Invocar este nome é falar automaticamente de Roma, da cidade mas também do Império. No entanto Júlio César, apesar de ter liderado o povo de Roma durante alguns anos da sua vida, nunca foi formalmente Imperador de Roma, até porque na altura Roma era uma república e não um Império ou monarquia. Aliás, a sua morte aconteceu porque os senadores da república temiam o regresso da monarquia. 
Assassinato de Júlio César - Jean-Léon Gérôme
 Assim César morre em 44. a.C.,  assassinado pelos senadores de Roma, numa tentativa para manter a república - regime que à data durava quase há 5 séculos. 
A república de Roma nasceu quando o último rei de Roma foi expulso da cidade em 509 a.C.. Foi desde essa data que as famílias nobres de Roma - os patrícios - assumiram o poder através dum sistema de governo republicano, apesar dos vários conflitos e tensões com a Plebe que acabaria por ganhar também o seu papel e importância politica. Júlio César, já depois de ter sido cônsul (todos os anos eram eleitos dois cônsules como líderes políticos supremos de Roma, um modo de evitar a concentração de demasiado poder numa só pessoa), torna-se ditador de Roma (cargo temporário previsto apenas para situações excepcionais de instabilidade ou perigo para a república de Roma - isto porque na altura estava a decorrer uma guerra civil - que permitia que o nomeado não ter par com quem partilhar o governo e estar acima da lei). Como Júlio César foi  conseguindo que o cargo de ditador lhe fosse renovado por várias vezes - algo anómalo - os senadores de então ,considerando que a república corria perigo, começaram a conspirar contra o antigo general e agora ditador e acabaram por o assassinar.
Curiosamente o acto dos senadores assassinos não garantiria a continuidade da república por muito mais tempo. Passado alguns anos a república converteu-se em Império monárquico. Foi Octávio, sobrinho-neto de Júlio César, cognominado de o Augusto - "o magnifico" - verdadeiramente o primeiro Imperador Romano. Octávio, utilizou a herança de César para legitimar e consolidar o seu poder, mas mais que isso, adoptou e transformou o próprio nome do tio-avô num título Imperial - os Imperadores Romanos seriam intitulados de "Césares". Aliás, foi tão significativa a associação do nome César aos Imperadores Romanos que outros povos, inspirados pela magnificência do passado de Roma e por terem também eles próprios aspirações imperiais, adoptariam à sua própria língua o título de César como título de Imperador. Temos o caso do Imperador da Rússia que se intitulava de Czar e o da Alemanha que era conhecido por Kaiser.

Se a lembrança do seu nome é a única forma do Homem atingir a imortalidade, seguramente que César se tornou imortal e, para além desse feito já de si considerável, consegui ser também imperador de vários Estados ao longo da História, isto mesmo sem nunca ter sido Imperador da sua própria nação. 
Resta saber se realmente a sua suposta famosa ambição previu alguma vez tal sucesso - ainda que relativo.

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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