domingo, 23 de janeiro de 2011

"José e Pilar" - um filme sobre um par com um amor ímpar

O filme "José e Pilar", da autoria de Miguel Gonçalves Mendes, é uma obra difícil de descrever e classificar. Não se trata de um verdadeiro documentário, mas também não é evidentemente uma ficção. Não é uma filmagem puramente biográfica, mas fala da vida de duas pessoas bem reais passada num período de tempo exacto. No entanto, se tivesse de o classificar diria que se trata de  um "quase-documentário", pois as cenas que retratam José Saramago e Pilar del Rio encaixam-se - pelo menos aparentemente - no rigor e objectividade característicos do género documental. Só não afirmo, sem qualquer dúvida, que se trata de um documentário porque não é nada comum serem realizados filmes que tocam tanto no intimo e na vida privada de personalidades sobejamente conhecidas e de as vermos exporem-se tanto perante as câmaras - muito sinceramente, parece quase impossível como tudo aquilo pode ser genuíno e estar ao nosso dispor, ao dispor do cidadão comum . Talvez seja essa a diferença que torna este filme único e imperdível. Mas mesmo que nem tudo do que nos é apresentado seja genuíno, eu fiquei convencido! Fiquei Mesmo! Depois de ver o filme senti que tinha mesmo ficado a conhecer aquelas duas pessoas, que lhes fora tirada a máscara do mediatismo e as "cosméticas" que normalmente cobrem as celebridades - mesmo as mais intelectuais e ligadas à cultura.
Aconselho esta obra a todos, pois a todos irá interessar; para os que gostam da obra e da figura que foi Saramago - como eu - este filme será um deleite porque nos permite contemplar o lado mais pessoal do mestre; para os que desconhecem Saramago será uma descoberta cativante; e para os que desgostam, ou mesmo o detestam, o escritor pelo menos poderão aceder ao lado mais afável e agradável, e talvez melhorar a imagem que têm dele - ou talvez não...
Falando agora dos conteúdos do filme propriamente dito. O filme retrata uma parte importante da vida de Saramago, da sua vida conjugal e de cumplicidade com Pilar - a espanhola que alguns, ingenuamente ou por desconhecimento, acusam de nos ter roubado para Lanzarote o "Nobel Português". O filme não apresenta Pilar como uma mera personagem secundária, ela aqui é também uma figura principal.
Resumidamente, retrata-se no filme o período imediatamente antecedente e o da própria criação da obra "A Viagem do Elefante". Foi nesse período que Saramago adoeceu gravemente, o que implicou alongar o tempo das filmagens e que acabou por enriquecer dramaticamente ainda mais o resultado final. Em "José e Pilar", algo que me parece verdadeiramente enriquecedor é ouvir e ver, na primeira pessoa, as filosofias de vida e valores pessoais que defendem Saramago e Pilar, sendo que Saramago trata muito os temas da religião e do sentido da vida - quer antes quer depois da doença que quase o matou na altura. 
Mas a verdadeira mensagem deste filme é o Amor,  o exemplo de um amor único e muito próprio entre os dois que dão nome ao título. Esta apresentação deste amor serve, no fundo, para demonstrar quão diverso pode ser o próprio Amor, de como pode ser diferente conforme os contextos em que se desenrola e as personalidades envolvidas. Em "José e Pilar" apresentam-nos um Amor, um que o é verdadeiramente e que, por mais palavras que eu tente utilizar aqui para o classificar, não o poderei descrever, pois o amor sente-se e não se descreve por palavras - pelo menos não tão bem, no meu entender. No final do filme acredito que todos tenham, verdadeiramente, sentido algo com a exposição deste amor entre "José e Pilar".

domingo, 16 de janeiro de 2011

Van Gogh, o filme - um retrato de um ambiente de época

Esperava que o filme "Van Gogh", de Maurice Pialat, fosse mais uma obra biográfica completa, contendo todo o percurso de vida, de mais uma célebre personagem.da história - neste caso história da arte. No entanto o filme foge a esse estereotipo cinematográfico. A obra trata apenas os últimos 3 meses da vida do pintor, a sua fase final de vida, já depois do célebre episódio do auto-infligido corte na orelha. Van Gogh aqui é apresentado de uma forma desconcertante e repleta de comportamentos antagónicos. Ora simpático e sociável, auto-confiante e capaz de um sentido de humor inteligente, ora melancólico, antipático, anti-social e completamente descrente do seu talento. Mas o que me fez escrever sobre este filme não foi o modo como Pialat apresenta Van Gogh. O que verdadeiramente penso tornar este filme imperdível é o modo como é caracterizado o ambiente da época em que viveu Van Gogh. Como são mostrados os vários ambientes sociais e físicos, os hábitos e dia-a-dia das várias classes sociais do final de século XIX em França. Na obra vemos como as pessoas se alimentavam, onde viviam, como conviviam - as relações sociais e pessoais que tinham -, o modo como se transportavam, o que vestiam - e até como tomavam banho, não havendo aqui qualquer problema em mostrar o nu -, a música que ouviam e como dançavam. Não sei se viver no final do século XIX seria mesmo assim, no entanto tudo parece muito fidedigno e natural.
Mas de todos os ambientes expostos o que me pareceu mais cativante foi o do bordel. Lá vemos um Toulouse Lautrec adormecido, e provavelmente embriagado, numa cama partilhada por outros boémios e prostitutas. Até o bem conhecido o "cancan" aqui aparece retratado como uma dança popular, que quer homens quer mulheres, praticavam como expressão máximo do divertimento livre e sem preconceitos - pois todos a dançavam, individualmente ou em conjunto, independentemente do género.

Van Gogh pintou, sem dúvida,  belos quadros, mas Maurice Pialat gravou, usando como mote o nome do conhecido pintor, com cores e sons, um singular quadro cinematográfico de um ambiente de época muito característico.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

As disfuncionalidades urbanas das "Cidades Médias"

A propósito de uma investigação sobre mobilidade e transportes urbanos, peguei num livro que tinha comprado há algum tempo mas que nunca tinha chegado a abrir - ainda cheirava a novo. Comprei-o na altura por me parecer importante pelos conteúdos e pelos próprios autores - nunca se sabe quando se irá precisar de um livro sobre urbanismo.
Refiro-me à obra "Politicas Urbanas - tendências, estratégias e oportunidades", editada pela Fundação Calouste Gulbenkian e da autoria de Nuno Portas, Álvaro Domingues e João Cabral, entre outros colaboradores.
A partida de cartas - Fernand Léger
Estava eu simplesmente à procura de dados ou informações sobre mobilidade em cidades de morfologia urbana e social semelhantes a Leiria e acabei por me deparar com um resumo, por tópicos, das principais razões para a degradação, desorganização e disfuncionalidade que se pode assistir nas Cidades Médias (cidades como Évora, Faro, Guarda, Leiria, Castelo Branco, Viseu, Guimarães, entre muitas outras). Problemas esses que se traduzem em: descontinuidade urbana; desarticulação entre os vários espaços; problemas de mobilidade e congestionamento; descaracterização patrimonial, ambiental e social; falta de espaços públicos e privados de qualidade e de toda uma série de infra-estruturas urbanas dispostas em quantidades desadequadas e de forma pouco harmoniosa e equitativa; entre muitos outros fenómenos isolados ou combinados. É, no mínimo, auspicioso querer encontrar e resumir as causas para tudo isto, mas tendo em causa a reputação académica e profissional dos autores, poucos estariam em melhor posição para poder arriscar algumas explicações. Então decidi eu próprio arriscar e trazer aqui a tentativa do resumo e interpretação dessas mesmas palavras. Faço-o porque entendo  serem pertinentes as palavras dos autores e, mesmo que estas não sejam as derradeiras explicações, porque nos permitem reflectir sobre as possíveis causas do disfuncionalismo urbano que ainda hoje vivemos me Portugal.
Principais causas e razões que nas últimas décadas condicionaram negativamente a realidade urbana das cidades médias:
•    Aumento dos rendimentos e nível de vida que fez crescer o consumo e o aumento da aquisição e uso de veículos automóveis - aumento da motorização. Este aumento de tráfego originou e continua a contribuir para os congestionamentos rodoviários, especialmente em zonas onde as vias de comunicação e demais infra-estruturas urbanas não estão preparadas para o uso intensivo do automóvel - centros históricos por exemplo.
•    O aumento do investimento do Estado em infra-estruturas de serviços públicos (Saúde, Educação, Desporto, Cultura, etc.) que, aliado a baixas de taxa de juro, provocaram um crescimentos vertiginoso do sector imobiliário privado. Os serviços municipais não conseguiram responder a este crescimento súbito e explosivo, a desordem generalizou-se e as zonas de expansão urbana avançaram mais depressa que o ordenamento dos planos e do que a existência das infra-estruturas públicas e serviços públicos que as deveriam servir
•    Falta de articulação entre as Autarquias e o Estado na regulação das pressões expansivas do sector imobiliário que procurava ocupar cada vez maiores áreas, mesmo que sem infra-estruturas e sem atender aos impactos nos meios ambientais e urbanos.
•    Inicio tardio da aplicações das ferramentas de planeamento - por exemplo os PDMs - a um território já muito condicionado, desordenado e destruturado - quase caótico em alguns casos. Mesmo ao nível do traçado das novas vias de comunicação, devido às existências, criaram-se enormes dificuldades em dotar as zonas urbanas de mobilidade adequada e a custos sustentáveis.
•    A própria acção do Estado em construir as suas grandes infra-estruturas em solos baratos e periféricos, contribuindo ainda mais para a descontinuidade urbana e degradação das zonas já consolidadas.
As causas apontadas não surpreendem os mais despertos para os fenómenos associados às expansões urbanas das cidades portuguesas nas últimas décadas do século XX, mas mesmo sendo óbvias ainda hoje há quem as desconsidere a importância da regulação urbana e planeamento dos usos dos solos. As nossas ferramentas - se é que assim se podem chamar - de ordenamento do território e de planeamento urbano não estiveram à altura do crescimento económico e melhoria significativa da qualidade de vida que surgiram com o advento 3ª república - pós 25 de Abril -, foram incapazes de regular e controlar a pressão de crescimento e expansão urbana. No fundo crescemos quase sempre mal, crescemos de um modo insustentável e irreflectido sem ter em conta os efeitos e custos que isso teria no futuro. Hoje a factura chega-nos através da disfuncionalidade da grande parte das nossas cidades. Os custos para liquidar essa factura são agora incomparavelmente superiores ao que seriam se de inicio o planeamento tivesse sido uma realidade - pois é muito mais difícil desenhar algo quando a folha de base já está tão riscada e borratada. Penso não ser errado concluir que para crescer com sustentabilidade não basta liberdade e capital, é preciso também educação e responsabilidade - especialmente respeito e consideração pelo interesse público e pelo bem comum, seja lá o que isso for.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

César, Czar, Kaiser - títulos de imperador, apesar de Júlio César nunca o ter sido

Júlio César é uma das personalidades mais conhecidas da história. Invocar este nome é falar automaticamente de Roma, da cidade mas também do Império. No entanto Júlio César, apesar de ter liderado o povo de Roma durante alguns anos da sua vida, nunca foi formalmente Imperador de Roma, até porque na altura Roma era uma república e não um Império ou monarquia. Aliás, a sua morte aconteceu porque os senadores da república temiam o regresso da monarquia. 
Assassinato de Júlio César - Jean-Léon Gérôme
 Assim César morre em 44. a.C.,  assassinado pelos senadores de Roma, numa tentativa para manter a república - regime que à data durava quase há 5 séculos. 
A república de Roma nasceu quando o último rei de Roma foi expulso da cidade em 509 a.C.. Foi desde essa data que as famílias nobres de Roma - os patrícios - assumiram o poder através dum sistema de governo republicano, apesar dos vários conflitos e tensões com a Plebe que acabaria por ganhar também o seu papel e importância politica. Júlio César, já depois de ter sido cônsul (todos os anos eram eleitos dois cônsules como líderes políticos supremos de Roma, um modo de evitar a concentração de demasiado poder numa só pessoa), torna-se ditador de Roma (cargo temporário previsto apenas para situações excepcionais de instabilidade ou perigo para a república de Roma - isto porque na altura estava a decorrer uma guerra civil - que permitia que o nomeado não ter par com quem partilhar o governo e estar acima da lei). Como Júlio César foi  conseguindo que o cargo de ditador lhe fosse renovado por várias vezes - algo anómalo - os senadores de então ,considerando que a república corria perigo, começaram a conspirar contra o antigo general e agora ditador e acabaram por o assassinar.
Curiosamente o acto dos senadores assassinos não garantiria a continuidade da república por muito mais tempo. Passado alguns anos a república converteu-se em Império monárquico. Foi Octávio, sobrinho-neto de Júlio César, cognominado de o Augusto - "o magnifico" - verdadeiramente o primeiro Imperador Romano. Octávio, utilizou a herança de César para legitimar e consolidar o seu poder, mas mais que isso, adoptou e transformou o próprio nome do tio-avô num título Imperial - os Imperadores Romanos seriam intitulados de "Césares". Aliás, foi tão significativa a associação do nome César aos Imperadores Romanos que outros povos, inspirados pela magnificência do passado de Roma e por terem também eles próprios aspirações imperiais, adoptariam à sua própria língua o título de César como título de Imperador. Temos o caso do Imperador da Rússia que se intitulava de Czar e o da Alemanha que era conhecido por Kaiser.

Se a lembrança do seu nome é a única forma do Homem atingir a imortalidade, seguramente que César se tornou imortal e, para além desse feito já de si considerável, consegui ser também imperador de vários Estados ao longo da História, isto mesmo sem nunca ter sido Imperador da sua própria nação. 
Resta saber se realmente a sua suposta famosa ambição previu alguma vez tal sucesso - ainda que relativo.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O que é a Bolsa, e será que precisamos dela?

Numa altura que todos já andamos de bolsa vazia à conta das socialmente obrigatórias prendas de Natal, pareceu-me adequado abordar aqui o tema da Bolsa - a de valores, aquela que nos entra em casa pelos noticiários sem percebermos muito bem o que é. Na verdade, trago aqui o tema da Bolsa simplesmente porque descobri um texto pertinente sobre o assunto, da autoria do economista Frédéric Lordon e presente na edição portuguesa de Fevereiro de 2010 do Le Mode Diplomatique.
Governadores da guilda dos mercadores de vinho - Ferdinand Bol

Nesse texto, intitulado de «E se encerrássemos a Bolsa?», o autor critica as instituições Bolsistas e as operações que nela se fazem. Refere que essas actividades são de importância menor pois a maioria do emprego real e das empresas não estão cotadas em Bolsa e nem sequer têm relações directas com elas - o caso das PMEs portuguesas. Lordon revela algum dos seu radicalismo - mesmo que seja apenas estilística do próprio discurso - ao defender que poderíamos bem passar sem as Bolsas, especialmente porque hoje elas não servem o seu propósito fundamental e funcional: financiar as empresas e obter dividendos sustentáveis para os accionistas.
Mas o que me cativou especialmente neste texto é a simplicidade como se explica o que é a Bolsa e os seus objectivos. Vejam-se então as palavras do próprio Lordon:
"Certos agentes (as pessoas com poupanças) dispõem de recursos financeiros em excesso que procuram aplicações, ao mesmo tempo que outros  agentes (as empresas) procuram capitais; a Bolsa seria a forma institucional idónea que poria em contacto toda essa gente, efectivando o encontro mutuamente vantajoso das capacidades de financiamento de uns com as necessidades dos outros."
No entanto, Lordon, chama a atenção para as realidades e práticas nos Mercados Bolsistas, algo que anda longe do crescimentos e prosperidade económica sustentável que se pretendia - na prática, muitas vezes,  são as empresas que financiam a Bolsa e não o contrário. Lordon diz:
"Doravante, o que sai das empresas para os investidores [que exigem actividades de rendibilidade inalcançável] é superior ao movimentado em sentido inverso (...). Os capitais reunidos pelas empresas tornam-se inferiores aos volumes de cash sugados pelos accionistas e a contribuição líquida dos mercados de acções para o financiamento da economia tornou-se negativa."
Mas ainda falta considerar aqui o efeito da especulação, que,  segundo Lordon se relacionam com a sua anterior afirmação do seguinte modo: "Não havendo novas emissões de acções para absorver os referidos [anteriormente] volumes financeiros , estes limitam-se a engrossar a actividade especulativa".
As palavras do autor adensam-se ainda mais no tema das "Bolsas e Mercados Financeiros", mas o que salientava ainda do texto é a referência que se faz  ao evidente sentimento de estranheza e intangibilidade que estes temas provocam na opinião pública.

Nós que não somos economistas e que, quase todos os dias, somos bombardeados com as "coisas dos Mercados e das Bolsas", provavelmente, estaríamos bem melhor - pura especulação psicológica e social - se não nos chegassem todos os dias  informações, aparentemente negativas, que dificilmente podemos compreender - pois não podemos ser todos economistas. 
Não digo encerrar  mas poderíamos exigir o resfriar do alarmismo económico e bolsista que nos chega através dos Media todos os dias aos nossos lares.

sábado, 18 de dezembro de 2010

D. Quixote - o romance que satiriza o próprio romance

A obra «D. Quixote de La Mancha» é a obra prima de Cervantes e o livro laico mais impresso em todo o mundo. Cervantes quando escreveu esta sua obra, baseando-se na sua própria experiência e aventuras pessoais dramáticas - ora intensas e de aventura, ora de inércia e marasmo -, criou um género novo que rompia com o que se fazia na época, aliás, criou algo que criticava e que era uma sátira à literatura popular de então - aventuras e contos cavalheirescos onde destemidos heróis provavam a sua coragem e força, superando provas e obstáculos impossíveis, culminando quase sempre no salvamento de uma donzela encarcerada.
D. Quixote e a mula - Honoré Daumier
Assim, o autor de "D. Quixote", segundo o documentário "Cervantes e a Lenda de D. Quixote" da autoria de Daniel e Jaume Serra, escreveu este conto como critica àquilo que considerava ser baixa literatura: os contos e novelas de cavaleiros - por serem livros produzidos em massa sem cuidados mínimos na forma e conteúdo, desfasados de realidade e que serviam apenas para entreter sem nada transmitirem de verdade.  Em pleno século XVII, estando Espanha no seu auge, Cervantes, através da sua sátira, que foi muito além da mera crítica, redefine, involuntariamente - ou não -, o modelo literário daquilo que seriam os posteriores Romances: cria a figura do herói como manifestação que retrata a condição e limitações humanas; descreve e apresenta ideais e valores - incluindo as utopias - de indivíduos e sociedades através das suas personagens e ambientes; mistura humor e drama, os condimentos de uma história bem realista pois é assim que a vida de facto é, uma mescla de "bem e mal", de alegria e tristeza, sucesso e insucesso; e até, dizem os autores do documentário, concretiza pela primeira vez em personagens literárias os arquétipos da dualidade antagónica das parelhas de heróis, algo que será copiado e readaptado posteriormente na literatura e cinema (por exemplo: "Sherlock Holmes e Dr. Watson", "Bucha e estica",  entre muitos outros - basta pensar um pouco e logo muitas outras parelhas nos surgem).
Em jeito de resumo, Cervantes, com o seu D. Quixote de La Mancha (historia de um velho meio louco que se torna num cavaleiro andante, acompanhado pela voz da razão que é Sancho Pança, sempre à procura de aventuras, de defender os fracos e oprimidos, e de salvar a sua Dulcineia), para além de criticar um modelo de literatura do seu tempo que considerava inferior, redefine o modelo em que se irão basear posteriormente algumas das grandes obras do Romance e da Ficção Literária dos séculos subsequentes.

Agora pergunto eu - falando de arte e cultura -, será que alguém conseguirá pegar neste exemplo de acção criativa de  Cervantes e transformar algum "lixo" que nos invade em algo de novo e de qualidade?
Uma reciclagem cultural hoje provavelmente também não seria de todo despropositada a meu ver, pelo menos para alguns casos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Espadas Papais - o poder politico/religioso e as espadas

As Espadas, pelo menos desde o final do Império Romano do ocidente, quando as culturas nativas do centro e norte da Europa começaram a redefinir o que seria posteriormente o Ocidente, tiveram, para além do cariz militar, uma função de distinção social para quem as possuía.  
Homem sentado com uma espada e flor - Picasso
 Soberanos, descendentes das antigas tribos a quem os Romanos chamavam Bárbaros e que criaram os seus próprio reinos no vazio político que se formou a seguir à queda do império, praticavam uma espécie de Culto da Espada. Usualmente, esses Reis ou Senhores poderosos locais, ofereciam espadas como sinal de distinção para com os seus vassalos que lhes prestavam grandes e meritórios serviços - basta lembrarmo-nos do episódio de "armar  um cavaleiro", algo tão recorrente, por exemplo, no cinema histórico.  A Espada, nessa altura, estava associada à nobreza de carácter, estatuto social e até à virilidade - nas sociedades ocidentais europeias que se formaram no inicio da idade médias, os guerreiros (nobreza) estava no topo da pirâmide social.
Muitos heróis medievais, ou pré-medievais, míticos ou inspirados por personagens reais, foram imortalizados pelos romances cavalheirescos medievais. Até nós chegaram também o nome das suas espadas - sinal da importância destas ferramentas de fazer guerra e pelejar. Por exemplo: Siegfried lutava com a sua Balmung, Ogier com a Courtain, El-Cid com a Tizona e o Rei Artur com a famosíssima Excalibur.
Mas o uso das Espadas, enquanto atribuição de uma espécie de "medalha de mérito", não estava apenas generalizada pelo soberanos ditos laicos. O Papado, o herdeiro da burocracia e cultura do Império Romano do Ocidente - o único poder internacional que conseguia dar alguma unidade ao mundo Medieval Feudal -, entre o século XI e XIX atribuiu as suas próprias Espadas Papais. As Espadas Papais caracterizavam-se por  ser "armas de lâmina longa usadas por pontífices como símbolo de respeito e admiração por parte, essencialmente, dos chefes militares que estes julgavam merecedores do título de "defensores da fé" (...)"(2). Consta que "era tradição que as espadas fossem benzidas pelo papa no dia de Natal, e, durante séculos, era raro que este dia passasse sem que algum governante ou herói militar fosse honrado desta maneira" (2). O culto das espadas estava muito enraizado, tal como a sua ligação à Igreja Católica (ou por outro lado, a igreja é que também se associou ao cultos dos descendentes das tribos bárbaras - uma aculturação, intencional ou não), que, através da sua estrutura burocrática - que poderíamos ver como um espécie de continuidade do império romano do ocidente - a quem todos, apesar de terem alguma autonomia política, deveriam respeitar e prestar tributo físico e espiritual.
Claramente, hoje as Espadas ainda são vistas como objectos de distinção, mas não me parece que, numa sociedade em que o catolicismo (ou outro tipo de cristianismo) supostamente se separou do Estado e que essas mesmas religiões apelam agora à paz e ao fim dos confrontos armados - pelo menos as religiões maioritárias praticadas no Ocidente -, fosse aceitável que se oferecesse, como sinal de distinção religiosa, algo relacionado com as artes bélicas. Mas não nos podemos esquecer que as espadas sempre foram mais do que instrumentos de corte ou estoque

Fontes: 
1 - A queda de Roma e o fim da civilização - Bryan Ward-Perkins  
2 - Espadas, Adagas e Alfanges - Gerard Weland

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

«A corrupção e os Portugueses» – o livro que inspirou uma petição

Hoje assinala-se o «dia Internacional de luta contra à Corrupção». Por isso, nada mais adequado e pertinente do que trazer aqui ao blogue uma espécie de análise/resumo de um livro que, para além da aquisição de saber que proporcionou, inspirou a criação de uma petição – que pretende propor uma nova abordagem de combate a esse mal social que é a corrupção. A petição em causa, intitulada de “Combate à corrupção através da consciencialização, informação, formação e educação”, surge da convicção - e para mim premissa válida - que a informação e educação podem ser utilizadas para fazer reduzir a corrupção. Seguramente que esta não é a única solução para o problema – isso seria ingenuidade – mas é uma possível abordagem e solução que tem sido sistematicamente descurada. Para além dos mecanismos jurídicos e penais imprescindíveis ao combate à corrupção – que falham sistematicamente em Portugal -, há que apostar também na prevenção através do ensino de valores e do desenvolvimento de uma consciencialização ética nos portugueses, especialmente nos mais novos. Já num anterior texto aqui do blogue referi o exemplo de uma aplicação semelhante que teve sucesso no nosso país: a consciencialização ambiental. De como, através da educação e formação, se conseguiu mudar o modo como os portugueses pensam e actuam sobre o ambiente. Chegou a altura de tentar fazer algo de semelhante para o combate à corrupção.
Proverbios falmengos - Pieter Bruegel
Mas passemos à análise do livro propriamente dito que é a principal razão de ser deste texto. A obra “A corrupção e os Portugueses – práticas – atitudes – valores”, da autoria e coordenação de Luís de Sousa e João Triães e que conta com a colaboração de outros investigadores, é a concretização em livro, de modo a chegar a grande público, do estudo “Corrupção e ética em Democracia: O Caso de Portugal”. Foi principalmente esta obra que me levou à tomada de consciência de que é preciso agir e fazer algo para mudar a sociedade portuguesa - o que resultou na elaboração, em conjunto com outras pessoas, da petição anteriormente referida. Voltando ao livro, os autores conseguiram nesta obra concretizar algo que nem sempre é fácil: um conjunto de textos independentes mas interligados que tratam o tema principal – a corrupção em Portugal-, recorrendo a uma linguagem acessível, devidamente enquadrada com dados estatísticos gráficos, e sintetizada por um resumo final que serve para organizar e cimentar os assuntos tratados.
O resumo final está tão bom que irei usar os mesmos títulos em que se subdivide, pois não consigo encontrar palavras mais adequadas do que as lá empregues. Quanto aos conteúdos evitarei a corrupção do plágio – o mínimo que posso fazer do ponto de vista ético, apesar da intenção aqui ser a melhor.
O triunfo da Morte - Pieter Bruegel

Concepção minimalista da corrupção
Aqui é analisada principslmente a dimensão ética do fenómeno. Os autores referem que, aqueles comportamentos que claramente violam a lei ou que estão relacionados com actos políticos são mais condenados pelo cidadão comum, independentemente de serem considerados na lei ou de terem uma interpretação duvidosa. Refere-se também que é comum os portugueses exigirem mais aos “outros” do que a si próprios, mesmo que inconscientemente.
Os Portugueses fazem mais do que a Lei o permite e menos do que a ética o exige

Mistura de Géneros
Este foi um dos principais pontos que levaram à criação da petição. Os autores afirmam que em Portugal não se definem com exactidão os limites entre as esferas públicas e privadas, ou que isso pelo menos não está bem disseminado pela nossa sociedade. Aliás, vão mais longe, defendem que os baixos níveis de formação, e uma deficiente compreensão dos fenómenos de corrupção, expõem e fazem os portugueses enveredar por práticas de clientelismo.

País de cunhas
O fenómeno cultural e social da corrupção manifesta-se aqui neste ponto. Defendem os autores que a maioria da corrupção que se pratica em Portugal é mais ao nível dos favores do que de dinheiros ou bens propriamente ditos – a dita cunha. Trata-se de um desvirtuamento das sãs trocas e sinergias sociais que deveriam promover a igualdade de oportunidades.
Aqui a cunha e a corrupção são apresentadas, para alguns elementos da sociedade portuguesa, como um modo de ultrapassar as dificuldades da burocracia da administração pública, como “um lubrificante que oleia a engrenagem do sistema” – uma actividade perniciosa que tanto prejudica o bem comum.
Algo muito caricato, e que os autores reforçam, ainda neste ponto é que este tipo de clientelismo é socialmente aceite de ser praticado pelo “cidadão comum” mas não pelo “cidadão político”, especialmente se for praticado em prol de familiares ou amigos dos agentes e actores que concretizam a corrupção – novamente a dimensão ética em causa.

O gosto pela repressão e a incapacidade de denúncia
A referência aos 48 anos de ditadura surge nesta parte, ela é referida como uma das explicações para a concepção rudimentar que os portugueses têm da corrupção, nomeadamente com o modo como os cidadãos não usam do direito de denúncia e não exercem vigilância nem condenam socialmente quem pratica a corrupção. Emprega-se aqui o termo “pacto oculto” para o fenómeno social da corrupção. “Apesar da maioria dos portugueses afirmar que denunciaria às autoridades um caso de corrupção do qual tivessem conhecimento, na realidade recolhem-se ao silêncio e à indiferença”.
A literacia e a cidadania activa, ou falta dela, são apresentadas como outras condicionantes. Os autores afirmam que “a democracia portuguesa goza de uma cidadania informada (ainda que com grandes deficiências na qualidade, sobretudo no acesso à informação), mas politicamente pouco formada” - esta referência à uma falta de formação cívica foi uma das considerações tidas na petição – que tem imensos e inquantificáveis impactos sociais e económicos no Portugal contemporâneo.

Sensacionalismo dos Media e a sede de voyeurismo dos cidadãos
Em Portugal, para os autores, não se consegue conjugar a função informativa dos Media com o devido respeito pela vida privada, especialmente a dos políticos. Isso transparece novamente numa deficiente cidadania e incapacidade de compreender e participar na política – por vezes é mais discutida a personalidade dos políticos do que as politicas que praticam. Transparece a ideia de que os portugueses têm uma visão mitológica/púdica dos seus políticos, que tendem a averiguar se os seus políticos serão pessoas como eles próprios e, invariavelmente, exigem-lhe atitudes e comportamentos éticos que os próprios não praticam. Isto é explicado também pela artificialidade com que os políticos são apresentados aos portugueses, frutos de operações de cosmética e técnicas de marketing que os tornam desumanizados.   

Aconselho convictamente a leitura integral desta obra e deixo à vossa consideração também a leitura, assinatura e divulgação da petição que resultou da leitura deste livro.

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