sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Moisés – um dos grandes generais da história?

No documentário «Batalhas Lendárias: Moisés perseguição mortal» (ou no original «Batles BC: Moses death chase») é feita, segundo uma perspectiva militar, toda uma nova abordagem ao episódio bíblico do êxodo (saída e fuga do Egipto dos Israelitas por volta do século XIII a.C., depois de uma permanência nas terras dos Faraós de cerca de 400 anos – pelo menos pelo que conta bíblia). Nesse documentário Moisés é apresentado mais como um chefe político e militar do que propriamente religioso, mesmo sem o excluir de tal papel - até porque nesses tempos antigos não se faziam o tipo de distinções de papéis que hoje se tenta fazer.
Viagem de Moisés para o Egipto -  Pietro Vannucci Perugino
Na Bíblia, mais concretamente no livro do Êxodo, é descrita a fuga dos israelitas e a consequente deambulação pelos desertos entre Egipto e Canaã, sempre escapando e evitando a adversidade rumo à terra prometida e aos combates que lá teriam de travar para a conquistar. Até aqui nada de novo mas tudo muda quando se começam a analisar alguns desses eventos, que normalmente são atribuídos a intervenções do Deus dos Israelitas, como meras estratégias e tácticas militares provenientes do génio e chefia de Moisés.
Primeiro, no documentário os Israelitas são tidos como guerreiros ao serviço dos Faraós, dai a sua permanência em terras do Egipto, mais concretamente no Nordeste do delta. Aí formavam um exército irregular controlável - pelo Faraó - que constituía uma barreira entre as riquezas do império do Nilo e potenciais povos invasores.
Foi a alteração de estatuto e das condições de serviço ao Faraó que levou os Israelitas à revolta e à saída do Egipto. Supostamente, perderam o estatuto de defensores e guerreiros para o de agricultores e artesãos. Isto aconteceu porque os Egípcios pois começaram a temer que os Israelitas – que eram um importante força militar - e a considera-los como potenciais invasores e conquistadores.
A perda de estatuto obviamente desagradou aos Israelitas, de tal modo que decidiram levar todos os bens que acharam necessários e, sob chefia de Moisés, partiram rumo à terra prometida. De notar que no texto hebraico a palavra usada para descrever a acção dos israelitas é “saquear” e não “pedir” viveres, provavelmente a razão que levou o Faraó a persegui-los posteriormente.
Milagre da Água que sai da rocha de Moisés - Jocopo Tintoretto
Já fora do Egipto, é deserto que a astúcia e genial liderança militar de Moisés se manifesta, pelo menos segundo o documentário em causa. Moisés viveu anteriormente muitos anos nesses desertos, o que fazia dele um conhecedor do terreno – um pressuposto fundamental para boas decisões estratégicas e tácticas no que toca ao comando de exércitos. Moisés conhecia também a organização dos exércitos Egípcios e usou essa informação para os derrotar – principio militar de recolha de informações sobre o inimigo.
No documentário analisa-se o episódio da coluna de fogo e nuvem de fumo que acompanhavam a frente, respectivamente de noite e de dia, da marcha israelita, fenómeno que na bíblia é tido como a manifestação de Deus guiando o seu povo escolhido. No entanto esta manifestação pode ter sido apenas uma imitação dos modos de conduzir e organizar exércitos em marcha segundo os preceitos egípcios, pois era comum que usassem recipientes elevados com brasas incandescentes na frente das colunas de marcha dos seus exércitos. Durante o dia tapavam essas brasas provocando fumo que se via à distância servia para guiar os exércitos, durante a noite atiçavam as brasas de modo a formarem um sinal luminoso igualmente visível à distância. Moisés, aplicando o seu génio militar, inverteu este sistema de comando confundindo os Egípcios que o perseguiam. Colocou o recipiente das brasas à cauda da coluna de marcha e não à cabeça, o que fazia crer aos egípcios que os israelitas andavam perdidos e se aproximavam.
Num outro episódio Moisés usou as chamas para novamente enganar os egípcios. Numa determinada noite, quando os egípcios acampavam perto de si, colocou fogueiras entre o seu povo e os Egípcios, permitindo-lhe esgueirar-se durante a noite mesmo em frente aos olhos egípcios sem ser por eles notado. Já na altura se sabia uma luz numa noite escura oculta o que se passa para além dela. Foi nessa derradeira fuga que Moisés utilizou novamente os seus conhecimentos do terreno, atravessando o Mar de Juncos - e não o Mar Vermelho como se costuma afirmar. Esse Mar era uma espécie de pântano, muito afectado pelas marés e pelos ventos, sendo que em marés baixas e com ventos favoráveis podia de ser atravessado a pé. De manhã, quando os Egípcios tomaram consciência que tinham sido ludibriados decidiram atravessar o Mar de Juncos de Imediato. No entanto, nessa altura, a maré começava de novo a subir e inutilizou os carros de combate egípcios – a principal forma de combate dos faraós – que ao tentar atravessar se atascavam no pântano alagado.
 
Por estes e outros episódios, tendo em conta uma análise militar, bem que Moisés, a ter existindo enquanto figura histórica, pode ter sido um dos melhores generais e estrategas da história militar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Uma retrospectiva, síntese e opinião histórico-económica do estado da economia

Hoje trago aqui ao blogue um texto sobre economia – da pura e dura. Trago este texto pois faz uma análise simples, objectiva e concisa sobres as causas que causaram a situação económica que hoje vivemos em Portugal. O texto em causa intitula-se «PIIGS versus FUKD: dilemas do pensamento económico provinciano», da autoria de João Pinto e Castro e publicado no Le Monde Diplomatique de Março de 2010 na sua versão portuguesa.
A última ceia - Frida Kahlo
Então o autor começa assim: “Ora o que se passou em Portugal era perfeitamente previsível à luz da elementar teoria económica: baixando rapidamente os juros, aumentou como consequência directa e imediata o endividamento dos particulares, das empresas e do Estado, ao mesmo tempo que baixava a poupança interna. Rareando a poupança interna, os bancos foram buscá-la ao exterior, daí resultando o rápido crescimento do endividamento externo (…) a entrada de em força das exportações chinesas na Europa, completada pelo livre acesso ao mercado dos países de leste. Mercê de uma economia frágil e pouco qualificada, a indústria portuguesa soçobrou. (…) a integração na zona euro privou Portugal de instrumentos de política económica que ajudassem a reagir às suas dificuldade.”
A nível internacional: “no do fatídico mês de Agosto de 2007. O pior parece ter sido evitado a partir do momento em que intervenções maciças dos governos permitiram deitar mão a sistemas bancários à beira do colapso e estimular a procura intervindo em sectores e empresas e lançando investimentos públicos de emergência. (…) Eis porém, que por todo o mundo se ergue um coro de protestos contra o rápido crescimento do endividamento dos Estados e um existência de medidas urgentes para controlar a situação”
Estas palavras do autor - que tive de extrair desmembrando o texto original pois é muito mais complexo e longo - penso serem capazes de sintetizar alguns dos acontecimentos que nos levaram ao actual panorama económico.
"
Continuando com mais exemplos e com algumas perspectivas inovadoras: “(…) a dívida não é tudo. (…) o aumento do endividamento não é a causa dos problemas, mas um mero sintoma. (…) se o que conta é o nível da dívida em proporção do produto, uma quebra acentuada do produto pode contribuir para agravar ainda mais a situação ao contrariar os recursos quer permitiriam pagá-las.(…) se às persistentes quebras do consumo e do investimento privado sem fim à vista somarmos a da dívida pública, o mundo entra em colapso. (…) Estamos perante uma um impossibilidade lógica: se alguém exporta é porque alguém importa; ao nível global é, portanto, impossível todos crescerem por essa via.”
Agora as soluções do autor, embora possam ser pouco vagas, vale a pena referir para completar aqui a exposição do artigo: “A necessidade de reformar o sistema monetário europeu deve ser decididamente assumida e colocada em cima da mesa. (…) questionar  os objectivos do BCE [Banco Central Europeu] que escandalosamente secundizaram o crescimento e o emprego, exigir maior transparência no seu funcionamento; e impor-lhes a obrigação de prestar contas. (…) [implementar uma] centralização orçamental deveria por sua vez ser acompanhada de um reforço dos poderes do Parlamento Europeu para assegurar o controlo democrático do processo político.”
Abraço amoroso - Frida Kahlo
Concorde-se ou não com o autor, com partes ou com o todo, este excelente texto, cheio de exemplos e relações que tornam a história recente económica mais tangível, permite-nos reflectir sobre estes eventos e acontecimentos que hoje nos afectam. Nem que seja nas noticias que nos chegam todos os dias pelos Media.

domingo, 3 de outubro de 2010

Afinal quantas repúblicas existiram em Portugal, 3 ou 2?

Ontem tive o enorme prazer de ter assistido a uma conferência intitulada de «Da monarquia à Republica» em que o principal orador foi o professor Amadeu Carvalho Homem - catedrático de história da Universidade de Coimbra.
As promessas - José Malhoa
Nessa sua intervenção o professor descreveu e relatou os eventos que desde o século XVIII até ao inicio do século XX levaram e culminaram na primeira república em Portugal. Ao longo das suas várias intervenções, para além dos preciosos conhecimentos que partilhava, o professor deixou-nos a seguinte ideia: "Portugal teve apenas duas repúblicas e não três". Fundamentou esta sua tese argumentando que o Estado Novo não deveria ser considerado como uma verdadeira república, pois de república só tinha o nome porque os ideais republicanos nunca foram verdadeiramente praticados pelo regime salazarista. Disse mais ou menos o seguinte: “o Estado Novo de república só tinha os selos e a moedas, só ai é que a república se via e aparecia”.
Que o regime tinha sido anti-democrático é uma ideia que nada surpreende, mas de que não se tratava de uma verdadeira república, na minha modesta opinião, já surpreende – pelo menos aparentemente. No entanto se analisarmos os princípios pelos quais se regem os ideais republicanos – Igualdade, fraternidade e liberdade – dificilmente os encontramos no Estado Novo. A liberdade não existia pois tratava-se de um regime totalitário e autoritário, pois até o sufrágio universal era um embuste. A igualdade também era inexistente pois os cidadãos não detinham os mesmos direitos nem eram considerados pelo Estado de igual modo nas suas vontades e aspirações. A fraternidade também pouco era defendida pelo Estado pois tal não pode existir pela imposição ou força e não havia a preocupação em fomentar a fraternidade pela educação e pelos serviços de um modo universal que promoverem a cidadania activa – ainda hoje sentimos os reflexos da falta de cidadania e envolvimento cívico dos cidadãos.
Assim, confesso que fiquei rendido a esta tese do professor A. C. Homem - acho que não erramos quando dizemos que tivemos apenas duas republicas em Portugal, porque mesmo que não sendo perfeitas, a de 1910 e a de 1974 pelo menos tentaram implementar os ideais republicanos enquanto que a de 1933 os esqueceu e de republica teve apenas o nome.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O filme: Paranoid Park

Paranoid Park foi o vencedor do prémio do 60º aniversário do festival de Cannes de 2007 e é um dos filmes mais conhecidos de Gus Van Sant - confesso que foi isto, aliado a ser um dos DVDs da minha cinemateca, que me levou a escolhe-lo como filme para ver hoje.
Assim que comecei a visionar o filme percebi que tão altas referências tinham a sua justificação, algo que se sentia pelo que se via e ouvia à medida que a película ia rolando – metaforicamente falando é claro pois quase tudo hoje se passa através de meios digitais.
O filme é uma bela conjugação de sonoplastia com sons não naturais à acção mas que, aliados a uma banda sonora diversificada e bem original inserida em momentos precisos, conseguem acentuar a carga dramática e dar movimento ao filme, apesar de muitas das cenas serem lentas. Algumas cenas são dignas de ganhar distinção pela qualidade da fotografia, já outras parecem toscas e não tratadas – muito provavelmente assim apresentadas para caracterizar ambientes mais disfuncionais.
A acção parece desorganizada e quase confusa, mas quanto a mim é só mais uma técnica que o realizador utiliza para descrever os estados de espírito e psicológicos da personagem principal. No filme é dado grande foco às expressões faciais - aqui as expressões das personagens dizem mais que mil palavras.
Quanto à história, bem, sem revelar muito, trata-se de uma história que envolve um adolescente que é colocado numa situação trágica altamente improvável. Esse drama principal que nos é apresentado aloja-se no quotidiano de uma faixa etária muito específica – a adolescência – e numa época muito precisa – a actualidade.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Livro: Platão e um ornitorrinco entram num bar...

 Trago aqui mais um livro de filosofia e humor, desta vez uma edição da Dom Quixote, que tem um curioso título, ora veja-se o nome: «Platão e um Ornitorrinco entram num bar… - filosofia com humor». Thomas Cathcart e Daniel Klein (ambos licenciados em filosofia) criaram uma obra singular. Nela introduzem os grandes temas da filosofia com algumas curtas explicações e explanações mas sempre com anedotas a elas associadas. Trata-se de uma forma bem leve e divertida de fazer uma introdução à introdução da filosofia. Não é de estranhar que o livro faça parte do Plano Nacional de Leitura pois é bem capaz de desmistificar e seduzir jovens e graúdos para a curiosidade pela filosofia.

Deixo então aqui algumas das piadas utilizadas, respectivamente categorizadas segundo os temas filosóficos que tratam.

Metafísica (Racionalismo)

O optimista diz «o copo está meio cheio»
O pessimista diz: «o copo está meio vazio»
O racionalista diz: «o copo tem o dobro do tamanho necessário»

Lógica (argumento indutivo por analogia)
Três estudantes de engenharia estão a debater que tipo de Deus terá concebido o corpo humano. Diz o primeiro:
- Deus deve ser um engenheiro mecânico. Reparem em todas as articulações.
- Eu acho que Deus deve ser um engenheiro electrotécnico. O sistema nervoso tem milhares de ligações eléctricas – defende o segundo.
- Na verdade, Deus é um engenheiro civil. Quem mais passaria um tubo de desperdícios tóxicos através de uma área recreativa? – diz o terceiro.

Ética (virtude platónica)
Numa reunião de faculdade, um anjo aparece inesperadamente e diz ao chefe do Departamento de Filosofia:
- Conceder-te-ei qualquer uma das três bênçãos que escolheres: Sabedoria, Beleza… ou 10 milhões de dólares.
O professor escolhe a Sabedoria sem qualquer hesitação.
Vê-se um clarão de um relâmpago e o professor parece transformado, mas continua sentado a olhar para a mesa.
Um dos colegas sussurra:
- Diz alguma coisa.
- Devia ter pedido o dinheiro – diz o professor.

Ética (o imperativo categórico supremo e a velha regra de ouro)
«não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem; eles podem ter gostos diferentes»

Filosofia da Religião (distinções teológicas)
Um homem chega às portas do céu e São Pedro pergunta-lhe:
- Religião?
- Metodista – responde o homem.
São Pedro olha para a lista e diz:
- Vá para a sala 28, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
Outro homem chega às portas do céu.
- Religião?
- Baptista.
- Vá para a sala 18, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
Um terceiro homem chega às portas .
- Religião?
- Judeu.
- Vá para a sala 11, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
- Até posso compreender que haja salas diferentes para religiões diferentes – diz o homem -, mas porque é que não posso fazer barulho quando passar pela sala 8?
- As Testemunhas de Jeová estão na sala oito – explica São Pedro – e pensam que são os únicos que estão aqui.

Existencialismo
Duas vacas estão num campo. Diz uma para a outra:
- Que pensas sobre a doença das vacas loucas?
- Que me interessa isso? – diz a outra – Eu sou um helicóptero.


Filosofia da Linguagem (a filosofia da imprecisão)
Uma mulher de 80 anos entra na sala de convívio dos homens do lar de terceira idade. Ergue o punho o ar e anuncia:
- Quem adivinhar o que tenho na mão pode fazer sexo comigo esta noite!
- Um elefante! – grita um velhote ao fundo da sala.
A mulher pensa durante alguns instantes e responde:
- Resposta certa!


Agora para saber mais, incluindo as relações destas piadas e histórias engraçadas com a Filosofia e devida explicação por parte dos autores, nada como lerem toda a obra!.- coisa que se faz muito rapidamente!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Afinal de onde vêm e quem são os idiotas?

Algumas palavras têm origens etimológicas bem curiosas. Algumas têm um significado actual que sofreu tantas alterações que pouco se relaciona com o seu significado original. A palavra «idiota» é em parte uma delas – posso dizer que fiquei um tanto ou quanto “idiota” quando descobri a sua origem.
Escritório de algodão em Nova Orleães - Edgar Degas
Tinha acabado de passar a vedação que dá acesso à acrópole de Atenas quando a nossa guia se detém junto do anfiteatro de Heródoto Ático. Aí, depois de fazer uma introdução aos vários monumentos que iríamos ver e de fazer uma breve antologia da história política e social da democracia ateniense da antiguidade, faz-nos a seguinte pergunta em espanhol: Sabem qual a origem e significado a palavra idiota? Ninguém foi capaz de responder, mas logo ouvimos a sua explicação, evitando um prolongado silêncio quase constrangedor devido à nosso ignorância. Segundo ela o termo idiota era um adjectivo usado para caracterizar todos aqueles, que durante a vigência da democracia em Atenas, não se interessavam ou não estavam disponíveis para participar no governo e assuntos do Estado Democrático – pois a existência de tal forma de governo pressupunha o envolvimento e participação de todos os cidadãos, podendo e devendo todos estar de igual modo disponíveis para governar. Todos ficámos espantados com tal explicação.

Posteriormente fiz uma pequena investigação sobre a etimologia da palavra de modo a testar a veracidade destas palavras. Parece que o termo em grego antigo seria «idiótes», palavras que significava “homem privado”, ou seja, homem sem interesse pela causa pública. Os antigos gregos consideravam, ou não fossem especialistas em política e filosofia, que todos os que não participavam activamente no governo das suas polis, aqueles que não eram políticos, era porque não tinham a devida capacidade intelectual para tal. Mais tarde o termo «idiota» foi readaptado e reutilizado pelos romanos para caracterizar todos aqueles que eram incapazes de acções e raciocínios complexos, entre outras lacunas intelectuais.

Na actualidade acho que é caso para dizer: as idiotices de alguns (segundo o modelo romano) levam outros a optarem pela idiotice (segundo o modelo grego). Provavelmente é só mais um dito de um idiota da minha parte…

sábado, 18 de setembro de 2010

Algumas razões para a existência de corrupção nos Partidos Políticos

Na obra ‘Corrupção e os Portugueses – Atitudes, práticas e valores’, da autoria de Luís de Sousa e João Triães, são avançadas algumas teorias que explicam a relação entre os partidos políticos e a corrupção – a razão de ocorrerem e porque são propensas essas instituições a essas práticas. Este fenómeno e explicado de um modo tão simples e objectivo – sem recurso a um discurso anti-partidário ou a favor de uma qualquer ideologia –, por isso que penso que vale a pena trazer aqui algumas palavras dessa obra ao blogue.
As tentações de Santo Estevão (ou Antão) - Hieronymous Bosch
 Segundo Carlos Jalali, o autor do texto – pois esta obra é um compêndio de vários textos direccionados para assuntos específicos mas sempre dentro do mesmo tema -, que aborda e discute este assunto, o afastamento dos cidadãos face aos partidos políticos torna-os mais propensos aos actos de corrupção. Ora vejamos as palavras do autor:
“Por um lado, este afastamento leva a uma redução do número de militantes, reduzindo as receitas provindas dessa fonte. Por outro lado, aumenta os custos: os partidos não podem recorrer aos seus militantes para as suas campanhas, tendo de recorrer a outras e dispendiosas formas de campanha. Por outro lado, a consequente redução da identificação partidária obriga os partidos a competirem por um mercado eleitoral mais amplo, o que também obriga a maiores gastos.” (pp. 140)

São estas dependências cada vez maiores de capital para viverem, actuarem e fazerem campanhas e iniciativas várias, devido à cada vez maior falta de militantes e participação política dos cidadãos, que fomentam e fazem com que o manto da corrupção paire e caia muitas vezes sobre os partidos políticos.
A meu ver, isso poderia e deveria ser combatido com mais participação política dos cidadãos através dos vários partidos existentes ou novos que se pretendam criar, algo que resultaria seguramente em mais benefícios para a sociedade no geral, e diminuiria a tão indesejada corrupção destas instituições que deveriam ser, por natureza, anti-corruptas e defensoras do bem comum.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

Nike - Paionios
Ignoramos a origem e significado de muitas das actuais marcas. Uma delas, por ser uma das mais conhecidas marcas de desporto e roupa, merece umas quantas palavras pois tem uma origem que remonta a lendas, mitos, religiões de há vários milénios e até de eventos históricos da antiguidade.
Nike era a Deusa Grega da Vitória, uma deusa representada como uma jovem alada. Os atenienses tinham especial devoção por esta deusa e ergueram templos em sua honra para assinalar as vitórias militares que foram tendo. Muitas vezes esses cultos eram conjugados com outros dedicados à própria Atena – deusa protectora da cidade de Atenas, deusa da sabedoria e da guerra justa.
 Consta que os Atenienses, quando ganharam a Batalha de Maratona (490 a.C.), enviaram o seu melhor corredor, de seu nome Filípides, para levar a notícia da vitória  até à cidade de Atenas. A velocidade era urgente pois os Persas tinham prometido que quando chegassem a Atenas destruiriam a cidade, violariam as mulheres e torturariam até à morte todos os que encontrassem. Por isso, tinha ficado decidido que se os soldados atenienses perdessem a batalha as mulheres matariam os seus próprios filhos e se suicidariam de seguida, evitando colocar os seus destinos nas mãos dos Persas. O mensageiro percorreu os cerca de 42 quilómetros que separavam Maratona de Atenas – razão para a distância da actual prova olímpica da maratona (prova que não constava nos jogos olímpicos da antiguidade) – tendo parado somente quando chegou à acrópole (local mais alto e importante de uma cidade grega) de Atenas de onde gritou Nike!!! (Vitória), anunciando assim aos atenienses que tinham ganho a batalha contra os Persa. Conta a lenda que o corredor morreu de exaustão (ou de desidratação) assim que acabou de fazer o seu bem-aventurado anuncio. Esta História/Lenda é um exemplo de quando a história toca sem fronteira verdadeiramente definida o mito. Dificilmente sabemos a verdade dos acontecimentos, até porque Herodoto diz que Filípides foi primeiro a outras cidades-estado gregas pedir ajuda, pois não era certo que a vitória fosse completa devido aos enormes recursos do Império Persa, tendo para isso percorrido em 2 dias mais de 200 quilómetros.

Friso de Nike em Éfeso
No século passado a marca Norte-americana Nike foi criada por inspiração e alusão directa à Deusa grega da Vitória, obtendo dela o seu nome e o seu símbolo que é alusivo às asas dessa mesma divindade mas também ao modo como é representado o vestido da Deusa ao vento um friso que ainda hoje se encontra na cidade de Éfeso na Turquia. Para além dessas explicações, também era comum na antiguidade utilizar como saudação ou gesto de vitória um sinal que se fazia com a mão aberta unindo todos dedos à excepção do polegar, formando uma espécie de V assimétrico, algo muito parecido com o actual símbolo da conhecida marca de desporto.
Apesar de muitas das nossas actuais invenções e criações poderem parecer muitíssimo originais, a grande maioria delas vive de ideias do passado.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O mais revolucionário dos revolucionários portugueses: Hermínio da Palma Inácio

Um dos actuais best-sellers nacionais é um livro sobre História - estranho pois os tops de vendas costumam ser ocupados apenas por romances e ficções. O livro ‘Histórias Rocambolescas da História de Portugal’ da autoria de João Ferreira é um misto de livro de curiosidades, jornalismo de investigação e compêndio de episódios caricatos e muito particulares da História de Portugal. Não se trata de uma obra académica de História mas tem o grande mérito de fazer despertar no público geral, através da sua leitura, o interesse e o gosto pela História Nacional – pois os vários episódios são, na medida do possível e não fastidiosamente, argutamente completados pelo indispensável enquadramento histórico.
(sem título) - Jean-paul Riopelle
Da obra de João Ferreira poderia ter escolhido muitas das várias referência rocambolescas – segundo as palavras do autor – mas decidi-me a escolher aquela que mais me surpreendeu e que penso ser a menos conhecida. Escolhi o episódio onde são relatadas as aventuras de Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), episódio rocambolesco intitulado de ‘Palma Inácio – o último revolucionário romântico’. Palma Inácio foi o derradeiro revolucionário português do século XX, quiçá de toda a História de Portugal. Tinha formação em mecânica de aeronáutica militar e curso de piloto civil. Já em 1947 participou numa tentativa falhada de golpe de estado encetada pelo General Marques Godinho, tendo por isso sido preso e torturado pela PIDE – apesar de ter sido durante 12 dias sujeito à tortura da “estátua” nunca denunciou o seu contacto. Em 1949 concretizou uma fuga rocambolesca: saltou de uma janela a 15 metros de altura com o auxílio de 4 lençóis amarrados; durante o salto foi detectado pelos guardas, os quais derrubou tendo desaparecido juntamente com aos transeuntes que passavam; posteriormente fugiu para Marrocos num cargueiro.
Concretizada a primeira fuga, foi viver para o Brasil onde montou duas empresas de modo a acumular capital para futuras acções revolucionárias, mantendo-se sempre em contacto com a resistência ao regime de Salazar.
Em 1961 coloca em prática a ‘Operação Vagô’: P. Inácio torna-se o primeiro «pirata do ar» ao, em conjunto com 5 companheiros, controlar e desviar um avião da TAP, fazendo-o sobrevoar algumas cidades do sul (Barreiro, Setubal, Beja e Faro) em voo rasante de modo a bombardeá-las com panfletos revolucionários anti-regime e a evitar ser detectado pelos caças da força aérea; a operação de sequestro foi realizada sem qualquer violência (tendo a tripulação chegado mesmo a colaborar e os passageiros a se aperceberam do sucedido só quando aterraram e foram brindado com champanhe, rosas e um pedido de desculpas de Palma Inácio) e plena de sucesso, tendo novamente P. Inácio fugido às mãos do Regime Salazarista e voltado ao Brasil.
Em 1967 decide, em conjunto com outros revolucionários de esquerda, pôr em prática um assalto que financiaria mais actividades revolucionárias e feriria o orgulho do regime. Assim, assaltam à cara destapada – pois tratava-se de um acto político - a delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz, tendo o grupo fugido com o equivalente a uns actuais 5 milhões de euros para França. Com esse dinheiro os assaltantes políticos compraram armas na Checoslováquia e tentaram pôr em marcha mais uma acção revolucionária que pretendia ocupar a Covilhã. A operação falhou e P. Inácio foi novamente preso e novamente fugiu, desta vez dos calabouços da PIDE. Em 1972 entra clandestinamente em Portugal com um novo plano revolucionário em mente: raptar uma alta figura do regime. O plano de rapto é descoberto e P. Inácio é mais uma vez preso. Desta vez só foi libertado de Caxias depois do 25 de Abril.
A partir de então não encetou mais nenhuma actividade revolucionária, a não ser a de recusar qualquer cargo político. Em 2000 foi condecorado com a Ordem da Liberdade. Morre em 2009 num Lar, cuja mensalidade era paga por amigos devido à sua falta de meios financeiros.

Em suma: um verdadeiro revolucionário!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

'Um cérebro de cada lado': um texto que é mais que uma opinião

Segundo Platão, na sua obra "A República", a opinião, de acordo com a sua própria definição - algo muito próximo do palpite e suposição infundada -, pouca ou nenhuma validade tem quando usada numa discussão ou na transmissão de saber. Isto porque, segundo o filosofo, a opinião é quase sempre insustentada e fruto de emoções e gostos do opinante - nota-se aqui um vislumbre da defesa do empirismo cientifico. No entanto, recorrendo a uma visão mais moderada, penso que nem todas as opiniões estão ao mesmo nível, havendo algumas que devem merecer a nossa atenção. Um exemplo disso é o texto que aqui trago ao blogue. José Luís Pio Abreu, psiquiatra e professor universitário de medicina, autor da obra 'Como tornar-se um doente Mental' brinda-nos com um livro que é um compêndio de artigos de opinião publicados no jornal gratuito 'Destak'. Dessa obra, intitulada de 'Estranho quotidiano', trago aqui um texto que é mais que uma  mera opinião, é uma opinião com fundamentação cientifica - devido a formação académica do autor - e escrita de um modo bastante apelativo. Aqui fica o texto:
Baudelaire, Edgar Poe, Mallarmé e Fernando Pessoa - Júlio Pomar
"Um cérebro de cada lado
Se perguntar o que é que nos distingue dos macacos, pode ficar com esta: nós temos dois cérebros, eles não. Os nossos antepassados símio distinguiram-se dos outros mamíferos por terem os braços independentes das pernas. Nós, para além disso, separámos o lado direito do lado esquerdo. E separámo-los para quê? Para deixar o braço e a mão direitos, bem como a perna e o pé, esculpirem o mundo: pela escrita, desenhos, obras, projectos, regras, teorias ou mesmo pontapés.
Ficámos assim com dois cérebros. O esquerdo – que está ligado ao lado direito do corpo – ficou preenchido pelo mundo. Não necessariamente o mundo que existe ou que mais importa, mas o que construímos na relação com os outros. É feito com palavras, imagens, regras e teorias. Em contraste, o cérebro direito vela por nós: pelas emoções, pela intuição, pelos significados entre si e têm de se entender. Mas podem existir conflitos, a ponto de um dos lados ter de anular o outro.
Nos esquerdinos, os lados estão invertidos sem que ocorram problemas de maior. Mas a existência de grandes confusões entre direita e esquerda não é boa para a saúde mental, pois deixamos de saber quem somos.
As mulheres têm o cérebro menos assimétrico, talvez porque, durante milénios, lhes foram negados os trabalhos externos. Assim, o mundo ocupa-lhe parte do cérebro direito, e as emoções também correm pelo lado esquerdo. Por isso, as mulheres são mais agarradas à terra – à casa, aos filhos. Os homens alternam entre estarem agarrados à terra – às mulheres – e vivem nas nuvens."

Espero que este texto seja um bom cartão de visita para a leitura das obras de J. L. Pio Abreu e um aperitivo capaz de fazer despertar o apetite pela leitura integral dos restantes textos deste 'estranho quotidiano'. O texto 'Um cérebro de cada lado', em primeira instância, e mais do que a utilidade que aqui lhe dou como introdução ao livro,  transmite também uma série de conhecimentos e levanta uma série de questões - capazes de animar uma qualquer discussão - sobre a biologia e psicologia humana, tal como o modo como nos relacionamos. 
Fernando Pessoa - Júlio Pomar
P.S. (Esta constatação de um cérebro bi-partido levanta muitas questões sociais e psicológicas mas fico-me por uma literária: em quantas partes se dividiria o cérebro de Fernando Pessoa?)

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