domingo, 3 de outubro de 2010

Afinal quantas repúblicas existiram em Portugal, 3 ou 2?

Ontem tive o enorme prazer de ter assistido a uma conferência intitulada de «Da monarquia à Republica» em que o principal orador foi o professor Amadeu Carvalho Homem - catedrático de história da Universidade de Coimbra.
As promessas - José Malhoa
Nessa sua intervenção o professor descreveu e relatou os eventos que desde o século XVIII até ao inicio do século XX levaram e culminaram na primeira república em Portugal. Ao longo das suas várias intervenções, para além dos preciosos conhecimentos que partilhava, o professor deixou-nos a seguinte ideia: "Portugal teve apenas duas repúblicas e não três". Fundamentou esta sua tese argumentando que o Estado Novo não deveria ser considerado como uma verdadeira república, pois de república só tinha o nome porque os ideais republicanos nunca foram verdadeiramente praticados pelo regime salazarista. Disse mais ou menos o seguinte: “o Estado Novo de república só tinha os selos e a moedas, só ai é que a república se via e aparecia”.
Que o regime tinha sido anti-democrático é uma ideia que nada surpreende, mas de que não se tratava de uma verdadeira república, na minha modesta opinião, já surpreende – pelo menos aparentemente. No entanto se analisarmos os princípios pelos quais se regem os ideais republicanos – Igualdade, fraternidade e liberdade – dificilmente os encontramos no Estado Novo. A liberdade não existia pois tratava-se de um regime totalitário e autoritário, pois até o sufrágio universal era um embuste. A igualdade também era inexistente pois os cidadãos não detinham os mesmos direitos nem eram considerados pelo Estado de igual modo nas suas vontades e aspirações. A fraternidade também pouco era defendida pelo Estado pois tal não pode existir pela imposição ou força e não havia a preocupação em fomentar a fraternidade pela educação e pelos serviços de um modo universal que promoverem a cidadania activa – ainda hoje sentimos os reflexos da falta de cidadania e envolvimento cívico dos cidadãos.
Assim, confesso que fiquei rendido a esta tese do professor A. C. Homem - acho que não erramos quando dizemos que tivemos apenas duas republicas em Portugal, porque mesmo que não sendo perfeitas, a de 1910 e a de 1974 pelo menos tentaram implementar os ideais republicanos enquanto que a de 1933 os esqueceu e de republica teve apenas o nome.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O filme: Paranoid Park

Paranoid Park foi o vencedor do prémio do 60º aniversário do festival de Cannes de 2007 e é um dos filmes mais conhecidos de Gus Van Sant - confesso que foi isto, aliado a ser um dos DVDs da minha cinemateca, que me levou a escolhe-lo como filme para ver hoje.
Assim que comecei a visionar o filme percebi que tão altas referências tinham a sua justificação, algo que se sentia pelo que se via e ouvia à medida que a película ia rolando – metaforicamente falando é claro pois quase tudo hoje se passa através de meios digitais.
O filme é uma bela conjugação de sonoplastia com sons não naturais à acção mas que, aliados a uma banda sonora diversificada e bem original inserida em momentos precisos, conseguem acentuar a carga dramática e dar movimento ao filme, apesar de muitas das cenas serem lentas. Algumas cenas são dignas de ganhar distinção pela qualidade da fotografia, já outras parecem toscas e não tratadas – muito provavelmente assim apresentadas para caracterizar ambientes mais disfuncionais.
A acção parece desorganizada e quase confusa, mas quanto a mim é só mais uma técnica que o realizador utiliza para descrever os estados de espírito e psicológicos da personagem principal. No filme é dado grande foco às expressões faciais - aqui as expressões das personagens dizem mais que mil palavras.
Quanto à história, bem, sem revelar muito, trata-se de uma história que envolve um adolescente que é colocado numa situação trágica altamente improvável. Esse drama principal que nos é apresentado aloja-se no quotidiano de uma faixa etária muito específica – a adolescência – e numa época muito precisa – a actualidade.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O Livro: Platão e um ornitorrinco entram num bar...

 Trago aqui mais um livro de filosofia e humor, desta vez uma edição da Dom Quixote, que tem um curioso título, ora veja-se o nome: «Platão e um Ornitorrinco entram num bar… - filosofia com humor». Thomas Cathcart e Daniel Klein (ambos licenciados em filosofia) criaram uma obra singular. Nela introduzem os grandes temas da filosofia com algumas curtas explicações e explanações mas sempre com anedotas a elas associadas. Trata-se de uma forma bem leve e divertida de fazer uma introdução à introdução da filosofia. Não é de estranhar que o livro faça parte do Plano Nacional de Leitura pois é bem capaz de desmistificar e seduzir jovens e graúdos para a curiosidade pela filosofia.

Deixo então aqui algumas das piadas utilizadas, respectivamente categorizadas segundo os temas filosóficos que tratam.

Metafísica (Racionalismo)

O optimista diz «o copo está meio cheio»
O pessimista diz: «o copo está meio vazio»
O racionalista diz: «o copo tem o dobro do tamanho necessário»

Lógica (argumento indutivo por analogia)
Três estudantes de engenharia estão a debater que tipo de Deus terá concebido o corpo humano. Diz o primeiro:
- Deus deve ser um engenheiro mecânico. Reparem em todas as articulações.
- Eu acho que Deus deve ser um engenheiro electrotécnico. O sistema nervoso tem milhares de ligações eléctricas – defende o segundo.
- Na verdade, Deus é um engenheiro civil. Quem mais passaria um tubo de desperdícios tóxicos através de uma área recreativa? – diz o terceiro.

Ética (virtude platónica)
Numa reunião de faculdade, um anjo aparece inesperadamente e diz ao chefe do Departamento de Filosofia:
- Conceder-te-ei qualquer uma das três bênçãos que escolheres: Sabedoria, Beleza… ou 10 milhões de dólares.
O professor escolhe a Sabedoria sem qualquer hesitação.
Vê-se um clarão de um relâmpago e o professor parece transformado, mas continua sentado a olhar para a mesa.
Um dos colegas sussurra:
- Diz alguma coisa.
- Devia ter pedido o dinheiro – diz o professor.

Ética (o imperativo categórico supremo e a velha regra de ouro)
«não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem; eles podem ter gostos diferentes»

Filosofia da Religião (distinções teológicas)
Um homem chega às portas do céu e São Pedro pergunta-lhe:
- Religião?
- Metodista – responde o homem.
São Pedro olha para a lista e diz:
- Vá para a sala 28, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
Outro homem chega às portas do céu.
- Religião?
- Baptista.
- Vá para a sala 18, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
Um terceiro homem chega às portas .
- Religião?
- Judeu.
- Vá para a sala 11, mas não faça barulho quando passar pela sala 8.
- Até posso compreender que haja salas diferentes para religiões diferentes – diz o homem -, mas porque é que não posso fazer barulho quando passar pela sala 8?
- As Testemunhas de Jeová estão na sala oito – explica São Pedro – e pensam que são os únicos que estão aqui.

Existencialismo
Duas vacas estão num campo. Diz uma para a outra:
- Que pensas sobre a doença das vacas loucas?
- Que me interessa isso? – diz a outra – Eu sou um helicóptero.


Filosofia da Linguagem (a filosofia da imprecisão)
Uma mulher de 80 anos entra na sala de convívio dos homens do lar de terceira idade. Ergue o punho o ar e anuncia:
- Quem adivinhar o que tenho na mão pode fazer sexo comigo esta noite!
- Um elefante! – grita um velhote ao fundo da sala.
A mulher pensa durante alguns instantes e responde:
- Resposta certa!


Agora para saber mais, incluindo as relações destas piadas e histórias engraçadas com a Filosofia e devida explicação por parte dos autores, nada como lerem toda a obra!.- coisa que se faz muito rapidamente!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Afinal de onde vêm e quem são os idiotas?

Algumas palavras têm origens etimológicas bem curiosas. Algumas têm um significado actual que sofreu tantas alterações que pouco se relaciona com o seu significado original. A palavra «idiota» é em parte uma delas – posso dizer que fiquei um tanto ou quanto “idiota” quando descobri a sua origem.
Escritório de algodão em Nova Orleães - Edgar Degas
Tinha acabado de passar a vedação que dá acesso à acrópole de Atenas quando a nossa guia se detém junto do anfiteatro de Heródoto Ático. Aí, depois de fazer uma introdução aos vários monumentos que iríamos ver e de fazer uma breve antologia da história política e social da democracia ateniense da antiguidade, faz-nos a seguinte pergunta em espanhol: Sabem qual a origem e significado a palavra idiota? Ninguém foi capaz de responder, mas logo ouvimos a sua explicação, evitando um prolongado silêncio quase constrangedor devido à nosso ignorância. Segundo ela o termo idiota era um adjectivo usado para caracterizar todos aqueles, que durante a vigência da democracia em Atenas, não se interessavam ou não estavam disponíveis para participar no governo e assuntos do Estado Democrático – pois a existência de tal forma de governo pressupunha o envolvimento e participação de todos os cidadãos, podendo e devendo todos estar de igual modo disponíveis para governar. Todos ficámos espantados com tal explicação.

Posteriormente fiz uma pequena investigação sobre a etimologia da palavra de modo a testar a veracidade destas palavras. Parece que o termo em grego antigo seria «idiótes», palavras que significava “homem privado”, ou seja, homem sem interesse pela causa pública. Os antigos gregos consideravam, ou não fossem especialistas em política e filosofia, que todos os que não participavam activamente no governo das suas polis, aqueles que não eram políticos, era porque não tinham a devida capacidade intelectual para tal. Mais tarde o termo «idiota» foi readaptado e reutilizado pelos romanos para caracterizar todos aqueles que eram incapazes de acções e raciocínios complexos, entre outras lacunas intelectuais.

Na actualidade acho que é caso para dizer: as idiotices de alguns (segundo o modelo romano) levam outros a optarem pela idiotice (segundo o modelo grego). Provavelmente é só mais um dito de um idiota da minha parte…

sábado, 18 de setembro de 2010

Algumas razões para a existência de corrupção nos Partidos Políticos

Na obra ‘Corrupção e os Portugueses – Atitudes, práticas e valores’, da autoria de Luís de Sousa e João Triães, são avançadas algumas teorias que explicam a relação entre os partidos políticos e a corrupção – a razão de ocorrerem e porque são propensas essas instituições a essas práticas. Este fenómeno e explicado de um modo tão simples e objectivo – sem recurso a um discurso anti-partidário ou a favor de uma qualquer ideologia –, por isso que penso que vale a pena trazer aqui algumas palavras dessa obra ao blogue.
As tentações de Santo Estevão (ou Antão) - Hieronymous Bosch
 Segundo Carlos Jalali, o autor do texto – pois esta obra é um compêndio de vários textos direccionados para assuntos específicos mas sempre dentro do mesmo tema -, que aborda e discute este assunto, o afastamento dos cidadãos face aos partidos políticos torna-os mais propensos aos actos de corrupção. Ora vejamos as palavras do autor:
“Por um lado, este afastamento leva a uma redução do número de militantes, reduzindo as receitas provindas dessa fonte. Por outro lado, aumenta os custos: os partidos não podem recorrer aos seus militantes para as suas campanhas, tendo de recorrer a outras e dispendiosas formas de campanha. Por outro lado, a consequente redução da identificação partidária obriga os partidos a competirem por um mercado eleitoral mais amplo, o que também obriga a maiores gastos.” (pp. 140)

São estas dependências cada vez maiores de capital para viverem, actuarem e fazerem campanhas e iniciativas várias, devido à cada vez maior falta de militantes e participação política dos cidadãos, que fomentam e fazem com que o manto da corrupção paire e caia muitas vezes sobre os partidos políticos.
A meu ver, isso poderia e deveria ser combatido com mais participação política dos cidadãos através dos vários partidos existentes ou novos que se pretendam criar, algo que resultaria seguramente em mais benefícios para a sociedade no geral, e diminuiria a tão indesejada corrupção destas instituições que deveriam ser, por natureza, anti-corruptas e defensoras do bem comum.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

Nike - Paionios
Ignoramos a origem e significado de muitas das actuais marcas. Uma delas, por ser uma das mais conhecidas marcas de desporto e roupa, merece umas quantas palavras pois tem uma origem que remonta a lendas, mitos, religiões de há vários milénios e até de eventos históricos da antiguidade.
Nike era a Deusa Grega da Vitória, uma deusa representada como uma jovem alada. Os atenienses tinham especial devoção por esta deusa e ergueram templos em sua honra para assinalar as vitórias militares que foram tendo. Muitas vezes esses cultos eram conjugados com outros dedicados à própria Atena – deusa protectora da cidade de Atenas, deusa da sabedoria e da guerra justa.
 Consta que os Atenienses, quando ganharam a Batalha de Maratona (490 a.C.), enviaram o seu melhor corredor, de seu nome Filípides, para levar a notícia da vitória  até à cidade de Atenas. A velocidade era urgente pois os Persas tinham prometido que quando chegassem a Atenas destruiriam a cidade, violariam as mulheres e torturariam até à morte todos os que encontrassem. Por isso, tinha ficado decidido que se os soldados atenienses perdessem a batalha as mulheres matariam os seus próprios filhos e se suicidariam de seguida, evitando colocar os seus destinos nas mãos dos Persas. O mensageiro percorreu os cerca de 42 quilómetros que separavam Maratona de Atenas – razão para a distância da actual prova olímpica da maratona (prova que não constava nos jogos olímpicos da antiguidade) – tendo parado somente quando chegou à acrópole (local mais alto e importante de uma cidade grega) de Atenas de onde gritou Nike!!! (Vitória), anunciando assim aos atenienses que tinham ganho a batalha contra os Persa. Conta a lenda que o corredor morreu de exaustão (ou de desidratação) assim que acabou de fazer o seu bem-aventurado anuncio. Esta História/Lenda é um exemplo de quando a história toca sem fronteira verdadeiramente definida o mito. Dificilmente sabemos a verdade dos acontecimentos, até porque Herodoto diz que Filípides foi primeiro a outras cidades-estado gregas pedir ajuda, pois não era certo que a vitória fosse completa devido aos enormes recursos do Império Persa, tendo para isso percorrido em 2 dias mais de 200 quilómetros.

Friso de Nike em Éfeso
No século passado a marca Norte-americana Nike foi criada por inspiração e alusão directa à Deusa grega da Vitória, obtendo dela o seu nome e o seu símbolo que é alusivo às asas dessa mesma divindade mas também ao modo como é representado o vestido da Deusa ao vento um friso que ainda hoje se encontra na cidade de Éfeso na Turquia. Para além dessas explicações, também era comum na antiguidade utilizar como saudação ou gesto de vitória um sinal que se fazia com a mão aberta unindo todos dedos à excepção do polegar, formando uma espécie de V assimétrico, algo muito parecido com o actual símbolo da conhecida marca de desporto.
Apesar de muitas das nossas actuais invenções e criações poderem parecer muitíssimo originais, a grande maioria delas vive de ideias do passado.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O mais revolucionário dos revolucionários portugueses: Hermínio da Palma Inácio

Um dos actuais best-sellers nacionais é um livro sobre História - estranho pois os tops de vendas costumam ser ocupados apenas por romances e ficções. O livro ‘Histórias Rocambolescas da História de Portugal’ da autoria de João Ferreira é um misto de livro de curiosidades, jornalismo de investigação e compêndio de episódios caricatos e muito particulares da História de Portugal. Não se trata de uma obra académica de História mas tem o grande mérito de fazer despertar no público geral, através da sua leitura, o interesse e o gosto pela História Nacional – pois os vários episódios são, na medida do possível e não fastidiosamente, argutamente completados pelo indispensável enquadramento histórico.
(sem título) - Jean-paul Riopelle
Da obra de João Ferreira poderia ter escolhido muitas das várias referência rocambolescas – segundo as palavras do autor – mas decidi-me a escolher aquela que mais me surpreendeu e que penso ser a menos conhecida. Escolhi o episódio onde são relatadas as aventuras de Hermínio da Palma Inácio (1922-2009), episódio rocambolesco intitulado de ‘Palma Inácio – o último revolucionário romântico’. Palma Inácio foi o derradeiro revolucionário português do século XX, quiçá de toda a História de Portugal. Tinha formação em mecânica de aeronáutica militar e curso de piloto civil. Já em 1947 participou numa tentativa falhada de golpe de estado encetada pelo General Marques Godinho, tendo por isso sido preso e torturado pela PIDE – apesar de ter sido durante 12 dias sujeito à tortura da “estátua” nunca denunciou o seu contacto. Em 1949 concretizou uma fuga rocambolesca: saltou de uma janela a 15 metros de altura com o auxílio de 4 lençóis amarrados; durante o salto foi detectado pelos guardas, os quais derrubou tendo desaparecido juntamente com aos transeuntes que passavam; posteriormente fugiu para Marrocos num cargueiro.
Concretizada a primeira fuga, foi viver para o Brasil onde montou duas empresas de modo a acumular capital para futuras acções revolucionárias, mantendo-se sempre em contacto com a resistência ao regime de Salazar.
Em 1961 coloca em prática a ‘Operação Vagô’: P. Inácio torna-se o primeiro «pirata do ar» ao, em conjunto com 5 companheiros, controlar e desviar um avião da TAP, fazendo-o sobrevoar algumas cidades do sul (Barreiro, Setubal, Beja e Faro) em voo rasante de modo a bombardeá-las com panfletos revolucionários anti-regime e a evitar ser detectado pelos caças da força aérea; a operação de sequestro foi realizada sem qualquer violência (tendo a tripulação chegado mesmo a colaborar e os passageiros a se aperceberam do sucedido só quando aterraram e foram brindado com champanhe, rosas e um pedido de desculpas de Palma Inácio) e plena de sucesso, tendo novamente P. Inácio fugido às mãos do Regime Salazarista e voltado ao Brasil.
Em 1967 decide, em conjunto com outros revolucionários de esquerda, pôr em prática um assalto que financiaria mais actividades revolucionárias e feriria o orgulho do regime. Assim, assaltam à cara destapada – pois tratava-se de um acto político - a delegação do Banco de Portugal na Figueira da Foz, tendo o grupo fugido com o equivalente a uns actuais 5 milhões de euros para França. Com esse dinheiro os assaltantes políticos compraram armas na Checoslováquia e tentaram pôr em marcha mais uma acção revolucionária que pretendia ocupar a Covilhã. A operação falhou e P. Inácio foi novamente preso e novamente fugiu, desta vez dos calabouços da PIDE. Em 1972 entra clandestinamente em Portugal com um novo plano revolucionário em mente: raptar uma alta figura do regime. O plano de rapto é descoberto e P. Inácio é mais uma vez preso. Desta vez só foi libertado de Caxias depois do 25 de Abril.
A partir de então não encetou mais nenhuma actividade revolucionária, a não ser a de recusar qualquer cargo político. Em 2000 foi condecorado com a Ordem da Liberdade. Morre em 2009 num Lar, cuja mensalidade era paga por amigos devido à sua falta de meios financeiros.

Em suma: um verdadeiro revolucionário!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

'Um cérebro de cada lado': um texto que é mais que uma opinião

Segundo Platão, na sua obra "A República", a opinião, de acordo com a sua própria definição - algo muito próximo do palpite e suposição infundada -, pouca ou nenhuma validade tem quando usada numa discussão ou na transmissão de saber. Isto porque, segundo o filosofo, a opinião é quase sempre insustentada e fruto de emoções e gostos do opinante - nota-se aqui um vislumbre da defesa do empirismo cientifico. No entanto, recorrendo a uma visão mais moderada, penso que nem todas as opiniões estão ao mesmo nível, havendo algumas que devem merecer a nossa atenção. Um exemplo disso é o texto que aqui trago ao blogue. José Luís Pio Abreu, psiquiatra e professor universitário de medicina, autor da obra 'Como tornar-se um doente Mental' brinda-nos com um livro que é um compêndio de artigos de opinião publicados no jornal gratuito 'Destak'. Dessa obra, intitulada de 'Estranho quotidiano', trago aqui um texto que é mais que uma  mera opinião, é uma opinião com fundamentação cientifica - devido a formação académica do autor - e escrita de um modo bastante apelativo. Aqui fica o texto:
Baudelaire, Edgar Poe, Mallarmé e Fernando Pessoa - Júlio Pomar
"Um cérebro de cada lado
Se perguntar o que é que nos distingue dos macacos, pode ficar com esta: nós temos dois cérebros, eles não. Os nossos antepassados símio distinguiram-se dos outros mamíferos por terem os braços independentes das pernas. Nós, para além disso, separámos o lado direito do lado esquerdo. E separámo-los para quê? Para deixar o braço e a mão direitos, bem como a perna e o pé, esculpirem o mundo: pela escrita, desenhos, obras, projectos, regras, teorias ou mesmo pontapés.
Ficámos assim com dois cérebros. O esquerdo – que está ligado ao lado direito do corpo – ficou preenchido pelo mundo. Não necessariamente o mundo que existe ou que mais importa, mas o que construímos na relação com os outros. É feito com palavras, imagens, regras e teorias. Em contraste, o cérebro direito vela por nós: pelas emoções, pela intuição, pelos significados entre si e têm de se entender. Mas podem existir conflitos, a ponto de um dos lados ter de anular o outro.
Nos esquerdinos, os lados estão invertidos sem que ocorram problemas de maior. Mas a existência de grandes confusões entre direita e esquerda não é boa para a saúde mental, pois deixamos de saber quem somos.
As mulheres têm o cérebro menos assimétrico, talvez porque, durante milénios, lhes foram negados os trabalhos externos. Assim, o mundo ocupa-lhe parte do cérebro direito, e as emoções também correm pelo lado esquerdo. Por isso, as mulheres são mais agarradas à terra – à casa, aos filhos. Os homens alternam entre estarem agarrados à terra – às mulheres – e vivem nas nuvens."

Espero que este texto seja um bom cartão de visita para a leitura das obras de J. L. Pio Abreu e um aperitivo capaz de fazer despertar o apetite pela leitura integral dos restantes textos deste 'estranho quotidiano'. O texto 'Um cérebro de cada lado', em primeira instância, e mais do que a utilidade que aqui lhe dou como introdução ao livro,  transmite também uma série de conhecimentos e levanta uma série de questões - capazes de animar uma qualquer discussão - sobre a biologia e psicologia humana, tal como o modo como nos relacionamos. 
Fernando Pessoa - Júlio Pomar
P.S. (Esta constatação de um cérebro bi-partido levanta muitas questões sociais e psicológicas mas fico-me por uma literária: em quantas partes se dividiria o cérebro de Fernando Pessoa?)

Um ano a tentar "Buscar a Sabedoria"

Faz hoje precisamente um ano que coloquei o primeiro texto no blogue, formalizando e concretizando, através da tentativa da palavra encadeada, a ideia de criar um blogue. Esse projecto que germinava desde as quentes férias de Verão de 2009: foi à beira de uma piscina, fazendo o meu corpo sombra sobre o livro que então lia [Grandes enigmas da História de Portugal, vol.1] –, qual protecção inconsciente sobre o saber, que decidi começar a registar os saberes avulsos e curiosidades com que habitualmente me vou deparando. Quer aqueles resultantes  das minhas leituras, quer aqueles que resultam de qualquer outra experiência intelectual – ou pseudo-intelectual pois algumas só aparentemente o são - ou de qualquer outra forma de aprendizagem.
Tomlinson Court Park I - Frank Stella
 Após um ano a experiência que ficou foi boa – pelo menos  a nível pessoal pela concretização e manutenção do projecto – pois foi possível registar, mesmo com o tempo a escassear, uma grande panóplia de textos sobre uma também grande variedade de assuntos. 
Prometo continuar a escrever - tentando melhorar sempre a escrita por vezes atabalhoada -  e investigar de modo a fazer crescer o blogue – sendo que o prometo primeiro a mim próprio porque o prazer maior da sua existência é sem dúvida meu -, pelo menos enquanto a vontade de mais saber me fizer persistir.
 
Bem, chega de falar de mim e do próprio blogue pois nem num caso nem noutro se faz uma verdadeira “Busca pela Sabedoria”, quanto muito acabei de fazer uma análise e revelação sobre auto-propaganda e de demonstrar um certo espírito de narcisismo consciente na primeira pessoa.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

‘Inimigo às portas’: mais que um filme sobre a 2ª Guerra Mundial

Até hoje nunca aqui transcrevi excertos de diálogos de um filme. Mas no caso do filme  aqui em causa a introdução destas “falas” parece-me ser capaz de suscitar a reflexão sobre alguns dos grandes temas da vida em sociedade (nas últimas décadas) - reflexões sobre a própria condição humana.
Trago aqui um filme de guerra, mais concretamente, sobre uma das mais importantes batalhas da História  – A batalha de Estalinegrado. Apesar de se terem feito muitos filmes e séries sobre a 2ª Guerra Mundial esta rodagem tem a particularidade de não envolver os Estados Unidos da América e as suas beligerâncias e participações nesse conflito mundial. A acção passa-se em Estalinegrado – Cidade rio Volga que controlava e dava acesso aos vastos recursos petrolíferos do sudoeste da URSS -, aquando do cerco Alemão à cidade de Estalinegrado - nomeada assim em "honra" do líder soviético de então (Estaline) -, naquilo que foi uma das primeiras, e provavelmente a maior, das batalhas urbanas de grande escala. O filme intitula-se de 'Inimigo às Portas' e foi realizado por Jean-Jacques Annaud. Nessa obra é-nos relatado aquilo que poderia ter sido a visão Soviética e Alemã – mas principalmente a soviética - da frente Oriental, naquele período crítico em que a URSS este verdadeiramente em risco de ser conquistada e de Hitler dominar uma zona rica em recursos naturais que lhe permitiria no futuro, muito provavelmente, garantir o domínio mundial.
Das lutas e combates urbanos da batalha que serve de pano de fundo ao filme, a acção centra-se na história de um soldado que pela sua mestria se torna franco-atirador e um herói de guerra devido à propaganda soviética. A obra fala-nos principalmente sobre relações e interacções humanas que se poderiam ter proporcionado naquele difícil palco de guerra, entre elas: a amizade, o amor, a coragem, os ideais, a inveja e o ódio.
Deixo aqui então um excerto - uma verdadeira epifania de uma das personagens - que só por si permite uma análise política, social e até outras - independentemente de ter sido proferida num filme, numa obra literária ou até mesmo numa conversa de café. 
Numa das últimas cenas, Danilov (escritor e especialista em propaganda) diz assim para Vassili (o heróis franco-atirador do exercito russo):
“O Homem será sempre o Homem.
Não há um Homem novo, 
Esforçamo-nos tanto para criar uma sociedade de igualdade, 
onde não haveria lugar para invejar o nosso vizinho. 
Mas há sempre algo a invejar. 
Um sorriso… uma amizade. 
Algo que não possuímos e de que queremos apropriar-nos. 
Neste mundo, mesmo no soviético, 
Haverá sempre ricos e pobres. 
Ricos em dons. Pobres em dons."

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A Busca pela sabedoria - criado em Agosto de 2009 por Micael Sousa



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