quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Imigração ilegal: uma violação da Declaração dos Direitos Humanos

Desde que há alguns anos a esta parte, quando as fronteiras da Europa se começaram a fechar à imigração, especialmente aos fenómenos de imigração em massa que resultaram, entre outros factores, da necessidade de mão-de-obra para reconstruir a Europa do pós-guerra e do fim do colonialismo Europeu, que começaram a transparecer e a surgir acalorados debates em torno das politicas de imigração. Hoje as fronteiras começam a ficar cada vez mais restritas e são inúmeros os processos de expulsão de imigrantes ilegais.
Sem título ( prata cinzenta) - Jackson Pollock
O conceito de “imigrante ilegal”, à luz da Declaração dos Direitos Humanos, é peremptoriamente ilegal - assim sendo uma ilegal ilegalidade - ora leiam-se os seguintes pontos do artigo XIII:
        1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.   
        2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

Sendo que a Declaração dos Direitos Humanos (DDH) é uma criação das democracias ocidentais (nem todos os países ainda a assinaram), competiria pelo menos a esses países a responsabilidade de aplicarem aquilo que criaram de modo a evitar o paradoxo ou então  ter a coragem de reformular a DDH. São casos como este que tornam esse documento, uma vitória do valor que as democracias idealizavam para os direitos Humanos, numa espécie de ideal utópico irrealizável e impraticável – por mais que não nos agrade admiti-lo…

Dificilmente um país poderá garantir a sua soberania e estabilidade  social interna sem uma política de imigração séria e rigorosa – o que não significa que tenha de ser chauvinista, racista ou xenófoba. Mas nunca nos devemos esquecer que o conceito de imigrante e de natural pode ser muito relativo, pois a grande maioria dos naturais dos vários Estados e Nações que hoje existem são descendentes de imigrantes do passadoem primeira instância, enquanto espécie, somos todos descendentes de Africanos.

No livro ‘A riqueza e a pobreza das nações’ o autor David S. Landes avança com uma teoria que diz - se não me falha a memória - mais ou menos isto: A estabilidade das fronteiras e controlo da imigração por parte dos países ricos e desenvolvidos deveria passar mais pela garantida de melhores condições nos países de origem dos imigrantes que os “invadem” do que em policiamento e no fechar à força das fronteiras.

Landes defende - e não é o único autor ou especialista a fazê-lo pois estas teorias têm vários adeptos e defensores - que o melhor modo de combater a imigração ilegal passaria pela intervenção, pacificação e desenvolvimento dos países de origem dos ditos “imigrantes ilegais”. Afirma que os países desenvolvidos, ao assumirem uma postura de solidariedade e de promoção da equidade e distribuição da riqueza, poderiam melhorar e criar melhores condições de vida para que os naturais desses países estrangeiros, evitando assim a necessidade dessas populações recorrerem à emigração. Estas medidas e tomadas de posição tenderiam também a reduzir e diminuir alguns "tensões diplomáticas" existentes actualmente. 
Pessoalmente parece-me uma teoria interessante e muito cativante, nem que seja pelo princípio de solidariedade humana e internacional em que assenta, mas não será praticável e aplicável ou apenas mais uma utopia?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Hino nacional Português: uma mobilização contra os nossos aliados Bretões

Hoje, especialmente em manifestações desportivas – sendo a mais evidente os jogos da selecção nacional de futebol – ouve-se o Hino Nacional Português num apelo ao sentimento patriótico. ‘A Portuguesa’ – nome dado ao hino português - surgiu como resposta ao Ultimato Britânico de 1890 que obrigou Portugal a abandonar a ideia do Mapa Cor-de-rosa – proposta portuguesa de anexação dos territórios entre Angola e Moçambique de modo a formar um território contínuo de domínio colonial na África subsariana. Portugal viu-se assim forçado a abandonar esta proposta que tinha defendido na Convenção de Berlim (1885-1886) que tinha como mote dividir o continente africano entre as potenciais coloniais Europeias, pois, a ser concretizada, chocava com os interesses britânicos de unirem continuamente os territórios do Cabo (África do Sul) ao Cairo (Egipto) através de uma via-férrea trans-africana. Esta tensão entre Portugal e Inglaterra nada teria de curioso se estes países não fossem históricos aliados – já à data a mais antiga aliança da História. A ligação entre as duas nações remonta a uma série de tratados acordos, o mais antigo que se conhece remonta a 1294, e reforçados pela ajuda militar Inglesa em Aljubarrota (1385) e pelo casamento de D. João I com Filipa de Lencastrer (Lancaster) – pais da Ínclita Geração (D. Duarte, D. Pedro, Infante D. Henrique). Mas esta aliança foi sempre contestada e usualmente diz-se por cá que serviu sempre mais a Ingleses que a Portugueses, tendo até inesperadamente dado origem a alguns conflitos e tensões.
Casamento de D.João I com Filipa de Lencastre - crónica de  Jean Wavrin

Deixo aqui alguns exemplos disso: 
  • saques, pilhagens e assassinatos por partes de contingentes ingleses que deveriam ter ajudado a restaurar a independência nacional contra Espanha em 1589 e colocado D. António no trono Português (tendo esse acontecimento dado origem à expressão “amigos de Peniche” pois foi lá o primeiro local de desembarque dos nossos amigos ingleses); 
  • o impedimento do regresso do General Beresford a Portugal em 1820, pois entre 1815 e 1820 foi ele o chefe do governo provisório (Beresford tinha fora um dos oficiais britânicos a comandar o exercito luso-britânico que derrotou as forças de ocupação Francesas) devido à ausência da família real que ainda se encontrava no Brasil (o rei D. João VI fugiu com a família real para o Brasil de modo a evitar ser capturado pelos franceses, evitando assim a capitulação do país); 
  • por fim, o já referido episódio do Mapa cor-de-rosa.
Em 1890 Henrique Lopes de Mendonça criou a letra e Alfredo Keil a música do que seria o futuro hino da República Portuguesa. Na altura Portugal era uma Monarquia Liberal e devido a uma série de escândalos da família real, à ineficácia do rotativismos dos dois maiores partidos políticos da altura e ao sentimento anti-britânico originado pelo conflito diplomático que humilhava Portugal.
Grupo do Leão - Columbano Bordalo Pinheiro
 Na versão original da obra de Mendonça e Keil, onde hoje cantamos “contra os canhões marchar, marchar!” cantava-se “contra os bretões marchar, marchar!”. A letra foi alterada e depois da implantação da república foi adoptada como hino nacional em 1911. Hoje continuamos a cantar uma música que em tempos serviu de arma e motivação ideológica contra os nossos históricos aliados – mais uma das ironias e curiosidades da História de Portugal.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Umas notas de agradecimentos comemorativas das 5000 visitas

Este texto pouco ou nada tem de divulgação de curiosidades ou saberes. O seu objectivo é tão só de agradecimento a todos os visitantes do blogue, a todos aqueles que contribuíram para as 5000 visitas e para os debates e discussões que se foram formando nos comentários aos textos aqui expostos.
Queria deixar aqui uma ilustração ou imagem que se adequasse a este marco - de pequena importância pois este é só mais um blogue entre tantos, mas que para mim, o autor, representa muito, ou não expressasse algumas das minhas pesquisas e gostos particulares por determinadas áreas do saber e curiosidades.
Surgiu-me então a ideia de recordar aqui as notas de 5000 escudos, criações monetárias nacionais também elas "obras de arte" por direito próprio, especialmente agora que se tornam peças de colecção. Não apresento aqui estas notas (o papel moeda é uma invenção Chinesa  que se pensa ter surgido por volta do século X ou XI para fazer face à falta de metal para a cunhagem de moeda corrente) pelo valor monetário ou económico que têm, mas pelo simbolismo que atribuem a um número, pela concretização em valor tangível desse número que aqui para simbolizar o quão rico se tornou o blogue com todas as visitas e contributos dos "buscadores de sabedoria".
Nota de 5000 escudos de 1983 em honra de António Sérgio
Nota de 5000 escudos de 1987 em honra de Antero de Quental
Nota de 5000 escudos de 1995 em honra de Vasco da Gama

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Inception [A Origem]: um clássico do cinema do século XXI?

Que dizer e escrever sobre o filme ‘Inception’ [‘A Origem’ em português]? 
Apesar de algumas noções científicas erradas, por exemplo aquela ideia plenamente difundida de que não usamos todos o nosso potencial cerebral por não activarmos em simultâneo uma maior percentagem desse órgão (nunca activamos totalmente todas as partes do nosso cérebro porque cada zona tem a sua função e especificidade própria de acordo com a actividade intelectual em causa, sendo que de nada valeria activar todo o cérebro – seria como trazer um barco para atravessar o deserto, um desperdício e perfeitamente inútil para realizar o objectivo em causa) ou noções dúbias e pouco fundamentadas de teorias dos sonhos e do próprio subconsciente, o filme está muito bem conseguido - convém não esquecer que se trata de uma ficção e de uma realidade alternativa. Com certeza não é por acaso que mesmo estando ainda nas salas de cinema é já votado pelos cinespectadores como um dos melhores de sempre.
 Diria também que as personagens estão bem conseguidas, bem desenvolvidas e bem interpretadas. Christopher Nolan, tal como em ‘Batman – o cavaleiro negro’, conseguiu trazer para o cinema de ficção fantasioso e de acção um enredo intrincado e complexo tal como personagens sólidas e de algum modo profundas, tão profundas que as podermos analisar através dos seus próprios sonhos e noção muito própria e cinematográfica do seu subconsciente, ou não fossem esses os temas do filme – Os sonhos e o Subconsciente.
Algumas cenas, especialmente alguns diálogos que deveriam contribuir para a compreensão do enredo, acontecem a uma velocidade vertiginosa capaz de gerar alguma confusão – senti-me verdadeiramente confuso em alguns momentos. Mas isso, aliado às constantes referências simbólicas e pormenores que passam despercebidos à primeira vista podem ser mais-valias para o filme, pois quase que nos obrigam a que o vejamos novamente e que possamos novamente redefinir aquilo que assimilamos e compreendemos numa primeira vez – não duvido que numa segunda visualização possa redefinir melhor a minha opinião. São as múltiplas leituras que a obra nos permite - algo sempre interessante e capaz de fazer gerar a discussão e o debate em torno da sua análise - que envolvem este tipo de filmes com aquela aura de irreverência e originalidade que os torna únicos, pois cada cinespectador provavelmente terá a sua própria interpretação das imagens e sons que presenciou.
Inception tem tudo para ser um clássico mesmo antes de sair das salas de cinema.

Só uma questão para quem viu o filme: afinal de quantos sonhos trata o filme?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Como espirrar na sua língua e responder a um espirro em português?

Tendencialmente, quase que involuntariamente, somo levados a proferir uma das seguintes expressões quando alguém que nos é próximo espirra: “Saúde”; “Santinho”; “Viva”. Actualmente socorremo-nos destas expressões como regras de boa educação, apreço e consideração por quem espirra, sendo óbvio o desejo de melhoras e mais saúde - uma vez que ao espirro usualmente se associa uma qualquer maleita ou estado temporário anómalo de saúde, nem que seja uma insignificante e momentânea irritação.
Pirâmide de caveiras - Cézanne
No entanto, menos óbvia é a expressão “Santinho”. Fazendo uma rápida investigação pela Internet e por alguma bibliografia generalista podemos facilmente chegar a duas possíveis explicações – apesar de não serem conclusivas nem de as fontes disponíveis completamente seguras e fiáveis -, uma que passa por preocupações mitológicas/religiosas e outra ligada a questões físicas e de saúde - ambas com origem na Idade Média. “Diz-se” que na Idade Média existia a crença de que  - provavelmente pela violência e potência que alguns espirros atingem - o coração poderia parar e a alma sair por momentos do corpo, o que obrigava, em jeito de precaução, o cristão mais próximo a abençoar de imediato o enfermo de modo a evitar a entrada nele de maus espíritos, garantindo que a sua alma voltava ao corpo para lá ficar de novo “limpa” de quaisquer influências demoníacas. Menos espectacular e cativante, mas muito mais credível é a outra explicação, que apresentarei de seguida - aquela com base na saúde física e não tanto na espiritual. Naquele tempo [Idade Média], devido aos parcos conhecimentos médicos mas conscientes da associação do espirro à doença, as pessoas tratavam de abençoar de imediato o “espirrante”, garantindo assim as “boas sortes” para que aquele espirro não fosse o resultado de uma enfermidade incurável, tal como a peste negra, o que na altura seria morte certa. Há falta de meios para evitar a doença, diagnostica-la correctamente e prescrever uma verdadeira cura, compreende-se perfeitamente esta e outras práticas, muitas delas apenas com efeitos psicológicos mas que, numa altura de desespero, seriam formas essenciais para manter a esperança e lidar com a doença.

Igualmente curiosa é a onomatopeia (processo de formação de uma palavra por imitação de um som natural [1]) do próprio espirro, sendo que pode mudar significativamente de país para país, mesmo em países com raízes linguísticas semelhantes. Aqui ficam alguns exemplos [2]:
  • Em Árabe é "عطسة"
  • Em Alemão é "hatschi"
  • Em Búlgaro é "апчих"
  • Em Cantonês é "hut-chi" (乞嚏)
  • Em Chinês é "penti" (喷嚏)
  • Em Dinamarquês é "atjuu"
  • Em Esloveno é "kihanje".
  • Em Espanhol é "atchís" e "atchús"
  • Em Francês é "atchoum"
  • Em Hebreu é "apchee"
  • Em Hindi é "chheenk".
  • Em Indonésio é "'hatchi'"
  • Em Inglês é “Atchoo”
  • Em Islandês é "Atsjú"
  • Em Japonês é "hakushon" ou "kushami". Escrito como はくしょん ou 嚏(くしゃみ).
  • Em Letão é "apčī",
  • Em Marata é "shheenka".
  • Em Neerlandês é "hatsjoe" e "hatsjie"
  • Em Norueguês é "atsjo"
  • Em Polaco é "apsik"
  • Em Romeno é "hapciu"
  • Em Tagalo é "hatsing"
  • Em Tailandês é "Hutchew ou Hutchei" (ฮัดชิ่ว or ฮัดเช่ย)
  • Em Tâmil é "Thummal".
  • Em Telugu é "Thummu".
  • Em Turco é "hapşuu"
[1] - http://www.infopedia.pt/pesquisa.jsp?qsFiltro=0&qsExpr=onomatopeia
[2] - http://pt.wikipedia.org/wiki/Espirro

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Três monoteísmos: três ou mais movimentos dissidentes

Por mais estranho que possa parecer, ou até bem evidente mas pouco abordado, os três principais monoteísmos – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – surgiram de movimentos dissidentes religiosos que, a uma determinada altura história, romperam com as tradições do passado: criando as suas próprias práticas, organização,cultos, dogmas, e etc Nem sempre estes movimentos, liderados usualmente por visionários postumamente apelidados de profetas, surgiram de planos para a cisão, muitos queriam penas reformular as religiões existentes mas que acabaram pro criar novas formas de culto. Então vejamos aqui alguns  exemplos para cada um dos monoteísmos:
Premonição - Dalí

  • JudaísmoAbraão que vivia em Ur (importante metrópole da Mesopotâmia) abandonou a cidade (segundo o livro dos Jubileus - considerado um manuscrito apócrifo - Abraão terá na sua juventude adorado ídolos e vários Deuses até que aos 14 anos se tornou definitivamente monoteísta) a mando de Deus e estabelecendo-se, com os seus pertences, família e serviçais, na terra de Canaã – a terra prometida. Criando assim um novo modo de viver a religião, uma nova cultura e “povo”.
  • CristianismoJesus (que era Judeu), segundo os relatos do Novo Testamento, rompe com algumas das tradições e práticas judaicas. Introduz o conceito de perdão e a universalização do monoteísmo de origem judaica, tornando possível, independentemente da etnia ou ascendência familiar, a qualquer pessoa seguir os seus ensinamentos de inspiração judaica mas que pelas novas abordagem e valores originariam uma nova religião. O facto de Jesus se ter intitulado ou de o terem intitulado de ‘Messias’, aquele que as tradições judaicas profetizavam como o último profeta e salvador, e de tal nunca ter sido aceite pela autoridades Judaicas também contribuiu para a divisão religiosa.
  • Islamismo - Maomé rompeu com as tradições politeístas árabes tradicionais que se centravam na cidade de Meca. Para além de renegar o politeísmo optou também por não alinhar pelo cristianismo, considerando-o pervertido e um desvio perante a verdadeira vontade de Deus e até dos ensinamentos originais de Jesus – considerado pelos islamitas um importante profeta mas não como sendo filho de Deus ou o derradeiro profeta.
Apesar do ‘Protestantismo’ ser um dos vários Cristianismo, esse movimento de inicio foi intitulado de “Reforma”, sendo que os seus líderes do movimento a principio não pretendiam a separação da Igreja Católica Romana mas simplesmente reformar aquilo que nela condenavam. Só mais tarde o termo protestantismo foi adoptado. Este é apenas mais um exemplo de um movimento que até se chamava de “reforma” mas que acabou por ser de separação.
Tal como nos exemplos anteriores o que hoje é tradição e sagrado para algumas das mais importantes religiões resultou uma inovação do passado, muitas vezes novidades revolucionárias para a época. Será condição normal das religiões romperem com os preceitos daquelas [religiões] que lhes antecedem e criarem a sua própria ordem e costumes – que se convertem em tradição e cultura – para delas, no futuro, resultarem movimentos de ruptura revolucionários que as diminuem, enfraquecem e até criam novos paradigmas religiosos e culturais?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

'Quando Nietzsche Chorou', mais que um romance

Depois de passado um ano ou mais sem ler um romance ou qualquer outra obra do género ficcional, aproveitei o sol, o mar e o ambiente veraneante mais dado aos pensamentos emocionais para ler algo não documental. Aproveitando também o facto de me ter sido oferecida uma obra sui generis intitulada de ‘Quando     Nietzsche chorou’ – literatura ficcional fruto da escrita de um professor universitário da Universidade de Stanford da área da psiquiatria médica com especial gosto por filosofia – pareceu-me mais que adequado optar por essa obra para as “férias literárias”. Nesse livro, escrito pelo professor Irvin D. Yalom, são reunidas na Viena do final do século XIX, através de um enredo ao jeito do género literário do romance, várias personagens históricas (Breuer, Nietzsche, Freud, etc.). São estas personagens e os seus diálogos, enriquecidos e que ganham profundidade emocional e intelectual devido aos conhecimentos técnicos e académicos do autor, que fazem com que esta obra de ficção se demarque e quase se aproxime do ensaio psicológico/filosófico.
 As duas personagens principais – Breuer e Nietzsche – vão criando, e aprofundado entre si, uma relação de cumplicidade e partilha intelectual: grande parte da obra é dedicada aos diálogos entre Breuer e Nietzsche e à descrição das meditações e pensamentos individuais de ambos, sem esquecer também os importantes contributos de outras personagens secundárias como é o caso de Sigund Freud. Yalom consegue juntar numa ficção Breuer e Nietzsche (que na verdade nunca se conheceram), conciliando assim as duas áreas do saber que os distinguiram através de uma simbiose capaz de cativar um público generalista e não especialistas em psicologia e filosofia. Esta natural relação entre estas duas áreas do saber é facilitada pela abordagem comum à condição humana e a leitura torna-se fácil pela introdução de dilemas pessoais e sociais que nos podem ser tão próximos.
Destaco também neste original livro as notas finais do autor por permitirem esclarecer o que é ficção e o que não é. São identificadas as referências e os dados históricos reais e os que foram criados especificamente para dar forma e coerência ao romance. Esta feliz e pertinente opção do autor vem de encontro ao que tenho vindo a defender: a necessidade de, numa obra de ficção, informar os leitores ou espectadores do que é documental e do que foi premeditadamente criado ou readaptado como fruto do processo criativo em causa. 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Gomorra - um exemplo de cinema anti-mitológico/heróico

Todos sabemos do poder do Cinema, da sua capacidade enquanto Arte para criar mitos e fazer elevar personalidades e instituições a um nível de quase adoração e idolatração. Ao longo dos seus mais de 100 anos de História, cinema moldou e formou no imaginário colectivo ideias nem sempre exactas e fidedignas de algumas personalidades e eventos. Algumas dessas e deles são efectivamente negativos e perniciosos mas a sétima arte tem conseguido, implícita ou explicitamente, revesti-los de um manto de glamour e beleza, capazes de despertar a simpatia e aprovação do público. Actos como a pirataria dos séculos XVII e XVIII despertam o nosso imaginário e fazem sonhar aqueles que simpatizam com o espírito aventureiro. Instituições como a Máfia cativam aqueles que de algum modo se sentem oprimidos com as regras e leis. Até grupos de criminosos, munidos de conhecimentos técnicos e ambiciosos planos de furto, assumem no Cinema contemporâneo o papel de Heróis
Tadeusz de Lempicka - Tamara de Lempicka
 Não digo que estas opções cinematográficas ficcionais sejam completamente negativas, pois advêm de um processo criativo e que não deve ser limitado. Mas ao mesmo tempo, quer se queria quer não, são valores e ideais que se vão transmitindo, podendo ser pérfidos se não devidamente analisados e explanados a quem assiste a este tipo de cinema sem o questionar de um ponto de vista ético. Isto poderia ser resolvido com pequenas notas no inicio ou fim do filme, uma pequena sugestão que aqui arrisco, por mais estapafúrdica que possa ser.
Mas esta minha generalização cinematográfica felizmente falha e tem as suas excepções se referirmos e tivermos em atenção algumas obras específicas. Por exemplo, o filme ‘Gomorra’ permite uma visão nada romântica da Máfia Napolitana. Se de algum modo poderíamos sentir simpatia pelo espírito rebelde e glamoroso das personagens cheias de estilo dos filmes da máfia “hollywoodesca”, sendo a série de filmes ‘O Padrinho’ um bom exemplo disso, em ‘Gomorra’ isso já não transparece, muito pelo contrário, ai os mafiosos são descritos como comuns criminosos, vivendo em ambientes nada simpáticos e completamente disfuncionais. Em 'Gomorra' os ambientes roçam o “real” e a violência crua. A acção não está organizada para que o enredo se desenvolva num fim apoteótico e perceptível. 
Não sei se realmente o ambiente “mafioso” é assim, mas pelo menos  esta versão de 'Gomorra' é muito mais credível. Até porque o filme se inspira num livro escrito por Roberto Saviano – um jornalista Italiano que criou a obra inspirado pelas investigações que fez sobre as pretensas actividades mafiosas da Camorra Napolitana.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quando a homossexualidade era vista como uma vantagem militar

Actualmente os homossexuais assumidos ainda não têm completa aceitação social, sendo isso ainda mais marcado nas Forças Armadas. Mas os valores de hoje nem sempre foram os do passado. Da antiguidade clássica, vem um caso que comprova isto mesmo. A conhecida e poderosa Cidade-Estado Grega de Tebas tinha uma força de elite no seu exercito muito peculiar. Em 378 a.C. Gógidas criou o ‘Batalhão Sagrado’ Tebano, uma força de elite composta por 500 soldados organizados em pares por idade. Mas que tinha esta força de diferente? Bem, esses pares eram amantes. É lendária a capacidade, coragem e eficiência militar deste batalhão, sendo a homossexualidade dos seus integrantes algo que assumia nisso extrema importância. 
Leónidas nas Termópilas - Jacques-Louis David
 Defendia-se na altura a ideia de que dois soldados com relacionamento amoroso e afectivo poderiam combater com maior proximidade e confiança, e que tudo fariam par zelar pela segurança do seu par, dando a própria vida se necessário. O grupo pela sua proximidade e cumplicidade afectiva trabalharia mais facilmente em uníssono e como um bloco bem organizado. Sabemos da existência deste batalhão pela pena do historiador Plutarco (reputado historiador Grego que viveu entre 46 d.C. e 126 d.C.), pois em 335 a.C. Tebas foi arrasada pelo Macedónios e os sobreviventes vendidos como escravos, tendo se perdido a tradição e organização militar que deu origem a esse singular batalhão.
Há quem atribua a ideia e a inspiração da criação de tal batalhão à influência intelectual e filosófica da obra ‘O Simpósio’ de Platão.
Já que referi um caso concreto do modo diferente como era vista a homossexualidade na antiguidade, parece-me ser importante referir diferenças marcantes no modo como ela era abordada pelos Gregos. Segundo Kenneth Dover e David Halperin as sociedades Gregas antigas viam a sexualidade como uma forma de demonstrar poder e estatuto social, independentemente do género, ou orientação sexual como hoje lhes chamamos. Kenneth e Haperin defendem que o princípio e a distinção se dava pelos papéis desempenhados na relação e no acto sexual propriamente dito (independentemente do sexo): "activo" ou "passivo". Sendo socialmente aceitável a um cidadão grego ‘penetrar’ desde que esse alguém lhe fosse inferior na hierarquia social. Seria aceitável ser o elemento “activo” com alguém mais jovem, com uma mulher ou um escravo, independentemente do género, mas nunca ser o elemento “passivo” da relação sexual perante os seus inferiores aos olhos da sociedade Grega (os jovens, as mulheres e os escravos eram vistos na sociedade Grega como inferiores quando comparados com um cidadão mais velho, homem ou não escravo).

Como vemos, desde a Grécia antiga para cá os valores e a organização social e direitos individuais mudaram, retrocedendo nuns aspectos e avançando noutros.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Lenine foi Marxista (até ao fim)?

Engels (companheiro ideológico de Marx e co-autor do Manifesto do Partido Comunista) dizia, anos depois da morte do seu camarada que Marx não era Marxista. Não sei a verdadeira acepção desta afirmação, nem sequer se é mesmo verdadeira, mas arrisco-me a avançar com uma explicação – pura especulação é claro -: muito provavelmente Engels reprovava o caminho pelo qual estavam a enveredar os “marxistas” de então.

Bem, mas pretendia falar de Lenine e não de Marx, pois Lenine, para além de teórico e pensador político, foi também líder e Chefe de Estado, tendo tido a oportunidade pouco comum de passar dos ideais aos actos. Segundo alguns estudos: “Lenine foi-se afastando do Marxismo ideológico e utópico ao longo dos anos que foi governando o Estado Soviético”. Estas afirmações constam do primeiro episódio da série de documentários: “Comunismo – História de uma Ilusão”, da autoria de Peter Glotz e Christien Weisenborn. O que se escreve de seguida baseia-se nesse documentário
Vencer os brancos com a força vermelha - El Lissitzky

Após a Revolução Russa de 8 de Março de 1917 (segundo o calendário gregoriano) que ditou a queda do regime monárquico Czarista (monarquia russa – Czar deriva de César, numa relação directa com os imperadores romanos que adoptavam o nome em honra a Júlio César), muitos foragidos do regime e exilados voltam à Rússia - Lenine era um deles. De imediato, assim que volta à Rússia, Lenine envolve-se nas lutas políticas pelo domínio do país, aproveitando o momento de instabilidade política e vazio de poder. Através das suas capacidades intelectuais, das suas experiências e activismo político durante o combate ao Czarismo, da fama que granjeou durante o período de exílio na Europa Ocidental, do seu carisma e da sua impecável oratória, Lenine assume um papel de destaque no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). 
Lenine a proclamar o poder Soviético - Valentin Serov

Numa das votações internas do partido Lenine apresenta propostas que tendiam para a opção revolucionária, para o socialismo radical de inspiração marxista, mais militante e fechado que defendia a ditadura do proletariado em detrimento da democracia parlamentarista. Nesse dia as suas propostas e ideias foram votadas e aceites por uma maioria mínima do POSDR a quem chamou de Bolcheviques (significa literalmente maioritários em Russo), tendo apelidado os restantes militantes que dele discordavam de Mencheviques (minoritários).

O trabalho é essencial, 
a espingarda está perto - Vladimir Lebedev
Aproveitando a instabilidade política e o facto de se ter assumido como o líder dos Bolcheviques, que ganhavam cada vez mais poder neste período conturbado e do sucesso da revolução vbolchevique de Outubro de 1917, Lenine intervém directamente nos assuntos de Estado e políticos da Rússia. Participa nos acordos com os Alemães que, apesar de extremamente lesivos, permitiram à Rússia sair da 1ª Guerra Mundial. Mas é só depois de uma Guerra Civil, entre os Bolcheviques/Sovietes (apoiantes de Lenine) e um conjunto de opositores que defendiam o antigo regime ou a via democrática, que Lenine consegue consolidar o seu poder e evitar o retorno ao antigo regime ou uma nova opção com base no parlamentarismo democrático. Ao derrotar os seus opositores Lenine, Bolcheviques e Sovietes (Concelhos de Operários, Soldados, Agricultores e outros organizados segundo o modelo comunista) garantem a implementação do primeiro Estado Comunista, que tendencialmente caminhou para o Totalitarismo.

De modo a fortalecer o seu poder Lenine defendeu o policiamento e o Estado repressivo para combater aquilo que definia como “Irracionalidade das Massas”, demonstrando a aversão aos ideais democráticos. Actividade esta que Estaline continuaria e aperfeiçoaria a uma escala industrial nas décadas vindouras, tendo condenado milhões de Russos à prisão, trabalhos forçados e à morte.



Defender a URSS - Valentina Kulagina
Passado todo esse período conturbado e muitas outras crises internas, em 1921 Lenine viu-se forçado a alterar e a reformular o sistema político, económico e social da Rússia Soviética Comunista. Depois de anos de fome, de decadência económica, de clara diminuição das condições de vida das populações e do enfraquecimento da nação, Lenine colocou de lado muitos dos princípios socialistas e marxistas. Implementou e fortaleceu um sistema que promoveu e defendeu a propriedade privada e o mercado livre - Trotsky e Estaline mostram-se descontentes por esta nova reorientação. Chegam a ser convidados Burgueses Europeus para dar novo impulso à economia da Rússia de então. Volta a circular dinheiro. Com isto, num curto espaço de tempo, as condições de vida no País melhoram visivelmente. Mas em 1922 a doença toma Lenine, obrigando-o a retirar-se do poder e da política. Morre em 1924. A Este período ficou conhecido de "Nova Política Económica".

Posto isto então: Será que Lenine nos seus últimos anos de vida, depois de ter sentido as dificuldades da governação, não terá questionado os seus próprios ideais? Será que Lenine se manteve no fim verdadeiramente Marxista?

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